31 outubro 2026

Brasil: precisamos de líderes que unam, não de personalidades que dividam!




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz do Espiritismo, a proteção espiritual de uma nação deve inspirar o progresso coletivo, mas a construção da unidade nacional depende também da maturidade moral dos cidadãos e de lideranças comprometidas com o bem comum.

Nas últimas três décadas, o Brasil conheceu diferentes lideranças políticas, algumas carismáticas, outras controversas, mas frequentemente marcadas por uma característica preocupante: a incapacidade de unir os brasileiros em torno de um projeto nacional. Direita ou esquerda, os extremos têm alimentado antagonismos, ressentimentos e disputas que ultrapassam os espaços políticos e invadem famílias, instituições religiosas e antigas amizades.

É inquietante observar compatriotas que, embora compartilhem a mesma história, cultura e território, passaram a enxergar uns aos outros como adversários irreconciliáveis. A divergência democrática é legítima; a transformação do contraditório em hostilidade permanente, entretanto, representa um preocupante retrocesso civilizatório.

À luz do Espiritismo, essa realidade merece uma reflexão mais profunda. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, aborda expressamente a assistência espiritual às coletividades. Na questão 518, os Espíritos explicam que sociedades, cidades e povos recebem influências espirituais conforme as paixões e o caráter predominantes entre seus integrantes. Na questão 519, esclarecem que as nações possuem Espíritos protetores especiais, por constituírem individualidades coletivas que necessitam de direção superior.

Essa abordagem oferece uma perspectiva instigante: a trajetória espiritual de um povo não está dissociada de sua conduta moral. A questão 518 é particularmente elucidativa ao relacionar o aperfeiçoamento moral das coletividades à atração de influências espirituais mais elevadas.

Seria razoável, portanto, imaginar que a espiritualidade superior permaneça indiferente às dificuldades de uma nação com tantas possibilidades como o Brasil? Não temos como conhecer seus planejamentos, tampouco afirmar que determinado governante esteja sendo preparado no mundo espiritual. Entretanto, podemos admitir, dentro dos princípios doutrinários, que Espíritos comprometidos com o progresso das coletividades trabalhem pela inspiração de consciências e pelo amadurecimento dos povos.

Talvez estejamos precisando, mais do que nunca, de lideranças com outra estatura moral. Homens e mulheres capazes de compreender que governar não significa conquistar seguidores incondicionais, insuflar ressentimentos ou alimentar a idolatria da própria personalidade. Governar significa servir à sociedade, respeitar as instituições democráticas e trabalhar por todos, independentemente de classe social, origem, cor ou convicção ideológica.

Precisamos de estadistas, não de supostos salvadores da pátria; de conciliadores, não de incendiários políticos; de projetos nacionais, não de projetos pessoais ou de grupos. O verdadeiro patriotismo não consiste em hostilizar quem pensa diferente, mas em reconhecer que a diversidade de opiniões pode coexistir com o compromisso de construir uma nação melhor.

Não se trata de defender uma terceira via partidária, tampouco de alimentar expectativas messiânicas em torno de algum nome. Trata-se de aspirar a lideranças genuinamente democráticas, solidárias, equilibradas e comprometidas com a dignidade humana.

O Brasil, frequentemente associado à expressão Pátria do Evangelho, precisa demonstrar essa vocação também nas relações entre seus cidadãos. Não basta ostentar uma referência espiritual; é indispensável vivenciá-la na fraternidade, na justiça e no respeito recíproco.

Até quando permaneceremos reféns de uma polarização que enfraquece a convivência nacional? A mudança, certamente, não virá exclusivamente de um governante nem poderá ser transferida à espiritualidade como se os Espíritos superiores devessem resolver aquilo que compete aos encarnados.

A espiritualidade pode inspirar, mas cabe aos homens escolher. A transformação nacional começa pela transformação das consciências.

Tenho esperança de que surjam lideranças capazes de reunir os brasileiros em torno de objetivos superiores, sem radicalismos, sem personalismos e sem submissão ideológica. Que o futuro nos apresente homens e mulheres que compreendam a grandeza de servir ao Brasil.

Precisamos de uma liderança que desperte o sentimento de pertencimento nacional, e não de personalidades que transformem irmãos em inimigos. A união é possível. E o Brasil merece conquistá-la!

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013. Parte segunda, cap. IX, questões 518 a 520.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

30 outubro 2026

O futuro do Espiritismo na era da internet e da inteligência artificial




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre a expansão extraordinária do conhecimento e os riscos da desinformação, a Doutrina Espírita precisa avançar tecnologicamente sem perder sua identidade kardeciana.

Em 2009, quando a internet ainda consolidava sua presença na sociedade, escrevemos sobre seu potencial para transformar a divulgação espírita. Naquela ocasião, já percebíamos que a comunicação virtual permitiria aproximar instituições, integrar pesquisadores, compartilhar conhecimentos e levar a mensagem espírita a lugares onde ela ainda era praticamente desconhecida. Hoje, aquela perspectiva tornou-se realidade, mas estamos diante de uma transformação ainda mais profunda: a inteligência artificial (IA).

Allan Kardec, em Obras Póstumas, já reconhecia a importância da publicidade em larga escala para popularizar as ideias espíritas. A internet materializou essa possibilidade, enquanto as plataformas digitais, as transmissões audiovisuais e, agora, a IA ampliaram exponencialmente seu alcance. Segundo o IBGE (2026), 90,5% dos brasileiros com dez anos ou mais utilizaram a internet em 2025. Estamos, portanto, diante de um ambiente extraordinário para a difusão do conhecimento espírita.

A IA poderá auxiliar na tradução de obras, na organização de bibliotecas digitais, na comparação de textos, na pesquisa histórica, na elaboração de cursos interativos e na acessibilidade do conhecimento. Poderá aproximar estudiosos de diferentes países e facilitar o acesso à monumental obra de Kardec. Entretanto, precisamos compreender uma distinção fundamental: a tecnologia pode processar informações, mas não substitui a consciência, o discernimento moral nem a responsabilidade intelectual.

Surge, nesse cenário, um desafio preocupante. A mesma ferramenta capaz de facilitar estudos poderá produzir textos apócrifos, falsas comunicações mediúnicas, citações inexistentes, imagens manipuladas e mensagens atribuídas indevidamente a Espíritos ou personalidades respeitáveis. A fabricação artificial de conteúdos poderá alimentar o misticismo, a credulidade e o comércio da fé. A aparência de autenticidade não constitui prova de veracidade.

Por isso, o futuro do Espiritismo dependerá também da capacidade de seus adeptos de desenvolver o pensamento crítico. Não podemos confundir popularidade com autoridade doutrinária, quantidade de seguidores com conhecimento, nem respostas produzidas por algoritmos com verdades comprovadas. A recomendação da UNESCO (2021) sobre a ética da inteligência artificial adverte para a necessidade de transparência, responsabilidade e proteção contra distorções e desigualdades.

É indispensável, igualmente, que o movimento espírita não se transforme em refém dos algoritmos, das disputas ideológicas e da superficialidade das redes sociais. A divulgação não pode sacrificar o estudo sistemático, a pesquisa séria e a fidelidade aos princípios fundamentais da Codificação. Emmanuel, André Luiz e Chico Xavier, entre outros autores respeitáveis, permanecem fontes subsidiárias de estudo, sem substituir a referência doutrinária de Kardec.

Os centros espíritas precisam incorporar essas ferramentas à educação doutrinária, à formação de trabalhadores, às atividades assistenciais e ao intercâmbio internacional. A tecnologia deve aproximar pessoas, não substituir o acolhimento presencial, o abraço fraterno e a convivência solidária. A exclusão digital e as limitações de acesso também exigem atenção.

Não devemos temer o progresso tecnológico, mas tampouco idolatrá-lo. Kardec ensinou que o Espiritismo deve caminhar com o progresso, sem se afastar da razão e do exame criterioso dos fatos.

O futuro da Doutrina não será determinado pela velocidade dos computadores, pela sofisticação dos robôs ou pela inteligência artificial. Será determinado pela maturidade intelectual e moral dos espíritas que utilizarem esses recursos.

A internet pode levar o Espiritismo aos quatro cantos do planeta; a inteligência artificial pode ampliar seu acesso; mas somente o estudo, a razão, a ética e a vivência do Evangelho poderão preservar sua essência.

 

 

Referências Bibliográficas:

BIBLIOTECA NACIONAL DE ESTATÍSTICAS (IBGE). Proporção de usuários da internet no país ultrapassou 90% da população de 10 anos ou mais, em 2025. Rio de Janeiro: IBGE, 2026.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2004.

UNESCO. Recomendação sobre a ética da inteligência artificial. Paris: UNESCO, 2021.

 

29 outubro 2026

A revolução cultural e a soberania da irracionalidade




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando o controle das palavras substitui o debate de ideias, a liberdade começa a sucumbir no abismo da irracionalidade.

Há um fenômeno contemporâneo que merece nossa atenção: a transformação da linguagem em instrumento de controle social. Sob o pretexto de promover virtudes, determinadas correntes ideológicas procuram estabelecer não apenas o que devemos dizer, mas também o que podemos pensar, questionar ou contestar. Quando a discordância passa a ser tratada como delito moral, o debate racional cede espaço à intimidação.

A linguagem evolui naturalmente, e algumas mudanças vocabulares são legítimas e necessárias. O problema surge quando a atualização dos termos deixa de ser uma escolha fundamentada e se converte em imposição, acompanhada de constrangimento público, censura e tentativas de silenciar opiniões divergentes. Nesse ambiente, a argumentação perde espaço para a patrulha ideológica.

Antonio Gramsci desenvolveu o conceito de hegemonia para analisar como a direção cultural e intelectual contribui para a manutenção do poder. Sua reflexão permite compreender a importância das instituições, da educação e dos meios de comunicação na formação do consenso social (GRAMSCI, 2000). Isso não significa, porém, que toda mudança cultural obedeça a um plano centralizado. Significa que devemos examinar criticamente quem produz as narrativas dominantes, como elas se difundem e quais consequências acarretam.

O perigo está em substituir a investigação pela palavra de ordem, a lógica pela emoção manipulada e a liberdade de consciência pela submissão ao pensamento predominante. Quando o indivíduo teme expressar uma dúvida para não ser estigmatizado, instala-se uma forma de autocensura. A sociedade pode conservar suas instituições formais e, ainda assim, empobrecer intelectualmente, porque seus cidadãos passam a repetir fórmulas em vez de examinar argumentos.

É nesse contexto que podemos falar na soberania da irracionalidade: não como ausência absoluta de inteligência, mas como a prevalência da pressão coletiva sobre a reflexão independente. A palavra torna-se instrumento de enquadramento, e o medo da reprovação pública substitui a busca honesta da verdade.

A Doutrina Espírita oferece um contraponto vigoroso a essa tendência. Em O Livro dos Espíritos, questão 837, Allan Kardec adverte que constranger alguém a agir contra a própria consciência favorece a hipocrisia. Na questão 841, os Espíritos ensinam que a convicção deve ser alcançada pela brandura e pela persuasão, jamais pela força (KARDEC, 2013).

Isso não significa licença para ofender, discriminar ou desprezar o próximo. A liberdade de expressão exige responsabilidade, assim como a caridade exige respeito. Entretanto, respeitar pessoas não significa abdicar do direito de examinar criticamente suas ideias. A tolerância não pode ser monopólio de quem exige concordância.

O Espiritismo, por seu compromisso com a razão e o livre exame, não deve submeter-se a modismos, sejam de esquerda ou de direita. Sua fidelidade é à verdade examinada, à consciência responsável e à lei moral. Em A Gênese, Kardec (2013) reafirma o caráter progressivo da Doutrina, aberta à verdade demonstrada e à correção de eventuais equívocos.

Precisamos, portanto, recuperar a coragem de pensar, perguntar e discordar sem hostilidade, mas também sem submissão. Uma sociedade verdadeiramente livre não protege ideias contra o questionamento: protege o direito de questioná-las.

Quando o medo determina as palavras e a pressão coletiva substitui a razão, a liberdade já apodreceu. Defender o livre pensamento é resistir à soberania da irracionalidade.

Por isso, costumo inventar um neologismo entre risos com meus amigos, dizendo que, por vezes, coexisto com 'sub-irmãos'. É como examinar os degraus desiguais de uma fraternidade e tentar decifrar a intrincada árvore genealógica que nos une.

 

Referências Bibliográficas:

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 2: Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.

 

28 outubro 2026

A eleição já passou: e agora, onde fica o evangelho?




Jorge Hessen

Brasília -DF

Vamos refletir aqui sobre a intolerável militância política, a coerência moral e a  responsabilidade espírita.

A eleição já ocorreu. Acabou! Quem frequenta uma casa espírita para aprender com Jesus precisa examinar, com sinceridade, se sua militância política está em consonância com os princípios do Evangelho.

Há uma incoerência gritante que precisa ser enfrentada no movimento espírita: frequentar a instituição, discursar sobre o amor ao próximo e, ao atravessar a porta, transformar as redes sociais em trincheiras de agressividade, ataques pessoais, desqualificação de adversários e disputas ideológicas. Afinal, que Evangelho estamos efetivamente praticando? A doutrina que professamos deve orientar nossa conduta cotidiana ou será apenas um discurso conveniente, abandonado quando contraria nossas paixões?

A transformação moral não pode ficar restrita às paredes do centro espírita. O compromisso com o Cristo precisa repercutir em nossas relações familiares, profissionais e sociais, sobretudo quando divergimos de quem pensa diferente. Em O Livro dos Espíritos, na questão 886, Allan Kardec registra a definição de caridade ensinada por Jesus: benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Não há ressalva partidária nessa orientação. Não podemos ser indulgentes com os correligionários e implacáveis com os adversários, como se a virtude dependesse da legenda que alguém defende.

A cidadania é legítima e constitui direito fundamental assegurado pela Constituição Federal (BRASIL, 1988, art. 5º). O Espiritismo não exige alienação política, tampouco proíbe a participação consciente na vida pública. A questão central é outra: quando a convicção se converte em fanatismo, a crítica degenera em hostilidade e o adversário político passa a ser tratado como inimigo moral, algo essencial e moralmente se perdeu. A defesa de ideias não nos autoriza a ferir consciências, alimentar rancores ou disseminar desprezo.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente nos capítulos XI e XVII, Kardec examina o mandamento do amor ao próximo e a necessidade de reconhecer o verdadeiro cristão por suas obras. Isso exige coerência entre aquilo que proclamamos e aquilo que fazemos. Não podemos servir a Jesus no discurso e ao ódio na prática. O Mestre nos ensinou a amar uns aos outros, não a nos armarmos contra aqueles que divergem de nossas escolhas.

A casa espírita, por sua vez, deve preservar sua finalidade educativa, fraterna e doutrinária, sem se transformar em extensão de palanque eleitoral. Se um ambiente religioso se torna palco de hostilidades ideológicas, cabe buscar o diálogo e a pacificação; se isso se mostrar impossível, é legítimo procurar outra instituição, sem converter a divergência em perseguição ou ressentimento.

Não fomos chamados a vencer adversários políticos, mas a vencer, dentro de nós, o egoísmo, o orgulho e a intolerância que ainda nos distanciam do amor ao próximo. A eleição terminou; a tarefa de renovação moral, não. O voto expressa uma escolha cívica, mas não constitui certificado de superioridade ética nem dispensa ninguém do dever de respeitar o semelhante.

Ou aprendemos a conviver fraternalmente com as diferenças, ou continuaremos repetindo as lições que nos recusamos a assimilar.

Pensemos nisso!


Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000.

 

27 outubro 2026

Fidelidade a Kardec ou submissão ao misticismo inútil?




Jorge Hessen

Brasília -DF

A instituição espírita não pode ser refém de personalismos, modismos terapêuticos e revelações sem controle racional. Sua missão exige estudo, discernimento e responsabilidade moral.

A Casa Espírita deve ser um celeiro de esperanças na tumultuada noite das angústias humanas. Sua finalidade, porém, não se resume ao acolhimento fraterno ou à assistência material. Deve promover o conhecimento espírita, o amadurecimento da consciência e a transformação moral, sem os quais a caridade corre o risco de degenerar em assistencialismo desprovido de educação espiritual.

Como célula fundamental do Movimento Espírita, o Centro deve preservar a identidade da Doutrina codificada por Allan Kardec. Entretanto, a expansão do Espiritismo nem sempre tem sido acompanhada pelo estudo metódico de suas obras fundamentais. O resultado é preocupante: princípios doutrinários são confundidos com opiniões particulares, manifestações mediúnicas são aceitas sem exame e práticas estranhas à Codificação recebem indevidamente o rótulo de espíritas.

Em O Livro dos Espíritos, questão 625, Kardec identifica Jesus como modelo e guia da humanidade. Na questão 886, esclarece o sentido da caridade segundo o Cristo. Já O Evangelho segundo o Espiritismo, na introdução, seção II, estabelece o controle universal do ensino dos Espíritos como critério de autoridade doutrinária. A concordância das comunicações, aliada ao exame da razão, impede que revelações isoladas sejam elevadas precipitadamente à condição de verdades incontestáveis.

Em O Livro dos Médiuns, Kardec examina as mistificações, as contradições e a necessidade de discernimento diante das comunicações espirituais. Portanto, nome respeitável, linguagem eloquente ou suposta identidade espiritual não constituem garantias de autenticidade. A credulidade não é virtude espírita; é vulnerabilidade que exige esclarecimento.

Por essa razão, sacramentos, batismos, crismas, dízimos e cerimônias religiosas não devem ser instituídos como exigências da Doutrina Espírita. Tampouco se justifica converter a Casa Espírita em palco de jogos de azar, desfiles, festivais espetaculares de arrecadação ou disputas partidárias. A independência de consciência e o respeito à pluralidade política devem prevalecer sobre os caprichos de dirigentes.

Merecem igual cautela as práticas denominadas apometria, piramideterapia, cristaloterapia, cromoterapia e choques anímicos por corrente magnética quando apresentadas como tratamentos espíritas ou dotadas de eficácia terapêutica sem comprovação científica. Não basta invocar a espiritualidade para legitimar procedimentos. Problemas de saúde exigem assistência profissional adequada; o acolhimento espiritual não substitui tratamentos médicos ou psicológicos.

É preciso, contudo, distinguir o que a Codificação não prescreve daquilo que ela efetivamente contradiz. Nem toda iniciativa extrínseca à obra de Kardec é automaticamente condenável; o equívoco está em atribuir-lhe autoridade doutrinária sem fundamentação, em substituir o estudo por novidades ou em alimentar promessas infundadas.

A Casa Espírita não pertence a dirigentes, médiuns ou grupos particulares. É um espaço de estudo, fraternidade e serviço, comprometido com a razão e a ética cristã. Sua administração requer preparo doutrinário, transparência e disposição para corrigir erros.

Fraternidade não significa conivência. Defender a identidade kardeciana não é intolerância: é responsabilidade perante uma Doutrina que não admite fé cega, mas convida ao livre exame, ao conhecimento e à reforma moral.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Introdução, seção II; cap. XV e XVII. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Questões 625 e 886. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Caps. XXIV e XXVII. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Abril de 1864: autoridade da Doutrina Espírita — controle universal do ensino dos Espíritos. Disponível em: https://kardecpedia.com/. Acesso em: 27 out. 2026.

 

26 outubro 2026

Fé raciocinada e democracia na perspectiva espírita diante do insucesso eleitoral




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O meu candidato não foi eleito. Ok e daí?

A dificuldade de aceitar uma derrota eleitoral não constitui apenas um problema político: pode revelar imperfeições morais que a Doutrina Espírita nos convida a reconhecer e superar.

Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, ao tratar do orgulho e do egoísmo, apresenta esses sentimentos como obstáculos ao progresso moral. Quando alguém considera legítimo somente o resultado que favorece suas convicções, corre o risco de colocar o interesse pessoal acima da justiça e do bem coletivo. O fanatismo político pode transformar essa postura em intolerância, hostilidade e incapacidade de reconhecer a liberdade de consciência alheia.

Isso não significa que os processos eleitorais sejam infalíveis. Fraudes podem ocorrer em qualquer país e, quando existem indícios consistentes, devem ser investigadas. A democracia exige fiscalização, transparência e apuração responsável. Entretanto, suspeitas não são provas, e a inconformidade com o resultado não autoriza a rejeição sistemática das instituições. No Brasil, a contestação eleitoral deve apoiar-se em evidências verificáveis e nos instrumentos legais disponíveis.

A fé raciocinada, princípio fundamental da proposta kardeciana, não recomenda credulidade cega, mas também não legitima a crença obstinada em narrativas que dispensam comprovação. O pensamento espírita deve submeter informações ao exame criterioso, sem permitir que paixões partidárias substituam a razão.

Em O Livro dos Espíritos, questão 886, Kardec esclarece que a caridade, segundo Jesus, compreende benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 3, o homem de bem é apresentado como aquele que respeita as convicções sinceras dos outros e não condena quem pensa diferentemente. Eis um critério moral para avaliar nossas atitudes políticas.

Aceitar a derrota não significa acomodar-se, concordar com todas as decisões governamentais ou renunciar à fiscalização do poder. Significa reconhecer o resultado legitimamente estabelecido, respeitar as regras democráticas e continuar trabalhando pelo bem comum, inclusive preparando-se para as próximas eleições.

O presidente eleito tem responsabilidades perante toda a população, inclusive os que não votaram nele. A conhecidíssima metáfora do Brasil como um avião em pleno voo: mesmo que o piloto não tenha sido nossa escolha, não desejamos a queda da aeronave. Cabe-nos acompanhar sua condução, cobrar competência e contribuir para que todos cheguem em segurança ao destino.

No movimento espírita, essa reflexão é particularmente necessária. A tribuna, o estudo doutrinário e a convivência fraterna não devem ser instrumentos de propaganda partidária nem de hostilização dos que divergem de nós. A fraternidade precisa prevalecer também dentro das famílias, onde opiniões políticas não deveriam destruir vínculos afetivos.

Jesus nos ensinou a amar o próximo. Kardec nos convida ao autoconhecimento e à transformação moral. Antes de apontarmos o fanatismo alheio, examinemos se o orgulho, a intolerância e o ressentimento também encontram abrigo em nós.

Oremos pelo Brasil, sem dispensar o trabalho; aceitemos os resultados oficiais, sem abandonar a vigilância cidadã; e aprendamos a discordar sem odiar.

A verdadeira vitória moral não consiste em impor nossa vontade a todos, mas em vencer em nós mesmos o orgulho que nos impede de reconhecer no adversário político um irmão em humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira. Questões 785, 886, 893 e 919.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira. Cap. X, item 17; cap. XVII, item 3.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. XIX: A fé transporta montanhas.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Arts. 1º e 14. Brasília, DF: Presidência da República.

 

A dor da depressão exige acolhimento, ciência e renovação moral




Jorge Hessen

Brasília -DF

Tristeza, luto e depressão são experiências distintas, embora possam apresentar manifestações semelhantes. Distingui-las é indispensável para acolher o sofrimento humano sem preconceitos, diagnósticos improvisados ou interpretações espirituais precipitadas.

A tristeza é uma emoção natural diante das frustrações, das decepções e das adversidades. O luto corresponde à experiência de “perda” de alguém amado, especialmente pela morte, e pode envolver saudade profunda, lágrimas e sensação de vazio. Ambos fazem parte da existência e não constituem, por si mesmos, doenças.

A depressão, entretanto, é uma condição clínica que pode comprometer o humor, a capacidade de sentir prazer, o sono, o apetite, a concentração e as relações sociais. Não se resume à tristeza prolongada, tampouco desaparece mediante uma decisão voluntária de ser feliz. O diagnóstico exige avaliação profissional, e o tratamento pode envolver psicoterapia e medicamentos, quando indicados (OMS, 2023; NICE, 2022).

Nesse sentido, a contribuição característica do Espiritismo identificamos no Livro dos Espíritos, questões 920 a 933, que  examinam as vicissitudes da existência e os meios de enfrentar as dificuldades humanas. A imortalidade da alma e a pluralidade das existências ampliam nossa compreensão da vida, embora não nos conferem o conhecimento das causas espirituais particulares de cada enfermidade.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V, Kardec reúne reflexões sobre as aflições, o luto e a melancolia. A consolação espírita fundamenta-se na continuidade da vida e na possibilidade de reencontro espiritual, sem exigir que o enlutado suprima a saudade ou esconda suas lágrimas. A esperança na imortalidade não elimina a dor da separação; oferece uma perspectiva mais ampla para atravessá-la.

É particularmente importante recordar a orientação contida no item 26 do mesmo capítulo, que admite ser legítimo abrandar as próprias provas, recorrendo aos meios disponíveis para superar as dificuldades. Kardec compara essa atitude à de quem, estando doente, procura um médico. Portanto, buscar tratamento não representa falta de resignação, mas utilização responsável dos recursos disponíveis.

A lei de causa e efeito tampouco autoriza de maneira simplista  concluir que uma pessoa deprimida esteja “pagando” dívidas de existências anteriores. Não conhecemos os antecedentes espirituais individuais, e a Codificação não aprovisiona juízo crítico para diagnosticar a depressão como expiação. Até porque transformar hipóteses em certezas significa substituir o livre exame pela especulação.

A renovação íntima, a prece, a caridade e a confiança em Deus podem fortalecer a capacidade de enfrentar as provações. Não substituem, porém, os cuidados médicos e psicológicos. Atribuir automaticamente a depressão à obsessão ou à falta de fé é doutrinariamente imprudente e humanamente cruel.

Diante da tristeza, ofereçamos compreensão. Diante do luto, respeitemos o tempo de cada pessoa. Diante da depressão, incentivemos o tratamento e asseguremos presença fraterna. Pensamentos suicidas exigem atenção imediata; em situação de risco iminente, deve-se acionar o SAMU (192). O CVV (188) oferece apoio emocional gratuito.

O verdadeiro consolo espírita não consiste em explicar toda dor por meio de causas invisíveis, mas em aliar a esperança espiritual à razão, à ciência e à solidariedade. A fé raciocinada não condena quem sofre: esclarece, acolhe e ajuda a preservar a vida.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. V: Bem-aventurados os aflitos. Disponível em: https://www.kardecpedia.com.br/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundooespiritismo/2059/capitulo-v-bem-aventurados-os-aflitos. Acesso em: 26 out. 2026.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Questões 920-933. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 1999.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Depression in adults: treatment and management. London: NICE, 2022. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng222. Acesso em: 26 out. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Depressão. Genebra: OMS, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression. Acesso em: 26 out. 2026.

 

 

 

 

 

25 outubro 2026

A confusa polarização política que profana a consciência espírita




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Polarização, intolerância e paixões partidárias desafiam a convivência familiar e religiosa. Para o Espiritismo, o antídoto não é a submissão ideológica, mas a vigilância moral, o livre exame e o amor ao próximo.

A sociedade brasileira atravessa um período de acentuada polarização política, cujos efeitos invadem lares, amizades e instituições religiosas. Familiares rompem relações, amigos se afastam e confrades transformam divergências partidárias em incompatibilidades morais. Em muitos casos, a defesa de uma ideia tornou-se mais importante do que a preservação dos vínculos humanos.

Sob a perspectiva espírita, esse fenômeno permite refletir sobre as obsessões coletivas. Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec examina a influência dos Espíritos sobre os encarnados e ressalta a importância do discernimento (KARDEC, 2003). Podemos investigar se ambientes de hostilidade, ressentimento e intolerância favorecem influências espirituais perturbadoras.

Sei que nem toda polarização é obsessão, nem toda divergência política decorre de influência espiritual inferior. As disputas ideológicas também possuem causas históricas, econômicas, culturais, psicológicas e comunicacionais. Não seria rigoroso de  minha parte diagnosticar uma coletividade como obsidiada por suas preferências políticas, tampouco atribuir aos adversários a condição de instrumentos do mal.

O que podemos reconhecer concretamente é que orgulho, fanatismo, desejo de dominação e incapacidade de ouvir o contraditório favorecem comportamentos obsessivos destrutivos. Na interpretação espírita, essas disposições tornam o indivíduo vulnerável a influências espirituais negativas.

As redes sociais agravam o problema ao estimular notícias falsas, hostilidade verbal e grupos fechados em suas próprias convicções. O adversário deixa de ser um cidadão com opiniões divergentes e passa a ser tratado como inimigo. Progressistas, conservadores, liberais e patriotas podem incorrer no mesmo equívoco: pretender monopolizar a virtude, demonizar o oponente e dispensar o próprio grupo do exame crítico.

O Espiritismo é apartidário. Não constitui programa eleitoral, não canoniza governantes nem concede superioridade moral a partidos. Seus princípios podem orientar a consciência política, mas não autorizam a apropriação da Doutrina por projetos de poder. Temos liberdade para escolher representantes e responsabilidade moral de examinar criticamente nossas escolhas.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec define a caridade pela benevolência, pela indulgência e pelo perdão (KARDEC, 2008). Isso não significa tolerar injustiças ou silenciar diante de abusos. Significa combater erros sem transformar quem erra em objeto de ódio. Fraternidade não é conivência, assim como firmeza de princípios não exige hostilidade pessoal.

A questão 886 de O Livro dos Espíritos associa a caridade ao amor ao próximo e à benevolência para com todos (KARDEC, 2007). Esse ensinamento vale especialmente quando discordamos. É fácil demonstrar afeto por quem compartilha nossas opiniões; o verdadeiro teste moral ocorre diante de quem pensa diferentemente.

Na perspectiva reencarnacionista, as relações humanas oferecem oportunidades de aprendizado. A inimizade cultivada, o orgulho alimentado e a reconciliação recusada podem representar experiências de crescimento desperdiçadas.

Governos passam, partidos mudam e ideologias se transformam. Podemos denunciar irregularidades, contestar políticas públicas e defender convicções sem destruir o respeito mútuo.

O antídoto para a intolerância não é a uniformidade ideológica, mas a educação da consciência. Antes de suspeitar da obsessão alheia, examinemos nosso próprio orgulho, ressentimento e agressividade.

Nenhuma bandeira partidária deve ocupar o lugar do Evangelho em nossa consciência. A verdadeira fraternidade não exige que pensemos da mesma forma, mas que reconheçamos no outro um Espírito em evolução, tão necessitado de aprendizado quanto nós.

A vitória eleitoral é passageira; a oportunidade de aprender a amar é muito mais profunda. Saibamos defender ideias sem odiar pessoas, preservar a liberdade sem alimentar o fanatismo e construir a união na pluralidade.

 

Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

 

 

Espiritismo e política: quando a coerência doutrinária confronta a conveniência ideológica




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A defesa da vida, fundamentada na compreensão espírita da reencarnação, não deve ser confundida com a obrigação de adesão a determinado partido ou corrente ideológica. A Doutrina Espírita oferece princípios para o exame da consciência, mas não constitui programa partidário nem autoriza a sacralização de governos, candidatos ou projetos de poder.

É necessário distinguir três dimensões: a convicção moral contrária ao aborto, a avaliação jurídica das circunstâncias em que a legislação admite sua prática e o julgamento político das medidas mais “diligentes” para proteger a vida e amparar as mulheres. Embora relacionadas, essas dimensões não são idênticas.

Assim, um espírita pode questionar a ampliação legal do aborto e, simultaneamente, reconhecer a necessidade de debater políticas públicas, situações de violência sexual, riscos à saúde materna, assistência social e prevenção da gravidez não planejada. A defesa da vida não se esgota na proibição: exige também acolhimento, proteção e responsabilidade social.

Do mesmo modo, sei que o apoio eleitoral a um candidato não permite, isoladamente, concluir que seu eleitor aprove todas as propostas desse candidato. A coerência deve ser examinada à luz das posições efetivamente defendidas, das prioridades assumidas e das consequências previsíveis das políticas apoiadas.

O limite da tese aqui apresentada é, portanto, claro: pode-se sustentar que a defesa deliberada do aborto entra em tensão com a interpretação espírita tradicional da questão 358 de O Livro dos Espíritos, sem transformar essa conclusão em instrumento de perseguição política ou de condenação moral indiscriminada.

A democracia pressupõe a convivência entre divergências, mas não absolve ninguém da responsabilidade ética por suas escolhas. O espírita é livre para escolher seus representantes; essa liberdade, porém, não o dispensa de submeter suas opções políticas ao crivo dos princípios morais que afirma professar.

A coerência doutrinária não se comprova pelo discurso, mas pela compatibilidade entre aquilo em que se acredita e aquilo em que se apoia. Afinal, ou se assume o Espiritismo com consciência, compromisso e coerência, ou se transforma a identidade espírita em mera máscara retórica para justificar conveniências ideológicas.

Ademais, a pergunta decisiva não é a qual partido pertence o espírita, mas se ele examina racionalmente e honestamente as contradições entre sua consciência religiosa e as propostas que apoia. O Brasil não exige uniformidade partidária: exige que a fraternidade, a dignidade humana e a responsabilidade moral não sejam subordinadas à conveniência política.

 

24 outubro 2026

A doutrinação ideológica nas escolas e universidades: um tumor social



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Ontem, um colega me disse que, na universidade em que leciona, quem se posiciona fora do “marxismo” é ostensivamente marginalizado pelos pares. Em razão disso, ele optou pelo silêncio absoluto. Isso é intolerável!

A educação deveria libertar consciências, não fabricar seguidores de ideologias radicais. Quando instituições de ensino substituem o pluralismo pelo proselitismo político radical, o conhecimento pelo dogmatismo e o debate pela doutrinação, deixam de cumprir parte essencial de sua missão civilizadora.

A esse desvio podemos chamar, metaforicamente, de cancro social: uma enfermidade contagiante e devastadora que compromete a autonomia intelectual e aprofunda os antagonismos.

Obviamente reconheço que há professores comprometidos com a excelência acadêmica e estudantes capazes de pensar criticamente em todas as correntes políticas. Entretanto, quando ideias marxistas são apresentadas como verdades incontestáveis, enquanto concepções divergentes são caricaturadas ou silenciadas, instala-se uma preocupante deformação pedagógica. A universidade não pode converter-se em aparelho de reprodução ideológica, seja de esquerda, seja de direita.

A influência de Antônio Gramsci sobre determinadas correntes políticas e educacionais merece um estudo crítico, especialmente no que diz respeito à disputa pela hegemonia cultural. Isso não me autoriza, porém, a atribuir a todo educador progressista um projeto deliberado de destruição familiar.

Sob a perspectiva espírita, o problema fundamental está no materialismo marxista quando reduz o ser humano à dimensão econômica, nega sua transcendência ou subordina a consciência individual a projetos coletivistas. A transformação social que desconsidera a responsabilidade moral, a liberdade e a educação dos sentimentos corre o risco de trocar antigas injustiças por novas formas de opressão.

Allan Kardec oferece um critério inequívoco em O Livro dos Espíritos, questão 842: uma doutrina deve ser avaliada por seus frutos morais e pela capacidade de promover amor e caridade, não por suas promessas políticas. Nas questões 835 a 841, a liberdade de consciência é reconhecida como princípio fundamental, e a convicção, segundo a questão 841, não pode ser imposta. Eis uma advertência que alcança qualquer movimento tentado pelo autoritarismo.

Apesar de Léon reconhecer a diversidade das correntes socialistas e admitir a busca de melhorias materiais e sociais, adverte contra o materialismo marxista que elimina a dimensão espiritual e o ideal moral. Sua reflexão não constitui adesão ideal coletivista nem obviamente rejeição indiscriminada de toda proposta de justiça social.

A família, por sua vez, não deve ser defendida pela perseguição a quem pensa diferentemente, mas pela responsabilidade, pelo afeto, pelo respeito recíproco e pela formação ética. O mesmo vale para as controvérsias apregoadas pelos marxistas sobre aborto, drogas e sexualidade: são questões complexas que exigem argumentação racional e responsabilidade, não a classificação sumária de seus defensores marxistas como produtos de uma suposta lavagem cerebral.

O artigo 206 da Constituição Federal estabelece a liberdade de aprender e ensinar e o pluralismo de ideias como princípios educacionais. Portanto, combater a doutrinação não significa impor uma doutrina concorrente, mas exigir que escolas e universidades públicas respeitem a inteligência dos estudantes.

Como espíritas, não devemos aceitar nem a servidão ideológica nem o fanatismo antagônico. Kardec não nos convocou a fabricar adversários, mas a desenvolver o discernimento e a responsabilidade moral. A fraternidade, contudo, não exige silêncio diante de práticas que a ameaçam. Exige coragem para denunciá-las com firmeza, honestidade intelectual e respeito à liberdade de consciência.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Art. 206.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. 1924.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, s.d. Parte terceira, cap. X, questões 835-842.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999-2002