29 julho 2026

A justiça de Deus não se curva ao “igualitarismo ideológico” (comunismo)


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Poucas ideias exercem tanto deslumbramento sobre o pensamento contemporâneo quanto a promessa de uma igualdade absoluta entre os homens. Transformada em palavra de ordem por diversas correntes ideológicas, ela seduz pelo apelo emocional, mas fracassa diante da realidade e, sobretudo, diante das leis morais que regem a vida. A Doutrina Espírita não endossa esse igualitarismo. Ao contrário, ensina que a justiça divina opera segundo a equidade, jamais segundo um nivelamento artificial das criaturas.

Confundir igualdade com justiça é um erro filosófico de assombrosas dimensões. Deus não distribui destinos por sorteio, nem recompensa o mérito e a negligência com a mesma medida. A Providência Divina não ignora o esforço individual, tampouco transforma responsabilidade em privilégio. Sua justiça é perfeita justamente porque considera a história espiritual de cada ser, suas escolhas, seus valores e suas obras.

Jesus sintetizou esse princípio ao afirmar que o Filho do Homem "retribuirá a cada um segundo as suas obras" (Mateus 16:27). Não disse segundo seus discursos, suas reivindicações ou suas pretensões, mas segundo suas obras. O apóstolo Paulo reforça a mesma lei: "Tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (Gálatas 6:7). É a Lei de Causa e Efeito, fundamento da responsabilidade moral e incompatível com qualquer pretensão de igualar consequências para condutas desiguais.

Allan Kardec demonstra que Deus concede a todos os Espíritos as mesmas possibilidades de aperfeiçoamento, mas jamais os mesmos resultados. O progresso é conquista, não concessão. Ninguém recebe evolução por decreto, virtude por herança ou felicidade por privilégio. Cada Espírito constrói o próprio destino pelo uso que faz do livre-arbítrio. As diferenças de inteligência, de caráter, de provas e de oportunidades não exprimem favoritismo divino; refletem diferentes estágios da caminhada evolutiva.

É precisamente nesse ponto que o igualitarismo ideológico colide com a visão espírita da existência. Quando se pretende apagar todas as diferenças em nome de uma igualdade abstrata, corre-se o risco de ignorar a responsabilidade individual, desvalorizar o mérito e obscurecer a justiça moral. A Doutrina Espírita não ensina que todos são iguais em evolução; ensina que todos são iguais em dignidade, em origem espiritual e em destino final, mas cada qual responde pelas próprias escolhas e avança conforme o próprio esforço.

A Previdência Divina não administra um universo de privilégios nem de nivelamentos artificiais. Administra um universo de justiça. Cada Espírito recebe oportunidades compatíveis com suas necessidades educativas. Cada prova possui finalidade corretiva. Cada conquista representa fruto do trabalho perseverante. Não há favorecidos; há trabalhadores mais ou menos diligentes na construção de si mesmos.

Essa compreensão desmonta tanto a inveja social quanto o orgulho. Ninguém deve vangloriar-se pelas próprias conquistas, porque elas são resultado de longas experiências reencarnatórias. Tampouco alguém pode revoltar-se diante das dificuldades, porque elas constituem instrumentos de crescimento. A justiça divina não pune por capricho nem recompensa por favoritismo. Educa, corrige e promove.

O Espiritismo proclama uma verdade frequentemente esquecida por uma cultura que prefere direitos sem deveres e recompensas sem esforço: perante Deus, ninguém recebe menos do que merece, mas ninguém recebe mais do que conquistou. A lei que governa o Universo não é a da igualdade artificial proclamada pelos homens. É a da equidade perfeita, na qual cada consciência colhe, inexoravelmente, aquilo que semeou.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus. Mateus 16:27; Gálatas 6:7.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, especialmente questões 171, 258, 804 e 805.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, cap. V, "Bem-aventurados os aflitos", e cap. XVII, "Sede perfeitos".