A destruição do memorial
do codificador do Espiritismo, em Lyon, expõe a contradição entre o discurso de
transformação social e o desrespeito à liberdade de consciência.
Jorge Hessen
Brasília-DF
O que aconteceu em Lyon,
na França, em 17 de outubro de 2026, merece veemente repúdio. Em meio a
manifestações que degeneraram em violência, saques e incêndios, o memorial
dedicado a Allan Kardec foi danificado. A estela que homenageava o educador
francês, nascido em Lyon em 1804, terminou reduzida a fragmentos, atingida
pelas chamas que marcaram a jornada de vandalismo. Não se trata de mera
depredação: é também uma agressão à memória cultural e filosófica.
Os tumultos incluíram o
incêndio de um prédio municipal que abrigava o posto de turismo, além de
ataques a estabelecimentos comerciais e ao patrimônio urbano. A imprensa
francesa descreveu a atuação de grupos violentos, alguns identificados com a
extrema esquerda e com os chamados black blocs.
Isso não nos obriga a
ignorar o componente ideológico de grupos que transformam protestos sociais em
pretexto para a destruição. Quando o radicalismo materialista reduz a sociedade
a uma arena de antagonismos e trata instituições, símbolos e patrimônios como
alvos de combate, a reivindicação política degenera em intolerância. A
violência passa a ser apresentada como instrumento de emancipação, embora
produza justamente o contrário: medo, prejuízo coletivo e desprezo pelo
pluralismo.
Por que destruir uma
homenagem a Allan Kardec? O codificador do Espiritismo não foi um dirigente
partidário, nem um propagandista de revoluções violentas. Foi um educador e
pensador que sistematizou uma doutrina assentada na imortalidade da alma, na
responsabilidade moral, no livre-arbítrio e no aperfeiçoamento intelectual e
moral do ser humano.
Na estela de Lyon estava
inscrita uma máxima que sintetiza o ideal espírita: “Fora da caridade não há
salvação.” Eis a ironia histórica: nas proximidades de um monumento que
evocava a fraternidade, a intolerância produziu ruínas. A caridade kardeciana
não é sentimentalismo, tampouco submissão política. É princípio ético que exige
respeito à dignidade humana, inclusive àquele que pensa de maneira diferente.
Convém, entretanto, não
incorrer no mesmo erro que denunciamos. Nem todo “vermelho” é
extremista, assim como nem todo manifestante é vândalo. A análise deve alcançar
os grupos e as ideias que legitimam ou praticam a violência, sem converter
divergência política em condenação coletiva.
O Espiritismo não deve
servir de instrumento de partidos, sejam de direita ou de esquerda. Isso não
significa neutralidade diante da barbárie. A defesa da liberdade de
consciência, do patrimônio histórico e da convivência democrática é um dever
moral.
A extrema esquerda
que pretende monopolizar a virtude social precisa responder a uma questão
elementar: que espécie de justiça se constrói destruindo aquilo que pertence
à memória de todos? Não há emancipação na depredação, progresso no
obscurantismo ou fraternidade na intolerância.
Allan Kardec merece ser respeitado,
estudado, debatido e, se necessário, criticado. O que não merece é ter sua
memória esmagada pela violência vermelha de quem confunde divergência
com inimigo e destruição com transformação social.
A caridade não incendeia
monumentos. A intolerância avermelhada, sim.
Fontes:
- Le Monde, 17 de outubro de 2026 — Mobilização
e violência em Lyon.
- Prefeitura de Lyon, 19 de outubro de
2026 — Violências
de 17 de outubro: resposta municipal.
- Wikimedia Commons — Registro
fotográfico dos vestígios do memorial de Allan Kardec.








