03 setembro 2026

Quando um palestrante “global” sobe à tribuna espírita e a ideologia desce na cloaca


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Imagine um auditório espírita reunido para ouvir uma palestra. Pessoas chegam em busca de reflexão, consolo, conhecimento e, sobretudo, de uma palavra capaz de aproximá-las dos ensinamentos de Jesus e da Doutrina Espírita. De repente, um orador convidado célebre e “global” assume o microfone e regurgita, em alto e bom som:

“ANISTIA NÃO! ANISTIA NÃO!”

O ambiente muda. A palestra deixa de ser espaço de reflexão e passa a carregar a atmosfera de uma disputa política. Pessoas começam a se retirar. É preciso perguntar, sem medo e sem partidarismo: o que uma palavra de ordem política faz dentro de uma atividade espírita?

A crítica aqui não é à opinião política de ninguém. Todo cidadão tem direito de defender ou rejeitar a anistia, dentro dos limites democráticos. O problema está em transformar uma tribuna espírita em palanque político, especialmente quando o espaço foi oferecido para exposição da Doutrina.

O Evangelho também não oferece respaldo para essa postura. Jesus não ensinou seus discípulos a organizar torcidas. Não recomendou a fabricação de inimigos políticos. Ensinou o amor ao próximo, inclusive ao que pensa de maneira diferente.

Por isso, o problema não é ser progressista, conservador, liberal, socialista, de direita ou de esquerda. O problema começa quando qualquer dessas identidades pretende ocupar o lugar da Doutrina Espírita dentro da Casa Espírita.

A instituição espírita não deveria reproduzir a mesma guerra de narrativas que domina as redes sociais, os parlamentos e os palanques. O ambiente espírita não é comitê eleitoral e palestra espírita não é comício e a tribuna doutrinária não é palanque de politiqueiros.

Quem recebe a responsabilidade de falar em nome do Espiritismo deveria compreender que um microfone representa responsabilidade, não licença para provocar polarizações.

Pode-se defender a anistia. Pode-se rejeitá-la. Pode-se discutir suas implicações jurídicas, políticas e sociais. Mas essa discussão precisa encontrar o espaço apropriado.

Quando uma reunião espírita é utilizada para proclamar palavras de ordem, cria-se uma divisão absolutamente desnecessária entre pessoas que poderiam estar unidas pelo estudo do Evangelho e da Doutrina.

E há uma consequência ainda mais grave: o cidadão que pensa diferentemente pode sentir que aquele espaço deixou de ser dele. Isso é exatamente o contrário da fraternidade.

O movimento espírita brasileiro não precisa importar para seus centros a lógica do “nós contra eles”. Precisa recuperar a serenidade,  estudar Kardec, compreender Jesus e respeitar a consciência alheia.

E precisa, sobretudo, lembrar que a força do Espiritismo não está na capacidade de levantar multidões contra alguém, mas na capacidade de transformar seres humanos para melhor.

Se uma tribuna espírita provoca mais divisão política do que reflexão espiritual, talvez seja hora de perguntar, com absoluta serenidade: estamos realmente divulgando o Espiritismo — ou apenas utilizando o Espiritismo para divulgar nossas próprias convicções políticas?

Essa pergunta não é perseguição. É legítima preocupação doutrinária. E talvez seja uma das perguntas mais urgentes que o movimento espírita precise enfrentar.

 

 

02 setembro 2026

Quando a dor dos pais enlutados vira R$ 300 mil é preciso investigar



jorge Hessen

Brasília -DF

 

O caso revelado pelo Metrópoles é perturbador e exige investigação rigorosa. Segundo a reportagem, dezenas de pessoas acusam uma suposta médium de produzir cartas do “além” utilizando informações disponíveis em redes sociais. Uma das denúncias é especialmente grave: o suposto espírito de um jovem teria orientado os pais a doar a uma instituição uma poupança de R$ 300 mil.

É preciso repetirR$ 300 mil.

Não estamos diante de uma pequena contribuição espontânea. Estamos falando de uma quantia expressiva, patrimônio acumulado por uma família. Se ficar comprovado que uma comunicação espiritual falsa foi conscientemente utilizada para “aliviar” a consciência  e induzir alguém a transferir um patrimônio de R$ 300 mil, estaremos diante de uma situação que ultrapassa o campo metafísico e exige responsabilização jurídica.

E há um agravante humano: a suposta mensagem teve como destinatários pais enlutados. E sabemos que  o luto produz vulnerabilidade. Quem perde um filho pode desejar desesperadamente ouvir novamente sua voz. Nesse estado emocional, uma informação verdadeira sobre a família pode parecer uma prova sobrenatural.

Hoje, redes sociais, fotografias, comentários, obituários e publicações oferecem enorme quantidade de dados capazes de alimentar narrativas aparentemente íntimas. A própria reportagem afirma que informações públicas teriam sido utilizadas na elaboração das cartas.

Por isso, a dor do luto jamais pode transformar-se em matéria-prima para exploração financeira tampouco na bagatela de  R$ 300 mil.

A Doutrina Espírita também não oferece salvo-conduto para qualquer alegação mediúnica. Jesus é categórico: “De graça recebestes, de graça dai” (MATEUS, 10:8). Kardec, ao tratar da mediunidade, enfatiza a necessidade de prudência, discernimento e controle diante das comunicações espirituais (KARDEC, 2013).

Mais importante ainda: nenhum médium é proprietário da verdade. Mediunidade não é título de autoridade, certificado de infalibilidade nem autorização para interferir em decisões patrimoniais de pessoas fragilizadas.

O caso ganhou nova dimensão institucional. O Metrópoles informou que a 11ª Delegacia de Polícia do DF investiga fatos relacionados a médium e que, em 1º de setembro de 2026, o MPDFT instaurou notícia de fato para apurar as denúncias.

Agora é preciso ir até o fim, onde os documentos devem ser examinados; as mensagens, registros digitais e eventuais movimentações financeiras precisam ser periciados (sobretudo os dados na Internet desse jovem “mão aberta”). Vítimas e testemunhas devem ser ouvidas. Obviamente , se não houver crime comprovado (inobstante o áudio contido na reportagem), isso também precisa ser claramente estabelecido.

Não se trata de condenar antecipadamente ninguém. Trata-se de exigir investigação. Se alguém utilizou, conscientemente, o nome de mortos para manipular enlutados e obter vantagens econômicas, a gravidade é imensa (o áudio da suposta médium contido na reportagem é emblemático). Porém , se as denúncias não forem evidenciadas, que a verdade igualmente prevaleça.

O Espiritismo não precisa de silêncio diante de denúncias. Precisa de coragem para separar fé de credulidade, mediunidade de mistificação e caridade de exploração.

O nome de um morto não pode ser transformado em instrumento de pressão sobre os vivos.

E uma suposta mensagem do além jamais deveria servir de mecanismo para constranger alguém a entregar seu patrimônio. Quando a dor de uma família pode ser convertida em R$ 300 mil, já não estamos diante de uma simples questão de fé. Estamos diante de um cenário que exige avaliações, investigação e, se houver crime, Justiça já!

 

Referências — ABNT

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.

BÍBLIA.. Mateus 10:8.

METRÓPOLES. Médium é acusada de forjar psicografia com dados obtidos nas redes sociais. Brasília, 31 ago. 2026.

METRÓPOLES. MPDFT recebe denúncias e abre apuração de supostos crimes da médium Maira. Brasília, 1 set. 2026. 

01 setembro 2026

Ministério Público investiga. Polícia Civil apura. Pernambuco homenageia.


Jorge Hessen

Brasília -DF  

Enquanto denúncias graves são apuradas em Brasília, uma honraria pública está marcada para Recife. É coincidência? Imprudência? Ou simplesmente ninguém está olhando? O Movimento Espírita  precisa olhar.

Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) recebeu denúncias contra uma cidadã, apontada como médium e dirigente de uma instituição supostamente “religiosa” em Águas Claras. Diante das manifestações, o MPDFT instaurou Notícia de Fato, encaminhada para análise de uma Promotoria de Justiça Criminal. A Polícia Civil do Distrito Federal também mantém inquérito sobre fatos relacionados à atuação da suposta médium.

Isso muito obviamente não significa condenação. Significa investigação. E investigação oficial não pode ser tratada como detalhe irrelevante.

O que causa perplexidade é que, enquanto Brasília apura denúncias envolvendo supostas cartas “consoladoras” psicografadas, está prevista para esta quarta-feira, 2 de setembro, em Recife, uma homenagem pública à mesma pessoa.

É preciso perguntar: 

QUE CORRERIA É ESSA?

Por que conceder agora uma honraria de tamanha simbologia? Por que não aguardar o esclarecimento de fatos tão graves? Ninguém está pedindo condenação antecipada. Está-se pedindo prudência institucional.

Uma investigação não transforma automaticamente alguém em culpado. Mas uma homenagem pública também não transforma ninguém em inocente. O título de cidadania não é um certificado de idoneidade.

As denúncias, segundo a imprensa, envolvem alegações de que informações disponíveis em redes sociais de familiares teriam aparecido posteriormente em cartas atribuídas a pessoas desencarnadas. Há relatos de inconsistências, erros e contradições que precisam ser tecnicamente examinados.

Se tudo for falso, que a investigação demonstre. Se houver explicações plausíveis, que sejam apresentadas. Mas, se as acusações forem comprovadas, estaremos diante de algo moralmente devastador: a possível exploração da vulnerabilidade de pessoas mergulhadas no luto.

E há ainda a referência a R$ 300 MIL em patrimônio, mencionada nas denúncias relacionadas ao caso.

Trezentos mil reais não são apenas números. Podem representar anos de trabalho, economias familiares e a confiança depositada em alguém, justamente quando a pessoa está emocionalmente fragilizada.

O luto não pode transformar-se em território de caça. Quem perdeu um filho não está procurando espetáculo. Quem perdeu uma mãe não está participando de um jogo. Quem procura uma suposta mensagem psicografada pode estar disposto a acreditar em qualquer palavra que, por alguns instantes, devolva a sensação de proximidade com quem partiu.

É justamente por isso que a mediunidade exige responsabilidade, ética e absoluta repulsa à exploração da dor humana.

Se houver fraude, que seja desmascarada. Se não houver, que a investigação o demonstre.

Mas transformar uma pessoa sob investigação em personalidade homenageada, antes do esclarecimento de acusações dessa natureza, é uma decisão que merece explicações públicas.

Ministério Público investiga. Polícia Civil apura. Pernambuco homenageia. Essa sequência deveria, no mínimo, provocar reflexão.

Não se trata de perseguir uma pessoa. Trata-se de defender instituições, famílias, o direito à verdade e a própria dignidade da mediunidade.

Às autoridades responsáveis pela homenagem, fica uma pergunta simples: Se não há nada a temer, qual seria o problema em esperar?

A verdade não desaparece porque uma solenidade é adiada.

Uma investigação séria não pode ser atropelada por aplausos. E uma honraria pública não deveria produzir, ainda que involuntariamente, uma aparência de respeitabilidade enquanto órgãos oficiais procuram descobrir o que realmente aconteceu.

Antes da medalha, a verdade. Antes do aplauso, os fatos. Antes da homenagem, a investigação.

Quando estão em jogo luto, fé, patrimônio e denúncias de possível fraude, a sociedade não pode simplesmente aplaudir e virar a página.

É preciso parar. Perguntar. Investigar. E, acima de tudo, exigir verdade.

Referências Bibliográficas:

CARONE, Carlos; ALMEIDA, Thamires; ARAÚJO, Saulo; BRAGANÇA, Miguel. Médium é acusada de forjar psicografia com dados obtidos em redes sociais. Metrópoles, Brasília, 31 ago. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/. Acesso em: 1 set. 2026.

CARONE, Carlos. MPDFT recebe denúncias e abre apuração de supostos crimes da médium Maira. Metrópoles, Brasília, 1 set. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/. Acesso em: 1 set. 2026.

DISTRITO FEDERAL. Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. Corregedoria-Geral: Notícia de Fato e Procedimento Administrativo. Brasília: MPDFT. Disponível em: https://www.mpdft.mp.br/. Acesso em: 1 set. 2026

 

30 agosto 2026

Quando a internet vira “espírito” e a pérfida carta que desconsola



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

“É uma questão de fé.” Eis a frase favorita de  charlatães que não querem responder perguntas. Questiona-se uma suposta carta psicografada e imediatamente aparece o argumento salvador: quem acredita, acredita; quem não acredita, não acredita. Assim, dispensa-se a investigação, arquivam-se as dúvidas e manda-se a razão para o esgoto.

Mas não. Mediunidade não é licença para a credulidade. E uma carta “consoladora” não se torna autêntica porque fez uma mãe chorar.

Allan Kardec jamais ensinou que toda mensagem atribuída aos mortos deveria ser aceita de joelhos. Pelo contrário: recomendou análise, comparação e vigilância diante das mistificações. O Espiritismo não foi codificado para produzir uma multidão de crentes incapazes de formular uma pergunta incômoda.

Uma comunicação verdadeiramente extraordinária pode conter informações íntimas, específicas e verificáveis, inacessíveis ao público e desconhecidas do médium por meios normais. Detalhes que somente a família — às vezes parentes distantes ou pouquíssimas pessoas — conhecia. Isso merece investigação séria.

Agora, quando a “revelação do além” está disponível no Facebook, no Instagram, numa reportagem, num vídeo ou numa simples pesquisa na internet, convém conter o entusiasmo. Antes de convocar os Espíritos, talvez seja suficiente consultar o mecanismo de busca.

É a mediunidade assistida pelo Google e pela I.A.

A situação é particularmente grave porque o alvo é quase sempre o mesmo: a pessoa enlutada. Alguém ferido pela ausência, vulnerável, desejando desesperadamente ouvir novamente a voz de quem partiu. E é precisamente nesse território sagrado da dor que “prosperam” os charlatães  da esperança.

Não se está afirmando que toda carta seja fraudulenta. Seria tão irresponsável quanto aceitar todas como autênticas. O que se exige é outra coisa: prova, comparação, investigação e prudência. Se uma mensagem reproduz informações previamente expostas na internet, sua alegada origem mediúnica não pode ser automaticamente presumida.

A exploração deliberada do luto mediante informações coletadas previamente e apresentadas como revelações espirituais, sobretudo quando envolve vantagem econômica ou qualquer forma de proveito, pode e deve, conforme as circunstâncias concretas e as provas disponíveis, gerar responsabilidades jurídicas. É preciso dizer isso sem medo.

E é igualmente necessário repelir a tentativa de transformar o processo judicial em instrumento de intimidação. Perguntar não é caluniar. Comparar informações não é perseguir. Investigar não é atacar a mediunidade. Ao contrário: é defendê-la contra aqueles que a degradam.

O movimento espírita brasileiro precisa escolher: continuará protegendo a reputação de supostos “intocáveis” ou protegerá as famílias contra os exploradores da saudade?

A mediunidade verdadeira não teme a investigação. A fraude, sim, precisa que todos acreditem sem perguntar.

Portanto, diante de uma carta consoladora, menos ajoelhamento emocional e mais senso crítico. Menos celebridade e mais responsabilidade. Menos espetáculo e mais evidência.

Porque, convenhamos: se tudo o que o “Espírito” sabe também está no Google e/ou I.A., talvez o primeiro fenômeno a ser investigado não seja mediúnico.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília: Federação Espírita Brasileira, edições diversas. Capítulos referentes às mistificações, à identidade dos Espíritos e ao exame das comunicações.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, edições diversas.

BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF: Presidência da República, texto vigente.

 

A “criatura”, os aplausos , os "perrapados" e o mercado do luto


 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há criaturas que nasceram para o trabalho honesto. Outras, para a arte. Algumas, para a ciência. E há aquelas que descobrem, com notável esperteza, que a dor alheia pode ser um excelente modelo de negócio.

Esta “criatura”, por exemplo, não precisava possuir nem tinha mediunidade. Que necessidade haveria disso? A mediunidade autêntica exige responsabilidade moral, estudo, disciplina, desinteresse e, sobretudo, consciência. Tudo muito trabalhoso. Mais simples é inventar uma ligação direta com o Além, convocar os mortos para o palco das cartas consoladoras  e deixar que os vivos paguem a conta.

E a “criatura” prosperou. Primeiro, descobriu a força de uma lágrima. Depois, percebeu o poder da saudade. Finalmente, compreendeu que poucas coisas tornam uma pessoa mais vulnerável do que a dor de perder alguém que ama. Eis o seu grande laboratório: corações partidos.

Então, entra em cena. Com voz solene, gestos estudados e a indispensável aura de “elevação espiritual”, anuncia que alguém do outro lado deseja “falar ou escrever”. Os enlutados choram. A “criatura”  comove-se — profissionalmente, naturalmente. E, de repente, numa dessas extraordinárias coincidências que só acontecem nos negócios espirituais da “criatura” , o morto também demonstra grande preocupação com… dinheiro.

Que prodígio!   Os Espíritos, segundo a “criatura” , não pedem uma transformação moral mais profunda, nem recomendam prudência diante das aparências, nem alertam contra a exploração da credulidade. Não. Eles parecem estar sempre preocupados com leilões, campanhas, arrecadações e doações para a obra da própria “criatura” .

É realmente uma “mediunidade” muito eficiente. Os mortos fazem propaganda, os vivos se emocionam e o caixa financeiro agradece.

Mas toda representação possui seus espectadores inconvenientes. Surgem aqueles que perguntam. Aqueles  que investigam.  Aqueles que desejam saber como as mensagens são produzidas, por que existem contradições, onde estão as evidências e por que tanta espiritualidade precisa de tanta publicidade.

“criatura” , naturalmente, não gosta. Em vez de responder às perguntas, conta e compara o número de seguidores.

— Quantos seguidores vocês têm? Têm poucos seguidores na internet, ah! São uns perrapados!

E pronto! Está resolvido o problema da verdade.

Porque no universo mental da “criatura” , aparentemente a razão funciona por contagem de cabeças virtuais da Internet. Se “milhões” a seguem, ela deve estar certa. Se alguém tem poucos seguidores, deve estar errado. É uma espécie de novo Evangelho segundo o algoritmo: “Bem-aventurados os viralizados, porque deles será o reino da verdade.”

Que maravilha! A “criatura”  confunde popularidade com legitimidade, fama com caráter e aplauso com inocência. Talvez ainda não tenha descoberto que multidões já aplaudiram inúmeros impostores ao longo da história. Uma multidão pode ser barulhenta, mas não possui o poder mágico de transformar mentira em verdade.

E há outro detalhe curioso. Quanto mais questionada, mais a “criatura”  se declara perseguida. É o último recurso de certas consciências: quando as perguntas se tornam incômodas, o questionador vira inimigo; quando as evidências apertam, surge uma conspiração; quando a máscara ameaça cair, proclama-se martírio; daí advém o ASSÉDIO JUDICIAL.

“criatura” , então, sobe ao altar de sua própria fantasia e se proclama vítima. Afinal, como poderia alguém tão admirado estar errado?

Simples: admiração não é atestado de honestidade.   Allan Kardec jamais ofereceu ao Espiritismo um cheque em branco para celebridades do sobrenatural. Ao contrário, recomendou o exame, a razão e o discernimento, advertindo contra a exploração e os perigos da mistificação. A mediunidade séria não precisa transformar a morte em espetáculo nem a saudade em máquina de arrecadação.

A verdadeira tragédia MENTAL da “criatura” , entretanto, talvez seja outra: depois de representar tanto tempo, pode ter começado a acreditar no próprio personagem MENTIROSO.

A mentira repetida tornou-se sua biografia. A fama, sua defesa. Os seguidores, seu tribunal de absolvição. E os “perrapados” que fazem perguntas, seu inimigo imaginário.

Mas, quando os refletores se apagarem e os seguidores forem embora, restará uma pergunta que nenhum leilão poderá arrematar:

De que vale conquistar multidões, se para isso foi necessário perder a própria consciência?

Porque “PERRAPADO” não é quem tem poucos seguidores. Pobretão — miserável, espiritualmente miserável — é a “criatura”  que transforma lágrimas em capital, saudade em mercadoria e mentira em profissão.

E nenhum aplauso do mundo consegue enriquecer uma consciência falida.

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000

29 agosto 2026

Ninguém vai ao Pai senão pelo EU ou o Cristo Interno


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Poucas sentenças evangélicas possuem densidade filosófica e espiritual tão profunda.

A tradição cristã geralmente compreendeu essa afirmação como a proclamação de Jesus enquanto mediador entre Deus e a humanidade. Carlos Torres Pastorino, contudo, em sua monumental obra Sabedoria do Evangelho, propõe uma leitura simbólica e profunda que desloca o centro da questão para a essência  do próprio ser humano.

No capítulo intitulado “O Eu Profundo”, Pastorino interpreta o “mim” da sentença evangélica em conexão com o EU essencial, que ele identifica com a dimensão mais profunda do ser e com aquilo que denomina “Cristo Interno”. Sua proposta de “sentido real” apresenta a frase: “O Eu é o caminho da Verdade e da Vida: ninguém vem ao Pai senão pelo Eu” (PASTORINO, 1971). Para o autor, esse Eu não corresponde ao ego psicológico, à personalidade social ou ao conjunto de desejos que caracterizam a existência transitória. Trata-se, antes, da realidade espiritual mais profunda, que permanece para além das máscaras e vicissitudes da individualidade encarnada.

Aqui reside uma distinção fundamental. O ego é a consciência que se fecha em si mesma: deseja possuir, dominar, destacar-se e afirmar-se. O Eu profundo, na linguagem de Pastorino, realiza o movimento inverso: quanto mais se descobre, menos se encerra na vaidade da personalidade. Não é a hipertrofia do “eu”, mas a sua transcendência. É preciso perder o pequeno eu para encontrar a dimensão mais profunda do ser.

Essa concepção possui uma ressonância filosófica universal. Desde o imperativo socrático do “conhece-te a ti mesmo”, o pensamento humano reconhece que a ignorância mais grave talvez seja aquela que o indivíduo tem acerca de sua própria realidade. O homem pode conquistar o mundo exterior e permanecer estrangeiro de si mesmo. Pode acumular informações, títulos e poderes, mas continuar desconhecendo a finalidade de sua existência.

É precisamente nesse ponto que a interpretação pastoriniana se aproxima de uma questão essencial do Espiritismo: quem sou eu? Para Allan Kardec, o ser humano não se reduz ao corpo físico, nem à personalidade que se manifesta durante uma única existência. É Espírito imortal, temporariamente unido à matéria, caminhando através de múltiplas experiências rumo ao aperfeiçoamento.

O autoconhecimento, por isso, não é simples técnica psicológica: constitui instrumento de progresso moral. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos superiores aponta o “conhece-te a ti mesmo” como o meio prático de melhorar-se. A interioridade é, portanto, uma exigência evolutiva.

Mas é importante estabelecer uma fronteira doutrinária. O Eu profundo de Pastorino não pode ser identificado, sem ressalvas, com o Espírito tal como definido pela Codificação. A linguagem de “Cristo Interno”, de “individuação do Cristo” e de uma unidade mística entre o Eu e o Pai pertence à elaboração filosófico-mística particular do autor. O Espiritismo de Kardec ensina que Deus é o Criador e que os Espíritos são criaturas, individualidades imortais em processo de evolução. A criatura aproxima-se de Deus pelo aperfeiçoamento, mas não se confunde ontologicamente com Ele.

Nesse sentido, a interpretação de Pastorino pode ser recebida como uma meditação espiritual sobre o processo interior, sem que necessariamente seja tomada como definição doutrinária literal. Seu mérito consiste em recordar que ninguém pode percorrer a estrada da evolução em nosso lugar.

Nenhuma instituição, sacerdote, médium ou mentor pode substituir a consciência individual no trabalho de renovação. O próprio Pastorino enfatiza essa interioridade ao afirmar que o verdadeiro progresso exige a descoberta dessa dimensão profunda, que se torna, para o indivíduo, o caminho da Verdade e da Vida.

Assim, a frase “ninguém vai ao Pai senão por mim” pode ser contemplada em dois planos complementares. No plano cristológico, Jesus (manifesto) é o Caminho, porque representa o modelo moral mais elevado oferecido à Humanidade, conforme a resposta à questão 625 de O Livro dos Espíritos. Segui-lo é orientar a própria existência pela lei de amor que ele viveu e ensinou. No plano interior, ninguém assimila esse caminho sem passar pela própria consciência, isto é, sem transformar intimamente os princípios que admira exteriormente.

Não basta admirar o Cristo: é preciso permitir que o Evangelho penetre a intimidade. Não basta falar de amor: é necessário amar. Não basta exaltar o perdão: é preciso perdoar. Não basta reconhecer a imortalidade: é preciso viver de maneira coerente com ela. A estrada apontada por Jesus somente se torna real quando é percorrida no território da consciência.

Talvez esteja aí o sentido mais fecundo da reflexão de Pastorino: o caminho para Deus não é uma fuga de si, mas uma viagem através de si. Todavia, atravessar-se não significa cultuar a personalidade; significa descer às profundezas da própria consciência, reconhecer as sombras, educar as paixões e fazer emergir as potencialidades superiores do Espírito.

O Cristo, portanto, não é substituído pelo Eu. Para o pensamento de Pastorino, o Eu verdadeiro seria precisamente a dimensão pela qual o ser humano pode perceber e experimentar interiormente a presença do Cristo. Jesus continua sendo a referência sublime, o Mestre e o modelo; mas o discípulo precisa realizar, em si mesmo, a obra que admira no Mestre.

Ir ao Pai é ultrapassar progressivamente as limitações do egoísmo e aproximar-se da Lei de Amor. E ninguém pode realizar essa travessia por procuração. A salvação, entendida como libertação e progresso espiritual, não é um privilégio recebido passivamente: é uma conquista da consciência.

Por isso, a provocadora tradução de Pastorino — “ninguém vem ao Pai senão pelo Eu” — pode ser compreendida como um apelo à responsabilidade espiritual. Deus não está distante apenas nos espaços infinitos; sua Lei interpela a consciência. O caminho não está exclusivamente fora, nos templos ou nas palavras; começa no íntimo, onde cada Espírito é chamado a confrontar-se consigo mesmo.

Encontrar o Eu profundo não é descobrir que o homem é Deus, mas reconhecer que ele é filho de Deus e portador de uma destinação espiritual. É compreender que, por trás da personalidade transitória, existe o Espírito imortal, chamado a crescer em sabedoria e amor. E é nesse processo de autoconhecimento, purificação moral e vivência evangélica que a criatura, gradualmente, aprende a caminhar para o Pai.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Evangelho segundo João, 14:6. Diversas traduções.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2013. Questões 625 e 919.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, diversas edições.

PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho: O Eu profundo. v. 8. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1971. Interpretação de João 14:1-14.

28 agosto 2026

Quando a dor vira picadeiro para a “falsa psicografia” - Chega de comédias!




 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade. O Movimento Espírita brasileiro precisa encarar uma pergunta incômoda: quantas supostas psicografias são aplaudidas, veneradas e divulgadas antes de serem submetidas ao mais elementar exame?

É hora de acabar com a ingenuidade.   Uma falcatrua travestida de psicografia pode consistir na utilização calculada da escrita, da emoção e da credulidade humana para fabricar a aparência de uma comunicação com os desencarnados, quando as informações apresentadas são obtidas por pesquisas, redes sociais, familiares, intermediários ou outros recursos perfeitamente terrenos.

E que ninguém se escandalize com a pergunta fundamental: de onde vieram essas informações? Allan Kardec jamais ensinou que o espírita deveria desligar o cérebro diante de uma folha de papel. O Espiritismo nasceu sob o signo da observação, da comparação e do exame racional. Nenhum médium recebeu uma licença para estar acima da crítica.

Uma mensagem atribuída a um morto não prova identidade espiritual. Uma carta “consoladora”  emocionante não comprova autenticidade. Lágrimas não são evidências. Aplausos não são demonstrações de fenômenos autênticos. E uma multidão fascinada jamais foi laboratório da verdade mediúnica .

Portanto,  emoção não substitui a prova. Na era digital, a cautela tornou-se ainda mais indispensável. Fotografias, apelidos, nomes de familiares, profissões, datas, amizades, preferências e detalhes íntimos são expostos diariamente nas redes sociais. Para um impostor, a internet pode ser uma verdadeira mina de ouro.

Portanto, diante de uma informação aparentemente “impossível de conhecer”, a pergunta é inevitável: era realmente impossível descobri-la?  Houve pesquisa prévia? Contato com familiares? Consulta as redes sociais? Intermediários? Existem registros que permitam verificação independente?

Quem nada tem a ocultar não deveria temer a transparência.  Tenho conhecimento de relatos e denúncias de pessoas que afirmam ter sido lesadas por práticas apresentadas como cartas consoladoras. Denúncia não é sentença. Todo acusado tem direito à defesa. Mas respeitar a presunção de inocência não significa fechar os olhos. Se existem indícios, investiguem-se. Se existem vítimas, ouçam-se. Se existem provas, preservem-se.

O que não se pode admitir é transformar toda pergunta em “perseguição” e toda investigação em “ataque ao Espiritismo”. Investigar não é perseguir. Perguntar não é caluniar. Exigir transparência é proteger a Doutrina contra a impostura.

A mediunidade não precisa de picadeiro. Quando a suposta comunicação espiritual se transforma em espetáculo e a família enlutada se torna plateia, a cautela deve aumentar. A dor de uma mãe não pode ser matéria-prima para performance circense. O desespero de um pai não pode ser instrumento de promoção pastelão. A saudade de uma viúva não pode se converter em moeda de prestígio.

E não vale o argumento simplista da gratuidade. Não cobrar ingresso não significa ausência de interesse. Existem benefícios indiretos: vendas, doações, campanhas financeiras, publicidade, projeção pessoal e a construção de uma aura de infalibilidade.

Chegou a hora de os dirigentes espíritas abandonarem a política da ingenuidade. Uma casa espírita não pode oferecer seu “palco” a qualquer personagem sedutor e depois lavar as mãos. Quem acolhe, divulga e legitima também assume responsabilidade ética diante do público.


Nenhum nome é grande demais para ser examinado. Nenhuma fama substitui a prova. Nenhuma popularidade torna alguém infalível.

Se determinadas práticas forem comprovadamente fraudulentas, não estaremos diante de “mediunidade incompreendida”, mas de uma abjeta exploração da confiança humana. Usar o nome dos Espíritos, de Jesus ou de Kardec para conferir aparência de respeitabilidade ao engano torna a impostura ainda mais grave.

A verdadeira mediunidade não teme investigação. A fraude, esta sim, necessita de penumbra, prestígio e ingenuidade para sobreviver e muito assédio judicial. O Movimento Espírita precisa escolher: continuará protegendo personagens ou protegerá princípios? Continuará confundindo emoção com verdade ou retornará ao método de Kardec: observar, comparar, raciocinar e não aceitar sem exame?

Eu, aos meus 75 anos, não hesito: Fico com Kardec. E justamente por isso não me curvo diante de nenhuma suposta autoridade que exija fé onde deveria apresentar provas.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF: Presidência da República, 1940.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, várias edições.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, várias edições.

KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Diversos volumes. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, várias edições.


26 agosto 2026

Nepal em lágrimas - a dor humana sob a luz da imortalidade


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A tragédia que acaba de atingir o Nepal — uma avalanche de gelo e rochas, seguida por violentas enxurradas de água, lama e detritos, devastando comunidades e deixando mortos, feridos e centenas de desaparecidos — impõe, antes de qualquer interpretação filosófica, uma atitude profundamente humana: respeito diante da dor. Os números ainda estão sendo atualizados, enquanto famílias procuram seus entes queridos e equipes de socorro enfrentam uma destruição de enormes proporções.

Nenhuma explicação espiritual pode servir para minimizar lágrimas ou transformar o sofrimento alheio em mera abstração doutrinária. O Espiritismo não autoriza a frieza diante da tragédia. Ao contrário: a primeira resposta deve ser a solidariedade.

Entretanto, sem pretender devassar os mecanismos particulares do destino de cada vítima, a Doutrina Espírita oferece elementos para uma reflexão mais ampla. Allan Kardec ensina que a existência corporal não constitui a totalidade da vida e que a morte não representa a destruição do Espírito, mas a passagem para outra modalidade de existência.

Sob essa perspectiva, as chamadas mortes coletivas não podem ser compreendidas como simples produto de um acaso cego governando o Universo. Num mundo submetido às leis divinas, podemos confiar que não existe injustiça. Contudo, reconhecer a justiça de Deus é muito diferente de imaginar que possuímos autorização para explicar o passado espiritual de cada desencarnado.

Seria, portanto, imprudente e doutrinariamente leviano afirmar que determinada vítima morreu para expiar esta ou aquela falta. A lei de causa e efeito não pode ser transformada numa máquina de acusações contra os sofredores. Não conhecemos as existências pretéritas dos outros, nem nos compete julgar seus processos espirituais.

No Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo V, Kardec convida-nos a considerar as aflições e calamidades à luz da continuidade da existência e da soberana justiça divina. Uma existência corporal, por mais longa ou breve que seja, constitui apenas um capítulo da trajetória do Espírito imortal.

As tragédias coletivas revelam ainda outra dimensão: a da solidariedade humana. Enquanto alguns são chamados a atravessar abruptamente a fronteira da morte, outros permanecem para socorrer, reconstruir, consolar e servir. Surgem gestos de coragem, fraternidade e renúncia. A dor transforma-se, assim, também em campo de aprendizado moral para os que ficaram.

Para o espírita, portanto, o Nepal não é uma estatística. São irmãos que partiram de maneira dolorosa; são famílias enfrentando a ausência; são sobreviventes necessitando de auxílio material e espiritual.

Podemos confiar que Deus é soberanamente justo e bom, sem que essa confiança nos torne indiferentes às lágrimas. Se nos estatutos divinos não há espaço para a injustiça, também não há espaço para a presunção humana de decifrar todos os desígnios do Alto.

Diante da tragédia, a atitude espírita mais autêntica talvez seja unir a razão que confia na imortalidade à compaixão que se curva diante da dor: orar pelos que partiram, amparar os que ficaram e servir aos sobreviventes. A morte não tem a última palavra — mas, diante das lágrimas, o amor deve ter sempre a primeira.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. V — Bem-aventurados os aflitos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

KARDEC, Allan. O céu e o inferno. Primeira Parte — Doutrina. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

 

 

25 agosto 2026

A falsa autoridade dos rótulos no movimento espírita brasileiro



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há um fenômeno cada vez mais perceptível no movimento espírita brasileiro: antes mesmo de se examinar o conteúdo de uma palestra, apresenta-se o currículo institucional do expositor como se constituísse garantia automática de verdade. “Fulano é da FEB.” “Beltrano é da Federação.” “O palestrante pertence àquela tradição.” É tradicional, muitas vezes, a simples menção ao nome de uma entidade federativa para funcionar como um selo de infalibilidade.

É preciso dizer isso com clareza: frequentar uma instituição, colaborar com ela ou até exercer determinada função em seus quadros não transforma ninguém em dono da verdade espírita.

A Federação Espírita Brasileira é uma instituição histórica e relevante para o Espiritismo no Brasil. Mas uma coisa é respeitar uma instituição; outra, inteiramente diferente, é converter o nome da instituição em instrumento de blindagem intelectual para opiniões individuais. O Espiritismo não estabeleceu uma aristocracia doutrinária fundada em crachás, cargos ou vínculos associativos.

Allan Kardec foi particularmente claro quanto ao problema da autoridade. Na Introdução, item II, de O Evangelho segundo o Espiritismo, ao tratar da autoridade da Doutrina Espírita, ensina que nenhuma pessoa poderia pretender possuir, com exclusividade, a verdade absoluta. Mais ainda: estabeleceu que tudo quanto venha dos Espíritos — e, por extensão, toda afirmação apresentada em nome do Espiritismo — deve ser submetido ao exame da razão, do bom senso e da lógica. Kardec é categórico: uma teoria incompatível com esses critérios deve ser rejeitada, “por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura”.

Se nem mesmo um nome apresentado como assinatura de uma comunicação espiritual deveria suspender o julgamento crítico, por que o nome de uma instituição deveria fazê-lo?

O palestrante “É da FEB” não é argumento. É justamente aqui que reside o equívoco. Quando alguém afirma “ele é da FEB” para encerrar uma discussão ou conferir autoridade automática a uma palestra, está substituindo o argumento pela procedência institucional. Trata-se de uma espécie de argumento de autoridade deslocado: em vez de perguntar se a ideia está de acordo com os princípios doutrinários, com a lógica e com os fatos, pergunta-se de onde veio o palestrante.

Mas a verdade não se torna verdadeira porque foi pronunciada por alguém ligado a uma instituição; nem o erro se converte em acerto porque o expositor possui uma credencial prestigiosa. Um orador pode ser excelente e frequentar a FEB. Pode ser excelente e jamais ter pertencido a qualquer federação. Pode, igualmente, sustentar ideias discutíveis, mesmo ocupando posição de destaque em uma organização espírita. O vínculo institucional é uma circunstância biográfica; não é certificado de superioridade intelectual ou moral.

Aliás, o próprio método kardequiano é incompatível com o culto à personalidade e com a submissão passiva a autoridades humanas. Em O que é o Espiritismo?, Kardec reafirma que as questões duvidosas devem ser submetidas ao exame severo da razão, do bom senso e da lógica, não à aceitação automática de quem fala.

Isso exige uma mudança de hábito no movimento espírita: menos preocupação com o crachá e mais atenção ao conteúdo.

O prestígio institucional não deve funcionar como salvo-conduto

Há casos em que o próprio expositor, de maneira explícita ou sutil, apresenta seu vínculo institucional como credencial de autoridade. “Sou da FEB.” “Trabalho na Federação.” “Represento tal instituição.” Nada há de errado em informar uma trajetória. O problema começa quando essa informação é utilizada como um salvo-conduto contra a crítica.

Ninguém deve ser aceito ou rejeitado apenas porque pertence a esta ou àquela instituição. A pergunta espírita deveria ser outra: o que ele está ensinando? Onde está o fundamento? Isso resiste ao exame das obras fundamentais da Codificação, da razão e da coerência?

É possível que um modesto trabalhador anônimo de uma pequena casa espírita apresente uma exposição profundamente fiel à Doutrina. Também é possível que uma personalidade conhecida, cercada de títulos e apresentações grandiosas, expresse opiniões pessoais, interpretações frágeis ou mesmo ideias estranhas ao pensamento de Kardec.

Por isso, é necessário recuperar uma virtude essencial: a independência de consciência.

Instituições devem ser respeitadas; pessoas não devem ser idolatradas

Respeitar a FEB, as federações estaduais e as casas espíritas não significa atribuir-lhes infalibilidade. Instituições são constituídas por seres humanos, e seres humanos podem acertar e errar. A instituição não deve ser demonizada, mas também não deve ser transformada em oráculo.

O Espiritismo nasceu precisamente para combater a aceitação cega. Kardec não pediu seguidores que acreditassem de palavra. Pediu observação, comparação, análise e controle. A autoridade doutrinária não repousa no prestígio individual, mas na convergência racional dos princípios e no método crítico que sustenta a Codificação.

É preocupante quando a audiência abandona essa atitude e passa a raciocinar assim: “Se é da FEB, deve estar certo.” Não! Pode estar certo ou errado. A filiação não resolve a questão. O conteúdo é que precisa ser examinado.

Essa postura é ainda mais necessária em um tempo no qual a fama, as redes sociais e a repetição podem fabricar autoridades instantâneas. Um nome frequentemente anunciado, uma instituição constantemente invocada e uma plateia acostumada a aplaudir podem criar a ilusão de que a popularidade substitui o estudo.

Não substitui.

Menos rótulos, mais responsabilidade

Talvez esteja na hora de abandonarmos certas apresentações quase publicitárias: “Fulano, da FEB”; “Beltrano, da Federação”; “Ciclano, representante de determinada instituição”, como se essas expressões fossem argumentos antecipados.

Fulano deve ser apresentado pelo que produz, pelo que estuda, pela coerência do que ensina e pela responsabilidade com que fala.

Ser “da FEB” pode informar onde alguém trabalha ou frequenta. Não informa, por si só, se essa pessoa estudou profundamente Kardec. Não garante equilíbrio, lucidez ou fidelidade doutrinária. Não concede licença para que suas opiniões pessoais sejam confundidas com a Doutrina Espírita.

O movimento espírita precisa amadurecer. Não precisamos de uma aristocracia de siglas, nem de uma hierarquia informal de celebridades. Precisamos de trabalhadores que saibam fundamentar o que dizem — e de ouvintes que tenham coragem de pensar.

No Espiritismo, o argumento não deve ser: “Acredite em mim porque pertenço a tal instituição.” O verdadeiro espírito kardequiano exige algo muito mais nobre: “Examine o que digo. Compare. Raciocine. E aceite somente aquilo que resistir ao crivo da razão e dos princípios doutrinários.”

O nome da instituição merece respeito. Mas não pode substituir o argumento.

O crachá pode abrir a porta de uma organização. Jamais deveria fechar a porta da consciência crítica.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013. Introdução, item II: “Autoridade da Doutrina Espírita. Controle universal do ensino dos Espíritos”.

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo? Capítulo II, “Noções elementares de Espiritismo”, item “Contradições”, questão 99. Disponível no acervo de estudo kardequiano.