24 outubro 2026

A doutrinação ideológica nas escolas e universidades: um tumor social



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Ontem, um colega me disse que, na universidade em que leciona, quem se posiciona fora do “marxismo” é ostensivamente marginalizado pelos pares. Em razão disso, ele optou pelo silêncio absoluto. Isso é intolerável!

A educação deveria libertar consciências, não fabricar seguidores de ideologias radicais. Quando instituições de ensino substituem o pluralismo pelo proselitismo político radical, o conhecimento pelo dogmatismo e o debate pela doutrinação, deixam de cumprir parte essencial de sua missão civilizadora.

A esse desvio podemos chamar, metaforicamente, de cancro social: uma enfermidade contagiante e devastadora que compromete a autonomia intelectual e aprofunda os antagonismos.

Obviamente reconheço que há professores comprometidos com a excelência acadêmica e estudantes capazes de pensar criticamente em todas as correntes políticas. Entretanto, quando ideias marxistas são apresentadas como verdades incontestáveis, enquanto concepções divergentes são caricaturadas ou silenciadas, instala-se uma preocupante deformação pedagógica. A universidade não pode converter-se em aparelho de reprodução ideológica, seja de esquerda, seja de direita.

A influência de Antônio Gramsci sobre determinadas correntes políticas e educacionais merece um estudo crítico, especialmente no que diz respeito à disputa pela hegemonia cultural. Isso não me autoriza, porém, a atribuir a todo educador progressista um projeto deliberado de destruição familiar.

Sob a perspectiva espírita, o problema fundamental está no materialismo marxista quando reduz o ser humano à dimensão econômica, nega sua transcendência ou subordina a consciência individual a projetos coletivistas. A transformação social que desconsidera a responsabilidade moral, a liberdade e a educação dos sentimentos corre o risco de trocar antigas injustiças por novas formas de opressão.

Allan Kardec oferece um critério inequívoco em O Livro dos Espíritos, questão 842: uma doutrina deve ser avaliada por seus frutos morais e pela capacidade de promover amor e caridade, não por suas promessas políticas. Nas questões 835 a 841, a liberdade de consciência é reconhecida como princípio fundamental, e a convicção, segundo a questão 841, não pode ser imposta. Eis uma advertência que alcança qualquer movimento tentado pelo autoritarismo.

Apesar de Léon reconhecer a diversidade das correntes socialistas e admitir a busca de melhorias materiais e sociais, adverte contra o materialismo marxista que elimina a dimensão espiritual e o ideal moral. Sua reflexão não constitui adesão ideal coletivista nem obviamente rejeição indiscriminada de toda proposta de justiça social.

A família, por sua vez, não deve ser defendida pela perseguição a quem pensa diferentemente, mas pela responsabilidade, pelo afeto, pelo respeito recíproco e pela formação ética. O mesmo vale para as controvérsias apregoadas pelos marxistas sobre aborto, drogas e sexualidade: são questões complexas que exigem argumentação racional e responsabilidade, não a classificação sumária de seus defensores marxistas como produtos de uma suposta lavagem cerebral.

O artigo 206 da Constituição Federal estabelece a liberdade de aprender e ensinar e o pluralismo de ideias como princípios educacionais. Portanto, combater a doutrinação não significa impor uma doutrina concorrente, mas exigir que escolas e universidades públicas respeitem a inteligência dos estudantes.

Como espíritas, não devemos aceitar nem a servidão ideológica nem o fanatismo antagônico. Kardec não nos convocou a fabricar adversários, mas a desenvolver o discernimento e a responsabilidade moral. A fraternidade, contudo, não exige silêncio diante de práticas que a ameaçam. Exige coragem para denunciá-las com firmeza, honestidade intelectual e respeito à liberdade de consciência.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Art. 206.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. 1924.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, s.d. Parte terceira, cap. X, questões 835-842.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999-2002


A república não se ajoelha diante da toga: até quando o Brasil suportará a erosão da confiança?




Às vésperas da votação presidencial, o país precisa decidir se aceitará passivamente a deterioração do debate público ou se exigirá, pelas vias democráticas, instituições imparciais, transparentes e submetidas à Constituição.

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos em que a inquietação de uma sociedade deixa de ser mero desconforto político e se transforma em advertência histórica. Quando cidadãos passam a desconfiar das instituições que deveriam protegê-los, quando decisões judiciais provocam controvérsias sobre os limites do poder e quando a manifestação de opiniões é acompanhada pelo receio de represálias, algo essencial à democracia começa a se desgastar: a confiança pública.

É nesse ambiente de tensão que o Brasil chega a mais uma decisão eleitoral. Amanhã, diante das urnas, os cidadãos terão uma responsabilidade que ultrapassa a escolha de um candidato. Está em jogo a qualidade da vida democrática, o respeito às liberdades fundamentais e a capacidade de exigir que todos os Poderes cumpram suas atribuições sem privilégios nem pretensões de supremacia.

O Supremo Tribunal Federal deveria constituir uma das últimas trincheiras de proteção dos direitos fundamentais. Sua autoridade, porém, não pode depender exclusivamente da força de suas decisões, muito menos da reverência automática à toga. A legitimidade da Justiça não decorre da infalibilidade dos magistrados, mas da fidelidade à Constituição, da imparcialidade, da fundamentação jurídica e do respeito ao devido processo legal.

Quando decisões de ministros suscitam questionamentos consistentes sobre imparcialidade, proporcionalidade, competência jurisdicional ou limites institucionais, a resposta não pode ser o silêncio constrangido da sociedade. É necessário esclarecer os fatos, examinar os fundamentos, assegurar o contraditório e apurar eventuais irregularidades pelos mecanismos legais. Questionar o exercício do poder não significa atacar a Justiça; significa exigir que ela honre sua própria finalidade.

A militância político-ideológica, quando comprovadamente incompatível com a imparcialidade exigida da magistratura, constitui problema grave. Juízes não recebem mandato para impor preferências pessoais à sociedade, mas para aplicar o Direito. Tampouco podem transformar a autoridade jurisdicional em instrumento de disputa política. A mesma exigência vale para todos os magistrados, independentemente de suas convicções, de seus interlocutores ou dos interesses eventualmente favorecidos por suas decisões.

Não seria responsável, entretanto, confundir controvérsias, suspeitas e críticas legítimas com provas definitivas de corrupção. Acusações dessa gravidade exigem apuração rigorosa e evidências. O combate aos abusos perde credibilidade quando abandona o rigor que reivindica para si. Não queremos uma Justiça submissa a partidos; queremos uma Justiça que não se submeta a partidos, governos, grupos econômicos ou interesses particulares.

O problema torna-se ainda mais delicado quando a população percebe que os mecanismos de fiscalização parecem insuficientes ou incapazes de oferecer respostas convincentes. Uma República não pode depender da virtude presumida de seus ocupantes. Precisa de controles efetivos, transparência, prestação de contas e responsabilização. Nenhum Poder pode ser juiz exclusivo dos próprios excessos. A independência judicial é indispensável, mas não equivale à imunidade institucional contra críticas, escrutínio ou responsabilização legal.

O copo está cheio. Qual será a gota d’água?

A pergunta não deve convocar à violência, à desobediência irresponsável ou à destruição das instituições. Deve despertar a consciência cívica antes que a frustração se converta em ruptura social. A gota d’água não pode ser pretexto para o caos; precisa ser o ponto de inflexão que impulsione reformas, fiscalização legítima e recuperação da confiança pública.

É precisamente aqui que a perspectiva espírita nos impõe coerência. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, associa o verdadeiro progresso ao aperfeiçoamento moral da humanidade. Essa orientação não nos autoriza a santificar autoridades, idolatrar candidatos ou demonizar adversários. Ao contrário, exige discernimento, exame racional e compromisso com a verdade, inclusive quando ela contraria nossas preferências.

O Espiritismo não deve servir de abrigo para o fanatismo partidário, nem de justificativa para a omissão diante de injustiças. A fraternidade não significa conivência com erros. A tolerância não exige submissão à arbitrariedade. A caridade tampouco nos obriga a abdicar da consciência crítica. Podemos respeitar as pessoas e, simultaneamente, contestar com firmeza suas decisões e condutas públicas.

Amanhã, o voto será um instrumento de escolha política, não uma procuração para conceder poderes ilimitados a quem quer que seja. Nenhum candidato merece cheque em branco. Quem assumir a Presidência deverá respeitar a Constituição, preservar as liberdades civis e reconhecer os limites de suas próprias atribuições. O mesmo compromisso deve ser exigido do Legislativo, do Judiciário e de todas as autoridades públicas.

A mudança de que o Brasil necessita não consiste em substituir uma hegemonia por outra, nem em trocar a submissão a uma corrente ideológica pela submissão à corrente oposta. Consiste em restaurar o equilíbrio republicano, fortalecer os mecanismos de controle, garantir a liberdade de expressão, assegurar a igualdade perante a lei e impedir que o poder público se converta em patrimônio de grupos privilegiados.

Não cabe ao cidadão entregar sua consciência a salvadores da pátria. Cabe-lhe votar com discernimento, acompanhar os eleitos, cobrar transparência, apoiar investigações legítimas e defender reformas por meios constitucionais. A democracia não termina na urna: começa novamente no dia seguinte, quando a população precisa fiscalizar aqueles a quem confiou temporariamente o poder.

O Brasil não precisa de cidadãos aterrorizados, nem de multidões inflamadas pelo ódio. Precisa de cidadãos livres, críticos e moralmente responsáveis. A indignação pode ser legítima; a violência, não. A crítica deve ser firme; a mentira, inadmissível. A autoridade merece respeito institucional, mas não adoração.

Que a gota d’água seja, enfim, o despertar da consciência nacional. Não para incendiar a República, mas para impedir que ela se desgaste pela tolerância aos abusos, pela omissão dos responsáveis e pela transformação da divergência política em guerra permanente.

A toga não está acima da Constituição. O voto não está acima da lei. E nenhum poder está acima do cidadão quando este, pacificamente e dentro da ordem democrática, exige que a República cumpra suas promessas de liberdade, justiça e igualdade.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira 2000

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

 

23 outubro 2026

Entre os dogmas históricos e a razão espírita




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Em abril de 1996, na Catedral de Saint Patrick, na Quinta Avenida em Nova York, realizou-se um seminário com o objetivo de debater a Ressurreição do Cristo. A repercussão do evento foi tamanha que veículos de imprensa de alcance global, como as revistas Newsweek e Time, dedicaram extensas reportagens à rediscussão do fenômeno ocorrido há dois milênios.

Embora existam mais de quatro mil papiros que documentam os fatos da época apostólica e a própria existência histórica de Jesus, parcelas da academia e da teologia racionalista buscam reduzir tais acontecimentos a meros distúrbios psíquicos. Para o teólogo Gerd Lüdemann, por exemplo, as aparições do Cristo pós-crucificação não passariam de visões subjetivas de Pedro, fruto do abatimento emocional e do remorso por tê-Lo negado. Na mesma linha, o jornalista Kenneth Woodward argumentou que a aparição de Jesus a quinhentos seguidores tratou-se de um "arrebatamento coletivo", no qual a psicologia moderna enxerga apenas experiências psíquicas indutoras de zelo missionário.

Essa resistência em aceitar os fatos em sua dimensão transcendente decorre do desconhecimento das leis naturais que regem os fenômenos mediúnicos de materialização, ectoplasmia e levitação. Conforme assinala Kardec (2013, p. 87), a mediunidade não constitui uma derrogação das leis divinas, mas sim a manifestação de forças naturais ainda incompreendidas pela ciência materialista:

O Espiritismo vem provar que os fatos qualificados de sobrenaturais estão submetidos a leis; que eles não saem, pois, da ordem dos fatos naturais e que só há de sobrenatural a ignorância em que se estava das suas causas. (KARDEC, 2013, p. 87).

Lamentavelmente, a insipiência da teologia tradicional no tocante aos fenômenos espirituais é resultado direto das decisões político-dogmáticas ocorridas ao longo da história da Igreja. O marco inicial dessa separação deu-se no Concílio de Niceia, em 325 d.C., quando o imperador Constantino combateu as teses de Ário de Alexandria — bispo que questionava a divindade absoluta de Jesus —, impondo o dogma da Santíssima Trindade.

Nesse contexto de transição, dominantes da Patrística, como Basílio de Cesareia e Gregório de Nazianzo, impuseram a veneração aos santos e a paulatina interdição das práticas mediúnicas — as quais constituíam o elemento dinâmico e consolador das comunidades cristãs primitivas, como a Igreja de Antioquia. O afastamento das propostas originais do Evangelho aprofundou-se em 381 d.C., quando o imperador Teodósio I oficializou o cristianismo como religião do Estado, e atingiu seu ápice em 553 d.C., durante o II Concílio de Constantinopla, no qual os estudos e premissas sobre a preexistência da alma e a reencarnação foram banidos dos dogmas oficiais.

Ao abordar a trajetória do Cristianismo e as interpolações promovidas pelos interesses temporais, Emmanuel analisa o obscurecimento das verdades cristãs: O Cristianismo, ao se tornar a religião oficial do Estado romano, trocou a simplicidade da fé e o amor fraternal pelas pompas do poder temporal e pelos dogmas sufocantes, afastando os homens da essência das lições do Mestre. (XAVIER, 2016, p. 142).

Nesse longo interregno de mil e oitocentos anos, inúmeros pensadores e reformadores tiveram de ofertar a própria vida em defesa da liberdade de consciência e do pensamento livre, abrindo caminho para o advento da Renascença e das luzes do Iluminismo.

Superando as ambiguidades narrativas dos Evangelhos — como as divergências observadas entre Mateus, Lucas e Marcos quanto às primeiras aparições de Jesus —, o Espiritismo oferece uma chave de leitura racional e contemporânea para os textos sagrados. Não se faz necessário apelar ao milagre ou à quebra das leis da física para compreender a sobrevivência do Mestre após a crucificação; compreende-se, sim, a manifestação de Seu corpo espiritual ou perispírito.

Ao analisar o papel da Doutrina Espírita na transformação do pensamento filosófico e religioso, Léon Denis (2019, p. 45) destaca a reconciliação entre a razão e a fé:

O Espiritismo não traz uma religião nova; traz a confirmação e a explicação lógica dos princípios ensinados por Jesus, restituindo-lhes o sentido moral e libertando-os das teias do dogma e da superstição. (DENIS, 2019, p. 45).

Sob essa perspectiva, o Cristo emerge de forma menos mitológica e mais humana, libertado das amarras dos editos inquisitoriais, dos atos sacramentais e das controvérsias dogmáticas. A Doutrina Espírita demonstra que o ser humano é detentor de potencialidades latentes em sua própria natureza e que a mediunidade é uma faculdade orgânica e moral, pilar de nossa comunicação com o plano invisível e marco de nossa destinação transcendental.

 

 

Referências

  • DENIS, Léon. Depois da Morte: exposição da doutrina dos espíritos. 26. ed. Brasília: FEB, 2019.
  • KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. 53. ed. Brasília: FEB, 2013.
  • XAVIER, Francisco Cândido. A Caminho da Luz: história da civilização à luz do espiritismo. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. Brasília: FEB, 2016.

 

22 outubro 2026

O despertar do eu profundo: o self e a centelha divina na consciência humana

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quem somos, afinal? Somos apenas a personalidade que construímos, os papéis sociais que desempenhamos e as emoções que experimentamos? Ou existe, nas profundezas da consciência, uma dimensão mais abrangente, capaz de orientar nossa existência para o equilíbrio, a sabedoria e o amor?

Façamos uma reflexão sobre essa questão, reconhecendo, em sua perspectiva espiritualista, que o ser humano não se limita às manifestações do ego. Existe uma dimensão profunda da individualidade que podemos denominar “Espírito imortal”, “Self”, “Eu Profundo”, “Eu em Si” ou, simbolicamente, “Guia Interior”.

Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, compreendia o ego como centro da consciência, enquanto o Self representa a totalidade psíquica, abrangendo elementos conscientes e inconscientes (JUNG, 1968).

O ego organiza nossa identidade cotidiana, nossas escolhas e relações. Não constitui, portanto, um inimigo a ser destruído, mas uma estrutura necessária que precisa amadurecer. O Self, por sua vez, representa uma dimensão mais ampla, integradora e organizadora da personalidade. O desenvolvimento psicológico ocorre quando o ego deixa de se considerar o centro absoluto da existência e estabelece uma relação mais harmoniosa com essa totalidade.

O “Eu em si” pode ser compreendido como uma representação simbólica da sabedoria íntima, acessível mediante introspecção, meditação e visualizações terapêuticas. Nas experiências vivenciais, sua manifestação pode assumir a imagem de um sol, de um mestre, de uma presença acolhedora ou de uma figura luminosa. Tais imagens podem expressar conteúdos significativos da nossa essencialidade. Porquanto o essencial não é a exterioridade da imagem, mas sua contribuição para o autoconhecimento, o equilíbrio emocional e a transformação das atitudes.

Na perspectiva espírita, Léon Denis, em O problema do ser, do destino e da dor, apresenta a consciência como dimensão fundamental da individualidade espiritual, cujo desenvolvimento acompanha a evolução moral do Espírito. Joanna de Ângelis, em Autodescobrimento: uma busca interior, aproxima reflexões da Psicologia Humanista e Transpessoal dos ensinamentos espíritas, valorizando o autoconhecimento como caminho de transformação.

Importa distinguir os conceitos: o Self junguiano constitui uma formulação psicológica, enquanto a centelha divina e a imortalidade da alma pertencem à interpretação filosófico-espiritual. São perspectivas que podem dialogar, sem que sejam academicamente equivalentes.

A gradual fusão do eixo Ego-Eu Profundo constitui iluminar a personalidade para abranger as responsabilidades a fim de alcançar estados extraordinários de consciência. Significa desenvolver a capacidade de observar pensamentos, reconhecer emoções, compreender conflitos e escolher atitudes moralmente mais maduras.

A oração, a meditação, o silêncio reflexivo e as experiências terapêuticas podem favorecer esse processo, desde que acompanhados de discernimento e compromisso com a realidade. Não basta “visualizar” a luz interior: precisamos senti-la com paciência, honestidade, fraternidade e operosidade.

O verdadeiro despertar consciencial manifesta-se quando diminuímos a tirania do ego, ampliamos a compaixão e aprendemos a viver em maior coerência com os valores morais que professamos. Afinal, encontrar o Eu Profundo não é fugir do mundo, mas retornar à vida com maior consciência, responsabilidade e amor.

 

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: FEB, [s. d.].

FRANCO, Divaldo Pereira. Autodescobrimento: uma busca interior. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 17. ed. Salvador: LEAL, 2013.

JUNG, Carl Gustav. Aion: researches into the phenomenology of the self. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1968. (Collected Works, v. 9, parte 2).

SIMONTON, O. Carl; MATHEWS-SIMONTON, Stephanie; CREIGHTON, James L. Com a vida de novo: uma abordagem de autoajuda para pacientes com câncer. São Paulo: Summus, 1978.

 

Entre a bandeira vermelha e a liberdade: a advertência de Léon Denis




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A pretensão de transformar a humanidade mediante revoluções ideológicas, submetendo o indivíduo à vontade das massas, constitui uma das mais inquietantes contradições da história política. Promete-se liberdade, mas frequentemente se exige submissão; anuncia-se fraternidade, enquanto se alimenta o antagonismo entre “classes”.

O psiquiatra forense norte-americano Lyle H. Rossiter Jr., em The Liberal Mind (2006), associa determinadas manifestações do radicalismo esquerdista a mecanismos psicossociais de dependência, regressão emocional e hostilidade à autonomia individual.

Rossiter possui experiência declarada superior a quarenta anos na psiquiatria e atuação em mais de 2.700 processos civis e criminais. Entretanto, esses números referem-se à sua atividade profissional, com 2.700 militantes de esquerda. Sua interpretação é uma tese político-psicológica, não sendo, obviamente, como qualquer pesquisa psiquiátrica, um diagnóstico universalmente convencional.

O fanatismo político pode envolver rigidez cognitiva, intolerância à divergência e identificação excessiva com grupos. Contudo, tais manifestações logicamente não são exclusivas da “esquerda” e não autorizam classificar adversários políticos como mentalmente enfermos.

Léon Denis, em Socialismo e Espiritismo (1924), oferece uma reflexão particularmente esclarecedora. No capítulo I, reconhece a legitimidade das reivindicações operárias, mas reprova os métodos revolucionários violentos. No capítulo VII, declara expressamente: “Sou evolucionista e não revolucionário.”

É indispensável reconhecer que Denis se identificava com um utópico“socialismo” espiritualista, orientado pela justiça e pela solidariedade. Rejeitava, entretanto, o funesto socialismo materialista que fomentava o ódio e a violência.

No capítulo V, Denis sustenta que nenhuma reorganização institucional produzirá resultados duradouros sem o aperfeiçoamento moral dos indivíduos. Sua crítica alcança precisamente a ilusão de corrigir a sociedade exclusivamente pela transformação das estruturas econômicas.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 793, vincula a verdadeira civilização ao progresso moral. Na questão 806, esclarece-se que as desigualdades sociais são produzidas pelos homens, não por Deus.

Emmanuel, em Pensamento e Vida, e André Luiz, em Nos Domínios da Mediunidade, oferecem reflexões espiritualistas sobre a responsabilidade dos pensamentos e das atitudes. Essas contribuições não comprovam nem negam as hipóteses clínicas de Rossiter, mas reforçam a necessidade da vigilância moral.

A “bandeira vermelha”, quando convertida em símbolo de intolerância e imposição ideológica, não transforma consciências: apenas substitui antigos mecanismos de dominação por novos discursos de poder. O mesmo princípio condena qualquer extremismo autoritário, independentemente de sua coloração partidária.

Não haverá regeneração verdadeira enquanto o orgulho, o egoísmo e a violência comandarem as relações humanas. A justiça social é indispensável, mas não florescerá pela destruição da liberdade individual.

O Espiritismo propõe um ideário mais profundo: a educação da consciência, a fraternidade efetiva e a reforma moral. Sem isso, toda promessa de construir um mundo novo poderá conservar, sob novas bandeiras, os velhos vícios da humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. 1924. Capítulos I, V e VII.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: E. Dentu, 1857. Questões 793 e 806.

ROSSITER JR., Lyle H. The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness. St. Charles: Free World Books, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB 2000

XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB 1999

 

20 outubro 2026

A extrema “esquerda” contra Allan Kardec: vandalismo e barbárie ideológica em Lyon




A destruição do memorial do codificador do Espiritismo, em Lyon, expõe a contradição entre o discurso de transformação social e o desrespeito à liberdade de consciência.

Jorge Hessen

 Brasília-DF

O que aconteceu em Lyon, na França, em 17 de outubro de 2026, merece veemente repúdio. Em meio a manifestações que degeneraram em violência, saques e incêndios, o memorial dedicado a Allan Kardec foi danificado. A estela que homenageava o educador francês, nascido em Lyon em 1804, terminou reduzida a fragmentos, atingida pelas chamas que marcaram a jornada de vandalismo. Não se trata de mera depredação: é também uma agressão à memória cultural e filosófica.

Os tumultos incluíram o incêndio de um prédio municipal que abrigava o posto de turismo, além de ataques a estabelecimentos comerciais e ao patrimônio urbano. A imprensa francesa descreveu a atuação de grupos violentos, alguns identificados com a extrema esquerda e com os chamados black blocs.

Isso não nos obriga a ignorar o componente ideológico de grupos que transformam protestos sociais em pretexto para a destruição. Quando o radicalismo materialista reduz a sociedade a uma arena de antagonismos e trata instituições, símbolos e patrimônios como alvos de combate, a reivindicação política degenera em intolerância. A violência passa a ser apresentada como instrumento de emancipação, embora produza justamente o contrário: medo, prejuízo coletivo e desprezo pelo pluralismo.

Por que destruir uma homenagem a Allan Kardec? O codificador do Espiritismo não foi um dirigente partidário, nem um propagandista de revoluções violentas. Foi um educador e pensador que sistematizou uma doutrina assentada na imortalidade da alma, na responsabilidade moral, no livre-arbítrio e no aperfeiçoamento intelectual e moral do ser humano.

Na estela de Lyon estava inscrita uma máxima que sintetiza o ideal espírita: “Fora da caridade não há salvação.” Eis a ironia histórica: nas proximidades de um monumento que evocava a fraternidade, a intolerância produziu ruínas. A caridade kardeciana não é sentimentalismo, tampouco submissão política. É princípio ético que exige respeito à dignidade humana, inclusive àquele que pensa de maneira diferente.

Convém, entretanto, não incorrer no mesmo erro que denunciamos. Nem todo “vermelho” é extremista, assim como nem todo manifestante é vândalo. A análise deve alcançar os grupos e as ideias que legitimam ou praticam a violência, sem converter divergência política em condenação coletiva.

O Espiritismo não deve servir de instrumento de partidos, sejam de direita ou de esquerda. Isso não significa neutralidade diante da barbárie. A defesa da liberdade de consciência, do patrimônio histórico e da convivência democrática é um dever moral.

A extrema esquerda que pretende monopolizar a virtude social precisa responder a uma questão elementar: que espécie de justiça se constrói destruindo aquilo que pertence à memória de todos? Não há emancipação na depredação, progresso no obscurantismo ou fraternidade na intolerância.

Allan Kardec merece ser respeitado, estudado, debatido e, se necessário, criticado. O que não merece é ter sua memória esmagada pela violência vermelha de quem confunde divergência com inimigo e destruição com transformação social.

A caridade não incendeia monumentos. A intolerância avermelhada, sim.

 

Fontes:

 

 

 

A caridade de vitrine ante o abandono da família para salvar o mundo




A verdadeira reforma moral começa no lar, onde nossas imperfeições são confrontadas diariamente, e não no exibicionismo assistencialista.

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Espiritismo nos convida a compreender que o primeiro campo de exercício da caridade é o ambiente familiar. Entretanto, parcela do movimento espírita (os assistencialistas) parece ter invertido essa prioridade, promovendo um verdadeiro festival de realizações materiais — distribuição de alimentos, roupas, dinheiro e inúmeras campanhas assistenciais — enquanto, não raro, negligencia os conflitos, as necessidades afetivas e as responsabilidades morais dentro do próprio lar.

Em A Revista Espírita de agosto de 1865, Allan Kardec publicou a mensagem intitulada “A chave do céu”, que apresenta uma escala de prioridades no exercício da caridade: A orientação não desqualifica a assistência aos pobres cônjuges e filhos; pais ou aqueles que nos criaram; irmãos consanguíneos; amigos; e, finalmente, os necessitados em geral, começando pelos mais miseráveis.: adverte-nos sobre a inversão de prioridades que pode ocorrer quando pretendemos abraçar a humanidade sem cuidar daqueles que a Providência colocou sob nossa responsabilidade imediata.

Por que essa advertência continua tão atual? Porque é relativamente fácil distribuir cestas básicas, organizar campanhas e receber aplausos pelo trabalho social. Difícil, verdadeiramente difícil, é conviver com o familiar temperamental, tolerar o cônjuge imperfeito, acolher o filho que pensa diferentemente de nós, respeitar os pais envelhecidos e perdoar aquele parente que nos contraria. Fora de casa, podemos escolher as circunstâncias e até os beneficiários de nossas ações. Dentro dela, somos confrontados com pessoas reais, cujas limitações expõem as nossas.

Há, portanto, um risco que merece reflexão: a atividade assistencial pode, em determinadas circunstâncias, converter-se em mecanismo de fuga psicológica. Sob o peso da culpa, algumas pessoas procuram compensar conflitos íntimos acumulando tarefas externas, como se o volume de realizações materiais pudesse substituir a transformação moral. Quanto maior a necessidade de se sentir benfeitor, maior pode ser a tentação de querer salvar o mundo inteiro, sem enfrentar a própria consciência. Não se trata de presumir as motivações de todo trabalhador voluntário, mas de reconhecer que boas obras exteriores não dispensam o indispensável exame de nós mesmos.

Jesus não nos ensinou a negligenciar os necessitados. Ensinou-nos a amar. E o amor não se mede exclusivamente pela quantidade de objetos distribuídos, mas também pela capacidade de escutar, compreender, respeitar, perdoar e conviver. A assistência material é indispensável quando alguém tem fome, frio ou falta de recursos; todavia, ela não substitui a caridade moral, que exige renúncia ao orgulho, à intolerância e ao egoísmo.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec esclarece, na questão 886, que a caridade, conforme Jesus a entendia, consiste em benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas (KARDEC, 2004). Essa definição não deixa espaço para uma caridade meramente cenográfica, exibida em campanhas públicas enquanto cultivamos ressentimentos e indiferença entre quatro paredes.

Nossa família constitui, assim, uma oportunidade concreta de crescimento espiritual. Não escolhemos necessariamente as imperfeições dos que convivem conosco, mas podemos escolher como agir com elas. Amar não significa aprovar abusos, tolerar violência ou abdicar de limites saudáveis. Significa reconhecer a dignidade do outro, sem exigir que ele alcance a perfeição para merecer nosso respeito.

Talvez a mais profunda declaração de caridade seja olhar nos olhos de um familiar e dizer, sinceramente: “Eu aceito você como você é. Suas limitações não anulam sua dignidade, assim como as minhas não me tornam indigno de amor. Nossa convivência é uma oportunidade recíproca de crescimento.

Desistir do outro não significa necessariamente desistir de si, mas fugir sistematicamente dos desafios afetivos pode significar desperdiçar oportunidades preciosas de autoconhecimento e renovação moral.

O Espiritismo não deve ser reduzido a uma agenda de atividades assistencialistas, por mais meritórias que sejam. Sua finalidade é transformar o ser humano. E essa transformação começa quando deixamos de exigir dos outros a perfeição que nós mesmos ainda não conquistamos.

Antes de pretender salvar o mundo, cuidemos de não perder a oportunidade de amar aqueles que compartilham conosco o mesmo teto. A caridade que Jesus exemplificou não se limita ao que nossas mãos entregam: revela-se, sobretudo, na maneira como nosso coração acolhe.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2004.

KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Agosto de 1865. Texto “A chave do céu”. Paris: Bureau de la Revue Spiritée, 1865.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2008.

 

 

19 outubro 2026

Espiritismo x comunismo segundo as fontes kardecianas




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Ideologia não pode reescrever a história doutrinária

Como professor de História, devo expor que a tentativa de atribuir a Allan Kardec uma adesão ao comunismo esbarra em um obstáculo incontornável: os próprios textos do Codificador. Não se trata de defender direita ou esquerda, mas de exigir honestidade intelectual. O Espiritismo não deve ser instrumentalizado por partidos nem convertido em apêndice de qualquer ideologia.

Na Revista Espírita de outubro de 1861, Kardec publica a “Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses”. A mensagem rejeita energicamente o que denomina “comunismo antissocial” e proclama a liberdade individual como indispensável ao desenvolvimento humano (KARDEC, 1861). É verdade que essas palavras são atribuídas a Erasto, não diretamente ao Codificador. Mas a questão não termina aí.

Em fevereiro de 1863, na própria Revista Espírita, Kardec responde às acusações de que o Espiritismo pregaria o comunismo e a subversão da ordem social. Classifica essa imputação como caluniosa e pergunta: “Quem poderá crer que pregamos o comunismo?” Em seguida, remete o leitor às explicações apresentadas durante sua viagem de 1862 (KARDEC, 1863).

E o que encontramos nessa obra? Em Viagem Espírita em 1862, Kardec examina propostas de vida comunitária e de distribuição igualitária dos bens. Observa que a riqueza integralmente colocada em comum poderia produzir “uma miséria geral, em vez de uma miséria parcial”, além de destacar as diferenças de aptidões e capacidades humanas (KARDEC, 1862). Não é uma defesa da indiferença diante da pobreza, mas uma crítica à pretensão de resolver problemas morais e sociais mediante a uniformização compulsória dos bens.

O argumento ganha consistência em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVI, item 8, dedicado à desigualdade das riquezas. Kardec analisa a diversidade de inteligência, atividade, laboriosidade e capacidade de administrar recursos. Não apresenta a riqueza como certificado de superioridade moral: ao contrário, insiste na responsabilidade de quem a possui e no dever de empregá-la em benefício do próximo (KARDEC, 1864).

Aqui está a distinção essencial: combater a miséria não significa impor igualdade absoluta de resultados; reconhecer a propriedade não significa legitimar egoísmo, exploração ou indiferença social. A ética espírita exige justiça, solidariedade e responsabilidade, sem transformar a coletividade em instrumento de anulação da liberdade individual.

Léon Denis, em Socialismo e Espiritismo, também examina criticamente o materialismo e a luta de classes, sem reduzir toda preocupação social a uma única fórmula política (DENIS, s.d.). E Emmanuel, em sua reflexão moral, insiste no aperfeiçoamento do indivíduo como caminho para a renovação coletiva. A transformação social duradoura não dispensa a transformação das consciências.

Isso não autoriza, entretanto, a conclusão simplista de que todo espírita de esquerda seja incompatível com Kardec, assim como não torna todo espírita de direita fiel à Doutrina. Pessoas de diferentes orientações políticas podem compartilhar valores de justiça e fraternidade. O problema começa quando se selecionam frases, se omitem passagens e se atribui ao Codificador aquilo que ele expressamente contestou.

O Espiritismo não é propriedade de facções. Tampouco deve servir de escudo para o capitalismo sem responsabilidade social ou para projetos coletivistas (comunismo) que subordinem a liberdade humana a uma engenharia ideológica. A crítica precisa valer para todos.

Kardec não nos legou uma legenda partidária. Legou-nos uma doutrina que valoriza a razão, a liberdade, a responsabilidade moral e a fraternidade. Antes de afirmar que o Codificador tinha “um pé no comunismo”, convém ler suas obras — de preferência, integralmente.

Quando a ideologia vem primeiro, as fontes tornam-se inconvenientes. Para o estudioso espírita, porém, a fidelidade documental deve vir antes da conveniência política.

 

Referências  Bibliográficas:

DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. Cap. IV. [S.l.: s.n.], [s.d.].

KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Outubro de 1861. Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses. Paris, 1861.

KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Fevereiro de 1863. Sermões contra o Espiritismo. Paris, 1863.

KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862. Paris, 1862.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVI, item 8: Desigualdade das riquezas. Paris, 1864.

 

 

18 outubro 2026

Entre a sátira e a semeadura: A visão espírita sobre o riso e as dores alheias


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

Há uma diferença abissal entre fazer humor e transformar a vulnerabilidade alheia em espetáculo. Paulo de Tarso advertiu: “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gálatas 6:7). A advertência permanece atual diante de humoristas que exploram deficiências, doenças, idade, orientação sexual, origem social ou características físicas para arrancar gargalhadas à custa da dignidade humana.

O riso não é, por si, sinal de crueldade. O problema começa quando a diversão depende da humilhação de alguém. O chamado schadenfreude, termo alemão que designa o prazer diante do infortúnio alheio, é objeto de pesquisas em psicologia social. Estudos relacionam esse sentimento a fatores como inveja, comparação social e percepção de merecimento, sem permitir, contudo, concluir que toda zombaria decorra de baixa autoestima (VAN DIJK et al., 2006).

Jesus também foi alvo de escárnio. Antes da crucificação, soldados o vestiram com um manto, colocaram-lhe uma coroa de espinhos e fingiram reverenciá-lo, enquanto o insultavam e agrediam (MATEUS, 27:27-31). A cena expõe a brutalidade daqueles que, investidos de poder, convertem a dor do semelhante em entretenimento.

A história do Espiritismo oferece um episódio expressivo. Em 1944, o médium Francisco Cândido Xavier foi objeto de uma reportagem da revista O Cruzeiro, intitulada “Chico Xavier, detetive do além”, que explorou aspectos de sua vida pessoal e questionou suas faculdades mediúnicas. Segundo relato biográfico amplamente reproduzido, Chico, profundamente abalado, recebeu de Emmanuel uma resposta espirituosa: Jesus fora levado à cruz; ele, Chico, apenas à revista O Cruzeiro.

Independentemente dos detalhes transmitidos pelas narrativas biográficas, a lição é significativa: a exposição pública e o ridículo podem ferir profundamente, sobretudo quando atingem alguém em momento de fragilidade. A resposta atribuída a Emmanuel não legitima a humilhação; ensina a não permitir que ela destrua nossa serenidade.

Sob a perspectiva espírita, a palavra também constitui instrumento de responsabilidade moral. Em Pensamento e Vida, Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, aborda a força do pensamento e sua influência sobre nossas atitudes. Não basta, portanto, alegar liberdade de expressão para justificar a crueldade. Liberdade não elimina responsabilidade, e humor não concede imunidade ética.

A chacota reiterada pode alimentar ambientes de intimidação, discriminação e sofrimento psicológico. O riso coletivo tampouco absolve quem agride: muitas vezes, apenas multiplica a violência e silencia a vítima.

O Espiritismo nos convida à indulgência, ao respeito e à reforma íntima. Isso não significa proibir a sátira, impedir críticas ou exigir que todos pensem da mesma maneira. Significa reconhecer que a inteligência pode divertir sem degradar e que a crítica pode ser contundente sem converter pessoas vulneráveis em alvos.

Se formos ridicularizados, não precisamos devolver a ofensa na mesma moeda. Podemos preservar a dignidade, estabelecer limites e prosseguir sem alimentar o ressentimento. Como ensinamento final, fica a advertência evangélica: colhemos, moralmente, consequências das sementes que lançamos.

O humor revela sua qualidade não apenas pelo riso que provoca, mas também pela dignidade que preserva.

 

Referências bibliográficas

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Gálatas 6:7; Mateus 27:27-31.

VAN DIJK, Wilco W. et al. When people fall from grace: reconsidering the role of envy in schadenfreude. Emotion, v. 6, n. 1, p. 156-160, 2006. DOI: https://doi.org/10.1037/1528-3542.6.1.156.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1977