Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Poucas
ideias exercem tanto deslumbramento sobre o pensamento contemporâneo quanto a promessa
de uma igualdade absoluta entre os homens. Transformada em palavra de ordem
por diversas correntes ideológicas, ela seduz pelo apelo emocional, mas
fracassa diante da realidade e, sobretudo, diante das leis morais que regem
a vida. A Doutrina Espírita não endossa esse igualitarismo. Ao
contrário, ensina que a justiça divina opera segundo a equidade, jamais
segundo um nivelamento artificial das criaturas.
Confundir
igualdade com justiça é um erro filosófico de assombrosas dimensões. Deus não
distribui destinos por sorteio, nem recompensa o mérito e a negligência com a
mesma medida. A Providência Divina não ignora o esforço individual, tampouco
transforma responsabilidade em privilégio. Sua justiça é perfeita justamente
porque considera a história espiritual de cada ser, suas escolhas, seus valores
e suas obras.
Jesus
sintetizou esse princípio ao afirmar que o Filho do Homem "retribuirá a
cada um segundo as suas obras" (Mateus 16:27). Não disse segundo seus
discursos, suas reivindicações ou suas pretensões, mas segundo suas obras. O
apóstolo Paulo reforça a mesma lei: "Tudo o que o homem semear, isso
também ceifará" (Gálatas 6:7). É a Lei de Causa e Efeito, fundamento
da responsabilidade moral e incompatível com qualquer pretensão de igualar
consequências para condutas desiguais.
Allan
Kardec demonstra que Deus concede a todos os Espíritos as mesmas possibilidades
de aperfeiçoamento, mas jamais os mesmos resultados. O progresso é conquista,
não concessão. Ninguém recebe evolução por decreto, virtude por herança ou
felicidade por privilégio. Cada Espírito constrói o próprio destino pelo
uso que faz do livre-arbítrio. As diferenças de inteligência, de caráter, de
provas e de oportunidades não exprimem favoritismo divino; refletem diferentes
estágios da caminhada evolutiva.
É
precisamente nesse ponto que o igualitarismo ideológico colide com a visão
espírita da existência.
Quando se pretende apagar todas as diferenças em nome de uma igualdade
abstrata, corre-se o risco de ignorar a responsabilidade individual,
desvalorizar o mérito e obscurecer a justiça moral. A Doutrina Espírita não
ensina que todos são iguais em evolução; ensina que todos são iguais em
dignidade, em origem espiritual e em destino final, mas cada qual responde
pelas próprias escolhas e avança conforme o próprio esforço.
A
Previdência Divina não administra um universo de privilégios nem de nivelamentos
artificiais. Administra um universo de justiça. Cada Espírito recebe
oportunidades compatíveis com suas necessidades educativas. Cada prova possui
finalidade corretiva. Cada conquista representa fruto do trabalho perseverante.
Não há favorecidos; há trabalhadores mais ou menos diligentes na construção de
si mesmos.
Essa
compreensão desmonta tanto a inveja social quanto o orgulho. Ninguém deve
vangloriar-se pelas próprias conquistas, porque elas são resultado de longas
experiências reencarnatórias. Tampouco alguém pode revoltar-se diante das
dificuldades, porque elas constituem instrumentos de crescimento. A justiça
divina não pune por capricho nem recompensa por favoritismo. Educa, corrige e
promove.
O
Espiritismo proclama uma verdade frequentemente esquecida por uma cultura
que prefere direitos sem deveres e recompensas sem esforço: perante Deus, ninguém
recebe menos do que merece, mas ninguém recebe mais do que conquistou. A
lei que governa o Universo não é a da igualdade artificial proclamada pelos
homens. É a da equidade perfeita, na qual cada consciência colhe,
inexoravelmente, aquilo que semeou.
Referências
Bibliográficas:
BÍBLIA.
Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus. Mateus 16:27; Gálatas 6:7.
KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB,
especialmente questões 171, 258, 804 e 805.
KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro.
Brasília: FEB, cap. V, "Bem-aventurados os aflitos", e cap. XVII,
"Sede perfeitos".
