14 outubro 2026

O Brasil ferido pela intolerância - uma reflexão espírita da atual crise política



Jorge Hessen

Brasília -DF


Vivemos um paradoxo: enquanto idealizamos um Brasil vocacionado à fraternidade, assistimos à deterioração do diálogo público, sufocado pelo ódio entre grupos que se autodenominam de direita ou de progressistas. Divergir é legítimo; transformar adversários em inimigos é um sintoma de imaturidade política e moral.

O problema ganha gravidade diante da situação fiscal brasileira. Conforme já escrevi,  em agosto de 2026, segundo os dados apresentados pelo Tesouro Nacional, a Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,293 trilhões, com projeção de encerramento do ano entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. Trata-se de um desafio que exigirá responsabilidade administrativa, planejamento e capacidade de negociação, independentemente da orientação ideológica do próximo governo.

A polarização agrava esse quadro ao converter medidas econômicas em instrumentos de disputa partidária. O país necessita de instituições capazes de dialogar, investimentos sustentáveis e políticas públicas que conciliem equilíbrio fiscal e proteção social. Não há responsabilidade social duradoura sem administração criteriosa dos recursos públicos.

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec (2008), ao abordar a Lei de Sociedade, esclarece que a vida coletiva constitui condição para o progresso humano. Na questão 913, identifica o egoísmo como uma das grandes chagas da humanidade. Quando esse sentimento ultrapassa o indivíduo e se instala nas facções políticas, surge o egoísmo coletivo: o interesse do grupo passa a valer mais que a verdade, a justiça e o bem comum.

Léon Denis (2008), em O problema do ser, do destino e da dor, oferece elementos para compreender o aperfeiçoamento moral como processo vinculado à responsabilidade individual. Nenhuma reforma social será consistente se não for acompanhada pela transformação das consciências. Leis e instituições são indispensáveis, mas sua eficácia depende também da honestidade e do compromisso de quem as conduz.

Na perspectiva psicológica espírita, Joanna de Ângelis, por intermédio de Divaldo Franco, convida-nos a reconhecer os conflitos interiores que projetamos nos outros. O adversário político pode errar, mas isso não nos autoriza a ignorar os equívocos do próprio grupo. A autocrítica é condição da maturidade; a intolerância, ao contrário, perpetua os mesmos vícios sob bandeiras diferentes.

A dívida pública não deve ser chamada, sem distinção, de dívida “cármica”. É, antes, um problema econômico e institucional com consequências humanas concretas. Seu enfrentamento exige transparência, controle dos gastos, combate à corrupção, crescimento sustentável e políticas sociais responsáveis. Juros elevados e escolhas fiscais inadequadas podem restringir recursos destinados a serviços essenciais.

O Espiritismo não nos convoca à neutralidade diante dos erros, mas à justiça sem fanatismo. Não precisamos escolher entre responsabilidade fiscal e solidariedade, nem entre prudência administrativa e inclusão social. Precisamos avaliar propostas e resultados, sem transformar partidos em ídolos ou adversários em inimigos.

O Brasil não será salvo pela direita derrotando a esquerda, nem pela esquerda esmagando a direita. Será fortalecido quando seus cidadãos compreenderem que a divergência democrática deve servir à construção coletiva. A caridade também se expressa na responsabilidade de governar, na honestidade de fiscalizar e na coragem de reconhecer os próprios erros.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

FRANCO, Divaldo Pereira. O homem integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1990.

BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria do Tesouro Nacional. Relatórios e estatísticas da Dívida Pública Federal. Brasília, DF: Tesouro Nacional, 2026.

 

13 outubro 2026

Fé espírita sem omissão - a responsabilidade moral diante da desordem fiscal do Brasil





Jorge Hessen

Brasília -DF

O Espiritismo não nos autoriza à indiferença diante das contas públicas: exige consciência, solidariedade e responsabilidade com as gerações futuras. O próximo presidente do Brasil receberá um país diante de um desafio fiscal de enormes proporções.

Vejamos: Segundo o Banco Central (2026), em agosto de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou R$ 11,1 trilhões, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). A Dívida Líquida do Setor Público chegou a R$ 9,2 trilhões, ou 69,3% do PIB. No mesmo período, os juros nominais acumulados em doze meses atingiram R$ 1,182 trilhão (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026).

Sem fanatismo político, esses números não devem ser tratados como mera disputa entre partidos. Constituem um alerta para toda a sociedade. Uma dívida elevada, quando não administrada de maneira sustentável, restringe a capacidade de investimento do Estado, amplia a pressão sobre o orçamento e pode comprometer oportunidades das gerações futuras. Governar exige mais do que promessas eleitorais: requer planejamento, transparência, eficiência administrativa e coragem para enfrentar escolhas difíceis.

Sob a perspectiva espírita, a questão também possui dimensão moral. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, associa a justiça ao respeito aos direitos de cada um e reconhece, na questão 793, a importância do progresso moral na avaliação da civilização. Não basta uma sociedade exibir avanços materiais se tolera desperdícios, privilégios, corrupção ou a transferência irresponsável dos encargos presentes para os cidadãos de amanhã (KARDEC, 2013).

Isso não significa defender austeridade cega, abandonar os vulneráveis ou reduzir o Estado a uma máquina contábil. A responsabilidade fiscal deve caminhar com a justiça social. O dinheiro público precisa financiar políticas eficazes, proteger os mais necessitados e promover oportunidades, sem servir de instrumento para interesses eleitorais ou corporativos.

Nós, espíritas, não devemos jamais  transformar os centros em palanques, tampouco permanecer indiferentes à realidade nacional. A neutralidade partidária não significa neutralidade ética. Podemos acompanhar os indicadores oficiais, cobrar prestação de contas, rejeitar a corrupção, avaliar propostas com espírito crítico e escolher representantes comprometidos com a probidade e a sustentabilidade das finanças públicas.

O futuro governante precisará compreender que administrar a dívida é também administrar esperanças, sacrifícios e possibilidades humanas. A verdadeira grandeza de uma nação não se mede apenas pelo volume de sua economia, mas pela honestidade de suas instituições e pela dignidade oferecida ao povo.

Nessas eleições, sejamos conscientes e que os princípios kardecianos nos inspirem a exigir responsabilidade sem ódio, justiça sem fanatismo e solidariedade sem conivência. O patrimônio público pertence à coletividade; comprometê-lo irresponsavelmente significa comprometer parte do futuro de todos nós.


Referências  Bibliográficas:

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas fiscais: agosto de 2026. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasfiscais. Acesso em: 13 out. 2026.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

Violência: o desafio moral da humanidade




A educação dos sentimentos, à luz do Evangelho e do Espiritismo, é indispensável à construção de uma sociedade mais pacífica.

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A violência, em suas múltiplas manifestações, representa uma das mais graves contradições da civilização contemporânea. Embora tenhamos alcançado extraordinários avanços científicos e tecnológicos, permanecemos vulneráveis ao egoísmo, ao orgulho, à intolerância e à agressividade.

As guerras, os feminicídios, a violência doméstica, o bullying, os discursos de ódio e as agressões disseminadas pelas redes sociais evidenciam que o progresso material não assegura, por si só, o aprimoramento moral.

A exposição contínua à brutalidade, frequentemente explorada pelos meios de comunicação e pelas plataformas digitais, pode banalizar o sofrimento e estimular comportamentos agressivos. Contudo, seria simplista atribuir à mídia a responsabilidade exclusiva por esse fenômeno.

A violência também se alimenta da ausência de empatia, da incapacidade de administrar frustrações e da dificuldade de reconhecer no próximo alguém que merece respeito. Condenamos a agressividade alheia, mas nem sempre percebemos nossas próprias manifestações de intolerância, sobretudo nas relações familiares, profissionais e sociais.

Há dois milênios, Jesus apresentou um roteiro moral capaz de transformar profundamente as relações humanas: amar o próximo, perdoar, agir com misericórdia e retribuir o mal com o bem. Essa proposta permanece atual, embora frequentemente contrariada pelos interesses pessoais e pelas disputas de poder.

A paz coletiva não se consolida apenas mediante leis e mecanismos de segurança; exige também educação ética, responsabilidade individual e compromisso com a dignidade humana.

O Espiritismo, ao examinar a imortalidade da alma, a reencarnação e a lei de causa e efeito, oferece uma perspectiva racional sobre a responsabilidade moral. No Livro dos Espíritos, Allan Kardec relaciona o progresso intelectual ao progresso moral, reconhecendo que o desenvolvimento da inteligência nem sempre é acompanhado pela transformação dos sentimentos. A violência não deve, entretanto, ser interpretada como destino inexorável ou atribuída automaticamente a supostos débitos de existências anteriores. Cada pessoa responde por suas escolhas presentes, sem prejuízo das influências sociais, psicológicas e culturais que precisam ser compreendidas e enfrentadas.

A fé raciocinada convida-nos à autocrítica, à reforma moral e à prática efetiva da fraternidade. Isso significa cultivar a compaixão, controlar os impulsos, respeitar as diferenças, rejeitar a vingança e não confundir mansidão com omissão diante das injustiças. A prevenção da violência requer também políticas públicas responsáveis, proteção às vítimas, educação para a convivência e aplicação justa das leis.

A oração e a meditação, quando associadas ao exame sincero da própria consciência, podem favorecer o autoconhecimento e o equilíbrio emocional. Entretanto, a espiritualidade somente demonstra sua fecundidade quando se converte em atitudes concretas de solidariedade e respeito.

Paulo de Tarso expressou essa transformação interior ao afirmar: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Inspirados nesse ideal, precisamos compreender que a pacificação do mundo começa também pela revisão de nossas atitudes cotidianas.

Todos desencarnaremos um dia, mas a maneira como atravessamos a existência terrena depende, em grande medida, de nossas escolhas. O Espiritismo não promete transformação automática: convoca-nos ao esforço consciente de melhorar.

A violência será efetivamente combatida quando a inteligência se aliar à consciência, o conhecimento à compaixão e a liberdade à responsabilidade. Afinal, a construção da paz começa dentro de nós, mas não termina em nós.

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Gálatas 2:20.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, edição consultada.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, edição consultada.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World report on violence and health. Geneva: World Health Organization, 2002.

 

 

11 outubro 2026

O discurso socialista massifica o cidadão para criar dependência, não emancipação; é o autêntico ópio do povo



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

O socialismo coletivista ignora a lei do progresso espiritual: a transformação da sociedade começa pela transformação moral de cada consciência cidadã.

Há uma ilusão ideológica que atravessa gerações e continua exercendo influência no Brasil: a pretensão de transformar o povo de fora para dentro, submetendo o cidadão aos desígnios da coletividade, como se decretos, redistribuições econômicas e engenharia social fossem capazes de produzir virtudes por imposição política.

Essa concepção, quando fundada na revolução socialista materialista, colide frontalmente com os fundamentos do Espiritismo. Não porque a Doutrina Espírita seja indiferente à pobreza ou às injustiças sociais, mas porque compreende o ser humano como Espírito imortal, responsável por sua evolução e pelos próprios atos.

Em Socialismo e Espiritismo, Léon Denis oferece uma reflexão contundente. No capítulo VII, declara sua posição com clareza: “Sou evolucionista e não revolucionário”. O pensador francês contesta o socialismo materialista, cuja lógica de antagonismos coletivos e luta de classes tende a subordinar a consciência individual a projetos ideológicos, relegando a dimensão espiritual da existência. Isso não significa rejeitar toda e qualquer preocupação democrática com a justiça social, mas advertir que nenhuma reforma social será verdadeiramente emancipadora se prescindir de um sólido fundamento moral e espiritual, pois a transformação duradoura da sociedade começa pela renovação ética do próprio indivíduo.

É precisamente aí que reside o problema. Uma ideologia que reduz o homem às condições econômicas, atribui os males humanos prioritariamente às estruturas sociais e promete regenerar a sociedade pela reorganização coletiva incorre em grave equívoco antropológico. Pode modificar instituições, mas não consegue decretar a honestidade; pode redistribuir riquezas, mas não fabricar generosidade; pode impor comportamentos, mas não produzir consciência moral.

A história demonstra que projetos políticos proclamados em nome da igualdade também podem gerar autoritarismo, privilégios burocráticos e novas formas de opressão. Quando o Estado pretende decidir o destino de todos, o indivíduo corre o risco de converter-se em instrumento de uma abstração ideológica chamada povo, classe ou massa.

O Espiritismo oferece outra perspectiva. No Livro dos Espíritos, questão 919, Kardec destaca o autoconhecimento como caminho fundamental para o aperfeiçoamento moral. Léon Denis, por sua vez, sustenta, em O problema do ser, do destino e da dor, a importância da educação da consciência e do esforço individual na marcha evolutiva.

Não existe progresso espiritual por procuração. Ninguém pode realizar a reforma íntima em nosso lugar. A sociedade melhora quando seus integrantes se tornam mais justos, honestos, responsáveis e solidários. Instituições melhores são necessárias, mas sua estabilidade depende também da qualidade moral daqueles que as dirigem e daqueles que delas participam.

O Brasil não se recuperará pela exaltação das massas contra a autonomia do indivíduo, nem pela demonização de quem produz, empreende, trabalha ou pensa diferentemente (capitalista). Tampouco encontrará solução no individualismo egoísta. A alternativa espírita não é a indiferença social: é a solidariedade consciente, associada à liberdade, à responsabilidade e ao mérito moral.

A verdadeira igualdade não consiste em uniformizar consciências, mas em reconhecer a dignidade de todos, sem abolir a responsabilidade pessoal.

Não confundamos justiça social com nivelamento compulsório, fraternidade com submissão ideológica, nem caridade com dependência política. Amparar os necessitados é um imperativo moral; converter cidadãos em massa tutelada pelo Estado, entretanto, não é emancipá-los, mas restringir-lhes a autonomia, obscurecer-lhes a consciência crítica e perpetuar a dependência que se deveria combater.

O discurso socialista materialista promete transformar o mundo pela força das estruturas. O Espiritismo recorda que a renovação duradoura exige a transformação do ser humano. Sem reforma moral, as estruturas reproduzem os vícios de quem as controla.

Não é a massa que reforma a consciência do indivíduo por decreto. São indivíduos moralmente renovados que podem construir uma sociedade mais justa. Essa é a diferença entre a engenharia ideológica dos homens e o progresso espiritual que a lei divina nos convida a realizar.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. Tradução de Wallace Leal V. Rodrigues. Matão, SP: O Clarim, 1982.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 1999

10 outubro 2026

O desprezível estelionato do luto e o compromisso inegociável com a verdade




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec no século XIX, estrutura-se a partir de princípios éticos, morais e científicos rigorosos. Entre as diretrizes fundamentais do Espiritismo, destacam-se a fidelidade da prática mediúnica e o compromisso inegociável com a verdade e com a caridade desinteressada.

 O princípio formulado por Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo — "Dai de graça o que de graça recebestes" — estabelece que a mediunidade é um dom sagrado para a edificação moral e o alívio das dores humanas, não devendo jamais converter-se em veículo de captação de donativos (esmolas), vaidade pessoal ou obtenção de vantagens materiais.

O recente caso envolvendo uma suposta “Chica Xavier do Cerrado”, repercutido por reportagens investigativas de veículos como o programa Fantástico (TV Globo) e a coluna "Na Mira" do portal Metrópoles, expõe a vulnerabilidade de fiéis diante de dissimulações mediúnicas.

Conforme apurado e amplamente veiculado pela imprensa, surgiram denúncias relativas à suposta fabricação de cartas “desoladoras” mediante o uso de dados de redes sociais, além do envolvimento em leilões e da doação de poupança familiar de R$ 300 mil — práticas incompatíveis com os preceitos kardequianos.  

No âmbito jurídico, a tentativa de constranger o jornalismo investigativo por meio de interpelações e queixas-crime contra profissionais da imprensa — a exemplo do processo nº 0752672-61.2026.8.07.0001 (288ª Vara do TJDFT) — sofreu dura objeção probatória e parecer desfavorável do Ministério Público por ausência de justa causa e inépcia da inicial. A atuação da imprensa livre cumpre papel relevante no saneamento social ao lançar luz sobre abusos cometidos sob o pretexto da fé.

No movimento espírita brasileiro, o combate aos abusos da mediunidade e o alerta contra o charlatanismo encontram respaldos teóricos e normativos inequívocos. A denúncia séria e responsável contra mistificações é um dever moral para a preservação do Evangelho e a proteção dos necessitados e enlutados. Como orienta a obra codificada por Kardec, o crivo da razão e da coerência doutrinária deve prevalecer sobre qualquer manifestação fenomenológica ou figura pessoal. 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 125. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2006.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: guia dos evocadores e dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008.

DISTRITO FEDERAL (Estado). Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). Processo Eletrônico nº 0752672-61.2026.8.07.0001. Querelante: Maira Alexandrina Leobino Freitas Nogueira. Querelados: Carlos Eduardo Gelio Carone, Thamires Almeida, Saulo Araújo e Miguel Bragança. Decisão interlocutória. Brasília, DF, 10 out. 2026.

REDAÇÃO G1. Famílias que buscaram cartas psicografadas com Máira acusam a médium. Reportagem e exibição no programa Fantástico, TV Globo. Rio de Janeiro: G1, 06 set. 2026. Disponível em: https://www.facebook.com/g1/videos/1530292159115576/. Acesso em: 10 out. 2026.

 

Epilepsia: História, Ciência e a Visão Espírita






Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A epilepsia acompanha a humanidade desde a Antiguidade. Registrada no Código de Hammurabi e conhecida na Grécia Antiga como a "doença sagrada", acreditava-se que os acometidos eram possuídos por divindades ou demônios. Na Roma Antiga, era denominada morbus comitialis (doença comicial). Foi Hipócrates quem iniciou a desmistificação dessa patologia ao postular que a causa da enfermidade residia no cérebro. Posteriormente, Galeno contribuiu para o avanço da medicina ao propor a primeira classificação sistemática das formas da doença.

Apesar de tais avanços científicos, o estigma e o preconceito associados à epilepsia persistiram ao longo dos séculos. Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 50 milhões de pessoas convivam com a condição em todo o mundo. A perspectiva contemporânea, contudo, é promissora: cerca de 70% dos casos podem ser devidamente controlados por meio do tratamento farmacológico com anticonvulsivantes. Para os quadros de epilepsia refratária — que correspondem a aproximadamente 20% a 30% dos pacientes —, intervenções cirúrgicas e técnicas de neuromodulação consolidam-se como alternativas eficazes, impulsionadas pela evolução dos exames de imagem e da tecnologia médica.

Sob a ótica da Doutrina Espírita, a epilepsia é reconhecida fundamentalmente como uma condição neurológica que exige acompanhamento e tratamento prioritário pela medicina terrena. Torna-se imperativo, portanto, evitar a equívoca associação de crises epilépticas com o dever de desenvolvimento mediúnico ou com processos de mera possessão.

A Doutrina ensina que, embora a crise se manifeste no cérebro somático, sua gênese nem sempre é exclusivamente física. Trata-se, por vezes, de uma enfermidade da alma: sentimentos de remorso e reajustes decorrentes de encarnações passadas geram distonias no perispírito, as quais se refletem no corpo físico por intermédio das predisposições hereditárias e genéticas.

Somando-se às causas perispirituais diretas, as obras de Allan Kardec e André Luiz esclarecem que processos obsessivos intensos e prolongados são capazes de gerar reflexos neurofisiológicos e até lesões orgânicas, resultantes da impregnação e atuação de fluidos espirituais nocivos sobre o organismo do encarnado.

Os quadros de epilepsia podem ter origem exclusivamente orgânica, exclusivamente obsessiva ou mista. Por essa razão, a terapêutica espírita — composta por passes, preces, água fluidificada e reuniões de desobsessão — atua como um recurso complementar e altamente eficaz para o reequilíbrio holístico do enfermo. Contudo, essa abordagem espiritual jamais deve substituir o tratamento médico especializado ou a interrupção dos fármacos prescritos.

 

Referências Bibliográficas

  1. HIPÓCRATES. Da doença sagrada. Tradução de Henrique Cairus. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.
  2. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Epilepsy: a public health imperative. Geneva: World Health Organization, 2019. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241515931. Acesso em: 10 out. 2026.
  1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.
  2. KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 53. ed. Brasília: FEB, 2013.
  3. XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 36. ed. Brasília: FEB, 2011.

 

 

09 outubro 2026

As deformidades cognitivas pretensos “herculanistas”



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo.

Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.

Em nome da pureza doutrinária, condenam Emmanuel, André Luiz, Chico Xavier, Divaldo Franco, Ivone do Amaral Pereira e instituições espíritas, como se a discordância interpretativa fosse prova de desvio doutrinário.

Não estamos defendendo aceitação indiscriminada de toda obra mediúnica. O exame crítico é indispensável. Questionamos, porém, a transformação da crítica em instrumento de exclusão e a pretensão de que determinada corrente detenha o monopólio da interpretação legítima do Espiritismo.

A fidelidade a Kardec não se mede pela quantidade de autores que condenamos, mas pela seriedade com que estudamos, argumentamos e examinamos as ideias e pela transformação moral.

No Livro dos Espíritos, questões 835 a 842, Kardec aborda a liberdade de consciência e os limites da interferência sobre o pensamento alheio. Na questão 837, afirma-se que a liberdade de consciência caracteriza a verdadeira civilização e o progresso. Na questão 841, orienta que a persuasão deve substituir a imposição, pois a convicção não se estabelece pela força (KARDEC, 2013).

Eis uma advertência particularmente oportuna aos que pretendem converter suas interpretações em fronteiras intransponíveis. Podemos discordar de Emmanuel e André Luiz; podemos questionar passagens de Chico Xavier, Divaldo Franco ou Ivone do Amaral Pereira. O que não podemos é substituir a análise fundamentada pelo anátema, como se a autoridade de Kardec dispensasse a demonstração dos argumentos.

Herculano Pires foi um estudioso respeitável, defensor da Codificação e crítico de práticas que considerava incompatíveis com a racionalidade espírita. Sua obra merece leitura atenta, não veneração acrítica.

Em 1976, participou da celebração do Dia Nacional de Ação de Graças promovida na sede do Bradesco, em Osasco, por iniciativa de Amador Aguiar. Na solenidade ecumênica, Herculano proferiu uma prece, ao lado de representantes católicos e protestantes, conforme registro biográfico disponível (RIZZINI, 2000).

O episódio não prova que concordasse com todas as correntes religiosas, mas demonstra que a convivência respeitosa com pessoas de outras tradições não exigia o abandono de sua identidade espírita. É, portanto, imprudente convertê-lo em símbolo de uma intolerância que não decorre automaticamente de sua defesa de Kardec.

A dimensão religiosa do Espiritismo também não pode ser descartada por conveniência interpretativa. No Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec desenvolve as consequências morais dos princípios espíritas. Reduzir essa dimensão a um resíduo indesejável equivale a empobrecer a compreensão da própria obra kardequiana.

Da mesma forma, a identidade espírita não exige submissão a partidos políticos. Os participantes da “facção” Espíritas à Esquerda, assim como os de qualquer outra orientação, possuem liberdade para defender suas convicções. O problema começa quando uma preferência ideológica é apresentada como requisito de autenticidade doutrinária.

Kardec não instituiu uma organização partidária nem autorizou qualquer grupo a monopolizar a consciência dos espíritas. O livre-pensamento exige independência intelectual, inclusive diante daqueles que admiramos.

O verdadeiro respeito a Herculano Pires consiste em estudar sua obra sem transformá-lo em ídolo. A fidelidade a Kardec exige o mesmo rigor: examinar, argumentar e reconhecer os limites das próprias certezas.

Não precisamos de inquisidores “vermelhos” em nome de Kardec, nem de adoradores em nome de Herculano. Precisamos de estudiosos que compreendam que a firmeza doutrinária não dispensa a humildade intelectual e que a fraternidade não exige unanimidade, mas exclui a prepotência como método.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. Livre pensamento e livre consciência. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, fev. 1867.

PIRES, José Herculano. O espírito e o tempo: introdução antropológica ao Espiritismo. São Paulo: Paideia.

RIZZINI, Jorge. J. Herculano Pires: o apóstolo de Kardec. 2000.

A justiça não está acima da lei : O dever constitucional de conter os excessos do poder judiciário




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A democracia não se sustenta apenas pela existência de instituições, mas também pela responsabilidade daqueles que as integram. Sob a perspectiva espírita, o poder não constitui privilégio moral nem autorização para a arbitrariedade: é encargo que exige discernimento, probidade e respeito à dignidade humana.

Temos acompanhado, com crescente preocupação, controvérsias envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), decisões judiciais questionadas e denúncias que alimentam a desconfiança de parcelas da sociedade. É indispensável distinguir críticas legítimas, indícios e acusações ainda não comprovadas. Contudo, nenhuma autoridade pode ser considerada imune à fiscalização republicana.

A Constituição Federal assegura a liberdade de manifestação do pensamento, o devido processo legal e a presunção de inocência. Também atribui privativamente ao Senado Federal a competência para processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade (BRASIL, 1988, arts. 5º e 52, II). Portanto, diante de denúncias juridicamente fundamentadas, cabe à instituição examinar os fatos com independência, responsabilidade e observância dos procedimentos legais. Não se trata de perseguir magistrados, mas de impedir que qualquer poder se transforme em instância incontestável.

Sob o enfoque espírita, essa exigência encontra fundamento na ética da responsabilidade. No Livro dos Espíritos, Kardec relaciona a justiça, o amor e a caridade aos deveres essenciais da convivência humana (KARDEC, 2013, questão 886). A justiça, assim compreendida, não combina com privilégios pessoais, seletividade ou humilhação de quem se encontra submetido à autoridade pública.

Também nos inquieta o sofrimento de pessoas alcançadas por processos e punições que consideram injustos. No caso dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, a apuração individualizada das condutas é indispensável: nem a gravidade dos ataques às instituições autoriza condenações sem provas suficientes, nem a defesa de direitos fundamentais permite ignorar responsabilidades efetivamente demonstradas. A dignidade humana exige justiça individualizada, não culpabilidade coletiva.

A doutrina espírita tampouco nos autoriza a confundir fraternidade com omissão. A indulgência para com as pessoas não significa conivência com erros; significa defender a correção sem alimentar o ódio. Por isso, podemos criticar decisões judiciais, cobrar transparência e exigir responsabilização, sem desumanizar adversários ou antecipar sentenças.

Defendemos, portanto, que o Senado cumpra suas atribuições constitucionais sempre que houver fundamento jurídico para tanto, examinando representações com seriedade e sem conveniências partidárias. A independência judicial é indispensável, mas não equivale à irresponsabilidade. A harmonia entre os Poderes depende de limites recíprocos, respeito às competências e submissão de todos à Constituição.

Como espíritas e cidadãos, temos o dever de preservar a liberdade de consciência e de expressão respeitosa. Uma República verdadeiramente democrática não teme a crítica fundamentada: aperfeiçoa-se por meio dela.

Nenhuma autoridade está acima da lei, e nenhuma instituição se fortalece quando a sociedade teme questioná-la. O Brasil precisa de justiça equilibrada, segurança jurídica e coragem cívica. A restauração da confiança pública começa quando o poder deixa de ser percebido como privilégio e volta a ser compreendido como serviço.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm. Acesso em: 9 out. 2026.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

Espiritismo não tem partido - Uma reflexão necessária sobre o espírita e a liberdade de consciência


Jorge Hessen

Brasília -DF

A participação política é um direito do espírita; a vinculação partidária da doutrina, porém, desfigura sua vocação universalista. Insisto no tema. Porque a militância do chamado Movimento Espírita Progressista (MEP), favorável a determinada candidatura presidencial, reacende uma questão relevante: até que ponto podemos associar as convicções políticas de um grupo aos princípios do Espiritismo? O debate exige serenidade, rigor doutrinário e, sobretudo, respeito à liberdade de consciência.

O Espiritismo não é de esquerda nem de direita. Não é liberal, conservador, socialista ou social-democrata. É uma doutrina filosófica, científica, em seu método de investigação, e de consequências morais, conforme a compreensão kardeciana, que oferece princípios para a reflexão sobre a vida individual e coletiva, sem estabelecer uma plataforma de militância partidária ou um programa eleitoral obrigatório.

Essa distinção não significa afastar os espíritas das questões sociais. A desigualdade, a pobreza, a violência, a corrupção e a dignidade humana merecem nossa atenção e nosso compromisso moral. Entretanto, reconhecer a importância desses problemas não nos obriga a adotar uma única interpretação política, tampouco a apoiar determinado candidato como consequência necessária da fidelidade a Allan Kardec.

No Livro dos Espíritos, especialmente nas questões 835 a 842, Kardec aborda a liberdade de consciência e os limites da imposição de convicções. Esse fundamento é incompatível com qualquer tentativa de constranger a comunidade espírita a uma orientação eleitoral específica (KARDEC, 2013).

Cada espírita, na condição de cidadão, pode apoiar o candidato que considerar mais preparado para enfrentar os desafios nacionais. Pode, igualmente, criticar governos, defender políticas públicas e participar de movimentos sociais. São manifestações legítimas da cidadania. O que não se justifica é apresentar uma preferência particular como se representasse a posição oficial da doutrina ou a consciência de todos os seus adeptos.

Assim, integrantes do MEP têm plena liberdade para defender suas convicções progressistas. O mesmo direito pertence aos espíritas que sustentam posições liberais, conservadoras ou outras orientações políticas. A divergência não constitui, por si só, desvio moral, atraso espiritual ou infidelidade a Kardec.

O problema surge quando qualquer corrente pretende converter sua interpretação política em parâmetro de legitimidade doutrinária. A caridade, a justiça e a fraternidade não são patrimônios exclusivos de partidos. Tampouco a defesa da liberdade, da responsabilidade individual e da transformação moral pode ser monopolizada por uma ideologia.

No Evangelho segundo o Espiritismo, a caridade ocupa lugar central na renovação moral. Seu alcance, porém, ultrapassa fronteiras partidárias e não pode ser reduzido a instrumento de propaganda eleitoral (KARDEC, 2013).

O caráter apartidário do Espiritismo não significa indiferença política, mas independência doutrinária diante dos partidos. Podemos participar ativamente da vida pública sem transformar centros espíritas em palanques, instituições em comitês eleitorais ou divergências políticas em disputas de superioridade moral.

A doutrina pertence ao campo universal dos princípios espirituais; o voto pertence à consciência de cada cidadão. Preservar essa distinção é respeitar Kardec, proteger a pluralidade e impedir que interesses circunstanciais se sobreponham à finalidade essencial do Espiritismo: contribuir para o progresso intelectual e moral da humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

08 outubro 2026

Ceticismo ou estupidez ? A soberba intelectual no debate espírita



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Questionar é legítimo. Transformar a própria opinião em régua absoluta da verdade é palermice.  Há uma curiosa modalidade de “espiritismo” ganhando espaço nas redes sociais: aquela que parece nascer menos do estudo sereno das obras espíritas e mais da necessidade de desqualificar tudo aquilo que não cabe na interpretação particular de seus divulgadores.

Questionar é legítimo. Discordar também. O próprio Allan Kardec jamais recomendou submissão intelectual. Ao contrário, o Espiritismo fundamenta-se no livre exame, na razão e na ausência de fé cega. Mas há uma diferença monumental entre exercer o pensamento crítico e transformar a própria opinião em tribunal da verdade.

Alguns comunicadores, apresentados como “simpatizantes” ou até como espíritas, passaram a tratar as obras de André Luiz, Emmanuel, Manoel Philomeno de Miranda e Ivone do Amaral Pereira com indisfarçável desdém. Rejeitam, por exemplo, descrições da vida espiritual, instituições de acolhimento, mecanismos de assistência aos desencarnados e diferentes experiências no mundo invisível. Tudo aquilo que não coincide com sua interpretação é rapidamente classificado como fantasia, crendice ou invenção.

Mas com que autoridade? Não estamos obrigados a aceitar integralmente nenhuma obra mediúnica. Tampouco precisamos transformar Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco ou Ivone do Amaral Pereira em figuras infalíveis. A própria doutrina espírita não admite infalibilidade humana. O que não podemos fazer é substituir o exame racional pela desqualificação sumária.

Chico Xavier produziu, ao longo de décadas, uma obra psicográfica monumental, examinada por gerações de estudiosos. Emmanuel e André Luiz ofereceram informações que ampliaram, para milhões de leitores, a compreensão sobre a vida espiritual. Divaldo Pereira Franco tornou-se um dos mais conhecidos médiuns e divulgadores espíritas do mundo. Ivone do Amaral Pereira legou obras de extraordinária riqueza espiritual e literária. Manoel Philomeno de Miranda, pela psicografia de Divaldo, aprofundou questões relacionadas à obsessão, ao sofrimento e aos processos de assistência espiritual.

Tudo isso pode e deve ser estudado criticamente. O que não é intelectualmente honesto é fingir que esses autores não existem, ridicularizar seus conteúdos e, simultaneamente, apresentar a própria leitura como se fosse a expressão definitiva do Espiritismo.

Há, nesse comportamento, uma contradição evidente: proclama-se “não sou dono da verdade”, mas o discurso é construído para induzir o público a concluir justamente isso: “sigam-me, porque eu descobri o que os outros não compreenderam”.

A internet amplificou esse fenômeno. O algoritmo premia a contundência, não necessariamente a competência. E a frase provocativa frequentemente conquista mais audiência que o estudo paciente de Kardec.

Nós precisamos, portanto, de uma crítica espírita que seja crítica sem ser iconoclasta; racional sem ser arrogante; independente sem ser presunçosa. O Espiritismo não precisa de novos donos da verdade. Precisa de estudiosos dispostos a confrontar ideias sem transformar divergências em guerras de vaidade.

Kardec ensinou-nos que o verdadeiro espírita se reconhece pela transformação moral e pelo esforço em dominar suas más inclinações. A humildade intelectual também é uma dessas inclinações que precisamos cultivar.

Não somos obrigados a acreditar em tudo. Mas também não temos o direito de chamar de ignorantes aqueles que encontram sentido em informações que ainda não compreendemos.

A dúvida honesta engrandece, tanto quanto a investigação esclarece e, obviamente, a discordância pode educar.

Já a soberba apenas faz barulho. E, no Espiritismo, barulho nunca foi sinônimo de dono da verdade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Brasília, DF: FEB, 2020.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: FEB, 2019.

FRANCO, Divaldo Pereira. Tormentos da Obsessão. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2001.

PEREIRA, Yvonne do Amaral. Memórias de um Suicida. Pelo Espírito Camilo Cândido Botelho. Brasília, DF: FEB, 2017.