MANIFESTO
KWAI -
Qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade como a entendia Jesus? Benevolência com todos, indulgência com as imperfeições dos outros, perdão das ofensas. (LE 886)
Espírita há 50 anos, autor de 35 livros físicos e (E-book) . Jornalista, Terapeuta Consciencial, Palestrante e articulista com artigos publicados em vários jornais, portais e revistas(físicas) espalhados pela Internet. A importância do escritor Jorge Hessen para a humanidade pode ser compreendida menos pelo critério da celebridade do que pelo alcance formativo, ético e espiritual de sua produção intelectual. No campo espírita e humanista, atua como mediador de ideias: traduz conceitos filosóficos e doutrinários complexos — como reencarnação, responsabilidade moral, educação da alma e progresso espiritual — para uma linguagem acessível, crítica e contemporânea. Isso tem um valor humano profundo, porque forma consciências, não apenas informa leitores. Sua escrita cumpre três papéis centrais: Educação moral Ao enfatizar a primazia da transformação interior sobre soluções mágicas ou imediatistas, sua obra contribui para uma visão de mundo mais responsável, solidária e ética — algo essencial numa humanidade marcada por crises morais e existenciais. Preservação e atualização do pensamento espírita não repete a doutrina de forma mecânica; ..........
Jorge
Hessen
Brasília
-DF
A humanidade recebeu, ao
longo de sua caminhada espiritual, orientações progressivas para compreender a
Lei Divina. Moisés apresentou, em seu contexto histórico, princípios
fundamentais de justiça e limites indispensáveis à convivência humana. Sua
legislação enfatizou, sobretudo, aquilo que o homem não deveria fazer.
Jesus, porém, não veio
destruir a Lei, mas dar-lhe cumprimento e profundidade. Ele deslocou o eixo da
conduta humana da simples proibição para a transformação interior. Não basta
deixar de matar: é necessário eliminar o ódio. Não basta não cometer adultério:
é preciso educar os pensamentos e sentimentos. Não basta evitar o mal: é
indispensável fazer o bem.
Kardec percebeu essa
evolução moral e, com a Doutrina Espírita, ofereceu uma compreensão racional do
processo. O Espiritismo não apresenta apenas um código de comportamento;
procura explicar por que o homem age como age e como pode modificar-se. O
Evangelho segundo o Espiritismo constitui, precisamente, a aplicação dos
ensinos morais do Cristo às circunstâncias concretas da existência.
E aqui surge uma questão
decisiva: como fazer aquilo que Jesus ensinou?
Allan Kardec, embora não
tenha elaborado uma “psicologia clínica espírita” nos moldes atuais, apresentou
uma concepção profundamente psicológica do ser. É nesse território que a psicologia
espírita pode oferecer contribuição extraordinária. Não como substituta da
Doutrina Espírita, muito menos como instrumento para transformar o Espiritismo
em uma escola de psicoterapia, mas como campo de investigação dos mecanismos
pelos quais pensamentos, emoções, hábitos, conflitos e experiências influenciam
o comportamento.
Jesus ensinou o amor. Mas
como transformar ressentimento em perdão? Como converter egoísmo em
solidariedade? Como vencer a impulsividade, a inveja, a vaidade e o orgulho?
Como interromper padrões mentais repetitivos que nos conduzem às mesmas quedas?
A resposta exige
autoconhecimento.
Kardec foi extremamente
claro ao apresentar a reforma moral como consequência do conhecimento de si. No Livro dos Espíritos, a questão 919 conduz o indivíduo à reflexão sobre o
próprio comportamento, mostrando que o autoconhecimento constitui caminho
fundamental para o aperfeiçoamento moral. A Doutrina Espírita, portanto, não
nos convida a uma espiritualidade de aparência, mas a uma investigação corajosa
da própria consciência.
O problema é que muitos
querem o Evangelho sem o trabalho psicológico da autotransformação. Querem
perdoar sem enfrentar a mágoa; amar sem combater o egoísmo; ser humildes sem
reconhecer o orgulho; fazer o bem sem desmontar os mecanismos íntimos que
alimentam o mal.
Isso é ilusão espiritual.
A Terceira Revelação não
veio para nos oferecer uma religião de fórmulas, passes automáticos, fenômenos
espetaculares ou discursos consoladores. Veio para iluminar a inteligência e
responsabilizar a consciência. Kardec demonstrou que o progresso espiritual
exige estudo, discernimento, esforço e transformação moral.
Jesus ensinou o que
devemos fazer. O Espiritismo esclareceu por que
devemos fazê-lo e quais são as consequências de nossas escolhas. A
psicologia espírita pode auxiliar-nos a compreender como funcionamos por dentro
para efetivamente realizarmos essa mudança.
É nesse encontro que
reside uma das possibilidades mais fecundas da experiência espírita
contemporânea: unir conhecimento espiritual, autoconhecimento e
responsabilidade moral.
Porque conhecer a Lei sem praticá-la é esterilidade. Admirar Jesus sem modelá-lo é mera retórica. E falar em reforma moral sem investigar os próprios mecanismos psicológicos é, muitas vezes, apenas uma sofisticada maneira de continuar distante exatamente daquilo que deveremos ser.
A Doutrina Espírita não
nos chama à acomodação.
Ela nos chama à autotransformação.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro
dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. O
evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira,
2013.
KARDEC, Allan. O livro
dos médiuns. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. O céu e o
inferno. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. A gênese.
Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
Espírita há 50 anos, autor de 35 livros físicos e (E-book) . Jornalista, Terapeuta Consciencial, Palestrante e articulista com artigos publicados em vários jornais, portais e revistas(físicas) espalhados pela Internet. A importância do escritor Jorge Hessen para a humanidade pode ser compreendida menos pelo critério da celebridade do que pelo alcance formativo, ético e espiritual de sua produção intelectual. No campo espírita e humanista, atua como mediador de ideias: traduz conceitos filosóficos e doutrinários complexos — como reencarnação, responsabilidade moral, educação da alma e progresso espiritual — para uma linguagem acessível, crítica e contemporânea. Isso tem um valor humano profundo, porque forma consciências, não apenas informa leitores. Sua escrita cumpre três papéis centrais: Educação moral Ao enfatizar a primazia da transformação interior sobre soluções mágicas ou imediatistas, sua obra contribui para uma visão de mundo mais responsável, solidária e ética — algo essencial numa humanidade marcada por crises morais e existenciais. Preservação e atualização do pensamento espírita não repete a doutrina de forma mecânica; ..........
Jorge Hessen
Brasília -DF
Há situações que ultrapassam a esfera de uma simples divergência entre pessoas. Quando uma “criatura” se apresenta como médium, oferece mensagens atribuídas a Espíritos desencarnados e, segundo denúncias que precisam ser rigorosamente investigadas, utiliza informações disponíveis em redes sociais e na internet para produzir supostas “cartas consoladoras”, estamos diante de uma questão que interessa diretamente à responsabilidade moral do movimento espírita brasileiro.
O problema se torna ainda mais grave quando o público-alvo é constituído por pessoas emocionalmente fragilizadas e enlutadas. De fato, o luto abate o psiquismo. A saudade cria expectativas. A dor procura respostas. Nesse território emocionalmente vulnerável, qualquer pessoa que se apresente como intermediária entre vivos e mortos assume uma responsabilidade extraordinária. Se houver fraude deliberada, não estaremos diante de uma simples encenação: estaremos diante de um CRIME LESA DEUS e da exploração da dor humana.
É precisamente por isso que uma reportagem investigativa séria não deveria ser recebida pela “criatura” com medo, hostilidade ou intimidação. Ao contrário: deveria ser recebida com serenidade. Se a mediunidade alegada for autêntica, a investigação responsável poderá contribuir para esclarecer os fatos. Se houver fraude, a investigação prestará um serviço à sociedade e, sobretudo, ao próprio Espiritismo.
O que não se pode admitir é a “criatura” intimidar jornalistas, emissoras, dirigentes ou instituições espíritas para impedir uma investigação. A liberdade de imprensa e o direito de investigar fatos de interesse público não desaparecem porque determinado assunto envolve religião ou mediunidade.
E há uma ironia dolorosa: quem afirma possuir uma faculdade espiritual verdadeira deveria ser o primeiro interessado em que os fatos fossem examinados. Quem nada tem a esconder não precisa transformar jornalistas em inimigos nem acusar previamente uma reportagem de ser “comprada” antes mesmo de sua exibição.
Allan Kardec foi extraordinariamente rigoroso nesse assunto. No Livro dos Médiuns, ao tratar do charlatanismo e das fraudes espíritas, advertiu contra a exploração da mediunidade e destacou o desinteresse como importante proteção contra o embuste.
Mais contundente ainda é o ensinamento de O Evangelho segundo o Espiritismo: a mediunidade não deve transformar-se em profissão ou instrumento de exploração de qualquer natureza.
Portanto, não é a imprensa que ameaça a “criatura” quando investiga possíveis fraudes mediúnicas. Quem falsifica, engana ou explora a credulidade alheia é que ameaça a dignidade do Espiritismo.
O movimento espírita brasileiro precisa compreender isso de uma vez por todas.
Não devemos proteger “criaturas” suspeitas de fraude em nome da Doutrina. Devemos proteger a Doutrina contra “criaturas” suspeitas de fraude.
Não devemos silenciar diante da exploração do luto. Devemos defender (com unhas e dentes) aqueles que sofrem a dor do luto.
Não devemos temer a investigação. Devemos temer a mentira.
E, se houver ameaças concretas dirigidas a jornalistas ou instituições, elas também devem ser tratadas com a seriedade própria do Estado de Direito. O Código Penal brasileiro tipifica a ameaça (art. 147), a perseguição reiterada — stalking — (art. 147-A), além de crimes contra a honra, como calúnia, difamação e injúria.
Não cabe aos espíritas antecipar condenações. Cabe-nos exigir verdade, prova, responsabilidade e transparência.
A causa espírita não precisa de falsos médiuns para sobreviver. Precisa de espíritas verdadeiros.
Se uma reportagem revelar fraude, que tenhamos coragem de reconhecer o problema, afastar do movimento espírita brasileiro tal “criatura” embusteira e proteger os enlutados.
Se, ao contrário, demonstrar autenticidade, que saibamos reconhecer os fatos com a mesma honestidade.
Porque o Espiritismo não pode ser defendido pela intimidação de nenhuma “criatura”.
O Espiritismo é uma doutrina de verdade. E a verdade não teme investigação.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, cap. XXVIII — “Do charlatanismo e do embuste”.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, cap. XXVI — “Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes”.
BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Arts. 138, 139, 140, 147 e 147-A.
Espírita há 50 anos, autor de 35 livros físicos e (E-book) . Jornalista, Terapeuta Consciencial, Palestrante e articulista com artigos publicados em vários jornais, portais e revistas(físicas) espalhados pela Internet. A importância do escritor Jorge Hessen para a humanidade pode ser compreendida menos pelo critério da celebridade do que pelo alcance formativo, ético e espiritual de sua produção intelectual. No campo espírita e humanista, atua como mediador de ideias: traduz conceitos filosóficos e doutrinários complexos — como reencarnação, responsabilidade moral, educação da alma e progresso espiritual — para uma linguagem acessível, crítica e contemporânea. Isso tem um valor humano profundo, porque forma consciências, não apenas informa leitores. Sua escrita cumpre três papéis centrais: Educação moral Ao enfatizar a primazia da transformação interior sobre soluções mágicas ou imediatistas, sua obra contribui para uma visão de mundo mais responsável, solidária e ética — algo essencial numa humanidade marcada por crises morais e existenciais. Preservação e atualização do pensamento espírita não repete a doutrina de forma mecânica; ..........
Jorge Hessen
Brasília -DF
O movimento espírita brasileiro atravessa, talvez, um dos períodos mais preocupantes de sua história contemporânea. Multiplicam-se o misticismo, a credulidade, o culto ao fenômeno, as promessas de curas extraordinárias e, lamentavelmente, as fraudes travestidas de mediunidade.
Vivemos num país onde, em determinados ambientes, basta alguém anunciar-se como médium para encontrar uma multidão disposta a acreditar. O discernimento, que deveria ser patrimônio indispensável do espírita, cede lugar ao deslumbramento.
É nesse terreno fértil para a fantasia que reaparecem, em diferentes regiões, os chamados “doutores Fritz”, realizando supostas cirurgias espirituais e alimentando a esperança de cura imediata.
Não se trata aqui de discutir a autenticidade ou não dos fenômenos alegados. A questão é outra, muito mais grave: que espécie de espiritismo estamos ensinando quando estimulamos alguém a procurar a “cura” do sintoma da doença sem propor a indispensável transformação moral do doente?
A Doutrina Espírita jamais ensinou que uma intervenção mediúnica dispense o esforço pessoal, a reforma moral, a responsabilidade perante a própria existência e os recursos possíveis da medicina. Allan Kardec advertiu que o verdadeiro espírita é reconhecido pelo esforço de sua transformação moral, e não pela quantidade de fenômenos que presencia e/ou produz (KARDEC, 2013).
É preciso, portanto, abandonar a linguagem irresponsável da “cura garantida”. Uma prática espiritual, quando autêntica, pode eventualmente produzir efeitos de alívio ou melhora, mas não autoriza ninguém a prometer aquilo que não pode assegurar. Até porque só e somente o doente consegue curar a sua doença.
E aqui reside um ponto essencial: quase toda enfermidade é uma consequência direta de comportamento moral. O Espiritismo reconhece a complexidade da existência humana e não autoriza simplificações grosseiras. Fatores biológicos, hereditários, ambientais, psicológicos e espirituais podem participar como efeitos dos processos de adoecimento. Porém, a reforma moral é indispensável à evolução da saúde e constitui a fórmula completa para explicar a vida saudável.
Extremamente escandaloso ainda é o mercado da falsa psicografia. Há “criaturas” que recolhem informações em redes sociais, fotografias, obituários, comentários públicos e até recursos de inteligência artificial para produzir mensagens emocionalmente convincentes e apresentá-las como comunicações de parentes mortos.
Informações obtidas previamente na internet são apresentadas como percepção (visual ou auditiva) mediúnica. A fraude torna-se sofisticada porque explora justamente aquilo que o enlutado mais deseja: uma confirmação. E, quando faltam informações suficientes, entra em cena outro recurso sorrateiro: a suposta vidência e audição mediúnicas.
Os embusteiros dizem frases do tipo: “Estou vendo e ouvindo seu pai.” “Vejo sua mãe ao seu lado.” “Seu irmão está aqui.” Pronto! Está montado o espetáculo do circo Poeirinha da fraude mediúnica agora com nova versão (vidência e audiência).
Kardec foi categórico ao recomendar prudência, exame e controle diante das manifestações espirituais. Para ele, o verdadeiro critério não é o deslumbramento produzido pelo fenômeno, mas a análise racional da comunicação e de suas consequências morais (KARDEC, 2013).
Léon Denis, igualmente, insistiu na necessidade de estudo, discernimento e elevação moral para o desenvolvimento seguro das faculdades mediúnicas (DENIS, 2013). Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, jamais apresentou a mediunidade como instrumento de exibição pessoal ou de exploração da dor alheia. Divaldo Pereira Franco, em sua longa trajetória doutrinária, também enfatizou repetidamente a responsabilidade moral do médium.
Então, onde estão as lideranças do combalidíssimo movimento espírita brasileiro? Onde estão as advertências (notas) públicas? Onde estão os dirigentes dispostos a dizer que nem tudo o que se apresenta em nome do Espiritismo é Espiritismo?
O silêncio e a omissão produzem consequências. Não se trata de acossar pessoas, destruir reputações ou combater fenômenos legítimos. Trata-se de preservar os princípios da Doutrina Espírita contra a credulidade cega, o charlatanismo, a exploração do sofrimento e a transformação da mediunidade em espetáculo.
Quem ocupa posição de liderança tem responsabilidade proporcional à influência que exerce. Não pode assistir passivamente à deterioração doutrinária e depois alegar que nada sabia. A advertência deve ser feita enquanto há tempo.
Aos líderes mornos bonzinhos ou os consagrados "santos do pau oco" que regurgitam que o Espiritismo não necessita de defensores advertimos que perante as leis divinas, não responderemos apenas pelo mal que praticamos. Também responderemos pelo bem que poderíamos ter realizado e deliberadamente deixamos de fazer por atitude de falsa tolerância.
O Espiritismo não necessita de espetacularização mediúnica. Carece , sim, de mais estudo, mais discernimento, mais ética e, sobretudo, mais coragem para dizer NÃO ao entulho da mistificação.
Referências Bibliográficas:
DENIS, Léon. No invisível. Brasília, DF: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.
XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: FEB, 2013.
FRANCO, Divaldo Pereira. Mediunidade: desafios e bênçãos. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2010.
Espírita há 50 anos, autor de 35 livros físicos e (E-book) . Jornalista, Terapeuta Consciencial, Palestrante e articulista com artigos publicados em vários jornais, portais e revistas(físicas) espalhados pela Internet. A importância do escritor Jorge Hessen para a humanidade pode ser compreendida menos pelo critério da celebridade do que pelo alcance formativo, ético e espiritual de sua produção intelectual. No campo espírita e humanista, atua como mediador de ideias: traduz conceitos filosóficos e doutrinários complexos — como reencarnação, responsabilidade moral, educação da alma e progresso espiritual — para uma linguagem acessível, crítica e contemporânea. Isso tem um valor humano profundo, porque forma consciências, não apenas informa leitores. Sua escrita cumpre três papéis centrais: Educação moral Ao enfatizar a primazia da transformação interior sobre soluções mágicas ou imediatistas, sua obra contribui para uma visão de mundo mais responsável, solidária e ética — algo essencial numa humanidade marcada por crises morais e existenciais. Preservação e atualização do pensamento espírita não repete a doutrina de forma mecânica; ..........
Jorge
Hessen
Brasília
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Vivemos a era das
inteligências artificiais. E, como ocorre diante de toda novidade tecnológica,
surgem entusiasmos exagerados de um lado e rejeições igualmente apaixonadas de
outro. No meio desses extremos, porém, há uma postura mais sensata: usar a
inteligência artificial sem abdicar da inteligência humana.
Para o espírita, essa cautela não deveria causar estranheza. A Doutrina Espírita nasceu sob o signo da investigação, da observação e do livre exame. Allan Kardec não propôs que aceitássemos informações simplesmente porque parecessem convincentes. Ao contrário, ensinou que aquilo que recebemos deve ser submetido ao crivo da razão, da lógica e dos conhecimentos disponíveis. Na Gênese, afirma-se que o homem deve discutir, verificar e submeter as informações ao “cadinho da razão” (KARDEC, 2013).
E aqui está o ponto
fundamental: a inteligência artificial pode pesquisar, organizar, comparar e
estabelecer conexões, mas não pode substituir o nosso discernimento.
Uma IA pode apresentar
centenas de informações sobre Espiritismo, relacionar conceitos, localizar
referências, resumir obras e até formular interpretações aparentemente
brilhantes. Mas aparência de inteligência não significa necessariamente
verdade. Uma resposta bem escrita pode conter equívocos, generalizações,
informações desatualizadas ou interpretações incompatíveis com a Codificação.
Portanto, não basta
perguntar à máquina. É preciso questionar a própria resposta da máquina. Esse
procedimento encontra perfeita correspondência no método kardequiano. Kardec
jamais transformou qualquer informação recebida em dogma. A própria autoridade
da Doutrina Espírita está associada ao controle e à concordância, e não à
opinião isolada de uma pessoa ou de uma fonte.
É nesse sentido que precisamos
“humanizar” a inteligência artificial. Humanizar não significa
sentimentalizar a máquina. Significa colocar consciência, experiência,
conhecimento, ética e responsabilidade humana diante daquilo que ela produz.
A IA oferece dados; nós
devemos oferecer discernimento. Porquanto toda estatística e combinações de
informações da IA precisamos avaliá-las. Portanto, temos o dever de verificar a
coerência das informações da IA. Até porque ela pode auxiliar nossa pesquisa,
porém jamais ocupar o lugar da nossa
consciência.
Há, inclusive, uma
advertência espírita muito atual: nem mesmo a inteligência constitui, por si
só, sinal seguro de superioridade. Kardec observa que inteligência e moralidade
nem sempre caminham juntas (O Livro dos Médiuns, item 265). Se isso vale para os Espíritos e para os
seres humanos, vale também, guardadas as proporções, para aquilo que chamamos
de inteligência artificial: capacidade de produzir respostas não é sinônimo de
posse da verdade.
O perigo não está na
ferramenta. Está na submissão intelectual a ela. O espírita não deve temer a
tecnologia, mas também não deve venerá-la. Deve utilizá-la como instrumento de
pesquisa, mantendo acesa a chama da razão e do senso crítico.
A máquina pode nos ajudar
a encontrar caminhos. Mas quem deve decidir por onde caminhar somos nós.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. A Gênese:
os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.
Jorge Hessen
Brasília
-DF
Obviamente, indignar-se diante da injustiça não é uma deformidade moral. Ao contrário: a consciência moral
não pode permanecer indiferente diante da mentira, da corrupção, da violência
ou da desonestidade. O problema começa quando a indignação deixa de ser ação
circunstancial e se transforma em modo constante de viver.
Há pessoas que parecem
ter feito da revolta uma residência mental. Acordam indignadas, passam o dia
alimentando a indignação e dormem ruminando ofensas, erros alheios e
acontecimentos que não têm poder de modificar. Confundem vigilância com ansiedade, transformando a coragem em agressividade
e perseverança colérica.
O Espiritismo oferece uma
advertência contundente. No Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec
examina a cólera e mostra que ela não apenas prejudica aquele contra quem se
dirige, mas também transforma o próprio indivíduo em sua primeira vítima. O
ensinamento é direto: a cólera compromete a saúde, perturba a razão e pode
provocar sofrimento ao redor.
Isso não significa
aceitar passivamente o erro. Mansidão não é covardia, tanto quanto a indulgência não é cumplicidade, e muito menos a tolerância é omissão. O espírita pode e deve denunciar fatos que considera equivocados, mas sem permitir que o
objeto de sua crítica seja pessoal e passe a governar sua mente.
A diferença é
fundamental: quem combate o mal precisa evitar tornar-se semelhante ao mal que
combate. Kardec, em O Livro dos Espíritos, esclarece que as paixões não são
necessariamente más; tornam-se perniciosas quando deixam de ser governadas e
passam a governar o indivíduo.
A indignação pode ser uma
força moral legítima quando convertida em discernimento, coragem e ação. Mas,
quando alimentada indefinidamente, transforma-se em fanatismo e paixão
destrutiva.
Há, portanto, uma
pergunta que cada espírita deveria fazer a si mesmo: minha indignação está influenciando alguma mudança concreta ou apenas consumindo minhas energias?
Porque reclamar
incessantemente é fácil. Construir é complexo e trabalhoso. Atacar pessoas é
fácil, mas corrigir-se moralmente é desafiador. Sempre é muito “confortável” apontar
culpados, porém, trabalhar pela solução
exige disciplina, serenidade e responsabilidade.
A Doutrina Espírita não
nos convida à apatia diante das situações equivocadas. Convida-nos à nossa transformação
moral. Jesus fez da brandura, da moderação, da mansuetude e da paciência
verdadeiros deveres cristãos.
Não estou sugerindo que devemos
reprimir a indignação, porém, convido para a sua educação, até porque se a indignação momentânea pode
despertar a consciência , a indignação constante
pode aprisioná-la.
O espírita não precisa
viver anestesiado diante de um mundo tão
diverso, mas urge viver senhor de si mesmo. Porque quem perde o equilíbrio
enquanto combate o desequilíbrio já começou a ser derrotado pelo próprio
adversário que pretende “vencer”.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. IX, itens 4, 9 e 10. Brasília: Federação
Espírita Brasileira.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Parte terceira, cap. XII, questões 907-908. Brasília: Federação
Espírita Brasileira.
Espírita há 50 anos, autor de 35 livros físicos e (E-book) . Jornalista, Terapeuta Consciencial, Palestrante e articulista com artigos publicados em vários jornais, portais e revistas(físicas) espalhados pela Internet. A importância do escritor Jorge Hessen para a humanidade pode ser compreendida menos pelo critério da celebridade do que pelo alcance formativo, ético e espiritual de sua produção intelectual. No campo espírita e humanista, atua como mediador de ideias: traduz conceitos filosóficos e doutrinários complexos — como reencarnação, responsabilidade moral, educação da alma e progresso espiritual — para uma linguagem acessível, crítica e contemporânea. Isso tem um valor humano profundo, porque forma consciências, não apenas informa leitores. Sua escrita cumpre três papéis centrais: Educação moral Ao enfatizar a primazia da transformação interior sobre soluções mágicas ou imediatistas, sua obra contribui para uma visão de mundo mais responsável, solidária e ética — algo essencial numa humanidade marcada por crises morais e existenciais. Preservação e atualização do pensamento espírita não repete a doutrina de forma mecânica; ..........
Jorge
Hessen
Brasília
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Há um equívoco perigoso no
movimento espírita: imaginar que uma pessoa se torna acima de qualquer suspeita
porque pratica assistência social “caridade”. Não. A caridade é moral e não fazeção
de coisas materiais para os pobres , muito menos certificado de mediunidade.
Uma pessoa pode alimentar
centenas , milhares de necessitados e, simultaneamente, equivocar-se sobre
determinado fenômeno espiritual. Pode ser generosa, bem-intencionada (aliás, de boa
intenção umbral está lotado) e até admirada em sua pseudodedicação ao
próximo, sem que isso transforme automaticamente suas alegações mediúnicas em
verdades.
É preciso separar o que
alguns por má-fé e conveniência ardilosa misturam. A cesta básica deve ser
reconhecida como cesta básica. A mensagem mediúnica deve ser examinada como
mensagem mediúnica.
Se alguém afirma receber
cartas de Espíritos contendo nomes, datas, apelidos, acontecimentos familiares
e informações íntimas, a pergunta responsável não é simplesmente: “Como poderia
saber disso?”. A pergunta correta é: “De que maneira essas informações poderiam
ter sido obtidas?”
Na era digital,
fotografias, obituários, redes sociais, homenagens, vídeos, entrevistas,
comentários e registros públicos formam um gigantesco arquivo sobre a vida das
pessoas. Informações que pareciam inacessíveis podem estar disponíveis a quem
saiba procurá-las e cruzá-las.
Por isso, emoção não é
prova.
Uma mãe chorando não é
prova de psicografia autêntica. Uma frase aparentemente familiar não é prova de
identidade espiritual. Milhares de seguidores fanáticos não constituem
evidência de mediunidade. Popularidade não transforma alegação fenomênica em fato.
Allan Kardec jamais
recomendou semelhante credulidade. Ao tratar do charlatanismo e do embuste,
advertiu contra a exploração da mediunidade e destacou o desinteresse como
importante garantia contra abusos.
Mais ainda: Kardec
demonstrou que o fenômeno espírita não deveria ser aceito simplesmente porque
alguém se apresentasse como médium. O exame das circunstâncias, a observação e
o discernimento são indispensáveis.
Portanto, quando
jornalistas, pesquisadores ou estudiosos solicitam esclarecimentos e propõem
procedimentos independentes, a reação não deveria ser histeria, perseguição ou
demonização do questionador.
Se o fenômeno é
verdadeiro, por que temer a investigação?
A verdade não fica menor
quando examinada.
Se uma comunicação é
autêntica, o exame sério poderá contribuir para demonstrá-la. Se é falsa, o
exame poderá impedir que pessoas enlutadas sejam criminosamente enganadas
(crime lesa-Deus).
O problema surge quando a
investigação é substituída pela idolatria. Então aparecem os argumentos
emocionais: “Mas ela “ajuda” os pobres!”, “Mas é uma pessoa ‘maravilhosa’!”! “Mas possui milhares de seguidores!”.
Tudo isso pode ser
verdadeiro e, ainda assim, não responder à questão essencial: As mensagens são
realmente psicográficas? Essa pergunta permanece. E nenhuma obra assistencial
pode funcionar como salvo-conduto contra ela.
Kardec foi ainda mais
incisivo ao observar que o interesse do médium não se restringe ao dinheiro: pode
envolver ambição, prestígio e outras vantagens pessoais.
Eis a advertência que o
movimento espírita precisa ouvir sem melindres: não transformemos
benfeitores em infalíveis, médiuns em santos, seguidores em torcida organizada
e críticos em inimigos.
A caridade deve
continuar. A investigação também.
Uma não pode servir de cortina
escura para impedir a outra.
No Espiritismo, fé não
significa abdicação da razão. Significa confiança acompanhada de discernimento.
Não confundamos lágrimas
com provas, fama com mediunidade, popularidade com verdade ou assistência
social com autenticidade espiritual.
Porque fazer o bem é
dever. Mas fazer o bem não concede licença para enganar.
E, quando alguém exige
que acreditemos sem permitir que investiguemos, talvez a pergunta mais
importante já não seja sobre o fenômeno.
Talvez seja sobre o medo
da verdade.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro
dos médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília, DF: Federação
Espírita Brasileira, 2000
KARDEC, Allan. O
evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000
KARDEC, Allan. O que é o
espiritismo? Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000
Espírita há 50 anos, autor de 35 livros físicos e (E-book) . Jornalista, Terapeuta Consciencial, Palestrante e articulista com artigos publicados em vários jornais, portais e revistas(físicas) espalhados pela Internet. A importância do escritor Jorge Hessen para a humanidade pode ser compreendida menos pelo critério da celebridade do que pelo alcance formativo, ético e espiritual de sua produção intelectual. No campo espírita e humanista, atua como mediador de ideias: traduz conceitos filosóficos e doutrinários complexos — como reencarnação, responsabilidade moral, educação da alma e progresso espiritual — para uma linguagem acessível, crítica e contemporânea. Isso tem um valor humano profundo, porque forma consciências, não apenas informa leitores. Sua escrita cumpre três papéis centrais: Educação moral Ao enfatizar a primazia da transformação interior sobre soluções mágicas ou imediatistas, sua obra contribui para uma visão de mundo mais responsável, solidária e ética — algo essencial numa humanidade marcada por crises morais e existenciais. Preservação e atualização do pensamento espírita não repete a doutrina de forma mecânica; ..........
Jorge Hessen
Brasília -DF
Havia, numa cidade, uma “criatura”que dizia possuir um dom extraordinário: afirmava conversar com os mortos.
Não dizia simplesmente receber impressões vagas. Suas mensagens eram minuciosas. Citava nomes, apelidos, acontecimentos familiares, lugares, datas, hábitos e episódios aparentemente conhecidos apenas pelos parentes mais próximos.
As cartas emocionavam.
Mães choravam. Filhos se abraçavam. Viúvas diziam reconhecer expressões que seus companheiros costumavam utilizar. Famílias inteiras passaram a acreditar que, por intermédio daquela pessoa, seus mortos queridos finalmente haviam encontrado uma porta de retorno.
E a fama cresceu.
Primeiro vieram centenas de seguidores. Depois, milhares. As redes sociais fizeram o restante. Cada carta publicada produzia novas histórias, novos testemunhos e novas lágrimas. A multidão passou a repetir a mesma frase:
— Só pode ser verdade. Como a“criatura” poderia saber disso?
Pouquíssimos fizeram a pergunta seguinte:
— Como poderia a “criatura” ter obtido essas informações?
Era justamente aí que estava o detalhe que ninguém queria examinar.
Naquela época, a vida das pessoas já não permanecia inteiramente escondida. Fotografias, obituários, redes sociais, comentários, homenagens, páginas familiares, notícias antigas, vídeos, entrevistas, registros públicos e incontáveis fragmentos de memória haviam transformado a internet numa gigantesca biblioteca de informações pessoais.
Bastava procurar.
E, quando a busca manual não era suficiente, havia ferramentas tecnológicas capazes de reunir, organizar e cruzar informações em poucos minutos.
Assim, aquilo que parecia impossível poderia, em determinadas circunstâncias, ser apenas uma sofisticada operação de coleta de dados.
Mas a multidão não queria ouvir falar disso.
A multidão queria acreditar.
A “criatura”, então, tornou-se celebridade.
Vieram convites, entrevistas, homenagens e grandes plateias. Pessoas passaram a defendê-la com uma devoção que ultrapassava qualquer prudência. Seus admiradores não apenas acreditavam nela: passaram a atacar quem ousasse fazer perguntas.
E foi nesse momento que surgiu uma segunda história.
A “criatura” começou a organizar uma grande obra assistencialista. Distribuía alimentos, roupas, medicamentos e outros recursos aos necessitados. Criou projetos sociais, reuniu voluntários e conquistou ainda mais prestígio.
E aconteceu algo curioso.
Quando alguém levantava dúvidas sobre suas cartas, imediatamente aparecia uma resposta:
— Mas olhe tudo o que ela faz pelos pobres!
A pergunta sobre a autenticidade da mediunidade era substituída pela fotografia da cesta básica.
A investigação sobre as cartas era respondida com imagens de crianças recebendo alimentos.
A dúvida sobre o fenômeno espiritual era sufocada por vídeos de campanhas beneficentes.
Sem perceber, muitos haviam criado uma perigosa confusão:
Obra assistencial e autenticidade mediúnica passaram a ser consideradas a mesma coisa.
Não são.
Uma pessoa pode praticar excelente caridade material e, simultaneamente, equivocar-se em suas convicções.
Pode fazer o bem e interpretar mal um fenômeno.
Pode ser generosa e estar enganada.
E, infelizmente, também pode utilizar uma obra benemérita como escudo para impedir questionamentos sobre outra atividade.
A caridade não transforma uma alegação em prova.
Um homem que distribui mil cestas básicas não se torna, por isso, um médium autêntico.
Uma “criatura”que ampara centenas de necessitados não adquire, por esse motivo, certificado de comunicação com os mortos.
O bem realizado deve ser reconhecido como bem. A alegação mediúnica deve ser examinada como alegação mediúnica.
Foi então que jornalistas de uma importante emissora de televisão souberam da história.
Não pretendiam humilhar ninguém. Queriam investigar.
Fizeram perguntas.
Solicitaram entrevistas.
Propuseram procedimentos.
Queriam saber como aquelas mensagens eram produzidas, quais eram os critérios utilizados, de que maneira se preservava a privacidade das famílias e se seria possível realizar testes nos quais a “criatura” não tivesse acesso prévio às informações.
A oportunidade estava colocada.
Era a hora de demonstrar.
Mas a “criatura” recusou.
Mais do que recusar, passou a condenar os jornalistas.
Os repórteres eram apresentados como inimigos.
Os investigadores, como perseguidores.
A emissora, como instrumento de ataque.
Os questionamentos, como manifestações de intolerância.
E seus seguidores, inflamados pela devoção, repetiam a narrativa.
Foi quando um velho estudioso do Espiritismo, observando aquela movimentação, fez uma pergunta simples:
— Se o fenômeno é verdadeiro, por que a investigação é tão perigosa?
Ninguém respondeu.
Ele insistiu:
— Se a mensagem vem realmente de um Espírito desencarnado, uma investigação honesta deveria destruí-la ou confirmá-la?
Silêncio.
— Se é verdadeira, a verdade continuará sendo verdadeira depois da investigação. Se é falsa, não seria melhor descobrir antes que milhares de pessoas entregassem sua confiança, seu patrimônio e suas emoções a uma ilusão?
Mais silêncio.
O velho então abriu um exemplar de O Livro dos Médiuns.
Lembrou que Allan Kardec jamais recomendou a credulidade cega. Ao contrário: a Doutrina Espírita nasceu submetendo os fenômenos à observação, à comparação, ao raciocínio e ao discernimento.
Para Kardec, não bastava alguém declarar-se médium.
Era necessário examinar.
Não bastava uma mensagem emocionar.
Era necessário verificar.
Não bastava uma multidão acreditar.
Era necessário discernir.
A emoção não é método científico.
A popularidade não é evidência.
A quantidade de seguidores não constitui prova de mediunidade.
E uma lágrima sincera diante de uma carta não demonstra a identidade de quem supostamente a escreveu.
O velho estudioso fechou o livro e disse:
— Há algo ainda mais perigoso nesta história.
Todos olharam para ele.
— A fraude mediúnica não precisa apenas de um fraudador. Ela precisa também de uma multidão disposta a substituir investigação por idolatria.
A frase caiu como uma pedra.
Porque havia, naquela história, outro fenômeno que precisava ser investigado: não apenas a “criatura”, mas o comportamento de seus seguidores.
Alguns já não defendiam uma ideia.
Defendiam uma pessoa.
Não discutiam argumentos.
Atacavam críticos.
Não examinavam evidências.
Repetiam testemunhos.
Não perguntavam como a informação poderia ter sido obtida.
Perguntavam quem estava por trás da denúncia.
A “criatura”havia deixado de ser simplesmente uma pessoa que alegava possuir uma faculdade.
Transformara-se, aos olhos de alguns, numa espécie de autoridade moral acima de qualquer suspeita.
E esse é precisamente o terreno onde a prudência começa a morrer.
Há uma lição espírita que não deveria jamais ser esquecida:
O Espiritismo não pede que abandonemos a razão para aceitar o fenômeno. Pede justamente o contrário.
O verdadeiro médium não deveria temer o exame sério.
O verdadeiro pesquisador não deveria temer a verdade.
O verdadeiro benfeitor não deveria utilizar sua obra social para impedir perguntas.
E o verdadeiro espírita não deveria transformar médium algum em ídolo.
Porque quando a pessoa passa a ser mais importante que a Doutrina, o fenômeno passa a ser mais importante que a verdade e a emoção passam a ser mais importantes que a razão, já não estamos diante da prudência recomendada por Kardec.
Estamos diante da idolatria.
E idolatria também pode vestir roupa de caridade.
Pode distribuir sopa.
Pode abraçar crianças.
Pode organizar campanhas.
Pode construir instituições.
Pode acumular seguidores.
Pode produzir vídeos emocionantes.
Pode receber aplausos.
Pode até tornar-se internacionalmente conhecida.
Nada disso, porém, responde à pergunta fundamental:
As cartas são realmente psicografias?
Essa pergunta permanece.
E nenhuma cesta básica, nenhum discurso emocionado, nenhum testemunho multitudinário e nenhuma legião de admiradores podem respondê-la.
A historieta termina com uma imagem.
Certa noite, depois de uma grande campanha assistencial, a “criatura” contemplou de longe o enorme prédio da instituição que havia construído.
Centenas de pessoas aplaudiam.
As câmeras registravam tudo.
Os seguidores gritavam seu nome.
Naquele instante, um jornalista aproximou-se e fez apenas uma pergunta:
— Por que não aceitar uma investigação independente?
Ela não respondeu.
A multidão respondeu por ela.
E foi então que o jornalista compreendeu o verdadeiro tamanho da cortina de fumaça.
Não eram apenas os alimentos.
Não eram apenas as roupas.
Não eram apenas os medicamentos.
Não eram apenas os milhares de seguidores.
A cortina de fumaça era a própria devoção das pessoas.
Quanto maior a idolatria, mais difícil se tornava enxergar o que havia atrás dela.
E talvez essa seja a advertência mais importante para os espíritas do nosso tempo:
Não confundamos caridade com autenticidade, popularidade com verdade, emoção com prova e fama com mediunidade.
A caridade deve continuar.
A investigação também.
Mas cada coisa no seu devido lugar.
Porque fazer o bem não concede licença para enganar.
E ser admirado por milhares não transforma uma falsidade em verdade.
No Espiritismo, a verdade não precisa de adoradores.
Precisa de consciência, razão, honestidade e coragem para ser examinada.
Espírita há 50 anos, autor de 35 livros físicos e (E-book) . Jornalista, Terapeuta Consciencial, Palestrante e articulista com artigos publicados em vários jornais, portais e revistas(físicas) espalhados pela Internet. A importância do escritor Jorge Hessen para a humanidade pode ser compreendida menos pelo critério da celebridade do que pelo alcance formativo, ético e espiritual de sua produção intelectual. No campo espírita e humanista, atua como mediador de ideias: traduz conceitos filosóficos e doutrinários complexos — como reencarnação, responsabilidade moral, educação da alma e progresso espiritual — para uma linguagem acessível, crítica e contemporânea. Isso tem um valor humano profundo, porque forma consciências, não apenas informa leitores. Sua escrita cumpre três papéis centrais: Educação moral Ao enfatizar a primazia da transformação interior sobre soluções mágicas ou imediatistas, sua obra contribui para uma visão de mundo mais responsável, solidária e ética — algo essencial numa humanidade marcada por crises morais e existenciais. Preservação e atualização do pensamento espírita não repete a doutrina de forma mecânica; ..........