Jorge Hessen
Brasília-DF
Vivemos tempos de exaustão moral. A política, a economia instável e a crescente polarização ideológica têm produzido no Brasil um fenômeno perturbador: o enfraquecimento dos vínculos humanos mais elementares. Pais , filhos, irmãos ,tios , primos etc. deixam de conversar. “Amigos” espiritas de décadas se afastam “fraternalmente” de forma irracional. E, lamentavelmente, no movimento espírita surgem divisões absurdas por preferências político-ideológicas.
É espantoso observar criaturas que frequentam tribunas espíritas, estudam o Evangelho e discursam sobre fraternidade, mas não conseguem tolerar alguém que pense diferente no campo político. Alguns passaram a acreditar que o “progressista” é moralmente inferior ou que o “conservador” é intelectualmente desprezível. Outros agem como se determinada ideologia fosse certificado de virtude espiritual. Tudo isso representa um lamentável estado irracional de primarismo emocional.
A divergência de ideias sempre existirá. Ela faz parte da experiência humana. O problema não está em pensar diferente. O problema está em transformar divergência em ódio, opinião em idolatria e política em religião.
Há pessoas que já não analisam fatos, mas veneram narrativas. Não dialogam: atacam. Não refletem: reagem. Tornaram-se militantes de estimação de líderes (salvadores da pátria) humanos imperfeitos, como se fossem messias infalíveis. Isso é profundamente perigoso para a saúde mental e espiritual.
O Espírito imortal não pode reduzir sua existência eterna às paixões transitórias de um partido político. Amanhã os governos mudam, os sistemas econômicos se alteram, os discursos envelhecem, mas as consequências morais da intolerância permanecerão gravadas na consciência.
No campo espírita, a situação torna-se ainda mais grave. O Espiritismo não nasceu para fabricar facções ideológicas. Allan Kardec jamais propôs uma doutrina sectária, partidária ou intolerante. Pelo contrário, ensinou que “fora da caridade não há salvação” e não “fora da minha ideologia não há salvação”.
É profundamente incoerente alguém afirmar-se cristão e ao mesmo tempo cultivar desprezo sistemático por quem pensa diferente. Jesus conviveu com publicanos, pescadores, doutores da lei, zelotes e romanos sem estimular guerras ideológicas entre eles. O Cristo jamais ensinou a destruição afetiva em nome de opiniões políticas.
Muitos alegam estar “defendendo a verdade”. Entretanto, frequentemente defendem apenas o próprio ego inflamado. A vaidade ideológica produz cegueira moral. O fanático político perde a capacidade de ouvir, ponderar e respeitar. E quando o respeito desaparece, a barbárie emocional começa.
Precisamos reaprender algo básico: amizade não exige uniformidade mental. Amor não depende de alinhamento ideológico. Fraternidade não significa concordância absoluta.
Uma sociedade madura é aquela que consegue conviver civilizadamente com opiniões divergentes. O contrário disso é regressão psicológica coletiva.
No ambiente espírita, especialmente, urge restaurar o equilíbrio e o bom senso. O centro espírita não pode transformar-se em trincheira política, palco de militância ou laboratório de hostilidade ideológica. Nossa tarefa essencial continua sendo a transformação moral do ser humano.
Quem pensa diferente de nós não se transforma automaticamente em inimigo. Pode apenas estar enxergando a realidade por outro ângulo, com outras experiências e outras referências culturais. Demonizar pessoas por suas convicções políticas revela mais sobre nossa imaturidade do que sobre os erros alheios.
A Humanidade já sofreu demais por causa dos fanatismos religiosos, raciais e ideológicos. Não acrescentemos mais um capítulo de intolerância à história humana.
O Brasil necessita urgentemente de menos ódio e mais lucidez. Menos idolatria política e mais equilíbrio emocional. Menos radicalismo e mais humanidade.
Porque, no final das contas, nenhuma ideologia valerá o preço da destruição dos afetos.





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