23 julho 2026

Sexo, casamento e celibato: Entre o instinto, o amor e a responsabilidade



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Falar de sexo, casamento e celibato é penetrar em um dos campos mais delicados da experiência humana. A sexualidade não se restringe ao corpo nem pode ser reduzida ao simples mecanismo biológico da reprodução. Ela envolve afetividade, desejo, intimidade, vínculos, escolhas, responsabilidades e, para o Espiritismo, repercussões profundas na vida psíquica e espiritual.

A própria Organização Mundial da Saúde compreende a saúde sexual como uma dimensão do bem-estar físico, emocional, mental e social relacionada à sexualidade, destacando a necessidade de relações respeitosas, seguras e livres de coerção, discriminação e violência. O Ministério da Saúde, igualmente, enfatiza informação, prevenção, autonomia, comunicação e responsabilidade nas relações.

Essa visão contemporânea pode dialogar, em muitos aspectos, com a orientação espírita de Emmanuel, para quem o problema sexual não deve ser enfrentado simplesmente pela proibição ou pela repressão, mas pela educação e pela responsabilidade. Em Vida e Sexo, o benfeitor espiritual sintetiza a questão pela necessidade de educação, respeito, controle e responsabilidade, afastando tanto a abstinência imposta quanto a indisciplina dos impulsos. A sexualidade, portanto, não deve ser demonizada nem transformada em objeto de libertinagem. Deve ser educada.

Esse ponto é fundamental. O Espiritismo não propõe uma moral sexual fundada no medo, na culpa ou na condenação do corpo. Propõe, antes, uma ética da responsabilidade. O problema não está na existência do desejo, mas no uso que fazemos dele. O desejo sexual é uma realidade humana; a elevação espiritual consiste em aprender a administrá-lo, integrá-lo à afetividade e submetê-lo aos valores superiores da consciência.

Nesse sentido, não parece suficiente perguntar se determinada conduta sexual é simplesmente "permitida" ou "proibida". A pergunta mais profunda é outra: qual é a qualidade moral da relação que estamos estabelecendo? Há respeito? Há reciprocidade? Há responsabilidade? Existe sinceridade? Há compromisso com as consequências dos próprios atos? O outro é reconhecido como pessoa ou reduzido a instrumento de satisfação?

A sexualidade contemporânea, muitas vezes estimulada por uma cultura de consumo e imediatismo, pode transformar o outro em objeto descartável. A publicidade, a indústria do entretenimento e, mais recentemente, os ambientes digitais e as redes sociais ampliaram a exposição do corpo e a mercantilização da intimidade. Entretanto, seria simplista atribuir exclusivamente à mídia a crise dos relacionamentos. A fragilidade afetiva possui raízes mais profundas: individualismo, narcisismo, dificuldade de renúncia, incapacidade de diálogo e a crescente confusão entre liberdade e ausência de responsabilidade.

A liberdade, no sentido espírita, não significa fazer tudo quanto se deseja. Significa responder conscientemente pelas próprias escolhas. O livre-arbítrio não elimina a lei de causa e efeito. Cada decisão constrói consequências, e a sexualidade não constitui exceção.

Allan Kardec, ao tratar da união dos sexos, esclarece que o estado de natureza corresponde à união livre e fortuita, enquanto o casamento representa um progresso na marcha da humanidade. Para o Codificador, a união estável e responsável constitui elemento importante do desenvolvimento social, embora a indissolubilidade absoluta do casamento seja uma instituição humana e, portanto, sujeita à transformação. A Doutrina Espírita, desse modo, valoriza o casamento sem transformá-lo em mecanismo de aprisionamento.

O casamento, entretanto, não é garantia automática de felicidade. É uma escola. Nele, duas individualidades espirituais são convidadas a aprender convivência, tolerância, fidelidade, renúncia, diálogo e cooperação. O lar pode converter-se em oficina de aperfeiçoamento moral, mas também pode fracassar quando os seus integrantes substituem o amor pela posse, o diálogo pelo autoritarismo e a fidelidade pela vigilância obsessiva.

Por isso, é necessário evitar uma interpretação simplista segundo a qual todos os casamentos seriam necessariamente planejados no mundo espiritual nos mínimos detalhes, ou que toda união difícil representaria obrigatoriamente uma expiação previamente programada. A Codificação reconhece a influência das escolhas, das provas e das expiações na existência humana, mas não autoriza generalizações que transformem toda experiência conjugal em roteiro previamente determinado. O Espiritismo ensina a responsabilidade pessoal e a liberdade, não o fatalismo.

A própria realidade social demonstra que o casamento permanece uma instituição relevante, embora tenha adquirido novas configurações jurídicas e culturais. Segundo o IBGE, em 2024 foram registrados 948.925 casamentos no Brasil, enquanto os registros apontaram 428.301 divórcios. Esses números não autorizam conclusões morais simplistas, mas revelam que casamento e dissolução conjugal continuam sendo fenômenos sociais expressivos e complexos.

Também não se deve confundir casamento com amor, nem sexualidade com amor. O amor pode manifestar-se pela sexualidade, mas não se reduz a ela. A sexualidade pode existir sem amor; o amor, porém, transcende a sexualidade. A afetividade genuína não se mede pela quantidade de contato físico, mas pela capacidade de respeitar, proteger, compreender e favorecer o crescimento do outro.

É precisamente nesse ponto que a sexualidade se relaciona com a espiritualidade. Para André Luiz, conforme a perspectiva apresentada em Evolução em Dois Mundos e No Mundo Maior, a experiência sexual não se limita aos órgãos físicos: envolve a vida mental, as emoções e os campos sutis da individualidade. Essa concepção não deve ser utilizada para alimentar medos, preconceitos ou explicações pseudocientíficas, mas para reforçar a responsabilidade do ser humano diante de seus próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos.

A sexualidade, portanto, não deve ser tratada como algo impuro. O corpo não é inimigo do Espírito. O problema está no abuso, na exploração, na violência, na traição, na irresponsabilidade e na objetificação do outro. O que degrada a experiência sexual não é o fato de ela existir, mas o modo como é vivenciada.

Nesse contexto, o sexo antes do casamento não deveria ser analisado pelo Espiritismo através de uma tabela simplista de "permitido" e "proibido". A Doutrina não estabelece um código penal sexual. O que ela oferece é uma ética da consciência. A questão central está na responsabilidade pelos atos, na honestidade dos sentimentos, no respeito ao parceiro, na prevenção das consequências físicas e emocionais e na disposição de assumir os compromissos decorrentes das próprias escolhas.

A contemporaneidade acrescentou elementos que não podem ser ignorados. Gravidezes não planejadas, infecções sexualmente transmissíveis, violência sexual, coerção, abuso psicológico e exposição indevida da intimidade são realidades concretas. A educação sexual responsável, nesse sentido, não constitui concessão à libertinagem. Ao contrário: informação adequada, prevenção e respeito podem contribuir para escolhas mais conscientes e responsáveis.

Quanto ao celibato, Allan Kardec é igualmente claro. A questão não é simplesmente estar solteiro ou casado. O celibato, por si só, não constitui condição automática de superioridade espiritual. Pode ser meritório quando resulta de uma renúncia consciente em favor do bem, do serviço ao próximo ou de uma missão superior. Porém, quando nasce do egoísmo, do medo, da fuga ou da incapacidade de assumir responsabilidades afetivas, não possui, necessariamente, qualquer valor espiritual especial.

Assim, casamento e celibato não devem ser transformados em instrumentos de julgamento moral. Há pessoas casadas que vivem profundamente solitárias e há pessoas solteiras que realizam extraordinário trabalho de amor. Há uniões conjugais que são verdadeiros santuários de crescimento espiritual e outras que se convertem em espaços de violência e sofrimento. Há celibatários dedicados ao bem coletivo e há aqueles que apenas se refugiam na solidão para não enfrentar suas próprias dificuldades.

O critério espírita, portanto, não é o estado civil. É a qualidade moral da vida.

A grande questão sexual da humanidade não será resolvida pela repressão, assim como não será solucionada pela libertinagem. A repressão pode produzir culpa e hipocrisia; a permissividade sem responsabilidade pode produzir vazio, exploração e sofrimento. O caminho espírita está entre esses dois extremos: nem repressão irracional, nem liberdade irresponsável; nem condenação do corpo, nem escravidão aos impulsos. Educação, equilíbrio, respeito e responsabilidade.

O verdadeiro desafio é transformar a energia do desejo em força de construção. O indivíduo que aprende a amar não deixa de sentir; aprende a governar o que sente. Não elimina o desejo; educa-o. Não despreza o corpo; dignifica-o. Não transforma o sexo em pecado; tampouco o transforma em ídolo.

O amor, finalmente, é muito maior do que o sexo. A sexualidade pode ser uma de suas expressões, mas jamais sua medida definitiva. Amar é reconhecer a liberdade do outro, respeitar sua dignidade, assumir as consequências e compreender que ninguém possui ninguém.

Em última análise, sexo, casamento e celibato são experiências humanas que adquirem valor espiritual conforme o propósito com que são vivenciadas. O casamento pode ser uma escola de amor; o celibato pode ser uma escolha de serviço; a sexualidade pode ser uma expressão legítima de afeto e compromisso. Mas nada disso se sustenta sem consciência.

O Espiritismo nos convida, acima de tudo, à responsabilidade perante nós mesmos e perante os outros. A sexualidade, quando integrada ao amor, à dignidade e ao respeito, deixa de ser simples impulso para tornar-se oportunidade de crescimento. Quando subordinada ao egoísmo, à posse e à exploração, converte-se em fonte de desequilíbrio.

A verdadeira educação sexual, sob a ótica espírita, é também educação da alma. E educar a alma significa aprender, gradualmente, a transformar desejo em afeto, impulso em responsabilidade, posse em liberdade e atração em amor.


Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde sexual e reprodutiva. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Saúde Sexual e Reprodutiva. Acesso em: 23 jul. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Contracepção. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Contracepção. Acesso em: 23 jul. 2026.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas do Registro Civil 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: IBGE – Estatísticas do Registro Civil. Acesso em: 23 jul. 2026.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, ed. consultada.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, ed. consultada.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Sexual health. Geneva: WHO, 2026. Disponível em: World Health Organization – Sexual Health. Acesso em: 23 jul. 2026.

XAVIER, Francisco Cândido. No mundo maior. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999.

XAVIER, Francisco Cândido. Vida e sexo. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999.

XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002.

22 julho 2026

O bem e o mal à luz do Espiritismo



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Antes de examinarmos o bem e o mal sob a perspectiva espírita, convém compreender que, em sentido filosófico, o mal pode ser entendido como privação, imperfeição ou aquilo que produz dano e se opõe à virtude, à justiça e à dignidade humana. O bem, por sua vez, relaciona-se às ações e atitudes dotadas de valor moral, orientadas para a dignidade, a justiça e o aperfeiçoamento do ser.

O Espiritismo rejeita, contudo, qualquer concepção maniqueísta que atribua ao bem e ao mal forças absolutas, eternamente antagônicas. Para a Doutrina Espírita, Deus é soberanamente justo e bom, e o mal não constitui um princípio eterno ou uma potência capaz de rivalizar com o Criador.

O mal resulta do uso imperfeito do livre-arbítrio e da ignorância espiritual, enquanto o bem expressa o progresso da inteligência e o despertar da consciência. Como ensina Kardec, o ser humano possui os meios de distinguir o bem do mal, pois Deus lhe concedeu a razão para discerni-los (KARDEC, 2019).

A questão do mal inquieta a humanidade desde a Antiguidade. No século XX, Hannah Arendt, ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, analisou como crimes de proporções monstruosas podem ser praticados dentro de estruturas burocráticas por indivíduos que abdicam da reflexão crítica e se submetem à lógica da obediência. Seu conceito de “banalidade do mal” não significa que o mal seja insignificante, mas que sua prática pode ser normalizada quando a consciência deixa de pensar, julgar e assumir responsabilidade.

Sob a ótica espírita, entretanto, o mal jamais triunfará definitivamente. Admitir a vitória final do mal seria negar a soberania divina e o princípio da evolução espiritual. Deus não criou seres destinados eternamente à perversidade. Todos os Espíritos caminham para a perfeição, ainda que por diferentes caminhos e em ritmos distintos. O mal é, portanto, uma condição transitória, vinculada à ignorância e ao atraso moral.

André Luiz, em Ação e Reação, apresenta a existência como processo educativo no qual nossas escolhas produzem consequências e exigem reajustes. O sofrimento, nesse contexto, não é castigo arbitrário, mas oportunidade de aprendizado e reparação. O bem não nos imuniza contra as dificuldades da existência, mas nos oferece recursos íntimos para enfrentá-las sem acrescentar novas culpas ao patrimônio espiritual.

Paulo de Tarso expressou dramaticamente essa luta interior: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (ROMANOS, 7:19). A passagem revela o conflito entre o ideal moral já reconhecido pela consciência e os hábitos inferiores ainda arraigados. A reforma moral exige, por isso, vigilância, disciplina e perseverança.

Também não devemos atribuir exclusivamente aos Espíritos inferiores a responsabilidade por nossas quedas. A influência espiritual negativa encontra campo favorável nas próprias imperfeições humanas. O pensamento, a palavra e a ação constituem escolhas pelas quais somos responsáveis. A obsessão pode existir, mas não elimina o livre-arbítrio nem substitui a responsabilidade moral do indivíduo.

Vivemos, atualmente, uma época marcada por extraordinários avanços tecnológicos e, paradoxalmente, por profundas crises de convivência, polarização, solidão e banalização da violência. A tecnologia ampliou a comunicação, mas não necessariamente aprofundou a fraternidade. A informação multiplicou-se, enquanto a reflexão nem sempre a acompanhou.

É precisamente nesse cenário que a mensagem espírita adquire especial relevância. O progresso material, desacompanhado do progresso moral, pode ampliar os recursos humanos sem necessariamente aprimorar o homem. A verdadeira civilização não se mede apenas pela ciência, pela riqueza ou pela sofisticação tecnológica, mas também pela capacidade de promover justiça, solidariedade e respeito à dignidade humana.

O combate ao mal começa, portanto, dentro de nós. O Evangelho não propõe uma guerra contra as pessoas, mas uma transformação de consciências. O verdadeiro “bom combate” é aquele em que vencemos o egoísmo, o orgulho, a indiferença e a crueldade que ainda sobrevivem em nosso mundo íntimo.

Joanna de Ângelis recorda que o aparente triunfo do mal não deve nos induzir ao desânimo. A sombra não possui existência própria: é ausência de luz. Da mesma forma, o mal não representa o destino definitivo do Espírito. A evolução é a marcha inevitável para Deus.

Por isso, diante da banalização do mal, nossa resposta não pode ser a omissão, o ódio ou o desespero. Deve ser o bem consciente, lúcido e perseverante. Fazer o bem é mais do que praticar atos generosos: é educar sentimentos, corrigir pensamentos, assumir responsabilidades e transformar hábitos. O progresso espiritual começa quando deixamos de perguntar apenas por que o mal existe e passamos a indagar, diante de cada circunstância: o que posso fazer, aqui e agora, para que o bem prevaleça?

 

 

Referências Bibliográficas:


ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos enriquecedores. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1994.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido. Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2019.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Romanos 7:19; 2 Timóteo 4:7.

"Arraiá" no centro espírita?


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há algo profundamente contraditório no Movimento Espírita brasileiro contemporâneo. Enquanto alguns dirigentes afirmam defender a pureza doutrinária, a fidelidade a Allan Kardec e a necessidade de preservar a identidade do Espiritismo, multiplicam-se, em certas instituições, práticas que nada tem a ver com a finalidade essencial da Doutrina.

Chegam os meses de junho e julho e, em determinados centros espíritas, surgem bandeirinhas, barracas, comidas típicas, músicas, quadrilhas, brincadeiras e os tradicionais "arraiais". Em alguns casos, a casa espírita parece transformar-se, por algumas horas, em uma réplica das quermesses religiosas que fazem parte da cultura brasileira.

E então cabe perguntar, sem rodeios:

O que exatamente estamos fazendo?

Não se trata de arguir a cultura popular. Ninguém precisa ser contra as festas juninas ou julinas realizadas por famílias, escolas, clubes e associações comunitárias. A cultura brasileira merece respeito. O problema começa quando uma instituição que se apresenta como espírita passa a incorporar, como atividade institucional, práticas que não decorrem da Doutrina Espírita.

É preciso ter coragem para fazer essa distinção. Centro espírita não é clube recreativo. Não é quermesse religiosa. Não é associação folclórica. Não é espaço destinado a reproduzir tradições confessionais.  Sua finalidade é outra.

A casa espírita deve ser uma oficina de almas, um núcleo de estudo, de educação espiritual, de renovação moral e de serviço ao próximo. É o lugar onde o indivíduo busca compreender a si mesmo, a vida, a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e efeito e a responsabilidade diante da própria existência.

Quando o centro espírita passa a organizar eventos que reproduzem tradições estranhas à sua identidade doutrinária, corre o risco de contribuir para aquilo que Allan Kardec sempre procurou evitar: a confusão entre o Espiritismo e as manifestações religiosas tradicionais.

O argumento de que "é apenas uma confraternização" não encerra a questão. A forma também educa.

Uma criança que frequenta a evangelização e, posteriormente, participa de um arraial promovido pelo próprio centro pode perfeitamente concluir que aquela festa faz parte da identidade espírita. O visitante que chega pela primeira vez poderá imaginar que encontrou apenas mais uma expressão religiosa tradicional, com suas festas e costumes próprios.

E assim, pouco a pouco, o Espiritismo vai perdendo sua fisionomia. Primeiro, introduz-se uma prática "inofensiva". Depois, outra. Em seguida, alguém argumenta que "sempre foi assim". Finalmente, aquilo que nunca pertenceu à Doutrina passa a ser defendido como tradição institucional.

É assim que nascem os sincretismos. A história das religiões demonstra que a descaracterização raramente acontece de uma vez. Ela ocorre gradualmente, pela soma de pequenas concessões.

Hoje é o arraial. Amanhã, outra prática. Depois, outra. E, quando percebemos, temos uma instituição que conserva o nome "espírita", mas cuja dinâmica interna já se encontra distante da simplicidade e da racionalidade propostas por Kardec.

Outro argumento recorrente é a necessidade de arrecadar recursos.

Mas precisamos perguntar: até onde uma instituição espírita deve ir para arrecadar dinheiro? Se a necessidade financeira justificar qualquer atividade, amanhã estaremos legitimando toda sorte de iniciativas em nome da manutenção da casa. E, nesse caso, a finalidade passa a justificar os meios. Não deveria ser assim.

A Doutrina Espírita ensina a caridade, a solidariedade e o desprendimento. Uma instituição que necessita de recursos pode promover campanhas, bazares, almoços beneficentes, feiras de livros, ações solidárias e inúmeras outras atividades compatíveis com sua finalidade. Não há necessidade de reproduzir festas de natureza religiosa ou folclórica para manter uma casa espírita.

É preciso também reconhecer que o problema não está na bandeirinha, na canjica ou no milho cozido. O problema é a perda gradual do senso de identidade.

Não se trata de transformar a casa espírita em um ambiente sisudo, triste ou sem alegria. Muito pelo contrário. A alegria cristã é legítima. A fraternidade é indispensável. A convivência é saudável. Mas uma coisa é confraternizar entre irmãos. Outra, muito diferente, é importar para dentro da instituição espírita uma estrutura festiva que não possui fundamento na Codificação e que pode ser facilmente confundida com práticas de outras tradições religiosas.

Allan Kardec não fundou uma religião de cerimônias, festas e rituais. O Espiritismo não precisa de símbolos externos para existir. Não necessita de procissões, imagens, altares, velas, incensos, sacramentos ou festas religiosas.

Sua força está na verdade que esclarece e na caridade que transforma.

Por isso, a questão merece ser enfrentada com seriedade pelos dirigentes espíritas:

Queremos um Movimento Espírita fiel a Kardec ou um movimento cada vez mais adaptado aos costumes do ambiente religioso brasileiro?

Porque, se tudo pode ser introduzido em uma casa espírita em nome da tradição, da confraternização ou da arrecadação, então precisamos admitir que a expressão "fidelidade doutrinária" está se tornando apenas retórica.

O Espiritismo não precisa de arraiais para atrair pessoas. Não precisa de quermesses para sobreviver. Não precisa copiar tradições religiosas para ser acolhedor. Não precisa de espetáculos para ser amado. Precisa, isto sim, de espíritas conscientes, estudiosos, honestos e comprometidos com a transformação moral.

É hora de perguntar: até quando permitiremos que a identidade espírita seja lentamente diluída em nome de uma falsa necessidade de agradar a todos?

O Movimento Espírita brasileiro precisa recuperar a coragem de dizer "não" ao que não lhe pertence.

Não por intolerância. Não por sectarismo. Não por fanatismo. Mas por coerência.

Quem escolhe chamar sua instituição de espírita assume uma responsabilidade histórica: preservar, estudar e divulgar a Doutrina que Allan Kardec codificou.

A casa espírita pode ser alegre sem ser festiva no sentido mundano. Pode ser acolhedora sem ser sincrética. Pode ser fraterna sem reproduzir tradições alheias. Pode arrecadar recursos sem transformar sua identidade em moeda de troca.

O Espiritismo não precisa de arraiais. Precisa de consciência.  Precisa de estudo sério. Precisa de trabalhadores comprometidos. Precisa de médiuns responsáveis. Precisa de caridade legítima. Precisa de Evangelho vivido.

E, sobretudo, precisa de espíritas que compreendam que fidelidade doutrinária não é um detalhe secundário: é o compromisso mínimo de quem se propõe a representar o Espiritismo perante a sociedade.

Porque, quando uma casa espírita começa a parecer mais preocupada em reproduzir as tradições do mundo do que em viver os princípios da Doutrina, talvez seja o momento de fazer a pergunta que ninguém deveria temer:

Ainda estamos preservando a Doutrina dos Espíritos ou apenas conservando a fachada "espírita"?

 

21 julho 2026

A terceira revelação: A verdade que ilumina a fé

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A humanidade não recebeu a verdade de uma só vez. A Lei Divina, eterna e imutável, foi sendo apresentada aos homens de acordo com sua capacidade de compreendê-la. Moisés estabeleceu a ideia de um Deus único e impôs, dentro das circunstâncias históricas de seu tempo, leis capazes de disciplinar um povo ainda submetido ao politeísmo e à violência. Jesus, entretanto, elevou a compreensão humana ao patamar do amor, da fraternidade e da misericórdia. O Espiritismo, por sua vez, surge como a Terceira Revelação, não para substituir o Cristo, mas para explicar, desenvolver e demonstrar racionalmente os fundamentos de sua mensagem.

Há, contudo, uma diferença essencial. Moisés personificou a primeira revelação; Jesus é o guia e modelo da humanidade. A Terceira Revelação não possui um único revelador humano. Allan Kardec não é o autor da Doutrina Espírita, mas seu codificador. Sua grandeza está precisamente em ter submetido os ensinamentos dos Espíritos ao crivo da razão, da lógica e da universalidade, organizando-os em um corpo doutrinário coerente. O Espiritismo é, portanto, uma doutrina de origem espiritual e elaboração humana criteriosa, cuja autoridade não repousa no prestígio pessoal de indivíduos, mas na consistência de seus princípios e na concordância universal dos ensinamentos.

A revelação espírita apresenta-se como progressiva e racional. Por isso, não teme o avanço da ciência nem transforma opiniões particulares em dogmas. Kardec foi categórico ao afirmar que, se a Ciência demonstrar que o Espiritismo está errado em determinado ponto, a Doutrina deverá modificar-se nesse ponto. Essa postura é incompatível com o fanatismo e demonstra que a fé espírita não exige renúncia à inteligência. Ao contrário: convida o ser humano a pensar, investigar e compreender.

Se o ensinamento mosaico destacou a justiça e o Cristo revelou o amor, o Espiritismo oferece a chave racional para compreender a justiça e o amor divinos. A reencarnação, a lei de causa e efeito, a imortalidade da alma e a pluralidade das existências explicam, sob nova perspectiva, as aparentes desigualdades da vida e demonstram que ninguém está abandonado ao acaso. A existência corporal deixa de ser um episódio isolado e passa a integrar o longo processo educativo pelo qual o Espírito conquista, gradualmente, sua própria evolução.

A mediunidade, por sua vez, não nasceu com o Espiritismo. Sempre esteve presente na história religiosa da humanidade. A contribuição da Doutrina Espírita foi estudá-la de maneira sistemática, retirando-a do domínio do mistério e submetendo seus fenômenos à observação e ao discernimento. Contudo, mediunidade sem responsabilidade moral é apenas fenômeno; mediunidade sem estudo pode transformar-se em superstição; e mediunidade utilizada para fins comerciais contradiz frontalmente os fundamentos espíritas.

A Terceira Revelação, portanto, não autoriza o culto a personalidades, a criação de novos sacerdócios, a institucionalização de práticas estranhas à Codificação ou a transformação do Espiritismo em espetáculo religioso. O centro da Doutrina é o conhecimento das leis divinas e a renovação moral do indivíduo. Tudo o que se afasta desse objetivo deve ser examinado com rigor.

O Espiritismo não veio para abolir o Evangelho, mas para torná-lo mais compreensível à consciência contemporânea. Jesus continua sendo o eixo moral da Doutrina, enquanto Allan Kardec permanece o Codificador responsável pela estruturação do conhecimento espírita. Confundir esses papéis é erro doutrinário; diminuir qualquer um deles é desconhecer a própria lógica da revelação.

A grandeza da Terceira Revelação está, finalmente, em unir aquilo que durante séculos muitos consideraram incompatível: fé e razão, espiritualidade e conhecimento, Evangelho e investigação. Ela nos ensina que acreditar não basta. É necessário compreender; compreender não basta. É necessário transformar-se.

A verdadeira finalidade do Espiritismo não é produzir admiradores de Kardec, médiuns famosos ou oradores celebrizados. É formar consciências livres, responsáveis e moralmente renovadas. A revelação somente cumpre sua finalidade quando o conhecimento da imortalidade se converte em responsabilidade, quando a certeza da reencarnação produz perseverança e quando a compreensão da justiça divina desperta, no coração humano, o compromisso efetivo com o bem.

A Terceira Revelação é, assim, um chamado à maturidade espiritual. Não nos convida a temer, nem a crer cegamente, mas a compreender para amar melhor e a amar para servir. Sua mensagem permanece atual porque aponta para uma verdade essencial: somos Espíritos imortais, responsáveis por nossa própria evolução, e a maior prova de que compreendemos a verdade espiritual será sempre a transformação concreta de nossa própria conduta.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

18 julho 2026

Deus, a consciência e o desafio da fé racional


 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Todos trazemos, na intimidade da consciência, uma dimensão profunda que nenhuma conquista material consegue preencher inteiramente. Há no ser humano uma sede de transcendência, uma busca de sentido e uma inquietação diante da existência que, ao longo da História, encontrou diferentes respostas filosóficas, religiosas e científicas. Para o Espiritismo, essa realidade não decorre de uma necessidade psicológica inventada pelas religiões, mas da própria natureza espiritual do ser humano.

Podemos ignorar Deus, negar Sua existência ou simplesmente viver como se Ele não existisse. O Criador, entretanto, não deixa de existir por causa da nossa descrença. O livre-arbítrio permite ao Espírito escolher seus caminhos, mas não modifica as leis universais. Deus não se impõe pela violência nem pela coerção; respeita o desenvolvimento gradual de cada consciência. Como ensina Allan Kardec, a liberdade é uma característica fundamental do Espírito, embora toda escolha produza consequências correspondentes às leis divinas.

Ao longo dos séculos, grandes pensadores questionaram a religião e a ideia de Deus. Karl Marx interpretou a religião como fenômeno social relacionado às condições históricas e materiais; Sigmund Freud procurou compreender a experiência religiosa a partir da psicologia; Friedrich Nietzsche formulou a célebre declaração sobre a "morte de Deus", expressão que, em seu contexto filosófico, representava uma profunda crise dos valores tradicionais do Ocidente. Esses pensadores exerceram enorme influência e devem ser estudados com seriedade, mas suas críticas dirigiam-se, em grande medida, às formas históricas da religião, às instituições e às concepções de divindade predominantes em seu tempo.

É importante, portanto, distinguir Deus das imagens humanas que construímos sobre Ele. Muitas vezes, a criatura atribui ao Criador sentimentos e comportamentos próprios da imperfeição humana: ira, vingança, favoritismo e desejo de punição. Um Deus antropomórfico, que distribui castigos e recompensas segundo critérios humanos, realmente pode parecer incompatível com a razão e com a justiça. O problema, contudo, talvez esteja menos na ideia de Deus do que na concepção que fazemos dEle.

O Espiritismo propõe uma compreensão diferente. Em "O Livro dos Espíritos", Kardec pergunta: "Que é Deus?" A resposta dos Espíritos é direta e profunda: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas." (KARDEC, 2013, questão 1). Não se trata, portanto, de conceber Deus como uma figura humana ampliada, localizada em algum ponto do espaço, mas como a Inteligência Suprema e a Causa Primária da realidade.

Essa concepção modifica profundamente a relação entre criatura e Criador. O indivíduo não precisa temer a Deus como quem teme um soberano arbitrário. Deve, antes, compreendê-Lo como expressão absoluta de justiça, bondade e sabedoria. O temor servil cede lugar ao respeito consciente; a submissão cega dá lugar à compreensão; e a fé deixa de ser uma aceitação passiva para transformar-se em confiança racional e progressiva.

Allan Kardec afirma que "fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade" (KARDEC, 2013, cap. XIX). Essa afirmação permanece atual. A fé espírita não exige a renúncia ao pensamento crítico. Ao contrário, convida-nos a examinar, questionar e compreender. Por isso, o Espiritismo rejeita tanto o materialismo dogmático quanto a credulidade irrefletida.

A ciência moderna ampliou extraordinariamente os horizontes do conhecimento. Investigamos o universo em escalas inimagináveis, penetramos na estrutura da matéria, deciframos mecanismos genéticos e observamos fenômenos cósmicos que desafiam nossa capacidade de compreensão. Entretanto, quanto mais avançamos, mais percebemos a complexidade da realidade e os limites do conhecimento humano. A ciência explica mecanismos e relações observáveis; a questão do sentido último da existência permanece aberta ao debate filosófico e metafísico.

Por essa razão, não é prudente afirmar que a ciência "provou" Deus, assim como também não é cientificamente legítimo afirmar que a ciência "provou" Sua inexistência. A questão de Deus ultrapassa o domínio da experimentação laboratorial convencional. O próprio Espiritismo reconhece essa distinção ao sustentar que ciência e religião devem caminhar de modo complementar, cada qual respeitando o campo específico de investigação que lhe compete.

Ao tratar das provas da existência de Deus, Kardec apresenta uma reflexão de extraordinária atualidade: "Não há efeito sem causa. Todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente." (KARDEC, 2013, questão 4). A argumentação espírita parte, assim, da observação da ordem, da inteligência e da harmonia presentes na natureza para propor uma reflexão sobre sua causa primeira.

Essa perspectiva não elimina o mistério. Ao contrário, amplia-o. Quanto mais o ser humano conhece, mais reconhece a imensidão daquilo que ainda ignora. A humildade intelectual é, portanto, uma virtude indispensável tanto ao cientista quanto ao religioso.

Também devemos ter cautela com narrativas populares que afirmam que determinada pessoa desafiou Deus e, posteriormente, sofreu uma tragédia ou morreu. Histórias envolvendo personalidades como John Lennon, Tancredo Neves, Marilyn Monroe ou supostas declarações atribuídas a construtores do Titanic circulam há décadas, mas muitas não possuem comprovação documental confiável. Além disso, utilizar tragédias pessoais como suposta "punição divina" é incompatível com a compreensão espírita da justiça e da lei de causa e efeito. O sofrimento de alguém não autoriza ninguém a concluir que Deus esteja aplicando uma vingança.

A Doutrina Espírita ensina que Deus não age movido por caprichos ou represálias. A lei divina é educativa e se fundamenta na justiça e na misericórdia. A existência humana é uma etapa da trajetória do Espírito imortal, e os acontecimentos da vida não podem ser interpretados de maneira simplista, como se cada sofrimento fosse uma punição direta e imediata por alguma atitude anterior.

É justamente nesse ponto que a concepção espírita de Deus se distancia das imagens religiosas construídas pelo medo. O Deus apresentado pela Doutrina Espírita não é um déspota celeste à espera de oportunidades para castigar. É o Pai infinitamente justo e bom, cuja lei conduz todos os Espíritos ao progresso. A justiça divina não exclui a misericórdia; a misericórdia não elimina a responsabilidade; e a responsabilidade não significa condenação eterna.

A história do pensamento humano demonstra que a questão de Deus jamais desapareceu. Do pensamento de Sócrates e Platão às reflexões de Plotino; das especulações filosóficas de Fichte, Schelling e Hegel às inquietações de grandes cientistas, a humanidade continua perguntando sobre a origem, o sentido e o destino da existência.

Albert Einstein, frequentemente associado a reflexões sobre Deus e o universo, também teve suas declarações sobre religião e espiritualidade interpretadas de diferentes maneiras.

A verdadeira questão, entretanto, permanece: podemos viver sem pensar em Deus? Certamente podemos organizar a vida sem uma crença religiosa. Podemos até negar Sua existência. O que não podemos é ignorar as grandes perguntas que acompanham a humanidade desde seus primórdios: de onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da existência? Por que existe algo em vez de nada? O que fundamenta a consciência e a dimensão moral do ser humano?

O Espiritismo não pretende encerrar essas perguntas com respostas simplistas. Ao contrário, propõe uma investigação racional sobre a existência de Deus, a imortalidade da alma, a pluralidade das existências e a lei de causa e efeito. Sua proposta é substituir o medo pela compreensão e a superstição pela reflexão.

A fé, nesse contexto, não representa fuga da realidade. É uma forma de ampliar a compreensão da realidade. Não é preciso fechar os olhos para acreditar; é necessário abri-los ainda mais. A verdadeira fé não teme a ciência, não teme a filosofia e não teme a razão, porque sabe que toda verdade, quando realmente compreendida, converge para a harmonia.

Deus não precisa ser defendido por ameaças, tragédias atribuídas a castigos ou histórias sem comprovação. A ideia de Deus deve ser apresentada pela razão, pela observação da natureza, pela consciência moral e, sobretudo, pelos frutos que produz na transformação do ser humano.

Para nós, espíritas, Deus é a Inteligência Suprema, a Causa Primária de todas as coisas. Sua presença não depende da nossa aceitação ou rejeição. Podemos fechar as portas da consciência à ideia de Deus, mas não podemos expulsar o Criador da realidade. Podemos negar Sua existência, mas continuaremos submetidos às leis universais que regem a vida.

Talvez a grande questão não seja saber se Deus existe para nós. A questão mais profunda é saber se nós estamos dispostos a viver de acordo com as leis de amor, justiça e caridade que reconhecemos como divinas.

Porque, se Deus é a Suprema Inteligência e a infinita Bondade, então conhecê-Lo não significa apenas acreditar em Sua existência. Significa aprender a pensar, sentir e agir de modo cada vez mais compatível com as leis que sustentam a vida.

Eis o verdadeiro desafio da fé: não convencer Deus de que acreditamos n’Ele, mas demonstrar, pela transformação de nós mesmos, que começamos a compreender o que significa viver sob Sua lei.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Sobre religião. Lisboa: Edições 70, 1975.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

PLOTINO. Enéadas. São Paulo: Paulus, 2000.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 2011.

Fidelidade doutrinária, um compromisso inegociável


 

Jorge Hessen

Brasília-DF


Toda convicção religiosa merece respeito. O Espiritismo jamais se opôs ao direito de cada consciência de buscar Deus segundo sua compreensão. Contudo, quem abraça conscientemente a Doutrina Espírita assume, por dever moral, o compromisso de preservar-lhe a identidade. Como adverte Emmanuel: "Toda convicção religiosa é respeitável; entretanto, se procuramos a Doutrina Espírita, não podemos negar-lhe fidelidade." (XAVIER, 2003).

Essa fidelidade não representa dogmatismo nem exclusivismo sectário. Ao contrário, significa respeito à integridade da Codificação elaborada por Allan Kardec, que submeteu os ensinos dos Espíritos ao rigor da observação, da comparação e do controle universal. O Espiritismo distingue-se justamente por conciliar fé e razão, permitindo o livre exame e recusando a crença cega. Emmanuel recorda que somente a Doutrina Espírita possibilita ao homem "o livre exame, com o sentimento livre de compressões dogmáticas, para que a fé contemple a razão, face a face" (XAVIER, 2003).

Enquanto muitas tradições religiosas ainda sustentam concepções de punições eternas, privilégios espirituais ou salvação por meio de ritos exteriores, o Espiritismo esclarece que cada criatura é autora do próprio destino. A lei divina é imparcial e cada Espírito colherá, inevitavelmente, os frutos de suas escolhas, conforme ensinam O Livro dos Espíritos e O Evangelho segundo o Espiritismo. Não existem favorecimentos perante a Justiça Divina; existe responsabilidade moral.

Por essa razão, a Codificação Kardeciana constitui a chave segura para a interpretação racional do Evangelho de Jesus. Kardec não fundou uma nova religião baseada em dogmas, mas organizou um corpo doutrinário coerente, aberto ao progresso, sem jamais admitir que opiniões pessoais ou modismos substituíssem seus princípios fundamentais.

Infelizmente, observa-se, em alguns setores do movimento espírita, a tentativa de incorporar práticas esotéricas, misticismos, terapias sem fundamento doutrinário, sincretismos religiosos e experiências estranhas aos princípios kardequianos. Sob o pretexto da fraternidade ou da modernização, pretende-se transformar o Espiritismo numa síntese indiscriminada de crenças. Entretanto, Emmanuel adverte contra esse "lisonjeiro ecletismo", recomendando que preservemos "a pureza e a simplicidade" da Doutrina, evitando colaborar "nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento" (XAVIER, 2003).

A verdadeira tolerância jamais pode converter-se em silêncio diante da descaracterização doutrinária. Respeitar pessoas não significa legitimar ideias incompatíveis com a Codificação. Defender a identidade do Espiritismo não constitui intolerância; constitui responsabilidade para com o patrimônio espiritual legado por Allan Kardec.

Naturalmente, essa vigilância deve ser exercida sem agressividade, sem personalismos e sem fanatismo. O próprio Espiritismo rejeita qualquer forma de autoritarismo intelectual. A defesa da pureza doutrinária deve caminhar lado a lado com a humildade, o diálogo fraterno e a caridade. Não se trata de combater pessoas, mas de esclarecer conceitos.

Também seria incoerente exigir fidelidade doutrinária sem empenho pela própria renovação moral. Não basta conhecer Kardec; é indispensável viver Kardec. Não basta denunciar enxertias doutrinárias; é necessário ressignificar as próprias imperfeições. A reforma moral permanece sendo o maior testemunho da autenticidade espírita.

Em uma de suas mais conhecidas exortações, Emmanuel sintetiza esse compromisso afirmando:

"Espírita deve ser o nosso caráter, ainda mesmo nos sintamos em reajuste depois da queda. Espírita deve ser a nossa conduta, ainda que estejamos em duras experiências. Espírita deve ser o nome do nosso nome. Espírita deve ser o claro adjetivo de nossa instituição, ainda mesmo que, por isso, nos faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres." (XAVIER, 2003).

Essa advertência permanece extremamente atual. Em tempos de relativização dos princípios, de espetacularização da mediunidade e de crescente influência de filosofias estranhas à Codificação, torna-se indispensável recordar que a identidade espírita não pode ser negociada.

Concluindo, Emmanuel oferece uma das mais profundas definições do compromisso espírita:

"Doutrina Espírita quer dizer Doutrina do Cristo. E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos. Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua responsabilidade mais alta, porque dia virá em que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas." (XAVIER, 2003).

Ser fiel ao Espiritismo, portanto, não significa cristalizar a Doutrina nem impedir o progresso do conhecimento. Significa preservar seus fundamentos, conforme estabelecidos por Allan Kardec, para que o Consolador Prometido continue cumprindo sua missão de esclarecer as inteligências, consolar os corações e promover a transformação moral da humanidade.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 130. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Religião dos Espíritos. Pelo Espírito Emmanuel. 22. ed. Brasília: FEB, 2023.

17 julho 2026

A França e a cultura da morte: quando o Estado passa a decidir sobre o fim da existência física


Jorge Hessen

Brasília-DF

A recente aprovação, pelo Parlamento francês, da lei que autoriza a chamada "ajuda para morrer", ainda sujeita ao controle do Conselho Constitucional, representa um dos acontecimentos bioéticos mais impactantes do século XXI. Apresentada como conquista da autonomia individual e da compaixão diante do sofrimento, a medida autoriza, sob critérios legais, que pacientes acometidos por enfermidades graves e incuráveis obtenham assistência médica para antecipar deliberadamente a própria morte.

A França passa, assim, a integrar o grupo de nações que flexibilizaram a proteção jurídica da vida humana, ao lado da Bélgica, dos Países Baixos, do Canadá, da Suíça e de outros países que adotaram modalidades de eutanásia ou suicídio assistido. Trata-se de uma mudança de enorme alcance moral, cujas consequências transcendem o direito e alcançam a Medicina, a Filosofia, a Teologia e a própria concepção de dignidade humana.

Os defensores da nova legislação sustentam que ninguém deve ser obrigado a suportar dores insuportáveis e que a autonomia da pessoa deve prevalecer sobre qualquer outra consideração. O argumento emociona, mas não resolve a questão essencial: pode uma sociedade transformar a eliminação da vida em instrumento terapêutico?

A experiência internacional recomenda prudência. Na Bélgica, onde a eutanásia foi legalizada em 2002 para situações extremamente restritas, sucessivas alterações ampliaram significativamente sua aplicação. Em 2014, passou-se a admitir o procedimento também para menores de idade em circunstâncias específicas. Os relatórios oficiais da Comissão Federal de Controle e Avaliação da Eutanásia revelam crescimento contínuo do número de casos, demonstrando aquilo que muitos bioeticistas denominam de slippery slope — o "efeito da ladeira escorregadia", pelo qual exceções inicialmente rigorosas tornam-se, gradativamente, práticas cada vez mais abrangentes.

Não por acaso, durante a tramitação da lei francesa, importantes associações de pessoas com deficiência, entidades médicas e organizações religiosas advertiram para o risco de que indivíduos vulneráveis, idosos, deprimidos ou socialmente isolados passem a enxergar a morte como solução socialmente aceitável para seus sofrimentos.

Sob a ótica da ética médica, permanece atual o compromisso assumido desde Hipócrates: o médico existe para cuidar, aliviar, consolar e preservar a vida, jamais para provocar deliberadamente a morte de seu paciente. A Associação Médica Mundial, em sua Declaração sobre a Eutanásia (Madri, 1987), classificou essa prática como eticamente incompatível com a missão da Medicina, entendimento que continua alimentando intenso debate bioético internacional.

No Brasil, a Constituição Federal consagra a inviolabilidade do direito à vida (art. 5º, caput), enquanto o Código Penal não autoriza a eutanásia. A dignidade da pessoa humana não se confunde com o direito de eliminar a própria existência ou a de terceiros.

Para o Espiritismo, entretanto, a discussão alcança profundidade muito maior. A existência corporal não constitui mero fenômeno biológico, mas etapa indispensável do processo evolutivo do Espírito imortal. Ensina Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos (questão 920), que "a vida na Terra foi dada como prova ou expiação", cabendo ao homem utilizar todos os recursos legítimos para aliviar seus sofrimentos, sem abreviar deliberadamente o tempo da experiência reencarnatória.

A enfermidade, por mais dolorosa que seja, nem sempre representa castigo. Muitas vezes constitui valioso instrumento de reajuste espiritual, aprendizado, reparação e crescimento moral. Emmanuel recorda que "a dor é o buril que aperfeiçoa a alma", enquanto André Luiz demonstra, em diversas obras, que a desencarnação possui momento próprio, relacionado às necessidades evolutivas do Espírito e às leis soberanas da Providência Divina.

Sob essa perspectiva, a eutanásia — ainda que legitimada pelo Estado — não modifica as leis espirituais. A interrupção voluntária da existência física não elimina as causas profundas do sofrimento; apenas transfere para além do túmulo problemas cuja solução exige transformação íntima e perseverança. A vida prossegue, e a consciência permanece responsável pelos próprios atos.

Isso não significa defender o prolongamento artificial e desumano da agonia. A Doutrina Espírita não apoia a distanásia, isto é, o emprego de meios extraordinários e desproporcionais para retardar inevitavelmente a morte. Ao contrário, harmoniza-se com os princípios dos cuidados paliativos e da ortotanásia, que respeitam o curso natural da existência, aliviam a dor e preservam a dignidade do enfermo sem provocar deliberadamente sua morte.

A verdadeira compaixão não consiste em eliminar quem sofre, mas em eliminar, tanto quanto possível, o sofrimento. Uma civilização autenticamente humanista será reconhecida não pelo número de leis que autorizam a morte, mas pela capacidade de cuidar dos enfermos, acolher os idosos, fortalecer as famílias, investir em cuidados paliativos, oferecer assistência psicológica e espiritual e lembrar que toda existência possui valor, mesmo nos momentos de maior fragilidade.

Quando o Estado passa a admitir que algumas vidas podem ser encerradas por decisão humana, inaugura-se uma perigosa mudança de paradigma: a vida deixa de ser um bem inviolável para tornar-se um direito disponível. Para o cristão e, particularmente, para o espírita, essa inversão jamais poderá ser aceita. A vida pertence a Deus; ao homem compete administrá-la com responsabilidade, amor e confiança na Justiça Divina, jamais antecipar-lhe o termo. A verdadeira misericórdia não mata: ampara, consola, serve e espera, porque sabe que nenhuma dor é inútil quando vivida sob a luz da imortalidade da alma.

Referências Bibliográficas:

ASSOCIAÇÃO MÉDICA MUNDIAL. Declaração sobre Eutanásia. Madri, 1987.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Decreto-Lei n.º 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1940.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019. Questão 920.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, diversas edições.

XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da Vida Eterna. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, diversas edições.

BELGIQUE. Commission fédérale de contrôle et d'évaluation de l'euthanasie. Rapports aux Chambres législatives. Bruxelas, diversos anos.