Jorge Hessen
Brasilia-DF
Há uma distorção
preocupante infiltrada no movimento espírita contemporâneo que é a idolatria dos números. Para confrades
imaturos , centro espírita “forte” é centro “lotado”. Auditório cheio virou
critério de sucesso doutrinário. Fotos com plateia numerosa tornaram-se troféus
silenciosos. E, pouco a pouco, a lógica do mercado foi sendo importada para
dentro da casa que deveria ser templo de renovação moral.
Essa mentalidade não é
espírita. É vazia e mundana.
Recordemos que após a
pandemia, diversas instituições perceberam redução na frequência presencial.
Alguns interpretaram isso como “decadência”. Outros, como sinal de “fraqueza
administrativa”. Poucos se perguntaram se, na verdade, o momento não
estaria convidando a um retorno à essência.
Allan Kardec jamais
ensinou que quantidade é critério de verdade. A literatura kardeciana
adverte que reuniões numerosas, movidas por curiosidade ou entusiasmo
superficial, tendem à dispersão e à insegurança, enquanto pequenos grupos
sérios produzem resultados sólidos e moralmente consistentes.
O Evangelho desmonta
definitivamente o fetiche da multidão. Jesus Cristo não condicionou Sua
presença a auditórios lotados. Declarou: “Onde dois ou três estiverem reunidos
em meu nome, aí estarei”. A força espiritual nasce da sintonia, não da
estatística.
Mas a cultura da
visibilidade contaminou o ambiente espírita. Palestrantes transformados em
celebridades. Seguidores confundidos com evolução moral. Convites disputados
como selos de prestígio. Métricas digitais servindo como suposto termômetro de
autoridade espiritual.
Isso não é crescimento. É
vaidade institucionalizada.
O centro espírita não foi
concebido para competir por público, disputar relevância ou produzir
notoriedade. Foi estruturado como escola de almas, hospital de consciências,
oficina de aprimoramento íntimo.
Chico Xavier nunca
precisou de estratégias de engajamento para cumprir sua tarefa. Muitas vezes Léon
Denis lembrava que o progresso humano é obra silenciosa da consciência que se
eleva, não da massa que aplaude.
Quando a preocupação
principal passa a ser “quantos vieram?”, algo essencial já se perdeu.
A pergunta correta deveria ser: “Quantos saíram moralmente melhores?”
Uma casa espírita não se
mede por cadeiras ocupadas, mas por consciências despertadas.
Não se avalia pelo volume
do público, mas pela profundidade do estudo.
Não se legitima por
seguidores, mas por fidelidade doutrinária.
Se preserva o estudo
sério, a caridade desinteressada, o equilíbrio moral e a simplicidade
evangélica, ela está viva — ainda que com poucos.
Talvez o esvaziamento
físico seja convite à depuração espiritual. Talvez estejamos sendo chamados a
abandonar a ilusão da vitrine e retornar à essência do trabalho silencioso.
Porque, no fundo, o
perigo não é o salão vazio.
É o ego cheio.
A Doutrina Espírita não
foi revelada para formar plateias impressionadas, mas para formar caracteres
transformados.
Quem ainda mede êxito
espiritual por estatística precisa urgentemente revisar seus conhecimentos
doutrinários.
