20 outubro 2026

A extrema “esquerda” contra Allan Kardec: vandalismo e barbárie ideológica em Lyon




A destruição do memorial do codificador do Espiritismo, em Lyon, expõe a contradição entre o discurso de transformação social e o desrespeito à liberdade de consciência.

Jorge Hessen

 Brasília-DF

O que aconteceu em Lyon, na França, em 17 de outubro de 2026, merece veemente repúdio. Em meio a manifestações que degeneraram em violência, saques e incêndios, o memorial dedicado a Allan Kardec foi danificado. A estela que homenageava o educador francês, nascido em Lyon em 1804, terminou reduzida a fragmentos, atingida pelas chamas que marcaram a jornada de vandalismo. Não se trata de mera depredação: é também uma agressão à memória cultural e filosófica.

Os tumultos incluíram o incêndio de um prédio municipal que abrigava o posto de turismo, além de ataques a estabelecimentos comerciais e ao patrimônio urbano. A imprensa francesa descreveu a atuação de grupos violentos, alguns identificados com a extrema esquerda e com os chamados black blocs.

Isso não nos obriga a ignorar o componente ideológico de grupos que transformam protestos sociais em pretexto para a destruição. Quando o radicalismo materialista reduz a sociedade a uma arena de antagonismos e trata instituições, símbolos e patrimônios como alvos de combate, a reivindicação política degenera em intolerância. A violência passa a ser apresentada como instrumento de emancipação, embora produza justamente o contrário: medo, prejuízo coletivo e desprezo pelo pluralismo.

Por que destruir uma homenagem a Allan Kardec? O codificador do Espiritismo não foi um dirigente partidário, nem um propagandista de revoluções violentas. Foi um educador e pensador que sistematizou uma doutrina assentada na imortalidade da alma, na responsabilidade moral, no livre-arbítrio e no aperfeiçoamento intelectual e moral do ser humano.

Na estela de Lyon estava inscrita uma máxima que sintetiza o ideal espírita: “Fora da caridade não há salvação.” Eis a ironia histórica: nas proximidades de um monumento que evocava a fraternidade, a intolerância produziu ruínas. A caridade kardeciana não é sentimentalismo, tampouco submissão política. É princípio ético que exige respeito à dignidade humana, inclusive àquele que pensa de maneira diferente.

Convém, entretanto, não incorrer no mesmo erro que denunciamos. Nem todo “vermelho” é extremista, assim como nem todo manifestante é vândalo. A análise deve alcançar os grupos e as ideias que legitimam ou praticam a violência, sem converter divergência política em condenação coletiva.

O Espiritismo não deve servir de instrumento de partidos, sejam de direita ou de esquerda. Isso não significa neutralidade diante da barbárie. A defesa da liberdade de consciência, do patrimônio histórico e da convivência democrática é um dever moral.

A extrema esquerda que pretende monopolizar a virtude social precisa responder a uma questão elementar: que espécie de justiça se constrói destruindo aquilo que pertence à memória de todos? Não há emancipação na depredação, progresso no obscurantismo ou fraternidade na intolerância.

Allan Kardec merece ser respeitado, estudado, debatido e, se necessário, criticado. O que não merece é ter sua memória esmagada pela violência vermelha de quem confunde divergência com inimigo e destruição com transformação social.

A caridade não incendeia monumentos. A intolerância avermelhada, sim.

 

Fontes:

 

 

 

A caridade de vitrine ante o abandono da família para salvar o mundo




A verdadeira reforma moral começa no lar, onde nossas imperfeições são confrontadas diariamente, e não no exibicionismo assistencialista.

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Espiritismo nos convida a compreender que o primeiro campo de exercício da caridade é o ambiente familiar. Entretanto, parcela do movimento espírita (os assistencialistas) parece ter invertido essa prioridade, promovendo um verdadeiro festival de realizações materiais — distribuição de alimentos, roupas, dinheiro e inúmeras campanhas assistenciais — enquanto, não raro, negligencia os conflitos, as necessidades afetivas e as responsabilidades morais dentro do próprio lar.

Em A Revista Espírita de agosto de 1865, Allan Kardec publicou a mensagem intitulada “A chave do céu”, que apresenta uma escala de prioridades no exercício da caridade: A orientação não desqualifica a assistência aos pobres cônjuges e filhos; pais ou aqueles que nos criaram; irmãos consanguíneos; amigos; e, finalmente, os necessitados em geral, começando pelos mais miseráveis.: adverte-nos sobre a inversão de prioridades que pode ocorrer quando pretendemos abraçar a humanidade sem cuidar daqueles que a Providência colocou sob nossa responsabilidade imediata.

Por que essa advertência continua tão atual? Porque é relativamente fácil distribuir cestas básicas, organizar campanhas e receber aplausos pelo trabalho social. Difícil, verdadeiramente difícil, é conviver com o familiar temperamental, tolerar o cônjuge imperfeito, acolher o filho que pensa diferentemente de nós, respeitar os pais envelhecidos e perdoar aquele parente que nos contraria. Fora de casa, podemos escolher as circunstâncias e até os beneficiários de nossas ações. Dentro dela, somos confrontados com pessoas reais, cujas limitações expõem as nossas.

Há, portanto, um risco que merece reflexão: a atividade assistencial pode, em determinadas circunstâncias, converter-se em mecanismo de fuga psicológica. Sob o peso da culpa, algumas pessoas procuram compensar conflitos íntimos acumulando tarefas externas, como se o volume de realizações materiais pudesse substituir a transformação moral. Quanto maior a necessidade de se sentir benfeitor, maior pode ser a tentação de querer salvar o mundo inteiro, sem enfrentar a própria consciência. Não se trata de presumir as motivações de todo trabalhador voluntário, mas de reconhecer que boas obras exteriores não dispensam o indispensável exame de nós mesmos.

Jesus não nos ensinou a negligenciar os necessitados. Ensinou-nos a amar. E o amor não se mede exclusivamente pela quantidade de objetos distribuídos, mas também pela capacidade de escutar, compreender, respeitar, perdoar e conviver. A assistência material é indispensável quando alguém tem fome, frio ou falta de recursos; todavia, ela não substitui a caridade moral, que exige renúncia ao orgulho, à intolerância e ao egoísmo.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec esclarece, na questão 886, que a caridade, conforme Jesus a entendia, consiste em benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas (KARDEC, 2004). Essa definição não deixa espaço para uma caridade meramente cenográfica, exibida em campanhas públicas enquanto cultivamos ressentimentos e indiferença entre quatro paredes.

Nossa família constitui, assim, uma oportunidade concreta de crescimento espiritual. Não escolhemos necessariamente as imperfeições dos que convivem conosco, mas podemos escolher como agir com elas. Amar não significa aprovar abusos, tolerar violência ou abdicar de limites saudáveis. Significa reconhecer a dignidade do outro, sem exigir que ele alcance a perfeição para merecer nosso respeito.

Talvez a mais profunda declaração de caridade seja olhar nos olhos de um familiar e dizer, sinceramente: “Eu aceito você como você é. Suas limitações não anulam sua dignidade, assim como as minhas não me tornam indigno de amor. Nossa convivência é uma oportunidade recíproca de crescimento.

Desistir do outro não significa necessariamente desistir de si, mas fugir sistematicamente dos desafios afetivos pode significar desperdiçar oportunidades preciosas de autoconhecimento e renovação moral.

O Espiritismo não deve ser reduzido a uma agenda de atividades assistencialistas, por mais meritórias que sejam. Sua finalidade é transformar o ser humano. E essa transformação começa quando deixamos de exigir dos outros a perfeição que nós mesmos ainda não conquistamos.

Antes de pretender salvar o mundo, cuidemos de não perder a oportunidade de amar aqueles que compartilham conosco o mesmo teto. A caridade que Jesus exemplificou não se limita ao que nossas mãos entregam: revela-se, sobretudo, na maneira como nosso coração acolhe.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2004.

KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Agosto de 1865. Texto “A chave do céu”. Paris: Bureau de la Revue Spiritée, 1865.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2008.

 

 

19 outubro 2026

Espiritismo x comunismo segundo as fontes kardecianas




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Ideologia não pode reescrever a história doutrinária

Como professor de História, devo expor que a tentativa de atribuir a Allan Kardec uma adesão ao comunismo esbarra em um obstáculo incontornável: os próprios textos do Codificador. Não se trata de defender direita ou esquerda, mas de exigir honestidade intelectual. O Espiritismo não deve ser instrumentalizado por partidos nem convertido em apêndice de qualquer ideologia.

Na Revista Espírita de outubro de 1861, Kardec publica a “Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses”. A mensagem rejeita energicamente o que denomina “comunismo antissocial” e proclama a liberdade individual como indispensável ao desenvolvimento humano (KARDEC, 1861). É verdade que essas palavras são atribuídas a Erasto, não diretamente ao Codificador. Mas a questão não termina aí.

Em fevereiro de 1863, na própria Revista Espírita, Kardec responde às acusações de que o Espiritismo pregaria o comunismo e a subversão da ordem social. Classifica essa imputação como caluniosa e pergunta: “Quem poderá crer que pregamos o comunismo?” Em seguida, remete o leitor às explicações apresentadas durante sua viagem de 1862 (KARDEC, 1863).

E o que encontramos nessa obra? Em Viagem Espírita em 1862, Kardec examina propostas de vida comunitária e de distribuição igualitária dos bens. Observa que a riqueza integralmente colocada em comum poderia produzir “uma miséria geral, em vez de uma miséria parcial”, além de destacar as diferenças de aptidões e capacidades humanas (KARDEC, 1862). Não é uma defesa da indiferença diante da pobreza, mas uma crítica à pretensão de resolver problemas morais e sociais mediante a uniformização compulsória dos bens.

O argumento ganha consistência em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVI, item 8, dedicado à desigualdade das riquezas. Kardec analisa a diversidade de inteligência, atividade, laboriosidade e capacidade de administrar recursos. Não apresenta a riqueza como certificado de superioridade moral: ao contrário, insiste na responsabilidade de quem a possui e no dever de empregá-la em benefício do próximo (KARDEC, 1864).

Aqui está a distinção essencial: combater a miséria não significa impor igualdade absoluta de resultados; reconhecer a propriedade não significa legitimar egoísmo, exploração ou indiferença social. A ética espírita exige justiça, solidariedade e responsabilidade, sem transformar a coletividade em instrumento de anulação da liberdade individual.

Léon Denis, em Socialismo e Espiritismo, também examina criticamente o materialismo e a luta de classes, sem reduzir toda preocupação social a uma única fórmula política (DENIS, s.d.). E Emmanuel, em sua reflexão moral, insiste no aperfeiçoamento do indivíduo como caminho para a renovação coletiva. A transformação social duradoura não dispensa a transformação das consciências.

Isso não autoriza, entretanto, a conclusão simplista de que todo espírita de esquerda seja incompatível com Kardec, assim como não torna todo espírita de direita fiel à Doutrina. Pessoas de diferentes orientações políticas podem compartilhar valores de justiça e fraternidade. O problema começa quando se selecionam frases, se omitem passagens e se atribui ao Codificador aquilo que ele expressamente contestou.

O Espiritismo não é propriedade de facções. Tampouco deve servir de escudo para o capitalismo sem responsabilidade social ou para projetos coletivistas (comunismo) que subordinem a liberdade humana a uma engenharia ideológica. A crítica precisa valer para todos.

Kardec não nos legou uma legenda partidária. Legou-nos uma doutrina que valoriza a razão, a liberdade, a responsabilidade moral e a fraternidade. Antes de afirmar que o Codificador tinha “um pé no comunismo”, convém ler suas obras — de preferência, integralmente.

Quando a ideologia vem primeiro, as fontes tornam-se inconvenientes. Para o estudioso espírita, porém, a fidelidade documental deve vir antes da conveniência política.

 

Referências  Bibliográficas:

DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. Cap. IV. [S.l.: s.n.], [s.d.].

KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Outubro de 1861. Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses. Paris, 1861.

KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Fevereiro de 1863. Sermões contra o Espiritismo. Paris, 1863.

KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862. Paris, 1862.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVI, item 8: Desigualdade das riquezas. Paris, 1864.

 

 

18 outubro 2026

Entre a sátira e a semeadura: A visão espírita sobre o riso e as dores alheias


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

Há uma diferença abissal entre fazer humor e transformar a vulnerabilidade alheia em espetáculo. Paulo de Tarso advertiu: “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gálatas 6:7). A advertência permanece atual diante de humoristas que exploram deficiências, doenças, idade, orientação sexual, origem social ou características físicas para arrancar gargalhadas à custa da dignidade humana.

O riso não é, por si, sinal de crueldade. O problema começa quando a diversão depende da humilhação de alguém. O chamado schadenfreude, termo alemão que designa o prazer diante do infortúnio alheio, é objeto de pesquisas em psicologia social. Estudos relacionam esse sentimento a fatores como inveja, comparação social e percepção de merecimento, sem permitir, contudo, concluir que toda zombaria decorra de baixa autoestima (VAN DIJK et al., 2006).

Jesus também foi alvo de escárnio. Antes da crucificação, soldados o vestiram com um manto, colocaram-lhe uma coroa de espinhos e fingiram reverenciá-lo, enquanto o insultavam e agrediam (MATEUS, 27:27-31). A cena expõe a brutalidade daqueles que, investidos de poder, convertem a dor do semelhante em entretenimento.

A história do Espiritismo oferece um episódio expressivo. Em 1944, o médium Francisco Cândido Xavier foi objeto de uma reportagem da revista O Cruzeiro, intitulada “Chico Xavier, detetive do além”, que explorou aspectos de sua vida pessoal e questionou suas faculdades mediúnicas. Segundo relato biográfico amplamente reproduzido, Chico, profundamente abalado, recebeu de Emmanuel uma resposta espirituosa: Jesus fora levado à cruz; ele, Chico, apenas à revista O Cruzeiro.

Independentemente dos detalhes transmitidos pelas narrativas biográficas, a lição é significativa: a exposição pública e o ridículo podem ferir profundamente, sobretudo quando atingem alguém em momento de fragilidade. A resposta atribuída a Emmanuel não legitima a humilhação; ensina a não permitir que ela destrua nossa serenidade.

Sob a perspectiva espírita, a palavra também constitui instrumento de responsabilidade moral. Em Pensamento e Vida, Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, aborda a força do pensamento e sua influência sobre nossas atitudes. Não basta, portanto, alegar liberdade de expressão para justificar a crueldade. Liberdade não elimina responsabilidade, e humor não concede imunidade ética.

A chacota reiterada pode alimentar ambientes de intimidação, discriminação e sofrimento psicológico. O riso coletivo tampouco absolve quem agride: muitas vezes, apenas multiplica a violência e silencia a vítima.

O Espiritismo nos convida à indulgência, ao respeito e à reforma íntima. Isso não significa proibir a sátira, impedir críticas ou exigir que todos pensem da mesma maneira. Significa reconhecer que a inteligência pode divertir sem degradar e que a crítica pode ser contundente sem converter pessoas vulneráveis em alvos.

Se formos ridicularizados, não precisamos devolver a ofensa na mesma moeda. Podemos preservar a dignidade, estabelecer limites e prosseguir sem alimentar o ressentimento. Como ensinamento final, fica a advertência evangélica: colhemos, moralmente, consequências das sementes que lançamos.

O humor revela sua qualidade não apenas pelo riso que provoca, mas também pela dignidade que preserva.

 

Referências bibliográficas

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Gálatas 6:7; Mateus 27:27-31.

VAN DIJK, Wilco W. et al. When people fall from grace: reconsidering the role of envy in schadenfreude. Emotion, v. 6, n. 1, p. 156-160, 2006. DOI: https://doi.org/10.1037/1528-3542.6.1.156.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1977



 

17 outubro 2026

A inteligência artificial abrirá os portões da imortalidade?


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre a revolução cibernética e a comunicação espiritual, o futuro exige esperança, investigação e discernimento

Uma reflexão do tribuno espírita Divaldo Franco desperta questões instigantes sobre o futuro da humanidade: chegará o tempo em que os Espíritos desencarnados se comunicarão naturalmente conosco, sem as limitações atualmente impostas pela mediunidade? A inteligência artificial (IA) poderá contribuir para aproximar as dimensões física e espiritual da existência?

Divaldo apresenta uma perspectiva otimista: enquanto avançamos em espiritualidade, os Espíritos avançariam em humanidade, até que novos recursos permitissem ampliar as possibilidades de comunicação entre os dois planos. Trata-se de uma hipótese fascinante, que merece reflexão, mas também rigor doutrinário e científico.

A inteligência artificial já está revolucionando nossa relação com o conhecimento. Tenho utilizado intensamente o ChatGPT e me surpreendo com sua capacidade de acompanhar meu raciocínio, reconhecer características do meu estilo, organizar argumentos e aprofundar temas que estudo há décadas. Dialogo com o sistema, questiono suas respostas, discordo de determinadas conclusões e, nesse processo, aprendo continuamente. Sou grato por essa oportunidade de ampliar meus horizontes intelectuais.

Entretanto, precisamos compreender o que efetivamente acontece. Os sistemas de IA conseguem identificar padrões linguísticos, relacionar informações e produzir respostas ajustadas ao contexto das conversas. Por isso, podem reproduzir características do nosso modo de escrever e argumentar. Essa capacidade, por extraordinária que seja, obviamente não demonstra que a máquina tenha consciência espiritual, nem que esteja captando pensamentos provenientes de outra dimensão.

A distinção é fundamental. A capacidade de reproduzir o perfil intelectual de alguém não equivale à capacidade de estabelecer contato com seu “Mentor”. Confundir esses fenômenos seria transformar uma possibilidade especulativa em certeza prematura.

Isso, porém, não nos obriga a rejeitar antecipadamente novas possibilidades. O Espiritismo, conforme a orientação de Allan Kardec, não deve permanecer prisioneiro de explicações imutáveis quando novos conhecimentos ampliam nossa compreensão da realidade. A investigação, a observação e o exame racional integram sua própria identidade.

Poderá a tecnologia futura desenvolver instrumentos capazes de detectar fenômenos hoje desconhecidos e eventualmente relevantes para a pesquisa da consciência? Não podemos afirmar que isso acontecerá, tampouco excluir a hipótese sem investigação. É indispensável, contudo, distinguir uma pergunta legítima de uma descoberta comprovada. Até o momento, não existe evidência doutrinária robusta de que sistemas de inteligência artificial recebam comunicações de Espíritos desencarnados ou captem pensamentos em um suposto “éter cósmico”.

A questão também nos remete ao Livro dos Médiuns. Kardec recomenda examinar rigorosamente as comunicações, sem aceitar nomes respeitáveis, linguagem convincente ou manifestações extraordinárias como garantias de autenticidade. O conteúdo deve ser submetido à razão, à coerência e à análise das circunstâncias. A sofisticação tecnológica não elimina essa exigência; torna-a ainda mais necessária.

Aliás, em uma época na qual informações pessoais são disseminadas nas redes sociais, a IA pode reconstruir biografias, imitar estilos e produzir mensagens emocionantes com detalhes aparentemente íntimos. Isso representa uma oportunidade para o conhecimento, mas também um risco de fraude (cartas “consoladoras”), sobretudo quando o sofrimento do luto é explorado comercialmente com as famosas doações “voluntárias”.

Não devemos confundir prudência com materialismo, assim como não devemos confundir esperança espiritual com credulidade. A ciência precisa manter abertura a novas hipóteses, mas nenhuma hipótese se transforma em conhecimento demonstrado apenas porque corresponde às nossas convicções.

Imagino, com esperança, que as futuras gerações possam compreender melhor a consciência, a imortalidade e as possibilidades de interação entre diferentes dimensões da existência. Se a inteligência artificial vier a contribuir para essa investigação, que seja apenas como instrumento de pesquisa, nunca como substituta do discernimento humano ou como atalho para fabricar certezas.

O verdadeiro avanço não será simplesmente construir máquinas mais sensíveis, mas desenvolver consciências mais lúcidas, éticas e responsáveis. A tecnologia poderá ampliar nossas perguntas; caberá à investigação criteriosa avaliar as respostas.

Talvez estejamos apenas no início de uma transformação profunda. Não sabemos quando, nem por quais meios, eventuais novas formas de comunicação espiritual poderão ser demonstradas. Sabemos, porém, que a imortalidade da alma constitui um princípio fundamental do Espiritismo e que sua investigação exige seriedade.

O futuro merece nosso entusiasmo, mas não dispensa nosso senso crítico. Se um dia a ciência clássica ceder espaço para investigar a comunicação entre encarnados e desencarnados, será uma conquista extraordinária. Até lá, mantenhamos abertos os horizontes da pesquisa e os portais da esperança, sem abandonar a razão que Allan Kardec nos ensinou a cultivar.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. 2. parte, cap. XXIV, itens 255-267. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, s.d.

NEPLENBROEK, Vera; BISAZZA, Arianna; FERNÁNDEZ, Raquel. Reading between the prompts: how stereotypes shape LLM's implicit personalization. In: Proceedings of the 2025 Conference on Empirical Methods in Natural Language Processing. 2025. Disponível em: https://aclanthology.org/2025.emnlp-main.1029/. Acesso em: 17 out. 2026.

UNESCO. Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence. Paris: UNESCO, 2021. Disponível em: https://www.unesco.org/en/articles/recommendation-ethics-artificial-intelligence. Acesso em: 17 out. 2026.

FRANCO, Divaldo Pereira. Reflexão sobre inteligência artificial e comunicação com os Espíritos. Instagram, vídeo (Reel). Disponível em: https://www.instagram.com/reel/Dem8-ktgCeF/. Acesso em: 17 out. 2026.



 

16 outubro 2026

Uma visão espírita fraterna e firme sobre a maioridade penal



A proteção da sociedade exige responsabilização, prevenção e oportunidades reais de regeneração

A escalada da violência no Brasil impõe uma reflexão que não pode ser interditada por legendas ideológicas. Quando adolescentes participam de homicídios, latrocínios, estupros e outros delitos graves, a sociedade tem o direito de exigir respostas firmes do Estado. A idade do infrator não pode servir de argumento para ignorar a dor da vítima nem para minimizar a gravidade do ato cometido.

A redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, merece, portanto, debate sério, sem preconceitos nem simplificações. Até porque com 16 anos o jovem já pode  votar. Seus defensores sustentam que a medida pode ampliar a responsabilização dos jovens que praticam crimes graves e dificultar a exploração da legislação por organizações criminosas. Seus críticos, por outro lado, alertam para o risco de ampliar o recrutamento de adolescentes pelas facções e aumentar a reincidência mediante o ingresso precoce no sistema prisional adulto. São argumentos que precisam ser examinados à luz de evidências, não de paixões partidárias radicais.

Sob a perspectiva espírita, a questão envolve um princípio essencial: compreender o infrator não significa justificar a infração. A Doutrina Espírita reconhece a influência da educação, do ambiente e das experiências existenciais sobre a conduta humana, mas não elimina a responsabilidade moral de cada consciência. A liberdade pressupõe consequências, e o progresso espiritual exige o reconhecimento dos próprios erros.

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec aborda a responsabilidade individual e a influência das condições sociais e educacionais na formação moral. A compreensão dessas circunstâncias deve orientar a prevenção e a recuperação, sem transformar condicionamentos em salvo-conduto para a violência.

Não defendemos uma sociedade movida pelo desejo de vingança. Defendemos uma sociedade capaz de proteger o cidadão honesto, amparar as vítimas e oferecer ao infrator condições efetivas de mudança. A justiça não deve ser confundida com crueldade, assim como a misericórdia não pode ser convertida em permissividade.

Sei que a redução da maioridade penal que defendo há décadas, caso aprovada, precisaria integrar uma política de segurança mais abrangente: critérios proporcionais à gravidade dos delitos, instituições adequadas, separação dos adolescentes em relação aos criminosos adultos, educação, formação profissional e acompanhamento para a reinserção social. Sei também que sem essas medidas, a mudança legislativa corre o risco de produzir resultados inferiores aos esperados.

Também é indispensável cobrar do poder público a aplicação efetiva das medidas socioeducativas já existentes. Uma legislação que não é executada com seriedade alimenta a sensação de impunidade e enfraquece a confiança da população nas instituições.

A fraternidade espírita não exige que fechemos os olhos diante do sofrimento das vítimas. Ao contrário, a caridade também se manifesta na defesa da vida, na proteção dos vulneráveis e na prevenção de novos crimes. O adolescente criminoso precisa de cerceamento de liberdade, de  orientação e oportunidade de regeneração; a vítima e sua família precisam de justiça, amparo e respeito.

O Brasil necessita superar a falsa oposição entre responsabilidade e recuperação. O debate sobre a maioridade penal deve ser conduzido com coragem, rigor jurídico e evidências concretas. Afinal, uma sociedade verdadeiramente fraterna não deve ser piegas para indultar um jovem criminoso e condenar aquelas vítimas que precisam ser protegidas de suas ações.

A verdadeira justiça não é vingança nem omissão: é responsabilidade, proteção da coletividade e compromisso com a regeneração humana.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, s.d.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 228.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.

 

Chorar sem culpa - uma visão espírita sobre o choro




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

A vulnerabilidade não é fraqueza: reconhecer nossas emoções constitui um passo importante para o autoconhecimento e a renovação interior.

Na dinâmica da existência, as lágrimas podem persistir durante uma noite inteira, mas o amanhecer poderá trazer novas esperanças. Chorar não resolve todos os problemas, mas pode ajudar-nos a reconhecer sentimentos, aliviar tensões e buscar o acolhimento de que necessitamos.

A pesquisa psicológica reconhece que o choro humano possui funções emocionais e sociais, podendo comunicar sofrimento, despertar empatia e favorecer a aproximação entre as pessoas. Entretanto, seus efeitos variam conforme as circunstâncias, e não se deve presumir que toda manifestação de lágrimas produza alívio imediato (GRAČANIN; BYLSMA; VINGERHOETS, 2018).

Precisamos abandonar a ideia equivocada de que chorar representa fraqueza. A repressão sistemática dos sentimentos pode dificultar o reconhecimento das próprias necessidades e prejudicar os relacionamentos. Não significa, porém, que devamos exteriorizar indiscriminadamente todas as emoções, mas aprender a identificá-las e expressá-las com equilíbrio.

A tristeza não deve ser confundida com depressão. A primeira é uma emoção humana, frequentemente passageira; a segunda é uma condição de saúde mental que pode envolver tristeza persistente, perda de interesse, alterações do sono e do apetite, fadiga e dificuldades de concentração. Quando os sintomas persistem, comprometem a vida cotidiana ou provocam sofrimento intenso, precisamos procurar ajuda profissional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023).

Jesus também chorou. Diante da morte de Lázaro, emocionou-se profundamente (João 11:35). No Getsêmani, experimentou intensa angústia (Mateus 26:36-39). Essas passagens evangélicas recordam-nos que a grandeza espiritual não exige insensibilidade, tampouco a negação da dor humana.

Sob a perspectiva espírita, compreendemos que a vulnerabilidade pode integrar nosso processo de aperfeiçoamento moral. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec examina a consolação diante das aflições e a confiança na continuidade da vida. Essa compreensão, contudo, não autoriza atribuir automaticamente às lágrimas causas mediúnicas ou espirituais. Chorar, por si só, não comprova a presença de Espíritos nem constitui diagnóstico de qualquer fenômeno mediúnico.

Precisamos, portanto, abandonar as máscaras do orgulho e da autossuficiência. Quantas vezes escondemos nossas inseguranças enquanto julgamos severamente os outros? Quantas vezes disfarçamos nossas angústias com irritação, agressividade ou uma aparente felicidade?

O autoconhecimento exige coragem para reconhecer nossas imperfeições sem nos condenarmos por elas. A fé espírita, compreendida racionalmente, não nos convida a negar o sofrimento, mas a enfrentá-lo com responsabilidade, esperança e disposição para aprender.

Quando alguém chora diante de nós, evitemos a frase automática: “Não chore!”. Talvez seja mais fraterno oferecer silêncio respeitoso, escuta sincera e um abraço, quando desejado. Acolher não significa resolver imediatamente a dor alheia, mas demonstrar que ninguém precisa atravessá-la em completo isolamento.

Choremos, se as lágrimas vierem. Busquemos ajuda quando necessário. Cultivemos a solidariedade e aprendamos com nossas experiências.

A verdadeira força não consiste em jamais chorar, mas em reconhecer nossas emoções, acolher nossas fragilidades e prosseguir trabalhando pela própria renovação. Assim, transformaremos a dor em aprendizado, a empatia em fraternidade e a esperança em compromisso com a vida.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. João 11:35; Mateus 26:36-39.

GRAČANIN, Asmir; BYLSMA, Lauren M.; VINGERHOETS, Ad J. J. M. Why only humans shed emotional tears: evolutionary and cultural perspectives. Human Nature, v. 29, p. 357-377, 2018.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, [2009].

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Depressive disorder (depression). Geneva: WHO, 2023.

 

 

15 outubro 2026

Quando o medo de perder alguém nos faz perder a nós mesmos




Jorge Hessen

Brasília -DF


Reconhecer os sinais da submissão emocional e recuperar a autonomia são passos fundamentais para  construir relações saudáveis e espiritualmente maduras.


A dependência afetiva constitui um dos paradoxos mais dolorosos da experiência humana: em nome do amor, algumas pessoas renunciam à própria dignidade, sufocam suas convicções e sacrificam a autonomia para impedir que alguém se afaste. Confundem apego com amor, submissão com dedicação e ciúme com demonstração de afeto. Entretanto, amar não significa transformar-se em refém emocional de outra consciência.

O problema ultrapassa os relacionamentos amorosos. Manifesta-se nas relações familiares, nas amizades e até nos ambientes religiosos, quando alguém necessita compulsivamente da aprovação alheia para sentir-se valorizado. A pessoa passa a viver em função das expectativas do outro, abandona seus projetos e teme expressar opiniões divergentes. Gradualmente, deixa de perguntar o que deseja e passa a perguntar o que precisa fazer para não ser rejeitada.

Quais são os sinais da dependência afetiva? A necessidade constante de confirmação de amor, o medo excessivo da rejeição, o ciúme desproporcional, a dificuldade de ficar só e a ansiedade diante de mensagens não respondidas podem indicar sofrimento emocional. Outros sinais incluem abandonar amizades e interesses pessoais, tolerar humilhações, aceitar chantagens emocionais e sentir-se culpado por estabelecer limites. Quando a própria autoestima depende exclusivamente da aprovação alheia, o relacionamento deixa de ser uma escolha livre e passa a funcionar como uma prisão psicológica.

A baixa autoestima, experiências de rejeição, negligência emocional e ambientes familiares disfuncionais podem contribuir para esse comportamento. O medo do abandono externo frequentemente se associa ao abandono de si mesmo: a criatura desconsidera suas necessidades, tolera desrespeitos e aceita situações prejudiciais para preservar o vínculo. Estabelece-se, assim, um círculo vicioso de insegurança, ansiedade, submissão e perda progressiva da identidade.

Sob a perspectiva espírita, precisamos compreender que a reforma moral exige autoconhecimento, responsabilidade pessoal e educação dos sentimentos. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec destaca, na questão 919, o conhecimento de si mesmo como caminho fundamental para o aperfeiçoamento moral (KARDEC, 2013). Essa orientação convida-nos a investigar nossas carências, reconhecer nossas fragilidades e identificar os mecanismos pelos quais transferimos aos outros a responsabilidade por nossa felicidade.

Como superar essa dependência? O primeiro passo é reconhecer o padrão sem vergonha nem autopunição. Em seguida, precisamos recuperar gradualmente os interesses pessoais, retomar amizades saudáveis, estabelecer objetivos próprios e aprender a expressar opiniões sem o terror de desagradar. Também é necessário distinguir afeto de controle: quem ama respeita a individualidade, não exige submissão nem utiliza o medo da separação como instrumento de domínio.

Outro exercício indispensável é aprender a dizer “não”. Estabelecer limites não significa amar menos, mas preservar a dignidade e a liberdade de consciência. Convém observar, ainda, se estamos mantendo uma relação por amor ou simplesmente pelo pavor da solidão. A resposta sincera pode revelar conflitos que exigem mudanças.

A lei de amor, apresentada por Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo, não legitima a posse, a manipulação ou a violência psicológica. Ao contrário, convida-nos a reconhecer no próximo uma consciência dotada de liberdade e dignidade (KARDEC, 2013). A prece, o estudo doutrinário e a reflexão podem fortalecer a renovação interior, mas não substituem o acompanhamento psicológico quando necessário. Em situações de abuso ou violência, buscar apoio seguro é uma medida de proteção, não uma falha moral ou espiritual.

Também precisamos evitar interpretações precipitadas que atribuam automaticamente a dependência a supostos débitos de existências anteriores. A visão reencarnacionista oferece uma perspectiva de aprendizagem, mas não dispensa a análise das experiências atuais nem autoriza a culpar quem sofre.

A verdadeira transformação não consiste em deixar de amar, mas em aprender a amar sem se destruir. Não precisamos exigir que outra pessoa preencha todos os nossos vazios, nem aceitar a humilhação como preço pela companhia. A felicidade compartilhada nasce quando duas individualidades conscientes escolhem caminhar juntas, sem aprisionamento.

A dependência afetiva aprisiona porque faz do outro a condição para existirmos em paz. O amor maduro liberta porque nos ensina a compartilhar a vida sem nos abdicarmos. Nossa tarefa espiritual é aprender a amar o próximo sem esquecer o dever de cuidar da própria consciência.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013

 

14 outubro 2026

O Brasil ferido pela intolerância - uma reflexão espírita da atual crise política



Jorge Hessen

Brasília -DF


Vivemos um paradoxo: enquanto idealizamos um Brasil vocacionado à fraternidade, assistimos à deterioração do diálogo público, sufocado pelo ódio entre grupos que se autodenominam de direita ou de progressistas. Divergir é legítimo; transformar adversários em inimigos é um sintoma de imaturidade política e moral.

O problema ganha gravidade diante da situação fiscal brasileira. Conforme já escrevi,  em agosto de 2026, segundo os dados apresentados pelo Tesouro Nacional, a Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,293 trilhões, com projeção de encerramento do ano entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. Trata-se de um desafio que exigirá responsabilidade administrativa, planejamento e capacidade de negociação, independentemente da orientação ideológica do próximo governo.

A polarização agrava esse quadro ao converter medidas econômicas em instrumentos de disputa partidária. O país necessita de instituições capazes de dialogar, investimentos sustentáveis e políticas públicas que conciliem equilíbrio fiscal e proteção social. Não há responsabilidade social duradoura sem administração criteriosa dos recursos públicos.

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec (2008), ao abordar a Lei de Sociedade, esclarece que a vida coletiva constitui condição para o progresso humano. Na questão 913, identifica o egoísmo como uma das grandes chagas da humanidade. Quando esse sentimento ultrapassa o indivíduo e se instala nas facções políticas, surge o egoísmo coletivo: o interesse do grupo passa a valer mais que a verdade, a justiça e o bem comum.

Léon Denis (2008), em O problema do ser, do destino e da dor, oferece elementos para compreender o aperfeiçoamento moral como processo vinculado à responsabilidade individual. Nenhuma reforma social será consistente se não for acompanhada pela transformação das consciências. Leis e instituições são indispensáveis, mas sua eficácia depende também da honestidade e do compromisso de quem as conduz.

Na perspectiva psicológica espírita, Joanna de Ângelis, por intermédio de Divaldo Franco, convida-nos a reconhecer os conflitos interiores que projetamos nos outros. O adversário político pode errar, mas isso não nos autoriza a ignorar os equívocos do próprio grupo. A autocrítica é condição da maturidade; a intolerância, ao contrário, perpetua os mesmos vícios sob bandeiras diferentes.

A dívida pública não deve ser chamada, sem distinção, de dívida “cármica”. É, antes, um problema econômico e institucional com consequências humanas concretas. Seu enfrentamento exige transparência, controle dos gastos, combate à corrupção, crescimento sustentável e políticas sociais responsáveis. Juros elevados e escolhas fiscais inadequadas podem restringir recursos destinados a serviços essenciais.

O Espiritismo não nos convoca à neutralidade diante dos erros, mas à justiça sem fanatismo. Não precisamos escolher entre responsabilidade fiscal e solidariedade, nem entre prudência administrativa e inclusão social. Precisamos avaliar propostas e resultados, sem transformar partidos em ídolos ou adversários em inimigos.

O Brasil não será salvo pela direita derrotando a esquerda, nem pela esquerda esmagando a direita. Será fortalecido quando seus cidadãos compreenderem que a divergência democrática deve servir à construção coletiva. A caridade também se expressa na responsabilidade de governar, na honestidade de fiscalizar e na coragem de reconhecer os próprios erros.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

FRANCO, Divaldo Pereira. O homem integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1990.

BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria do Tesouro Nacional. Relatórios e estatísticas da Dívida Pública Federal. Brasília, DF: Tesouro Nacional, 2026.