Jorge Hessen
Brasília -DF
Há um fenômeno cada vez mais perceptível no movimento espírita brasileiro: antes mesmo de se examinar o conteúdo de uma palestra, apresenta-se o currículo institucional do expositor como se constituísse garantia automática de verdade. “Fulano é da FEB.” “Beltrano é da Federação.” “O palestrante pertence àquela tradição.” É tradicional, muitas vezes, a simples menção ao nome de uma entidade federativa para funcionar como um selo de infalibilidade.
É preciso dizer isso com clareza: frequentar uma instituição, colaborar com ela ou até exercer determinada função em seus quadros não transforma ninguém em dono da verdade espírita.
A Federação Espírita Brasileira é uma instituição histórica e relevante para o Espiritismo no Brasil. Mas uma coisa é respeitar uma instituição; outra, inteiramente diferente, é converter o nome da instituição em instrumento de blindagem intelectual para opiniões individuais. O Espiritismo não estabeleceu uma aristocracia doutrinária fundada em crachás, cargos ou vínculos associativos.
Allan Kardec foi particularmente claro quanto ao problema da autoridade. Na Introdução, item II, de O Evangelho segundo o Espiritismo, ao tratar da autoridade da Doutrina Espírita, ensina que nenhuma pessoa poderia pretender possuir, com exclusividade, a verdade absoluta. Mais ainda: estabeleceu que tudo quanto venha dos Espíritos — e, por extensão, toda afirmação apresentada em nome do Espiritismo — deve ser submetido ao exame da razão, do bom senso e da lógica. Kardec é categórico: uma teoria incompatível com esses critérios deve ser rejeitada, “por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura”.
Se nem mesmo um nome apresentado como assinatura de uma comunicação espiritual deveria suspender o julgamento crítico, por que o nome de uma instituição deveria fazê-lo?
O palestrante “É da FEB” não é argumento. É justamente aqui que reside o equívoco. Quando alguém afirma “ele é da FEB” para encerrar uma discussão ou conferir autoridade automática a uma palestra, está substituindo o argumento pela procedência institucional. Trata-se de uma espécie de argumento de autoridade deslocado: em vez de perguntar se a ideia está de acordo com os princípios doutrinários, com a lógica e com os fatos, pergunta-se de onde veio o palestrante.
Mas a verdade não se torna verdadeira porque foi pronunciada por alguém ligado a uma instituição; nem o erro se converte em acerto porque o expositor possui uma credencial prestigiosa. Um orador pode ser excelente e frequentar a FEB. Pode ser excelente e jamais ter pertencido a qualquer federação. Pode, igualmente, sustentar ideias discutíveis, mesmo ocupando posição de destaque em uma organização espírita. O vínculo institucional é uma circunstância biográfica; não é certificado de superioridade intelectual ou moral.
Aliás, o próprio método kardequiano é incompatível com o culto à personalidade e com a submissão passiva a autoridades humanas. Em O que é o Espiritismo?, Kardec reafirma que as questões duvidosas devem ser submetidas ao exame severo da razão, do bom senso e da lógica, não à aceitação automática de quem fala.
Isso exige uma mudança de hábito no movimento espírita: menos preocupação com o crachá e mais atenção ao conteúdo.
O prestígio institucional não deve funcionar como salvo-conduto
Há casos em que o próprio expositor, de maneira explícita ou sutil, apresenta seu vínculo institucional como credencial de autoridade. “Sou da FEB.” “Trabalho na Federação.” “Represento tal instituição.” Nada há de errado em informar uma trajetória. O problema começa quando essa informação é utilizada como um salvo-conduto contra a crítica.
Ninguém deve ser aceito ou rejeitado apenas porque pertence a esta ou àquela instituição. A pergunta espírita deveria ser outra: o que ele está ensinando? Onde está o fundamento? Isso resiste ao exame das obras fundamentais da Codificação, da razão e da coerência?
É possível que um modesto trabalhador anônimo de uma pequena casa espírita apresente uma exposição profundamente fiel à Doutrina. Também é possível que uma personalidade conhecida, cercada de títulos e apresentações grandiosas, expresse opiniões pessoais, interpretações frágeis ou mesmo ideias estranhas ao pensamento de Kardec.
Por isso, é necessário recuperar uma virtude essencial: a independência de consciência.
Instituições devem ser respeitadas; pessoas não devem ser idolatradas
Respeitar a FEB, as federações estaduais e as casas espíritas não significa atribuir-lhes infalibilidade. Instituições são constituídas por seres humanos, e seres humanos podem acertar e errar. A instituição não deve ser demonizada, mas também não deve ser transformada em oráculo.
O Espiritismo nasceu precisamente para combater a aceitação cega. Kardec não pediu seguidores que acreditassem de palavra. Pediu observação, comparação, análise e controle. A autoridade doutrinária não repousa no prestígio individual, mas na convergência racional dos princípios e no método crítico que sustenta a Codificação.
É preocupante quando a audiência abandona essa atitude e passa a raciocinar assim: “Se é da FEB, deve estar certo.” Não! Pode estar certo ou errado. A filiação não resolve a questão. O conteúdo é que precisa ser examinado.
Essa postura é ainda mais necessária em um tempo no qual a fama, as redes sociais e a repetição podem fabricar autoridades instantâneas. Um nome frequentemente anunciado, uma instituição constantemente invocada e uma plateia acostumada a aplaudir podem criar a ilusão de que a popularidade substitui o estudo.
Não substitui.
Menos rótulos, mais responsabilidade
Talvez esteja na hora de abandonarmos certas apresentações quase publicitárias: “Fulano, da FEB”; “Beltrano, da Federação”; “Ciclano, representante de determinada instituição”, como se essas expressões fossem argumentos antecipados.
Fulano deve ser apresentado pelo que produz, pelo que estuda, pela coerência do que ensina e pela responsabilidade com que fala.
Ser “da FEB” pode informar onde alguém trabalha ou frequenta. Não informa, por si só, se essa pessoa estudou profundamente Kardec. Não garante equilíbrio, lucidez ou fidelidade doutrinária. Não concede licença para que suas opiniões pessoais sejam confundidas com a Doutrina Espírita.
O movimento espírita precisa amadurecer. Não precisamos de uma aristocracia de siglas, nem de uma hierarquia informal de celebridades. Precisamos de trabalhadores que saibam fundamentar o que dizem — e de ouvintes que tenham coragem de pensar.
No Espiritismo, o argumento não deve ser: “Acredite em mim porque pertenço a tal instituição.” O verdadeiro espírito kardequiano exige algo muito mais nobre: “Examine o que digo. Compare. Raciocine. E aceite somente aquilo que resistir ao crivo da razão e dos princípios doutrinários.”
O nome da instituição merece respeito. Mas não pode substituir o argumento.
O crachá pode abrir a porta de uma organização. Jamais deveria fechar a porta da consciência crítica.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013. Introdução, item II: “Autoridade da Doutrina Espírita. Controle universal do ensino dos Espíritos”.
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo? Capítulo II, “Noções elementares de Espiritismo”, item “Contradições”, questão 99. Disponível no acervo de estudo kardequiano.