Jorge Hessen
Brasília -DF
O socialismo coletivista ignora a lei do progresso espiritual: a transformação da sociedade começa pela transformação moral de cada consciência cidadã.
Há uma ilusão ideológica que atravessa gerações e continua exercendo influência no Brasil: a pretensão de transformar o povo de fora para dentro, submetendo o cidadão aos desígnios da coletividade, como se decretos, redistribuições econômicas e engenharia social fossem capazes de produzir virtudes por imposição política.
Essa concepção, quando fundada na revolução socialista materialista, colide frontalmente com os fundamentos do Espiritismo. Não porque a Doutrina Espírita seja indiferente à pobreza ou às injustiças sociais, mas porque compreende o ser humano como Espírito imortal, responsável por sua evolução e pelos próprios atos.
Em Socialismo e Espiritismo, Léon Denis oferece uma reflexão contundente. No capítulo VII, declara sua posição com clareza: “Sou evolucionista e não revolucionário”. O pensador francês contesta o socialismo materialista, cuja lógica de antagonismos coletivos e luta de classes tende a subordinar a consciência individual a projetos ideológicos, relegando a dimensão espiritual da existência. Isso não significa rejeitar toda e qualquer preocupação democrática com a justiça social, mas advertir que nenhuma reforma social será verdadeiramente emancipadora se prescindir de um sólido fundamento moral e espiritual, pois a transformação duradoura da sociedade começa pela renovação ética do próprio indivíduo.
É precisamente aí que reside o problema. Uma ideologia que reduz o homem às condições econômicas, atribui os males humanos prioritariamente às estruturas sociais e promete regenerar a sociedade pela reorganização coletiva incorre em grave equívoco antropológico. Pode modificar instituições, mas não consegue decretar a honestidade; pode redistribuir riquezas, mas não fabricar generosidade; pode impor comportamentos, mas não produzir consciência moral.
A história demonstra que projetos políticos proclamados em nome da igualdade também podem gerar autoritarismo, privilégios burocráticos e novas formas de opressão. Quando o Estado pretende decidir o destino de todos, o indivíduo corre o risco de converter-se em instrumento de uma abstração ideológica chamada povo, classe ou massa.
O Espiritismo oferece outra perspectiva. No Livro dos Espíritos, questão 919, Kardec destaca o autoconhecimento como caminho fundamental para o aperfeiçoamento moral. Léon Denis, por sua vez, sustenta, em O problema do ser, do destino e da dor, a importância da educação da consciência e do esforço individual na marcha evolutiva.
Não existe progresso espiritual por procuração. Ninguém pode realizar a reforma íntima em nosso lugar. A sociedade melhora quando seus integrantes se tornam mais justos, honestos, responsáveis e solidários. Instituições melhores são necessárias, mas sua estabilidade depende também da qualidade moral daqueles que as dirigem e daqueles que delas participam.
O Brasil não se recuperará pela exaltação das massas contra a autonomia do indivíduo, nem pela demonização de quem produz, empreende, trabalha ou pensa diferentemente (capitalista). Tampouco encontrará solução no individualismo egoísta. A alternativa espírita não é a indiferença social: é a solidariedade consciente, associada à liberdade, à responsabilidade e ao mérito moral.
A verdadeira igualdade não consiste em uniformizar consciências, mas em reconhecer a dignidade de todos, sem abolir a responsabilidade pessoal.
Não confundamos justiça social com nivelamento compulsório, fraternidade com submissão ideológica, nem caridade com dependência política. Amparar os necessitados é um imperativo moral; converter cidadãos em massa tutelada pelo Estado, entretanto, não é emancipá-los, mas restringir-lhes a autonomia, obscurecer-lhes a consciência crítica e perpetuar a dependência que se deveria combater.
O discurso socialista materialista promete transformar o mundo pela força das estruturas. O Espiritismo recorda que a renovação duradoura exige a transformação do ser humano. Sem reforma moral, as estruturas reproduzem os vícios de quem as controla.
Não é a massa que reforma a consciência do indivíduo por decreto. São indivíduos moralmente renovados que podem construir uma sociedade mais justa. Essa é a diferença entre a engenharia ideológica dos homens e o progresso espiritual que a lei divina nos convida a realizar.
Referências Bibliográficas:
DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. Tradução de Wallace Leal V. Rodrigues. Matão, SP: O Clarim, 1982.
DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 1999








