Jorge Hessen
Brasília -DF
Entre os inúmeros desafios enfrentados pelo movimento espírita contemporâneo, um dos mais delicados diz respeito à interpretação das comunicações mediúnicas associadas a personagens oriundos das tradições afro-brasileiras, tais como caboclos, pretos-velhos, exus, pombagiras e marinheiros. A questão exige serenidade, respeito às demais crenças e, sobretudo, fidelidade ao método de análise estabelecido por Allan Kardec.
A experiência acumulada ao longo de décadas de observação das atividades mediúnicas permite constatar que grande parte dessas manifestações apresenta um forte componente anímico. Em muitos casos, o conteúdo transmitido revela mais os condicionamentos psicológicos, culturais e emocionais do médium do que propriamente a presença objetiva de uma entidade espiritual identificável.
Obviamente não se pode afirmar, de forma absoluta, que todas essas comunicações sejam meras criações mentais; entretanto, a prudência recomenda reconhecer que a maioria delas contém expressiva participação do psiquismo medianímico (ANIMISMO INGÊNUO).
O Espiritismo jamais orientou seus adeptos a aceitar passivamente qualquer manifestação espiritual. Pelo contrário, Kardec estabeleceu como princípio fundamental o exame racional das comunicações. Em O Livro dos Médiuns, alerta repetidamente contra a fascinação, a mistificação e o culto às identidades espirituais. Os Espíritos devem ser julgados por suas ideias, pela elevação moral de seus ensinos e pelos resultados produzidos, jamais pelas UTILIZAÇÕES DESNECESSÁRIAS dos nomes, títulos ou personagens que adotam .
Infelizmente, muitas instituições espíritas acabam desenvolvendo uma cultura de valorização dessas denominações de terreiro. Reuniões mediúnicas passam a girar em torno de supostas especializações espirituais, criando dependência psicológica de determinados rótulos. O estudo sério da Codificação cede espaço à curiosidade por manifestações exóticas, enquanto o critério kardequiano é gradualmente substituído pelo emocionalismo e pela aceitação acrítica.
A Doutrina Espírita ensina que, após a desencarnação, permanecem a inteligência, as virtudes e as imperfeições do Espírito. Não subsistem títulos, uniformes, posições sociais ou personagens culturais. Um Espírito não adquire autoridade moral por apresentar-se como caboclo, preto-velho, sacerdote, marinheiro ou qualquer outra figura ligada às experiências transitórias da existência corporal.
Isso não representa desrespeito às religiões afro-brasileiras, que possuem identidade própria, história legítima e estrutura doutrinária específica. O respeito à diversidade religiosa é dever moral do espírita. Todavia, preservar a identidade doutrinária do Espiritismo também é uma obrigação. Centro espírita não é terreiro, assim como terreiro não é centro espírita. Cada instituição deve manter coerência com seus fundamentos e estatutos.
Quando o foco das reuniões mediúnicas desloca-se dos princípios para os personagens, perde-se a essência da proposta kardequiana. O objetivo da mediunidade espírita é esclarecer Espíritos sofredores, promover a educação moral dos encarnados e servir ao progresso espiritual de todos os envolvidos. Qualquer prática que estimule o apego a identidades espirituais específicas afasta-se desse propósito.
A melhor proteção contra os enganos da mediunidade continua sendo a mesma indicada por Kardec há mais de um século e meio: estudo sério, controle racional das comunicações, análise criteriosa dos fatos e submissão de toda mensagem ao crivo da lógica e da moral. Fora disso, corre-se o risco de substituir a investigação espírita pela fantasia, o discernimento pela credulidade e a Doutrina pela mitologia mediúnica.
O desafio das instituições espíritas contemporâneas é permanecer fiéis ao espírito da obra kardequiana: estudar, educar, consolar e esclarecer. Quando o foco se desloca dos princípios para os rótulos, corre-se o risco de perder a essência. O que importa não é se o comunicante se apresenta como caboclo, preto-velho, exu ou qualquer outra denominação. A Doutrina Espírita não se ocupa de cultuar identidades espirituais, mas de compreender o Espírito imortal em sua jornada evolutiva. O centro espírita deve ser uma escola de almas, não um espaço de apego a classificações ou personagens. Como ensinou Kardec, a melhor garantia contra os enganos da mediunidade é sempre o estudo sério, o exame racional e o critério moral.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 94. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
MIRANDA, Hermínio C. Diversidade dos Carismas. 8. ed. Niterói: Lachâtre, 2013.
SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão e Desobsessão. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018.




















