16 maio 2026

Adultério e invasão de privacidade numa reflexão kardequiana

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Diante da infidelidade conjugal, muitas pessoas atravessam duas etapas emocionais marcantes: o protesto e o desespero. Na primeira fase, predominam o choro, a revolta, os pedidos de reconciliação e a sensação de perda. Na segunda, surgem sintomas semelhantes aos quadros depressivos, como insônia, isolamento social, desânimo e perda de interesse pela vida cotidiana.

 Em meio a esse contexto, ganhou repercussão o caso do norte-americano Leon Walker, de Michigan, que acessou o correio eletrônico da esposa para confirmar uma relação extraconjugal. Alegou ter agido para proteger os filhos, mas acabou acusado de invasão de privacidade eletrônica, podendo inclusive responder criminalmente perante a legislação norte-americana.

O episódio suscita reflexão ética e jurídica. De um lado, a invasão de correspondência eletrônica constitui afronta ao direito à intimidade, protegido pelas legislações modernas e pela própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo artigo 12 condena interferências arbitrárias na vida privada.

No Brasil, a Constituição Federal de 1988 assegura a inviolabilidade da intimidade, da vida privada e das comunicações (BRASIL, 1988). A expansão tecnológica, entretanto, tornou cada vez mais tênue a fronteira entre o público e o privado, favorecendo mecanismos de vigilância doméstica, espionagem virtual e monitoramento de mensagens pessoais.

Sob a ótica espírita, porém, o adultério possui implicações morais profundas, por atingir diretamente os sentimentos, a confiança e os compromissos afetivos. Allan Kardec recorda a advertência do Cristo à mulher adúltera: “Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra” (João 8:7), ensinando que a indulgência deve prevalecer sobre a condenação precipitada. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec afirma que não devemos julgar com maior severidade os erros alheios sem antes examinarmos nossas próprias imperfeições.

O Espírito Emmanuel observa que muitos dramas afetivos decorrem da imaturidade emocional humana e que, no futuro, o adultério tenderá a desaparecer à medida que as relações forem edificadas sobre respeito, responsabilidade e afinidade espiritual. A verdadeira união, segundo a visão espírita, transcende os impulsos meramente corporais, fundamentando-se no amor, na compreensão e no crescimento mútuo. Por isso, diante das desarmonias conjugais, a prudência recomenda menos acusações e mais reflexão íntima.

Não cabe ao observador humano penetrar a consciência alheia nem emitir sentenças definitivas. Cada criatura enfrenta provas específicas diante da Lei Divina. O Mentor de Chico Xavier adverte que muitos erros aparentes podem converter-se em caminhos de aprendizado, enquanto aparentes acertos podem ocultar graves desvios morais. Assim, perante conflitos afetivos, a recomendação cristã continua atual: substituir o julgamento pela compreensão e recordar o ensinamento do Cristo — “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (João 15:12).

 

Referências Bibliográficas:

 

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

Novo Testamento. João 8:7; João 15:12.

O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

Francisco Cândido Xavier; Emmanuel. Vida e Sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1978.

GUEIROS JUNIOR, Nehemias. Insegurança na internet: há remédio? Disponível em: Mundo Jurídico. Acesso em: 16 de maio de 2026.

Heranças insólitas e paradoxos humanos


 


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Casos de milionários que deixam fortunas para seus animais de estimação chamam a atenção pelo contraste entre riqueza e afeto. Gail Posner, socialite americana, destinou sua mansão de US$ 8,3 milhões e um fundo de US$ 3 milhões à cadela. Leona Helmsley, magnata de Nova York, deixou US$ 12 milhões para sua maltês Trouble, excluindo os netos. Oprah Winfrey reservou US$ 30 milhões para seus cães, enquanto Drew Barrymore determinou que sua cadela herdasse sua casa de US$ 3 milhões. A condessa alemã Karlotta Liebenstein, em 1992, legou US$ 194 milhões ao pastor alemão Gunther III; o fundo hoje ultrapassa US$ 370 milhões.

Tais atitudes revelam um sintoma psicopatológico com o recado: “Recebi mais amor do meu animal do que das pessoas.” Esses extremos refletem uma sociedade marcada por contradições: fortunas destinadas a cães coexistem com miséria, drogas, violência, racismo e fome.

Ainda convivemos com pessoas em situação de rua, doenças como tuberculose e AIDS, e epidemias de crack, apesar de vivermos em uma era tecnológica que parecia inimaginável nos anos 1970, quando não existiam microcomputadores, celulares ou internet.

Porém, reconheço que nem tudo é desolador. Ao lado de heranças excêntricas destinadas a animais de estimação, que frequentemente despertam curiosidade e repercussão pública, existem também exemplos marcantes de profunda responsabilidade social. Muitos empresários, artistas e milionários optam por destinar parte significativa de suas fortunas ao amparo do ser humano, financiando hospitais, pesquisas científicas, bolsas de estudo, projetos culturais e ações de solidariedade.

Desde o século XIX, milionários americanos praticam o mecenato e a filantropia, financiando museus, universidades e projetos sociais. Atualmente, muitos não esperam a morte para doar: criam fundações ainda jovens, garantindo que os recursos sejam aplicados em causas escolhidas. Além disso, evitam deixar grandes heranças aos filhos, temendo que isso destrua sua autonomia. Nos EUA, valoriza-se o self-made man (*) e heranças excessivas são vistas como um obstáculo ao mérito pessoal.

Nesse cenário de profundas crises morais, desigualdades sociais e desafios coletivos que afligem a humanidade contemporânea, a mensagem do Cristo permanece como um roteiro seguro para a regeneração espiritual do homem. Seus ensinamentos de amor, perdão, fraternidade e solidariedade continuam atuais e indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa e pacífica.

Exemplos luminosos como Vicente de Paulo, Francisco de Assis, Irmã Dulce, Madre Teresa e Chico Xavier demonstram, por meio de suas existências dedicadas ao próximo, que a caridade genuína, associada ao amor incondicional, possui extraordinária força moral capaz de aliviar sofrimentos, despertar consciências adormecidas e transformar realidades sociais. Pela vivência sincera do Evangelho, esses benfeitores revelaram que o verdadeiro progresso da humanidade não será alcançado apenas pelo avanço material, mas, sobretudo, pela renovação íntima e pela prática do bem, sem distinções.

Como disse Paulo: “Já não sou eu quem vive, mas o Cristo vive em mim” (Gl 2,20). Cabe a nós escolher, entre o berço e o túmulo, atitudes que elevem a vida por meio da fé e das boas obras.

 (*)  termo usado para descrever indivíduos que alcançaram grande sucesso, riqueza ou prestígio social partindo do zero, sem heranças, privilégios ou ajuda externa significativa

Referências Bibliográficas:

  1. IstoÉ Independente, Edição 1925, 2010.
  2. Mario Marcondes, veterinário, Hospital Sena Madureira, SP.
  3. Rick Cohen, Comitê Nacional de Filantropia Responsável.
  4. Bíblia, Gálatas 2,20.

15 maio 2026

O espetáculo das “mediunidades exóticas” , os algodões mágicos e a deformação mística do espiritismo


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

Sabemos de práticas “mediúnicas” estranhas à proposta racional de Allan Kardec. Surgem figuras cercadas de aura mística do tipo, supostos “desmanchadores de feitiços”, há até exibições de “algodões desobsessores” com objetos de feitiço materializados, líquidos misteriosos e toda sorte de teatralizações mediúnicas que mais lembram superstição medieval do que mediunidade séria.

O caso dos algodões mágicos de Votuporanga é exemplo preocupante dessa deformação: a substituição da fé raciocinada pelo fascínio do extraordinário. Há até excursões para os adoradores do algodão prestidigitador

Kardec jamais edificou o Espiritismo sobre o maravilhoso. Em O Livro dos Médiuns, advertiu severamente contra: mistificações; charlatanismo; animismo; fraudes; fascinação mediúnica; e imaginação exaltada.

O verdadeiro espírita não deve correr atrás do fantástico, mas analisá-lo com prudência. A mediunidade séria jamais precisou de espetáculos para demonstrar autenticidade.

Quanto maior a teatralidade, maior deveria ser a cautela crítica. Entretanto, muitos ambientes espiritualistas alimentam exatamente o contrário: quanto mais extravagante o fenômeno, maior o encantamento popular.

Criou-se quase uma “indústria do sobrenatural”, sustentada pelo medo de “trabalhos feitos”, obsessões imaginárias e fantasias de feitiçaria materializada.

Ora, o Espiritismo nunca ensinou que obsessão espiritual funcione como “implantação mágica” de objetos físicos nas pessoas. Segundo Allan Kardec, a obsessão é processo psíquico e moral estabelecido por sintonia mental inferior, e não um teatro de “extrações” de panos, agulhas, líquidos ou algodões misteriosos diante de plateias impressionáveis.

Esse tipo de prática aproxima-se muito mais do pensamento mágico medieval do que da sobriedade kardequiana. Em A Gênese, Kardec afirma que o sobrenatural é irreal; existem apenas fenômenos naturais ainda desconhecidos. Portanto, quanto mais extraordinária a alegação, maior deve ser o rigor investigativo.

Curiosamente, fenômenos espetaculares quase sempre desaparecem quando submetidos a: filmagem contínua; controle rigoroso; perícia independente; e observação científica séria.

A história do mediunismo está repleta de “médiuns extraordinários” posteriormente desmascarados. E justamente os efeitos físicos sempre foram os mais suscetíveis a truques e manipulações, porque impressionam os sentidos e enfraquecem o senso crítico.

Há ainda o poderoso fator psicológico. Ambientes emocionalmente carregados favorecem: autosugestão; histeria coletiva; interpretações fantasiosas; e dramatizações inconscientes.

Em muitos casos, o próprio médium pode acreditar sinceramente em suas manifestações sem perceber mecanismos psicológicos envolvidos. Em outros, infelizmente, pode existir fraude deliberada.

O problema maior é que essas práticas desviam completamente o eixo moral do Espiritismo. Enquanto Kardec propunha reforma íntima, educação moral e emancipação intelectual, certos grupos preferem alimentar: terror espiritual; dependência emocional; fetichismo mediúnico; e superstição.

Transformam o Espiritismo em ritual mágico de “desmancho de feitiços”.

Léon Denis advertia que o excesso de maravilhoso costuma atrair mistificação. Já Chico Xavier, através de Emmanuel, lembrava que fenômeno, por si só, não prova elevação espiritual.O critério espírita nunca foi o impacto emocional do fenômeno, mas sua coerência moral, racional e lógica.

Quando uma prática supostamente mediúnica  produz mais curiosidade do que esclarecimento, mais fascinação do que consciência e mais superstição do que razão, ela já se afastou perigosamente da proposta kardequiana.

O Espiritismo não nasceu para ser religião de assombração ou espetáculo folclórico. Surgiu para libertar o ser humano da ignorância — inclusive da ignorância espiritual.

A fé espírita autêntica não necessita de algodões misteriosos, teatralizações mediúnicas ou lendas de feitiçarias (trabalhos feitos) materializadas. Sustenta-se na razão, na moral e no discernimento.

13 maio 2026

Chakras? Karma? Espiritismo não é e jamais será uma fossilização ortodoxa ou dogmática


 


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há um comportamento cada vez mais enjoativo, entediante, fastidioso de alguns “PhDs” “kardequiólogos” apostando na transformação do Espiritismo numa estrutura rígida, engessada e quase medieval, na qual tudo aquilo que não foi literalmente pronunciado por Allan Kardec passa a ser automaticamente condenado como “não espírita”. Tal postura, além de intelectualmente rasa, pobre e medíocre, contradiz frontalmente o próprio método kardequiano.

Temos lido alguns textos propondo uma espécie de patrulhamento doutrinário em que alguns “PhDs kardequiólogos guardiões da pureza” repetem, como um mantra dogmático: “se Kardec não citou, não pertence ao Espiritismo”. Curiosamente, esses mesmos “míopes PhDs” esquecem que o Codificador jamais propôs uma doutrina estanque, petrificada ou encerrada em si mesma.

Em A Gênese, Kardec asseverou: “O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado.”  A afirmação do Codificador é uma das mais extraordinárias demonstrações de humildade intelectual já feitas no campo religioso e filosófico.  

Ainda em A Gênese, capítulo I, Kardec registra: “Se uma verdade nova se revelar, ele (o Espiritismo) a aceitará. Se uma nova descoberta demonstrar estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele (o Espiritismo) se modificará nesse ponto.” Essa declaração destrói completamente a pretensão dogmática dos PhDs ortodoxos que desejam transformar o Espiritismo num sistema fechado, inflexível e fossilizado.

As frases são devastadoras contra qualquer tentativa de congelamento doutrinário. Kardec não fundou uma seita arqueológica (dinossáurica) destinada à repetição mecânica de conceitos do século XIX. Ele estruturou uma filosofia libertária , progressiva, aberta ao avanço do conhecimento humano.

Quando alguns espíritas rejeitam histericamente qualquer aproximação entre Espiritismo e conceitos orientais como chakras ou karma, demonstram desconhecer tanto a universalidade da verdade quanto a própria metodologia kardequiana. Até porque Kardec não utilizou esses termos porque eram adventícios ao clássico ambiente cultural francês de sua época. Isso, porém, não significa inexistência de correspondências conceituais.

Kardec descreveu o perispírito como estrutura semimaterialsensível ao pensamentoàs emoções e às vibrações morais. Em várias passagens de O Livro dos Espíritos e A Gênese, encontramos referências às regiões do sentimento e da inteligência, associadas ao coração e ao cérebro, indicando funções psíquicas vinculadas ao organismo semimaterial.

Posteriormente, André Luiz aprofundaria essa questão ao abordar os “centros de força” em obras como Entre a Terra e o Céu. A semelhança com a percepção oriental dos chakras é evidente. Apenas os PhDs sectários fingem não perceber.

O mesmo ocorre com a ideia de karma. Kardec não empregou a palavra, mas trabalhou exaustivamente o princípio de causa e efeito moral. Em O Céu e o Inferno, demonstra que cada espírito colhe as consequências de seus atos através das reencarnações sucessivas. O nome muda; o princípio permanece.

Há, infelizmente, um medo patológico do diálogo filosófico. Alguns imaginam que reconhecer aproximações entre tradições espirituais destruiria a identidade espírita. Pelo contrário: apenas demonstra maturidade intelectual. A verdade não nasce numa única cultura, numa única língua ou numa única civilização.

O problema desses pseudoespíritas dogmatizantes (PhDs insignificantes) é confundirem fidelidade doutrinária com idolatria textual. Transformam Kardec numa “divindade indefectível” — justamente aquilo que o Codificador  jamais quis ser. Kardec propôs método, raciocínio e investigação contínua. Não fundou um tribunal inquisitorial para interditar reflexões.

A consequência desse radicalismo é desastrosa: empobrece-se o pensamento espírita, sufoca-se o debate e afasta-se a juventude intelectualizada, que percebe rapidamente o autoritarismo disfarçado de “defesa doutrinária”.

O verdadeiro espírita não teme o conhecimento. Analisa, compara, pondera e investiga. Foi exatamente esse o método ensinado por Kardec. Negar toda contribuição filosófica externa ao Espiritismo é admitir, implicitamente, que a doutrina seria frágil demais para dialogar com outras tradições.

O Espiritismo não precisa de Phds censores. Precisa de estudiosos sérios, capazes de compreender que a revelação espiritual é progressiva e que a verdade divina jamais coube integralmente nas fronteiras culturais da França do século XIX.

 

12 maio 2026

Sexo, Casamento e Celibato à Luz Esprita


 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Refletir sobre sexo, casamento e celibato é abordar uma das forças mais profundas da experiência humana: a energia (impulso) sexual, ou libido. Mais do que simples acometimento biológico, trata-se de poderosa manifestação psíquica ligada aos sentimentos, aos desejos e à forma como nos relacionamos afetivamente.

A visão espírita não condena o sexo, porém o compreende como patrimônio divino da criatura, destinado ao amor, à responsabilidade e ao progresso espiritual. Sob essa perspectiva, o pensamento de Emmanuel permanece atual ao afirmar: a sua “não proibição, mas educaçãonão abstinência imposta, mas emprego digno; não indisciplina, mas controle”.

A questão essencial não está apenas no permissível ou proibido, mas no uso consciente das energias criadoras da alma como a vontade, a consciência, o amor, o pensamento e o livre-arbítrio — que nos conectam à força vital do universo. O desequilíbrio sexual nasce, sobretudo, do egoísmo, da posse e da irresponsabilidade afetiva.

Na sociedade contemporânea, marcada pelo consumismo e pela erotização excessiva, o sexo frequentemente é reduzido a entretenimento ou instrumento de domínio emocional. Entretanto, a sexualidade sem amor gera vazio existencial, ansiedade e conflitos psicológicos.

O amor verdadeiro liberta; a paixão possessiva aprisiona. Por isso, a Doutrina Espírita ensina que o sexo deve ser sublimado e caminhar ao lado da responsabilidade moral e da dignidade humana.

Segundo Allan Kardec, o casamento constitui avanço da civilização e importante conquista social. No Livro dos Espíritos, os Benfeitores Espirituais explicam que a união estável favorece o progresso da humanidade, consolidando os vínculos de afeto e cooperação. A família converte-se, assim, em núcleo de aprendizado espiritual, oficina de reconciliações e reencontros entre Espíritos comprometidos entre si perante a lei divina.

Sob o ponto de vista das pluralidades das existências, muitos casamentos representam oportunidades de reajuste e crescimento mútuo. Há uniões constituídas pelo amor profundo; outras surgem como provas, deveres ou missões educativas. Em qualquer circunstância, o matrimônio não deve ser visto apenas como contrato social, mas como experiência espiritual relevante para o aperfeiçoamento moral.

Isso não significa defender a indissolubilidade absoluta do casamento. O próprio Espiritismo reconhece que leis humanas podem ser modificadas quando deixam de atender às necessidades legítimas da criatura. Relações marcadas pela violência, humilhação ou degradação moral não correspondem aos objetivos superiores da união afetiva.

Quanto ao celibato, a Doutrina Espírita não o considera estado de perfeição automática. O mérito espiritual não está na abstinência em si mesma, mas na intenção que a motiva. Quando adotado por egoísmo, fuga das responsabilidades ou orgulho, perde valor moral; porém, quando decorre de sincera dedicação ao bem coletivo, converte-se em forma legítima de renúncia e serviço.

O impulso natural  da sexualidade, portanto, não deve ser encarado com culpa consciencial  nem com leviandade. Conforme esclarece André Luiz, o sexo “reside na mente”, refletindo-se no corpo físico como expressão das emoções e pensamentos. Toda desarmonia no campo afetivo repercute profundamente na consciência, produzindo consequências emocionais e espirituais.

Os conflitos atuais envolvendo família e sexualidade revelam muito mais uma crise moral do que meramente biológica ou sociológica. Nenhuma solução exterior substituirá a renovação íntima do indivíduo.

A verdadeira educação sexual precisa incluir valores éticos, respeito, afetividade, responsabilidade e espiritualidade. O sexo é força criadora; o amor é força libertadora. Quando ambos caminham harmonizados pela consciência, tornam-se instrumentos de crescimento espiritual e de construção da felicidade possível na Terra.

 

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

O Evangelho Segundo o Espiritismo. São Paulo: IDE, 1984.

XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1999.

XAVIER, Francisco Cândido. No Mundo Maior. Ditado pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1999.

11 maio 2026

Sonhos: Entre a Neurociência e a Visão Espírita


 

 

Jorge Hessen

Brasília-DF

 

Desde as mais remotas civilizações, os sonhos cercam-se de mistérios e fascínio. Para os povos antigos, representavam manifestações sobrenaturais, mensagens dos deuses ou contatos com os mortos. Em muitas culturas, ainda hoje, o sonho é visto como instrumento de orientação moral e espiritual. Outras correntes, porém, reduzem-no a simples atividade cerebral sem maior significado existencial.

A ciência contemporânea ainda não respondeu plenamente por que sonhamos. Há hipóteses segundo as quais os sonhos auxiliam na regulação emocional, reorganizam memórias e processam experiências vividas durante o dia. Sabe-se que a mente permanece ativa durante o sono e que, nesse período, ocorre importante seleção das informações que permanecerão na memória de longo prazo. Segundo Rosalind Cartwright, os sonhos parecem organizar conteúdos emocionais relacionados à autopercepção humana.

Para a Doutrina Espírita, contudo, o fenômeno transcende o mero funcionamento neurobiológico. Allan Kardec indagou aos Espíritos se, durante o sono, a alma repousaria como o corpo. A resposta foi categórica: “Não, o Espírito jamais está inativo” (KARDEC, 2000, q. 401). O corpo físico descansa, mas o Espírito emancipa-se parcialmente da matéria, readquirindo relativa liberdade.

Kardec explica que, durante o sono, “afrouxam-se os laços que prendem o Espírito ao corpo” (KARDEC, 2000, q. 401). Nessa condição, o ser humano entra em contato com outras inteligências desencarnadas, visita ambientes espirituais e revive experiências pretéritas. Em certos casos, pode até receber advertências ou inspirações elevadas. Em “O Livro dos Espíritos”, afirma-se ainda que, pelos sonhos, “o Espírito tem mais faculdades do que no estado de vigília” (KARDEC, 2000, q. 402).

Diversos episódios históricos parecem sugerir que os sonhos podem favorecer percepções criativas. O físico Albert Einstein relatava que muitas de suas intuições científicas surgiam em estados de relaxamento mental. Paul McCartney afirmou ter composto a melodia de “Yesterday” após despertar com a música completamente formada na mente. O químico Dmitri Mendeleev atribuiu a organização da tabela periódica a um sonho inspirador. Esses casos sugerem que o inconsciente — ou, sob a ótica espírita, a própria alma emancipada — pode acessar conteúdos além da consciência ordinária.

As tradições religiosas também registram abundantes experiências oníricas. A Bíblia contém centenas de referências a sonhos proféticos e simbólicos. No Islã, parte das revelações recebidas por Maomé teria ocorrido durante estados visionários próximos ao sono.

A Psicologia e a Neurociência investigam os sonhos sob perspectivas complementares. Enquanto a Neurociência analisa os mecanismos cerebrais envolvidos, a Psicanálise busca interpretar conteúdos simbólicos ligados aos desejos, medos e conflitos íntimos. Dessa aproximação surgiu a neuropsicanálise, campo que procura integrar aspectos fisiológicos e subjetivos da experiência onírica.

Entretanto, poucas correntes filosóficas estudaram os sonhos com tanta profundidade quanto o Espiritismo. Kardec dedica capítulos inteiros ao tema em “O Livro dos Espíritos” e em “A Gênese”, sustentando que o sono representa momento parcial de emancipação da alma.

Os chamados “sonhos lúcidos” também despertam interesse científico. Neles, o indivíduo percebe que está sonhando enquanto o sonho ocorre. O psiquiatra holandês Frederik van Eeden e o pesquisador Stephen LaBerge estudaram amplamente o fenômeno. Curiosamente, pensadores antigos, como Santo Agostinho e Tomás de Aquino, já admitiam essa possibilidade séculos atrás.

Quanto aos pesadelos, o Espiritismo ensina prudência interpretativa. Muitos deles decorrem apenas de tensões emocionais, desequilíbrios orgânicos ou reflexos psicológicos. Todavia, em algumas situações, podem ocorrer influências espirituais inferiores, especialmente quando cultivamos pensamentos negativos e sintonia mental perturbada. Kardec esclarece que “os maus Espíritos se aproveitam dos sonhos para atormentar as almas fracas” (KARDEC, 2000).

Léon Denis classifica os sonhos em três categorias: os puramente cerebrais; os decorrentes de desprendimento parcial do Espírito; e os sonhos profundos ou etéreos, nos quais a alma alcança percepções mais elevadas. Tal classificação continua atual e coerente com muitas experiências humanas.

O Espiritismo também rejeita as interpretações supersticiosas que associam sonhos a presságios simplistas ou jogos de azar. Sonhar com dentes, serpentes ou mortes não possui significado universal. Cada experiência onírica relaciona-se ao patrimônio emocional, moral e psicológico de quem sonha.

Segundo André Luiz, devemos aproveitar dos sonhos apenas os ensinamentos edificantes, sem fanatismo ou perturbação. O essencial é observar quais emoções, medos ou desejos emergem dessas experiências, utilizando-as para o autoconhecimento e o aprimoramento moral.

Kardec ainda pergunta se duas pessoas podem encontrar-se durante o sono. Os Espíritos respondem afirmativamente, afirmando que amigos e parentes frequentemente se visitam espiritualmente enquanto dormem (KARDEC, 2000, q. 414). Contudo, recomenda-se cautela: nem todo sonho possui origem espiritual autêntica. A maioria decorre de impressões psíquicas, de memórias ou de processos fisiológicos naturais.

Assim, os sonhos permanecem como uma das mais fascinantes fronteiras entre corpo e alma. A Ciência investiga-lhes os mecanismos; o Espiritismo busca compreender-lhes a transcendência. Em ambos os casos, eles revelam que a mente humana continua muito além das estreitas fronteiras da matéria.

 

Referências Bibliográficas:

CARTWRIGHT, Rosalind. The Twenty-four Hour Mind. Oxford: Oxford University Press, 2010.

DENIS, Léon. No Invisível. Rio de Janeiro: FEB, 1985.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

LOUREIRO, Carlos Bernardo. Visão Espírita do Sono e dos Sonhos. Matão: O Clarim, 2000.

REVISTA GALILEU. Sonhos e interpretação da mente humana. São Paulo, maio 2009.

VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

A esmola e o assistencialismo compulsivo numa reflexão espírita


 


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Em tempos de militâncias apaixonadas e ativismos ideológicos avermelhados exacerbados, a caridade vem sendo frequentemente reduzida a mera prática assistencialista, quase sempre utilizada como instrumento de afirmação moral, propaganda psicológica ou compensação da culpa social.

 Multiplicam-se os esmoladores “fazedores de coisas”, os exibicionismos da beneficência, as propagandas inflamadas em favor das “massas”, enquanto se negligencia justamente o núcleo moral da caridade ensinada por Allan Kardec: benevolência, indulgência e perdão das ofensas.

Portanto, a legítima caridade não é plataforma política, tampouco mecanismo de manipulação emocional. Kardec foi taxativo ao perguntar aos Espíritos qual o verdadeiro sentido da caridade. A resposta é clássica e definitiva: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros e perdão das ofensas” (KARDEC, 2005, q. 886). O Codificador não restringiu a caridade à distribuição de bens materiais, nem a converteu em bandeira ideológica de luta social.

O equívoco moderno consiste em substituir a transformação moral pela teatralização do assistencialismo. Há indivíduos que distribuem alimentos, roupas e favores, mas cultivam agressividade, intolerância, ressentimento e ódio contra os que pensam diferente. Outros fazem do assistencialismo um mecanismo narcísico de autopromoção moral. Desejam salvar o mundo, mas não conseguem conviver pacificamente nem dentro do próprio lar.

Emmanuel adverte que “a caridade real nunca será espetaculosa” e que o bem genuíno nasce da humildade e da renúncia do ego (XAVIER, 2003). O benfeitor espiritual esclarece que o cristianismo não se resume à dádiva exterior, mas ao esforço íntimo de renovação da criatura. Sem reforma moral, a esmola pode converter-se em simples transferência de recursos destituída de elevação espiritual.

Muitos ativistas contemporâneos leem Kardec com extremo grau de miopia. Enxergam apenas as análises sociais feitas pelo Espiritismo, ignorando completamente a centralidade da educação moral do Espírito. Criam uma caricatura ideológica da Doutrina Espírita, tentando adaptá-la aos modismos materialistas avermelhados. No entanto, Kardec jamais ensinou luta de classes, ressentimento social ou intolerância política. Ao contrário, enfatizou a fraternidade universal fundada na transformação interior.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec assevera que “o verdadeiro homem de bem” é aquele que vence suas más inclinações, domina o orgulho, combate o egoísmo e pratica a justiça com amor. Não basta socorrer economicamente o necessitado; é indispensável desenvolver paciência, brandura e capacidade de compreensão.

Léon Denis advertia que a caridade exclusivamente material pode humilhar o beneficiado quando desacompanhada do respeito e da fraternidade sincera. Segundo ele, “a verdadeira caridade é a que eleva moralmente” (DENIS, 1987). Há pessoas que oferecem pão ao faminto enquanto lançam veneno moral nas relações humanas, disseminando agressões, polarizações e perseguições emocionais.

Na mesma direção, Joanna de Ângelis analisa que muitos indivíduos desenvolvem uma “culpa neurótica” que tentam aliviar por meio de ativismos assistencialistasAjudam compulsivamente, mas sem autoconhecimento, sem serenidade e sem real amadurecimento espiritual. A ação social sem evangelização íntima frequentemente degenera em vaidade disfarçada de virtude.

intolerância rubra é incompatível com o Espiritismo. Quem odeia adversários políticos, despreza opiniões divergentes e transforma a caridade em instrumento de guerra cultural ainda não compreendeu Jesus. O Cristo não estabeleceu partidos, facções ou militâncias sectárias; ensinou amor, misericórdia e perdão.

A caridade espírita começa no domínio das próprias paixões inferiores. É fácil defender abstratamente os pobres; difícil é suportar com paciência as limitações do próximo.

É simples fazer discursos sobre justiça social; complexo é vencer o orgulho e a agressividade cotidiana.

O verdadeiro espírita não mede sua evolução pela quantidade de cestas básicas distribuídas, mas pela capacidade de amar, compreender e perdoar.

Sem benevolência, indulgência e perdão, o assistencialismo converte-se em máscara psicológica do ego. E toda caridade sem amor não passa de fazeção de coisa  assistencialista ou  exercício estéril de vaidade humana.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2002.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Autodescobrimento: uma busca interior. Salvador: LEAL, 1995.


10 maio 2026

Família contemporânea e os desafios morais da convivência


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Nas últimas décadas, profundas transformações sociais alteraram a estrutura da família brasileira. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – revelaram, ainda no final do século XX, a redução do número de filhos por família, o crescimento de lares chefiados por mulheres, o aumento das separações conjugais e a diminuição dos registros formais de casamento. Tais mudanças demonstram que o modelo patriarcal clássico perdeu força diante das novas dinâmicas econômicas e culturais da sociedade contemporânea.

Uma das causas desse fenômeno foi a inserção maciça da mulher no mercado de trabalho. Durante séculos, a organização familiar concentrou no homem o poder decisório, relegando à mulher posição de dependência econômica e emocional. A conquista da autonomia feminina modificou esse cenário, abalando estruturas tradicionais sedimentadas por gerações. Em muitos casos, a incapacidade de adaptação às novas responsabilidades compartilhadas gerou conflitos conjugais e desajustes afetivos que culminaram em separações.

Todavia, reduzir a crise familiar a fatores econômicos seria simplificação imprudente. A desarmonia doméstica nasce, frequentemente, da dificuldade de diálogo, da ausência de empatia e do predomínio do egoísmo. Quando os integrantes de um lar deixam de comunicar seus sentimentos e aspirações, instala-se o processo silencioso do distanciamento emocional. Assim, o desentendimento passa a corroer os vínculos afetivos até a ruptura.

A família moderna também passou por significativa redefinição de papéis. Na antiga estrutura doméstica, o homem era identificado como provedor exclusivo, enquanto a mulher assumia os cuidados da casa e dos filhos. Atualmente, as circunstâncias econômicas e sociais conduziram muitos homens às funções domésticas, ao mesmo tempo em que as mulheres passaram a ocupar espaços cada vez maiores no ambiente profissional. Essas alterações exigem maturidade emocional e capacidade de cooperação recíproca para evitar disputas de poder e crises de identidade dentro do casamento.

Sob a ótica espírita, entretanto, o matrimônio continua sendo instituição valiosa e compatível com a Lei Natural. O Livro dos Espíritos consigna que o casamento representa “um progresso na marcha da Humanidade” (KARDEC, 1999, q. 695). A união conjugal não deve ser compreendida apenas como contrato civil ou convenção social, mas como compromisso espiritual de assistência mútua, aprendizado e crescimento moral.

Nesse sentido, Emmanuel, esclarece em Vida e Sexo que o casal constitui mecanismo divino de aperfeiçoamento recíproco, possibilitando o reencontro de Espíritos comprometidos em experiências regeneradoras. A família, portanto, converte-se em oficina de reeducação da alma, onde se desenvolvem paciência, renúncia, perdão e solidariedade.

É inegável, porém, que novos modelos familiares emergiram na contemporaneidade. Famílias monoparentais, avós responsáveis pela criação de netos, mães e pais solteiros, além de lares formados por parceiros homoafetivos comprometidos com a educação digna de crianças adotadas, passaram a integrar a realidade social. A própria Constituição Federal de 1988 reconheceu juridicamente diferentes entidades familiares, ampliando a proteção do Estado para além do casamento tradicional.

Diante desse quadro, o Espiritismo convida à reflexão sem preconceitos, recordando que o verdadeiro fundamento da família não reside exclusivamente na forma jurídica de sua constituição, mas nos vínculos de amor, responsabilidade e respeito mútuo. A Doutrina Espírita ensina que os laços familiares transcendem uma existência corporal, sendo frequentemente resultado de reencontros reencarnatórios destinados à reconciliação e ao progresso espiritual.

Muitos conflitos domésticos decorrem justamente de débitos morais de reencarnações anteriores. Por isso, a separação precipitada nem sempre representa solução legítima para os problemas conjugais. Em diversas situações, ela apenas adia aprendizados indispensáveis ao Espírito. Evidentemente, o Espiritismo não estimula a manutenção de relações abusivas ou destrutivas; contudo, adverte para o risco das rupturas motivadas por impulsividade, intolerância ou mero individualismo.

A sociedade consumista contemporânea também contribui para o enfraquecimento dos vínculos familiares. A cultura materialista estimula o prazer imediato, o descarte das relações e a valorização excessiva das aparências, reduzindo a capacidade humana de suportar frustrações e sacrifícios naturais da convivência.

Sem espiritualidade, fé e compromisso moral, a família transforma-se em ​m​era associação utilitária e transitória. Por essa razão, o Espiritismo reafirma a família como célula-máter da sociedade. Kardec indaga: “Qual seria para a sociedade o resultado do relaxamento dos laços de família, senão a agravação do egoísmo?” (KARDEC, 1999, q. 775). O enfraquecimento familiar conduz inevitavelmente à solidão moral, à indiferença afetiva e ao aumento da violência social.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1999.

XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1972.

IBGE. Estatísticas de Registro Civil. Acesso em: 10 de maio de 2026.