Jorge Hessen
Brasília -DF
O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo.
Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.
Em nome da pureza doutrinária, condenam Emmanuel, André Luiz, Chico Xavier, Divaldo Franco, Ivone do Amaral Pereira e instituições espíritas, como se a discordância interpretativa fosse prova de desvio doutrinário.
Não estamos defendendo aceitação indiscriminada de toda obra mediúnica. O exame crítico é indispensável. Questionamos, porém, a transformação da crítica em instrumento de exclusão e a pretensão de que determinada corrente detenha o monopólio da interpretação legítima do Espiritismo.
A fidelidade a Kardec não se mede pela quantidade de autores que condenamos, mas pela seriedade com que estudamos, argumentamos e examinamos as ideias e pela transformação moral.
No Livro dos Espíritos, questões 835 a 842, Kardec aborda a liberdade de consciência e os limites da interferência sobre o pensamento alheio. Na questão 837, afirma-se que a liberdade de consciência caracteriza a verdadeira civilização e o progresso. Na questão 841, orienta que a persuasão deve substituir a imposição, pois a convicção não se estabelece pela força (KARDEC, 2013).
Eis uma advertência particularmente oportuna aos que pretendem converter suas interpretações em fronteiras intransponíveis. Podemos discordar de Emmanuel e André Luiz; podemos questionar passagens de Chico Xavier, Divaldo Franco ou Ivone do Amaral Pereira. O que não podemos é substituir a análise fundamentada pelo anátema, como se a autoridade de Kardec dispensasse a demonstração dos argumentos.
Herculano Pires foi um estudioso respeitável, defensor da Codificação e crítico de práticas que considerava incompatíveis com a racionalidade espírita. Sua obra merece leitura atenta, não veneração acrítica.
Em 1976, participou da celebração do Dia Nacional de Ação de Graças promovida na sede do Bradesco, em Osasco, por iniciativa de Amador Aguiar. Na solenidade ecumênica, Herculano proferiu uma prece, ao lado de representantes católicos e protestantes, conforme registro biográfico disponível (RIZZINI, 2000).
O episódio não prova que concordasse com todas as correntes religiosas, mas demonstra que a convivência respeitosa com pessoas de outras tradições não exigia o abandono de sua identidade espírita. É, portanto, imprudente convertê-lo em símbolo de uma intolerância que não decorre automaticamente de sua defesa de Kardec.
A dimensão religiosa do Espiritismo também não pode ser descartada por conveniência interpretativa. No Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec desenvolve as consequências morais dos princípios espíritas. Reduzir essa dimensão a um resíduo indesejável equivale a empobrecer a compreensão da própria obra kardequiana.
Da mesma forma, a identidade espírita não exige submissão a partidos políticos. Os participantes da “seita” Espíritas à Esquerda, assim como os de qualquer outra orientação, possuem liberdade para defender suas convicções. O problema começa quando uma preferência ideológica é apresentada como requisito de autenticidade doutrinária.
Kardec não instituiu uma organização partidária nem autorizou qualquer grupo a monopolizar a consciência dos espíritas. O livre-pensamento exige independência intelectual, inclusive diante daqueles que admiramos.
O verdadeiro respeito a Herculano Pires consiste em estudar sua obra sem transformá-lo em ídolo. A fidelidade a Kardec exige o mesmo rigor: examinar, argumentar e reconhecer os limites das próprias certezas.
Não precisamos de inquisidores “vermelhos” em nome de Kardec, nem de adoradores em nome de Herculano. Precisamos de estudiosos que compreendam que a firmeza doutrinária não dispensa a humildade intelectual e que a fraternidade não exige unanimidade, mas exclui a prepotência como método.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. Livre pensamento e livre consciência. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, fev. 1867.
PIRES, José Herculano. O espírito e o tempo: introdução antropológica ao Espiritismo. São Paulo: Paideia.
RIZZINI, Jorge. J. Herculano Pires: o apóstolo de Kardec. 2000.







