Jorge Hessen
Brasília -DF
Vamos refletir aqui sobre a intolerável militância política, a coerência moral e a responsabilidade espírita.
A eleição já ocorreu. Acabou! Quem frequenta uma casa espírita para aprender com Jesus precisa examinar, com sinceridade, se sua militância política está em consonância com os princípios do Evangelho.
Há uma incoerência gritante que precisa ser enfrentada no movimento espírita: frequentar a instituição, discursar sobre o amor ao próximo e, ao atravessar a porta, transformar as redes sociais em trincheiras de agressividade, ataques pessoais, desqualificação de adversários e disputas ideológicas. Afinal, que Evangelho estamos efetivamente praticando? A doutrina que professamos deve orientar nossa conduta cotidiana ou será apenas um discurso conveniente, abandonado quando contraria nossas paixões?
A transformação moral não pode ficar restrita às paredes do centro espírita. O compromisso com o Cristo precisa repercutir em nossas relações familiares, profissionais e sociais, sobretudo quando divergimos de quem pensa diferente. Em O Livro dos Espíritos, na questão 886, Allan Kardec registra a definição de caridade ensinada por Jesus: benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Não há ressalva partidária nessa orientação. Não podemos ser indulgentes com os correligionários e implacáveis com os adversários, como se a virtude dependesse da legenda que alguém defende.
A cidadania é legítima e constitui direito fundamental assegurado pela Constituição Federal (BRASIL, 1988, art. 5º). O Espiritismo não exige alienação política, tampouco proíbe a participação consciente na vida pública. A questão central é outra: quando a convicção se converte em fanatismo, a crítica degenera em hostilidade e o adversário político passa a ser tratado como inimigo moral, algo essencial e moralmente se perdeu. A defesa de ideias não nos autoriza a ferir consciências, alimentar rancores ou disseminar desprezo.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente nos capítulos XI e XVII, Kardec examina o mandamento do amor ao próximo e a necessidade de reconhecer o verdadeiro cristão por suas obras. Isso exige coerência entre aquilo que proclamamos e aquilo que fazemos. Não podemos servir a Jesus no discurso e ao ódio na prática. O Mestre nos ensinou a amar uns aos outros, não a nos armarmos contra aqueles que divergem de nossas escolhas.
A casa espírita, por sua vez, deve preservar sua finalidade educativa, fraterna e doutrinária, sem se transformar em extensão de palanque eleitoral. Se um ambiente religioso se torna palco de hostilidades ideológicas, cabe buscar o diálogo e a pacificação; se isso se mostrar impossível, é legítimo procurar outra instituição, sem converter a divergência em perseguição ou ressentimento.
Não fomos chamados a vencer adversários políticos, mas a vencer, dentro de nós, o egoísmo, o orgulho e a intolerância que ainda nos distanciam do amor ao próximo. A eleição terminou; a tarefa de renovação moral, não. O voto expressa uma escolha cívica, mas não constitui certificado de superioridade ética nem dispensa ninguém do dever de respeitar o semelhante.
Ou aprendemos a conviver fraternalmente com as diferenças, ou continuaremos repetindo as lições que nos recusamos a assimilar.
Pensemos nisso!
Referências Bibliográficas:
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000.








