Jorge Hessen
Brasília -DF
Eis aqui uma reflexão sobre liberdade de consciência, fidelidade doutrinária e defesa da vida, considerando a relação entre convicções religiosas e posições político-ideológicas que suscitam questões delicadas, especialmente quando o debate envolve o aborto.
Para nós, espíritas, o tema merece ser examinado com calma, profundidade e fidelidade aos princípios da Doutrina Espírita, sem transformar divergências políticas em julgamentos sobre a consciência alheia.
No Cristianismo, a vida humana é tradicionalmente compreendida como dádiva divina. No Espiritismo, essa compreensão encontra fundamento explícito em O Livro dos Espíritos. Na questão 358, Allan Kardec pergunta se o aborto provocado constitui crime. A resposta é direta: “Há crime sempre que transgredis a lei de Deus.” A explicação apresentada pelos Espíritos relaciona o aborto provocado à interrupção de uma existência corporal que ofereceria ao Espírito uma oportunidade de aprendizado e progresso.
Essa orientação doutrinária nos convida a uma reflexão importante. Como conciliar a compreensão espírita da reencarnação, da finalidade educativa da existência corporal e do respeito à vida com determinadas posições políticas de esquerda que defendem a ampliação do direito ao aborto?
Não se trata de afirmar que todo indivíduo de ideologia vermelha seja materialista ou que determinada opção partidária seja, por si mesma, incompatível com a fé espírita. A realidade política é muito mais complexa. Sei que há confrades sinceramente comprometidos com a “justiça social”, a “redução” da pobreza e a dignidade humana que podem interpretar de maneiras distintas questões bioéticas muito complexas.
O ponto central aqui está, portanto, no dilema de consciência que pode surgir quando nossas convicções políticas encontram princípios doutrinários relacionados à vida. O espírita dispõe da liberdade de consciência até porque não recebe da Doutrina uma orientação partidária. Kardec jamais estabeleceu uma legenda política para o espírita. Cabe-nos estudar, ponderar e assumir responsavelmente nossas escolhas.
Ao mesmo tempo, não pretendemos reduzir o aborto a uma simples questão partidária. Existe situação dramática como a gravidez com os riscos graves à saúde materna que exigem sensibilidade, conhecimento médico, reflexão jurídica e profundo respeito pelo sofrimento humano.
Isso, contudo, não elimina a questão essencial levantada pelo Espiritismo: o que representa, do ponto de vista espiritual, a interrupção deliberada de uma existência em processo de formação?
O ideal seria divergirmos politicamente e continuarmos fraternos, embora isso ecoe um tanto utópico para muitos. Sim, podemos defender diferentes concepções para a sociedade sem transformar o opositor partidário em inimigo. Mas, justamente porque valorizamos a liberdade de consciência, precisamos também examinar nossas próprias escolhas à luz dos princípios que afirmamos abraçar.
Para nós, a questão não deve ser simplesmente “esquerda ou direita”. A pergunta mais profunda é outra: até que ponto nossas convicções políticas dialogam com aquilo que estudamos e compreendemos como princípios espirituais?
A fidelidade kardeciana não exige uniformidade política. Exige estudo, discernimento, liberdade de pensamento e responsabilidade moral. Não cabe ao espírita impor sua consciência aos demais, tampouco lhe cabe silenciar aquilo que sua consciência, iluminada pelo estudo doutrinário, lhe apresenta como valor fundamental.
Mais do que acusar incoerências, precisamos cultivar coerência interior. Não se trata aqui de combater pessoas, mas de examinar ideias e coerência doutrinária. É nesse exercício de liberdade, respeito e reflexão que a fé espírita pode contribuir para um debate tão urgente quanto o da vida humana e do assassínio de um ser humano no ventre materno.
Referência Bibliográfica:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013. Questão 358.






