03 setembro 2026

Quando um palestrante “global” sobe à tribuna espírita e a ideologia desce na cloaca


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Imagine um auditório espírita reunido para ouvir uma palestra. Pessoas chegam em busca de reflexão, consolo, conhecimento e, sobretudo, de uma palavra capaz de aproximá-las dos ensinamentos de Jesus e da Doutrina Espírita. De repente, um orador convidado célebre e “global” assume o microfone e regurgita, em alto e bom som:

“ANISTIA NÃO! ANISTIA NÃO!”

O ambiente muda. A palestra deixa de ser espaço de reflexão e passa a carregar a atmosfera de uma disputa política. Pessoas começam a se retirar. É preciso perguntar, sem medo e sem partidarismo: o que uma palavra de ordem política faz dentro de uma atividade espírita?

A crítica aqui não é à opinião política de ninguém. Todo cidadão tem direito de defender ou rejeitar a anistia, dentro dos limites democráticos. O problema está em transformar uma tribuna espírita em palanque político, especialmente quando o espaço foi oferecido para exposição da Doutrina.

O Evangelho também não oferece respaldo para essa postura. Jesus não ensinou seus discípulos a organizar torcidas. Não recomendou a fabricação de inimigos políticos. Ensinou o amor ao próximo, inclusive ao que pensa de maneira diferente.

Por isso, o problema não é ser progressista, conservador, liberal, socialista, de direita ou de esquerda. O problema começa quando qualquer dessas identidades pretende ocupar o lugar da Doutrina Espírita dentro da Casa Espírita.

A instituição espírita não deveria reproduzir a mesma guerra de narrativas que domina as redes sociais, os parlamentos e os palanques. O ambiente espírita não é comitê eleitoral e palestra espírita não é comício e a tribuna doutrinária não é palanque de politiqueiros.

Quem recebe a responsabilidade de falar em nome do Espiritismo deveria compreender que um microfone representa responsabilidade, não licença para provocar polarizações.

Pode-se defender a anistia. Pode-se rejeitá-la. Pode-se discutir suas implicações jurídicas, políticas e sociais. Mas essa discussão precisa encontrar o espaço apropriado.

Quando uma reunião espírita é utilizada para proclamar palavras de ordem, cria-se uma divisão absolutamente desnecessária entre pessoas que poderiam estar unidas pelo estudo do Evangelho e da Doutrina.

E há uma consequência ainda mais grave: o cidadão que pensa diferentemente pode sentir que aquele espaço deixou de ser dele. Isso é exatamente o contrário da fraternidade.

O movimento espírita brasileiro não precisa importar para seus centros a lógica do “nós contra eles”. Precisa recuperar a serenidade,  estudar Kardec, compreender Jesus e respeitar a consciência alheia.

E precisa, sobretudo, lembrar que a força do Espiritismo não está na capacidade de levantar multidões contra alguém, mas na capacidade de transformar seres humanos para melhor.

Se uma tribuna espírita provoca mais divisão política do que reflexão espiritual, talvez seja hora de perguntar, com absoluta serenidade: estamos realmente divulgando o Espiritismo — ou apenas utilizando o Espiritismo para divulgar nossas próprias convicções políticas?

Essa pergunta não é perseguição. É legítima preocupação doutrinária. E talvez seja uma das perguntas mais urgentes que o movimento espírita precise enfrentar.