Jorge Hessen
Brasília -DF
Recentemente, casos raros de câncer infantil voltaram a sensibilizar a comunidade médica e a sociedade. Na Califórnia, a menina Hannah Powell-Auslam, de apenas 10 anos, foi diagnosticada com um tipo extremamente incomum de câncer de mama ,o carcinoma secretório invasivo. Mesmo após uma mastectomia, houve disseminação para um nódulo, exigindo novos procedimentos.
Situação igualmente impactante envolveu as gêmeas britânicas Megan e Gracie Garwood, diagnosticadas com leucemia com apenas duas semanas de diferença. Diante de episódios assim, impõe-se a pergunta: por que crianças, ainda no início da vida, enfrentam enfermidades tão graves?
O câncer, termo oriundo do grego karkinos, empregado por Hipócrates para descrever tumores agressivos, abrange mais de uma centena de doenças distintas, com causas e prognósticos variados. Nos adultos, fatores como tabagismo, alcoolismo, sedentarismo e alimentação inadequada figuram entre os principais determinantes.
Na infância, entretanto, a medicina ainda encontra limitações para identificar, com precisão, os fatores de risco. No Brasil, o câncer infantojuvenil permanece entre as principais causas de morte na faixa de 5 a 18 anos, com cerca de 10 mil novos casos anuais, frequentemente marcados por maior agressividade e diagnóstico tardio.
Sob o prisma científico, parcela significativa dos cânceres associa-se ao comportamento humano, embora os casos estritamente genéticos sejam minoritários. A visão espírita, contudo, amplia essa análise ao considerar o adoecimento também à luz da lei de causa e efeito.
A existência presente não se restringe ao instante biológico: a criança de hoje é um espírito imortal, portador de experiências pretéritas que podem repercutir na organização somática atual. Conforme assinala Allan Kardec, “a alma traz, ao renascer, o germe das imperfeições anteriores” (KARDEC, 2013). Nessa perspectiva, o corpo físico funcionaria como campo de expressão de realidades mais profundas.
Léon Denis reforça que “o ser humano é herdeiro de si mesmo”, indicando que as experiências acumuladas ao longo das existências moldam, em certa medida, as condições atuais (DENIS, 2012).
A literatura mediúnica também sugere que estados mentais e emocionais persistentes podem repercutir no organismo. Emmanuel observa que pensamentos de ódio, mágoa e ressentimento atuam como forças desagregadoras, afetando o equilíbrio celular (XAVIER, 2010).
Ainda assim, é fundamental evitar leituras simplistas ou deterministas: nem todo sofrimento pode , ou deve , ser automaticamente atribuído a causas pretéritas.
A própria ciência reconhece a complexidade do câncer, cuja etiologia multifatorial desafia respostas únicas. Nesse contexto, a abordagem espírita propõe que não existem apenas doenças, mas doentes , seres integrais cuja recuperação envolve dimensões físicas, psíquicas e espirituais. Tal compreensão não exclui a terapêutica médica; ao contrário, reforça sua importância, integrando-a a uma visão mais ampla do ser.
Importa considerar, igualmente, o papel decisivo da vida atual. Hábitos, emoções e atitudes influenciam diretamente o equilíbrio orgânico. Estados depressivos prolongados, estresse e padrões mentais negativos podem comprometer o sistema imunológico, favorecendo o adoecimento. Assim, a saúde também se constrói nas escolhas cotidianas, no modo de pensar e de viver hoje.
Diante da dor, a atitude íntima assume papel determinante. A enfermidade pode representar oportunidade de reajuste e aprendizado, mas não garante, por si só, transformação moral. A forma como o indivíduo enfrenta a prova ,com revolta ou serenidade ,condiciona seus efeitos. Reações equilibradas favorecem a superação; desequilíbrios persistentes podem agravar o quadro, em múltiplos níveis.
O Espiritismo, nesse sentido, não propõe culpabilização, mas esclarecimento e consolo. Convida à renovação interior, ao cultivo de sentimentos elevados e à confiança na justiça e na misericórdia divinas. A harmonização dos pensamentos e emoções repercute positivamente no organismo, favorecendo o restabelecimento possível.
Por fim, independentemente das causas , conhecidas ou não, a mensagem essencial permanece: é imprescindível cuidar da vida em todas as suas dimensões. A fé, a esperança e a vivência do Evangelho constituem recursos valiosos no enfrentamento do sofrimento. Em Jesus, médico das almas, encontra-se o amparo maior, capaz de fortalecer o espírito diante das provas e conduzir o ser humano à verdadeira cura: que é a transformação moral.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131. ed. Brasília: FEB, 2013. DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 25. ed. Brasília: FEB, 2012. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Pensamento e Vida. 18. ed. Brasília: FEB, 2010.















