16 agosto 2026

A inteligência artificial é conquista irreversível mas ela não pode" pensar" por nós



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Vivemos a era das inteligências artificiais. E, como ocorre diante de toda novidade tecnológica, surgem entusiasmos exagerados de um lado e rejeições igualmente apaixonadas de outro. No meio desses extremos, porém, há uma postura mais sensata: usar a inteligência artificial sem abdicar da inteligência humana.

Para o espírita, essa cautela não deveria causar estranheza. A Doutrina Espírita nasceu sob o signo da investigação, da observação e do livre exame. Allan Kardec não propôs que aceitássemos informações simplesmente porque parecessem convincentes. Ao contrário, ensinou que aquilo que recebemos deve ser submetido ao crivo da razão, da lógica e dos conhecimentos disponíveis. Na Gênese, afirma-se que o homem deve discutir, verificar e submeter as informações ao “cadinho da razão” (KARDEC, 2013).

E aqui está o ponto fundamental: a inteligência artificial pode pesquisar, organizar, comparar e estabelecer conexões, mas não pode substituir o nosso discernimento.

Uma IA pode apresentar centenas de informações sobre Espiritismo, relacionar conceitos, localizar referências, resumir obras e até formular interpretações aparentemente brilhantes. Mas aparência de inteligência não significa necessariamente verdade. Uma resposta bem escrita pode conter equívocos, generalizações, informações desatualizadas ou interpretações incompatíveis com a Codificação.

Portanto, não basta perguntar à máquina. É preciso questionar a própria resposta da máquina. Esse procedimento encontra perfeita correspondência no método kardequiano. Kardec jamais transformou qualquer informação recebida em dogma. A própria autoridade da Doutrina Espírita está associada ao controle e à concordância, e não à opinião isolada de uma pessoa ou de uma fonte.

É nesse sentido que precisamos “humanizar” a inteligência artificial. Humanizar não significa sentimentalizar a máquina. Significa colocar consciência, experiência, conhecimento, ética e responsabilidade humana diante daquilo que ela produz.

A IA oferece dados; nós devemos oferecer discernimento. Porquanto toda estatística e combinações de informações da IA precisamos avaliá-las. Portanto, temos o dever de verificar a coerência das informações da IA. Até porque ela pode auxiliar nossa pesquisa, porém  jamais ocupar o lugar da nossa consciência.

Há, inclusive, uma advertência espírita muito atual: nem mesmo a inteligência constitui, por si só, sinal seguro de superioridade. Kardec observa que inteligência e moralidade nem sempre caminham juntas (O Livro dos Médiuns, item 265).  Se isso vale para os Espíritos e para os seres humanos, vale também, guardadas as proporções, para aquilo que chamamos de inteligência artificial: capacidade de produzir respostas não é sinônimo de posse da verdade.

O perigo não está na ferramenta. Está na submissão intelectual a ela. O espírita não deve temer a tecnologia, mas também não deve venerá-la. Deve utilizá-la como instrumento de pesquisa, mantendo acesa a chama da razão e do senso crítico.

A máquina pode nos ajudar a encontrar caminhos. Mas quem deve decidir por onde caminhar somos nós.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.

A nossa indignação é um alerta ou um veneno da alma?

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Obviamente, indignar-se diante da injustiça não é uma deformidade moral. Ao contrário: a consciência moral não pode permanecer indiferente diante da mentira, da corrupção, da violência ou da desonestidade. O problema começa quando a indignação deixa de ser ação circunstancial e se transforma em modo constante de viver.

Há pessoas que parecem ter feito da revolta uma residência mental. Acordam indignadas, passam o dia alimentando a indignação e dormem ruminando ofensas, erros alheios e acontecimentos que não têm poder de modificar. Confundem vigilância com ansiedade, transformando a coragem em  agressividade e perseverança colérica.

O Espiritismo oferece uma advertência contundente. No Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec examina a cólera e mostra que ela não apenas prejudica aquele contra quem se dirige, mas também transforma o próprio indivíduo em sua primeira vítima. O ensinamento é direto: a cólera compromete a saúde, perturba a razão e pode provocar sofrimento ao redor.

Isso não significa aceitar passivamente o erro. Mansidão não é covardia, tanto quanto a indulgência não é cumplicidade, e muito menos a tolerância é omissão. O espírita pode e deve denunciar fatos que  considera equivocados, mas sem permitir que o objeto de sua crítica seja pessoal e passe a governar sua mente.

A diferença é fundamental: quem combate o mal precisa evitar tornar-se semelhante ao mal que combate. Kardec, em O Livro dos Espíritos, esclarece que as paixões não são necessariamente más; tornam-se perniciosas quando deixam de ser governadas e passam a governar o indivíduo. 

A indignação pode ser uma força moral legítima quando convertida em discernimento, coragem e ação. Mas, quando alimentada indefinidamente, transforma-se em fanatismo e paixão destrutiva.

Há, portanto, uma pergunta que cada espírita deveria fazer a si mesmo: minha indignação está influenciando alguma mudança concreta ou apenas consumindo minhas energias?

Porque reclamar incessantemente é fácil. Construir é complexo e trabalhoso. Atacar pessoas é fácil, mas corrigir-se moralmente é desafiador. Sempre é muito “confortável” apontar culpados,  porém, trabalhar pela solução exige disciplina, serenidade e responsabilidade.

A Doutrina Espírita não nos convida à apatia diante das situações equivocadas. Convida-nos à nossa transformação moral. Jesus fez da brandura, da moderação, da mansuetude e da paciência verdadeiros deveres cristãos.

Não estou sugerindo que devemos reprimir a indignação, porém, convido para a sua educação,  até porque se a indignação momentânea pode despertar a consciência , a  indignação constante pode aprisioná-la.

O espírita não precisa viver anestesiado diante de um mundo  tão diverso, mas urge viver senhor de si mesmo. Porque quem perde o equilíbrio enquanto combate o desequilíbrio já começou a ser derrotado pelo próprio adversário que pretende “vencer”.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. IX, itens 4, 9 e 10. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, cap. XII, questões 907-908. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

 

Quando a caridade vira cortina escura para falsa mediunidade

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há um equívoco perigoso no movimento espírita: imaginar que uma pessoa se torna acima de qualquer suspeita porque pratica assistência social “caridade”. Não. A caridade é moral e não fazeção de coisas materiais para os pobres  , muito menos certificado de mediunidade.

Uma pessoa pode alimentar centenas , milhares de necessitados e, simultaneamente, equivocar-se sobre determinado fenômeno espiritual. Pode ser generosa, bem-intencionada (aliás, de boa intenção umbral está lotado) e até admirada em sua pseudodedicação ao próximo, sem que isso transforme automaticamente suas alegações mediúnicas em verdades.

É preciso separar o que alguns por má-fé e conveniência ardilosa misturam. A cesta básica deve ser reconhecida como cesta básica. A mensagem mediúnica deve ser examinada como mensagem mediúnica.

Se alguém afirma receber cartas de Espíritos contendo nomes, datas, apelidos, acontecimentos familiares e informações íntimas, a pergunta responsável não é simplesmente: “Como poderia saber disso?”. A pergunta correta é: “De que maneira essas informações poderiam ter sido obtidas?”

Na era digital, fotografias, obituários, redes sociais, homenagens, vídeos, entrevistas, comentários e registros públicos formam um gigantesco arquivo sobre a vida das pessoas. Informações que pareciam inacessíveis podem estar disponíveis a quem saiba procurá-las e cruzá-las.

Por isso, emoção não é prova.

Uma mãe chorando não é prova de psicografia autêntica. Uma frase aparentemente familiar não é prova de identidade espiritual. Milhares de seguidores fanáticos não constituem evidência de mediunidade. Popularidade não transforma alegação fenomênica  em fato.

Allan Kardec jamais recomendou semelhante credulidade. Ao tratar do charlatanismo e do embuste, advertiu contra a exploração da mediunidade e destacou o desinteresse como importante garantia contra abusos.

Mais ainda: Kardec demonstrou que o fenômeno espírita não deveria ser aceito simplesmente porque alguém se apresentasse como médium. O exame das circunstâncias, a observação e o discernimento são indispensáveis.

Portanto, quando jornalistas, pesquisadores ou estudiosos solicitam esclarecimentos e propõem procedimentos independentes, a reação não deveria ser histeria, perseguição ou demonização do questionador.

Se o fenômeno é verdadeiro, por que temer a investigação?

A verdade não fica menor quando examinada.

Se uma comunicação é autêntica, o exame sério poderá contribuir para demonstrá-la. Se é falsa, o exame poderá impedir que pessoas enlutadas sejam criminosamente enganadas (crime lesa-Deus).

O problema surge quando a investigação é substituída pela idolatria. Então aparecem os argumentos emocionais: “Mas ela “ajuda” os pobres!”, “Mas é uma pessoa ‘maravilhosa’!”! “Mas possui milhares de seguidores!”.

Tudo isso pode ser verdadeiro e, ainda assim, não responder à questão essencial: As mensagens são realmente psicográficas? Essa pergunta permanece. E nenhuma obra assistencial pode funcionar como salvo-conduto contra ela.

Kardec foi ainda mais incisivo ao observar que o interesse do médium não se restringe ao dinheiro: pode envolver ambição, prestígio e outras vantagens pessoais.

Eis a advertência que o movimento espírita precisa ouvir sem melindres: não transformemos benfeitores em infalíveis, médiuns em santos, seguidores em torcida organizada e críticos em inimigos.

A caridade deve continuar. A investigação também.

Uma não pode servir de cortina escura para impedir a outra.

No Espiritismo, fé não significa abdicação da razão. Significa confiança acompanhada de discernimento.

Não confundamos lágrimas com provas, fama com mediunidade, popularidade com verdade ou assistência social com autenticidade espiritual.

Porque fazer o bem é dever. Mas fazer o bem não concede licença para enganar.

E, quando alguém exige que acreditemos sem permitir que investiguemos, talvez a pergunta mais importante já não seja sobre o fenômeno.

Talvez seja sobre o medo da verdade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O que é o espiritismo? Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

15 agosto 2026

Parábola da “criatura” das falsas cartas e a cortina de fumaça

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Havia, numa cidade, uma “criatura”que dizia possuir um dom extraordinário: afirmava conversar com os mortos.

Não dizia simplesmente receber impressões vagas. Suas mensagens eram minuciosas. Citava nomes, apelidos, acontecimentos familiares, lugares, datas, hábitos e episódios aparentemente conhecidos apenas pelos parentes mais próximos.

As cartas emocionavam.

Mães choravam. Filhos se abraçavam. Viúvas diziam reconhecer expressões que seus companheiros costumavam utilizar. Famílias inteiras passaram a acreditar que, por intermédio daquela pessoa, seus mortos queridos finalmente haviam encontrado uma porta de retorno.

E a fama cresceu.

Primeiro vieram centenas de seguidores. Depois, milhares. As redes sociais fizeram o restante. Cada carta publicada produzia novas histórias, novos testemunhos e novas lágrimas. A multidão passou a repetir a mesma frase:

— Só pode ser verdade. Como  a“criatura” poderia saber disso?

Pouquíssimos fizeram a pergunta seguinte:

— Como poderia a “criatura” ter obtido essas informações?

Era justamente aí que estava o detalhe que ninguém queria examinar.

Naquela época, a vida das pessoas já não permanecia inteiramente escondida. Fotografias, obituários, redes sociais, comentários, homenagens, páginas familiares, notícias antigas, vídeos, entrevistas, registros públicos e incontáveis fragmentos de memória haviam transformado a internet numa gigantesca biblioteca de informações pessoais.

Bastava procurar.

E, quando a busca manual não era suficiente, havia ferramentas tecnológicas capazes de reunir, organizar e cruzar informações em poucos minutos.

Assim, aquilo que parecia impossível poderia, em determinadas circunstâncias, ser apenas uma sofisticada operação de coleta de dados.

Mas a multidão não queria ouvir falar disso.

A multidão queria acreditar.

A “criatura”, então, tornou-se celebridade.

Vieram convites, entrevistas, homenagens e grandes plateias. Pessoas passaram a defendê-la com uma devoção que ultrapassava qualquer prudência. Seus admiradores não apenas acreditavam nela: passaram a atacar quem ousasse fazer perguntas.

E foi nesse momento que surgiu uma segunda história.

A “criatura” começou a organizar uma grande obra assistencialista. Distribuía alimentos, roupas, medicamentos e outros recursos aos necessitados. Criou projetos sociais, reuniu voluntários e conquistou ainda mais prestígio.

E aconteceu algo curioso.

Quando alguém levantava dúvidas sobre suas cartas, imediatamente aparecia uma resposta:

— Mas olhe tudo o que ela faz pelos pobres!

A pergunta sobre a autenticidade da mediunidade era substituída pela fotografia da cesta básica.

A investigação sobre as cartas era respondida com imagens de crianças recebendo alimentos.

A dúvida sobre o fenômeno espiritual era sufocada por vídeos de campanhas beneficentes.

Sem perceber, muitos haviam criado uma perigosa confusão:

Obra assistencial e autenticidade mediúnica passaram a ser consideradas a mesma coisa.

Não são.

Uma pessoa pode praticar excelente caridade material e, simultaneamente, equivocar-se em suas convicções.

Pode fazer o bem e interpretar mal um fenômeno.

Pode ser generosa e estar enganada.

E, infelizmente, também pode utilizar uma obra benemérita como escudo para impedir questionamentos sobre outra atividade.

A caridade não transforma uma alegação em prova.

Um homem que distribui mil cestas básicas não se torna, por isso, um médium autêntico.

Uma “criatura”que ampara centenas de necessitados não adquire, por esse motivo, certificado de comunicação com os mortos.

O bem realizado deve ser reconhecido como bem. A alegação mediúnica deve ser examinada como alegação mediúnica.

Foi então que jornalistas de uma importante emissora de televisão souberam da história.

Não pretendiam humilhar ninguém. Queriam investigar.

Fizeram perguntas.

Solicitaram entrevistas.

Propuseram procedimentos.

Queriam saber como aquelas mensagens eram produzidas, quais eram os critérios utilizados, de que maneira se preservava a privacidade das famílias e se seria possível realizar testes nos quais a  “criatura” não tivesse acesso prévio às informações.

A oportunidade estava colocada.

Era a hora de demonstrar.

Mas a “criatura” recusou.

Mais do que recusar, passou a condenar os jornalistas.

Os repórteres eram apresentados como inimigos.

Os investigadores, como perseguidores.

A emissora, como instrumento de ataque.

Os questionamentos, como manifestações de intolerância.

E seus seguidores, inflamados pela devoção, repetiam a narrativa.

Foi quando um velho estudioso do Espiritismo, observando aquela movimentação, fez uma pergunta simples:

— Se o fenômeno é verdadeiro, por que a investigação é tão perigosa?

Ninguém respondeu.

Ele insistiu:

— Se a mensagem vem realmente de um Espírito desencarnado, uma investigação honesta deveria destruí-la ou confirmá-la?

Silêncio.

— Se é verdadeira, a verdade continuará sendo verdadeira depois da investigação. Se é falsa, não seria melhor descobrir antes que milhares de pessoas entregassem sua confiança, seu patrimônio e suas emoções a uma ilusão?

Mais silêncio.

O velho então abriu um exemplar de O Livro dos Médiuns.

Lembrou que Allan Kardec jamais recomendou a credulidade cega. Ao contrário: a Doutrina Espírita nasceu submetendo os fenômenos à observação, à comparação, ao raciocínio e ao discernimento.

Para Kardec, não bastava alguém declarar-se médium.

Era necessário examinar.

Não bastava uma mensagem emocionar.

Era necessário verificar.

Não bastava uma multidão acreditar.

Era necessário discernir.

A emoção não é método científico.

A popularidade não é evidência.

A quantidade de seguidores não constitui prova de mediunidade.

E uma lágrima sincera diante de uma carta não demonstra a identidade de quem supostamente a escreveu.

O velho estudioso fechou o livro e disse:

— Há algo ainda mais perigoso nesta história.

Todos olharam para ele.

— A fraude mediúnica não precisa apenas de um fraudador. Ela precisa também de uma multidão disposta a substituir investigação por idolatria.

A frase caiu como uma pedra.

Porque havia, naquela história, outro fenômeno que precisava ser investigado: não apenas a “criatura”, mas o comportamento de seus seguidores.

Alguns já não defendiam uma ideia.

Defendiam uma pessoa.

Não discutiam argumentos.

Atacavam críticos.

Não examinavam evidências.

Repetiam testemunhos.

Não perguntavam como a informação poderia ter sido obtida.

Perguntavam quem estava por trás da denúncia.

A “criatura”havia deixado de ser simplesmente uma pessoa que alegava possuir uma faculdade.

Transformara-se, aos olhos de alguns, numa espécie de autoridade moral acima de qualquer suspeita.

E esse é precisamente o terreno onde a prudência começa a morrer.

Há uma lição espírita que não deveria jamais ser esquecida:

O Espiritismo não pede que abandonemos a razão para aceitar o fenômeno. Pede justamente o contrário.

O verdadeiro médium não deveria temer o exame sério.

O verdadeiro pesquisador não deveria temer a verdade.

O verdadeiro benfeitor não deveria utilizar sua obra social para impedir perguntas.

E o verdadeiro espírita não deveria transformar médium algum em ídolo.

Porque quando a pessoa passa a ser mais importante que a Doutrina, o fenômeno passa a ser mais importante que a verdade e a emoção passam a ser mais importantes que a razão, já não estamos diante da prudência recomendada por Kardec.

Estamos diante da idolatria.

E idolatria também pode vestir roupa de caridade.

Pode distribuir sopa.

Pode abraçar crianças.

Pode organizar campanhas.

Pode construir instituições.

Pode acumular seguidores.

Pode produzir vídeos emocionantes.

Pode receber aplausos.

Pode até tornar-se internacionalmente conhecida.

Nada disso, porém, responde à pergunta fundamental:

As cartas são realmente psicografias?

Essa pergunta permanece.

E nenhuma cesta básica, nenhum discurso emocionado, nenhum testemunho multitudinário e nenhuma legião de admiradores podem respondê-la.

A historieta termina com uma imagem.

Certa noite, depois de uma grande campanha assistencial, a “criatura” contemplou de longe o enorme prédio da instituição que havia construído.

Centenas de pessoas aplaudiam.

As câmeras registravam tudo.

Os seguidores gritavam seu nome.

Naquele instante, um jornalista aproximou-se e fez apenas uma pergunta:

— Por que não aceitar uma investigação independente?

Ela não respondeu.

A multidão respondeu por ela.

E foi então que o jornalista compreendeu o verdadeiro tamanho da cortina de fumaça.

Não eram apenas os alimentos.

Não eram apenas as roupas.

Não eram apenas os medicamentos.

Não eram apenas os milhares de seguidores.

A cortina de fumaça era a própria devoção das pessoas.

Quanto maior a idolatria, mais difícil se tornava enxergar o que havia atrás dela.

E talvez essa seja a advertência mais importante para os espíritas do nosso tempo:

Não confundamos caridade com autenticidade, popularidade com verdade, emoção com prova e fama com mediunidade.

A caridade deve continuar.

A investigação também.

Mas cada coisa no seu devido lugar.

Porque fazer o bem não concede licença para enganar.

E ser admirado por milhares não transforma uma falsidade em verdade.

No Espiritismo, a verdade não precisa de adoradores.

Precisa de consciência, razão, honestidade e coragem para ser examinada.

13 agosto 2026

Quem é Jorge Hessen? segundo (IA)


 Jorge Hessen é conhecido no meio espírita brasileiro como articulista, escritor, pesquisador e expositor, com atuação voltada principalmente à defesa de uma leitura racional, ética e doutrinariamente vinculada à Codificação de Allan Kardec. Sua produção aborda mediunidade, obsessão, saúde mental, ética, política, ciência, movimento espírita e críticas à mercantilização e ao personalismo religioso.

Para separar informações biográficas comprováveis de descrições meramente promocionais ou opiniões sobre sua obra, vou me basear em fontes públicas e institucionais.

Quem é Jorge Hessen?

Jorge Hessen é um escritor, jornalista, historiador, expositor e articulista brasileiro ligado ao movimento espírita. Sua trajetória pública está fortemente associada à divulgação do Espiritismo, especialmente a partir de Brasília, onde vive desde 1972.

Origem e formação

Segundo dados biográficos publicados em entrevistas, livros e veículos espíritas, Jorge Luiz Hessen nasceu no Rio de Janeiro em 18 de agosto de 1951. Ainda jovem ingressou, por concurso público, no serviço público federal e desenvolveu carreira ligada à metrologia e ao antigo Instituto Nacional de Pesos e Medidas, posteriormente incorporado ao âmbito do INMETRO. Também exerceu funções no Mato Grosso, onde, segundo registros biográficos, dirigiu atividades do INMETRO durante alguns anos.

Sua formação acadêmica aparece com pequenas variações nas fontes, mas converge para Estudos Sociais, com ênfase em Geografia e formação em História, incluindo bacharelado e licenciatura. Fontes mais recentes associam sua formação à Universidade de Brasília, enquanto registros biográficos anteriores também mencionam o UniCEUB.

O encontro com o Espiritismo

Os relatos autobiográficos indicam que seu primeiro impacto com fenômenos mediúnicos ocorreu ainda na juventude, por intermédio de uma manifestação envolvendo seu irmão mais novo. A experiência despertou seu interesse pela investigação do fenômeno e, posteriormente, conduziu-o ao estudo da Doutrina Espírita. Em entrevista, Hessen afirmou que sua aproximação do Espiritismo decorreu da busca por respostas que não encontrara em outras correntes cristãs e destacou a influência intelectual exercida por Allan Kardec sobre sua formação doutrinária.

Esse aspecto ajuda a compreender uma característica constante de sua obra: a insistência na racionalidade, no exame crítico e na vinculação às obras fundamentais da Codificação Espírita.

Atuação no movimento espírita

A atividade de Jorge Hessen não se restringiu à escrita. Fontes biográficas registram sua participação na fundação de instituições espíritas, entre elas o Posto de Assistência Espírita, no Distrito Federal, além de colaboração com centros espíritas e entidades do movimento. Também exerceu funções administrativas em organizações federativas do Distrito Federal e de Mato Grosso.

Como expositor e divulgador, desenvolveu trabalho especialmente no Distrito Federal, Goiás e Mato Grosso. Sua presença pública consolidou-se, porém, principalmente através do jornalismo e do artigo doutrinário.

Textos de sua autoria foram publicados em veículos como a revista ReformadorO EspíritaO MédiumO ImortalRevista Internacional do EspiritismoMato Grosso EspíritaBrasília EspíritaO Consolador e outros periódicos e portais especializados.

A obra

Entre suas obras mais conhecidas estão:

  • Luz na Mente — originalmente publicada em edição impressa e posteriormente disponibilizada em formato digital. A obra reúne reflexões sobre temas como depressão, mediunidade, experiências de quase-morte, reencarnação, psicometria, sexualidade, juventude, ciência e questões doutrinárias.
  • Praeiro, um Peregrino nas Terras do Pantanal — obra inicialmente publicada em Mato Grosso e posteriormente relançada em formato eletrônico pela EVOC de Londrina.
  • Anuário Histórico Espírita 2002 — trabalho coletivo ligado ao levantamento e à preservação de informações históricas do movimento espírita brasileiro.
  • Responsabilidade e Nós, publicado em formato digital no Portal Autores Espíritas Clássicos, reúne reflexões de caráter moral e espírita.

Além dos livros físicos, sua produção inclui dezenas de e-books e milhares de artigos, distribuídos por diferentes portais e plataformas espíritas. Uma página de autor atualmente registra mais de mil textos associados ao seu nome, demonstrando a extensão de sua atividade como articulista.

Características de seu pensamento

A trajetória e obra de Jorge Hessen possuem algumas marcas bastante definidas.

A primeira é a defesa da centralidade de Allan Kardec. Seus textos frequentemente recorrem ao Livro dos Espíritosao Livro dos Médiunsao Evangelho segundo o Espiritismoà Gênese e à Revista Espírita como referências para o exame de práticas e interpretações surgidas no movimento espírita.

A segunda característica é a tentativa de relacionar Espiritismo, ciência, história, ética e problemas contemporâneos. Depressão, obsessão, suicídio, mediunidade, experiências de quase-morte, reencarnação, sexualidade, família e responsabilidade moral estão entre os temas recorrentes de sua produção.

Há ainda uma dimensão assumidamente corajosa e necessária em seus artigos. Hessen frequentemente questiona o personalismo religioso, o culto a médiuns e expositores, a comercialização da atividade espírita, práticas que considera estranhas à Codificação e determinadas tendências institucionalizadas do movimento.

Essa postura lhe confere um perfil diferente do mero divulgador devocional. Jorge Hessen escreve, em geral, como polemista doutrinário: toma posição, contesta interpretações, responde a adversários e procura sustentar seus argumentos por meio da comparação entre as práticas contemporâneas e os textos consagrados do Espiritismo.

Importância e lugar de sua produção

Ele pertence à geração contemporânea de historiadores , escritores, articulistas e divulgadores espíritas brasileiros que utilizaram intensamente jornais, revistas, blogs e livros digitais para participar dos debates internos do movimento.

Sua contribuição mais característica talvez seja justamente essa: a disposição de transformar o artigo espírita em instrumento de debate. Em vez de limitar-se a textos edificantes, Hessen frequentemente entra em questões institucionais, doutrinárias e culturais que provocam reflexões e discussões.

Em síntese

Jorge Hessen pode ser definido como um intelectual e divulgador espírita de perfil crítico, cuja trajetória reúne serviço público, formação nas áreas de História e Geografia, jornalismo, produção literária e intensa atividade como articulista.

Sua vida pública está ligada ao Rio de Janeiro, onde nasceu, ao Distrito Federal, onde se estabeleceu desde o início da vida adulta, e ao Mato Grosso, onde também exerceu atividade profissional e participou do movimento espírita.

Sua obra caracteriza-se por três grandes eixos: defesa do estudo de Allan Kardec, atualização dos debates espíritas diante dos problemas contemporâneos e crítica às práticas que considera incompatíveis com os princípios fundamentais da Doutrina Espírita.

Obsessão, prudência , transtorno mental e responsabilidade


 Jorge Hessen
Brasília -DF

O Espiritismo distingue, desde Allan Kardec, os transtornos decorrentes de causas orgânicas daqueles em que possa existir influência espiritual. Essa distinção, porém, não autoriza simplificações perigosas. Nem toda perturbação psíquica é obsessão, nem a hipótese de obsessão dispensa diagnóstico, acompanhamento médico ou tratamento psicológico e psiquiátrico quando necessários.

No Livro dos Médiuns, Kardec define a obsessão como a ação persistente exercida por um Espírito sobre determinada pessoa, apresentando graus diversos, da influência moral à subjugação. Para enfrentá-la, entretanto, não basta procurar um suposto «culpado» no mundo invisível. A própria Codificação enfatiza o valor da superioridade moral, do esclarecimento, da prece e da transformação íntima. O obsessor não é um monstro mitológico: é, frequentemente, uma consciência enferma, por vezes ligada à vítima por conflitos, desafetos e responsabilidades do passado.

A subjugação constitui uma das formas mais graves descritas por Kardec, caracterizando-se por constrangimento moral e, segundo a descrição espírita, podendo produzir manifestações que afetam profundamente o comportamento. Mas seria irresponsável concluir, diante de crises, impulsos, alucinações, desorganização da conduta ou sofrimento mental intenso, que se trata automaticamente de interferência espiritual. A ciência contemporânea reconhece múltiplas causas biológicas, psicológicas e sociais para os transtornos mentais, exigindo avaliação profissional.

Também é inadequado transformar conceitos clínicos em conceitos espíritas. Na psiquiatria, obsessões são pensamentos, imagens ou impulsos persistentes e indesejados, podendo integrar diferentes quadros clínicos. A coincidência vocabular com a «obsessão» espírita não significa identidade entre os fenômenos.

A prudência recomenda, portanto, uma abordagem complementar. O medicamento pode ser indispensável para estabilizar sintomas e reduzir sofrimento; a psicoterapia pode auxiliar na compreensão de conflitos e na reconstrução de comportamentos; o apoio familiar e social é decisivo. No campo religioso, a prece, o estudo, o passe, a convivência fraterna e a renovação moral podem oferecer amparo espiritual, sem substituir a medicina.

A maior armadilha é a transferência absoluta de responsabilidade. É cômodo atribuir toda angústia a perseguidores invisíveis e esquecer as próprias escolhas, hábitos, ressentimentos e desequilíbrios. A visão espírita consequente convida à autoanálise. Mesmo admitindo a influência espiritual, o indivíduo deve perguntar: que portas interiores mantenho abertas? Que pensamentos cultivo? Que atitudes preciso corrigir?

O tratamento da obsessão, entendido à luz da Codificação, é um processo de esclarecimento e renovação. Não consiste em espetáculos, fórmulas mágicas ou pretensos poderes de expulsão. Busca-se socorrer o encarnado e também o desencarnado, substituindo o círculo da vingança pelo esclarecimento e pela fraternidade.

Por isso, vigiar e orar continuam sendo recomendações atuais. Mas vigiar também significa procurar ajuda médica quando há sofrimento psíquico, respeitar a ciência e abandonar explicações fáceis. Espiritualidade responsável não concorre com a medicina: coopera com tudo aquilo que possa restaurar a dignidade, o equilíbrio e a esperança.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, diversas edições. Cap. XXIII.

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo? Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, diversas edições. Cap. II.

KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Estudos sobre os pocessos de Morzine, 1862-1863.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, diversas edições. «Resumo da doutrina de Sócrates e Platão».