Jorge Hessen
Brasília
-DF
Quantas pessoas
encontramos afirmando que "não foram acolhidas" em determinada casa
espírita, que "não encontraram paz" ou que ainda procuram uma
instituição "equilibrada" para desenvolver a mediunidade, receber
tratamentos espirituais ou solucionar seus conflitos íntimos?
Passam anos peregrinando
de centro em centro, convencidas de que existe, em algum lugar, a instituição
capaz de realizar aquilo que elas mesmas nunca começaram a construir dentro de
si.
Essa mentalidade revela
um dos maiores desvios do movimento espírita contemporâneo: a transformação
gradual dos centros espíritas em verdadeiras clínicas espirituais, onde
muitos chegam como consumidores de serviços religiosos, esperando
diagnósticos mediúnicos, curas, cirurgias espirituais, desobsessões e soluções
imediatas para problemas cuja raiz permanece intacta na própria conduta
moral.
Entretanto, essa nunca
foi a proposta da Doutrina Espírita. O Espiritismo não promete milagres. Não
oferece atalhos para a felicidade nem terceiriza a renovação moral. Allan
Kardec jamais apresentou o centro espírita como hospital destinado a eliminar
os efeitos sem combater as causas. A finalidade da Doutrina é essencialmente
educativa. Seu objetivo é conduzir o ser humano ao autoconhecimento, à reforma
moral e ao aperfeiçoamento espiritual.
A verdadeira
transformação começa onde ninguém pode substituí-la: no lar. É na convivência
diária com os familiares — justamente aqueles Espíritos com os quais possuímos
os maiores compromissos reencarnatórios — que somos convidados ao exercício
permanente da paciência, do perdão, da humildade, da tolerância e da caridade.
É ali que o Evangelho deixa de ser teoria para converter-se em experiência
concreta. Fugir desse laboratório moral enquanto se procura uma casa espírita
"mais equilibrada" representa apenas uma forma sofisticada de adiar o
próprio crescimento espiritual.
Não existe passe capaz de
substituir a paciência. Não existe desobsessão que dispense o perdão. Não
existe cirurgia espiritual que elimine o orgulho, o egoísmo, a vaidade ou a
intolerância. Nenhuma reunião mediúnica reforma o caráter de quem insiste
em permanecer moralmente imóvel.
O centro espírita
orienta, esclarece, consola e fortalece. Jamais foi concebido para funcionar
como ambulatório permanente de problemas existenciais. Quando uma instituição
espírita passa a concentrar quase todas as suas energias em "trabalhos
de cura", "atendimentos espirituais", "cirurgias
mediúnicas" e fenômenos extraordinários, corre o risco de deslocar o
eixo da Doutrina: substitui a educação da consciência pela assistência ao
sintoma, alimentando exatamente a dependência espiritual que deveria combater.
Infelizmente, essa lógica
tem produzido um movimento de consumidores religiosos sempre insatisfeitos.
Quando não obtêm o resultado esperado, simplesmente migram para outro centro,
depois para outro, numa peregrinação interminável em busca da instituição "ideal".
Mudam de casa espírita, mas não mudam a si mesmos. Alteram o endereço, mas
preservam as mesmas imperfeições que geram seus conflitos.
O Espiritismo jamais
ensinou que a paz pudesse ser encontrada em um prédio, em um dirigente, em um
médium ou em uma equipe espiritual. A paz nasce da consciência pacificada pelo
esforço diário de viver os ensinamentos de Jesus.
A casa espírita continua
sendo indispensável, mas exatamente porque é escola, não porque seja clínica.
Escola exige estudo, disciplina, esforço, autocrítica e transformação. Clínica
sugere apenas tratamento passivo. Kardec optou pela primeira alternativa;
parte significativa do movimento espírita parece preferir a segunda.
Quem deseja equilíbrio
deve começar equilibrando o próprio coração. Quem busca paz deve construí-la
dentro da família. Quem aspira à libertação espiritual precisa compreender que
nenhuma instituição substituirá o trabalho silencioso da reforma íntima.
Enquanto o movimento
espírita insistir em oferecer prioritariamente serviços espirituais em vez de
educação moral, continuará atraindo pessoas interessadas muito mais na cura do
corpo e dos problemas imediatos do que na renovação da alma. E enquanto muitos
frequentadores continuarem procurando fora aquilo que se recusam a edificar
dentro de si, atravessarão toda uma existência mudando de centro espírita, mas
permanecendo exatamente com seus quistos morais.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. Brasília: FEB,
2019.
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 4. ed.
Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: FEB,
2018.
KARDEC, Allan. Obras
Póstumas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2018.










