SITES E BLOGS

  • LEITORES
  • 2/16/2026

    O Espiritismo não é um espetáculo. É proposta de reforma íntima

     


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Vivemos a era da vitrine digital. Curtidas, seguidores e visualizações passaram a funcionar como selo de relevância. No entanto, quando essa lógica invade o movimento espírita, cria-se uma distorção preocupante: confundir popularidade com autoridade moral; alcance virtual com elevação espiritual.

    O Espiritismo jamais estabeleceu como critério de valor doutrinário a fama ou a projeção pública. Ao contrário, a Doutrina enfatiza o conteúdo, a coerência e, sobretudo, a transformação moral. Portanto, é pela transformação moral e pelos esforços que se emprega para domar suas más inclinações que se reconhece o verdadeiro espírita.

    O equívoco de base no movimento espírita brasileiro está em importar critérios do mercado para o campo espiritual. Cria-se uma espécie de “hierarquia informal” onde o número de inscritos em redes sociais se torna métrica de autoridade doutrinária. Como se quanto mais famoso, mais evoluído fosse o palestrante. Essa lógica, porém, é estranha ao espírito da Doutrina.

    A mediunidade e a oratória espírita são tarefas de serviço, não instrumentos de autopromoção. Chico Xavier, talvez o maior exemplo contemporâneo de projeção pública dentro do Espiritismo, jamais buscou visibilidade. A fama lhe foi consequência do trabalho, não objetivo. Viveu com simplicidade, recusou privilégios e nunca se colocou como celebridade espiritual.

    Quando eventos passam a priorizar “nomes que dão público”, corremos o risco de transformar o púlpito espírita em teatro ou circo. E o palco ou picadeiro exige performance; já a tribuna espírita exige compromisso moral. São coisas distintas. O primeiro busca aplauso; a segunda busca consciência.

    Isso não significa que ter muitos seguidores seja, por si, algo negativo. A internet é instrumento valioso de divulgação. O problema surge quando o critério de escolha deixa de ser a fidelidade doutrinária e passa a ser a capacidade de atrair público. A popularidade pode acompanhar o mérito — mas não o substitui.

    O Espiritismo não é um espetáculo. É proposta de reforma íntima. Não é carreira, é compromisso. Não é marketing, é testemunho.

    Talvez estejamos diante de um chamado à maturidade do movimento: valorizar mais o conteúdo do que a embalagem; mais a coerência do que a performance; mais a vivência silenciosa do que o brilho momentâneo.