Jorge Hessen
Brasília -DF
Sem preconceitos, sem rótulos e sem sincretismos: os desencarnados são individualidades espirituais em permanente processo de evolução.
O Espiritismo, desde sua codificação, apresenta uma identidade filosófica, científica e moral própria, cujos princípios não devem ser confundidos com práticas ritualísticas de outras expressões religiosas. No Brasil, sua trajetória adquiriu características particulares, em contato com uma diversidade cultural e religiosa que merece respeito, mas não justifica a descaracterização dos fundamentos kardequianos.
Não aludimos a uma suposta superioridade do Espiritismo sobre outras religiões. Defendemos, sim, sua identidade doutrinária. A Umbanda e as demais tradições afro-brasileiras possuem histórias, fundamentos e práticas próprias. Respeitá-las significa, igualmente, não as confundir com a Doutrina Espírita.
A palavra espírita, criada por Kardec em 1857, identifica os adeptos do Espiritismo, e não indistintamente todos aqueles que trabalham com manifestações mediúnicas. A mediunidade, por sua vez, não é exclusiva do espiritismo. É uma faculdade humana, presente em diferentes culturas e tradições religiosas.
O problema surge quando instituições que se apresentam como espíritas incorporam procedimentos ritualísticos, objetos de culto, práticas mágicas, promessas, despachos, bebidas alcoólicas, fumo, vestimentas cerimoniais e outras práticas incompatíveis com a metodologia e os princípios da codificação. Não se trata de condenar outras religiões, mas de preservar a coerência do que professamos.
Entretanto, há uma questão ainda mais delicada: como devemos compreender e tratar os Espíritos que se comunicam conosco?
Precisamos abandonar preconceitos, atavismos e classificações que confundem a aparência espiritual com a condição evolutiva. Um Espírito não é superior ou inferior porque se apresenta com aparência de negro, branco, indígena, jovem, idoso, caboclo ou preto-velho. Essas denominações podem expressar referências culturais, experiências reencarnatórias ou formas de identificação adotadas em determinadas tradições, mas não constituem, por si mesmas, certificados de elevação ou inferioridade espiritual.
Para o Espiritismo, somos Espíritos imortais, temporariamente revestidos de corpos físicos, submetidos à lei do progresso. A cor da pele, a nacionalidade, o sexo, a posição social e a idade pertencem às experiências transitórias da existência corporal. Na dimensão espiritual, permanecemos individualidades em evolução, portadoras de conquistas, limitações e responsabilidades.
Kardec esclarece, em O Livro dos Espíritos, que a alma conserva sua individualidade depois da morte (questões 149 a 152). Portanto, não devemos transformar características de antigas encarnações em categorias espirituais permanentes.
Em O Livro dos Médiuns, especialmente nos capítulos XXIV e XXXI, encontramos orientações indispensáveis para o discernimento mediúnico. A qualidade dos Espíritos deve ser examinada pelo conteúdo de suas comunicações, pela linguagem, pelos sentimentos que inspiram e pela elevação moral demonstrada. Não é a aparência, o nome adotado, a maneira de falar ou a suposta procedência que determina sua superioridade espiritual (KARDEC, 2013).
Isso não significa desprezar manifestações simples, humildes ou culturalmente identificadas. Um Espírito pode conservar hábitos linguísticos e referências da última existência física. Todavia, simplicidade de linguagem não é sinônimo de inferioridade, assim como eloquência, títulos pomposos e manifestações espetaculares não comprovam superioridade.
O critério é moral e racional. Devemos analisar as ideias, os propósitos, a coerência, a bondade e a utilidade das orientações recebidas. A vigilância deve ser permanente, sem credulidade, mas também sem arrogância.
Jesus, nosso guia e modelo, ensinou-nos a caridade sem distinções. Não podemos invocar seu Evangelho para justificar rejeição, humilhação ou tratamento discriminatório aos Espíritos que procuram auxílio. Tampouco devemos acolher indiscriminadamente toda manifestação, supondo que qualquer entidade esteja habilitada a orientar os trabalhos mediúnicos.
Acolher não significa aceitar cegamente. Orientar não significa submeter-se. Esclarecer não significa humilhar. Os Espíritos em sofrimento necessitam de fraternidade, esclarecimento e amparo, enquanto os médiuns e dirigentes precisam de preparo e estudo doutrinário, equilíbrio emocional e vigilância moral.
A mediunidade não deve ser convertida em espetáculo, instrumento de poder ou mecanismo de satisfação de interesses materiais. As reuniões espíritas devem conservar simplicidade, seriedade, estudo e finalidade essencialmente educativa e fraterna.
Em O Livro dos Médiuns, Kardec recomenda o exame rigoroso das comunicações, advertindo-nos contra as mistificações e a influência dos Espíritos imperfeitos. Portanto, não devemos rejeitar uma entidade simplesmente porque ela se apresenta com uma identidade cultural diferente da nossa, nem conferir-lhe autoridade apenas porque utiliza uma denominação respeitada em determinada tradição.
Precisamos, sobretudo, evitar dois extremos: o sincretismo que dissolve a identidade espírita e o sectarismo que transforma a fidelidade doutrinária em intolerância religiosa.
O Espiritismo não pretende monopolizar a verdade nem desqualificar outras crenças. Seu compromisso é com o estudo, a fé raciocinada, a transformação moral e a prática desinteressada da caridade.
Preservar a identidade kardequiana não significa fechar as portas ao sofrimento humano ou espiritual. Significa saber acolher, discernir e orientar, sem abandonar os princípios que fundamentam nossa tarefa.
Afinal, diante da imortalidade, não existem Espíritos destinados a carregar eternamente os rótulos de suas antigas encarnações. Existem consciências em diferentes estágios de amadurecimento, todas submetidas à lei divina do progresso.
Sejamos, pois, rigorosos com os princípios, prudentes diante das manifestações mediúnicas e fraternos com todos os Espíritos. A fidelidade a Kardec não combina com preconceitos, assim como a caridade não combina com a ingenuidade.
Referências bibliográficas
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013. Questões 149-152, 625, 886 e 919.
KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013. Segunda parte, capítulos XXIV e XXXI.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013. Capítulos XI e XVII.
FERNANDES, Stéfani Martins; HENN, Leonardo Guedes. As voltas da religião: o desenvolvimento histórico da Umbanda. Religare, João Pessoa, v. 15, n. 2, 2018.







