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  • 23.2.26

    Centros espiritas “lotados” não são sinônimo de êxito doutrinário

     


     

    Jorge Hessen

    Brasilia-DF

     

    Há uma distorção preocupante infiltrada no movimento espírita contemporâneo que é  a idolatria dos números. Para confrades imaturos , centro espírita “forte” é centro “lotado”. Auditório cheio virou critério de sucesso doutrinário. Fotos com plateia numerosa tornaram-se troféus silenciosos. E, pouco a pouco, a lógica do mercado foi sendo importada para dentro da casa que deveria ser templo de renovação moral.

    Essa mentalidade não é espírita. É vazia e mundana.

    Recordemos que após a pandemia, diversas instituições perceberam redução na frequência presencial. Alguns interpretaram isso como “decadência”. Outros, como sinal de “fraqueza administrativa”. Poucos se perguntaram se, na verdade, o momento não estaria convidando a um retorno à essência.

    Allan Kardec jamais ensinou que quantidade é critério de verdade. A literatura kardeciana adverte que reuniões numerosas, movidas por curiosidade ou entusiasmo superficial, tendem à dispersão e à insegurança, enquanto pequenos grupos sérios produzem resultados sólidos e moralmente consistentes.

    O Evangelho desmonta definitivamente o fetiche da multidão. Jesus Cristo não condicionou Sua presença a auditórios lotados. Declarou: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estarei”. A força espiritual nasce da sintonia, não da estatística.

    Mas a cultura da visibilidade contaminou o ambiente espírita. Palestrantes transformados em celebridades. Seguidores confundidos com evolução moral. Convites disputados como selos de prestígio. Métricas digitais servindo como suposto termômetro de autoridade espiritual.

    Isso não é crescimento. É vaidade institucionalizada.

    O centro espírita não foi concebido para competir por público, disputar relevância ou produzir notoriedade. Foi estruturado como escola de almas, hospital de consciências, oficina de aprimoramento íntimo.

    Chico Xavier nunca precisou de estratégias de engajamento para cumprir sua tarefa. Muitas vezes Léon Denis lembrava que o progresso humano é obra silenciosa da consciência que se eleva, não da massa que aplaude.

    Quando a preocupação principal passa a ser “quantos vieram?”, algo essencial já se perdeu. A pergunta correta deveria ser: “Quantos saíram moralmente melhores?

    Uma casa espírita não se mede por cadeiras ocupadas, mas por consciências despertadas.

    Não se avalia pelo volume do público, mas pela profundidade do estudo.

    Não se legitima por seguidores, mas por fidelidade doutrinária.

    Se preserva o estudo sério, a caridade desinteressada, o equilíbrio moral e a simplicidade evangélica, ela está viva — ainda que com poucos.

    Talvez o esvaziamento físico seja convite à depuração espiritual. Talvez estejamos sendo chamados a abandonar a ilusão da vitrine e retornar à essência do trabalho silencioso.

    Porque, no fundo, o perigo não é o salão vazio.

    É o ego cheio.

    A Doutrina Espírita não foi revelada para formar plateias impressionadas, mas para formar caracteres transformados.

    Quem ainda mede êxito espiritual por estatística precisa urgentemente revisar seus conhecimentos doutrinários.