Jorge Hessen
Brasília DF
Insisto no tema por observar “fazedores” de coisas para os vulneráveis econômicos sem esforço de mudança de caráter. Há quem transforme o ato de dar, de oferecer algo a quem tem menos, numa espécie de encosto interno — uma verdadeira muleta psicológica para se sustentar diante de si mesmo.
Para essas pessoas, a doação não nasce de um impulso genuíno de auxiliar, mas sim da necessidade de preencher vazios, aliviar culpas ou construir uma imagem proeminente de si mesmas.
E há uma razão profunda para isso: quem é amargo consigo mesmo, que carrega ressentimentos, insatisfação e dureza com a própria existência, não é capaz de viver um conforto íntimo e verdadeiro ao doar.
Por mais que entreguem bens transitórios, alimentos ou recursos, o gesto permanece frio, desprovido daquela ligação humana que torna o auxílio algo significativo. A amargura que habita dentro deles não deixa espaço para a generosidade sincera; a doação se torna apenas um ato mecânico, uma forma de tentar compensar o que lhes falta por dentro, sem nunca conseguir sentir a paz ou a satisfação que vem de um coração realmente disposto a compartilhar.
No fundo, a verdadeira solidariedade só floresce quando a pessoa está em paz consigo mesma. Quem não consegue ser gentil com o próprio ser também não consegue dar algo que tenha valor real ao próximo — pois o que se doa reflete sempre o que se tem dentro de si.
Há ainda um sinal bastante sutil: aqueles excessivamente vinculados à “fazeção de coisas” costumam revelar pouca tolerância diante das imperfeições alheias, exatamente o contrário da visão kardeciana de caridade, que exige indulgência e benevolência. Assim, o ativismo pode tanto servir de mecanismo de fuga quanto de valiosa escola evolutiva — tudo dependerá do grau de consciência e maturidade espiritual de quem realiza a ação.
Sempre digo que o ponto essencial não está simplesmente em “fazer” ou “deixar de fazer”, mas na intenção e na consciência com que se age no assistencialismo. Quando a ação produz humildade, ela se converte em instrumento de educação do espírito. Contudo, quando alimenta a prepotência , acaba apenas fortalecendo a sombra do ego.
Da mesma forma, evitar conflitos íntimos pode representar mera fuga da realidade interior; porém, se a experiência assistencialista amplia a capacidade de compreender, servir e amar, então estamos diante da verdadeira caridade.

