Jorge Hessen
Brasília -DF
A compreensão da saúde mental vem experimentando notável transformação. Se há seis décadas predominava uma abordagem essencialmente medicamentosa, atualmente consolida-se um modelo biopsicossocial, ao qual muitos pesquisadores acrescentam a dimensão espiritual como fator relevante de enfrentamento e qualidade de vida.
Nesse contexto, tornou-se conhecida a obra A Biologia da Crença, de Bruce Lipton, que popularizou a epigenética ao defender que percepções, emoções e ambiente influenciam a expressão gênica. Embora seja correto afirmar que fatores ambientais modulam a atividade dos genes, as conclusões mais amplas de Lipton sobre o poder das crenças permanecem controversas e não representam consenso na comunidade científica.
A psiquiatria contemporânea reconhece que a farmacoterapia é indispensável em numerosos transtornos mentais, mas não constitui a única resposta terapêutica. Psicoterapia, arteterapia, musicoterapia, terapia ocupacional, atividade física e fortalecimento dos vínculos familiares integram estratégias eficazes na reabilitação psicossocial do paciente.
Sob a ótica espírita, o Espírito é o verdadeiro modelador do organismo físico. As enfermidades têm sua matriz na realidade espiritual do ser, refletindo os estados mentais, emocionais e morais acumulados ao longo da existência atual e das anteriores. Os fatores genéticos, imunológicos, ambientais e epigenéticos constituem efeitos dos mecanismos biológicos através dos quais se exteriorizam os ditames da Lei de Causa e Efeito, sem excluir as provas, expiações e missões livremente aceitas pelo Espírito antes da reencarnação. Assim, o câncer, por exemplo, não pode ser compreendido apenas como um acidente biológico, mas como fenômeno complexo em que causas físicas e causas espirituais interagem segundo as leis divinas.
Somos um ser biopsicossocioespiritual. Allan Kardec admite que enfermidades podem sofrer influência de causas morais e espirituais, sem negar a importância dos fatores orgânicos. Por isso, a Doutrina Espírita jamais autoriza a substituição do tratamento médico pelo exclusivo tratamento espiritual.
Nos processos obsessivos, descritos por Kardec como intercâmbio mental perturbador entre Espíritos, o atendimento na Casa Espírita — mediante passes, água fluidificada, Evangelho, prece e reunião de desobsessão — constitui recurso complementar, jamais excludente da assistência médica e psicológica. O diagnóstico diferencial entre transtornos psiquiátricos e obsessão espiritual exige prudência, evitando interpretações simplistas.
Os trabalhadores espíritas devem abster-se de prescrever medicamentos, suspender tratamentos ou formular diagnósticos clínicos. Tais atribuições cabem aos profissionais habilitados. Em contrapartida, médicos e psicoterapeutas podem reconhecer que a espiritualidade, quando vivenciada de forma equilibrada, frequentemente fortalece a esperança, a resiliência e a adesão terapêutica.
O futuro aponta para uma medicina cada vez mais integrativa, capaz de distinguir causas biológicas, psicológicas, sociais e, quando admitidas pelo paciente, espirituais. Como ensinou Kardec, "a ciência e o Espiritismo se completam reciprocamente" (A Gênese). Cuidar do ser humano em sua integralidade significa unir conhecimento científico, ética, compaixão e responsabilidade, sempre colocando o bem do enfermo acima de qualquer preconceito ideológico ou dogmático.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
LIPTON, Bruce H. A Biologia da Crença. São Paulo: Butterfly, 2007.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Genebra: WHO, 2022.








