29 abril 2026

​Salvacionismo, vitimismo e autoconfiança numa análise espírita


 



Jorge Hessen

Brasília -DF

A convivência humana frequentemente revela padrões psicológicos que se retroalimentam, formando vínculos de dependência emocional prejudiciais ao progresso espiritual. Entre esses padrões, destacam-se o chamado “salvacionismo” — atitude daquele que se coloca como redentor das dificuldades alheias — e o “vitimismo” , postura daquele que se percebe constantemente como incapaz ou injustiçado. Sob a ótica da Doutrina Espírita, tais comportamentos configuram desvios do equilíbrio moral, pois afastam o indivíduo do exercício da responsabilidade pessoal e da autotransformação.

Allan Kardec instrui que o progresso do Espírito é intransferível, sendo fruto do esforço próprio. Na obra O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões relacionadas à liberdade e responsabilidade moral, evidencia-se que cada ser é artífice do seu destino. O salvacionismo, portanto, embora muitas vezes travestido de caridade, pode ocultar uma forma sutil de orgulho, na medida em que o indivíduo se julga indispensável à redenção do outro.

Por outro lado, o vitimismo constitui uma fuga psicológica diante dos desafios evolutivos. Ao assumir constantemente a posição de “coitado”, o indivíduo abdica de sua capacidade de ação, entregando-se à inércia moral. Esse comportamento, longe de atrair verdadeira ajuda, cria laços de dependência afetiva, em que o dominador (salvacionista) e o dominado (coitadinho) se complementam em um ciclo de estagnação espiritual.

A Doutrina Espírita propõe, como antídoto a esse desequilíbrio, o desenvolvimento da autoconfiança, entendida não como orgulho, mas como reconhecimento das próprias potencialidades concedidas por Deus. A literatura de Emmanuel ressalta que o verdadeiro auxílio deve capacitar o outro a caminhar com as próprias forças, jamais aprisioná-lo em dependência emocional. Ajudar, portanto, não é substituir o esforço do próximo, mas iluminá-lo para que ele descubra sua própria força interior.

Nesse contexto, a autoaceitação surge como etapa essencial. Reconhecer limitações sem se acomodar a elas é um exercício de maturidade espiritual. A criatura que se aceita, mas também se compromete com o próprio aprimoramento, rompe tanto com o vitimismo quanto com a necessidade de ser salva ou de salvar compulsivamente.

Léon Denis reforça que o Espírito cresce pelo esforço consciente, enfrentando provas e desafios como oportunidades de evolução. Assim, qualquer relação que anule a autonomia moral do indivíduo contraria as leis divinas de progresso.

Em síntese, a Doutrina Espírita convida à construção de relações mais equilibradas, baseadas na fraternidade lúcida. Nem salvadores, nem vítimas: apenas Espíritos em aprendizado, cooperando mutuamente sem abdicar da própria responsabilidade. A verdadeira caridade, nesse sentido, é aquela que liberta , nunca a que aprisiona e cria dependência.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2011

28 abril 2026

Nem culpar-nos indefinidamente, nem justificar nossos equívocos.







 A reflexão sobre culpa e consciência, à luz da Doutrina Espírita, exige distinção cuidadosa entre dois movimentos psíquicos distintos: o alerta consciencial e o estado patológico da culpa. Conforme ensina Allan Kardec, a consciência é a sede da lei divina no ser humano, sendo a “voz interior” que orienta para o bem e adverte quanto aos desvios morais. Tal alerta não constitui condenação, mas convite ao arrependimento e à reparação.

O chamado “conflito de consciência” representa, portanto, mecanismo saudável de autorregulação moral. Léon Denis afirma que a consciência é reflexo da lei eterna em nós, funcionando como guia seguro na jornada evolutiva. Ignorá-la é optar pela desarmonia. Nesse sentido, o alerta consciencial é indispensável à rearmonização psíquica, pois sinaliza a necessidade de corrigir rotas e recompor o equilíbrio interior.

Entretanto, quando esse alerta é negligenciado, instala-se a culpa como processo doentio. Diferentemente do arrependimento construtivo, a culpa aprisiona o indivíduo em ciclos de autojulgamento, autocondenação e autopunição. Segundo Emmanuel, o erro reconhecido deve conduzir ao trabalho regenerador, e não ao imobilismo mental. A culpa, ao contrário, paralisa e distancia o ser da ação no bem, única via legítima de superação.

A Lei de Causa e Efeito, princípio fundamental do Espiritismo, esclarece que toda ação gera consequências compatíveis, sem caráter punitivo, mas educativo. O sofrimento decorrente do erro não visa castigar, e sim ensinar. Quando o alerta da consciência é acolhido, transforma-se em responsabilidade ativa; quando rejeitado, degenera em desculpismo ou culpa patológica.

Observa-se ainda a manifestação sutil da culpa em práticas assistencialistas desprovidas de consciência moral. Muitos indivíduos, movidos por inquietação íntima, buscam na “fazeção de coisas” uma forma de anestesiar conflitos internos. Tal postura, embora beneficie momentaneamente terceiros, não resolve o drama interior, pois carece de autoconhecimento e sincera transformação. A verdadeira caridade, como ensina Kardec, é aquela que se alia à reforma íntima.

Outro aspecto relevante é a culpa oriunda de expectativas frustradas, como nos casos em que o indivíduo se recrimina por não ter vivido prazeres efêmeros. Trata-se de distorção da consciência, pois não decorre da transgressão da lei moral, mas da adesão a valores superficiais. Ainda assim, o mecanismo autopunitivo se instala, revelando a necessidade de educação dos sentimentos.

A superação da culpa exige três movimentos fundamentais: reconhecimento do erro, arrependimento sincero e reparação possível. O autoperdão, nesse contexto, não significa esquecimento irresponsável, mas compreensão madura de si mesmo, aliada ao compromisso moral. Como destaca Emmanuel, “cada dia é nova oportunidade de recomeço”.

Por fim, importa ressaltar que ninguém está privado da voz da consciência, salvo em casos extremos de grave patologia psíquica. Em condições normais, ela sempre se manifesta, ainda que silenciada. Ouvi-la é caminho de libertação; ignorá-la, fonte de sofrimento.

Assim, não cabe ao ser humano culpar-se indefinidamente, nem justificar seus equívocos. O caminho equilibrado consiste em escutar a consciência, aprender com os erros e agir no bem. Somente desse modo o espírito se liberta dos grilhões da culpa e avança rumo à harmonia interior, finalidade última das leis divinas.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido (psicografia). Fonte Viva (Espírito Emmanuel). Rio de Janeiro: FEB, 2019.

26 abril 2026

Psicotrópicos atenuam quadros psíquicos desorganizados, mas não neutralizam a mediunidade

 



A questão sobre o uso de fármacos psicotrópicos para supostamente “neutralizar” a mediunidade exige, antes de tudo, uma distinção rigorosa entre fenômenos espirituais e transtornos psíquicos. Para Allan Kardec a mediunidade é uma faculdade humana natural, inerente à sensibilidade do espírito encarnado, não sendo, por si só, uma patologia. Entretanto, pode coexistir com quadros de sofrimento mental, o que frequentemente gera confusão diagnóstica.

Do ponto de vista médico, fármacos psicotrópicos ,  como antipsicóticos, ansiolíticos,  benzodiazepínicos  e estabilizadores de humor ,  não têm obviamente a finalidade de “bloquear mediunidade”, mas sim de regular alterações neuroquímicas associadas a transtornos como esquizofrenia, transtorno bipolar ou episódios psicóticos. Quando administrados corretamente, podem reduzir alucinações, delírios e estados de agitação, trazendo estabilidade ao paciente. Os psicotrópicos no autismo (TEA) não tratam os núcleos do transtorno (comunicação/socialização), mas gerenciam comorbidades e comportamentos desafiadores como irritabilidade e agressividade. Assim, o que eventualmente se observa não é a supressão da mediunidade, mas a atenuação de manifestações psíquicas desorganizadas que poderiam estar sendo confundidas com fenômenos mediúnicos.

Numa perspectiva espírita profunda a mediunidade deseducada pode tornar-se fonte de perturbação, especialmente quando associada a fragilidades emocionais. Nesses casos, o tratamento médico é legítimo e necessário. O Espiritismo jamais se opõe à ciência; ao contrário, recomenda prudência e equilíbrio. O uso de medicamentos, portanto, não é visto como antagonista da espiritualidade, mas como recurso terapêutico para restaurar condições mínimas de discernimento.

Emmanuel, em diversas orientações, destaca que o desenvolvimento mediúnico exige disciplina moral, estudo e equilíbrio psicológico. Um indivíduo em sofrimento mental grave não está em condições adequadas para o exercício mediúnico seguro. Nesse contexto, o tratamento psiquiátrico torna-se não apenas válido, mas imprescindível. O medicamento atua sobre o instrumento cerebral, favorecendo a reorganização das funções mentais, enquanto o espírito, gradualmente, retoma sua capacidade de expressão lúcida.

Bezerra de Meneses, frequentemente citado como símbolo da integração entre ciência e espiritualidade, reforça a necessidade de abordagem conjunta: tratamento médico, apoio espiritual e reforma moral. Para ele, reduzir a experiência humana apenas ao biológico ou apenas ao espiritual constitui erro grave. Assim, o uso de psicotrópicos não elimina a mediunidade em sua essência, mas pode reduzir manifestações descontroladas, permitindo que o indivíduo recupere equilíbrio.

Do ponto de vista ético e científico, é perigoso atribuir a fenômenos espirituais aquilo que pode ser sintoma de doença mental, assim como é igualmente imprudente medicalizar experiências subjetivas sem avaliação criteriosa. A fronteira entre mediunidade e psicopatologia exige discernimento técnico e sensibilidade espiritual.

Portanto, não existe fármaco destinado a “neutralizar a mediunidade”. O que há são medicamentos que tratam distúrbios mentais, podendo, indiretamente, diminuir manifestações que eram interpretadas como mediúnicas. A abordagem ideal é integrada: medicina responsável, acompanhamento psicológico e orientação espiritual séria, evitando tanto o misticismo ingênuo quanto o reducionismo materialista.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília: FEB, 2013.

DENIS, Léon. No Invisível. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Brasília: FEB, 2013.

MENESSES, Bezerra de. Obras Diversas. Brasília: FEB, várias edições.

24 abril 2026

“Fazeção de coisas” assistencialistas ou fuga psicológica ?




Jorge Hessen

Brasília -DF



Sem generalização temos ciência de que nem toda “fazeção de coisas” é fuga psicológica e pode ser exatamente o contrário: gente culpada tentando acertar no único campo em que consegue agir , o do assistencialismo.

Quando Allan Kardec, na questão 886 do Livro dos Espíritos, define caridade como benevolência, indulgência e perdão, ele amplia o conceito para além da esmola material. Ele não nega a ação , mas a qualifica. O cerne da questão não é fazer muito; o problema é fazeção de coisa  sem transformação moral.

Há, sim, um risco real: a ação assistencial virar anestesia moral. A pessoa se ocupa tanto em distribuir coisas, organizar campanhas, elaborar eventos, ajudar externamente, mas evita olhar para dentro , onde estão orgulho, mágoas, vaidades, conflitos não resolvidos. Nesse caso, a caridade vira um “escudo psicológico”: ajuda-se o outro para não confrontar a si mesmo.

Mas há outro lado igualmente verdadeiro: fazeção de coisa  pode ser justamente o caminho de transformação íntima. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, a caridade material aparece como porta de entrada. Quem começa dando pão pode, com o tempo, aprender a dar compreensão, respeito e perdão. Nem todos começam pela caridade moral , muitos chegam a ela pelo exercício material.

O ponto crucial, então, não é “fazer ou não fazer”, mas como e por quê se faz: pois se a ação gera humildade , obviamente está educando o espírito. Se gera vaidade  do tipo “eu ajudo”, “eu faço”,  está inflando o ego. Porém, se evita conflitos internos , pode ser fuga , mas se amplia a capacidade de amar , com certeza é caridade real

Um sinal sutil: quem se vincula à fazeção de coisa  costuma ter pouca tolerância com as imperfeições alheias , justamente o oposto da definição kardeciana. Então fazeção de coisas pode ser tanto fuga quanto escola evolutiva. Dependendo do nível de consciência de quem faz.

23 abril 2026

​O ideário comunista (ateísta / materialista) que amordaça a voz cristã pela bestialidade

 





Jorge Hessen

Brasília -DF

O episódio envolvendo a condenação de uma criança de dois anos e sua família à prisão perpétua na Coreia do Norte, em razão da posse de uma Bíblia, não é somente uma violação jurídica: é a expressão extrema de um sistema cruel e desumano que pretende controlar a consciência que é a dimensão mais íntima do ser. À luz do pensamento espírita, tal fato não pode ser analisado apenas como execrável abuso político, mas como grave atentado às leis divinas que regem a liberdade de pensar e crer.

O Codificador, ao abordar a liberdade de consciência em O Livro dos Espíritos, é categórico ao afirmar que a crença não pode ser imposta. A repressão religiosa, portanto, não apenas falha em seu objetivo , ela produz a selvageria, o  medo e o atraso intelecto moral. O caso em questão revela exatamente isso: um Estado (se é que podemos nominar a Coreia do Norte como Estado) que, incapaz de convencer, recorre à violência para sufocar e “sepultar” o espírito humano. Kardec veria nesse cenário a negação do progresso, pois onde há coerção, não há evolução legítima do pensamento.

Sob a ótica de Léon Denis, a liberdade é condição essencial para o desenvolvimento da alma. Em suas obras, ele sustenta que o espírito cresce pela experiência e pela escolha. Ao punir uma família inteira — inclusive uma criança — por um ato de fé, o regime não apenas comete injustiça social, mas interfere brutalmente no processo educativo do espírito. Ainda que a lei humana imponha sofrimento, a lei divina não chancela tais abusos, e cada consciência responderá, em momento oportuno, por seus atos.

Emmanuel, ao refletir sobre os regimes autoritários, destaca que toda forma de poder que tenta substituir Deus pela força está fadada à ruína moral. A tentativa de controlar a fé revela insegurança moral e desconhecimento das leis superiores. O sofrimento imposto não destrói a crença; ao contrário, muitas vezes a fortalece silenciosamente no íntimo das vítimas, transformando dor em resistência moral.

Todos os atos de opressão geram débitos graves perante a lei de causa e efeito. A perseguição religiosa, especialmente quando atinge inocentes, configura comprometimento profundo do agressor, que responderá não apenas pelos atos externos, mas pelas intenções de domínio e violência.

O episódio norte-coreano expõe, assim, um paradoxo fundamental: pode-se encarcerar corpos, mas jamais aprisionar consciências. A história espiritual da humanidade demonstra que a fé, quando autêntica, resiste às mais severas perseguições. O Espiritismo, ao afirmar a imortalidade da alma e a liberdade de pensamento como direito natural, posiciona-se de forma inequívoca contra o comunismo (ateísmo materialista) que tem mantido o ideal de controlar a crença cristã pela violência.

Mais do que indignação, o caso exige reflexão: toda ideologia que cerceia a liberdade espiritual compromete seu próprio futuro, pois bloqueia o principal motor do progresso — a consciência livre.  E, conforme preconiza a Doutrina Espírita, nenhuma estrutura baseada na opressão (ateísta/materialista/comunista) se sustenta indefinidamente diante das leis eternas.

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva (pelo Espírito Emmanuel). Brasília: FEB, 2016.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar (pelo Espírito André Luiz). Brasília: FEB, 2015.


19 abril 2026

​Expressões que denotam contrassenso na denominação de instituições espíritas




Jorge Hessen

Brasília -DF

No movimento espírita brasileiro, um elemento aparentemente periférico vem produzindo efeitos profundos na percepção pública da Doutrina Espírita. Trata-se da escolha dos nomes das instituições. Longe de constituir mero detalhe administrativo ou expressão cultural inofensiva, a nomenclatura adotada comunica valores, orienta expectativas e, não raro, induz a equívocos graves quanto à natureza do Espiritismo. À luz da codificação kardequiana, o nome de um centro espírita jamais é neutro; ele é, antes, a primeira síntese doutrinária oferecida ao público.

Desde sua origem, o Espiritismo foi definido por Allan Kardec como uma doutrina de tríplice aspecto  filosófico, científico e moral , desprovida de culto exterior, rituais, sacramentos ou hierarquias sacerdotais (KARDEC, 2013). Sua proposta é essencialmente educativa, racional e voltada ao aperfeiçoamento íntimo. Nesse contexto, a proliferação de instituições com denominações como “Templo”, “Santuário”, “Tenda”, "Igreja", “Casa de Milagres” ou mesmo expressões como “Santíssima Trindade” revela uma preocupante dissonância entre forma e conteúdo.

Não se trata de desconsiderar a “boa intenção” de muitos dirigentes, frequentemente movidos pelo salvacionismo melodramático com desejo febril de “acolher” e “consolar”. O problema é outro: trata-se de coerência doutrinária. Ao evocar termos associados a práticas ritualísticas, promessas de intervenção sobrenatural ou devoção a entidades específicas, tais nomes sugerem exatamente aquilo que o Espiritismo não ensina. Criam, assim, uma falsa expectativa no frequentador, desviando-o da compreensão correta da lei de causa e efeito e da responsabilidade individual sobre o próprio destino.

Kardec foi categórico ao afastar o Espiritismo de qualquer caráter místico ou supersticioso. Em O Livro dos Médiuns, alerta contra mistificações e enfatiza a necessidade de discernimento, simplicidade e seriedade nas práticas mediúnicas (KARDEC, 2014). O Espiritismo não promete curas milagrosas, não cultua espíritos e não estabelece intermediários privilegiados entre o homem e Deus. Toda sugestão em contrário representa desvio conceitual.

Autores clássicos como Léon Denis e Emmanuel reforçam essa diretriz ao sublinhar o caráter moral e educativo da Doutrina. A ênfase recai na reforma íntima, no estudo sistematizado e na prática da caridade, jamais em manifestações exteriores que alimentem ilusões ou imediatismos (DENIS, 2012; XAVIER, 2010). Quando uma instituição se denomina, por exemplo, “Centro Espírita ‘pai’ da Cura”, transmite a ideia de soluções prontas e extraordinárias, incompatíveis com os princípios espíritas.

Ainda mais delicada é a adoção de nomes que incorporam entidades específicas ou figuras de outras tradições religiosas, como “Pai João”, “Caboclo”, “Exu” ou santos da igreja romana. Embora respeitáveis em seus contextos próprios, tais referências introduzem elementos estranhos à proposta universalista e impessoal do Espiritismo, que reconhece a individualidade dos espíritos, mas não institui culto ou devoção a nenhum deles.

É inegável que o Brasil possui uma formação religiosa plural e sincrética. Contudo, o respeito à diversidade não autoriza a diluição dos princípios. Preservar a identidade doutrinária é, antes, uma forma de respeito tanto ao Espiritismo quanto às demais tradições. Misturar linguagens distintas não amplia a compreensão; ao contrário, obscurece-a.

Diante disso, a escolha de nomes deve refletir com fidelidade os objetivos essenciais da instituição: estudo, caridade e difusão da Doutrina. Denominações simples e claras , como “Centro Espírita”, “Casa Espírita”, “Grupo de Estudos Espíritas” ou “Sociedade Espírita”, acrescidas de valores morais , são muito mais coerentes com a proposta kardequiana.

Não se trata de preciosismo semântico, mas de responsabilidade e coerência doutrináriaO nome da instituição  é a porta de entradaSe ele induz ao erro, compromete toda a compreensão subsequente. Em tempos de ampla circulação de informações e desinformações, a fidelidade aos princípios torna-se imperativa.

Revisar a forma como as instituições se apresentam não é negar a cultura, mas aprimorar a comunicação da verdade espírita. O Espiritismo não necessita de adornos místicos para cumprir sua missão. Sua força reside na clareza, na lógica e na profundidade moral de seus ensinamentos. Assim, renomear (corrigir) e nomear corretamente uma instituição é mais que um detalhe: é um compromisso com a verdade, com a coerência e com o legado de Kardec.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília: FEB, 2014.

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo? Brasília: FEB, 2013.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2010.


 

18 abril 2026

“Câncer , Infância e Sofrimento: Entre a Ciência e a Lei de Causa e Efeito”

 




 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Recentemente, casos raros de câncer infantil voltaram a sensibilizar a comunidade médica e a sociedade. Na Califórnia, a menina Hannah Powell-Auslam, de apenas 10 anos, foi diagnosticada com um tipo extremamente incomum de câncer de mama ,o carcinoma secretório invasivo. Mesmo após uma mastectomia, houve disseminação para um nódulo, exigindo novos procedimentos.

Situação igualmente impactante envolveu as gêmeas britânicas Megan e Gracie Garwood, diagnosticadas com leucemia com apenas duas semanas de diferença. Diante de episódios assim, impõe-se a pergunta: por que crianças, ainda no início da vida, enfrentam enfermidades tão graves?

O câncer, termo oriundo do grego karkinos, empregado por Hipócrates para descrever tumores agressivos, abrange mais de uma centena de doenças distintas, com causas e prognósticos variados. Nos adultos, fatores como tabagismo, alcoolismo, sedentarismo e alimentação inadequada figuram entre os principais determinantes.

Na infância, entretanto, a medicina ainda encontra limitações para identificar, com precisão, os fatores de risco. No Brasil, o câncer infantojuvenil permanece entre as principais causas de morte na faixa de 5 a 18 anos, com cerca de 10 mil novos casos anuais, frequentemente marcados por maior agressividade e diagnóstico tardio.

Sob o prisma científico, parcela significativa dos cânceres associa-se ao comportamento humano, embora os casos estritamente genéticos sejam minoritários. A visão espírita, contudo, amplia essa análise ao considerar o adoecimento também à luz da lei de causa e efeito.

A existência presente não se restringe ao instante biológico: a criança de hoje é um espírito imortal, portador de experiências pretéritas que podem repercutir na organização somática atual. Conforme assinala Allan Kardec, “a alma traz, ao renascer, o germe das imperfeições anteriores” (KARDEC, 2013). Nessa perspectiva, o corpo físico funcionaria como campo de expressão de realidades mais profundas.

 Léon Denis reforça que “o ser humano é herdeiro de si mesmo”, indicando que as experiências acumuladas ao longo das existências moldam, em certa medida, as condições atuais (DENIS, 2012).

A literatura mediúnica também sugere que estados mentais e emocionais persistentes podem repercutir no organismo. Emmanuel observa que pensamentos de ódio, mágoa e ressentimento atuam como forças desagregadoras, afetando o equilíbrio celular (XAVIER, 2010).

Ainda assim, é fundamental evitar leituras simplistas ou deterministas: nem todo sofrimento pode , ou deve , ser automaticamente atribuído a causas pretéritas.

A própria ciência reconhece a complexidade do câncer, cuja etiologia multifatorial desafia respostas únicas. Nesse contexto, a abordagem espírita propõe que não existem apenas doenças, mas doentes , seres integrais cuja recuperação envolve dimensões físicas, psíquicas e espirituais. Tal compreensão não exclui a terapêutica médica; ao contrário, reforça sua importância, integrando-a a uma visão mais ampla do ser.

Importa considerar, igualmente, o papel decisivo da vida atual. Hábitos, emoções e atitudes influenciam diretamente o equilíbrio orgânico. Estados depressivos prolongados, estresse e padrões mentais negativos podem comprometer o sistema imunológico, favorecendo o adoecimento. Assim, a saúde também se constrói nas escolhas cotidianas, no modo de pensar e de viver hoje.

Diante da dor, a atitude íntima assume papel determinante. A enfermidade pode representar oportunidade de reajuste e aprendizado, mas não garante, por si só, transformação moral. A forma como o indivíduo enfrenta a prova ,com revolta ou serenidade ,condiciona seus efeitos. Reações equilibradas favorecem a superação; desequilíbrios persistentes podem agravar o quadro, em múltiplos níveis.

O Espiritismo, nesse sentido, não propõe culpabilização, mas esclarecimento e consolo. Convida à renovação interior, ao cultivo de sentimentos elevados e à confiança na justiça e na misericórdia divinas. A harmonização dos pensamentos e emoções repercute positivamente no organismo, favorecendo o restabelecimento possível.

Por fim, independentemente das causas , conhecidas ou não, a mensagem essencial permanece: é imprescindível cuidar da vida em todas as suas dimensões. A fé, a esperança e a vivência do Evangelho constituem recursos valiosos no enfrentamento do sofrimento. Em Jesus, médico das almas, encontra-se o amparo maior, capaz de fortalecer o espírito diante das provas e conduzir o ser humano à verdadeira cura: que é a transformação moral.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131. ed. Brasília: FEB, 2013. DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 25. ed. Brasília: FEB, 2012. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Pensamento e Vida. 18. ed. Brasília: FEB, 2010.



O centro espírita não deve ser núcleo de “oba-oba” da fé

 




Jorge Hessen

Brasília -DF


Dizem que os “centros espíritas” estão esvaziados porque faltam “calor humano”, “música”, “alegria”, “empatia”. Outros dizem que o problema é “conservadorismo” e que a solução seria importar pautas político-ideológicas progressistas (à esquerda) pasmem!!!!Para dentro das instituições.
Ambas as propostas são, no fundo, sintomas do mesmo desvio: a tentativa de adaptar o Espiritismo ao gosto do aventureiro, em vez de formar consciências capazes de compreendê-lo.
Será que o Espiritismo é um produto cultural em disputa por audiência?  Qualquer reunião espírita, quando séria, não é um palco para multidões frenéticas ,  é um laboratório moral e espiritual sem objetivo de entretenimento, mas de transformação moral.
Aliás, a autotransformação moral dá trabalho. E trabalho não enche “auditório”. O Espiritismo é uma escola da alma, não um clube social. Quando se tenta convertê-lo em ambiente de recreação emocional, o que se perde não é apenas a profundidade ,  perde-se a própria finalidade.
Mas há quem insista: “Precisamos atrair as pessoas”.  Mas atrair para quê?  Se for para oferecer estímulos efêmeros, qualquer clube faz melhor. Se for para acolher sem convidar para o crescimento moral, cria-se dependência emocional, não consciência.
O problema não é a ausência de público. É a ausência de propósito claro. No centro espirita bem orientado  não há espaço para ilusões, mas trabalho espiritual sério e disciplinado, silencioso, metódico e frequentemente invisível. Não há preocupação com multidão, mas com responsabilidade sem aplausos viscosos.
E talvez seja exatamente isso que esteja afastando pessoas moralmente preguiçosas, porque o Espiritismo coerente  determina mais esforço de mudança moral do que oferece afago meloso para a tirania do ego.
Muitos desviam-se do silêncio interior e caçam estímulos inúteis  para não se confrontarem consigo mesmos. Quando a casa espírita séria propõe reflexão, disciplina e reforma moral, ela não está competindo com o mundo , ela está contrariando o “mundaréu”.
Outro aspecto importante é que o centro espírita não foi criado para disseminar ideologias ,  sejam elas quais forem (conservadoras ou progressistas). Ao assumir bandeiras políticas, a instituição espírita deixa de ser espaço de universalidade para se tornar território de disputa doentia.  Transformar o centro espírita em extensão de agendas ideológicas ,  ainda que “bem-intencionadas” ,  é reduzir o alcance espiritual a um recorte circunstancial medíocre e transitório.
E então por que os centros espíritas estão esvaziados? Talvez porque, em muitos casos, já não oferecem nem profundidade suficiente para sustentar os que buscam sentido, nem atividade suficiente para competir com o “mundaréu”. Ficam no meio-termo ,  frágeis, diluídas, irrelevantes.
A solução não está em “modernizar” pela superficialidade, nem em “engajar” pelas ideologias. Está em algo muito menos sedutor   e muito mais eficaz. Urge retomar a essência, o estudo sério, a vivência moral autêntica.
Isso não enche auditórios rapidamente. Mas forma consciências ,  e consciências transformadas sustentam qualquer obra no tempo. Por essa razão é preciso dizer, categoricamente , se o objetivo do centro espírita  for atrair multidões a qualquer custo, o Espiritismo terá que deixar de ser o que é. E talvez seja exatamente isso que alguns incautos, consciente ou subconscientemente, estejam propondo.
Mas quem compreende a responsabilidade da Doutrina sabe que é preferível um centro espírita com reduzido número de frequentadores  comprometidos com a verdade do que abarrotada de candidatos ao menor esforço rumo aos galardões da preguiça moral.
Que fique bem explícito que o centro espírita  não existe para ser núcleo de “oba oba da fé” . Existe  para convidar para a autotransformação moral. E isso, inevitavelmente, tem um preço (talvez o seu próprio esvaziamento). 

14 abril 2026

​Esdrúxulo “kardequiologismo" rigoroso - padrão TICO & TECO

 





 

Jorge Hessen

Brasília -DF


Sob o pretexto de fidelidade à Codificação, cresce no movimento espírita um discurso cansativo  que desvirtua Allan Kardec, enfraquece a mediunidade e promove um racionalismo estéril travestido de “prudência doutrinária”.

Aponto um fenômeno silencioso , mas profundamente corrosivo , infiltrando-se no movimento espírita brasileiro: o surgimento de um grupelho de PhDs - “kardequiólogos tupiniquins” - que “defendem” Allan Kardec, mas o ridicularizam,  deturpam e o esvaziam da razão..

O discurso parece sofisticado. Fala em análise, em controle universal, em evitar a fé cega. Até aí, tudo certo. O problema começa quando, sob esse verniz intelectual, instala-se uma “lógica” que contraria frontalmente a própria Codificação.

E é preciso dizer com todas as letras a esses kardequiólogos de plantão  que isso não é rigor doutrinário , é anomalia da razão.

Uma das teses mais repetidas por esse rigor kardequiológico é a de que “o importante é a mensagem, não o médium”. Soa bonito. Parece tecnicamente legítimo. Mas é falso.

Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec é categórico: a moral do médium influencia decisivamente a comunicação.

Não existe médium neutro. Não existe “carteiro espiritual” imune ao próprio caráter. Espíritos elevados buscam instrumentos moralmente afinados. Espíritos inferiores exploram vaidade, orgulho e ignorância. Ignorar isso não é método , é ingenuidade ou má-fé.

Outro recurso recorrente é regurgitar o chamado “controle universal do ensino dos Espíritos” como se fosse um martelo para invalidar tudo que não se encaixa em uma leitura estreita kardequiológica tupiniquim.

Mas no Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec deixa claro: esse controle se aplica a princípios fundamentais, não a descrições acessórias. Transformá-lo em instrumento para rejeitar narrativas espirituais, ambientações ou detalhes de experiência é trapacear o método kardeciano.

Parece que há comichões no “TICO & TECO” desses sabichões com o mundo espiritual “organizado”. É aqui que o blá blá blá revela sua face mais insossa . Critica-se Nosso Lar por apresentar organização no plano espiritual , cidades, atividades, estruturas, relações. Alega-se: “isso é material demais”.

Mas o que diz Kardec?

Em O Livro dos Espíritos e em A Gênese, ele ensina que o perispírito é semimaterial e o mundo espiritual possui formas organizadas e as percepções espirituais se adaptam ao estado do Espírito. Ou seja: o erro não está na descrição , está na incapacidade de compreendê-la.

Coloquemos nossos neurônios em ação. Se o perispírito é uma "semimatéria" (termo de Kardec), logo precisa sobreviver de elementos "semimateriais" , mas o que seria uma semimatéria

Ou será que, após a nossa "viagem" para o "além", seremos uma névoa sem forma, sem cor e sem graça onde sobreviveremos na fumaça universal no enigmático vácuo quântico?

Há a coceirinha nas orelhas dos  “TICO & TECO” , com o argumento da “ausência de órgãos”: dizem que os Espíritos não possuem “órgãos”, logo, não poderiam alimentar-se nem interagir de modo semelhante ao mundo material. É um salto cognitivo apressado. Kardec jamais afirmou que a vida espiritual é um vazio funcional. Ao contrário: admite sensações, necessidades relativas e processos ainda não plenamente compreendidos. Negar qualquer forma de “alimentação” , ainda que fluídica ou simbólica , é reduzir o desconhecido a um esquema simplista tipo "TICO & TECO".

Kardec recomenda análise. Recomenda cautela. Recomenda evitar a aceitação cega. Mas nunca , absolutamente nunca , recomendou a negação preventiva de tudo o que desafia a compreensão imediata sobretudo do TICO e do TECO desocupados.

O que se vê hoje, em certos círculos, é a substituição da fé raciocinada por um ceticismo seletivo, que aceita o que cabe na própria dimensão do TICO, do TECO ou de ambos. Por isso, rejeita o que exige aprofundamento e ainda se autoproclama “fieis à Doutrina”. Mas isso não é Espiritismo. É racionalismo tupiniquim muito depauperado.

Curiosamente, os mesmos que minimizam o papel do médium não hesitam em reconhecer a importância histórica de Chico Xavier. Ora, em que ficamos? Se o médium não importa, por que sua trajetória é exaltada? Se importa, por que sua produção mediúnica é colocada sob suspeita sistemática?

A incoerência é evidente e revela mais sanha do “TICO & TECO” do que método razoável. Pois o alvo real são os Espíritos André Luiz e Emmanuel. No fundo, o que se tenta fazer é relativizar , quando não desacreditar , a obra desses Espíritos.

Mas à luz de Kardec, o critério é claro: elevação moral, coerência doutrinária, ausência de contradições essenciais e isso suas obras possuem de sobra. Rejeitá-las por detalhes descritivos (ao nível “TICO & TECO”) é trocar essência por aparência.

O Espiritismo não precisa de defensores (tipo “TICO & TECO”) que o empobreçam em nome de um falso rigor. O que está em curso é preocupante: um discurso que “parece técnico”, mas é reducionista. Que “parece fiel”, mas é seletivo. Que “parece prudente”, mas é, na prática, negacionista.

Ser fiel a Allan Kardec não é transformar a Doutrina em um sistema fechado, árido e desconfiado de tudo. É justamente o contrário: É compreender que o mundo espiritual é vasto, complexo, dinâmico , e que a mediunidade, quando séria e moralmente orientada, é uma ponte legítima para sua compreensão.

O resto , por mais bem articulado que pareça , é apenas resistência disfarçada de método padrão “TICO & TECO”.

11 abril 2026

Os shows de "recados do além" no charco “mediúnico”




Retornamos aos ignóbeis shows populares das falsas cartas “mediúnicas” e ao silêncio cúmplice que abarca a liderança do movimento espírita brasileiro  e essa mudez precisa ser rompida.

Não estamos falando de ingenuidade. Não estamos falando de fato simplório. Estamos falando de um fenômeno mais grave: a construção deliberada de “autoridades mediúnicas” que, na própria  consciência, sabem que não são aquilo que o ​"povão​" inocente útil aplaude , mas continuam, sustentadas por ovações, pela cumplicidade febiana e pelo estelionato do luto transformado em picadeiro.

A questão não é apenas psicológica. É moral. Como funciona a mente de um falso médium que vive dessa comédia? Com certeza funciona, antes de tudo, pela degradação progressiva da consciência. A nefasta fraude mediúnica, quase sempre, nasce pequena: seja um detalhe inventado, seja uma mensagem “ajustada”, seja uma emoção encenada. O problema é que o ambiente espírita , quando fragilizado pela falta de estudo sério , não apenas tolera isso, mas premia. E recompensa com o que há de mais perigoso: prestígio “mediúnico” “igualzinho do honrado Chico Xavier”.

A partir daí, instala-se um mecanismo perverso: o falsário da mediunidade  percebe que a mentira gera acolhimento, fama, autoridade. E então ele cruza uma linha invisível , aquela em que deixa de apenas mentir… para precisar da mentira para existir.

É nesse ponto que a mente psicopatológica desse estelionatário do além entra em um estado de autojustificação crônica. Ele não diz mais: “estou enganando”. Ele passa a dizer: “Estou ajudando!” “Estou consolando!”“Deus sabe do meu coração!” e um rosário de mascaramentos hipócritas.

E assim, o fraudador espiritual deixa de ser apenas um vigarista  e passa a ser um crente da própria vigarice. Mas não nos enganemos: em todos os casos, há lucidez , há descaramento . Há momentos de perceptibilidade. Há instantes em que a enlameada consciência grita. Só que esses momentos são rapidamente soterrados pelo médium da carochinha por algumas  forças brutais: como o vício da admiração. A fama mediúnica é uma das mais intoxicantes que existem. Ser visto como “canal do além”, “mensageiro”, “instrumento dos espíritos”  que coloca o charlatão num pedestal quase inquestionável. E quanto mais alto o pedestal, mais devastadora será a queda. Então o embusteiro continua não por fé, mas por dependência psicológica da própria imagem.

Há a blindagem do grupo em que instituições, seguidores e até dirigentes passam a funcionar como escudo. Questionar tais vigaristas vira “falta de caridade”. Investigar vira “perseguição”. O pensamento crítico é demonizado. Cria-se uma bolha onde a mentira não apenas sobrevive , ela é protegida.

Aqui está o ponto mais grave — a exploração da dor humana. A falsa mediunidade não cresce sozinha ; ela se alimenta de algo: o luto, a saudade, o desesperoCartas “consoladoras”, mensagens “do além”, promessas de contato com entes queridos… tudo isso cria um vínculo emocional tão forte que neutraliza qualquer suspeita racional.

E então surge o cenário mais perturbador: pessoas sofrendo sendo usadas como combustível para a manutenção de uma charlatanice.

Isso não é apenas desvio de caráter. Isso é exploração criminosa do luto.

A Doutrina Espírita jamais foi ingênua sobre esse risco. O Livro dos Médiuns é categórico ao alertar contra mistificações, charlatanismo e fascinação , essa última, talvez a mais perigosa, porque cega tanto o médium quanto os que o seguem.

E aqui está o ponto que o movimento espírita brasileiro insiste em fingir desconhecer: há fascinação coletiva em curso. Não apenas indivíduos iludidos , mas grupos inteiros que preferem preservar ídolos de barro a preservar a verdade espírita. Porque para um “líder” espírita MORNO BONZINHO denunciar dói. Questionar desagrada. Expor fraudes abala estruturas de poder.

Todavia, não denunciar ou alertar os espíritas corrompe tudo. A mente do falso médium, portanto, não é um mistério insondável. Ela é o resultado de um processo: começa com concessões pequenas à verdade, evolui para justificativas morais, consolida-se na dependência da imagem e termina, muitas vezes, numa vida inteira sustentada por uma ficção cuidadosamente protegida.

E quanto mais tempo passa, mais difícil se torna sair. Porque, em determinado ponto, confessar não é apenas admitir um erro , é destruir uma identidade inteira. Mas há algo ainda mais grave do que a mente de quem engana. É o silêncio de quem percebe e não diz nada.

Enquanto o movimento espírita continuar confundindo caridade com conivência, humildade com omissão e respeito com blindagem de falsos ídolos, esse ciclo vai se repetir. E as vítimas continuarão sendo as mesmas: os sinceros, os aflitos, os que buscam consolo  e encontram o show no charco “mediúnico”.