26 agosto 2026

Nepal em lágrimas - a dor humana sob a luz da imortalidade


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A tragédia que acaba de atingir o Nepal — uma avalanche de gelo e rochas, seguida por violentas enxurradas de água, lama e detritos, devastando comunidades e deixando mortos, feridos e centenas de desaparecidos — impõe, antes de qualquer interpretação filosófica, uma atitude profundamente humana: respeito diante da dor. Os números ainda estão sendo atualizados, enquanto famílias procuram seus entes queridos e equipes de socorro enfrentam uma destruição de enormes proporções.

Nenhuma explicação espiritual pode servir para minimizar lágrimas ou transformar o sofrimento alheio em mera abstração doutrinária. O Espiritismo não autoriza a frieza diante da tragédia. Ao contrário: a primeira resposta deve ser a solidariedade.

Entretanto, sem pretender devassar os mecanismos particulares do destino de cada vítima, a Doutrina Espírita oferece elementos para uma reflexão mais ampla. Allan Kardec ensina que a existência corporal não constitui a totalidade da vida e que a morte não representa a destruição do Espírito, mas a passagem para outra modalidade de existência.

Sob essa perspectiva, as chamadas mortes coletivas não podem ser compreendidas como simples produto de um acaso cego governando o Universo. Num mundo submetido às leis divinas, podemos confiar que não existe injustiça. Contudo, reconhecer a justiça de Deus é muito diferente de imaginar que possuímos autorização para explicar o passado espiritual de cada desencarnado.

Seria, portanto, imprudente e doutrinariamente leviano afirmar que determinada vítima morreu para expiar esta ou aquela falta. A lei de causa e efeito não pode ser transformada numa máquina de acusações contra os sofredores. Não conhecemos as existências pretéritas dos outros, nem nos compete julgar seus processos espirituais.

No Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo V, Kardec convida-nos a considerar as aflições e calamidades à luz da continuidade da existência e da soberana justiça divina. Uma existência corporal, por mais longa ou breve que seja, constitui apenas um capítulo da trajetória do Espírito imortal.

As tragédias coletivas revelam ainda outra dimensão: a da solidariedade humana. Enquanto alguns são chamados a atravessar abruptamente a fronteira da morte, outros permanecem para socorrer, reconstruir, consolar e servir. Surgem gestos de coragem, fraternidade e renúncia. A dor transforma-se, assim, também em campo de aprendizado moral para os que ficaram.

Para o espírita, portanto, o Nepal não é uma estatística. São irmãos que partiram de maneira dolorosa; são famílias enfrentando a ausência; são sobreviventes necessitando de auxílio material e espiritual.

Podemos confiar que Deus é soberanamente justo e bom, sem que essa confiança nos torne indiferentes às lágrimas. Se nos estatutos divinos não há espaço para a injustiça, também não há espaço para a presunção humana de decifrar todos os desígnios do Alto.

Diante da tragédia, a atitude espírita mais autêntica talvez seja unir a razão que confia na imortalidade à compaixão que se curva diante da dor: orar pelos que partiram, amparar os que ficaram e servir aos sobreviventes. A morte não tem a última palavra — mas, diante das lágrimas, o amor deve ter sempre a primeira.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. V — Bem-aventurados os aflitos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

KARDEC, Allan. O céu e o inferno. Primeira Parte — Doutrina. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

 

 

25 agosto 2026

A falsa autoridade dos rótulos no movimento espírita brasileiro



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há um fenômeno cada vez mais perceptível no movimento espírita brasileiro: antes mesmo de se examinar o conteúdo de uma palestra, apresenta-se o currículo institucional do expositor como se constituísse garantia automática de verdade. “Fulano é da FEB.” “Beltrano é da Federação.” “O palestrante pertence àquela tradição.” É tradicional, muitas vezes, a simples menção ao nome de uma entidade federativa para funcionar como um selo de infalibilidade.

É preciso dizer isso com clareza: frequentar uma instituição, colaborar com ela ou até exercer determinada função em seus quadros não transforma ninguém em dono da verdade espírita.

A Federação Espírita Brasileira é uma instituição histórica e relevante para o Espiritismo no Brasil. Mas uma coisa é respeitar uma instituição; outra, inteiramente diferente, é converter o nome da instituição em instrumento de blindagem intelectual para opiniões individuais. O Espiritismo não estabeleceu uma aristocracia doutrinária fundada em crachás, cargos ou vínculos associativos.

Allan Kardec foi particularmente claro quanto ao problema da autoridade. Na Introdução, item II, de O Evangelho segundo o Espiritismo, ao tratar da autoridade da Doutrina Espírita, ensina que nenhuma pessoa poderia pretender possuir, com exclusividade, a verdade absoluta. Mais ainda: estabeleceu que tudo quanto venha dos Espíritos — e, por extensão, toda afirmação apresentada em nome do Espiritismo — deve ser submetido ao exame da razão, do bom senso e da lógica. Kardec é categórico: uma teoria incompatível com esses critérios deve ser rejeitada, “por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura”.

Se nem mesmo um nome apresentado como assinatura de uma comunicação espiritual deveria suspender o julgamento crítico, por que o nome de uma instituição deveria fazê-lo?

O palestrante “É da FEB” não é argumento. É justamente aqui que reside o equívoco. Quando alguém afirma “ele é da FEB” para encerrar uma discussão ou conferir autoridade automática a uma palestra, está substituindo o argumento pela procedência institucional. Trata-se de uma espécie de argumento de autoridade deslocado: em vez de perguntar se a ideia está de acordo com os princípios doutrinários, com a lógica e com os fatos, pergunta-se de onde veio o palestrante.

Mas a verdade não se torna verdadeira porque foi pronunciada por alguém ligado a uma instituição; nem o erro se converte em acerto porque o expositor possui uma credencial prestigiosa. Um orador pode ser excelente e frequentar a FEB. Pode ser excelente e jamais ter pertencido a qualquer federação. Pode, igualmente, sustentar ideias discutíveis, mesmo ocupando posição de destaque em uma organização espírita. O vínculo institucional é uma circunstância biográfica; não é certificado de superioridade intelectual ou moral.

Aliás, o próprio método kardequiano é incompatível com o culto à personalidade e com a submissão passiva a autoridades humanas. Em O que é o Espiritismo?, Kardec reafirma que as questões duvidosas devem ser submetidas ao exame severo da razão, do bom senso e da lógica, não à aceitação automática de quem fala.

Isso exige uma mudança de hábito no movimento espírita: menos preocupação com o crachá e mais atenção ao conteúdo.

O prestígio institucional não deve funcionar como salvo-conduto

Há casos em que o próprio expositor, de maneira explícita ou sutil, apresenta seu vínculo institucional como credencial de autoridade. “Sou da FEB.” “Trabalho na Federação.” “Represento tal instituição.” Nada há de errado em informar uma trajetória. O problema começa quando essa informação é utilizada como um salvo-conduto contra a crítica.

Ninguém deve ser aceito ou rejeitado apenas porque pertence a esta ou àquela instituição. A pergunta espírita deveria ser outra: o que ele está ensinando? Onde está o fundamento? Isso resiste ao exame das obras fundamentais da Codificação, da razão e da coerência?

É possível que um modesto trabalhador anônimo de uma pequena casa espírita apresente uma exposição profundamente fiel à Doutrina. Também é possível que uma personalidade conhecida, cercada de títulos e apresentações grandiosas, expresse opiniões pessoais, interpretações frágeis ou mesmo ideias estranhas ao pensamento de Kardec.

Por isso, é necessário recuperar uma virtude essencial: a independência de consciência.

Instituições devem ser respeitadas; pessoas não devem ser idolatradas

Respeitar a FEB, as federações estaduais e as casas espíritas não significa atribuir-lhes infalibilidade. Instituições são constituídas por seres humanos, e seres humanos podem acertar e errar. A instituição não deve ser demonizada, mas também não deve ser transformada em oráculo.

O Espiritismo nasceu precisamente para combater a aceitação cega. Kardec não pediu seguidores que acreditassem de palavra. Pediu observação, comparação, análise e controle. A autoridade doutrinária não repousa no prestígio individual, mas na convergência racional dos princípios e no método crítico que sustenta a Codificação.

É preocupante quando a audiência abandona essa atitude e passa a raciocinar assim: “Se é da FEB, deve estar certo.” Não! Pode estar certo ou errado. A filiação não resolve a questão. O conteúdo é que precisa ser examinado.

Essa postura é ainda mais necessária em um tempo no qual a fama, as redes sociais e a repetição podem fabricar autoridades instantâneas. Um nome frequentemente anunciado, uma instituição constantemente invocada e uma plateia acostumada a aplaudir podem criar a ilusão de que a popularidade substitui o estudo.

Não substitui.

Menos rótulos, mais responsabilidade

Talvez esteja na hora de abandonarmos certas apresentações quase publicitárias: “Fulano, da FEB”; “Beltrano, da Federação”; “Ciclano, representante de determinada instituição”, como se essas expressões fossem argumentos antecipados.

Fulano deve ser apresentado pelo que produz, pelo que estuda, pela coerência do que ensina e pela responsabilidade com que fala.

Ser “da FEB” pode informar onde alguém trabalha ou frequenta. Não informa, por si só, se essa pessoa estudou profundamente Kardec. Não garante equilíbrio, lucidez ou fidelidade doutrinária. Não concede licença para que suas opiniões pessoais sejam confundidas com a Doutrina Espírita.

O movimento espírita precisa amadurecer. Não precisamos de uma aristocracia de siglas, nem de uma hierarquia informal de celebridades. Precisamos de trabalhadores que saibam fundamentar o que dizem — e de ouvintes que tenham coragem de pensar.

No Espiritismo, o argumento não deve ser: “Acredite em mim porque pertenço a tal instituição.” O verdadeiro espírito kardequiano exige algo muito mais nobre: “Examine o que digo. Compare. Raciocine. E aceite somente aquilo que resistir ao crivo da razão e dos princípios doutrinários.”

O nome da instituição merece respeito. Mas não pode substituir o argumento.

O crachá pode abrir a porta de uma organização. Jamais deveria fechar a porta da consciência crítica.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013. Introdução, item II: “Autoridade da Doutrina Espírita. Controle universal do ensino dos Espíritos”.

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo? Capítulo II, “Noções elementares de Espiritismo”, item “Contradições”, questão 99. Disponível no acervo de estudo kardequiano.

A inquisição às avessas: Quando questionar se torna crime de perseguição



Jorge Hessen

Brasília -DF

O movimento espírita brasileiro enfrenta um fenômeno esdruxulo demais: a multiplicação de alegações mediúnicas que, sob a aparência da consolação espiritual, podem utilizar recursos estranhos à legítima mediunidade para produzir informações de supostos mortos previamente obtidas pelas redes sociais. Em tempos de inteligência artificial, bancos de dados públicos, engenharia social (óculos espiões) e dispositivos tecnológicos cada vez mais discretos, a prudência deixou de ser simples virtude intelectual: tornou-se imperativo moral.

Não se pode confundir investigação séria com perseguição. Allan Kardec jamais edificou o Espiritismo sobre a credulidade. No Livro dos Médiuns, advertiu repetidamente quanto à necessidade de exame, controle e discernimento das comunicações, lembrando que os Espíritos não estão acima da análise racional e que a qualidade moral de uma mensagem não se demonstra pela assinatura que ostenta. O próprio Codificador submeteu os fenômenos à observação, à comparação e ao controle universal dos ensinos dos Espíritos.

A advertência permanece atual. Informações aparentemente extraordinárias podem ser obtidas por leituras frias — mediante observação e exploração psicológica — ou por “leituras quentes”, quando dados são previamente recolhidos em redes sociais, pesquisas públicas ou por terceiros. A tecnologia contemporânea ampliou enormemente essas possibilidades. Por isso, quem investiga não é inimigo da mediunidade: é seu defensor. O verdadeiro médium nada deve temer do exame honesto.

A inversão moral ocorre quando falsos médiuns que se apresentam como vítimas de “perseguição” tentam transformar qualquer questionamento em intolerância. Mas quem é realmente perseguido: o pesquisador que pede provas e prudência ou aquele que, eventualmente, ocupa o espaço da confiança religiosa para construir uma autoridade imune à crítica? O inquisitorialismo moderno pode vestir-se justamente com a máscara da vitimização, silenciando perguntas por meio da acusação contra quem pergunta.

André Luiz ensina que a faculdade mediúnica exige responsabilidade e educação moral (Nos Domínios da Mediunidade). Emmanuel, por sua vez, recorda que o Espiritismo não prescinde da razão e que a fé legítima deve caminhar com consciência. Léon Denis também vinculou o progresso espiritual ao livre exame e à responsabilidade individual. Nenhum desses autores autorizou a idolatria de médiuns ou a suspensão do senso crítico diante de manifestações espetaculares.

É igualmente necessário separar caridade de espetáculo. Obras assistenciais são respeitáveis, mas a finalidade nobre não transforma automaticamente em legítimos os meios empregados para obter prestígio, influência ou recursos. Alimentar necessitados com dinheiro de terceiros pode constituir meritória administração da solidariedade; não autoriza, porém, que uma eventual fraude ou manipulação seja moralmente absolvida pelo destino posterior dos recursos. A caridade não é salvo-conduto para a mentira.

O Espiritismo não precisa de médiuns intocáveis. Precisa de trabalhadores responsáveis, de pesquisadores livres e de instituições capazes de dizer “não sabemos” quando não há evidências suficientes. Defender Kardec é preservar seu método: observar, comparar, raciocinar e submeter as pretensões humanas ao crivo da consciência.

A crítica séria não é perseguição. A investigação não é intolerância. O verdadeiro perigo está em transformar a credulidade em virtude e o questionamento em crime moral. Quando isso acontece, os supostos perseguidos podem converter-se nos verdadeiros perseguidores da razão — precisamente aquela razão que Kardec colocou como uma das colunas indispensáveis da Doutrina Espírita.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Depois da morte. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

 

24 agosto 2026

Quando a crítica ao Espiritismo troca argumentos por caricaturas intelectualoides


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há críticas religiosas que merecem respeito, porque decorrem de divergências teológicas sinceras. Mas há outras que apenas revelam ignorância ingênua daquilo que se pretende combater. As declarações de um conhecido sacerdote de nome Paulo da Igreja Romana sobre o Espiritismo contidas no vídeo que acabo de assistir enquadram-se, lamentavelmente, nesta segunda categoria: acumulam simplificações, distorções conceituais e afirmações incompatíveis com os textos fundamentais da Doutrina Espírita.

Dizer, por exemplo, que o Espiritismo consiste simplesmente em “invocar os espíritos dos mortos” é reduzir uma filosofia complexa a uma caricatura intelectualoide. Allan Kardec jamais definiu o Espiritismo como um ritual de evocação indiscriminada. O Livro dos Médiuns estabelece critérios rigorosos para o estudo da mediunidade, adverte contra a mistificação e recomenda o exame racional das comunicações. A mediunidade, para a Doutrina Espírita, não é um espetáculo mágico nem uma licença para acreditar em qualquer mensagem.

Igualmente equivocada é a afirmação de que Jesus seria, para os espíritas, “apenas um espírito-guia”. Basta compulsar O Evangelho segundo o Espiritismo para constatar a centralidade moral de Jesus. Kardec apresenta Cristo como “guia e modelo” da humanidade, e toda a ética espírita está edificada sobre a vivência de seus ensinamentos. É evidente que o Espiritismo não aceita os dogmas católicos sobre a natureza de Jesus. Mas divergência cristológica não autoriza ninguém a falsificar a posição doutrinária do oponente.

Mais absurda ainda é a tese de que o Espiritismo seria “simples paganismo”. O Espiritismo possui princípios próprios, baseados na existência de Deus, na sobrevivência da alma, na comunicabilidade dos Espíritos, na pluralidade das existências e no progresso moral. Pode-se discordar desses princípios — e a Igreja romana tem pleno direito de fazê-lo —, mas classificá-los como “paganismo” é substituir argumentação por rótulo.

Também é impreciso afirmar que os espíritas se mancomunam com demônios ou anjos por ignorarem o bem e o mal. O Espiritismo interpreta essas denominações de maneira distinta: considera os Espíritos como seres em diferentes graus de evolução moral. Não há, portanto, negação da realidade espiritual, mas outra explicação para sua natureza.

A incompatibilidade entre a Igreja Romana e o Espiritismo, em infinitos pontos teológicos, é real. Não há necessidade de escondê-las. O problema surge quando a crítica abandona o terreno da comparação doutrinária e passa a disseminar versões deformadas do pensamento espírita. Quem deseja combater uma doutrina deve, antes de tudo, conhecê-la. O sacerdote Paulo em questão demonstrou rasa capacidade intelectual.

O Espiritismo não precisa que sacerdotes da Igreja Romana se tornem espíritas, assim como os seguidores dessa igreja  não necessitam que espíritas aceitem seus dogmas. O que se exige é algo mais elementar: honestidade intelectual. Discordar é legítimo. Distorcer o que o outro ensina para facilitar a condenação é um expediente imoral — e incompatível com qualquer debate religioso que pretenda ser sério.

 

Referências Bibliográficas:

 

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Espiritismo: princípios e fundamentos da Doutrina Espírita. Brasília, DF: FEB, [s.d.].

 

Por trás das “cartas consoladoras”: Leitura fria, informações da internet e tecnologia a serviço do crime lesa-Deus



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Nem toda mensagem apresentada como mediúnica é, necessariamente, fruto de mediunidade. Em torno do sofrimento humano — especialmente da dor provocada pela morte — podem prosperar práticas de manipulação psicológica, coleta clandestina de informações e encenações cuidadosamente construídas. E quanto maior a idolatria em torno do suposto médium, menor, muitas vezes, torna-se a disposição dos seguidores para examinar criticamente aquilo que recebem.

Um dos mecanismos psicológicos mais conhecidos nesse contexto é o Efeito Forer ou Barnum, descrito por Bertram R. Forer em 1948. Trata-se da tendência humana de considerar algo altamente pessoal e de precisar de uma descrição suficientemente genérica para servir a inúmeras pessoas. Frases como “há algo que ficou por dizer”, “você ainda carrega uma dor profunda ou “ele gostaria que você seguisse em frente” podem produzir enorme impacto emocional sem revelar qualquer informação verificável.

No luto, essa vulnerabilidade pode ser ainda maior. A necessidade de reencontrar simbolicamente quem morreu pode favorecer o viés de confirmação: a pessoa se recorda intensamente dos aparentes acertos e tende a minimizar, reinterpretar ou esquecer os inúmeros erros.

É nesse terreno que prosperam técnicas conhecidas como leitura fria. O operador observa gestos, lágrimas, hesitações e reações, lançando afirmações vagas e ajustando o discurso conforme as respostas da vítima. Um “erro” rapidamente pode ser reformulado; uma negativa pode transformar-se em nova interpretação; uma pergunta pode ser disfarçada de revelação. Ao final, dez informações equivocadas desaparecem da memória diante de uma coincidência emocionalmente marcante.

Há também a leitura quente: informações obtidas previamente por redes sociais, mecanismos de busca, bancos de dados, conversas públicas ou pessoas próximas. Na era digital, o problema tornou-se ainda mais grave. Fotografias, parentescos, datas, locais frequentados e detalhes da vida íntima podem estar disponíveis antes mesmo do encontro.

E surge agora um terceiro recurso: a tecnologia discreta. Óculos inteligentes aparentemente comuns, equipados com câmeras, microfones e sistemas de inteligência artificial, podem ampliar a capacidade de captar imagens, conversas e informações. Não se deve afirmar, sem provas concretas, que determinado indivíduo utiliza esses recursos; mas ignorar que a tecnologia criou novas possibilidades de coleta e processamento de dados seria ingenuidade. O que parece “revelação sobrenatural” em determinadas circunstâncias é apenas informação obtida por meios tecnológicos facilmente comprovados.

Por isso, a verdadeira investigação exige controle, documentação e verificabilidade. Informações “mediunicas” específicas devem ser analisadas antes de serem aceitas como verdadeiras. É preciso perguntar: o dado era realmente desconhecido? Poderia estar na internet? Alguém teve acesso prévio à família? Houve gravação integral da sessão? Quantos erros ocorreram e foram convenientemente esquecidos?

A comparação com Chico Xavier também exige rigor. Seus defensores frequentemente apontam casos de mensagens com elevado grau de especificidade e relevância histórica. Contudo, a existência de casos considerados impressionantes não autoriza ninguém a usar seu nome como certificado automático de autenticidade para qualquer pessoa que hoje alegue psicografar. Prestígio alheio não é prova pessoal.

O verdadeiro problema não é a fé submetida à razão; é a fé transformada em idolatria. Quando seguidores passam a considerar o suposto médium incapaz de errar, qualquer crítica vira “perseguição” e qualquer dúvida passa a ser tratada como blasfêmia.

Allan Kardec recomendava exatamente o contrário: examinar, comparar e não aceitar cegamente. Onde se proíbe a pergunta, floresce a fraude. E onde a dor humana se transforma em mercado, espetáculo ou instrumento de poder, a vigilância moral torna-se um dever inadiável.

 

Referências Bibliográficas:

FORER, Bertram R. The fallacy of personal validation: a classroom demonstration of gullibility. Journal of Abnormal and Social Psychology, v. 44, n. 1, p. 118-123, 1949.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Brasília: Federação Espírita Brasileira, várias edições.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília: Federação Espírita Brasileira, várias edições.

SOUTO MAIOR, Marcel. As vidas de Chico Xavier. São Paulo: Planeta, 2003.

Até quando a segurança pública e a justiça ignorarão o estelionato do luto no Brasil?


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Estamos vivenciando um momento profundamente preocupante no cenário brasileiro das famigeradas “cartas consoladoras” atribuídas à mediunidade: a profunda dor e sofrimento de mães, pais, filhos e familiares enlutados vêm sendo apresentados como se fossem prova suficiente da autenticidade de fenômenos ardilosos que, antes de tudo, deveriam ser submetidos à investigação correta.

Recebi um vídeo emblemático de um depoimento público de um agente policial. Movido pela dor irreparável de um ente amado, o tal agente narra ter recebido de um suposto médium informações que considerou impossíveis de serem conhecidas pela internet: nomes de familiares falecidos, circunstâncias familiares, apelidos íntimos, detalhes sobre suas netas e episódios privados. Ao final, tal agente público afirma categoricamente ser “testemunha” de que as cartas consoladoras são verdadeiras.

Mas com extraordinária facilidade foi realizada uma rápida pesquisa nas plataformas digitais e TUDO E ABSOLUTAMENTE TODA informação familiar de tal agente policial estava publicadíssima na internet.  Portanto, aqui se impõe uma reflexão: nenhuma emoção, por mais legítima e dolorosa, pode substituir as informações que foram efetivamente investigadas e comprovadas.

A convicção subjetiva de uma pessoa (ainda que agente policial)  não é método de prova. Muito menos a encenação melodramática emocional produzida durante uma palestra. A história da investigação de supostos fenômenos extraordinários demonstra que informações aparentemente de defuntos podem ser obtidas por fontes abertas, redes sociais, mecanismos de busca, contatos indiretos, observação prévia ou outras formas de coleta de dados.

Hoje, basta uma pesquisa digital minimamente diligente para reconstruir relações familiares, fotografias, datas de morte, homenagens, profissões, apelidos e inúmeros fragmentos da intimidade das pessoas nos seus mais ínfimos detalhes.

Por isso, a afirmação do tipo “não havia tempo para o “suposto médium” pesquisar” não encerra a questão. Quem afirma que determinada informação só poderia ser obtida por meio metafísico precisa demonstrar que ela não estava disponível anteriormente por qualquer via física ordinária. O ponto central não é saber se uma pesquisa (do suposto médium)  foi feita nos minutos anteriores ao encontro da vítima. É investigar se informações sobre aquela família já circulavam publicamente, há meses ou anos, no imenso arquivo digital da internet.

É precisamente aqui que se esperam investigações sérias das autoridades policiais e jurídicas. Uma averiguação não pode começar pela crença nem terminar na emoção. Se existem acusações de fraude, exploração econômica ou manipulação do sofrimento humano, devem ser recolhidos os documentos, preservados os conteúdos digitais e confrontados, cronologicamente, os dados das supostas mensagens com aquilo que já era publicamente acessível antes de sua produção.

Também o movimento espírita tem responsabilidades intransferíveis. Allan Kardec jamais ensinou que qualquer comunicação atribuída aos Espíritos deveria ser aceita sem exame. Ao contrário, O Livro dos Médiuns recomenda análise, prudência e controle racional das comunicações, advertindo contra a credulidade e a fascinação (KARDEC, 2013). O Espiritismo não se sustenta na idolatria de médiuns, mas no princípio da fé raciocinada.

Nenhuma mãe deve ser ridicularizada por buscar consolo. Nenhum familiar deve ser atacado por acreditar que recebeu uma mensagem de quem ama. Mas ninguém pode exigir que a sociedade, a polícia, a Justiça ou o Espiritismo renunciem à lógica para proteger a reputação de quem se apresenta como intermediário entre vivos e mortos.

A pergunta, portanto, permanece diante das autoridades: as informações dessas mensagens estão sendo ou já foram confrontadas, tecnicamente, com as fontes existentes na internet? Se não foram, como se pode afirmar, com seriedade investigativa, que se trata de informações impossíveis de serem obtidas por meios naturais?

No campo da dor humana, a responsabilidade deve ser ainda maior. Porque consolar é um ato de amor. Transformar o luto em instrumento de aprisionamento psíquico, poder, idolatria ou eventual exploração é uma tragédia moral que precisa ser enfrentada com coragem, evidência e justiça. E já!

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

BRASIL. Código de Processo Penal. Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Brasília, DF: Presidência da República.

 

19 agosto 2026

MANIFESTO DO MOVIMENTO ESPIRITA BRASILEIRO E INTERNACIONAL


MANIFESTO


KWAI -

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Jesus ensinou o que fazer. A psicologia espírita auxilia a explicar o como fazer

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

A humanidade recebeu, ao longo de sua caminhada espiritual, orientações progressivas para compreender a Lei Divina. Moisés apresentou, em seu contexto histórico, princípios fundamentais de justiça e limites indispensáveis à convivência humana. Sua legislação enfatizou, sobretudo, aquilo que o homem não deveria fazer.

Jesus, porém, não veio destruir a Lei, mas dar-lhe cumprimento e profundidade. Ele deslocou o eixo da conduta humana da simples proibição para a transformação interior. Não basta deixar de matar: é necessário eliminar o ódio. Não basta não cometer adultério: é preciso educar os pensamentos e sentimentos. Não basta evitar o mal: é indispensável fazer o bem.

Kardec percebeu essa evolução moral e, com a Doutrina Espírita, ofereceu uma compreensão racional do processo. O Espiritismo não apresenta apenas um código de comportamento; procura explicar por que o homem age como age e como pode modificar-se. O Evangelho segundo o Espiritismo constitui, precisamente, a aplicação dos ensinos morais do Cristo às circunstâncias concretas da existência.

E aqui surge uma questão decisiva: como fazer aquilo que Jesus ensinou?

Allan Kardec, embora não tenha elaborado uma “psicologia clínica espírita” nos moldes atuais, apresentou uma concepção profundamente psicológica do ser. É nesse território que a psicologia espírita pode oferecer contribuição extraordinária. Não como substituta da Doutrina Espírita, muito menos como instrumento para transformar o Espiritismo em uma escola de psicoterapia, mas como campo de investigação dos mecanismos pelos quais pensamentos, emoções, hábitos, conflitos e experiências influenciam o comportamento.

Jesus ensinou o amor. Mas como transformar ressentimento em perdão? Como converter egoísmo em solidariedade? Como vencer a impulsividade, a inveja, a vaidade e o orgulho? Como interromper padrões mentais repetitivos que nos conduzem às mesmas quedas?

A resposta exige autoconhecimento.

Kardec foi extremamente claro ao apresentar a reforma moral como consequência do conhecimento de si. No Livro dos Espíritos, a questão 919 conduz o indivíduo à reflexão sobre o próprio comportamento, mostrando que o autoconhecimento constitui caminho fundamental para o aperfeiçoamento moral. A Doutrina Espírita, portanto, não nos convida a uma espiritualidade de aparência, mas a uma investigação corajosa da própria consciência.

O problema é que muitos querem o Evangelho sem o trabalho psicológico da autotransformação. Querem perdoar sem enfrentar a mágoa; amar sem combater o egoísmo; ser humildes sem reconhecer o orgulho; fazer o bem sem desmontar os mecanismos íntimos que alimentam o mal.

Isso é ilusão espiritual.

A Terceira Revelação não veio para nos oferecer uma religião de fórmulas, passes automáticos, fenômenos espetaculares ou discursos consoladores. Veio para iluminar a inteligência e responsabilizar a consciência. Kardec demonstrou que o progresso espiritual exige estudo, discernimento, esforço e transformação moral.

Jesus ensinou o que devemos fazer. O Espiritismo esclareceu por que devemos fazê-lo e quais são as consequências de nossas escolhas. A psicologia espírita pode auxiliar-nos a compreender como funcionamos por dentro para efetivamente realizarmos essa mudança.

É nesse encontro que reside uma das possibilidades mais fecundas da experiência espírita contemporânea: unir conhecimento espiritual, autoconhecimento e responsabilidade moral.

Porque conhecer a Lei sem praticá-la é esterilidade. Admirar Jesus sem modelá-lo é mera retórica. E falar em reforma moral sem investigar os próprios mecanismos psicológicos é, muitas vezes, apenas uma sofisticada maneira de continuar distante exatamente daquilo que deveremos ser.

A Doutrina Espírita não nos chama à acomodação.

Ela nos chama à autotransformação.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O céu e o inferno. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. A gênese. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

 

18 agosto 2026

A verdade não teme investigação. A fraude, sim.



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

Há situações que ultrapassam a esfera de uma simples divergência entre pessoas. Quando uma “criatura” se apresenta como médium, oferece mensagens atribuídas a Espíritos desencarnados e, segundo denúncias que precisam ser rigorosamente investigadas, utiliza informações disponíveis em redes sociais e na internet para produzir supostas “cartas consoladoras”, estamos diante de uma questão que interessa diretamente à responsabilidade moral do movimento espírita brasileiro.

O problema se torna ainda mais grave quando o público-alvo é constituído por pessoas emocionalmente fragilizadas e enlutadas. De fato, o luto abate o psiquismo. A saudade cria expectativas. A dor procura respostas. Nesse território emocionalmente vulnerável, qualquer pessoa que se apresente como intermediária entre vivos e mortos assume uma responsabilidade extraordinária. Se houver fraude deliberada, não estaremos diante de uma simples encenação: estaremos diante de um CRIME LESA DEUS e da exploração da dor humana.

É precisamente por isso que uma reportagem investigativa séria não deveria ser recebida pela “criatura” com medo, hostilidade ou intimidação. Ao contrário: deveria ser recebida com serenidade. Se a mediunidade alegada for autêntica, a investigação responsável poderá contribuir para esclarecer os fatos. Se houver fraude, a investigação prestará um serviço à sociedade e, sobretudo, ao próprio Espiritismo.

O que não se pode admitir é a “criatura” intimidar jornalistas, emissoras, dirigentes ou instituições espíritas para impedir uma investigação. A liberdade de imprensa e o direito de investigar fatos de interesse público não desaparecem porque determinado assunto envolve religião ou mediunidade.

E há uma ironia dolorosa: quem afirma possuir uma faculdade espiritual verdadeira deveria ser o primeiro interessado em que os fatos fossem examinados. Quem nada tem a esconder não precisa transformar jornalistas em inimigos nem acusar previamente uma reportagem de ser “comprada” antes mesmo de sua exibição.

Allan Kardec foi extraordinariamente rigoroso nesse assunto. No Livro dos Médiuns, ao tratar do charlatanismo e das fraudes espíritas, advertiu contra a exploração da mediunidade e destacou o desinteresse como importante proteção contra o embuste.

Mais contundente ainda é o ensinamento de O Evangelho segundo o Espiritismo: a mediunidade não deve transformar-se em profissão ou instrumento de exploração de qualquer natureza.

Portanto, não é a imprensa que ameaça a “criatura”  quando investiga possíveis fraudes mediúnicas. Quem falsifica, engana ou explora a credulidade alheia é que ameaça a dignidade do Espiritismo.

O movimento espírita brasileiro precisa compreender isso de uma vez por todas.

Não devemos proteger “criaturas”  suspeitas de fraude em nome da Doutrina. Devemos proteger a Doutrina contra “criaturas” suspeitas de fraude.

Não devemos silenciar diante da exploração do luto. Devemos defender (com unhas e dentes) aqueles que sofrem a dor do luto.

Não devemos temer a investigação. Devemos temer a mentira.

E, se houver ameaças concretas dirigidas a jornalistas ou instituições, elas também devem ser tratadas com a seriedade própria do Estado de Direito. O Código Penal brasileiro tipifica a ameaça (art. 147), a perseguição reiterada — stalking — (art. 147-A), além de crimes contra a honra, como calúnia, difamação e injúria.

Não cabe aos espíritas antecipar condenações. Cabe-nos exigir verdade, prova, responsabilidade e transparência.

A causa espírita não precisa de falsos médiuns para sobreviver. Precisa de espíritas verdadeiros.

Se uma reportagem revelar fraude, que tenhamos coragem de reconhecer o problema, afastar do movimento espírita brasileiro  tal “criatura”  embusteira e proteger os enlutados.

Se, ao contrário, demonstrar autenticidade, que saibamos reconhecer os fatos com a mesma honestidade.

Porque o Espiritismo não pode ser defendido pela intimidação de nenhuma “criatura”.

O Espiritismo é uma doutrina de verdade. E a verdade não teme investigação.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, cap. XXVIII — “Do charlatanismo e do embuste”.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, cap. XXVI — “Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes”.

BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Arts. 138, 139, 140, 147 e 147-A. 

17 agosto 2026

O país da fábula mediúnica e coragem para dizer NÃO ao escombro da mistificação



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O movimento espírita brasileiro atravessa, talvez, um dos períodos mais preocupantes de sua história contemporânea. Multiplicam-se o misticismo, a credulidade, o culto ao fenômeno, as promessas de curas extraordinárias e, lamentavelmente, as fraudes travestidas de mediunidade.

Vivemos num país onde, em determinados ambientes, basta alguém anunciar-se como médium para encontrar uma multidão disposta a acreditar. O discernimento, que deveria ser patrimônio indispensável do espírita, cede lugar ao deslumbramento.

É nesse terreno fértil para a fantasia que reaparecem, em diferentes regiões, os chamados “doutores Fritz”, realizando supostas cirurgias espirituais e alimentando a esperança de cura imediata.

Não se trata aqui de discutir a autenticidade ou não dos fenômenos alegados. A questão é outra, muito mais grave: que espécie de espiritismo estamos ensinando quando estimulamos alguém a procurar a “cura” do sintoma da doença sem propor a indispensável transformação moral do doente?

A Doutrina Espírita jamais ensinou que uma intervenção mediúnica dispense o esforço pessoal, a reforma moral, a responsabilidade perante a própria existência e os recursos possíveis da medicina. Allan Kardec advertiu que o verdadeiro espírita é reconhecido pelo esforço de sua transformação moral, e não pela quantidade de fenômenos que presencia e/ou produz (KARDEC, 2013).

É preciso, portanto, abandonar a linguagem irresponsável da “cura garantida”. Uma prática espiritual, quando autêntica, pode eventualmente produzir efeitos de alívio ou melhora, mas não autoriza ninguém a prometer aquilo que não pode assegurar. Até porque só e somente o doente consegue curar a sua doença.

E aqui reside um ponto essencial: quase toda enfermidade é  uma consequência direta de comportamento moral. O Espiritismo reconhece a complexidade da existência humana e não autoriza simplificações grosseiras. Fatores biológicos, hereditários, ambientais, psicológicos e espirituais podem participar como efeitos dos processos de adoecimento. Porém, a reforma moral é indispensável à evolução da saúde e constitui a fórmula completa para explicar a vida saudável.

Extremamente  escandaloso ainda é o mercado da falsa psicografia. Há “criaturas” que recolhem informações em redes sociais, fotografias, obituários, comentários públicos e até recursos de inteligência artificial para produzir mensagens emocionalmente convincentes e apresentá-las como comunicações de parentes mortos.

Informações obtidas previamente na internet são apresentadas como percepção (visual ou auditiva) mediúnica. A fraude torna-se sofisticada porque explora justamente aquilo que o enlutado mais deseja: uma confirmação. E, quando faltam informações suficientes, entra em cena outro recurso sorrateiro: a suposta vidência e audição mediúnicas.

Os embusteiros dizem  frases do tipo: “Estou vendo e ouvindo seu pai.” “Vejo sua mãe ao seu lado.” “Seu irmão está aqui.” Pronto! Está montado o espetáculo  do circo Poeirinha  da fraude mediúnica agora com nova versão (vidência e audiência).

Kardec foi categórico ao recomendar prudência, exame e controle diante das manifestações espirituais. Para ele, o verdadeiro critério não é o deslumbramento produzido pelo fenômeno, mas a análise racional da comunicação e de suas consequências morais (KARDEC, 2013).

Léon Denis, igualmente, insistiu na necessidade de estudo, discernimento e elevação moral para o desenvolvimento seguro das faculdades mediúnicas (DENIS, 2013). Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, jamais apresentou a mediunidade como instrumento de exibição pessoal ou de exploração da dor alheia. Divaldo Pereira Franco, em sua longa trajetória doutrinária, também enfatizou repetidamente a responsabilidade moral do médium.

Então, onde estão as lideranças do combalidíssimo movimento espírita brasileiro? Onde estão as advertências (notas) públicas? Onde estão os dirigentes dispostos a dizer que nem tudo o que se apresenta em nome do Espiritismo é Espiritismo?

O silêncio e a omissão produzem consequências. Não se trata de acossar pessoas, destruir reputações ou combater fenômenos legítimos. Trata-se de preservar os princípios da Doutrina Espírita contra a credulidade cega, o charlatanismo, a exploração do sofrimento e a transformação da mediunidade em espetáculo.

Quem ocupa posição de liderança tem responsabilidade proporcional à influência que exerce. Não pode assistir passivamente à deterioração doutrinária e depois alegar que nada sabia. A advertência deve ser feita enquanto há tempo.

Aos líderes mornos bonzinhos ou os  consagrados "santos do pau oco" que regurgitam que o Espiritismo não necessita de defensores advertimos que perante as leis divinas, não responderemos apenas pelo mal que praticamos. Também responderemos pelo bem que poderíamos ter realizado e deliberadamente deixamos de fazer por atitude de falsa tolerância.

O Espiritismo não necessita de espetacularização mediúnica. Carece , sim, de mais estudo, mais discernimento, mais ética e, sobretudo, mais coragem para dizer NÃO ao entulho da mistificação.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. No invisível. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: FEB, 2013.

FRANCO, Divaldo Pereira. Mediunidade: desafios e bênçãos. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2010.