15 julho 2026

Eutanásia: a falsa compaixão diante da inviolabilidade da vida



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A recente morte da psicóloga colombiana Catalina Giraldo, após longa batalha judicial para obter autorização para a eutanásia, reacendeu um debate que desafia consciências, sistemas jurídicos e convicções religiosas. Diagnosticada com transtornos psiquiátricos graves e submetida a inúmeros tratamentos, ela afirmou desejar uma "morte digna", entendendo que a interrupção deliberada da própria existência seria um ato de liberdade e de amor para consigo mesma e para sua família. Sua história comove qualquer coração sensível. Todavia, emoção não pode substituir princípios éticos permanentes.

Sob a ótica espírita, a vida humana não constitui patrimônio exclusivo do indivíduo. Ela pertence a Deus, Criador e sustentador da existência. O Espírito reencarna para aprender, reparar equívocos pretéritos e desenvolver virtudes. Por isso, ninguém recebeu autorização moral para abreviar voluntariamente o próprio roteiro reencarnatório, ainda que motivado pelo sofrimento extremo.

Em O Livro dos Espíritos, questão 953, Allan Kardec registra que o suicídio voluntário representa infração à Lei Divina, pois interrompe provas e expiações cujo verdadeiro alcance escapa à compreensão humana. A dor jamais é um castigo arbitrário; constitui, frequentemente, instrumento educativo da evolução espiritual. Antecipar a morte não elimina os conflitos da consciência, apenas transfere para outras esferas dimensionais  problemas que permanecerão exigindo solução.

A Doutrina Espírita distingue claramente dois deveres éticos: combater o sofrimento e preservar a vida. A medicina possui o dever de utilizar todos os recursos legítimos para aliviar a dor física, psíquica e espiritual. Cuidados paliativos, suporte psicológico, assistência psiquiátrica, acolhimento familiar e amparo espiritual expressam a verdadeira compaixão. Diferente disso é provocar deliberadamente a morte, transformando o médico — tradicional defensor da vida — em homicida legalizado.

Esse entendimento converge, em larga medida, com os princípios clássicos da bioética. O princípio da beneficência determina agir em favor do paciente; o da não maleficência exige evitar causar dano intencional; a justiça impõe proteção igual à vida de todos; e a autonomia, embora fundamental, não possui caráter absoluto. Nenhum direito individual autoriza a eliminação da própria vida quando estão em jogo valores humanos universais.

A própria Declaração da Associação Médica Mundial sobre Eutanásia e Suicídio Assistido reafirma que a eutanásia constitui prática eticamente incompatível com a missão médica, ainda que respeite a necessidade de aliviar o sofrimento dos pacientes terminais por meio dos cuidados paliativos. Essa posição recorda que a medicina existe para cuidar, consolar e proteger, jamais para provocar a morte.

No caso colombiano, causa inquietação a ampliação progressiva dos critérios legais para a eutanásia. Inicialmente restrita a enfermidades terminais, sua aplicação passou a alcançar pessoas acometidas por intenso sofrimento psicológico. Trata-se de mudança civilizatória profunda. Quando uma sociedade começa a considerar a morte uma resposta terapêutica para o sofrimento psíquico, abre-se um perigoso precedente cultural, no qual o desespero passa a ser legitimado em vez de ressignificado.

Léon Denis advertia que a dor é uma das mais poderosas alavancas do progresso moral. Em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, demonstra que as provas da existência terrestre jamais são inúteis; elas fortalecem a vontade, purificam sentimentos e ampliam a compreensão espiritual. Eliminar a experiência dolorosa mediante a supressão da vida significa interromper um processo educativo cujos benefícios somente a eternidade permite compreender.

André Luiz, por sua vez, descreve em Nosso Lar e em Evolução em Dois Mundos que o desligamento prematuro do corpo físico não extingue automaticamente os sofrimentos da mente. O Espírito conserva consigo seus estados íntimos, suas angústias e seus conflitos psicológicos, agora sem o esquecimento temporário proporcionado pela reencarnação. A morte voluntariamente antecipada não representa libertação, mas continuidade das dificuldades em outro plano da vida.

Isso não significa condenar moralmente quem, esmagado pela enfermidade, pede para morrer. O Espiritismo jamais julga consciências. A responsabilidade moral somente Deus pode avaliar, considerando circunstâncias que escapam completamente ao julgamento humano. O Centro Espírita deve acolher sem condenar, consolar sem recriminar e fortalecer sem prometer soluções simplistas.

Entretanto, acolher não significa concordar. A Doutrina Espírita proclama, com absoluta firmeza, que a vida permanece inviolável desde a concepção até o desenlace natural. A verdadeira morte digna não consiste em provocar o fim da existência, mas em cercar o enfermo de amor, cuidados, presença familiar, assistência espiritual e esperança. Civilização autêntica não é aquela que aperfeiçoa os mecanismos para matar com menos sofrimento, mas aquela que multiplica os recursos para viver com mais dignidade.

 

Referências Bibliográficas:

ASSOCIAÇÃO MÉDICA MUNDIAL. Declaração sobre Eutanásia. Ferney-Voltaire: World Medical Association, 2019.

BEAUCHAMP, Tom L.; CHILDRESS, James F. Princípios de Ética Biomédica. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 35. ed. Rio de Janeiro: CELD, 2018.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 132. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nosso Lar. 61. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Evolução em Dois Mundos. Brasília: FEB, 2019.

BBC NEWS BRASIL. Reportagem sobre o caso de Catalina Giraldo, utilizada como texto-base fornecido pelo usuário. 

Álcool: o primeiro gole e a escravidão invisível — reflexões à luz da ciência e do Espiritismo



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

"O vinho é escarnecedor, e a bebida forte, alvoroçadora; todo aquele que por eles é vencido não é sábio." (Provérbios 20:1)

A preocupação com os efeitos do álcool acompanha a humanidade há milênios. Muito antes da Medicina comprovar os prejuízos fisiológicos e psicológicos decorrentes do consumo abusivo de bebidas alcoólicas, a sabedoria bíblica já advertia quanto ao seu poder de ilusão e degradação moral. O Evangelho registra igualmente que João Batista "não beberá vinho nem bebida forte" (Lc 1:15), evidenciando um ideal de disciplina e sobriedade compatível com sua elevada missão espiritual.

Passados mais de dois mil anos, o alcoolismo permanece entre os maiores desafios da saúde pública mundial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso nocivo do álcool está associado a mais de 3 milhões de mortes anuais, correspondendo a cerca de 5% de todos os óbitos no planeta, além de contribuir para mais de duzentas enfermidades, acidentes de trânsito, violência doméstica, suicídios e diversas formas de incapacidade física e mental.

No Brasil, a situação igualmente preocupa. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) revelam que milhões de brasileiros fazem uso abusivo de bebidas alcoólicas, iniciando frequentemente o consumo ainda na adolescência. O álcool permanece como a substância psicoativa de maior consumo no país, apesar dos amplos conhecimentos científicos acerca de seus efeitos deletérios.

Boa parte dessa realidade decorre da forte influência cultural e mercadológica. A publicidade sofisticada associa o consumo de bebidas ao sucesso, à felicidade, ao esporte, à juventude e ao convívio social, ocultando deliberadamente os elevados custos humanos e sociais da dependência química. O primeiro gole raramente é apresentado como o início de um processo que pode culminar na perda da liberdade psicológica, familiar e espiritual.

Sob a ótica espírita, o problema adquire dimensões ainda mais profundas. O Espírito Victor Hugo, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco, observa que a recuperação do alcoolista exige não apenas tratamento médico, mas intenso esforço moral e espiritual, uma vez que a dependência frequentemente se entrelaça com processos obsessivos, favorecidos pela intoxicação contínua do organismo e pelo rebaixamento vibratório do indivíduo.

A Doutrina Espírita ensina que o perispírito reflete diretamente os estados mentais do ser humano. Toda substância tóxica ingerida de maneira habitual repercute não apenas no corpo físico, mas também nos delicados mecanismos psíquicos, dificultando o autocontrole, a lucidez e a sintonia com os Benfeitores Espirituais.

Joanna de Ângelis adverte com notável sabedoria: "A pretexto de comemorações, festas ou decisões, não nos comprometamos com o hábito da bebida."

Seu ensinamento permanece extremamente atual. Os grandes vícios quase nunca começam por excessos. Iniciam-se, quase sempre, pelo famoso "apenas hoje", pelo "somente um gole", pelo "comigo não acontecerá". O oceano, lembra a benfeitora, é formado por pequenas gotas.

Infelizmente, ainda existem pessoas que procuram justificar o consumo de bebidas alcoólicas mediante argumentos frágeis: "todo mundo bebe"; "uma taça faz bem ao coração"; "apenas socialmente"; "eu tenho controle". Tais racionalizações ignoram que a dependência química normalmente se instala de forma gradual e silenciosa.

Sob o ponto de vista científico, inclusive, antigos estudos que sugeriam benefícios cardiovasculares do consumo moderado foram amplamente reavaliados. Pesquisas mais recentes publicadas em periódicos internacionais indicam que não existe nível de consumo completamente isento de riscos para diversas doenças, especialmente alguns tipos de câncer, doenças hepáticas e transtornos neurológicos.

No meio espírita, essa reflexão torna-se ainda mais necessária. A coerência doutrinária exige que o conhecimento adquirido seja convertido em prática cotidiana. Não basta reconhecer os prejuízos do álcool em palestras ou estudos se, nas confraternizações sociais, prevalece o comportamento oposto. Como oportunamente advertiu o jornal Mundo Espírita, existe o risco de se construir uma "doutrina de conveniência", distinta daquela efetivamente vivida.

A prevenção continua sendo o caminho mais seguro. A família desempenha papel decisivo na formação dos hábitos dos filhos. Estudos mostram que quanto mais precoce ocorre o primeiro contato com bebidas alcoólicas, maior é a probabilidade de desenvolvimento de dependência na vida adulta. A banalização do álcool no ambiente doméstico reduz a percepção de risco entre adolescentes e favorece comportamentos futuros de abuso.

À luz do Espiritismo, a verdadeira liberdade consiste no domínio de si mesmo. O homem verdadeiramente livre não é aquele que pode beber quando deseja, mas aquele que é capaz de dizer "não" às próprias inclinações inferiores.

A disciplina dos pensamentos, dos sentimentos e dos hábitos constitui uma das expressões mais importantes da reforma íntima. Como ensina Samuel Hahnemann em O Evangelho segundo o Espiritismo, "o homem não permanece vicioso senão porque quer permanecer vicioso; aquele que deseja corrigir-se sempre o pode". A lei do progresso jamais condena; convida continuamente ao esforço de renovação moral.

Muito além de uma questão de saúde, o alcoolismo representa um desafio ético, psicológico e espiritual. A verdadeira prevenção começa pela educação da consciência e pelo cultivo permanente do equilíbrio, da vigilância e da responsabilidade perante a própria vida.

 

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

FRANCO, Divaldo Pereira. Calvário de Libertação. Pelo Espírito Victor Hugo. Salvador: LEAL, várias edições.

FRANCO, Divaldo Pereira. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Brasília: FEB, várias edições.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 2. ed. Brasília: FEB, 2019.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2023.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global Status Report on Alcohol and Health and Treatment of Substance Use Disorders 2024. Genebra: WHO, 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEPATOLOGIA. Consumo de álcool e doenças hepáticas: recomendações atuais. São Paulo, 2023


14 julho 2026

O Consolador Prometido e a Terceira Revelação, plenitudes do Cristianismo Redivivo



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A modernidade consolidou uma visão de mundo fortemente influenciada pelo materialismo. Desde o Renascimento e, sobretudo, com o Iluminismo, o progresso científico e filosófico foi acompanhado pelo enfraquecimento da religiosidade tradicional. Muitos passaram a admitir apenas a matéria como realidade objetiva, reduzindo a consciência humana a simples fenômeno biológico. Ao mesmo tempo, diversas interpretações do Cristianismo mostravam-se insuficientes para responder aos grandes dilemas da existência: a origem do sofrimento, a justiça divina, o destino da alma e o sentido da vida.

É nesse contexto que a Doutrina Espírita se apresenta como o cumprimento da promessa feita por Jesus acerca da vinda do Consolador. Conforme registra o Evangelho de João, o Mestre anunciou que o Espírito de Verdade ensinaria todas as coisas e faria recordar aquilo que Ele havia ensinado, esclarecendo verdades que a humanidade ainda não estava preparada para compreender.

Allan Kardec demonstra, no capítulo VI de O Evangelho segundo o Espiritismo, que o Consolador Prometido não constitui uma nova religião destinada a substituir o Evangelho, mas uma revelação complementar, capaz de restaurar o Cristianismo em sua pureza moral, libertando-o das interpretações humanas acumuladas ao longo dos séculos. O Espiritismo explica racionalmente os ensinos de Jesus, conciliando fé e razão, religião e ciência, sentimento e conhecimento.

Quando Jesus afirmou: "Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora", reconhecia que o progresso intelectual da humanidade seria indispensável para a compreensão de determinados princípios espirituais. O Espiritismo surge exatamente quando o desenvolvimento científico e filosófico permite examinar a realidade espiritual sem recorrer ao misticismo ou ao dogmatismo.

A principal característica da Terceira Revelação é sua base universal. Kardec não construiu a Doutrina sobre opiniões pessoais nem sobre revelações isoladas. Aplicou o princípio do Controle Universal do Ensino dos Espíritos, reunindo comunicações concordantes provenientes de numerosos médiuns e grupos independentes, submetendo-as ao rigor da razão e da lógica. Essa metodologia distingue o Espiritismo das doutrinas fundadas exclusivamente na autoridade de um indivíduo.

Por isso, o Consolador não oferece apenas conforto emocional. Consola porque esclarece. Explica a justiça divina mediante a lei de causa e efeito, demonstra a imortalidade da alma, confirma a reencarnação como mecanismo de progresso espiritual, evidencia a comunicabilidade dos Espíritos e amplia a compreensão sobre a pluralidade dos mundos habitados. A consolação nasce do conhecimento das leis divinas, que retiram do sofrimento o caráter de castigo arbitrário, revelando-o como instrumento educativo e oportunidade de crescimento moral.

Dessa forma, a fé deixa de apoiar-se na crença cega para fundamentar-se na razão, conforme a célebre afirmação de Kardec de que a fé inabalável é somente aquela capaz de enfrentar a razão em todas as épocas da humanidade. É justamente essa fé raciocinada que constitui um dos maiores legados do Espiritismo ao pensamento religioso contemporâneo.

Uma das objeções mais frequentes ao Espiritismo refere-se à possibilidade da comunicação entre encarnados e desencarnados. Alguns grupos religiosos interpretam determinadas passagens do Antigo Testamento como proibição absoluta desse intercâmbio. Entretanto, a análise do contexto bíblico demonstra que Moisés condenava as práticas mágicas, a adivinhação mercenária e a necromancia pagã, jamais a manifestação dos bons Espíritos sob a permissão divina. Basta recordar que os profetas receberam inspirações espirituais, que os anjos — Espíritos puros — aparecem repetidamente nas Escrituras e que, na Transfiguração, Jesus dialoga com Moisés e Elias diante de Pedro, Tiago e João.

Do mesmo modo, a reencarnação oferece uma resposta coerente ao problema da justiça divina. Sem ela, seria difícil explicar, em perfeita harmonia com os atributos de Deus, as profundas desigualdades humanas verificadas desde o nascimento. A pluralidade das existências demonstra que cada Espírito é responsável pela própria evolução, colhendo os frutos de suas escolhas ao longo de sucessivas experiências reencarnatórias. Assim, o sofrimento não representa punição eterna nem privilégio arbitrário, mas oportunidade de aprendizado, reajuste e progresso.

Essa compreensão elimina a ideia de um Deus parcial ou vingativo. A Providência Divina governa o Universo por leis imutáveis de amor, justiça e misericórdia, oferecendo a todos, sem exceção, os recursos necessários ao aperfeiçoamento espiritual. Cada existência corporal constitui valiosa etapa da caminhada evolutiva rumo à perfeição relativa.

Outro aspecto essencial da Doutrina Espírita é sua natureza tríplice. Como ciência de observação, investiga os fenômenos mediúnicos e suas leis. Como filosofia, busca responder às grandes questões sobre Deus, o Espírito, a liberdade, a responsabilidade moral e o destino humano. Como religião, não se caracteriza por rituais, sacerdócio ou formalismos, mas pela vivência do Evangelho de Jesus, promovendo a transformação moral do indivíduo e sua aproximação consciente do Criador.

Essa tríplice dimensão impede reducionismos. Um Espiritismo exclusivamente científico perderia sua finalidade moral; um Espiritismo apenas religioso poderia resvalar para o dogmatismo; um Espiritismo exclusivamente filosófico permaneceria incompleto diante da proposta de renovação íntima ensinada pelo Cristo. As três dimensões formam um conjunto inseparável que expressa a originalidade da Codificação Kardequiana.

Por isso, o Consolador Prometido continua plenamente atual. Em uma sociedade marcada pelo materialismo, pelo relativismo moral e pelas crises existenciais, a Doutrina Espírita convida o ser humano à fé raciocinada, ao estudo permanente e à reforma íntima. Sua missão não consiste em substituir Jesus, mas em tornar seus ensinamentos inteligíveis à luz das leis espirituais que regem a vida.

O Espiritismo, portanto, não inaugura um novo Evangelho; esclarece o Evangelho eterno. Não cria uma nova verdade; amplia a compreensão da Verdade ensinada pelo Cristo. Como Terceira Revelação, confirma a justiça e o amor de Deus, ilumina o destino da alma imortal e oferece ao homem moderno uma esperança fundamentada na razão, na experiência e na vivência dos ensinamentos de Jesus. Eis por que permanece, segundo Allan Kardec, o Consolador Prometido: aquele que esclarece para consolar, consola para fortalecer e fortalece para conduzir o Espírito em sua marcha incessante rumo à perfeição.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 2. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869). Brasília: FEB, diversas edições.

XAVIER, Francisco Cândido. Entrevistas. Diversas edições. (A conhecida afirmação sobre a tríplice natureza da Doutrina Espírita é frequentemente atribuída a Chico Xavier, mas não integra a Codificação kardequiana e deve ser utilizada apenas como comentário, não como fundamento doutrinário.)

 

 

 

Um reflexão entre a biologia, a mente e a dimensão espiritual

Jorge Hessen

Brasília -DF

A compreensão da saúde mental vem experimentando notável transformação. Se há seis décadas predominava uma abordagem essencialmente medicamentosa, atualmente consolida-se um modelo biopsicossocial, ao qual muitos pesquisadores acrescentam a dimensão espiritual como fator relevante de enfrentamento e qualidade de vida.

Nesse contexto, tornou-se conhecida a obra A Biologia da Crença, de Bruce Lipton, que popularizou a epigenética ao defender que percepções, emoções e ambiente influenciam a expressão gênica. Embora seja correto afirmar que fatores ambientais modulam a atividade dos genes, as conclusões mais amplas de Lipton sobre o poder das crenças permanecem controversas e não representam consenso na comunidade científica.

A psiquiatria contemporânea reconhece que a farmacoterapia é indispensável em numerosos transtornos mentais, mas não constitui a única resposta terapêutica. Psicoterapia, arteterapia, musicoterapia, terapia ocupacional, atividade física e fortalecimento dos vínculos familiares integram estratégias eficazes na reabilitação psicossocial do paciente.

Sob a ótica espírita, o Espírito é o verdadeiro modelador do organismo físico. As enfermidades têm sua matriz na realidade espiritual do ser, refletindo os estados mentais, emocionais e morais acumulados ao longo da existência atual e das anteriores. Os fatores genéticos, imunológicos, ambientais e epigenéticos constituem efeitos dos mecanismos biológicos através dos quais se exteriorizam os ditames  da Lei de Causa e Efeito, sem excluir as provas, expiações e missões livremente aceitas pelo Espírito antes da reencarnação. Assim, o câncer, por exemplo, não pode ser compreendido apenas como um acidente biológico, mas como fenômeno complexo em que causas físicas e causas espirituais interagem segundo as leis divinas.

Somos um ser biopsicossocioespiritual. Allan Kardec admite que enfermidades podem sofrer influência de causas morais e espirituais, sem negar a importância dos fatores orgânicos. Por isso, a Doutrina Espírita jamais autoriza a substituição do tratamento médico pelo exclusivo tratamento espiritual.

Nos processos obsessivos, descritos por Kardec como intercâmbio mental perturbador entre Espíritos, o atendimento na Casa Espírita — mediante passes, água fluidificada, Evangelho, prece e reunião de desobsessão — constitui recurso complementar, jamais excludente da assistência médica e psicológica. O diagnóstico diferencial entre transtornos psiquiátricos e obsessão espiritual exige prudência, evitando interpretações simplistas.

Os trabalhadores espíritas devem abster-se de prescrever medicamentos, suspender tratamentos ou formular diagnósticos clínicos. Tais atribuições cabem aos profissionais habilitados. Em contrapartida, médicos e psicoterapeutas podem reconhecer que a espiritualidade, quando vivenciada de forma equilibrada, frequentemente fortalece a esperança, a resiliência e a adesão terapêutica.

O futuro aponta para uma medicina cada vez mais integrativa, capaz de distinguir causas biológicas, psicológicas, sociais e, quando admitidas pelo paciente, espirituais. Como ensinou Kardec, "a ciência e o Espiritismo se completam reciprocamente" (A Gênese). Cuidar do ser humano em sua integralidade significa unir conhecimento científico, ética, compaixão e responsabilidade, sempre colocando o bem do enfermo acima de qualquer preconceito ideológico ou dogmático.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

LIPTON, Bruce H. A Biologia da Crença. São Paulo: Butterfly, 2007.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Genebra: WHO, 2022.

 

12 julho 2026

Depressão: Entre a Ciência e a Espiritualidade — A Visão Espírita da Esperança



Jorge Hessen

Brasília -DF

A depressão figura entre os maiores desafios da saúde pública mundial. Caracteriza-se por tristeza persistente, perda de interesse pelas atividades habituais, desesperança, alterações do sono e do apetite, fadiga, dificuldades cognitivas, sentimento excessivo de culpa e, nos casos graves, ideação suicida. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de um transtorno multifatorial, resultante da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.

Sob a ótica espírita, entretanto, a enfermidade transcende os mecanismos neuroquímicos. Allan Kardec ensina que o Espírito é o princípio inteligente e que o perispírito constitui o elo entre a alma e o organismo físico. Assim, as predisposições psíquicas podem refletir tanto experiências da existência atual quanto tendências adquiridas em existências pretéritas, sem que isso implique afirmar que toda depressão decorra exclusivamente de causas espirituais.

André Luiz, especialmente em Nos Domínios da Mediunidade e Evolução em Dois Mundos, descreve a estreita interação entre mente, perispírito e sistema nervoso, esclarecendo que os estados mentais prolongados repercutem sobre o organismo, influenciando seu equilíbrio funcional. Emoções persistentes de ódio, ressentimento, culpa, medo ou revolta favorecem o desgaste psíquico, enquanto a disciplina mental, a oração, o perdão e o cultivo do bem fortalecem os recursos íntimos para o enfrentamento das dificuldades.

A literatura espírita também admite que determinados traumas vivenciados em existências anteriores — inclusive desencarnações violentas ou suicídio — possam deixar impressões profundas no perispírito, repercutindo em reencarnações futuras como predisposições emocionais. Todavia, tais interpretações pertencem ao campo doutrinário e não substituem o diagnóstico nem o tratamento médico.

Do ponto de vista científico, sabe-se que alterações nos sistemas de neurotransmissores, como serotonina, noradrenalina e dopamina, participam da fisiopatologia da depressão, embora não expliquem, isoladamente, toda a complexidade do transtorno. Os antidepressivos auxiliam na restauração do equilíbrio neuroquímico e constituem recursos terapêuticos valiosos, sobretudo quando associados ao acompanhamento psiquiátrico, psicológico e ao apoio familiar.

A Doutrina Espírita jamais recomenda abandonar os recursos da medicina. Kardec afirma que Deus fornece ao homem os meios para aliviar seus sofrimentos, cabendo-lhe utilizá-los com discernimento. A terapêutica espírita complementa, mas não substitui, a assistência médica, oferecendo recursos como a prece, o passe, o estudo do Evangelho, a reforma íntima e a prática da caridade, capazes de fortalecer a esperança e a resistência moral diante da enfermidade.

Jesus permanece como o maior terapeuta da alma. Seu Evangelho ensina que nenhuma dor é definitiva e que toda prova pode se converter em uma oportunidade de crescimento espiritual. A esperança, alimentada pela certeza da imortalidade e da reencarnação, transforma-se em poderoso fator de resiliência, permitindo ao ser humano enfrentar a depressão sem perder a confiança na misericórdia divina e no futuro.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, edição atual.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, edição atual.

LUIZ, André. Evolução em Dois Mundos. Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. Brasília: FEB, edição atual.

LUIZ, André. Nos Domínios da Mediunidade. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Brasília: FEB, edição atual.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Depression. Genebra: WHO, 2023.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Washington, DC: APA, 2022.

 

11 julho 2026

Cromoterapia na Casa Espírita: Um Sistema sem Amparo na Codificação Kardequiana

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Periodicamente ressurge no movimento espírita a tentativa de justificar a implantação da cromoterapia nas atividades da Casa Espírita, apoiando-se em referências de Joanna de Ângelis, especialmente na obra Plenitude. Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo na Codificação e desconsidera o método científico-doutrinário estabelecido por Allan Kardec.

Em Plenitude, Joanna de Ângelis menciona a helioterapia e faz alusões à cromoterapia no contexto da preservação da saúde física e psíquica. Em nenhum momento, porém, recomenda sua adoção como prática institucional do Espiritismo. Há profunda diferença entre reconhecer a existência de um recurso terapêutico e convertê-lo em atividade da Casa Espírita.

A questão decisiva, portanto, não é o que um autor espiritual menciona incidentalmente, mas o critério metodológico definido por Allan Kardec para preservar a identidade doutrinária.

No Livro dos Médiuns, ao tratar da formação e direção das reuniões espíritas, Kardec adverte que elas não devem converter-se em campo para experiências pessoais nem para a divulgação de sistemas particulares. Ao analisar as comunicações apócrifas e as teorias individuais, recomenda prudência extrema diante das novidades, lembrando que o entusiasmo e a boa-fé não bastam para legitimar uma ideia. O Codificador ensina que a Doutrina deve submeter todas as proposições ao exame da razão, da lógica e da concordância universal do ensino dos Espíritos, jamais à autoridade isolada de um médium, dirigente ou expositor.

No capítulo XXVII de O Livro dos Médiuns, Kardec é incisivo ao afirmar que é preferível rejeitar diversas verdades do que admitir uma única teoria falsa, pois um único erro pode comprometer a solidez do conjunto doutrinário. Essa orientação revela o rigor metodológico que caracteriza o Espiritismo.

Na Revista Espírita, Kardec retorna repetidamente ao mesmo princípio. Ao discutir o desenvolvimento da Doutrina, adverte que a tendência à formação de sistemas constitui um dos maiores perigos para a Ciência Espírita, porque cada pessoa tende a absolutizar suas próprias interpretações. Por essa razão, insiste que nenhuma teoria particular deve ser incorporada ao Espiritismo sem a confirmação do Controle Universal do Ensino dos Espíritos, fundamento metodológico apresentado em A Gênese e aplicado ao longo de toda a Codificação.

Nas páginas da Revista Espírita (1858–1869), Kardec combate sucessivamente as teorias exclusivistas, os métodos pessoais e as pretensões de reformar o Espiritismo mediante práticas estranhas ao seu objeto. Seu entendimento é inequívoco: o Espiritismo não deve absorver sistemas filosóficos, terapêuticos ou místicos apenas porque parecem úteis ou porque foram defendidos por médiuns respeitáveis. A autoridade doutrinária decorre da universalidade, da racionalidade e da concordância dos ensinos, nunca da opinião individual.

Esse critério aplica-se integralmente à cromoterapia. Ainda que possa ser estudada ou utilizada no campo das terapias complementares, não existe na Codificação qualquer fundamento para elevá-la à condição de prática espírita institucional.

As obras de André Luiz confirmam essa orientação. Em Missionários da Luz e Nos Domínios da Mediunidade, encontram-se descrições minuciosas do passe, do magnetismo, da fluidoterapia espiritual, da prece e da cooperação dos benfeitores desencarnados. Em nenhuma dessas obras aparece a cromoterapia como recurso próprio da Casa Espírita.

Emmanuel igualmente reafirma que a missão do Espiritismo consiste na educação moral do Espírito. A instituição espírita é escola do Evangelho, oficina de renovação íntima e núcleo de esclarecimento espiritual, não laboratório destinado à experimentação de métodos terapêuticos.

Também merece registro o fato de Divaldo Pereira Franco, durante décadas intérprete da obra de Joanna de Ângelis, jamais ter transformado a cromoterapia em serviço doutrinário permanente da Mansão do Caminho. Se Joanna pretendesse institucionalizar essa prática, seria natural que essa orientação se refletisse na principal obra assistencial vinculada ao seu pensamento.

Nada impede que profissionais habilitados utilizem terapias complementares em suas atividades particulares. Contudo, confundir iniciativas privadas com a prática espírita significa descaracterizar a finalidade da Casa Espírita e romper o critério metodológico estabelecido por Allan Kardec.

A fidelidade à Codificação exige distinguir o que pertence ao campo da saúde do que integra efetivamente a Doutrina Espírita. Respeitar Joanna de Ângelis é lê-la em seu contexto. Respeitar Kardec é preservar a Casa Espírita como ele a concebeu: um núcleo de estudo, evangelização, fraternidade, passe, prece e transformação moral. Todo o restante permanece no âmbito das opções pessoais, jamais do patrimônio doutrinário do Espiritismo.

 

Referências Bibliográficas:

  • FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Joanna de ÂngelisPlenitude. Salvador: LEAL, 1990.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019. cap. III, XX, XXVII e XXIX.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. 1858–1869. Brasília: FEB. Especialmente os artigos sobre o caráter da Doutrina Espírita, o exame crítico das comunicações e a rejeição dos sistemas.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019. cap. I.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André LuizMissionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André LuizNos Domínios da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 2021.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito EmmanuelVinha de Luz. Rio de Janeiro: FEB, 2020.

10 julho 2026

A falácia da “desobsessão” por "corrente magnética" um caricato exorcismo bulhufas


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Ainda ontem um amigo contou-me que “alguém” espalhava a notícia de que, durante uma palestra minha sobre a chamada "desobsessão por corrente magnética", eu teria sido interrompido por ele, em determinado centro espírita que, estranhamente, jamais visitei e sequer sei onde se localiza. Eis mais um exemplo de como a maledicência prefere a fantasia aos fatos. Em décadas de atividade doutrinária, nunca fui interrompido em uma conferência por quem quer que fosse. A calúnia, porém, continua sendo um recurso daqueles que não conseguem manter o equilíbrio moral.

Mas a mentira desse “alguém” é o aspecto menos importante. O problema real não é a persistência de uma prática apresentada como se fosse inovação doutrinária: a famigerada "desobsessão por corrente magnética", concebida por um grupo de pessoas inábeis que, infelizmente, confundem imaginação com Espiritismo. Criam métodos, inventam protocolos, prometem resultados e imaginam ter descoberto aquilo que Allan Kardec ignorou.

Obviamente não descobriram.

Na Codificação não existe uma única referência à chamada "corrente magnética" como técnica específica de excomunhão de Espíritos obsessores. Kardec ensina que o magnetismo é recurso valioso, capaz de atuar sobre os fluidos e auxiliar no restabelecimento orgânico. Entretanto, jamais o apresenta como mecanismo automático de libertação espiritual.

A obsessão, segundo Kardec, é um problema essencialmente moral. Seu tratamento exige esclarecimento do Espírito perseguidor, renovação íntima do obsidiado, prece sincera, perseverança, educação mediúnica e transformação moral. Não existem atalhos energéticos para substituir o trabalho do Evangelho.

Quando se transforma o magnetismo numa espécie de bizarro "choque anímico", destinado a “desalojar” obsessores por meio de uma corrente humana, abandona-se o método kardequiano para ingressar no terreno das especulações sem controle experimental. Aí justamente contra esse tipo de improvisação que Kardec advertia ao afirmar que o Espiritismo não deve aceitar teorias sem submetê-las ao controle da razão e da universalidade dos ensinos dos Espíritos superiores.

O mais preocupante é que tais práticas costumam vir acompanhadas de promessas de curas rápidas, diagnósticos espirituais infalíveis e linguagem pseudocientífica destinada apenas a impressionar os incautos. É a velha tentação do maravilhoso, sempre presente nas religiões e sempre combatida pela Doutrina Espírita.

O Espiritismo não necessita de modismos. Não precisa de engenharias fluídicas nem de coreografias mediúnicas. Precisa de estudo sério, fidelidade ao método kardequiano e humildade intelectual para reconhecer que ninguém recebeu procuração do Plano Espiritual para reinventar a Doutrina.

Toda inovação pode ser examinada. Nenhuma deve ser aceita apenas porque parece extraordinária. No Espiritismo, autoridade não nasce da criatividade de seus propositores, mas da concordância com os princípios codificados e da confirmação universal dos Espíritos superiores.

 

Enquanto alguns procuram fabricar técnicas esdrúxulas espetaculosas, Kardec continua ensinando o caminho mais custoso e mais eficaz: reforma moral, caridade, estudo, discernimento e educação moral. O restante pertence muito mais ao campo da fantasia e da imaginação humana do que ao da coerência e ciência espírita.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução  de Guillon Ribeiro. 53. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Diversos volumes. Brasília: FEB.

09 julho 2026

Os enciclopédicos fundamentalistas de Kardec

 




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Uma das mais graves distorções que hoje ameaçam o movimento espírita brasileiro é a transformação do método de Allan Kardec em dogma e da Codificação em um sistema fechado. Alguns "enciclopédicos" kardequiólogos, convencidos de deter o monopólio da ortodoxia, decretam que autores como André Luiz estariam fora da Doutrina Espírita. Paradoxalmente, ao pretenderem defender Kardec, renegam o princípio metodológico que ele próprio estabeleceu.

Na Introdução do Livro dos Espíritos, Kardec é categórico: "O Espiritismo marcha com o progresso e jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto." Não existe, portanto, qualquer fundamento para converter a Codificação em um catecismo intocável. Kardec legou um método de investigação, não um sistema imune ao exame racional.

Em A Gênese (cap. I), o Codificador ensina que a garantia da autenticidade das revelações espirituais repousa na concordância universal dos ensinos dos Espíritos. Em nenhum momento proibiu o surgimento de novos esclarecimentos; apenas estabeleceu os critérios para avaliá-los. Rejeitar previamente a produção mediúnica de André Luiz significa substituir o método kardequiano pelo preconceito.

André Luiz jamais pretendeu reformular a Doutrina. Sua obra, psicografada por Chico Xavier, desenvolve aspectos da realidade espiritual compatíveis com os princípios fundamentais codificados por Kardec. Emmanuel, por sua vez, jamais deixou de afirmar que Allan Kardec constitui o fundamento seguro do Espiritismo e que toda comunicação mediúnica deve submeter-se ao crivo da razão e da lógica.

O exame crítico das obras mediúnicas é obrigação de todo espírita. O inadmissível é transformar opiniões pessoais em sentenças definitivas e agir como se existisse um "magistério espírita" investido de infalibilidade. Kardec jamais instituiu sacerdotes da interpretação ou enciclopédicos kardequiólogos . A autoridade doutrinária nasce da fidelidade ao método, da coerência lógica e da humildade intelectual, jamais da arrogância erudita e enciclopédica.

Os verdadeiros discípulos de Kardec não o transformam em ídolo nem em legislador de verdades imutáveis. Seguem-lhe o exemplo de independência intelectual, abertura aos fatos e permanente disposição para revisar conclusões diante de evidências consistentes.

O maior perigo para o Espiritismo talvez não venha de seus adversários externos, mas do dogmatismo interno, que substitui a investigação pela repetição, a razão pela autoridade e a humildade pelo orgulho intelectual. Quando isso acontece, deixa-se de seguir Kardec justamente em nome de Kardec. O Espiritismo permanecerá fiel ao seu Codificador enquanto conservar vivo o princípio que lhe deu origem: nenhuma verdade legítima teme o exame racional.

Seja bem-vindo, André Luiz!


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB.

 

 

 

08 julho 2026

Apometria com "chips astrais" embaralhado com "paratecnologia" e "corpos energéticos" não tem nada a ver com Espiritismo

 



Jorge Hessen

Brasília -DF


Em 2009, Suely Caldas Schubert  escreveu-nos o seguinte texto: “A apometria é mais uma prática surgida em nosso meio espírita que veio confundir e desviar os iniciantes, os que buscam novidades e, diria até, os invigilantes que se deixam envolver por tais ideias, que nada têm em comum com o Espiritismo. Recomendo o artigo do nosso companheiro Jorge Hessen àqueles que desejem conhecer algumas das práticas antidoutrinárias adotadas pela apometria.

É oportuno recordarmos a importante advertência de Allan Kardec, conforme O Evangelho segundo o Espiritismo, na Introdução II, de que a segurança do Espiritismo, com vistas ao futuro, deveria estar fundamentada no critério do controle universal do ensino dos Espíritos e na concordância que deve existir entre eles. Também adverte que qualquer ideia nova que surja deve ser submetida ao crivo da razão, acrescentando que, se houver dúvida, se busque a opinião da maioria.

As práticas da apometria não têm base doutrinária no Livro dos Médiuns, nem nas obras consideradas fiéis à Codificação pelo critério da maioria absoluta dos espíritas, quais sejam as de André Luiz, Manoel Philomeno de Miranda, Emmanuel, Joanna de Ângelis, Camilo e toda a obra mediúnica de Yvonne A. Pereira, isto só para falar nos autores espirituais. A apometria, portanto, não é Espiritismo.

A crescente difusão da apometria em alguns grupos que se apresentam como espíritas tem provocado compreensível confusão entre os estudiosos da Doutrina Espírita. Embora seus adeptos a apresentem como técnica terapêutica avançada de desobsessão, não existe qualquer fundamento para ela nas obras da Codificação de Allan Kardec nem no critério do Controle Universal do Ensino dos Espíritos, método que o Codificador estabeleceu para preservar a unidade e a autenticidade dos princípios espíritas.

A apometria incorpora conceitos estranhos ao vocabulário kardeciano, como "chips astrais", "paratecnologia", "corpos energéticos", "comandos mentais" e outras terminologias provenientes de correntes esotéricas, orientalistas e espiritualistas. Tais elementos jamais foram reconhecidos como princípios doutrinários do Espiritismo.

Para Kardec, a desobsessão não constitui um conjunto de técnicas capazes de promover libertações instantâneas. Ao contrário, exige paciência, perseverança, esclarecimento do Espírito obsessor e, sobretudo, a transformação moral do obsidiado. Não existem fórmulas ritualísticas nem comandos capazes de substituir o trabalho educativo do Evangelho.

Também merece reflexão o silêncio da literatura espírita clássica sobre as supostas técnicas apométricas. Nem Kardec, nem os Espíritos da Codificação, nem os grandes continuadores da Doutrina validaram tais procedimentos. Sem a universalidade dos ensinos e sem confirmação doutrinária, não há fundamento para incorporá-los à prática espírita.

Como advertiu Divaldo Pereira Franco, a apometria, tal como é praticada, não corresponde às recomendações do Livro dos Médiuns. Cada instituição é livre para adotar o método que desejar; entretanto, por fidelidade histórica e doutrinária, não é intelectualmente correto identificá-lo como Espiritismo.

A preservação da identidade doutrinária exige distinguir o respeito às pessoas da fidelidade aos princípios. Quem deseja estudar ou praticar apometria exerce um direito legítimo; contudo, não deve apresentá-la como desenvolvimento ou aperfeiçoamento da Doutrina Espírita, porque ela nasceu fora da Codificação e permanece à margem de seus fundamentos.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. especial. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 2. ed. especial. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A Gênese. 2. ed. especial. Brasília: FEB, 2019.

FRANCO, Divaldo Pereira. Entrevista ao programa Presença Espírita, da Rádio Boa Nova, em Guarulhos, em 2001 (amplamente reproduzida em registros doutrinários).

 

Acesse também os links abaixo e leia  artigos sobre o tema:

http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/2009/06/apometria-e-as-praticas-espiritas.html

http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/2009/07/fidelidade-espirita-uma-questao-de.html

http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/2009/06/resguardemos-kardec-das-enxertias.html