23 maio 2026

O culto à personalidade e a vã procura de Emmanuel “reencarnado”, até quando, Senhor?



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É com certa perplexidade que observamos certos segmentos do movimento espírita “tupiniquim” do Brasil envolvidos numa espécie de “caça mística” para descobrir onde estaria reencarnado o Espírito Emmanuel. Daí, surgem especulações pueris, suposições fantasiosas e verdadeiras campanhas de exaltação em torno de “ungidos” e/ou confrades apontados e, sem qualquer critério sério, como sendo o antigo mentor espiritual de Francisco Cândido Xavier.

É um fenômeno lamentável. Em vez de estudo sério, vemos adivinhação. Em vez de reflexão doutrinária constatamos  idolatria e o pior, em vez de Evangelho, percebemos o abominável personalismo.

O mais grave é perceber que, tão logo alguém é cogitado como “suposta reencarnação de Emmanuel”, inicia-se um processo de “endeusamento”. Muitos passam a tratar tal pessoa como missionária excepcional, portadora de autoridade espiritual automática, quase um “oráculo vivo”. Esquecem-se de que o Espiritismo jamais autorizou culto a médiuns, líderes religiosos ou Espíritos comunicantes.

Allan Kardec advertiu inúmeras vezes contra os perigos da fascinação e do misticismo. Em O Livro dos Médiuns, mostrou que o verdadeiro espírita deve submeter tudo ao crivo da razão e do bom senso. O Espiritismo nasceu para libertar consciências, não para fabricar ídolos religiosos ou de qualquer espécie.

A Doutrina Espírita não foi edificada sobre nomes, celebridades espirituais ou mitologias personalistas. Seu fundamento repousa nas leis morais universais, na transformação moral e no aperfeiçoamento do ser. Quando o movimento espírita troca o estudo sério pela veneração de indivíduos, aproxima-se perigosamente das práticas sectárias que o próprio Espiritismo combateu desde o século XIX.

É impressionante como muitos ignoram a própria lógica reencarnatória. Se Emmanuel tivesse retornado à Terra — hipótese sobre a qual não há confirmação confiável —, seria razoável imaginar que desejasse anonimato, trabalho humilde e discrição. Espíritos verdadeiramente superiores fogem da glorificação humana. Jamais estimulam fanatismos em torno de si.

Essa obsessão em descobrir “quem foi quem” revela imaturidade espiritual. Há pessoas mais preocupadas em rastrear antigas identidades espirituais do que em corrigir as próprias imperfeições morais. Querem saber onde está Emmanuel, mas não sabem onde está o Evangelho dentro de si mesmos.

O movimento espírita brasileiro, infelizmente, ainda carrega fortes traços messiânicos e emocionalistas. Muitos preferem a fantasia consoladora ao estudo metódico da Codificação. Criam “mitologias espíritas”, alimentam rumores e transformam conjecturas em dogmas emocionais. Isso enfraquece a credibilidade doutrinária e produz um ambiente propício ao misticismo leviano.

O Espiritismo sério não necessita dessas novelas espirituais. A Doutrina já possui um patrimônio filosófico e moral imenso, construído sobre racionalidade, universalidade e responsabilidade ética. Léon Denis ensinava que o Espiritismo deve iluminar consciências e não estimular superstições emocionais.

É preciso dizer claramente: ninguém se torna autoridade moral porque supostamente teria sido Emmanuel, André Luiz ou qualquer outro Espírito conhecido. O valor espiritual de alguém se mede pelas virtudes demonstradas, não pelas narrativas fantasiosas construídas em torno de seu passado espiritual.

Enquanto parte do movimento espírita continuar vivendo de celebridades mediúnicas, disputas de vaidade e culto à personalidade, permanecerá distante do espírito crítico e libertador da Codificação.

Até quando?

Até quando o Espiritismo brasileiro trocará o estudo pela idolatria?

Até quando alguns transformarão médiuns e Espíritos em figuras de veneração quase religiosa?

Até quando a emoção desgovernada sufocará a razão kardeciana?

O verdadeiro espírita não procura “reencarnações de ídolos dos além”. Procura transformar a si mesmo.

 

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2023.

O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2022.

Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

 

22 maio 2026

Maria de Magdala: a “ressurreição” do espírito

 



Jorge Hessen

Brasília -DF


A trajetória de Maria de Magdala permanece como uma das mais comoventes narrativas do cristianismo. Mais do que personagem histórica, ela simboliza a capacidade humana de renovação moral diante do amor de Jesus. Entre a opulência de Magdala e o serviço aos hansenianos”, sua vida representa a vitória do espírito sobre as ilusões transitórias da matéria.

Natural de Magdala, antiga cidade situada às margens do Mar da Galileia, Maria tornou-se conhecida pela fortuna, beleza e influência social. A tradição cristã, ao longo dos séculos, associou sua imagem à de uma mulher “pecadora”. Entretanto, muitos estudiosos observam que os Evangelhos não afirmam explicitamente que ela fosse prostituta. O que se sabe com segurança é que sofria intensamente e que foi profundamente transformada pelo encontro com Jesus.

Segundo o Evangelho de Lucas, Maria aproximou-se do Mestre durante um banquete na casa de Simão. Em gesto de extrema humildade, ungiu-lhe os pés com perfume, regando-os com lágrimas e enxugando-os com os cabelos. Diante da indignação dos presentes, Jesus proclamou: “Os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou” (Lc 7:47).

Para Allan Kardec, o verdadeiro milagre do Evangelho não reside apenas nos fenômenos físicos, mas na transformação moral do ser humano. No Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec ensina que “fora da caridade não há salvação”, princípio perfeitamente exemplificado pela mudança interior de Madalena.

Léon Denis recorda que o sofrimento pode converter-se em instrumento de ascensão espiritual quando aceito como oportunidade de renovação. Maria Madalena transformou a dor íntima em dedicação ao próximo, tornando-se exemplo de amor redentor.

A tradição espiritualista relata que, após a crucificação, Madalena permaneceu ao pé da cruz ao lado de Maria de Nazaré e de João Evangelista, demonstrando fidelidade incomum num momento em que muitos discípulos haviam fugido. Mais tarde, foi ela a primeira a encontrar o Cristo “ressuscitado” junto ao sepulcro vazio. O Evangelho de João descreve o instante sublime em que Jesus a chama pelo nome: “Maria!”. Ao reconhecê-lo, exclama emocionada: “Raboni!” (Jo 20:16).

Comentando essa passagem, Chico Xavier, pela psicografia de Emmanuel, afirma que ninguém realizou “tanta violência contra si mesmo” para seguir Jesus quanto Madalena. Emmanuel destaca que o Cristo apareceu primeiro a ela porque sua transformação moral representava uma das mais belas vitórias do amor divino.

Também André Luiz ensina que a verdadeira renovação ocorre nas profundezas da consciência, quando o espírito abandona as paixões inferiores e desperta para o serviço ao bem. Maria de Magdala personifica essa “ressurreição da alma”.

Na visão humanista de Bezerra de Menezes, Jesus jamais marginalizou os caídos; ao contrário, ofereceu-lhes novas possibilidades de reerguimento. Madalena foi uma dessas almas acolhidas pela misericórdia do Cristo.

Após os acontecimentos da ressurreição, antigas tradições relatam que Maria passou a auxiliar enfermos e leprosos, dedicando os últimos anos de vida ao consolo dos sofredores. Sua existência deixa de representar apenas redenção individual para tornar-se testemunho permanente de benevolência, indulgência , perdão e de amor ao próximo.

Divaldo Pereira Franco frequentemente recorda que Madalena simboliza a esperança para todos aqueles que desejam recomeçar. Nenhuma queda é definitiva quando o espírito decide caminhar em direção à luz.

A chamada “ressurreição” de Madalena foi mais profunda do que a do corpo de Lázaro. Lázaro voltou temporariamente à existência física; Madalena ressurgiu para a vida espiritual autêntica. Sua transformação continua sendo um dos maiores testemunhos da força regeneradora do amor de Jesus.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de Saúde e de Consciência. Salvador: LEAL, 2007.

PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1964.

A dor é nossa amiga e age como cinzel divino para nossa evolução



 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

A humanidade foge da dor desde os tempos mais antigos. Busca-se o prazer, o conforto, a estabilidade e a ausência de dor como se isso representasse a verdadeira felicidade. Entretanto, a experiência humana demonstra exatamente o contrário: são as grandes dores que frequentemente transformam as criaturas, despertam consciências e renovam destinos.

À luz da Doutrina Espírita, a dor não é punição arbitrária de Deus. Ela possui finalidade educativa. Allan Kardec ensina que Deus, sendo soberanamente justo e bom, não cria dores inúteis. Toda aflição possui causa, objetivo e valor moral. Em muitos casos, a dor é o instrumento através do qual o espírito corrige excessos, aprende limites e reconstrói a própria caminhada.

O espírito André Luiz apresenta interessante classificação da dor. Existe a “dor-evolução”, aquela inerente ao crescimento. O ferro suporta o golpe do malho para adquirir utilidade; a semente precisa romper-se na terra para produzir frutos; a criança enfrenta desconfortos físicos e emocionais enquanto desenvolve os próprios órgãos e amadurece a consciência. Em toda a natureza, crescer exige transformação, e transformação quase sempre envolve dor.

Sem desafios, o ser humano permaneceria acomodado. A facilidade excessiva costuma alimentar o egoísmo, a ilusão de poder e a superficialidade espiritual. Quantos somente despertam para valores nobres depois de atravessarem perdas, enfermidades ou crises profundas? Muitas vezes, é no silêncio das lágrimas que a criatura reencontra Deus.

Há também a chamada “dor-expiação”, vinculada aos desequilíbrios criados pelo próprio espírito. Não como castigo eterno, mas como consequência educativa da Lei Divina. Cada ação produz reflexos inevitáveis. O orgulho gera solidão; a violência produz dor; os abusos morais criam prisões íntimas. A reencarnação surge, então, como oportunidade misericordiosa de reajuste e aprendizado.

Entretanto, uma das reflexões mais profundas apresentadas por André Luiz refere-se à “dor-auxílio”. Certas enfermidades longas e dolorosas podem funcionar como proteção espiritual. Muitas criaturas, dominadas por paixões destrutivas, seriam capazes de mergulhar em crimes, abusos e desequilíbrios ainda maiores se não fossem detidas por limitações físicas ou provas dolorosas.

O enfarte, a trombose, o câncer, as limitações neurológicas e até determinadas fragilidades da velhice podem representar, em algumas circunstâncias, mecanismos de misericórdia divina. Enquanto o corpo enfraquece, a alma é convidada à reflexão, à humildade e ao preparo para o retorno à vida espiritual. Aquilo que parece tragédia aos olhos humanos pode constituir socorro providencial perante as leis da eternidade.

Léon Denis afirmava que “a dor é a escola das almas”. Já Emmanuel esclarece que a dor funciona como um cinzel divino lapidando imperfeições do espírito. Não significa exaltar a dor nem buscar deliberadamente. O espiritismo recomenda tratamento médico, amparo psicológico, oração e solidariedade. Toda dor pode e deve ser aliviada sempre que possível. Porém, também precisa ser compreendida em sua dimensão espiritual.

A sociedade moderna transformou o prazer imediato em meta absoluta. Qualquer dor é vista como fracasso. Contudo, a existência terrestre é transitória, enquanto a alma é imortal. Sob essa perspectiva, muitas dores atuais representam investimentos divinos na construção de um ser humano melhor no futuro.

A dor, quando revoltada, pode endurecer o coração. Mas, quando compreendida com maturidade espiritual, converte-se em instrumento de iluminação, despertando compaixão, equilíbrio e sabedoria. Em muitos momentos da vida, aquilo que mais feriu foi exatamente o que mais ensinou.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2017.

XAVIER, Francisco Cândido. Ação e Reação. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2018

21 maio 2026

Assistencialismo ou “repasses” de coisas como cajado psicológico?




 Jorge Hessen

Brasília DF

 

Insisto no tema por observar “fazedores” de coisas para os vulneráveis econômicos sem esforço de mudança de caráter. Há quem transforme o ato de dar, de oferecer algo a quem tem menos, numa espécie de encosto interno — uma verdadeira muleta psicológica para se sustentar diante de si mesmo.

Para essas pessoas, a doação não nasce de um impulso genuíno de auxiliar, mas sim da necessidade de preencher vazios, aliviar culpas ou construir uma imagem proeminente de si mesmas.

E há uma razão profunda para isso: quem é amargo consigo mesmo, que carrega ressentimentos, insatisfação e dureza com a própria existência, não é capaz de viver um conforto íntimo e verdadeiro ao doar.

Por mais que entreguem bens transitórios, alimentos ou recursos, o gesto permanece frio, desprovido daquela ligação humana que torna o auxílio algo significativo. A amargura que habita dentro deles não deixa espaço para a generosidade sincera; a doação se torna apenas um ato mecânico, uma forma de tentar compensar o que lhes falta por dentro, sem nunca conseguir sentir a paz ou a satisfação que vem de um coração realmente disposto a compartilhar.

No fundo, a verdadeira solidariedade só floresce quando a pessoa está em paz consigo mesma. Quem não consegue ser gentil com o próprio ser também não consegue dar algo que tenha valor real ao próximo — pois o que se doa reflete sempre o que se tem dentro de si.

Há ainda um sinal bastante sutil: aqueles excessivamente vinculados à “fazeção de coisas” costumam revelar pouca tolerância diante das imperfeições alheias, exatamente o contrário da visão kardeciana de caridade, que exige indulgência e benevolência. Assim, o ativismo pode tanto servir de mecanismo de fuga quanto de valiosa escola evolutiva — tudo dependerá do grau de consciência e maturidade espiritual de quem realiza a ação.

Sempre digo que o ponto essencial não está simplesmente em “fazer” ou “deixar de fazer”, mas na intenção e na consciência com que se age no assistencialismo. Quando a ação produz humildade, ela se converte em instrumento de educação do espírito. Contudo, quando alimenta a prepotência , acaba apenas fortalecendo a sombra do ego.

Da mesma forma, evitar conflitos íntimos pode representar mera fuga da realidade interior; porém, se a experiência assistencialista  amplia a capacidade de compreender, servir e amar, então estamos diante da verdadeira caridade.

 

 

20 maio 2026

A bebida alcoólica e a ilusão do enganoso “só um gole”







Jorge Hessen

Brasília -DF

O vinho é escarnecedor e a bebida forte alvoroçadora; todo aquele que por eles é vencido não é sábio.” — Provérbios 20:1.

A ingestão de bebidas alcoólicas constitui um dos mais graves problemas médico-sociais da atualidade. Embora socialmente glamourizado, o álcool continua destruindo famílias, adoecendo jovens, incentivando a violência e comprometendo bilhões de consciências.

A propaganda sedutora da indústria alcoólica, especialmente difundida pela televisão e pelas redes sociais, transforma o vício em símbolo de status, diversão e aceitação social, anestesiando a percepção moral sobre seus efeitos devastadores.

No Evangelho, encontramos clara advertência quanto aos excessos. Sobre João Batista, registra Lucas: “não beberá vinho nem bebida forte” (Lc 1:15). A orientação evangélica aponta para a vigilância e o equilíbrio, jamais para a exaltação dos prazeres intoxicantes.

Sob a ótica espírita, o alcoolismo não é apenas enfermidade física ou psicológica: é também processo de grave comprometimento espiritual. Divaldo Pereira Franco, pela psicografia de Victor Hugo, afirma que a obsessão através do alcoolismo é muito mais ampla do que aparenta, tornando o indivíduo instrumento de forças perturbadoras. O vício corrói lentamente à vontade, enfraquece os mecanismos de defesa moral e abre campo às influências espirituais inferiores.

Entretanto, ainda há quem tente justificar “pequenas concessões” com argumentos frágeis: “todo mundo bebe”, “socialmente não faz mal”, “uma taça faz bem ao coração”. Tal retórica permissiva apenas mascara uma tragédia coletiva. O primeiro gole raramente permanece sozinho. Quase toda dependência começou um dia sob o pretexto inocente do “só hoje” ou “só um pouquinho”.

Joanna de Ângelis adverte que não devemos nos comprometer com o hábito da bebida sob qualquer pretexto festivo ou social. Pequenas permissividades constroem grandes escravidões. Uma gota de veneno pode bastar para desencadear consequências irreversíveis.

O quadro torna-se ainda mais alarmante entre adolescentes. Especialistas apontam que o álcool funciona frequentemente como porta de entrada para drogas mais destrutivas. O estímulo familiar e cultural ao consumo precoce tem reduzido drasticamente a idade de iniciação alcoólica. Jovens de 12 ou 13 anos já apresentam padrões de abuso outrora observados apenas em adultos. A banalização da bebida cria uma geração emocionalmente fragilizada, vulnerável à violência, aos acidentes e às dependências químicas severas.

No Brasil, o alcoolismo permanece como grave questão de saúde pública. Hospitais, clínicas psiquiátricas, delegacias e cemitérios testemunham diariamente os efeitos da embriaguez. Violência doméstica, acidentes de trânsito, homicídios, suicídios e desestruturação familiar possuem frequentemente o álcool como agente silencioso.

Infelizmente, alguns adeptos espíritas adotam perigosa incoerência: defendem a disciplina moral no discurso, mas relativizam os próprios hábitos. Criam um “espiritismo de conveniência”, no qual os princípios doutrinários servem para os outros, jamais para si mesmos. Esquecem que nem tudo o que é comum na sociedade é moralmente saudável.

A verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em possuir domínio sobre si mesmo. Allan Kardec recorda, em O Evangelho segundo o Espiritismo, ensinamento ditado por Hahnemann: “o homem não permanece vicioso senão porque quer permanecer vicioso”. A renovação moral exige disciplina, vigilância e coragem para romper hábitos nocivos.

Num mundo marcado pelo culto aos excessos, resistir ao alcoolismo é ato de lucidez espiritual. Quem preserva a própria consciência dos entorpecentes protege não apenas o corpo, mas também a dignidade da alma.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

FRANCO, Divaldo Pereira Franco. Calvário de Libertação. Pelo Espírito Victor Hugo. Salvador: Alvorada, 1979.

FRANCO, Divaldo Pereira Franco. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Rio de Janeiro: FEB, 1983.

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Provérbios 20:1; Lucas 1:15.

JORNAL MUNDO ESPÍRITA. Editorial. Federação Espírita do Paraná, jul. 2002.

REVISTA ÉPOCA. Consumo precoce de álcool preocupa especialistas. Rio de Janeiro, 29 jul. 2002.

Lacração? Kardec não é porta-voz de agendas ideológicas pessoais






Jorge Hessen

Brasília -DF

 Com a polarização política, o termo Lacração foi apropriado por grupos “conservadores”. Hoje, é amplamente utilizado de forma pejorativa, principalmente nas redes sociais e na crítica cultural, para deslegitimar obras de arte, filmes ou discursos focados em diversidade, acusando-os de impor agendas políticas de forma forçada.

Trazendo o tema para as hostes espiritas e apropriando-nos do termo, percebemos com certa frequência os chamados “lacradores” da interpretação espírita, que tentam aprisionar o pensamento de Allan Kardec em categorias ideológicas estreitas, como “conservador”, “liberal”, “progressista”, “reacionário” ou quaisquer outros rótulos humanos e transitórios. Entretanto, a obra kardequiana ultrapassa essas reduções simplistas.

O pensamento de Kardec é profundamente racional, mas igualmente moral e amoroso. Ele jamais construiu um sistema de fanatismo político, nem um mecanismo de dominação ideológica. Seu compromisso foi com a verdade, com a lógica, com a observação dos fatos e, sobretudo, com a transformação moral do ser humano.

Quando Kardec defende a prudência, a disciplina moral e a responsabilidade espiritual, alguns o chamam de conservador. Quando combate privilégios, preconceitos, castas e desigualdades, outros o classificam como liberal ou progressista. Todavia, Kardec não pertence a nenhuma trincheira humana. Seu pensamento é supraideológico, porque se fundamenta nas leis espirituais, que transcendem as paixões políticas e culturais de cada época.

A Doutrina Espírita não foi criada para servir de plataforma de militância emocional, nem para satisfazer vaidades intelectuais ou disputas de poder dentro do movimento espírita. O Espiritismo é, antes de tudo, um convite à renovação íntima, à fraternidade e à emancipação da consciência.

O problema dos “lacradores” modernos é que frequentemente substituem o estudo sério pela teatralização das opiniões. Em vez de investigarem profundamente O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo ou A Gênese, preferem adaptar a Doutrina às modas culturais do momento, tentando fazer de Kardec um porta-voz das próprias agendas pessoais.

Entretanto, Kardec foi um homem de equilíbrio admirável. Defendia a liberdade de consciência, mas repudiava os excessos da intolerância. Incentivava o progresso, mas advertia contra os perigos do orgulho intelectual. Exaltava a razão, mas nunca divorciada do amor e da humildade.

O verdadeiro espírita não deve cair nem no dogmatismo endurecido nem no emocionalismo superficial. O Espiritismo pede reflexão madura, estudo contínuo e caridade real. Reduzir Kardec a um “rótulo ideológico” é reduzir a universalidade da Doutrina Espírita.

Como ensinava Allan Kardec, “fora da caridade não há salvação”. Essa máxima não é de direita nem de esquerda; não é conservadora nem progressista. É uma lei espiritual destinada à evolução de toda a humanidade.


19 maio 2026

Congressos “espíritas” palestrantes “ungidos” e a vil mercantilização da fé





Jorge Hessen

Brasília -DF

A crescente profissionalização de determinados eventos “espíritas” exige reflexão séria e corajosa por parte do Movimento Espírita brasileiro. Multiplicam-se congressos grandiosos, seminários caros, encontros elitizados e atividades doutrinárias cercadas de forte aparato comercial e personalista, enquanto o ideal de simplicidade ensinado por Jesus e defendido por Allan Kardec vai sendo gradativamente relegado a plano secundário.

A discussão não é nova. Em fevereiro de 1994, o Conselho Federativo Estadual da Federação Espírita do Paraná analisou a crescente prática de cobrança de taxas de inscrição em eventos espíritas. O documento elaborado à época demonstrou rara lucidez ao reconhecer que determinadas promoções poderiam exigir custos inevitáveis com alimentação, hospedagem ou infraestrutura. Entretanto, estabeleceu princípio moral inegociável: a cobrança jamais poderia transformar-se em obstáculo ao acesso à mensagem espírita nem converter a divulgação doutrinária em mecanismo de arrecadação financeira.

Essa advertência permanece profundamente atual.  Em muitos casos, os chamados “congressões espíritas” passaram a reproduzir métodos típicos do mercado religioso contemporâneo. Repetem-se as mesmas “figurinhas carimbadas”, escolhidas não necessariamente pela profundidade doutrinária, mas pelo poder de atração de público.

Criou-se uma espécie de celebrização de palestrantes, em que determinados nomes ungidos funcionam como marcas comerciais capazes de garantir auditórios lotados, venda de livros e sustentabilidade financeira dos eventos. A consequência inevitável é a espetacularização da fé.

Substitui-se o estudo sério pela emoção superficial; a reflexão doutrinária pela performance; a simplicidade evangélica pela grandiosidade institucional. Muitos encontros acabam mais próximos de feiras religiosas do que propriamente de ambientes de estudo espírita.

Não se trata de negar a necessidade material das instituições. Auditórios possuem custos. Equipamentos demandam manutenção. Eventos exigem organização. Todavia, o problema começa quando a lógica financeira passa a determinar a própria dinâmica doutrinária.

O documento da Federação Espírita do Paraná foi extremamente feliz ao afirmar que “os fins não justificam os meios”. Tal orientação possui enorme profundidade ética. Em nome da arrecadação, alguns grupos espíritas passaram a tolerar práticas incompatíveis com os princípios da Codificação, como excessiva comercialização de produtos, apelos mercadológicos e verdadeira profissionalização das atividades religiosas.

O Espiritismo jamais foi concebido como produto de consumo. Jesus Cristo ensinou: “Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes”. Kardec, por sua vez, sempre demonstrou preocupação com qualquer tentativa de exploração material da Doutrina Espírita. O caráter moral e educativo do Espiritismo exige coerência entre finalidade e método.

Além disso, há grave consequência sociológica nesse modelo de megaeventos: a elitização do acesso ao conhecimento espírita. Muitos confrades humildes não conseguem participar de congressos devido aos altos valores cobrados. Cria-se, assim, uma divisão silenciosa entre os que podem consumir determinados espaços doutrinários e aqueles que permanecem excluídos deles.

Paradoxalmente, uma doutrina fundada sobre fraternidade e universalidade corre o risco de adotar critérios semelhantes aos do mercado capitalista religioso.

Outro aspecto preocupante é o personalismo crescente. O Movimento Espírita corre sério perigo quando determinadas lideranças “santificadas” passam a concentrar excessiva visibilidade, transformando-se em referências quase intocáveis. O foco deixa de ser a mensagem espírita para recair sobre a figura do “ungido” expositor. Onde há culto à personalidade, inevitavelmente surgem distorções doutrinárias, fascinação e dependência emocional.

O verdadeiro centro do Movimento Espírita deve continuar sendo o estudo da obra kardequiana e a vivência do Evangelho, jamais o brilho de estruturas grandiosas ou a popularidade de expositores. Até porque a autenticidade espírita não se mede pelo tamanho dos auditórios, pela sofisticação dos eventos ou pelo volume arrecadado, mas pela fidelidade aos princípios morais do Cristo.

O Espiritismo necessita urgentemente recuperar a simplicidade. Menos espetáculo. Menos marketing religioso. Menos comércio da fé. Mais estudo, fraternidade e coerência evangélica.

 

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

Conduta Espírita. Psicografia de Waldo Vieira. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

Estude e Viva. Psicografia de Chico Xavier e Waldo Vieira. Rio de Janeiro: FEB, 2016.

Federação Espírita do Paraná. Conselho Federativo Estadual. Diretrizes sobre eventos doutrinários e captação de recursos. Curitiba, 1994.

 

18 maio 2026

A obsessão pela “sorte” tem aniquilado famílias, carreiras e valores morais.




 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Existem estudos mostrando que muitos “sortudos” ganhadores de loteria enfrentam dificuldades financeiras alguns anos após receberem grandes prêmios e voltam à estaca zero e às vezes em condições financeiras muito piores. Há inúmeros casos que revelam falências, conflitos familiares, vícios, depressão e perdas patrimoniais após enriquecimento repentino. O dinheiro fácil, sem preparo emocional e sem educação financeira, frequentemente transforma-se em instrumento de muita perturbação e desequilíbrio generalizado.

Sob o ponto de vista moral e espiritual, a ilusão da fortuna instantânea alimenta fantasias incompatíveis com a lei do esforço e do mérito. Muitos passam a acreditar que a felicidade pode ser comprada por um golpe de sorte, esquecendo-se de que o verdadeiro patrimônio do Espírito é construído pelo trabalho digno, pela disciplina e pela perseverança. A chamada “sorte” não substitui a maturidade necessária para administrar recursos materiais com equilíbrio e responsabilidade.

Os jogos de azar, inclusive as modernas apostas virtuais (“tigrinhos”), exploram justamente a fragilidade psicológica da esperança fácil. Prometem riqueza rápida, mas frequentemente conduzem ao endividamento, à ansiedade e à dependência emocional. Em muitos casos, a pessoa deixa de investir em qualificação, trabalho produtivo e planejamento financeiro para viver alimentando expectativas irreais.

A Doutrina Espírita valoriza o trabalho como instrumento de progresso moral e intelectual. O Livro dos Espíritos ensina que o trabalho é lei da Natureza e condição necessária ao desenvolvimento humano. Allan Kardec esclarece que toda conquista sólida resulta do esforço consciente e da responsabilidade pessoal. Da mesma forma, Chico Xavier costumava lembrar que “o dinheiro abençoado é aquele que chega pelo trabalho honesto e serve ao bem”.

Isso não significa condenar quem eventualmente participa de uma loteria ocasionalmente, mas é necessário alertar para a mentalidade perigosa da riqueza sem esforço, hoje amplificada pelas plataformas digitais de apostas e cassinos eletrônicos. A obsessão pelo ganho imediato pode destruir famílias, carreiras e valores morais.

Muitos apostadores passam a viver em função de uma expectativa fantasiosa, sacrificando o equilíbrio financeiro e emocional da família. A fascinação pelo jogo pode transformar-se numa escravidão mental. O que começa como distração termina, frequentemente, em compulsão da jogatina nesse sanatório global lembrada aqui como metáfora para descrever o estado atual da sociedade e/ou da internet, como um ambiente caótico e completamente doente.

Há pessoas que comprometem salários, patrimônio e até relações afetivas na tentativa desesperada de recuperar perdas. É um ciclo cruel: quanto mais se perde, mais se aposta na ilusão de recuperar.

A verdadeira fortuna não nasce do acaso (do jogo), mas do esforço honesto, da perseverança e da administração equilibrada da vida. A paz íntima jamais será encontrada em bilhetes ou apostas, mas na consciência tranquila de quem constrói o próprio destino com trabalho, ética e fé no futuro.

A verdadeira prosperidade nasce da consciência tranquila, do trabalho honrado, da administração prudente e da confiança em Deus. O patrimônio material pode desaparecer; entretanto, ninguém perde os patrimônios imperecíveis conquistados pelo estudo, pela honestidade e pelo esforço próprio.

Delírio no movimento espírita e a “fascinante” reencarnação de Kardec em Chico Xavier





Jorge Hessen

Brasília -DF

A Doutrina Espírita, edificada por Allan Kardec sob bases racionais, filosóficas e morais, jamais incentivou especulações fantasiosas acerca de “quem foi quem” nas sucessivas existências corporais. Entretanto, ainda persistem no movimento espírita brasileiro certas ideias simplistas e improdutivas, entre elas a velha tese de que Chico Xavier teria sido a reencarnação de Kardec. Trata-se de uma hipótese sem sustentação doutrinária, sem coerência lógica e absolutamente estéril do ponto de vista moral.

O Espiritismo não foi criado para alimentar curiosidades personalistas nem para produzir mitologias em torno de médiuns venerados. Seu objetivo essencial é a transformação moral do ser humano. Kardec foi categórico ao afirmar que o verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços para domar suas más inclinações. Portanto, discutir obsessivamente supostas identidades espirituais revela desvio do foco doutrinário e perigosa tendência à fascinação.

A fascinação, aliás, é amplamente estudada por Kardec no Livro dos Médiuns. Nela, o Codificador explica que o fascinado perde o senso crítico e passa a aceitar ideias absurdas sem análise racional. Muitos adeptos dessas teses circenses agem exatamente assim: abandonam o critério kardequiano para mergulhar em conjecturas emocionalistas e cultos de personalidade.

Nem o próprio Chico Xavier admitiu semelhante absurdo. Pelo contrário: sempre demonstrou humildade extrema, reconhecendo-se apenas como servidor imperfeito do Cristo. Em inúmeras entrevistas, Chico evitava qualquer exaltação pessoal e combatia o personalismo dentro do Espiritismo. Atribuir-lhe a condição de Kardec reencarnado contraria frontalmente sua postura moral e espiritual.

Também Divaldo Franco diversas vezes advertiu sobre os perigos da mistificação e do fanatismo no meio espírita. O médium baiano recorda que o Espiritismo deve permanecer fiel à razão e ao bom senso, sem criar “santos espíritas” nem dogmas emocionais. Quando o movimento abandona a análise crítica, cai inevitavelmente no misticismo que Kardec tanto combateu.

Nas consagradas obras de André Luiz observa-se constante valorização do esforço íntimo, da disciplina mental e do serviço ao próximo. Em nenhum momento existe estímulo para especulações vaidosas sobre identidades passadas. O foco é sempre a transformação moral. Já Emmanuel advertia que o Espiritismo perderia sua finalidade se fosse transformado em palco de fantasias e disputas personalistas.

Do mesmo modo, Bezerra de Menezes sempre defendeu a união espírita baseada na caridade, na humildade e no estudo sério da Doutrina. Alimentar teorias fantasiosas apenas estimula divisões inúteis, idolatrias e infantilizações incompatíveis com a maturidade filosófica do Espiritismo.

A fascinação (obsessão) em descobrir reencarnações famosas revela, muitas vezes, profunda imaturidade espiritual. É mecanismo psicológico de fuga diante do verdadeiro desafio espírita: ressignificar o egoísmo, o orgulho e a vaidade. Enquanto alguns discutem fantasiosamente se Chico foi Kardec, esquecem-se da tarefa essencial de viver os ensinos morais do Evangelho.

O Espiritismo não necessita dessas narrativas fantasiosas para validar sua grandeza. Sua força está justamente na racionalidade, na universalidade do ensino dos Espíritos e no convite permanente ao aperfeiçoamento moral. Fora disso, sobram apenas emocionalismo, fascinação e ilusão.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2020.

XAVIER, Francisco Cândido. Pinga-Fogo com Chico Xavier. São Paulo: IDE, 2008.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

FRANCO, Divaldo Pereira. Diretrizes de Segurança. Salvador: LEAL, 2009.

MENEZES, Bezerra de. A Loucura sob Novo Prisma. Rio de Janeiro: FEB, 2018.