26 maio 2026

A idolatria mediúnica e o abandono da essência espírita



Jorge Hessen

Brasília DF

A mediunidade, no contexto da Doutrina Espírita, jamais deve ser compreendida como finalidade em si mesma. O fenômeno mediúnico constitui elemento acessório, instrumento educativo e não o eixo central do Espiritismo. A preocupação excessiva com manifestações ostensivas tem conduzido muitos agrupamentos espíritas a lamentáveis distorções doutrinárias, substituindo o estudo sério, a transformação moral e o Evangelho pela curiosidade fenomênica e pela ansiedade do intercâmbio espiritual.

O Espírito Emmanuel advertiu com lucidez: “São muito poucas as casas espíritas que se podem entregar ao exercício da mediunidadeOs dirigentes vigilantes devem intensificar reuniões de estudos teóricos, meditação e debates racionais para entendimentos seguros, fugindo de um prematuro intercâmbio com as forças advindas do além-túmulo” (XAVIER, 2000). Tal orientação revela que a mediunidade sem preparo moral e doutrinário converte-se facilmente em campo de mistificações, personalismos e desequilíbrios emocionais.

Urge, portanto, distinguir fenômeno mediúnico de Espiritismo. O fenômeno pertence ao campo das manifestações; o Espiritismo, por sua vez, representa a estrutura filosófica, moral e científica que explica tais ocorrências. Confundir ambas as coisas é abrir espaço para fantasias, superstições e misticismos incompatíveis com a proposta kardequiana. Por isso, o estudo sistemático do Livro dos Médiuns permanece indispensável à educação mediúnica equilibrada.

A palavra “médium”, oriunda do latim medium, significa intermediário. Segundo Allan Kardec, médium é toda pessoa apta a servir de intermediária entre os Espíritos e os homens. Entretanto, constitui grave erro afirmar que todos possuem mediunidade ostensiva. Nem todos podem produzir psicofonia, psicografia ou efeitos físicos. Kardec questionou aos Espíritos se o desenvolvimento mediúnico guardaria relação com a evolução moral do médium, obtendo esclarecimento decisivo: “A faculdade propriamente dita prende-se ao organismo; independe do moral” (KARDEC, 1997, item 226). O uso da faculdade, contudo, poderá ser elevado ou pernicioso conforme as qualidades íntimas do medianeiro.

Assim, a mediunidade ostensiva apresenta natureza orgânica e independe da crença religiosa, do intelecto ou da moralidade do indivíduo. Seu desenvolvimento vincula-se à maior ou menor expansibilidade do perispírito e à afinidade fluídica entre encarnado e desencarnado. Não existe técnica milagrosa capaz de produzir mediunidade autêntica. Qualquer tentativa de forçar o surgimento da faculdade representa imprudência grave.

Emmanuel esclarece: “Ninguém deverá forçar o desenvolvimento dessa ou daquela faculdade, porque, nesse terreno, toda espontaneidade é necessária” (XAVIER, 2000, questão 384). Apesar disso, muitos centros espíritas ainda encaminham pessoas emocionalmente fragilizadas ou portadoras de enfermidades psíquicas diretamente às chamadas “reuniões de desenvolvimento mediúnico”, como se todo sofrimento fosse sinal inequívoco de mediunidade reprimida. Tal prática revela desconhecimento doutrinário e pode agravar quadros psicológicos delicados.

A educação mediúnica não significa fabricar médiuns. Seu objetivo é orientar faculdades espontaneamente afloradas, promovendo disciplina mental, estudo contínuo e vivência evangélica. Emmanuel reforça que “o exercício da mediunidade nas tarefas espíritas exige larga disciplina mental, moral e física” (XAVIER, Encontro Marcado).

Sem estudo sério da Doutrina Espírita e sem o Evangelho de Jesus como fundamento moral, a mediunidade converte-se em instrumento perigoso de vaidade, orgulho e fascinação. O médium invigilante facilmente se torna presa de ilusões e mistificações espirituais. Kardec advertiu severamente: “Aquele que vê claro e tropeça é mais censurável do que o cego que cai no fosso” (KARDEC, 1997, item 226).

O verdadeiro espírita deve compreender que a grande finalidade da mediunidade não é o espetáculo fenomênico, mas o aprimoramento moral da criatura humana. Fora disso, teremos apenas manifestações vazias, destituídas de elevação espiritual e frequentemente dominadas pelo personalismo e pela obsessão.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 1997.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

XAVIER, Francisco Cândido. Encontro Marcado. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

 

Desonestos mercadores do invisível ante a deterioração da razão



Jorge Hessen

Brasília -DF

A expansão das redes sociais e das plataformas digitais revelou uma face perturbadora de algumas “pessoas” : a comercialização vulgar da fé, da dor humana e da esperança alheia.

Multiplicam-se pela internet “pessoas”que se apresentam como “bruxos”, “mestres espirituais”, “magos poderosos” ou “intermediários exclusivos” de entidades invisíveis, oferecendo soluções para casamentos fracassados, dificuldades financeiras, disputas amorosas, desemprego e toda sorte de aflições transitórias e necessárias da existência humana.

Transformaram o sofrimento humano em hediondo mercado. Vendem “trabalhos espirituais” como quem anuncia eletrodomésticos ou cosméticos. Cobram criminosamente  por “amarrações”, “desbloqueios energéticos”, “quebras de maldição” e “abertura de caminhos”, explorando emocionalmente criaturas fragilizadas pela dor, pelo medo e pela ignorância espiritual.

Se não víssemos tais práticas estampadas diariamente nas redes digitais, pareceriam episódios grotescos de um passado medieval obscurantista. Entretanto, elas prosperam em pleno século XXI, em meio a uma civilização tecnologicamente sofisticada, mas moralmente analfabética e enferma. A inteligência técnica avançou; o discernimento espiritual, porém, permanece atrófico em vastos setores da sociedade.

O mais inquietante não é apenas a existência dos vendedores de ilusão do invisível, mas a multidão que lhes entrega confiança, dinheiro e autonomia mental. Isso demonstra que o progresso intelectual, desacompanhado de elevação moral, pode coexistir com níveis alarmantes de irracionalidade coletiva.

Allan Kardec advertia que “o verdadeiro homem de bem é o que pratica a lei de justiça, amor e caridade na sua maior pureza” (KARDEC, 2003, p. 341). Não há justeza moral e nem honestidade  em explorar a angústia humana mediante promessas espirituais mercantilizadas.

O Espiritismo jamais legitimou comércio mediúnico ou exploração da credulidade popular. Pelo contrário, condenou energicamente tais desvios. Em “O Livro dos Médiuns”, Kardec assevera que “a mediunidade séria não pode ser e jamais será uma profissão” (KARDEC, 2004, p. 389). A faculdade mediúnica, quando autêntica, constitui instrumento de serviço, esclarecimento e consolação, nunca mecanismo de remuneração pessoal ou espetáculo sensacionalista.

O fenômeno contemporâneo revela também a permanência do velho fetichismo psicológico da humanidade. Muitos desejam soluções mágicas para problemas que exigem renovação íntima, disciplina, responsabilidade e amadurecimento espiritual. Preferem terceirizar a consciência para enfrentar o indispensável trabalho de transformação moral.

Emmanuel advertia que “sem reforma íntima não há caminho seguro para a libertação espiritual” (XAVIER, 2002, p. 97). Nenhum ritual comprado substituirá o esforço pessoal, a honestidade, o trabalho digno e a mudança de comportamento. Não existem atalhos místicos para as leis divinas.

A internet apenas potencializou o que sempre existiu: o comércio da superstição. Todavia, sua escala atual impressiona pela naturalidade com que o absurdo é aceito e a estrutura policial nada faz contra a vigarice virtual. Vivemos uma época em que muitos possuem acesso instantâneo à informação, mas continuam incapazes de distinguir espiritualidade do charlatanismo.

A crise contemporânea não é falta de tecnologia; é ausência de honradez e discernimento moral. Enquanto multidões continuarem buscando milagres fáceis, salvadores ocultos e soluções mágicas para desafios existenciais, os mercadores do invisível continuarão criminosamente prosperando sobre a fragilidade humana.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 2002.

 

25 maio 2026

A reencarnação e o fascínio pelas inumadas “glórias” pretéritas

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

Sabemos de alguns confrades convencidos de terem sido reis, generais, sacerdotes famosos, artistas célebres ou figuras de destaque na História. Em um peculiar desfile de coroas imaginárias, espadas simbólicas e títulos honoríficos, sempre alimentados pela vaidade espiritual.

Tal comportamento revela grave incompreensão da finalidade educativa da reencarnação. A Doutrina Espírita jamais estimulou a curiosidade fútil acerca de vidas passadas, mas sim o aproveitamento consciente da existência atual para a transformação moral do Espírito. O problema não está propriamente na possibilidade de alguém ter ocupado posição relevante em outra encarnação, mas no uso psicológico e moral que se faz dessa hipótese.

Muitos desses confrades perdem precioso tempo em comparações estéreis, buscando sinais externos que confirmem antigas grandezas. Investigam traços físicos, afinidades culturais, simpatias históricas ou vagas impressões emocionais, tentando encaixar-se em personagens famosos. Enquanto isso, negligenciam a questão essencial: quem são hoje perante a consciência, perante a vida e perante Deus?

O Espiritismo ensina que o esquecimento temporário do passado constitui bênção providencial. Allan Kardec esclarece que o véu lançado sobre as existências anteriores protege o Espírito contra o orgulho, o remorso excessivo e os desequilíbrios emocionais (KARDEC, 2019). Quando a espiritualidade superior permite que certas recordações aflorem, isso ocorre em circunstâncias excepcionais e com finalidade reeducativa, jamais para alimentar fantasias narcisistas.

Há, inclusive, um aspecto frequentemente ignorado por esses entusiastas das sepultadas glórias antigas: se determinados Espíritos outrora prestigiosos retornaram anonimamente à Terra, é porque fracassaram moralmente diante das responsabilidades recebidas. Muitas figuras célebres caíram justamente pelo orgulho, pela ambição desmedida, pela sede de poder ou pelo abuso das oportunidades que a Providência lhes concedera.

Nessa perspectiva, eventual confirmação de identidade histórica não constitui medalha espiritual, mas advertência grave da consciência. Trata-se de convocação à reparação urgente. O Espírito verdadeiramente lúcido não se envaidece pelo que foi; preocupa-se profundamente com aquilo que ainda não conseguiu ser.

O Codificador advertia que “o verdadeiro espírita reconhece-se pela transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (KARDEC, 2018, p. 350). A frase desmonta inúmeras fantasias espiritualistas contemporâneas. Não importa ter sido príncipe, guerreiro ou sacerdote em séculos remotos; importa vencer hoje o egoísmo, a intolerância, a vaidade e a indiferença moral.

Também Emmanuel frequentemente destacou, por intermédio de Chico Xavier, que posições elevadas no mundo costumam representar provas muito mais perigosas do que privilégios espirituais. Nas altas esferas sociais enxameiam tentações difíceis: corrupção moral, fascinação do poder, culto da personalidade, vaidade intelectual, traições, abusos e graves responsabilidades perante multidões.

Isso não significa desprezo pela arte, pela cultura, pela liderança ou pelas atividades humanas de relevo social. A civilização necessita de educadores, artistas, cientistas, administradores e governantes. Todos são aprendizes da vida. Contudo, a grandeza legítima nunca se mede pelo brilho exterior das posições ocupadas, mas pela capacidade de servir com humildade e consciência reta.

Infelizmente, parte do movimento espírita contemporâneo vem sendo contaminada por uma espécie de aristocracia invisível das existências passadas. Alguns parecem desejar distinção espiritual por antigos nomes que supostamente carregaram, quando deveriam buscar autenticidade moral no presente. A vaidade muda apenas de roupa: antes ostentava títulos terrenos; agora exibe pretensas genealogias espirituais.

A verdadeira evolução não necessita de anúncios históricos. Espíritos superiores raramente falam de si mesmos. Quanto mais elevados, mais discretos. A luz genuína não grita. Irradia.

Enquanto muitos procuram saber “quem foram”, esquecem-se da pergunta decisiva: “quem estão se tornando?”. Eis o ponto central. O passado pode até oferecer lições; entretanto, a reencarnação não foi concedida para alimentar nostalgias de grandeza, mas para construir consciência, humildade e renovação interior.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 132. ed. Brasília: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Religião dos Espíritos. Brasília: FEB, 2016.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB, 2017.

A verdadeira resistência espírita cristã não é feita de gritos nem de desordem

 



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Há momentos da história em que a sociedade experimenta uma sensação coletiva de inquietação moral. Instituições que deveriam inspirar confiança passam a ser vistas com desconfiança; decisões públicas despertam perplexidade; cidadãos sentem receio de expressar opiniões; e o debate democrático, em vez de promover entendimento, converte-se frequentemente em hostilidade, patrulhamento ideológico e intolerância.

Muitos brasileiros têm relatado um sentimento de medo diante do ambiente político e jurídico atual. Seria ingenuidade ignorar essa percepção social. Em diversos setores da população existe a impressão de que a liberdade de pensamento encontra-se pressionada, que determinadas vozes são silenciadas e que o contraditório vem sendo enfraquecido.

Há quem utilize expressões como “mordaça” ou “tirania” para descrever esse cenário. Ainda que tais termos carreguem forte carga emocional, revelam uma angústia legítima que não pode ser simplesmente ridicularizada ou descartada.

Sob a ótica espírita, entretanto, toda análise da realidade deve ser acompanhada de discernimento, equilíbrio e responsabilidade moral. A denúncia ética não deve degenerar em ódio. A crítica às instituições é importante, sem converter em incentivo ao caos. A indignação diante dos abusos não propõe a desumanização daqueles que pensam diferente.

O Espiritismo ensina que as instituições humanas refletem o nível moral médio da sociedade que as constitui. Quando há deterioração ética nos poderes públicos, nos meios de comunicação, nas lideranças religiosas ou na própria convivência social, isso revela antes de tudo uma enfermidade espiritual coletiva. Não existem estruturas perfeitas administradas por Espíritos imperfeitos. A crise das instituições é, em grande parte, a crise moral do próprio homem.

Allan Kardec advertia que o verdadeiro progresso não é apenas intelectual ou tecnológico, mas sobretudo moral. Uma sociedade pode possuir tribunais sofisticados, parlamentos modernos e enorme aparato jurídico, mas ainda assim adoecer espiritualmente se faltar justiça equilibrada, respeito às liberdades fundamentais e compromisso sincero com a verdade.

É importante compreender também que o medo social constitui poderoso instrumento de degradação coletiva. Povos amedrontados tornam-se emocionalmente vulneráveis. O medo paralisa consciências, empobrece o diálogo e cria ambientes onde muitos passam a preferir o silêncio à livre manifestação de pensamento. O Espírito cristão, porém, não se orienta pelo medo, mas pela consciência reta.

Isso não significa estimular rebeldia irresponsável nem fomentar rupturas institucionais. O caminho espírita jamais será o da violência moral ou material. Jesus não convocou multidões para destruir Roma, embora vivesse sob um sistema frequentemente injusto. Ele transformou consciências. Seu método foi a verdade sem ódio, a firmeza sem brutalidade, a coragem sem fanatismo.

O copo está cheio. Qual será a gota d'água? Precisamos sim defender princípios de liberdade sem perder a serenidade. É possível denunciar abusos sem cair em extremismos. É urgente apontar desequilíbrios sem transformar perseguidores em inimigos absolutos. Pois é possível lutar pela liberdade sem promover maior convulsão social.

Quando a sociedade adoece de polarização ideológica, muitos passam a enxergar apenas dois grupos: “os totalmente bons” e “os totalmente maus”. Essa simplificação emocional é perigosa. O pensamento espírita rejeita idolatrias políticas e também demonizações coletivas. Nenhuma instituição humana está imune a erros, excessos ou desvios; contudo, nenhuma regeneração social nascerá da destruição do respeito mútuo.

Vivemos tempos em que muitos cidadãos sentem receio de falar, escrever ou opinar. Essa sensação precisa ser debatida com maturidade democrática e lucidez espiritual. A liberdade responsável de consciência e expressão é patrimônio essencial da civilização. Quando pessoas passam a esconder convicções por temor de perseguições sociais, profissionais ou jurídicas, isso merece com certeza profunda reflexão nacional.

Mas o espírita sincero não se entrega ao desespero histórico. A História humana sempre atravessou ciclos de sombra e renovação. Crises institucionais passam; ditadores e ditaduras desaparecem; sistemas políticos se transformam; contudo, a lei divina permanece conduzindo a humanidade, lentamente, ao progresso moral.

Cabe-nos, portanto, agir com consciência elevada, sem fanatismo ,  sem submissão cega,  sem culto a salvadores da pátria,  sem ódio político, sem covardia moral. A verdadeira resistência espírita cristã não é feita de gritos histéricos nem de violência verbal incessante. Ela nasce da fidelidade à verdade, da coragem pacífica, da honestidade intelectual e da recusa em aderir à mentira, venha ela de onde vier.

Mais do que nunca, o Brasil necessita de cidadãos espiritualmente amadurecidos, capazes de discordar sem destruir, denunciar sem odiar e defender a liberdade sem abandonar a fraternidade. Porque toda vez que o homem perde a capacidade de dialogar com respeito, a sociedade inteira começa a adoecer moralmente e a convulsão social se instala de vez.

23 maio 2026

A intolerância político-ideológico e a falência do afeto humano


Jorge Hessen

Brasília-DF

 

Vivemos tempos de exaustão moral. A política, a economia instável e a crescente polarização ideológica têm produzido no Brasil um fenômeno perturbador: o enfraquecimento dos vínculos humanos mais elementares. Pais , filhos, irmãos ,tios , primos etc. deixam de conversar. “Amigos” espiritas de décadas se afastam “fraternalmente” de forma irracional. E, lamentavelmente, no movimento espírita surgem divisões absurdas por preferências político-ideológicas.

É espantoso observar criaturas que frequentam tribunas espíritas, estudam o Evangelho e discursam sobre fraternidade, mas não conseguem tolerar alguém que pense diferente no campo político. Alguns passaram a acreditar que o “progressista” é moralmente inferior ou que o “conservador” é intelectualmente desprezível. Outros agem como se determinada ideologia fosse certificado de virtude espiritual. Tudo isso representa um lamentável estado irracional  de primarismo emocional.

A divergência de ideias sempre existirá. Ela faz parte da experiência humana. O problema não está em pensar diferente. O problema está em transformar divergência em ódio, opinião em idolatria e política em religião.

Há pessoas que já não analisam fatos, mas veneram narrativas. Não dialogam: atacam. Não refletem: reagem. Tornaram-se militantes de estimação de líderes (salvadores da pátria) humanos imperfeitos, como se fossem messias infalíveis. Isso é profundamente perigoso para a saúde mental e espiritual.

O Espírito imortal não pode reduzir sua existência eterna às paixões transitórias de um partido político. Amanhã os governos mudam, os sistemas econômicos se alteram, os discursos envelhecem, mas as consequências morais da intolerância permanecerão gravadas na consciência.

No campo espírita, a situação torna-se ainda mais grave. O Espiritismo não nasceu para fabricar facções ideológicas. Allan Kardec jamais propôs uma doutrina sectária, partidária ou intolerante. Pelo contrário, ensinou que “fora da caridade não há salvação” e não “fora da minha ideologia não há salvação”.

É profundamente incoerente alguém afirmar-se cristão e ao mesmo tempo cultivar desprezo sistemático por quem pensa diferente. Jesus conviveu com publicanos, pescadores, doutores da lei, zelotes e romanos sem estimular guerras ideológicas entre eles. O Cristo jamais ensinou a destruição afetiva em nome de opiniões políticas.

Muitos alegam estar “defendendo a verdade”. Entretanto, frequentemente defendem apenas o próprio ego inflamado. A vaidade ideológica produz cegueira moral. O fanático político perde a capacidade de ouvir, ponderar e respeitar. E quando o respeito desaparece, a barbárie emocional começa.

Precisamos reaprender algo básico: amizade não exige uniformidade mental. Amor não depende de alinhamento ideológico. Fraternidade não significa concordância absoluta.

Uma sociedade madura é aquela que consegue conviver civilizadamente com opiniões divergentes. O contrário disso é regressão psicológica coletiva.

No ambiente espírita, especialmente, urge restaurar o equilíbrio e o bom senso. O centro espírita não pode transformar-se em trincheira política, palco de militância ou laboratório de hostilidade ideológica. Nossa tarefa essencial continua sendo a transformação moral do ser humano.

Quem pensa diferente de nós não se transforma automaticamente em inimigo. Pode apenas estar enxergando a realidade por outro ângulo, com outras experiências e outras referências culturais. Demonizar pessoas por suas convicções políticas revela mais sobre nossa imaturidade do que sobre os erros alheios.

A Humanidade já sofreu demais por causa dos fanatismos religiosos, raciais e ideológicos. Não acrescentemos mais um capítulo de intolerância à história humana.

O Brasil necessita urgentemente de menos ódio e mais lucidez. Menos idolatria política e mais equilíbrio emocional. Menos radicalismo e mais humanidade.

Porque, no final das contas, nenhuma ideologia valerá o preço da destruição dos afetos.

 


 

O culto à personalidade e a vã procura de Emmanuel “reencarnado”, até quando, Senhor?



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É com certa perplexidade que observamos certos segmentos do movimento espírita “tupiniquim” do Brasil envolvidos numa espécie de “caça mística” para descobrir onde estaria reencarnado o Espírito Emmanuel. Daí, surgem especulações pueris, suposições fantasiosas e verdadeiras campanhas de exaltação em torno de “ungidos” e/ou confrades apontados e, sem qualquer critério sério, como sendo o antigo mentor espiritual de Francisco Cândido Xavier.

É um fenômeno lamentável. Em vez de estudo sério, vemos adivinhação. Em vez de reflexão doutrinária constatamos  idolatria e o pior, em vez de Evangelho, percebemos o abominável personalismo.

O mais grave é perceber que, tão logo alguém é cogitado como “suposta reencarnação de Emmanuel”, inicia-se um processo de “endeusamento”. Muitos passam a tratar tal pessoa como missionária excepcional, portadora de autoridade espiritual automática, quase um “oráculo vivo”. Esquecem-se de que o Espiritismo jamais autorizou culto a médiuns, líderes religiosos ou Espíritos comunicantes.

Allan Kardec advertiu inúmeras vezes contra os perigos da fascinação e do misticismo. Em O Livro dos Médiuns, mostrou que o verdadeiro espírita deve submeter tudo ao crivo da razão e do bom senso. O Espiritismo nasceu para libertar consciências, não para fabricar ídolos religiosos ou de qualquer espécie.

A Doutrina Espírita não foi edificada sobre nomes, celebridades espirituais ou mitologias personalistas. Seu fundamento repousa nas leis morais universais, na transformação moral e no aperfeiçoamento do ser. Quando o movimento espírita troca o estudo sério pela veneração de indivíduos, aproxima-se perigosamente das práticas sectárias que o próprio Espiritismo combateu desde o século XIX.

É impressionante como muitos ignoram a própria lógica reencarnatória. Se Emmanuel tivesse retornado à Terra — hipótese sobre a qual não há confirmação confiável —, seria razoável imaginar que desejasse anonimato, trabalho humilde e discrição. Espíritos verdadeiramente superiores fogem da glorificação humana. Jamais estimulam fanatismos em torno de si.

Essa obsessão em descobrir “quem foi quem” revela imaturidade espiritual. Há pessoas mais preocupadas em rastrear antigas identidades espirituais do que em corrigir as próprias imperfeições morais. Querem saber onde está Emmanuel, mas não sabem onde está o Evangelho dentro de si mesmos.

O movimento espírita brasileiro, infelizmente, ainda carrega fortes traços messiânicos e emocionalistas. Muitos preferem a fantasia consoladora ao estudo metódico da Codificação. Criam “mitologias espíritas”, alimentam rumores e transformam conjecturas em dogmas emocionais. Isso enfraquece a credibilidade doutrinária e produz um ambiente propício ao misticismo leviano.

O Espiritismo sério não necessita dessas novelas espirituais. A Doutrina já possui um patrimônio filosófico e moral imenso, construído sobre racionalidade, universalidade e responsabilidade ética. Léon Denis ensinava que o Espiritismo deve iluminar consciências e não estimular superstições emocionais.

É preciso dizer claramente: ninguém se torna autoridade moral porque supostamente teria sido Emmanuel, André Luiz ou qualquer outro Espírito conhecido. O valor espiritual de alguém se mede pelas virtudes demonstradas, não pelas narrativas fantasiosas construídas em torno de seu passado espiritual.

Enquanto parte do movimento espírita continuar vivendo de celebridades mediúnicas, disputas de vaidade e culto à personalidade, permanecerá distante do espírito crítico e libertador da Codificação.

Até quando?

Até quando o Espiritismo brasileiro trocará o estudo pela idolatria?

Até quando alguns transformarão médiuns e Espíritos em figuras de veneração quase religiosa?

Até quando a emoção desgovernada sufocará a razão kardeciana?

O verdadeiro espírita não procura “reencarnações de ídolos dos além”. Procura transformar a si mesmo.

 

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2023.

O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2022.

Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

 

22 maio 2026

Maria de Magdala: a “ressurreição” do espírito

 



Jorge Hessen

Brasília -DF


A trajetória de Maria de Magdala permanece como uma das mais comoventes narrativas do cristianismo. Mais do que personagem histórica, ela simboliza a capacidade humana de renovação moral diante do amor de Jesus. Entre a opulência de Magdala e o serviço aos hansenianos”, sua vida representa a vitória do espírito sobre as ilusões transitórias da matéria.

Natural de Magdala, antiga cidade situada às margens do Mar da Galileia, Maria tornou-se conhecida pela fortuna, beleza e influência social. A tradição cristã, ao longo dos séculos, associou sua imagem à de uma mulher “pecadora”. Entretanto, muitos estudiosos observam que os Evangelhos não afirmam explicitamente que ela fosse prostituta. O que se sabe com segurança é que sofria intensamente e que foi profundamente transformada pelo encontro com Jesus.

Segundo o Evangelho de Lucas, Maria aproximou-se do Mestre durante um banquete na casa de Simão. Em gesto de extrema humildade, ungiu-lhe os pés com perfume, regando-os com lágrimas e enxugando-os com os cabelos. Diante da indignação dos presentes, Jesus proclamou: “Os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou” (Lc 7:47).

Para Allan Kardec, o verdadeiro milagre do Evangelho não reside apenas nos fenômenos físicos, mas na transformação moral do ser humano. No Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec ensina que “fora da caridade não há salvação”, princípio perfeitamente exemplificado pela mudança interior de Madalena.

Léon Denis recorda que o sofrimento pode converter-se em instrumento de ascensão espiritual quando aceito como oportunidade de renovação. Maria Madalena transformou a dor íntima em dedicação ao próximo, tornando-se exemplo de amor redentor.

A tradição espiritualista relata que, após a crucificação, Madalena permaneceu ao pé da cruz ao lado de Maria de Nazaré e de João Evangelista, demonstrando fidelidade incomum num momento em que muitos discípulos haviam fugido. Mais tarde, foi ela a primeira a encontrar o Cristo “ressuscitado” junto ao sepulcro vazio. O Evangelho de João descreve o instante sublime em que Jesus a chama pelo nome: “Maria!”. Ao reconhecê-lo, exclama emocionada: “Raboni!” (Jo 20:16).

Comentando essa passagem, Chico Xavier, pela psicografia de Emmanuel, afirma que ninguém realizou “tanta violência contra si mesmo” para seguir Jesus quanto Madalena. Emmanuel destaca que o Cristo apareceu primeiro a ela porque sua transformação moral representava uma das mais belas vitórias do amor divino.

Também André Luiz ensina que a verdadeira renovação ocorre nas profundezas da consciência, quando o espírito abandona as paixões inferiores e desperta para o serviço ao bem. Maria de Magdala personifica essa “ressurreição da alma”.

Na visão humanista de Bezerra de Menezes, Jesus jamais marginalizou os caídos; ao contrário, ofereceu-lhes novas possibilidades de reerguimento. Madalena foi uma dessas almas acolhidas pela misericórdia do Cristo.

Após os acontecimentos da ressurreição, antigas tradições relatam que Maria passou a auxiliar enfermos e leprosos, dedicando os últimos anos de vida ao consolo dos sofredores. Sua existência deixa de representar apenas redenção individual para tornar-se testemunho permanente de benevolência, indulgência , perdão e de amor ao próximo.

Divaldo Pereira Franco frequentemente recorda que Madalena simboliza a esperança para todos aqueles que desejam recomeçar. Nenhuma queda é definitiva quando o espírito decide caminhar em direção à luz.

A chamada “ressurreição” de Madalena foi mais profunda do que a do corpo de Lázaro. Lázaro voltou temporariamente à existência física; Madalena ressurgiu para a vida espiritual autêntica. Sua transformação continua sendo um dos maiores testemunhos da força regeneradora do amor de Jesus.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de Saúde e de Consciência. Salvador: LEAL, 2007.

PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1964.

A dor é nossa amiga e age como cinzel divino para nossa evolução



 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

A humanidade foge da dor desde os tempos mais antigos. Busca-se o prazer, o conforto, a estabilidade e a ausência de dor como se isso representasse a verdadeira felicidade. Entretanto, a experiência humana demonstra exatamente o contrário: são as grandes dores que frequentemente transformam as criaturas, despertam consciências e renovam destinos.

À luz da Doutrina Espírita, a dor não é punição arbitrária de Deus. Ela possui finalidade educativa. Allan Kardec ensina que Deus, sendo soberanamente justo e bom, não cria dores inúteis. Toda aflição possui causa, objetivo e valor moral. Em muitos casos, a dor é o instrumento através do qual o espírito corrige excessos, aprende limites e reconstrói a própria caminhada.

O espírito André Luiz apresenta interessante classificação da dor. Existe a “dor-evolução”, aquela inerente ao crescimento. O ferro suporta o golpe do malho para adquirir utilidade; a semente precisa romper-se na terra para produzir frutos; a criança enfrenta desconfortos físicos e emocionais enquanto desenvolve os próprios órgãos e amadurece a consciência. Em toda a natureza, crescer exige transformação, e transformação quase sempre envolve dor.

Sem desafios, o ser humano permaneceria acomodado. A facilidade excessiva costuma alimentar o egoísmo, a ilusão de poder e a superficialidade espiritual. Quantos somente despertam para valores nobres depois de atravessarem perdas, enfermidades ou crises profundas? Muitas vezes, é no silêncio das lágrimas que a criatura reencontra Deus.

Há também a chamada “dor-expiação”, vinculada aos desequilíbrios criados pelo próprio espírito. Não como castigo eterno, mas como consequência educativa da Lei Divina. Cada ação produz reflexos inevitáveis. O orgulho gera solidão; a violência produz dor; os abusos morais criam prisões íntimas. A reencarnação surge, então, como oportunidade misericordiosa de reajuste e aprendizado.

Entretanto, uma das reflexões mais profundas apresentadas por André Luiz refere-se à “dor-auxílio”. Certas enfermidades longas e dolorosas podem funcionar como proteção espiritual. Muitas criaturas, dominadas por paixões destrutivas, seriam capazes de mergulhar em crimes, abusos e desequilíbrios ainda maiores se não fossem detidas por limitações físicas ou provas dolorosas.

O enfarte, a trombose, o câncer, as limitações neurológicas e até determinadas fragilidades da velhice podem representar, em algumas circunstâncias, mecanismos de misericórdia divina. Enquanto o corpo enfraquece, a alma é convidada à reflexão, à humildade e ao preparo para o retorno à vida espiritual. Aquilo que parece tragédia aos olhos humanos pode constituir socorro providencial perante as leis da eternidade.

Léon Denis afirmava que “a dor é a escola das almas”. Já Emmanuel esclarece que a dor funciona como um cinzel divino lapidando imperfeições do espírito. Não significa exaltar a dor nem buscar deliberadamente. O espiritismo recomenda tratamento médico, amparo psicológico, oração e solidariedade. Toda dor pode e deve ser aliviada sempre que possível. Porém, também precisa ser compreendida em sua dimensão espiritual.

A sociedade moderna transformou o prazer imediato em meta absoluta. Qualquer dor é vista como fracasso. Contudo, a existência terrestre é transitória, enquanto a alma é imortal. Sob essa perspectiva, muitas dores atuais representam investimentos divinos na construção de um ser humano melhor no futuro.

A dor, quando revoltada, pode endurecer o coração. Mas, quando compreendida com maturidade espiritual, converte-se em instrumento de iluminação, despertando compaixão, equilíbrio e sabedoria. Em muitos momentos da vida, aquilo que mais feriu foi exatamente o que mais ensinou.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2017.

XAVIER, Francisco Cândido. Ação e Reação. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2018