08 maio 2026

​Alucinadas obstinações nostradâmicas

 




Jorge Hessen

Brasília DF

 

Em face da saturação mística contemporânea — outrora centrada no “calendário maia de 2012” e hoje reciclada em novas roupagens apocaliptistas digitais, astrológicas e conspiratórias — recrudesce a obstinação nostradâmica e esotérica, disseminando previsões absurdas sobre o “fim iminente” da civilização. Cada facção, com seu cortejo de fascinados, estabelece novas agendas do medo. Datas são continuamente fixadas, reformuladas ou adiadas, porque os adivinhos ignoram que a fragmentação do tempo em milênios, séculos, anos, dias ou horas é mera convenção humana, fruto da observação histórica dos fenômenos naturais e não um relógio metafísico do universo.

A concepção linear do tempo consolidou-se sobretudo no Ocidente pós-renascentista. De Leonardo da Vinci a Albert Einstein, aprofundou-se a percepção do devir, isto é, do permanente “vir a ser”. Desde os ciclos pitagóricos até o racionalismo cartesiano, chegamos atualmente à desconstrução do tempo clássico. A relatividade einsteiniana revolucionou a percepção temporal, enquanto a física quântica relativizou a antiga cadência mecânica newtoniana. O tempo, portanto, longe de ser absoluto, permanece uma experiência complexa e parcialmente incompreendida. Contudo, muitos continuam aterrorizados pela passagem cronológica, esquecendo-se de que as leis naturais independem completamente da forma como os homens contam os dias.

Crenças antiquíssimas continuam sendo recicladas. O zoroastrismo, por exemplo, influenciou profundamente a escatologia judaico-cristã, sobretudo na ideia de uma história linear culminando num juízo final. A partir dessas matrizes, multiplicaram-se seitas e movimentos espiritualistas que comercializam fantasias cósmicas sobre “eras astrológicas”, “portais dimensionais”, “despertar vibracional” e “transição quântica”. Ontem falava-se na “Era de Aquário”; hoje proliferam discursos sobre inteligência artificial transcendental, inversão dos polos magnéticos, tempestades solares apocalípticas e choques asteroides inevitáveis. O medo coletivo apenas muda de embalagem.

No movimento “new age”, popularizou-se o mito do “cinturão de fótons”(1), supostamente orbitando as Plêiades, bem como a fantasiosa órbita do sistema solar em torno da estrela Alcíone. Segundo essa crença, a Terra atravessaria esse cinturão luminoso, provocando ou uma súbita elevação espiritual da humanidade ou a destruição do planeta. Tal superstição foi desmentida pelo astrobiologista David Morrison, da NASA, que esclareceu: “O conceito de um cinturão de fótons em órbita é um absurdo. Fótons são partículas de luz e movem-se praticamente em linha reta, não orbitando aglomerados estelares.”(2)

Na década de 1990, intérpretes das centúrias de Nostradamus anunciavam o extermínio da Terra para setembro de 1999. O mundo, evidentemente, prosseguiu. Depois vieram os alarmismos de 2000, 2012, 2020 e agora novas datas continuam sendo fabricadas. O mito da destruição planetária acompanha praticamente todas as civilizações humanas. O historiador Georges Duby observava grande similitude entre os medos medievais e os medos contemporâneos. De fato, embora tenhamos avançado em ciência, tecnologia e comunicação, a psicologia coletiva continua vulnerável às mesmas angústias ancestrais.

A ideologia milenarista permanece profundamente enraizada na cultura ocidental. Os historiadores denominam milenarismo os movimentos sociais e religiosos que aguardam uma transformação radical da humanidade precedida por catástrofes. No século XII destacou-se Gioacchino da Fiore, que imaginava uma futura era espiritual de paz e prosperidade após grandes calamidades. Essa estrutura mental — tragédia seguida de redenção — continua sendo reproduzida até hoje, seja em discursos religiosos, seja em narrativas pseudocientíficas difundidas pela internet.

Embora o conflito entre temor escatológico e esperança regeneradora permaneça no imaginário coletivo desde o início da tradição judaico-cristã, há épocas em que esse medo assume caráter quase obsessivo. Vivemos atualmente um desses períodos. Crises climáticas, guerras híbridas, colapsos éticos, manipulações tecnológicas, hiperindividualismo e desintegração moral alimentam a sensação de fim iminente. Todavia, importa distinguir entre transformação histórica e fantasia apocalíptica. A Terra sempre esteve em permanente transição. Mudam-se civilizações, estruturas políticas, paradigmas culturais e sistemas econômicos. A própria história humana é um contínuo processo de regeneração e decadência.

Não há como negar que o Orbe atravessa momentos sombrios. Emmanuel advertiu que “ao século XX competiria a missão do desfecho dos acontecimentos espantosos (...); efetuaria a divisão das ovelhas do grande rebanho e uma tempestade de amarguras varreria toda a Terra. Depois da treva surgiria uma nova aurora.”(3) E realmente o século XX tornou-se o mais sanguinolento da história humana: guerras mundiais, genocídios ideológicos, materialismo radical, regimes totalitários e industrialização da morte.

Todavia, o Espiritismo jamais endossou o catastrofismo histérico. Allan Kardec ensinou que os chamados “flagelos destruidores” integram os mecanismos de progresso moral da humanidade. “Os flagelos são necessários para que mais pronto se dê o advento de uma melhor ordem de coisas.”(4) Não se trata, portanto, de punições arbitrárias nem de calendários mágicos, mas de processos educativos coletivos subordinados às leis divinas.

O problema contemporâneo reside em que muitos desejam uma “Nova Era” sem renovação íntima. Esperam regeneração planetária sem reforma moral. Aspiram à paz sem disciplina espiritual, à fraternidade sem renúncia ao egoísmo, à espiritualidade sem responsabilidade ética. Eis a grande contradição moderna. O Espiritismo autêntico não promete fugas cósmicas nem milagres astrais. Propõe transformação consciencial através do Evangelho vivido.

Emmanuel adverte que “o homem espiritual estará unido ao homem físico para a sua marcha gloriosa no Ilimitado”.(5) Mas essa ascensão não ocorrerá mediante cinturões de fótons, profecias esdrúxulas ou fantasias milenaristas. O advento do “mundo novo” dependerá exclusivamente da superação da ambição, da corrupção, da violência moral, da arrogância intelectual e do egoísmo que ainda governam as sociedades humanas.

A regeneração do planeta não será obra de astrólogos do caos, de gurus apocalípticos ou de mercadores do medo. Será fruto do lento amadurecimento espiritual da humanidade sob a égide das leis divinas. E talvez ainda transcorram décadas ou séculos até que o “mundo velho” — sustentado pela idolatria do poder, pela degradação ética e pela indiferença moral — finalmente ceda lugar a uma civilização autenticamente fraterna.

 

Referências bibliográficas:

  1. Alguns visionários sustentam que o Sistema Solar, ao percorrer um ciclo orbital de aproximadamente 26 mil anos, mergulharia periodicamente num suposto “cinturão de fótons”, ocasionando transmutação da matéria e espiritualização coletiva da humanidade.
  2. MORRISON, David. Astrobiologista da NASA. Disponível em: NASA Astrobiology. Acesso em: 25 set. 2012.
  3. XAVIER, Francisco Cândido. A Caminho da Luz. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.
  4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 737. Rio de Janeiro: FEB, 1999.
  5. XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Questão 238. Rio de Janeiro: FEB.

05 maio 2026

A desigualdade das riquezas não se equacionará com a infausta "vermelhidão" ideológica


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Na questão 806 do Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos é inequívoca: a desigualdade das riquezas decorre da diversidade de faculdades, esforços e graus evolutivos. Não se trata de legitimar abusos, Kardec denuncia a exploração e a usura em vários trechos, mas de rejeitar a narrativa simplista de que toda diferença material é, por definição, uma injustiça estrutural a ser eliminada por engenharia social. Essa leitura é reducionista porque ignora o eixo central da doutrina: a primazia da lei moral sobre qualquer arranjo econômico.

materialismo histórico "avermelhado" do ocioso Karl Marx aposta na inversão dessa ordem: transformam-se as condições materiais e, como consequência, surgiria um “novo homem”. O Espiritismo afirma exatamente o contrário, e aqui está o ponto de ruptura incontornável: sem reforma íntima, qualquer sistema será capturado pelos mesmos vícios que pretende erradicar. Egoísmo não desaparece por decreto; apenas muda de forma e de discurso.

A experiência histórica confirma esse diagnóstico. Projetos de nivelamento forçado não aboliram a desigualdade; deslocaram-na. Onde se prometeu igualdade material, frequentemente emergiram castas burocráticas com poder concentrado, substituindo a desigualdade econômica por desigualdade política. Não é um desvio acidental, é a consequência lógica de tentar corrigir efeitos sem tocar a causa moral.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVI, Kardec é ainda mais incisivo: a riqueza é prova, não privilégio. Ela testa o indivíduo quanto ao uso que faz dos recursos sob sua guarda. Isso desmonta dois extremos: o culto capitalista da acumulação e a demonização ideológica da propriedade. O problema não é possuir, mas a forma de possuir e, sobretudo, de empregar. O Espiritismo não absolve o rico irresponsável, mas também não canoniza a pobreza como virtude automática; ambas são condições de prova.

Autores como Emmanuel reforçam que a fortuna é empréstimo divino para a prática do bem; já Léon Denis adverte que nenhuma reforma social subsiste sem educação moral. Essas posições não são “moderadas”; são estruturalmente mais exigentes. Elas recusam a comodidade intelectual de culpar exclusivamente o sistema e transferem a responsabilidade ao indivíduo, sem, por isso, isentar a sociedade de promover justiça e oportunidades.

O erro central das teses marxistas, sob a ótica espírita, está no brutal reducionismo antropológico: tratam o homem como produto quase exclusivo das condições materiais. Ora, se o homem não muda moralmente, ele instrumentaliza qualquer sistema, capitalista, socialista ou outro, para reproduzir seus interesses. A economia comportamental contemporânea, ao evidenciar vieses como aversão à perda, preferência temporal e reciprocidade condicionada, apenas reforça o que o Espiritismo já afirmava: decisões econômicas são inseparáveis de disposições morais e psicológicas.

Isso não significa complacência com a miséria. Ao contrário, o Espiritismo impõe um dever rigoroso de justiça e caridade , não como retórica, mas como prática transformadora. A diferença é que essa ação não se ancora na ilusão de que a redistribuição coercitiva resolverá o problema humano. Sem ética, a redistribuição pode apenas reconfigurar privilégios.

Um artigo espírita verdadeiramente incisivo, portanto, não “equilibra” artificialmente posições para agradar sensibilidades ideológicas. Ele afirma, com clareza: a desigualdade das riquezas, em um mundo imperfeito, é também expressão de desigualdades morais. Combatê-la exige transformação interior, responsabilidade no uso dos bens e estruturas sociais mais justas, mas jamais a ingenuidade de supor que sistemas materiais "avermelhados" demais, por siregenerem consciências. Ignorar isso não é apenas erro teórico; é repetir, com nova linguagem, velhas ilusões.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

Mediunidade no lar - entre a imprudência e o desvio doutrinário


 


Jorge Hessen

Brasília-DF

 

Exercício mediúnico no ambiente doméstico é um dos sinais mais inquietantes da perda de rigor doutrinário no movimento espírita contemporâneo. Sob o pretexto de “prática espiritual” ou “desenvolvimento mediúnico”, alguns têm transformado o lar — espaço sagrado de harmonização moral — em densos subterrâneos   de experiências mediúnicas desconexas. Tal postura não apenas contraria o bom senso, como fere frontalmente os princípios estabelecidos pelo Espiritismo.

É preciso afirmar com contundência : a mediunidade não é instrumento de improviso, nem campo de curiosidade, nem prática doméstica de distração metafísica.

Allan Kardec foi categórico ao estabelecer que a prática mediúnica exige condições específicas de seriedade, estudo e direção segura. Em O Livro dos Médiuns, ele adverte: “Nunca será demais repetir que a mediunidade é coisa séria, que deve ser praticada santamente, religiosamente e com recolhimento.” (KARDEC, 2013, p. 228).  E “toda reunião espírita deve tender para a maior homogeneidade possível; qualquer divergência de sentimentos, de ideias, de opiniões, é uma causa de perturbação.” (KARDEC, 2013, p. 306).

O que se observa em muitos lares é exatamente o oposto: ausência de preparo, diversidade emocional descontrolada, falta de direção e, frequentemente, completa ignorância dos fundamentos doutrinários. Nesse contexto, abrir espaço para manifestações espirituais é, no mínimo, alienação da razão.

A função espiritual do lar é inequívoca dentro da proposta espírita: trata-se de um núcleo de reequilíbrio moral, e não de experimentação mediúnica. Por isso Emmanuel orienta com clareza: “O lar não é apenas a residência dos corpos, mas o refúgio das almas.” (XAVIER, 2010, p. 52).

Transformar o refúgio doméstico em ambiente de intercâmbio mediúnico sistemático, sem preparo e sem assistência doutrinária, equivale a expor emocional e espiritualmente todos os seus membros , sobretudo os mais vulneráveis.

Portanto, o que deveria ser espaço de oração e vigilância converte-se, assim, em campo aberto para influências espirituais inferiores.

Léon Denis, um dos mais lúcidos continuadores da obra kardequiana, reforça o caráter grave da mediunidade dizendo que “a mediunidade é uma faculdade delicada, que exige cultura, direção e moralidade.” (DENIS, 2005, p. 189). E adverte ainda:

“Sem controle sério, ela se torna fonte de ilusões e perigos.” (DENIS, 2005, p. 191).

Ao se permitir que lares se convertam em “núcleos mediúnicos improvisados”, o que se observa não é espiritualidade elevada, mas um terreno fértil para animismo descontrolado, mistificações, obsessões de vários níveis e consequentemente desequilíbrios psíquicos. Trata-se, portanto, não de avanço espiritual, mas de regressão.

É preciso arguir, com firmeza, a noção equivocada de que a mediunidade deva ser “exercitada em casa” como forma de crescimento espiritual. Isso não encontra respaldo na Codificação.

O que a Doutrina Espírita recomenda para o lar é o Evangelho no Lar, prática que visa: elevação do padrão vibratório, fortalecimento moral, proteção espiritual, educação dos sentimentos. Confundir essa prática do estudo familiar do Evangelho no Lar com reunião mediúnica é irresponsabilidade de consequência imprevisível.

É verdade que a história dos primórdios do Espiritismo registra reuniões ocorridas em ambientes domésticos. Contudo, essas experiências se deram sob condições muito específicas com orientação superior, presença de médiuns disciplinados, direção segura e no contexto da indiscutível finalidade especialíssima.

Generalizar essas exceções para justificar práticas atuais desordenadas é desvirtuar completamente o espírito da Doutrina. Posto que a mediunidade é instrumento de serviço, não de experimentação doméstica. Abrir o lar para práticas mediúnicas sem critério não é apenas irreflexão, é inaceitável anomalia doutrinária.

A Terceira Revelação não se sustenta sobre improviso, emoção ou misticismo descontrolado. Ela exige: estudo, disciplina, responsabilidade e, obviamente, elevação moral. Fora disso, o que se tem não é Espiritismo, é sua caricatura.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Brasília: FEB, 2013.

DENIS, Léon. No Invisível. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

XAVIER, Francisco Cândido. Luz no Lar. Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. Brasília: FEB, 2010.

04 maio 2026

Para kardequiólogos de plantão - A inconformidade do exercício mediúnico no âmbito familiar



Jorge Hessen

Brasília- DF

A crescente retórica vazia de defesa de práticas mediúnicas “improvisadas” no ambiente doméstico revela não apenas desconhecimento doutrinário, mas grave distorção dos fundamentos estabelecidos por Allan Kardec. Sustentar que a mediunidade pode — ou deve — ser exercida no seio familiar, como atividade comum, é ignorar os princípios de segurança, método e finalidade moral que estruturam o Espiritismo.

Inobstante não haver, nas obras básicas, uma “proibição absoluta” do espaço doméstico, há uma advertência inequívoca contra a prática mediúnica fora de condições rigorosamente controladas — o que, na prática, torna o ambiente familiar inadequado para tal exercício.

Em O Livro dos Médiuns, Kardec estabelece o princípio da seriedade como condição indispensável:“Toda reunião espírita deve tender à maior homogeneidade possível; quanto mais perfeita for essa homogeneidade, mais força terá.” (KARDEC, 2013, p. 331). E adverte, de forma ainda mais incisiva: “Os Espíritos levianos pululam por toda parte e se aproveitam de todas as ocasiões para se manifestarem.” (KARDEC, 2013, p. 268).

Essas afirmações desmontam a ingenuidade de se supor que o lar — ambiente naturalmente sujeito a oscilações emocionais, conflitos íntimos e ausência de disciplina técnica — seja campo seguro para intercâmbios espirituais. A mediunidade não é fenômeno inofensivo nem prática recreativa; exige direção consciente, estudo sistemático e vigilância moral.

A própria trajetória de Kardec confirma essa necessidade. Sob orientação de São Luís, estruturou-se um ambiente institucional adequado — a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas — precisamente para garantir método, controle e finalidade elevada às manifestações. Tal iniciativa não foi casual, mas resposta direta aos riscos da mediunidade exercida sem critérios.

No mesmo sentido, Léon Denis reforça a necessidade de prudência e elevação moral: “A mediunidade é uma faculdade delicada, cuja prática exige recolhimento, estudo e pureza de intenções.” (DENIS, 2005, p. 214). Denis alerta que ambientes desprovidos de disciplina favorecem a ação de entidades mistificadoras, comprometendo não apenas a autenticidade das comunicações, mas o equilíbrio psíquico dos participantes.

Já Emmanuel, com a clareza que lhe é característica, estabelece o critério definitivo:“A mediunidade não é passatempo, mas compromisso sério com a vida espiritual.” (EMMANUEL, 2010, p. 97). E adverte: “Sem estudo e sem disciplina, a prática mediúnica converte-se em porta aberta à perturbação.” (EMMANUEL, 2010, p. 102).

Diante disso, torna-se evidente que a tentativa de “normalizar” a mediunidade no ambiente familiar constitui um desvio perigoso. O lar deve ser espaço de harmonização, oração e fortalecimento moral — não laboratório de experiências espirituais.

A prática mediúnica séria requer: direção doutrinária segura; regularidade e método; controle moral do grupo; finalidade educativa e caritativa. Tais condições dificilmente se sustentam no cotidiano doméstico. Por isso, a institucionalização dos trabalhos mediúnicos — em centros organizados — não é formalismo, mas medida de proteção espiritual e responsabilidade doutrinária.

Conclui-se, portanto, que o ambiente familiar, embora respeitável e sagrado, é inadequado para o exercício mediúnico sistemático. Não por embargo incondicional, mas por insuficiência estrutural diante da complexidade do fenômenoInsistir no contrário é expor consciências despreparadas a riscos espirituais concretos, em frontal desacordo com os princípios kardecianos.

 

Referências     Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

DENIS, Léon. No Invisível. 5. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

EMMANUEL. O Consolador. Psicografia de Chico Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010

​Aos “kardequiólogos PhDs meia-boca” um alerta: mediunidade não é, nunca foi e jamais será prática doméstica recomendável


 



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A crescente difusão de ideias alucinadas que defendem a prática mediúnica no ambiente doméstico, de forma livre e desassistida, revela não apenas um pseudoconhecimento doutrinário, mas grave imprudência moral. Em face disso faço aqui um alerta contra a banalização da mediunidade.

Sob o pretexto de “naturalizar” a mediunidade, certos discursos contemporâneos a reduzem a uma atividade doméstica comum, desconsiderando as advertências firmes da Codificação Espírita e das obras subsidiárias. Trata-se de um desvio perigoso e, do ponto de vista doutrinário, injustificável.

Desde Allan Kardec, a mediunidade é apresentada não como faculdade a ser exercida ao sabor da vontade, mas como instrumento delicado que exige disciplina, estudo e elevação moral. Em O Livro dos Médiuns, Kardec é categórico ao advertir:

A prática do Espiritismo é cercada de dificuldades e nem sempre isenta de inconvenientes que só um estudo sério e completo pode prevenir.” (KARDEC, 2013, cap. III, item 18)

Tal afirmação desmonta, por si só, a tese de que a mediunidade possa ser exercida de maneira informal no seio familiar. Não se trata de mera recomendação prudencial, mas de um princípio estruturante: sem preparo, há risco real de desequilíbrio.

O ambiente doméstico, por sua natureza afetiva e dinâmica, raramente (quase nunca) oferece as condições psíquicas e morais necessárias para o intercâmbio seguro com o plano espiritual. A ausência de direção experiente, de harmonização adequada e de amparo espiritual organizado expõe os participantes a fenômenos de mistificação, fascinação e, sobretudo, obsessão.

Nesse sentido, Léon Denis reforça o caráter grave da questão ao afirmar: “O Espiritismo experimental exige condições especiais, tanto do ponto de vista moral quanto do ambiente.” (DENIS, 2005, p. 312)

Não há, portanto, espaço para improvisação. A mediunidade não se submete à lógica da espontaneidade doméstica, mas à disciplina de um campo de trabalho espiritual que exige responsabilidade coletiva.

As obras de Emmanuel e André Luiz aprofundam ainda mais essa compreensão. Ao descreverem os bastidores espirituais das reuniões mediúnicas, evidenciam a presença de equipes organizadas, planejamento prévio e rigoroso controle vibratório , elementos completamente ausentes em reuniões familiares improvisadas.

Em Nosso Lar, observa-se que o intercâmbio mediúnico sério não ocorre ao acaso, mas sob supervisão criteriosa do plano espiritual, o que exige, no plano material, ambientes preparados e trabalhadores comprometidos. A mediunidade, portanto, não é expressão de informalidade, de banalidade, mas de serviço disciplinado.

Importa distinguir, com clareza, o que frequentemente é confundido: a prática mediúnica não se confunde com o Evangelho no lar. Este, sim, é recomendado amplamente como prática salutar de harmonização espiritual da família. Já a mediunidade exige educação específica e campo apropriado. Misturar ambos é erro conceitual gravíssimo.

A banalização da mediunidade no ambiente doméstico produz consequências sérias. Ao abrir campo indiscriminado para comunicações espirituais sem preparo, cria-se ambiente propício à interferência de espíritos levianos ou perturbadores (ALGUÉM DUVIDA DISSO?). A falta de conhecimento doutrinário ou do pseudoconhecimento (“kardequiólogos PhDs meia tigela”) impede o discernimento necessário para identificar a natureza dessas comunicações, conduzindo facilmente ao autoengano e à fascinação.

É preciso afirmar com clareza: não existe respaldo na Doutrina Espírita para a prática mediúnica livre, doméstica e desassistida. O que existe são advertências reiteradas quanto aos perigos dessa conduta.

Conclui-se, portanto, que a mediunidade deve ser educada com base no estudo sistemático e exercida SIM!!​.... Em ambiente doutrinário sério; conduzida sob orientação experiente e integrada a um propósito moral elevado.

Fora desses parâmetros, deixa de ser instrumento de despertamento consciencial  para tornar-se foco de desequilíbrio. A responsabilidade, nesse campo, não admite improvisações. A mediunidade é tarefa abençoada  e, como tal, exige respeito, preparo e disciplina. Tudo o que se afasta disso não é liberdade doutrinária, mas imprudência travestida de pseudosabedoria (“kardequiólogos PhDs meia-boca”).

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

DENIS, Léon. No Invisível. 5. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. 60. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010.


02 maio 2026

Estigmatizar o corpo e responsabilidade moral - entre o livre-arbítrio e a prudência




Jorge Hessen

Brasília -DF

A expansão contemporânea da tatuagem e do piercing impõe uma reflexão que ultrapassa o campo estético. Não se trata de moralismo superficial, mas de responsabilidade integral diante do corpo e da vida alheia. A legislação sanitária brasileira estabelece inaptidão temporária de 12 meses para doação de sangue após tatuagens ou piercings, considerando o risco de transmissão de agentes infecciosos. Tal medida não é arbitrária: decorre de evidências médicas que associam esses procedimentos à possibilidade de contaminação por hepatites virais, HIV e infecções bacterianas, sobretudo quando não realizados sob rigor técnico.

A tatuagem consiste na introdução de pigmentos insolúveis na derme por meio de múltiplas perfurações — até centenas por segundo —, o que, por si, já configura uma agressão controlada ao tecido corporal. Ainda que existam estúdios sérios e profissionais habilitados, o risco jamais é absolutamente nulo. A prudência, portanto, não é conservadorismo: é inteligência aplicada à preservação da saúde.

Contudo, reduzir o debate à dimensão biológica seria insuficiente. À luz da Doutrina Espírita, a questão central não reside na tinta sob a pele, mas nas intenções que movem o indivíduo. Uma tatuagem não define o caráter; não torna alguém virtuoso nem vicioso. O Espiritismo não legisla sobre adornos corporais, tampouco estabelece proibições formais. Antes, convida ao discernimento: “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”.

O corpo físico, ensina Allan Kardec, é instrumento sagrado de evolução, concedido como empréstimo divino para as experiências reencarnatórias. Qualquer intervenção sobre ele deve ser ponderada à luz da necessidade, da utilidade e da responsabilidade. Quando a modificação corporal nasce do impulso irrefletido, da vaidade exacerbada ou da necessidade de afirmação externa, pode revelar desalinhamentos íntimos que pedem análise mais profunda.

Sob o enfoque espiritual, o corpo está interligado ao perispírito, matriz sutil que registra impressões e experiências. Lesões voluntárias, ainda que socialmente aceitas, podem repercutir nesse envoltório energético, sobretudo quando associadas a estados mentais desequilibrados. Não se trata de condenação, mas de consequência natural das leis que regem a vida.

Por outro lado, o julgamento apressado do próximo constitui falha igualmente grave. Ninguém penetra a consciência alheia para avaliar suas motivações reais. O Espiritismo é claro ao afirmar que cada Espírito responde por seus atos segundo o grau de conhecimento que possui. Cabe-nos orientar, jamais condenar.

Assim, entre a liberdade individual e a responsabilidade moral, impõe-se o equilíbrio. A escolha é pessoal, mas os efeitos são inevitavelmente coletivos e espirituais. A verdadeira maturidade não está em fazer tudo o que se deseja, mas em discernir o que convém fazer. Pensar antes de agir continua sendo a mais elevada forma de respeito à própria vida e à vida do outro.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de hemoterapia e critérios para doação de sangue. Brasília: MS, 2020.

Espiritismo e marxismo são ontologicamente inconciliáveis

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A tentativa de conciliar o pensamento de Karl Marx com a Doutrina Espírita exige rigor conceitual. Não se trata de mera divergência periférica, mas de fundamentos distintos sobre a natureza da realidade, do ser humano e da transformação social.

No plano filosófico, o marxismo estrutura-se sobre o materialismo histórico-dialético. Segundo Marx, a consciência é produto das condições materiais: “não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, o seu ser social que determina sua consciência” (Karl Marx, 2013, p. 47). A religião, nesse contexto, aparece como fenômeno derivado e compensatório como um “suspiro da criatura oprimida [...] o ópio do povo” (Karl Marx, 2010, p. 145).

Opostamente, o Espiritismo afirma a primazia do espírito sobre a matéria. Kardec estabelece que “o princípio inteligente é distinto da matéria” (Allan Kardec, 2019, q. 23), indicando uma ontologia espiritualista incompatível com o reducionismo materialista. Ao tratar da reencarnação, reforça que o progresso não se limita às condições sociais imediatas, mas transcende existências corporais sucessivas (KARDEC, 2019, q. 166). 

Essa divergência se aprofunda no método de transformação. O marxismo aposta na mudança estrutural mediante conflito histórico. No Manifesto, lê-se que “a história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes” (Karl Marx; Friedrich Engels, 2010, p. 40). Já o Espiritismo desloca o eixo da mudança para o interior do ser. Léon Denis afirma: “A sociedade será o que forem os indivíduos que a compõem” (DENIS, 2017, p. 112), indicando que sem reforma moral não há ordem social justa e duradoura.

Na mesma linha, Emmanuel adverte: “Nenhuma organização social poderá substituir o esforço de iluminação íntima de cada um” (EMMANUEL, 2016, p. 89). Tal afirmação confronta diretamente a expectativa marxista de que a reorganização das estruturas econômicas seja suficiente para produzir justiça social.

O marxismo culpa o óbvio “da exploração econômica e da desigualdade social”; o Espiritismo não aprova a indiferença moral. Kardec, ao definir a caridade, é incisivo: “fora da caridade não há salvação” (Allan Kardec, 2018, cap. XV, item 10). E amplia o conceito ao afirmar que a verdadeira caridade envolve benevolência, indulgência e perdão, o que implica uma ética social ativa.

Não existe semelhança no plano ontológico. Para Marx, a superação da injustiça é essencialmente estruturalpara o Espiritismo, é moral e espiritual. Kardec adverte que “o egoísmo é a chaga da humanidade” (KARDEC, 2018, cap. XI, item 11), indicando que qualquer sistema social será corrompido enquanto o homem não se transformar interiormente.

Dessa forma, a tese de uma síntese plena entre marxismo e Espiritismo não se sustentaO materialismo marxista é inconciliável com a Doutrina dos Espíritos. Com muito boa vontade, podemos viabilizar uma interlocução relativa em alguns aspectos pontuais. Porquanto há uma incompatibilidade metafísica estruturante, como disse, podem subsistir raríssimos pontos de contato éticos, sobretudo na reprovação da injustiça social.

O desafio, portanto, não é fundir sistemas inconciliáveis, mas preservar a coerência doutrinária espírita ao mesmo tempo em que se enfrenta, com lucidez e responsabilidade, a realidade das desigualdades humanas — sem reduzir o homem ao materialismo, mas obviamente não ignorar as exigências da justiça social.


Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Depois da morte. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

EMMANUEL (Espírito). O consolador. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2016. Psicografado por Francisco Cândido Xavier.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 94. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.

 

A ilusão digital do ganho fácil e a demência das apostas online no Brasil




 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O crescimento das apostas online no Brasil evidencia um fenômeno preocupante: a expansão de comportamentos compulsivos que comprometem a saúde mental, financeira e espiritual dos indivíduos. Daí analisaremos o jogo de azar como fator de alienação da consciência, enfatizando o papel do autodomínio, da responsabilidade moral e das influências espirituais nos processos de dependência.

Nunca foi tão fácil perder tanto dinheiro. Com um simples toque na tela, milhões de brasileiros acessam impulsivamente plataformas de apostas que prometem “riqueza” instantânea, mas entregam ansiedade, endividamento , desestruturação íntima e fissura familiar. O problema não está apenas na tecnologia, mas na atitude desgovernada do desejo de ganho fácil. A Doutrina Espírita oferece argumentos seguros para compreender e enfrentar essa realidade.

Os Benfeitores espirituais, no Livro dos Espíritos, questão 909, ensinam que o verdadeiro progresso moral reside no domínio das paixões. O jogo compulsivo representa a rendição da vontade ao impulso do desejo. A mente, antes senhora de si, torna-se refém da excitação momentânea e da expectativa ilusória do ganho fácil.

No ambiente digital, essa alienação se intensifica: algoritmos são estruturados para estimular repetição, reforçando ciclos de recompensa e frustração. O indivíduo já não joga por lazer , joga por compulsão.

A Doutrina Espírita é clara ao afirmar que o progresso é fruto do esforço. Não há construção legítima fora do trabalho digno. As apostas subvertem essa lógica ao prometerem prosperidade sem mérito, criando uma distorção perigosa da realidade.

Léon Denis adverte que toda ilusão que afasta o homem da verdade o escraviza. O jogador compulsivo passa a viver em função de uma promessa que quase nunca se concretiza, comprometendo sua dignidade e equilíbrio.

O vício não é apenas um fenômeno psicológico , é também patologia espiritual. Emmanuel destaca que pensamentos reiterados criam campos de sintonia. A fixação no jogo estabelece conexão com faixas espirituais inferiores, favorecendo processos obsessivos.

A mente viciada vibra em desarmonia: ansiedade, culpa, frustração e desespero tornam-se estados frequentes. Esse padrão mental fragiliza o espírito, dificultando ações conscientes e ampliando o ciclo de dependência.

O Espiritismo não condena nada, apenas esclarece. O “ingênuo” jogador não deve ser visto como culpado irremediável, mas como consciência em desequilíbrio, necessitada de orientação e esforço regenerativo.

Para a libertação desse vício assustador é importante o reconhecimento do problema, disciplina no uso da vontade, reconstrução de hábitos, busca de apoio moral, espiritual e, quando necessário, um tratamento terapêutico.

A Doutrina dos Espíritos convida à transmutação da ilusão pelo esforço disciplinado, do impulso automático pela consciência e  da fuga egoica pela responsabilidade das escolhas.

As apostas online representam uma das faces modernas de antigas paixões humanas. O que mudou foi a velocidade, o acesso e o potencial de destruição silenciosa. Diante disso, o papel do Espiritismo é urgente: alertar, educar e promover a emancipação da alma.  Não se trata apenas de evitar perdas financeiras , trata-se de preservar a lucidez espiritual. Porque, no fim, o maior prejuízo do jogo não é só o dinheiro perdido, mas a consciência que se perde de si mesma.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2006.