18 outubro 2026

Entre a sátira e a semeadura: A visão espírita sobre o riso e as dores alheias


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

Há uma diferença abissal entre fazer humor e transformar a vulnerabilidade alheia em espetáculo. Paulo de Tarso advertiu: “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gálatas 6:7). A advertência permanece atual diante de humoristas que exploram deficiências, doenças, idade, orientação sexual, origem social ou características físicas para arrancar gargalhadas à custa da dignidade humana.

O riso não é, por si, sinal de crueldade. O problema começa quando a diversão depende da humilhação de alguém. O chamado schadenfreude, termo alemão que designa o prazer diante do infortúnio alheio, é objeto de pesquisas em psicologia social. Estudos relacionam esse sentimento a fatores como inveja, comparação social e percepção de merecimento, sem permitir, contudo, concluir que toda zombaria decorra de baixa autoestima (VAN DIJK et al., 2006).

Jesus também foi alvo de escárnio. Antes da crucificação, soldados o vestiram com um manto, colocaram-lhe uma coroa de espinhos e fingiram reverenciá-lo, enquanto o insultavam e agrediam (MATEUS, 27:27-31). A cena expõe a brutalidade daqueles que, investidos de poder, convertem a dor do semelhante em entretenimento.

A história do Espiritismo oferece um episódio expressivo. Em 1944, o médium Francisco Cândido Xavier foi objeto de uma reportagem da revista O Cruzeiro, intitulada “Chico Xavier, detetive do além”, que explorou aspectos de sua vida pessoal e questionou suas faculdades mediúnicas. Segundo relato biográfico amplamente reproduzido, Chico, profundamente abalado, recebeu de Emmanuel uma resposta espirituosa: Jesus fora levado à cruz; ele, Chico, apenas à revista O Cruzeiro.

Independentemente dos detalhes transmitidos pelas narrativas biográficas, a lição é significativa: a exposição pública e o ridículo podem ferir profundamente, sobretudo quando atingem alguém em momento de fragilidade. A resposta atribuída a Emmanuel não legitima a humilhação; ensina a não permitir que ela destrua nossa serenidade.

Sob a perspectiva espírita, a palavra também constitui instrumento de responsabilidade moral. Em Pensamento e Vida, Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, aborda a força do pensamento e sua influência sobre nossas atitudes. Não basta, portanto, alegar liberdade de expressão para justificar a crueldade. Liberdade não elimina responsabilidade, e humor não concede imunidade ética.

A chacota reiterada pode alimentar ambientes de intimidação, discriminação e sofrimento psicológico. O riso coletivo tampouco absolve quem agride: muitas vezes, apenas multiplica a violência e silencia a vítima.

O Espiritismo nos convida à indulgência, ao respeito e à reforma íntima. Isso não significa proibir a sátira, impedir críticas ou exigir que todos pensem da mesma maneira. Significa reconhecer que a inteligência pode divertir sem degradar e que a crítica pode ser contundente sem converter pessoas vulneráveis em alvos.

Se formos ridicularizados, não precisamos devolver a ofensa na mesma moeda. Podemos preservar a dignidade, estabelecer limites e prosseguir sem alimentar o ressentimento. Como ensinamento final, fica a advertência evangélica: colhemos, moralmente, consequências das sementes que lançamos.

O humor revela sua qualidade não apenas pelo riso que provoca, mas também pela dignidade que preserva.

 

Referências bibliográficas

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Gálatas 6:7; Mateus 27:27-31.

VAN DIJK, Wilco W. et al. When people fall from grace: reconsidering the role of envy in schadenfreude. Emotion, v. 6, n. 1, p. 156-160, 2006. DOI: https://doi.org/10.1037/1528-3542.6.1.156.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1977



 

17 outubro 2026

A inteligência artificial abrirá os portões da imortalidade?


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre a revolução cibernética e a comunicação espiritual, o futuro exige esperança, investigação e discernimento

Uma reflexão do tribuno espírita Divaldo Franco desperta questões instigantes sobre o futuro da humanidade: chegará o tempo em que os Espíritos desencarnados se comunicarão naturalmente conosco, sem as limitações atualmente impostas pela mediunidade? A inteligência artificial (IA) poderá contribuir para aproximar as dimensões física e espiritual da existência?

Divaldo apresenta uma perspectiva otimista: enquanto avançamos em espiritualidade, os Espíritos avançariam em humanidade, até que novos recursos permitissem ampliar as possibilidades de comunicação entre os dois planos. Trata-se de uma hipótese fascinante, que merece reflexão, mas também rigor doutrinário e científico.

A inteligência artificial já está revolucionando nossa relação com o conhecimento. Tenho utilizado intensamente o ChatGPT e me surpreendo com sua capacidade de acompanhar meu raciocínio, reconhecer características do meu estilo, organizar argumentos e aprofundar temas que estudo há décadas. Dialogo com o sistema, questiono suas respostas, discordo de determinadas conclusões e, nesse processo, aprendo continuamente. Sou grato por essa oportunidade de ampliar meus horizontes intelectuais.

Entretanto, precisamos compreender o que efetivamente acontece. Os sistemas de IA conseguem identificar padrões linguísticos, relacionar informações e produzir respostas ajustadas ao contexto das conversas. Por isso, podem reproduzir características do nosso modo de escrever e argumentar. Essa capacidade, por extraordinária que seja, obviamente não demonstra que a máquina tenha consciência espiritual, nem que esteja captando pensamentos provenientes de outra dimensão.

A distinção é fundamental. A capacidade de reproduzir o perfil intelectual de alguém não equivale à capacidade de estabelecer contato com seu “Mentor”. Confundir esses fenômenos seria transformar uma possibilidade especulativa em certeza prematura.

Isso, porém, não nos obriga a rejeitar antecipadamente novas possibilidades. O Espiritismo, conforme a orientação de Allan Kardec, não deve permanecer prisioneiro de explicações imutáveis quando novos conhecimentos ampliam nossa compreensão da realidade. A investigação, a observação e o exame racional integram sua própria identidade.

Poderá a tecnologia futura desenvolver instrumentos capazes de detectar fenômenos hoje desconhecidos e eventualmente relevantes para a pesquisa da consciência? Não podemos afirmar que isso acontecerá, tampouco excluir a hipótese sem investigação. É indispensável, contudo, distinguir uma pergunta legítima de uma descoberta comprovada. Até o momento, não existe evidência doutrinária robusta de que sistemas de inteligência artificial recebam comunicações de Espíritos desencarnados ou captem pensamentos em um suposto “éter cósmico”.

A questão também nos remete ao Livro dos Médiuns. Kardec recomenda examinar rigorosamente as comunicações, sem aceitar nomes respeitáveis, linguagem convincente ou manifestações extraordinárias como garantias de autenticidade. O conteúdo deve ser submetido à razão, à coerência e à análise das circunstâncias. A sofisticação tecnológica não elimina essa exigência; torna-a ainda mais necessária.

Aliás, em uma época na qual informações pessoais são disseminadas nas redes sociais, a IA pode reconstruir biografias, imitar estilos e produzir mensagens emocionantes com detalhes aparentemente íntimos. Isso representa uma oportunidade para o conhecimento, mas também um risco de fraude (cartas “consoladoras”), sobretudo quando o sofrimento do luto é explorado comercialmente com as famosas doações “voluntárias”.

Não devemos confundir prudência com materialismo, assim como não devemos confundir esperança espiritual com credulidade. A ciência precisa manter abertura a novas hipóteses, mas nenhuma hipótese se transforma em conhecimento demonstrado apenas porque corresponde às nossas convicções.

Imagino, com esperança, que as futuras gerações possam compreender melhor a consciência, a imortalidade e as possibilidades de interação entre diferentes dimensões da existência. Se a inteligência artificial vier a contribuir para essa investigação, que seja apenas como instrumento de pesquisa, nunca como substituta do discernimento humano ou como atalho para fabricar certezas.

O verdadeiro avanço não será simplesmente construir máquinas mais sensíveis, mas desenvolver consciências mais lúcidas, éticas e responsáveis. A tecnologia poderá ampliar nossas perguntas; caberá à investigação criteriosa avaliar as respostas.

Talvez estejamos apenas no início de uma transformação profunda. Não sabemos quando, nem por quais meios, eventuais novas formas de comunicação espiritual poderão ser demonstradas. Sabemos, porém, que a imortalidade da alma constitui um princípio fundamental do Espiritismo e que sua investigação exige seriedade.

O futuro merece nosso entusiasmo, mas não dispensa nosso senso crítico. Se um dia a ciência clássica ceder espaço para investigar a comunicação entre encarnados e desencarnados, será uma conquista extraordinária. Até lá, mantenhamos abertos os horizontes da pesquisa e os portais da esperança, sem abandonar a razão que Allan Kardec nos ensinou a cultivar.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. 2. parte, cap. XXIV, itens 255-267. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, s.d.

NEPLENBROEK, Vera; BISAZZA, Arianna; FERNÁNDEZ, Raquel. Reading between the prompts: how stereotypes shape LLM's implicit personalization. In: Proceedings of the 2025 Conference on Empirical Methods in Natural Language Processing. 2025. Disponível em: https://aclanthology.org/2025.emnlp-main.1029/. Acesso em: 17 out. 2026.

UNESCO. Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence. Paris: UNESCO, 2021. Disponível em: https://www.unesco.org/en/articles/recommendation-ethics-artificial-intelligence. Acesso em: 17 out. 2026.

FRANCO, Divaldo Pereira. Reflexão sobre inteligência artificial e comunicação com os Espíritos. Instagram, vídeo (Reel). Disponível em: https://www.instagram.com/reel/Dem8-ktgCeF/. Acesso em: 17 out. 2026.



 

16 outubro 2026

Uma visão espírita fraterna e firme sobre a maioridade penal



A proteção da sociedade exige responsabilização, prevenção e oportunidades reais de regeneração

A escalada da violência no Brasil impõe uma reflexão que não pode ser interditada por legendas ideológicas. Quando adolescentes participam de homicídios, latrocínios, estupros e outros delitos graves, a sociedade tem o direito de exigir respostas firmes do Estado. A idade do infrator não pode servir de argumento para ignorar a dor da vítima nem para minimizar a gravidade do ato cometido.

A redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, merece, portanto, debate sério, sem preconceitos nem simplificações. Até porque com 16 anos o jovem já pode  votar. Seus defensores sustentam que a medida pode ampliar a responsabilização dos jovens que praticam crimes graves e dificultar a exploração da legislação por organizações criminosas. Seus críticos, por outro lado, alertam para o risco de ampliar o recrutamento de adolescentes pelas facções e aumentar a reincidência mediante o ingresso precoce no sistema prisional adulto. São argumentos que precisam ser examinados à luz de evidências, não de paixões partidárias radicais.

Sob a perspectiva espírita, a questão envolve um princípio essencial: compreender o infrator não significa justificar a infração. A Doutrina Espírita reconhece a influência da educação, do ambiente e das experiências existenciais sobre a conduta humana, mas não elimina a responsabilidade moral de cada consciência. A liberdade pressupõe consequências, e o progresso espiritual exige o reconhecimento dos próprios erros.

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec aborda a responsabilidade individual e a influência das condições sociais e educacionais na formação moral. A compreensão dessas circunstâncias deve orientar a prevenção e a recuperação, sem transformar condicionamentos em salvo-conduto para a violência.

Não defendemos uma sociedade movida pelo desejo de vingança. Defendemos uma sociedade capaz de proteger o cidadão honesto, amparar as vítimas e oferecer ao infrator condições efetivas de mudança. A justiça não deve ser confundida com crueldade, assim como a misericórdia não pode ser convertida em permissividade.

Sei que a redução da maioridade penal que defendo há décadas, caso aprovada, precisaria integrar uma política de segurança mais abrangente: critérios proporcionais à gravidade dos delitos, instituições adequadas, separação dos adolescentes em relação aos criminosos adultos, educação, formação profissional e acompanhamento para a reinserção social. Sei também que sem essas medidas, a mudança legislativa corre o risco de produzir resultados inferiores aos esperados.

Também é indispensável cobrar do poder público a aplicação efetiva das medidas socioeducativas já existentes. Uma legislação que não é executada com seriedade alimenta a sensação de impunidade e enfraquece a confiança da população nas instituições.

A fraternidade espírita não exige que fechemos os olhos diante do sofrimento das vítimas. Ao contrário, a caridade também se manifesta na defesa da vida, na proteção dos vulneráveis e na prevenção de novos crimes. O adolescente criminoso precisa de cerceamento de liberdade, de  orientação e oportunidade de regeneração; a vítima e sua família precisam de justiça, amparo e respeito.

O Brasil necessita superar a falsa oposição entre responsabilidade e recuperação. O debate sobre a maioridade penal deve ser conduzido com coragem, rigor jurídico e evidências concretas. Afinal, uma sociedade verdadeiramente fraterna não deve ser piegas para indultar um jovem criminoso e condenar aquelas vítimas que precisam ser protegidas de suas ações.

A verdadeira justiça não é vingança nem omissão: é responsabilidade, proteção da coletividade e compromisso com a regeneração humana.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, s.d.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 228.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.

 

Chorar sem culpa - uma visão espírita sobre o choro




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

A vulnerabilidade não é fraqueza: reconhecer nossas emoções constitui um passo importante para o autoconhecimento e a renovação interior.

Na dinâmica da existência, as lágrimas podem persistir durante uma noite inteira, mas o amanhecer poderá trazer novas esperanças. Chorar não resolve todos os problemas, mas pode ajudar-nos a reconhecer sentimentos, aliviar tensões e buscar o acolhimento de que necessitamos.

A pesquisa psicológica reconhece que o choro humano possui funções emocionais e sociais, podendo comunicar sofrimento, despertar empatia e favorecer a aproximação entre as pessoas. Entretanto, seus efeitos variam conforme as circunstâncias, e não se deve presumir que toda manifestação de lágrimas produza alívio imediato (GRAČANIN; BYLSMA; VINGERHOETS, 2018).

Precisamos abandonar a ideia equivocada de que chorar representa fraqueza. A repressão sistemática dos sentimentos pode dificultar o reconhecimento das próprias necessidades e prejudicar os relacionamentos. Não significa, porém, que devamos exteriorizar indiscriminadamente todas as emoções, mas aprender a identificá-las e expressá-las com equilíbrio.

A tristeza não deve ser confundida com depressão. A primeira é uma emoção humana, frequentemente passageira; a segunda é uma condição de saúde mental que pode envolver tristeza persistente, perda de interesse, alterações do sono e do apetite, fadiga e dificuldades de concentração. Quando os sintomas persistem, comprometem a vida cotidiana ou provocam sofrimento intenso, precisamos procurar ajuda profissional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023).

Jesus também chorou. Diante da morte de Lázaro, emocionou-se profundamente (João 11:35). No Getsêmani, experimentou intensa angústia (Mateus 26:36-39). Essas passagens evangélicas recordam-nos que a grandeza espiritual não exige insensibilidade, tampouco a negação da dor humana.

Sob a perspectiva espírita, compreendemos que a vulnerabilidade pode integrar nosso processo de aperfeiçoamento moral. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec examina a consolação diante das aflições e a confiança na continuidade da vida. Essa compreensão, contudo, não autoriza atribuir automaticamente às lágrimas causas mediúnicas ou espirituais. Chorar, por si só, não comprova a presença de Espíritos nem constitui diagnóstico de qualquer fenômeno mediúnico.

Precisamos, portanto, abandonar as máscaras do orgulho e da autossuficiência. Quantas vezes escondemos nossas inseguranças enquanto julgamos severamente os outros? Quantas vezes disfarçamos nossas angústias com irritação, agressividade ou uma aparente felicidade?

O autoconhecimento exige coragem para reconhecer nossas imperfeições sem nos condenarmos por elas. A fé espírita, compreendida racionalmente, não nos convida a negar o sofrimento, mas a enfrentá-lo com responsabilidade, esperança e disposição para aprender.

Quando alguém chora diante de nós, evitemos a frase automática: “Não chore!”. Talvez seja mais fraterno oferecer silêncio respeitoso, escuta sincera e um abraço, quando desejado. Acolher não significa resolver imediatamente a dor alheia, mas demonstrar que ninguém precisa atravessá-la em completo isolamento.

Choremos, se as lágrimas vierem. Busquemos ajuda quando necessário. Cultivemos a solidariedade e aprendamos com nossas experiências.

A verdadeira força não consiste em jamais chorar, mas em reconhecer nossas emoções, acolher nossas fragilidades e prosseguir trabalhando pela própria renovação. Assim, transformaremos a dor em aprendizado, a empatia em fraternidade e a esperança em compromisso com a vida.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. João 11:35; Mateus 26:36-39.

GRAČANIN, Asmir; BYLSMA, Lauren M.; VINGERHOETS, Ad J. J. M. Why only humans shed emotional tears: evolutionary and cultural perspectives. Human Nature, v. 29, p. 357-377, 2018.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, [2009].

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Depressive disorder (depression). Geneva: WHO, 2023.

 

 

15 outubro 2026

Quando o medo de perder alguém nos faz perder a nós mesmos




Jorge Hessen

Brasília -DF


Reconhecer os sinais da submissão emocional e recuperar a autonomia são passos fundamentais para  construir relações saudáveis e espiritualmente maduras.


A dependência afetiva constitui um dos paradoxos mais dolorosos da experiência humana: em nome do amor, algumas pessoas renunciam à própria dignidade, sufocam suas convicções e sacrificam a autonomia para impedir que alguém se afaste. Confundem apego com amor, submissão com dedicação e ciúme com demonstração de afeto. Entretanto, amar não significa transformar-se em refém emocional de outra consciência.

O problema ultrapassa os relacionamentos amorosos. Manifesta-se nas relações familiares, nas amizades e até nos ambientes religiosos, quando alguém necessita compulsivamente da aprovação alheia para sentir-se valorizado. A pessoa passa a viver em função das expectativas do outro, abandona seus projetos e teme expressar opiniões divergentes. Gradualmente, deixa de perguntar o que deseja e passa a perguntar o que precisa fazer para não ser rejeitada.

Quais são os sinais da dependência afetiva? A necessidade constante de confirmação de amor, o medo excessivo da rejeição, o ciúme desproporcional, a dificuldade de ficar só e a ansiedade diante de mensagens não respondidas podem indicar sofrimento emocional. Outros sinais incluem abandonar amizades e interesses pessoais, tolerar humilhações, aceitar chantagens emocionais e sentir-se culpado por estabelecer limites. Quando a própria autoestima depende exclusivamente da aprovação alheia, o relacionamento deixa de ser uma escolha livre e passa a funcionar como uma prisão psicológica.

A baixa autoestima, experiências de rejeição, negligência emocional e ambientes familiares disfuncionais podem contribuir para esse comportamento. O medo do abandono externo frequentemente se associa ao abandono de si mesmo: a criatura desconsidera suas necessidades, tolera desrespeitos e aceita situações prejudiciais para preservar o vínculo. Estabelece-se, assim, um círculo vicioso de insegurança, ansiedade, submissão e perda progressiva da identidade.

Sob a perspectiva espírita, precisamos compreender que a reforma moral exige autoconhecimento, responsabilidade pessoal e educação dos sentimentos. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec destaca, na questão 919, o conhecimento de si mesmo como caminho fundamental para o aperfeiçoamento moral (KARDEC, 2013). Essa orientação convida-nos a investigar nossas carências, reconhecer nossas fragilidades e identificar os mecanismos pelos quais transferimos aos outros a responsabilidade por nossa felicidade.

Como superar essa dependência? O primeiro passo é reconhecer o padrão sem vergonha nem autopunição. Em seguida, precisamos recuperar gradualmente os interesses pessoais, retomar amizades saudáveis, estabelecer objetivos próprios e aprender a expressar opiniões sem o terror de desagradar. Também é necessário distinguir afeto de controle: quem ama respeita a individualidade, não exige submissão nem utiliza o medo da separação como instrumento de domínio.

Outro exercício indispensável é aprender a dizer “não”. Estabelecer limites não significa amar menos, mas preservar a dignidade e a liberdade de consciência. Convém observar, ainda, se estamos mantendo uma relação por amor ou simplesmente pelo pavor da solidão. A resposta sincera pode revelar conflitos que exigem mudanças.

A lei de amor, apresentada por Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo, não legitima a posse, a manipulação ou a violência psicológica. Ao contrário, convida-nos a reconhecer no próximo uma consciência dotada de liberdade e dignidade (KARDEC, 2013). A prece, o estudo doutrinário e a reflexão podem fortalecer a renovação interior, mas não substituem o acompanhamento psicológico quando necessário. Em situações de abuso ou violência, buscar apoio seguro é uma medida de proteção, não uma falha moral ou espiritual.

Também precisamos evitar interpretações precipitadas que atribuam automaticamente a dependência a supostos débitos de existências anteriores. A visão reencarnacionista oferece uma perspectiva de aprendizagem, mas não dispensa a análise das experiências atuais nem autoriza a culpar quem sofre.

A verdadeira transformação não consiste em deixar de amar, mas em aprender a amar sem se destruir. Não precisamos exigir que outra pessoa preencha todos os nossos vazios, nem aceitar a humilhação como preço pela companhia. A felicidade compartilhada nasce quando duas individualidades conscientes escolhem caminhar juntas, sem aprisionamento.

A dependência afetiva aprisiona porque faz do outro a condição para existirmos em paz. O amor maduro liberta porque nos ensina a compartilhar a vida sem nos abdicarmos. Nossa tarefa espiritual é aprender a amar o próximo sem esquecer o dever de cuidar da própria consciência.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013

 

14 outubro 2026

O Brasil ferido pela intolerância - uma reflexão espírita da atual crise política



Jorge Hessen

Brasília -DF


Vivemos um paradoxo: enquanto idealizamos um Brasil vocacionado à fraternidade, assistimos à deterioração do diálogo público, sufocado pelo ódio entre grupos que se autodenominam de direita ou de progressistas. Divergir é legítimo; transformar adversários em inimigos é um sintoma de imaturidade política e moral.

O problema ganha gravidade diante da situação fiscal brasileira. Conforme já escrevi,  em agosto de 2026, segundo os dados apresentados pelo Tesouro Nacional, a Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,293 trilhões, com projeção de encerramento do ano entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. Trata-se de um desafio que exigirá responsabilidade administrativa, planejamento e capacidade de negociação, independentemente da orientação ideológica do próximo governo.

A polarização agrava esse quadro ao converter medidas econômicas em instrumentos de disputa partidária. O país necessita de instituições capazes de dialogar, investimentos sustentáveis e políticas públicas que conciliem equilíbrio fiscal e proteção social. Não há responsabilidade social duradoura sem administração criteriosa dos recursos públicos.

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec (2008), ao abordar a Lei de Sociedade, esclarece que a vida coletiva constitui condição para o progresso humano. Na questão 913, identifica o egoísmo como uma das grandes chagas da humanidade. Quando esse sentimento ultrapassa o indivíduo e se instala nas facções políticas, surge o egoísmo coletivo: o interesse do grupo passa a valer mais que a verdade, a justiça e o bem comum.

Léon Denis (2008), em O problema do ser, do destino e da dor, oferece elementos para compreender o aperfeiçoamento moral como processo vinculado à responsabilidade individual. Nenhuma reforma social será consistente se não for acompanhada pela transformação das consciências. Leis e instituições são indispensáveis, mas sua eficácia depende também da honestidade e do compromisso de quem as conduz.

Na perspectiva psicológica espírita, Joanna de Ângelis, por intermédio de Divaldo Franco, convida-nos a reconhecer os conflitos interiores que projetamos nos outros. O adversário político pode errar, mas isso não nos autoriza a ignorar os equívocos do próprio grupo. A autocrítica é condição da maturidade; a intolerância, ao contrário, perpetua os mesmos vícios sob bandeiras diferentes.

A dívida pública não deve ser chamada, sem distinção, de dívida “cármica”. É, antes, um problema econômico e institucional com consequências humanas concretas. Seu enfrentamento exige transparência, controle dos gastos, combate à corrupção, crescimento sustentável e políticas sociais responsáveis. Juros elevados e escolhas fiscais inadequadas podem restringir recursos destinados a serviços essenciais.

O Espiritismo não nos convoca à neutralidade diante dos erros, mas à justiça sem fanatismo. Não precisamos escolher entre responsabilidade fiscal e solidariedade, nem entre prudência administrativa e inclusão social. Precisamos avaliar propostas e resultados, sem transformar partidos em ídolos ou adversários em inimigos.

O Brasil não será salvo pela direita derrotando a esquerda, nem pela esquerda esmagando a direita. Será fortalecido quando seus cidadãos compreenderem que a divergência democrática deve servir à construção coletiva. A caridade também se expressa na responsabilidade de governar, na honestidade de fiscalizar e na coragem de reconhecer os próprios erros.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

FRANCO, Divaldo Pereira. O homem integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1990.

BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria do Tesouro Nacional. Relatórios e estatísticas da Dívida Pública Federal. Brasília, DF: Tesouro Nacional, 2026.

 

13 outubro 2026

Fé espírita sem omissão - a responsabilidade moral diante da desordem fiscal do Brasil





Jorge Hessen

Brasília -DF

O Espiritismo não nos autoriza à indiferença diante das contas públicas: exige consciência, solidariedade e responsabilidade com as gerações futuras. O próximo presidente do Brasil receberá um país diante de um desafio fiscal de enormes proporções.

Vejamos: Segundo o Banco Central (2026), em agosto de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou R$ 11,1 trilhões, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). A Dívida Líquida do Setor Público chegou a R$ 9,2 trilhões, ou 69,3% do PIB. No mesmo período, os juros nominais acumulados em doze meses atingiram R$ 1,182 trilhão (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026).

Sem fanatismo político, esses números não devem ser tratados como mera disputa entre partidos. Constituem um alerta para toda a sociedade. Uma dívida elevada, quando não administrada de maneira sustentável, restringe a capacidade de investimento do Estado, amplia a pressão sobre o orçamento e pode comprometer oportunidades das gerações futuras. Governar exige mais do que promessas eleitorais: requer planejamento, transparência, eficiência administrativa e coragem para enfrentar escolhas difíceis.

Sob a perspectiva espírita, a questão também possui dimensão moral. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, associa a justiça ao respeito aos direitos de cada um e reconhece, na questão 793, a importância do progresso moral na avaliação da civilização. Não basta uma sociedade exibir avanços materiais se tolera desperdícios, privilégios, corrupção ou a transferência irresponsável dos encargos presentes para os cidadãos de amanhã (KARDEC, 2013).

Isso não significa defender austeridade cega, abandonar os vulneráveis ou reduzir o Estado a uma máquina contábil. A responsabilidade fiscal deve caminhar com a justiça social. O dinheiro público precisa financiar políticas eficazes, proteger os mais necessitados e promover oportunidades, sem servir de instrumento para interesses eleitorais ou corporativos.

Nós, espíritas, não devemos jamais  transformar os centros em palanques, tampouco permanecer indiferentes à realidade nacional. A neutralidade partidária não significa neutralidade ética. Podemos acompanhar os indicadores oficiais, cobrar prestação de contas, rejeitar a corrupção, avaliar propostas com espírito crítico e escolher representantes comprometidos com a probidade e a sustentabilidade das finanças públicas.

O futuro governante precisará compreender que administrar a dívida é também administrar esperanças, sacrifícios e possibilidades humanas. A verdadeira grandeza de uma nação não se mede apenas pelo volume de sua economia, mas pela honestidade de suas instituições e pela dignidade oferecida ao povo.

Nessas eleições, sejamos conscientes e que os princípios kardecianos nos inspirem a exigir responsabilidade sem ódio, justiça sem fanatismo e solidariedade sem conivência. O patrimônio público pertence à coletividade; comprometê-lo irresponsavelmente significa comprometer parte do futuro de todos nós.


Referências  Bibliográficas:

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas fiscais: agosto de 2026. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasfiscais. Acesso em: 13 out. 2026.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

Violência: o desafio moral da humanidade




A educação dos sentimentos, à luz do Evangelho e do Espiritismo, é indispensável à construção de uma sociedade mais pacífica.

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A violência, em suas múltiplas manifestações, representa uma das mais graves contradições da civilização contemporânea. Embora tenhamos alcançado extraordinários avanços científicos e tecnológicos, permanecemos vulneráveis ao egoísmo, ao orgulho, à intolerância e à agressividade.

As guerras, os feminicídios, a violência doméstica, o bullying, os discursos de ódio e as agressões disseminadas pelas redes sociais evidenciam que o progresso material não assegura, por si só, o aprimoramento moral.

A exposição contínua à brutalidade, frequentemente explorada pelos meios de comunicação e pelas plataformas digitais, pode banalizar o sofrimento e estimular comportamentos agressivos. Contudo, seria simplista atribuir à mídia a responsabilidade exclusiva por esse fenômeno.

A violência também se alimenta da ausência de empatia, da incapacidade de administrar frustrações e da dificuldade de reconhecer no próximo alguém que merece respeito. Condenamos a agressividade alheia, mas nem sempre percebemos nossas próprias manifestações de intolerância, sobretudo nas relações familiares, profissionais e sociais.

Há dois milênios, Jesus apresentou um roteiro moral capaz de transformar profundamente as relações humanas: amar o próximo, perdoar, agir com misericórdia e retribuir o mal com o bem. Essa proposta permanece atual, embora frequentemente contrariada pelos interesses pessoais e pelas disputas de poder.

A paz coletiva não se consolida apenas mediante leis e mecanismos de segurança; exige também educação ética, responsabilidade individual e compromisso com a dignidade humana.

O Espiritismo, ao examinar a imortalidade da alma, a reencarnação e a lei de causa e efeito, oferece uma perspectiva racional sobre a responsabilidade moral. No Livro dos Espíritos, Allan Kardec relaciona o progresso intelectual ao progresso moral, reconhecendo que o desenvolvimento da inteligência nem sempre é acompanhado pela transformação dos sentimentos. A violência não deve, entretanto, ser interpretada como destino inexorável ou atribuída automaticamente a supostos débitos de existências anteriores. Cada pessoa responde por suas escolhas presentes, sem prejuízo das influências sociais, psicológicas e culturais que precisam ser compreendidas e enfrentadas.

A fé raciocinada convida-nos à autocrítica, à reforma moral e à prática efetiva da fraternidade. Isso significa cultivar a compaixão, controlar os impulsos, respeitar as diferenças, rejeitar a vingança e não confundir mansidão com omissão diante das injustiças. A prevenção da violência requer também políticas públicas responsáveis, proteção às vítimas, educação para a convivência e aplicação justa das leis.

A oração e a meditação, quando associadas ao exame sincero da própria consciência, podem favorecer o autoconhecimento e o equilíbrio emocional. Entretanto, a espiritualidade somente demonstra sua fecundidade quando se converte em atitudes concretas de solidariedade e respeito.

Paulo de Tarso expressou essa transformação interior ao afirmar: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Inspirados nesse ideal, precisamos compreender que a pacificação do mundo começa também pela revisão de nossas atitudes cotidianas.

Todos desencarnaremos um dia, mas a maneira como atravessamos a existência terrena depende, em grande medida, de nossas escolhas. O Espiritismo não promete transformação automática: convoca-nos ao esforço consciente de melhorar.

A violência será efetivamente combatida quando a inteligência se aliar à consciência, o conhecimento à compaixão e a liberdade à responsabilidade. Afinal, a construção da paz começa dentro de nós, mas não termina em nós.

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Gálatas 2:20.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, edição consultada.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, edição consultada.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World report on violence and health. Geneva: World Health Organization, 2002.

 

 

11 outubro 2026

O discurso socialista massifica o cidadão para criar dependência, não emancipação; é o autêntico ópio do povo



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

O socialismo coletivista ignora a lei do progresso espiritual: a transformação da sociedade começa pela transformação moral de cada consciência cidadã.

Há uma ilusão ideológica que atravessa gerações e continua exercendo influência no Brasil: a pretensão de transformar o povo de fora para dentro, submetendo o cidadão aos desígnios da coletividade, como se decretos, redistribuições econômicas e engenharia social fossem capazes de produzir virtudes por imposição política.

Essa concepção, quando fundada na revolução socialista materialista, colide frontalmente com os fundamentos do Espiritismo. Não porque a Doutrina Espírita seja indiferente à pobreza ou às injustiças sociais, mas porque compreende o ser humano como Espírito imortal, responsável por sua evolução e pelos próprios atos.

Em Socialismo e Espiritismo, Léon Denis oferece uma reflexão contundente. No capítulo VII, declara sua posição com clareza: “Sou evolucionista e não revolucionário”. O pensador francês contesta o socialismo materialista, cuja lógica de antagonismos coletivos e luta de classes tende a subordinar a consciência individual a projetos ideológicos, relegando a dimensão espiritual da existência. Isso não significa rejeitar toda e qualquer preocupação democrática com a justiça social, mas advertir que nenhuma reforma social será verdadeiramente emancipadora se prescindir de um sólido fundamento moral e espiritual, pois a transformação duradoura da sociedade começa pela renovação ética do próprio indivíduo.

É precisamente aí que reside o problema. Uma ideologia que reduz o homem às condições econômicas, atribui os males humanos prioritariamente às estruturas sociais e promete regenerar a sociedade pela reorganização coletiva incorre em grave equívoco antropológico. Pode modificar instituições, mas não consegue decretar a honestidade; pode redistribuir riquezas, mas não fabricar generosidade; pode impor comportamentos, mas não produzir consciência moral.

A história demonstra que projetos políticos proclamados em nome da igualdade também podem gerar autoritarismo, privilégios burocráticos e novas formas de opressão. Quando o Estado pretende decidir o destino de todos, o indivíduo corre o risco de converter-se em instrumento de uma abstração ideológica chamada povo, classe ou massa.

O Espiritismo oferece outra perspectiva. No Livro dos Espíritos, questão 919, Kardec destaca o autoconhecimento como caminho fundamental para o aperfeiçoamento moral. Léon Denis, por sua vez, sustenta, em O problema do ser, do destino e da dor, a importância da educação da consciência e do esforço individual na marcha evolutiva.

Não existe progresso espiritual por procuração. Ninguém pode realizar a reforma íntima em nosso lugar. A sociedade melhora quando seus integrantes se tornam mais justos, honestos, responsáveis e solidários. Instituições melhores são necessárias, mas sua estabilidade depende também da qualidade moral daqueles que as dirigem e daqueles que delas participam.

O Brasil não se recuperará pela exaltação das massas contra a autonomia do indivíduo, nem pela demonização de quem produz, empreende, trabalha ou pensa diferentemente (capitalista). Tampouco encontrará solução no individualismo egoísta. A alternativa espírita não é a indiferença social: é a solidariedade consciente, associada à liberdade, à responsabilidade e ao mérito moral.

A verdadeira igualdade não consiste em uniformizar consciências, mas em reconhecer a dignidade de todos, sem abolir a responsabilidade pessoal.

Não confundamos justiça social com nivelamento compulsório, fraternidade com submissão ideológica, nem caridade com dependência política. Amparar os necessitados é um imperativo moral; converter cidadãos em massa tutelada pelo Estado, entretanto, não é emancipá-los, mas restringir-lhes a autonomia, obscurecer-lhes a consciência crítica e perpetuar a dependência que se deveria combater.

O discurso socialista materialista promete transformar o mundo pela força das estruturas. O Espiritismo recorda que a renovação duradoura exige a transformação do ser humano. Sem reforma moral, as estruturas reproduzem os vícios de quem as controla.

Não é a massa que reforma a consciência do indivíduo por decreto. São indivíduos moralmente renovados que podem construir uma sociedade mais justa. Essa é a diferença entre a engenharia ideológica dos homens e o progresso espiritual que a lei divina nos convida a realizar.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. Tradução de Wallace Leal V. Rodrigues. Matão, SP: O Clarim, 1982.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 1999