Jorge Hessen
Brasília -DF
De repente , ressurge no Movimento Espírita uma velha e alquebrada controvérsia da tentativa de reduzir o Espiritismo à condição de mera escola filosófica ou laboratório de pesquisas psíquicas, destituindo-o de sua dimensão religiosa.
Trata-se de uma discussão antiga, mas que, sazonalmente , tem adquirido novos contornos, impulsionada por correntes de PhD kardequiólogos de plantão que reivindicam para si uma suposta fidelidade exclusiva ao pensamento de Allan Kardec.
Toda ideia inovadora produz divergências. Com o Espiritismo não poderia ser diferente. Desde os primórdios do Movimento Espírita Brasileiro, duas tendências se destacaram: uma mais voltada para o aspecto científico e experimental dos fenômenos mediúnicos; outra, representada por Bezerra de Menezes, enfatizando a vivência evangélica e a transformação moral do ser humano.
A história demonstra qual dessas correntes se consolidou como referência predominante: aquela que compreendeu o Espiritismo como ciência, filosofia e religião, em perfeita harmonia.
Alguns PhD kardequiólogos de carteirinha acadêmica, pretensos intérpretes contemporâneos, insistem em utilizar o nome de Kardec para sustentar que a Doutrina Espírita seria apenas uma ciência da alma. Todavia, essa leitura ignora textos fundamentais do Codificador.
Basta recordar que os princípios espíritas se distribuem em três grandes eixos: filosófico, em O Livro dos Espíritos; científico-experimental, em O Livro dos Médiuns; e moral-religioso, em O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Em memorável discurso pronunciado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1º de novembro de 1868, Kardec definiu religião como o elo moral que une corações, pensamentos e aspirações, estabelecendo fraternidade, solidariedade e benevolência entre os homens. Foi nesse contexto que afirmou categoricamente: “O Espiritismo é uma religião, e nós nos ufanamos disso” (KARDEC, 1868).
Evidentemente, não se trata de religião nos moldes tradicionais. O Espiritismo não possui sacerdócio, sacramentos, rituais, liturgias, templos suntuosos ou hierarquias clericais. Sua religiosidade não se expressa por meio de formalismos exteriores, mas pela transformação íntima proposta pelo Evangelho. Sua essência encontra-se no mandamento de Jesus: “Amai-vos uns aos outros” (João 15:12).
A própria Codificação é explícita quanto ao caráter religioso da Doutrina. No Livro dos Espíritos, os benfeitores afirmam que os Espíritos não vêm destruir a religião, mas confirmá-la mediante provas irrecusáveis. No Livro dos Médiuns, Kardec declara que o Espiritismo repousa sobre as bases fundamentais da religião e fortalece os sentimentos religiosos daqueles que vacilam na fé.
Causa estranheza, portanto, o empenho de alguns grupos de presunçosos PhD kardequiólogos em minimizar a presença de Jesus no Espiritismo, reduzindo-o a simples personagem histórica ou a mero reformador moral. Tal postura contraria frontalmente a posição do próprio Kardec, que classificou o Cristo como o modelo mais perfeito oferecido por Deus à Humanidade (O Livro dos Espíritos, questão 625).
Se retirarmos Jesus do Espiritismo, o que restará? Uma filosofia espiritualista entre tantas outras. Um sistema de investigação psíquica sem finalidade moral. Uma teoria da sobrevivência da alma desprovida de direção ética. O Cristo não é um acessório da Doutrina Espírita; é seu eixo moral.
Emmanuel reafirma essa realidade ao ensinar que a missão do Espiritismo é essencialmente religiosa, destinada à restauração da fé viva e à revivescência do Cristianismo em sua pureza original. Não se trata de fundar uma nova seita nem de promover disputas dogmáticas, mas de reconduzir o homem à vivência dos ensinos de Jesus.
Por essa razão, toda tentativa de separar artificialmente os aspectos científicos, filosóficos e religiosos da Doutrina representa uma mutilação de sua estrutura. Kardec jamais concebeu um Espiritismo sem Evangelho. O Espiritismo surgiu para esclarecer a inteligência, mas também para iluminar o coração. Sua finalidade maior é promover a regeneração moral da Humanidade.
Sem ciência, o Espiritismo perderia sua base racional. Sem filosofia, perderia sua coerência lógica. Sem religião, perderia sua alma.
E essa alma tem um nome: Jesus.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Dezembro de 1868. Artigo: “O Espiritismo é uma religião”.
KARDEC, Allan. Discurso pronunciado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 1º de novembro de 1868.
BÍBLIA. Evangelho de João. 15:12.
XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2000.






















