27 outubro 2026

Fidelidade a Kardec ou submissão ao misticismo inútil?




Jorge Hessen

Brasília -DF

A instituição espírita não pode ser refém de personalismos, modismos terapêuticos e revelações sem controle racional. Sua missão exige estudo, discernimento e responsabilidade moral.

A Casa Espírita deve ser um celeiro de esperanças na tumultuada noite das angústias humanas. Sua finalidade, porém, não se resume ao acolhimento fraterno ou à assistência material. Deve promover o conhecimento espírita, o amadurecimento da consciência e a transformação moral, sem os quais a caridade corre o risco de degenerar em assistencialismo desprovido de educação espiritual.

Como célula fundamental do Movimento Espírita, o Centro deve preservar a identidade da Doutrina codificada por Allan Kardec. Entretanto, a expansão do Espiritismo nem sempre tem sido acompanhada pelo estudo metódico de suas obras fundamentais. O resultado é preocupante: princípios doutrinários são confundidos com opiniões particulares, manifestações mediúnicas são aceitas sem exame e práticas estranhas à Codificação recebem indevidamente o rótulo de espíritas.

Em O Livro dos Espíritos, questão 625, Kardec identifica Jesus como modelo e guia da humanidade. Na questão 886, esclarece o sentido da caridade segundo o Cristo. Já O Evangelho segundo o Espiritismo, na introdução, seção II, estabelece o controle universal do ensino dos Espíritos como critério de autoridade doutrinária. A concordância das comunicações, aliada ao exame da razão, impede que revelações isoladas sejam elevadas precipitadamente à condição de verdades incontestáveis.

Em O Livro dos Médiuns, Kardec examina as mistificações, as contradições e a necessidade de discernimento diante das comunicações espirituais. Portanto, nome respeitável, linguagem eloquente ou suposta identidade espiritual não constituem garantias de autenticidade. A credulidade não é virtude espírita; é vulnerabilidade que exige esclarecimento.

Por essa razão, sacramentos, batismos, crismas, dízimos e cerimônias religiosas não devem ser instituídos como exigências da Doutrina Espírita. Tampouco se justifica converter a Casa Espírita em palco de jogos de azar, desfiles, festivais espetaculares de arrecadação ou disputas partidárias. A independência de consciência e o respeito à pluralidade política devem prevalecer sobre os caprichos de dirigentes.

Merecem igual cautela as práticas denominadas apometria, piramideterapia, cristaloterapia, cromoterapia e choques anímicos por corrente magnética quando apresentadas como tratamentos espíritas ou dotadas de eficácia terapêutica sem comprovação científica. Não basta invocar a espiritualidade para legitimar procedimentos. Problemas de saúde exigem assistência profissional adequada; o acolhimento espiritual não substitui tratamentos médicos ou psicológicos.

É preciso, contudo, distinguir o que a Codificação não prescreve daquilo que ela efetivamente contradiz. Nem toda iniciativa extrínseca à obra de Kardec é automaticamente condenável; o equívoco está em atribuir-lhe autoridade doutrinária sem fundamentação, em substituir o estudo por novidades ou em alimentar promessas infundadas.

A Casa Espírita não pertence a dirigentes, médiuns ou grupos particulares. É um espaço de estudo, fraternidade e serviço, comprometido com a razão e a ética cristã. Sua administração requer preparo doutrinário, transparência e disposição para corrigir erros.

Fraternidade não significa conivência. Defender a identidade kardeciana não é intolerância: é responsabilidade perante uma Doutrina que não admite fé cega, mas convida ao livre exame, ao conhecimento e à reforma moral.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Introdução, seção II; cap. XV e XVII. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Questões 625 e 886. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Caps. XXIV e XXVII. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Abril de 1864: autoridade da Doutrina Espírita — controle universal do ensino dos Espíritos. Disponível em: https://kardecpedia.com/. Acesso em: 27 out. 2026.

 

26 outubro 2026

Fé raciocinada e democracia na perspectiva espírita diante do insucesso eleitoral




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O meu candidato não foi eleito. Ok e daí?

A dificuldade de aceitar uma derrota eleitoral não constitui apenas um problema político: pode revelar imperfeições morais que a Doutrina Espírita nos convida a reconhecer e superar.

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, ao tratar do orgulho e do egoísmo, apresenta esses sentimentos como obstáculos ao progresso moral. Quando alguém considera legítimo somente o resultado que favorece suas convicções, corre o risco de colocar o interesse pessoal acima da justiça e do bem coletivo. O fanatismo político pode transformar essa postura em intolerância, hostilidade e incapacidade de reconhecer a liberdade de consciência alheia.

Isso não significa que os processos eleitorais sejam infalíveis. Fraudes podem ocorrer em qualquer país e, quando existem indícios consistentes, devem ser investigadas. A democracia exige fiscalização, transparência e apuração responsável. Entretanto, suspeitas não são provas, e a inconformidade com o resultado não autoriza a rejeição sistemática das instituições. No Brasil, a contestação eleitoral deve apoiar-se em evidências verificáveis e nos instrumentos legais disponíveis.

A fé raciocinada, princípio fundamental da proposta kardeciana, não recomenda credulidade cega, mas também não legitima a crença obstinada em narrativas que dispensam comprovação. O pensamento espírita deve submeter informações ao exame criterioso, sem permitir que paixões partidárias substituam a razão.

Em O Livro dos Espíritos, questão 886, Kardec esclarece que a caridade, segundo Jesus, compreende benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 3, o homem de bem é apresentado como aquele que respeita as convicções sinceras dos outros e não condena quem pensa diferentemente. Eis um critério moral para avaliar nossas atitudes políticas.

Aceitar a derrota não significa acomodar-se, concordar com todas as decisões governamentais ou renunciar à fiscalização do poder. Significa reconhecer o resultado legitimamente estabelecido, respeitar as regras democráticas e continuar trabalhando pelo bem comum, inclusive preparando-se para as próximas eleições.

O presidente eleito tem responsabilidades perante toda a população, inclusive os que não votaram nele. A conhecidíssima metáfora do Brasil como um avião em pleno voo: mesmo que o piloto não tenha sido nossa escolha, não desejamos a queda da aeronave. Cabe-nos acompanhar sua condução, cobrar competência e contribuir para que todos cheguem em segurança ao destino.

No movimento espírita, essa reflexão é particularmente necessária. A tribuna, o estudo doutrinário e a convivência fraterna não devem ser instrumentos de propaganda partidária nem de hostilização dos que divergem de nós. A fraternidade precisa prevalecer também dentro das famílias, onde opiniões políticas não deveriam destruir vínculos afetivos.

Jesus nos ensinou a amar o próximo. Kardec nos convida ao autoconhecimento e à transformação moral. Antes de apontarmos o fanatismo alheio, examinemos se o orgulho, a intolerância e o ressentimento também encontram abrigo em nós.

Oremos pelo Brasil, sem dispensar o trabalho; aceitemos os resultados oficiais, sem abandonar a vigilância cidadã; e aprendamos a discordar sem odiar.

A verdadeira vitória moral não consiste em impor nossa vontade a todos, mas em vencer em nós mesmos o orgulho que nos impede de reconhecer no adversário político um irmão em humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira. Questões 785, 886, 893 e 919.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira. Cap. X, item 17; cap. XVII, item 3.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. XIX: A fé transporta montanhas.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Arts. 1º e 14. Brasília, DF: Presidência da República.

 

A dor da depressão exige acolhimento, ciência e renovação moral




Jorge Hessen

Brasília -DF

Tristeza, luto e depressão são experiências distintas, embora possam apresentar manifestações semelhantes. Distingui-las é indispensável para acolher o sofrimento humano sem preconceitos, diagnósticos improvisados ou interpretações espirituais precipitadas.

A tristeza é uma emoção natural diante das frustrações, das decepções e das adversidades. O luto corresponde à experiência de “perda” de alguém amado, especialmente pela morte, e pode envolver saudade profunda, lágrimas e sensação de vazio. Ambos fazem parte da existência e não constituem, por si mesmos, doenças.

A depressão, entretanto, é uma condição clínica que pode comprometer o humor, a capacidade de sentir prazer, o sono, o apetite, a concentração e as relações sociais. Não se resume à tristeza prolongada, tampouco desaparece mediante uma decisão voluntária de ser feliz. O diagnóstico exige avaliação profissional, e o tratamento pode envolver psicoterapia e medicamentos, quando indicados (OMS, 2023; NICE, 2022).

Nesse sentido, a contribuição característica do Espiritismo identificamos no Livro dos Espíritos, questões 920 a 933, que  examinam as vicissitudes da existência e os meios de enfrentar as dificuldades humanas. A imortalidade da alma e a pluralidade das existências ampliam nossa compreensão da vida, embora não nos conferem o conhecimento das causas espirituais particulares de cada enfermidade.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V, Kardec reúne reflexões sobre as aflições, o luto e a melancolia. A consolação espírita fundamenta-se na continuidade da vida e na possibilidade de reencontro espiritual, sem exigir que o enlutado suprima a saudade ou esconda suas lágrimas. A esperança na imortalidade não elimina a dor da separação; oferece uma perspectiva mais ampla para atravessá-la.

É particularmente importante recordar a orientação contida no item 26 do mesmo capítulo, que admite ser legítimo abrandar as próprias provas, recorrendo aos meios disponíveis para superar as dificuldades. Kardec compara essa atitude à de quem, estando doente, procura um médico. Portanto, buscar tratamento não representa falta de resignação, mas utilização responsável dos recursos disponíveis.

A lei de causa e efeito tampouco autoriza de maneira simplista  concluir que uma pessoa deprimida esteja “pagando” dívidas de existências anteriores. Não conhecemos os antecedentes espirituais individuais, e a Codificação não aprovisiona juízo crítico para diagnosticar a depressão como expiação. Até porque transformar hipóteses em certezas significa substituir o livre exame pela especulação.

A renovação íntima, a prece, a caridade e a confiança em Deus podem fortalecer a capacidade de enfrentar as provações. Não substituem, porém, os cuidados médicos e psicológicos. Atribuir automaticamente a depressão à obsessão ou à falta de fé é doutrinariamente imprudente e humanamente cruel.

Diante da tristeza, ofereçamos compreensão. Diante do luto, respeitemos o tempo de cada pessoa. Diante da depressão, incentivemos o tratamento e asseguremos presença fraterna. Pensamentos suicidas exigem atenção imediata; em situação de risco iminente, deve-se acionar o SAMU (192). O CVV (188) oferece apoio emocional gratuito.

O verdadeiro consolo espírita não consiste em explicar toda dor por meio de causas invisíveis, mas em aliar a esperança espiritual à razão, à ciência e à solidariedade. A fé raciocinada não condena quem sofre: esclarece, acolhe e ajuda a preservar a vida.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. V: Bem-aventurados os aflitos. Disponível em: https://www.kardecpedia.com.br/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundooespiritismo/2059/capitulo-v-bem-aventurados-os-aflitos. Acesso em: 26 out. 2026.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Questões 920-933. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 1999.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Depression in adults: treatment and management. London: NICE, 2022. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng222. Acesso em: 26 out. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Depressão. Genebra: OMS, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression. Acesso em: 26 out. 2026.

 

 

 

 

 

25 outubro 2026

A confusa polarização política que profana a consciência espírita




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Polarização, intolerância e paixões partidárias desafiam a convivência familiar e religiosa. Para o Espiritismo, o antídoto não é a submissão ideológica, mas a vigilância moral, o livre exame e o amor ao próximo.

A sociedade brasileira atravessa um período de acentuada polarização política, cujos efeitos invadem lares, amizades e instituições religiosas. Familiares rompem relações, amigos se afastam e confrades transformam divergências partidárias em incompatibilidades morais. Em muitos casos, a defesa de uma ideia tornou-se mais importante do que a preservação dos vínculos humanos.

Sob a perspectiva espírita, esse fenômeno permite refletir sobre as obsessões coletivas. Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec examina a influência dos Espíritos sobre os encarnados e ressalta a importância do discernimento (KARDEC, 2003). Podemos investigar se ambientes de hostilidade, ressentimento e intolerância favorecem influências espirituais perturbadoras.

Sei que nem toda polarização é obsessão, nem toda divergência política decorre de influência espiritual inferior. As disputas ideológicas também possuem causas históricas, econômicas, culturais, psicológicas e comunicacionais. Não seria rigoroso de  minha parte diagnosticar uma coletividade como obsidiada por suas preferências políticas, tampouco atribuir aos adversários a condição de instrumentos do mal.

O que podemos reconhecer concretamente é que orgulho, fanatismo, desejo de dominação e incapacidade de ouvir o contraditório favorecem comportamentos obsessivos destrutivos. Na interpretação espírita, essas disposições tornam o indivíduo vulnerável a influências espirituais negativas.

As redes sociais agravam o problema ao estimular notícias falsas, hostilidade verbal e grupos fechados em suas próprias convicções. O adversário deixa de ser um cidadão com opiniões divergentes e passa a ser tratado como inimigo. Progressistas, conservadores, liberais e patriotas podem incorrer no mesmo equívoco: pretender monopolizar a virtude, demonizar o oponente e dispensar o próprio grupo do exame crítico.

O Espiritismo é apartidário. Não constitui programa eleitoral, não canoniza governantes nem concede superioridade moral a partidos. Seus princípios podem orientar a consciência política, mas não autorizam a apropriação da Doutrina por projetos de poder. Temos liberdade para escolher representantes e responsabilidade moral de examinar criticamente nossas escolhas.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec define a caridade pela benevolência, pela indulgência e pelo perdão (KARDEC, 2008). Isso não significa tolerar injustiças ou silenciar diante de abusos. Significa combater erros sem transformar quem erra em objeto de ódio. Fraternidade não é conivência, assim como firmeza de princípios não exige hostilidade pessoal.

A questão 886 de O Livro dos Espíritos associa a caridade ao amor ao próximo e à benevolência para com todos (KARDEC, 2007). Esse ensinamento vale especialmente quando discordamos. É fácil demonstrar afeto por quem compartilha nossas opiniões; o verdadeiro teste moral ocorre diante de quem pensa diferentemente.

Na perspectiva reencarnacionista, as relações humanas oferecem oportunidades de aprendizado. A inimizade cultivada, o orgulho alimentado e a reconciliação recusada podem representar experiências de crescimento desperdiçadas.

Governos passam, partidos mudam e ideologias se transformam. Podemos denunciar irregularidades, contestar políticas públicas e defender convicções sem destruir o respeito mútuo.

O antídoto para a intolerância não é a uniformidade ideológica, mas a educação da consciência. Antes de suspeitar da obsessão alheia, examinemos nosso próprio orgulho, ressentimento e agressividade.

Nenhuma bandeira partidária deve ocupar o lugar do Evangelho em nossa consciência. A verdadeira fraternidade não exige que pensemos da mesma forma, mas que reconheçamos no outro um Espírito em evolução, tão necessitado de aprendizado quanto nós.

A vitória eleitoral é passageira; a oportunidade de aprender a amar é muito mais profunda. Saibamos defender ideias sem odiar pessoas, preservar a liberdade sem alimentar o fanatismo e construir a união na pluralidade.

 

Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

 

 

Espiritismo e política: quando a coerência doutrinária confronta a conveniência ideológica




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A defesa da vida, fundamentada na compreensão espírita da reencarnação, não deve ser confundida com a obrigação de adesão a determinado partido ou corrente ideológica. A Doutrina Espírita oferece princípios para o exame da consciência, mas não constitui programa partidário nem autoriza a sacralização de governos, candidatos ou projetos de poder.

É necessário distinguir três dimensões: a convicção moral contrária ao aborto, a avaliação jurídica das circunstâncias em que a legislação admite sua prática e o julgamento político das medidas mais “diligentes” para proteger a vida e amparar as mulheres. Embora relacionadas, essas dimensões não são idênticas.

Assim, um espírita pode questionar a ampliação legal do aborto e, simultaneamente, reconhecer a necessidade de debater políticas públicas, situações de violência sexual, riscos à saúde materna, assistência social e prevenção da gravidez não planejada. A defesa da vida não se esgota na proibição: exige também acolhimento, proteção e responsabilidade social.

Do mesmo modo, sei que o apoio eleitoral a um candidato não permite, isoladamente, concluir que seu eleitor aprove todas as propostas desse candidato. A coerência deve ser examinada à luz das posições efetivamente defendidas, das prioridades assumidas e das consequências previsíveis das políticas apoiadas.

O limite da tese aqui apresentada é, portanto, claro: pode-se sustentar que a defesa deliberada do aborto entra em tensão com a interpretação espírita tradicional da questão 358 de O Livro dos Espíritos, sem transformar essa conclusão em instrumento de perseguição política ou de condenação moral indiscriminada.

A democracia pressupõe a convivência entre divergências, mas não absolve ninguém da responsabilidade ética por suas escolhas. O espírita é livre para escolher seus representantes; essa liberdade, porém, não o dispensa de submeter suas opções políticas ao crivo dos princípios morais que afirma professar.

A coerência doutrinária não se comprova pelo discurso, mas pela compatibilidade entre aquilo em que se acredita e aquilo em que se apoia. Afinal, ou se assume o Espiritismo com consciência, compromisso e coerência, ou se transforma a identidade espírita em mera máscara retórica para justificar conveniências ideológicas.

Ademais, a pergunta decisiva não é a qual partido pertence o espírita, mas se ele examina racionalmente e honestamente as contradições entre sua consciência religiosa e as propostas que apoia. O Brasil não exige uniformidade partidária: exige que a fraternidade, a dignidade humana e a responsabilidade moral não sejam subordinadas à conveniência política.

 

24 outubro 2026

A doutrinação ideológica nas escolas e universidades: um tumor social



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Ontem, um colega me disse que, na universidade em que leciona, quem se posiciona fora do “marxismo” é ostensivamente marginalizado pelos pares. Em razão disso, ele optou pelo silêncio absoluto. Isso é intolerável!

A educação deveria libertar consciências, não fabricar seguidores de ideologias radicais. Quando instituições de ensino substituem o pluralismo pelo proselitismo político radical, o conhecimento pelo dogmatismo e o debate pela doutrinação, deixam de cumprir parte essencial de sua missão civilizadora.

A esse desvio podemos chamar, metaforicamente, de cancro social: uma enfermidade contagiante e devastadora que compromete a autonomia intelectual e aprofunda os antagonismos.

Obviamente reconheço que há professores comprometidos com a excelência acadêmica e estudantes capazes de pensar criticamente em todas as correntes políticas. Entretanto, quando ideias marxistas são apresentadas como verdades incontestáveis, enquanto concepções divergentes são caricaturadas ou silenciadas, instala-se uma preocupante deformação pedagógica. A universidade não pode converter-se em aparelho de reprodução ideológica, seja de esquerda, seja de direita.

A influência de Antônio Gramsci sobre determinadas correntes políticas e educacionais merece um estudo crítico, especialmente no que diz respeito à disputa pela hegemonia cultural. Isso não me autoriza, porém, a atribuir a todo educador progressista um projeto deliberado de destruição familiar.

Sob a perspectiva espírita, o problema fundamental está no materialismo marxista quando reduz o ser humano à dimensão econômica, nega sua transcendência ou subordina a consciência individual a projetos coletivistas. A transformação social que desconsidera a responsabilidade moral, a liberdade e a educação dos sentimentos corre o risco de trocar antigas injustiças por novas formas de opressão.

Allan Kardec oferece um critério inequívoco em O Livro dos Espíritos, questão 842: uma doutrina deve ser avaliada por seus frutos morais e pela capacidade de promover amor e caridade, não por suas promessas políticas. Nas questões 835 a 841, a liberdade de consciência é reconhecida como princípio fundamental, e a convicção, segundo a questão 841, não pode ser imposta. Eis uma advertência que alcança qualquer movimento tentado pelo autoritarismo.

Apesar de Léon reconhecer a diversidade das correntes socialistas e admitir a busca de melhorias materiais e sociais, adverte contra o materialismo marxista que elimina a dimensão espiritual e o ideal moral. Sua reflexão não constitui adesão ideal coletivista nem obviamente rejeição indiscriminada de toda proposta de justiça social.

A família, por sua vez, não deve ser defendida pela perseguição a quem pensa diferentemente, mas pela responsabilidade, pelo afeto, pelo respeito recíproco e pela formação ética. O mesmo vale para as controvérsias apregoadas pelos marxistas sobre aborto, drogas e sexualidade: são questões complexas que exigem argumentação racional e responsabilidade, não a classificação sumária de seus defensores marxistas como produtos de uma suposta lavagem cerebral.

O artigo 206 da Constituição Federal estabelece a liberdade de aprender e ensinar e o pluralismo de ideias como princípios educacionais. Portanto, combater a doutrinação não significa impor uma doutrina concorrente, mas exigir que escolas e universidades públicas respeitem a inteligência dos estudantes.

Como espíritas, não devemos aceitar nem a servidão ideológica nem o fanatismo antagônico. Kardec não nos convocou a fabricar adversários, mas a desenvolver o discernimento e a responsabilidade moral. A fraternidade, contudo, não exige silêncio diante de práticas que a ameaçam. Exige coragem para denunciá-las com firmeza, honestidade intelectual e respeito à liberdade de consciência.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Art. 206.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. 1924.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, s.d. Parte terceira, cap. X, questões 835-842.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999-2002


A república não se ajoelha diante da toga: até quando o Brasil suportará a erosão da confiança?




Às vésperas da votação presidencial, o país precisa decidir se aceitará passivamente a deterioração do debate público ou se exigirá, pelas vias democráticas, instituições imparciais, transparentes e submetidas à Constituição.

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos em que a inquietação de uma sociedade deixa de ser mero desconforto político e se transforma em advertência histórica. Quando cidadãos passam a desconfiar das instituições que deveriam protegê-los, quando decisões judiciais provocam controvérsias sobre os limites do poder e quando a manifestação de opiniões é acompanhada pelo receio de represálias, algo essencial à democracia começa a se desgastar: a confiança pública.

É nesse ambiente de tensão que o Brasil chega a mais uma decisão eleitoral. Amanhã, diante das urnas, os cidadãos terão uma responsabilidade que ultrapassa a escolha de um candidato. Está em jogo a qualidade da vida democrática, o respeito às liberdades fundamentais e a capacidade de exigir que todos os Poderes cumpram suas atribuições sem privilégios nem pretensões de supremacia.

O Supremo Tribunal Federal deveria constituir uma das últimas trincheiras de proteção dos direitos fundamentais. Sua autoridade, porém, não pode depender exclusivamente da força de suas decisões, muito menos da reverência automática à toga. A legitimidade da Justiça não decorre da infalibilidade dos magistrados, mas da fidelidade à Constituição, da imparcialidade, da fundamentação jurídica e do respeito ao devido processo legal.

Quando decisões de ministros suscitam questionamentos consistentes sobre imparcialidade, proporcionalidade, competência jurisdicional ou limites institucionais, a resposta não pode ser o silêncio constrangido da sociedade. É necessário esclarecer os fatos, examinar os fundamentos, assegurar o contraditório e apurar eventuais irregularidades pelos mecanismos legais. Questionar o exercício do poder não significa atacar a Justiça; significa exigir que ela honre sua própria finalidade.

A militância político-ideológica, quando comprovadamente incompatível com a imparcialidade exigida da magistratura, constitui problema grave. Juízes não recebem mandato para impor preferências pessoais à sociedade, mas para aplicar o Direito. Tampouco podem transformar a autoridade jurisdicional em instrumento de disputa política. A mesma exigência vale para todos os magistrados, independentemente de suas convicções, de seus interlocutores ou dos interesses eventualmente favorecidos por suas decisões.

Não seria responsável, entretanto, confundir controvérsias, suspeitas e críticas legítimas com provas definitivas de corrupção. Acusações dessa gravidade exigem apuração rigorosa e evidências. O combate aos abusos perde credibilidade quando abandona o rigor que reivindica para si. Não queremos uma Justiça submissa a partidos; queremos uma Justiça que não se submeta a partidos, governos, grupos econômicos ou interesses particulares.

O problema torna-se ainda mais delicado quando a população percebe que os mecanismos de fiscalização parecem insuficientes ou incapazes de oferecer respostas convincentes. Uma República não pode depender da virtude presumida de seus ocupantes. Precisa de controles efetivos, transparência, prestação de contas e responsabilização. Nenhum Poder pode ser juiz exclusivo dos próprios excessos. A independência judicial é indispensável, mas não equivale à imunidade institucional contra críticas, escrutínio ou responsabilização legal.

O copo está cheio. Qual será a gota d’água?

A pergunta não deve convocar à violência, à desobediência irresponsável ou à destruição das instituições. Deve despertar a consciência cívica antes que a frustração se converta em ruptura social. A gota d’água não pode ser pretexto para o caos; precisa ser o ponto de inflexão que impulsione reformas, fiscalização legítima e recuperação da confiança pública.

É precisamente aqui que a perspectiva espírita nos impõe coerência. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, associa o verdadeiro progresso ao aperfeiçoamento moral da humanidade. Essa orientação não nos autoriza a santificar autoridades, idolatrar candidatos ou demonizar adversários. Ao contrário, exige discernimento, exame racional e compromisso com a verdade, inclusive quando ela contraria nossas preferências.

O Espiritismo não deve servir de abrigo para o fanatismo partidário, nem de justificativa para a omissão diante de injustiças. A fraternidade não significa conivência com erros. A tolerância não exige submissão à arbitrariedade. A caridade tampouco nos obriga a abdicar da consciência crítica. Podemos respeitar as pessoas e, simultaneamente, contestar com firmeza suas decisões e condutas públicas.

Amanhã, o voto será um instrumento de escolha política, não uma procuração para conceder poderes ilimitados a quem quer que seja. Nenhum candidato merece cheque em branco. Quem assumir a Presidência deverá respeitar a Constituição, preservar as liberdades civis e reconhecer os limites de suas próprias atribuições. O mesmo compromisso deve ser exigido do Legislativo, do Judiciário e de todas as autoridades públicas.

A mudança de que o Brasil necessita não consiste em substituir uma hegemonia por outra, nem em trocar a submissão a uma corrente ideológica pela submissão à corrente oposta. Consiste em restaurar o equilíbrio republicano, fortalecer os mecanismos de controle, garantir a liberdade de expressão, assegurar a igualdade perante a lei e impedir que o poder público se converta em patrimônio de grupos privilegiados.

Não cabe ao cidadão entregar sua consciência a salvadores da pátria. Cabe-lhe votar com discernimento, acompanhar os eleitos, cobrar transparência, apoiar investigações legítimas e defender reformas por meios constitucionais. A democracia não termina na urna: começa novamente no dia seguinte, quando a população precisa fiscalizar aqueles a quem confiou temporariamente o poder.

O Brasil não precisa de cidadãos aterrorizados, nem de multidões inflamadas pelo ódio. Precisa de cidadãos livres, críticos e moralmente responsáveis. A indignação pode ser legítima; a violência, não. A crítica deve ser firme; a mentira, inadmissível. A autoridade merece respeito institucional, mas não adoração.

Que a gota d’água seja, enfim, o despertar da consciência nacional. Não para incendiar a República, mas para impedir que ela se desgaste pela tolerância aos abusos, pela omissão dos responsáveis e pela transformação da divergência política em guerra permanente.

A toga não está acima da Constituição. O voto não está acima da lei. E nenhum poder está acima do cidadão quando este, pacificamente e dentro da ordem democrática, exige que a República cumpra suas promessas de liberdade, justiça e igualdade.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira 2000

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

 

23 outubro 2026

Entre os dogmas históricos e a razão espírita




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Em abril de 1996, na Catedral de Saint Patrick, na Quinta Avenida em Nova York, realizou-se um seminário com o objetivo de debater a Ressurreição do Cristo. A repercussão do evento foi tamanha que veículos de imprensa de alcance global, como as revistas Newsweek e Time, dedicaram extensas reportagens à rediscussão do fenômeno ocorrido há dois milênios.

Embora existam mais de quatro mil papiros que documentam os fatos da época apostólica e a própria existência histórica de Jesus, parcelas da academia e da teologia racionalista buscam reduzir tais acontecimentos a meros distúrbios psíquicos. Para o teólogo Gerd Lüdemann, por exemplo, as aparições do Cristo pós-crucificação não passariam de visões subjetivas de Pedro, fruto do abatimento emocional e do remorso por tê-Lo negado. Na mesma linha, o jornalista Kenneth Woodward argumentou que a aparição de Jesus a quinhentos seguidores tratou-se de um "arrebatamento coletivo", no qual a psicologia moderna enxerga apenas experiências psíquicas indutoras de zelo missionário.

Essa resistência em aceitar os fatos em sua dimensão transcendente decorre do desconhecimento das leis naturais que regem os fenômenos mediúnicos de materialização, ectoplasmia e levitação. Conforme assinala Kardec (2013, p. 87), a mediunidade não constitui uma derrogação das leis divinas, mas sim a manifestação de forças naturais ainda incompreendidas pela ciência materialista:

O Espiritismo vem provar que os fatos qualificados de sobrenaturais estão submetidos a leis; que eles não saem, pois, da ordem dos fatos naturais e que só há de sobrenatural a ignorância em que se estava das suas causas. (KARDEC, 2013, p. 87).

Lamentavelmente, a insipiência da teologia tradicional no tocante aos fenômenos espirituais é resultado direto das decisões político-dogmáticas ocorridas ao longo da história da Igreja. O marco inicial dessa separação deu-se no Concílio de Niceia, em 325 d.C., quando o imperador Constantino combateu as teses de Ário de Alexandria — bispo que questionava a divindade absoluta de Jesus —, impondo o dogma da Santíssima Trindade.

Nesse contexto de transição, dominantes da Patrística, como Basílio de Cesareia e Gregório de Nazianzo, impuseram a veneração aos santos e a paulatina interdição das práticas mediúnicas — as quais constituíam o elemento dinâmico e consolador das comunidades cristãs primitivas, como a Igreja de Antioquia. O afastamento das propostas originais do Evangelho aprofundou-se em 381 d.C., quando o imperador Teodósio I oficializou o cristianismo como religião do Estado, e atingiu seu ápice em 553 d.C., durante o II Concílio de Constantinopla, no qual os estudos e premissas sobre a preexistência da alma e a reencarnação foram banidos dos dogmas oficiais.

Ao abordar a trajetória do Cristianismo e as interpolações promovidas pelos interesses temporais, Emmanuel analisa o obscurecimento das verdades cristãs: O Cristianismo, ao se tornar a religião oficial do Estado romano, trocou a simplicidade da fé e o amor fraternal pelas pompas do poder temporal e pelos dogmas sufocantes, afastando os homens da essência das lições do Mestre. (XAVIER, 2016, p. 142).

Nesse longo interregno de mil e oitocentos anos, inúmeros pensadores e reformadores tiveram de ofertar a própria vida em defesa da liberdade de consciência e do pensamento livre, abrindo caminho para o advento da Renascença e das luzes do Iluminismo.

Superando as ambiguidades narrativas dos Evangelhos — como as divergências observadas entre Mateus, Lucas e Marcos quanto às primeiras aparições de Jesus —, o Espiritismo oferece uma chave de leitura racional e contemporânea para os textos sagrados. Não se faz necessário apelar ao milagre ou à quebra das leis da física para compreender a sobrevivência do Mestre após a crucificação; compreende-se, sim, a manifestação de Seu corpo espiritual ou perispírito.

Ao analisar o papel da Doutrina Espírita na transformação do pensamento filosófico e religioso, Léon Denis (2019, p. 45) destaca a reconciliação entre a razão e a fé:

O Espiritismo não traz uma religião nova; traz a confirmação e a explicação lógica dos princípios ensinados por Jesus, restituindo-lhes o sentido moral e libertando-os das teias do dogma e da superstição. (DENIS, 2019, p. 45).

Sob essa perspectiva, o Cristo emerge de forma menos mitológica e mais humana, libertado das amarras dos editos inquisitoriais, dos atos sacramentais e das controvérsias dogmáticas. A Doutrina Espírita demonstra que o ser humano é detentor de potencialidades latentes em sua própria natureza e que a mediunidade é uma faculdade orgânica e moral, pilar de nossa comunicação com o plano invisível e marco de nossa destinação transcendental.

 

 

Referências

  • DENIS, Léon. Depois da Morte: exposição da doutrina dos espíritos. 26. ed. Brasília: FEB, 2019.
  • KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. 53. ed. Brasília: FEB, 2013.
  • XAVIER, Francisco Cândido. A Caminho da Luz: história da civilização à luz do espiritismo. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. Brasília: FEB, 2016.

 

22 outubro 2026

O despertar do eu profundo: o self e a centelha divina na consciência humana

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quem somos, afinal? Somos apenas a personalidade que construímos, os papéis sociais que desempenhamos e as emoções que experimentamos? Ou existe, nas profundezas da consciência, uma dimensão mais abrangente, capaz de orientar nossa existência para o equilíbrio, a sabedoria e o amor?

Façamos uma reflexão sobre essa questão, reconhecendo, em sua perspectiva espiritualista, que o ser humano não se limita às manifestações do ego. Existe uma dimensão profunda da individualidade que podemos denominar “Espírito imortal”, “Self”, “Eu Profundo”, “Eu em Si” ou, simbolicamente, “Guia Interior”.

Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, compreendia o ego como centro da consciência, enquanto o Self representa a totalidade psíquica, abrangendo elementos conscientes e inconscientes (JUNG, 1968).

O ego organiza nossa identidade cotidiana, nossas escolhas e relações. Não constitui, portanto, um inimigo a ser destruído, mas uma estrutura necessária que precisa amadurecer. O Self, por sua vez, representa uma dimensão mais ampla, integradora e organizadora da personalidade. O desenvolvimento psicológico ocorre quando o ego deixa de se considerar o centro absoluto da existência e estabelece uma relação mais harmoniosa com essa totalidade.

O “Eu em si” pode ser compreendido como uma representação simbólica da sabedoria íntima, acessível mediante introspecção, meditação e visualizações terapêuticas. Nas experiências vivenciais, sua manifestação pode assumir a imagem de um sol, de um mestre, de uma presença acolhedora ou de uma figura luminosa. Tais imagens podem expressar conteúdos significativos da nossa essencialidade. Porquanto o essencial não é a exterioridade da imagem, mas sua contribuição para o autoconhecimento, o equilíbrio emocional e a transformação das atitudes.

Na perspectiva espírita, Léon Denis, em O problema do ser, do destino e da dor, apresenta a consciência como dimensão fundamental da individualidade espiritual, cujo desenvolvimento acompanha a evolução moral do Espírito. Joanna de Ângelis, em Autodescobrimento: uma busca interior, aproxima reflexões da Psicologia Humanista e Transpessoal dos ensinamentos espíritas, valorizando o autoconhecimento como caminho de transformação.

Importa distinguir os conceitos: o Self junguiano constitui uma formulação psicológica, enquanto a centelha divina e a imortalidade da alma pertencem à interpretação filosófico-espiritual. São perspectivas que podem dialogar, sem que sejam academicamente equivalentes.

A gradual fusão do eixo Ego-Eu Profundo constitui iluminar a personalidade para abranger as responsabilidades a fim de alcançar estados extraordinários de consciência. Significa desenvolver a capacidade de observar pensamentos, reconhecer emoções, compreender conflitos e escolher atitudes moralmente mais maduras.

A oração, a meditação, o silêncio reflexivo e as experiências terapêuticas podem favorecer esse processo, desde que acompanhados de discernimento e compromisso com a realidade. Não basta “visualizar” a luz interior: precisamos senti-la com paciência, honestidade, fraternidade e operosidade.

O verdadeiro despertar consciencial manifesta-se quando diminuímos a tirania do ego, ampliamos a compaixão e aprendemos a viver em maior coerência com os valores morais que professamos. Afinal, encontrar o Eu Profundo não é fugir do mundo, mas retornar à vida com maior consciência, responsabilidade e amor.

 

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: FEB, [s. d.].

FRANCO, Divaldo Pereira. Autodescobrimento: uma busca interior. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 17. ed. Salvador: LEAL, 2013.

JUNG, Carl Gustav. Aion: researches into the phenomenology of the self. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1968. (Collected Works, v. 9, parte 2).

SIMONTON, O. Carl; MATHEWS-SIMONTON, Stephanie; CREIGHTON, James L. Com a vida de novo: uma abordagem de autoajuda para pacientes com câncer. São Paulo: Summus, 1978.

 

Entre a bandeira vermelha e a liberdade: a advertência de Léon Denis




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A pretensão de transformar a humanidade mediante revoluções ideológicas, submetendo o indivíduo à vontade das massas, constitui uma das mais inquietantes contradições da história política. Promete-se liberdade, mas frequentemente se exige submissão; anuncia-se fraternidade, enquanto se alimenta o antagonismo entre “classes”.

O psiquiatra forense norte-americano Lyle H. Rossiter Jr., em The Liberal Mind (2006), associa determinadas manifestações do radicalismo esquerdista a mecanismos psicossociais de dependência, regressão emocional e hostilidade à autonomia individual.

Rossiter possui experiência declarada superior a quarenta anos na psiquiatria e atuação em mais de 2.700 processos civis e criminais. Entretanto, esses números referem-se à sua atividade profissional, com 2.700 militantes de esquerda. Sua interpretação é uma tese político-psicológica, não sendo, obviamente, como qualquer pesquisa psiquiátrica, um diagnóstico universalmente convencional.

O fanatismo político pode envolver rigidez cognitiva, intolerância à divergência e identificação excessiva com grupos. Contudo, tais manifestações logicamente não são exclusivas da “esquerda” e não autorizam classificar adversários políticos como mentalmente enfermos.

Léon Denis, em Socialismo e Espiritismo (1924), oferece uma reflexão particularmente esclarecedora. No capítulo I, reconhece a legitimidade das reivindicações operárias, mas reprova os métodos revolucionários violentos. No capítulo VII, declara expressamente: “Sou evolucionista e não revolucionário.”

É indispensável reconhecer que Denis se identificava com um utópico“socialismo” espiritualista, orientado pela justiça e pela solidariedade. Rejeitava, entretanto, o funesto socialismo materialista que fomentava o ódio e a violência.

No capítulo V, Denis sustenta que nenhuma reorganização institucional produzirá resultados duradouros sem o aperfeiçoamento moral dos indivíduos. Sua crítica alcança precisamente a ilusão de corrigir a sociedade exclusivamente pela transformação das estruturas econômicas.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 793, vincula a verdadeira civilização ao progresso moral. Na questão 806, esclarece-se que as desigualdades sociais são produzidas pelos homens, não por Deus.

Emmanuel, em Pensamento e Vida, e André Luiz, em Nos Domínios da Mediunidade, oferecem reflexões espiritualistas sobre a responsabilidade dos pensamentos e das atitudes. Essas contribuições não comprovam nem negam as hipóteses clínicas de Rossiter, mas reforçam a necessidade da vigilância moral.

A “bandeira vermelha”, quando convertida em símbolo de intolerância e imposição ideológica, não transforma consciências: apenas substitui antigos mecanismos de dominação por novos discursos de poder. O mesmo princípio condena qualquer extremismo autoritário, independentemente de sua coloração partidária.

Não haverá regeneração verdadeira enquanto o orgulho, o egoísmo e a violência comandarem as relações humanas. A justiça social é indispensável, mas não florescerá pela destruição da liberdade individual.

O Espiritismo propõe um ideário mais profundo: a educação da consciência, a fraternidade efetiva e a reforma moral. Sem isso, toda promessa de construir um mundo novo poderá conservar, sob novas bandeiras, os velhos vícios da humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. 1924. Capítulos I, V e VII.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: E. Dentu, 1857. Questões 793 e 806.

ROSSITER JR., Lyle H. The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness. St. Charles: Free World Books, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB 2000

XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB 1999