Jorge Hessen
Brasília -DF
A liberdade de expressão não pode servir de salvo-conduto para a exposição indiscriminada de crianças e adolescentes ao sensualismo digital
Há uma fronteira que a sociedade brasileira precisa discutir com urgência: até onde pode avançar a exploração do sensualismo nas plataformas digitais sem que alguém se responsabilize pelas consequências educacionais e sociais dessa exposição?
Os vídeos curtos transformaram a atenção humana em mercadoria. Quanto mais uma imagem captura olhares, provoca curiosidade, desejo ou excitação, maior tende a ser sua capacidade de circular. Nesse ambiente, a exposição ostensiva do corpo — frequentemente apresentada como entretenimento, humor, lifestyle ou estratégia de audiência — tornou-se uma presença cotidiana nas telas.
O problema não é o corpo, nem a beleza, nem a sexualidade e tampouco se trata de censurar a liberdade individual. O problema é a exploração sistemática do estímulo sexual em um ambiente no qual também estão crianças e adolescentes, ainda em processo de formação emocional, moral e psicológica.
Uma criança não possui os mesmos recursos de compreensão que um adulto. Um adolescente atravessa justamente a fase em que identidade, afetividade, desejo, pertencimento e autoestima estão sendo construídos. Submetê-lo repetidamente a conteúdos erotizados, sem mediação familiar e sem critérios adequados de proteção, significa transferir para um algoritmo uma parcela da responsabilidade que deveria pertencer à educação.
A Doutrina Espírita oferece uma chave particularmente lúcida para essa discussão. Allan Kardec não ensinou que as paixões sejam, em sua origem, um mal. Ao contrário, O Livro dos Espíritos esclarece que elas decorrem de necessidades naturais, tornando-se perigosas quando deixam de ser governadas e passam a produzir prejuízo a si ou aos outros.
Eis a questão central: não é necessário combater o impulso; é necessário educá-lo. Emmanuel, em Vida e Sexo, apresenta a sexualidade como realidade natural e respeitável, mas ressalta precisamente a necessidade de educação, controle e responsabilidade na canalização dessa energia.
André Luiz, em Sexo e Destino, associa sexualidade ao amor, à consciência, à liberdade e ao compromisso, inserindo o tema na perspectiva da responsabilidade perante a própria trajetória evolutiva.
Léon Denis, por sua vez, atribui à vontade papel essencial na condução das forças da alma. Não somos obrigados a obedecer passivamente a todo estímulo que chega à consciência.
Essa compreensão precisa alcançar a educação contemporânea. Pais não podem entregar um celular a uma criança e entregar a infância ao algoritmo.
É indispensável acompanhar o que os filhos assistem, conversar sobre sexualidade sem tabus, estabelecer limites compatíveis com a idade e ensinar que nem tudo aquilo que aparece na tela merece atenção. A escola também precisa desenvolver alfabetização digital, emocional e ética.
Mas a responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre as famílias. As plataformas digitais precisam aperfeiçoar mecanismos de proteção de menores, classificação etária, filtros, controles parentais e sistemas capazes de reduzir a recomendação de conteúdos sexualmente apelativos a públicos vulneráveis.
Isso não é censura. É responsabilidade tecnológica.
Não quero transformar pessoas que produzem conteúdos sensuais em objetos de condenação moral. Cada adulto responde por suas próprias escolhas, dentro da lei. O que se discute aqui é outra coisa: a circulação massiva e algorítmica desses conteúdos e sua acessibilidade a públicos que ainda não possuem maturidade para processá-los adequadamente.
O Espiritismo não propõe perseguição aos que erram. Propõe educação, esclarecimento, responsabilidade e reforma moral. Em tempos de violência, solidão, sofrimento emocional e crescente exposição de jovens a múltiplos fatores de risco, precisamos cuidar também daquilo que alimenta a imaginação.
Seria imprudente afirmar que conteúdos sensuais sejam, isoladamente, responsáveis por comportamentos extremos. A realidade humana é muito mais complexa. Mas seria igualmente imprudente ignorar a influência dos estímulos repetidos sobre uma mente em formação.
A pergunta que devemos fazer não é: “Podemos publicar?” A pergunta mais madura é: “Devemos recomendar indiscriminadamente?”
Liberdade sem responsabilidade transforma-se facilmente em permissividade. Tecnologia sem ética transforma atenção em negócio. E educação sem limites deixa crianças e adolescentes entregues a forças que ainda não aprenderam a administrar.
A sexualidade é uma força natural da existência. O desafio espiritual não é sufocá-la, mas educá-la, sublimá-la e integrá-la ao amor, ao respeito e à responsabilidade.
A sociedade não precisa de uma cruzada contra o corpo. Precisa de uma defesa da infância, da adolescência e da dignidade humana diante da indústria da atenção.
Porque quando o algoritmo aprende a capturar nossos olhos, cabe à educação ensinar a consciência a escolher onde olhar.
Referências Bibliográficas:
DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Questões 907-908.
EMMANUEL (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido. Vida e sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1970. A FEB registra a obra como dedicada aos diversos aspectos da sexualidade, destacando educação, controle e responsabilidade.
ANDRÉ LUIZ (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e destino. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1965.









