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  • 11.3.26

    ​O dogmatismo kardequiano sob o despotismo dos PhDs da “lógica”


     



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Temos observado em certas “lideranças” do movimento espírita brasileiro, mormente os “doutores em lógica”, a afirmação esdrúxula  de que “tudo o que não está nas obras da Codificação não é Espiritismo.” Essa frase soa, à primeira vista, como defesa da “pureza” doutrinária. Contudo, analisada com mais cuidado, revela algo inquietante: uma forma coercitiva de dogmatismo incompatível com o próprio método espírita.

    É evidente que as obras fundamentais de Allan Kardec constituem a base filosófica e metodológica do Espiritismo. Nelas encontramos os princípios estruturais da doutrina e negar essa centralidade seria ignorar a própria identidade do Espiritismo.

    O problema surge quando essa base é transformada em fronteira absoluta, como se o conhecimento espírita tivesse morrido e sido definitivamente encerrado em 1869, com a partida do Codificador para o além..

    Essa postura contradiz diretamente o pensamento do Mestre de Lyon. Em A Gênese, o codificador afirma que o Espiritismo “marchando com o progresso, jamais será ultrapassado”, pois, se novas descobertas demonstrarem erro em algum ponto, ele se modificará nesse ponto. Essa afirmação expressa a própria natureza progressiva da doutrina.

    Além disso, grande parte das reflexões kardecianas não se limita aos chamados cinco livros da Codificação, mas também se encontra na Revista Espírita, publicada mensalmente entre 1858 e 1869. Ali Kardec analisou fenômenos, apresentou comunicações espirituais, discutiu hipóteses e examinou questões filosóficas que ampliam significativamente a compreensão do pensamento espírita.

    Se adotássemos o critério de que apenas a Codificação define o Espiritismo, teríamos de ignorar boa parte do material estudado e debatido pelo próprio Kardec — o que seria, no mínimo, paradoxal.

    O Espiritismo nasceu como doutrina de investigação, baseada na observação dos fatos, no exame racional e no princípio da universalidade do ensino dos Espíritos. Transformá-lo em um sistema ortodoxo fechado entre os “deuses da lógica” equivale a negar o método que lhe deu origem.

    O resultado desse “kardequilogismo dogmático” é peculiar: em nome da fidelidade a Kardec, acaba-se abandonando justamente o que havia de mais essencial em sua obra — o espírito crítico, o método comparativo e a abertura ao progresso do conhecimento.

    Respeitar a Codificação não significa aprisionar o Espiritismo no século XIX. Significa compreender seus fundamentos e, a partir deles, continuar investigando, refletindo e dialogando com o progresso intelectual e espiritual da humanidade.

    Em outras palavras, ser fiel a Kardec não é ecoar Kardec de forma robotizada. É ajuizar e refletir com Kardec.

    9.3.26

    ​Viajar demais pode ser fuga da alma. Para onde ir?

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    Sob o ponto de vista psicológico, certos comportamentos repetitivos de viagens constantes podem, em muitos casos, funcionar como mecanismos de fuga emocional. Nesses contextos, o movimento contínuo não decorre apenas de interesse cultural ou lazer, mas pode representar uma tentativa subconsciente de evitar conflitos internos, frustrações afetivas, tensões familiares ou insatisfações existenciais.

    Quando alguém sente necessidade permanente de “estar viajando para outro lugar”, pode ocorrer um processo de deslocamento simbólico: muda-se o cenário externo sem que os problemas internos sejam efetivamente enfrentados. Assim, a viagem deixa de ser uma escolha livre e passa a assumir a função psicológica de anestesiar angústias ou adiar enfrentamentos das experiências desafiadoras.

    Esse fenômeno é relativamente conhecido nas diversas abordagens da psicologia contemporânea. Em algumas circunstâncias, as viagens constantes funcionam como estratégia de regulação emocional: a pessoa busca novidade, estímulos e sensações de liberdade para compensar estados internos de vazio, ansiedade ou insatisfação. Não significa necessariamente um “transtorno” psíquico, mas pode indicar inseguranças de lidar com aspectos da própria vida.

    Viajar é, sem dúvida, uma experiência atraente. Conhecer novos lugares, culturas e paisagens pode ampliar horizontes e favorecer o autoconhecimento. Entretanto, quando as viagens constantes se transformam em “necessidade” quase compulsiva, convém refletir se estaríamos diante de um simples gosto por viagens ou de uma tentativa inconsciente de fugir de nós mesmos?

    A Doutrina Espírita convida o ser humano a analisar sempre as motivações íntimas de seus atos. No Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, na questão 922, os Espíritos ensinam que a felicidade possível na Terra não depende da multiplicação de prazeres ou distrações, mas da posse do necessário e, sobretudo, de algo mais profundo: a consciência tranquila e a fé no futuro. Isso significa que nenhuma soma de experiências exteriores consegue preencher o vazio de um coração inquieto.

    A sociedade contemporânea estimula a ideia de viagens permanentes: viajar sempre, mudar sempre, experimentar sempre. Porém, essa agitação constante pode esconder um problema espiritual antigo: a dificuldade de permanecer consigo mesmo. Quando o indivíduo sente necessidade contínua de viajar e deslocar-se para outras regiões, pode estar tentando silenciar uma inquietação interior que não deseja enfrentar em sua própria consciência..

    Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, observa que o ser humano frequentemente procura no exterior aquilo que apenas o mundo interior pode oferecer. Para ele, muitas distrações da vida moderna funcionam como uma espécie de anestesia da consciência. O homem se cerca de estímulos, ruídos e novidades para evitar o encontro com suas próprias questões morais.

    O espírito Emmanuel ensina, em páginas de Fonte Viva, que o coração vazio de valores espirituais procura compensações incessantes nas coisas do mundo. Assim, multiplicam-se distrações, atividades e viagens, mas o sentimento de vazio permanece, pois sua causa é interior.

    Nossas reflexões não significam condenar as viagens. Viajar pode ser saudável, educativo e espiritualmente atraente. O problema surge quando as viagens deixam de ser escolha consciente e passam a ser patológicas por necessidade psicológica de fuga de si mesmas.

    Em termos espirituais, a verdadeira viagem não é geográfica, mas sim para dentro de si mesmo. Podemos atravessar continentes e ainda assim permanecer distantes de nós mesmos. Por outro lado, aquele que cultiva serenidade interior pode viver em qualquer lugar e, ainda assim, sentir-se em paz.

    A Doutrina Espírita recorda que o progresso real do Espírito não depende da quantidade de lugares visitados, mas da transformação íntima realizada ao longo da existência. Afinal, por mais que o homem se desloque pelo mundo, haverá sempre um lugar do qual ele jamais conseguirá escapar: a própria consciência.

    Obviamente a questão não está nas viagens em si, mas na função psicológica que elas assumem. Quando realizadas de forma moderada, consciente e equilibrada, as viagens podem ser fontes de crescimento humano. Contudo, quando se transformam em necessidade compulsiva de fuga, tornam-se gatilhos para tentativa de fuga dos conflitos de si mesmos.

    8.3.26

    Concisas cogitações sobre os princípios material , espiritual e a vida em si

     


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A Codificação Espírita apresenta uma visão clara e profundamente racional sobre a constituição do Universo. No Livro dos Espíritos, especialmente nas primeiras questões, os Espíritos ensinam que tudo o que existe deriva fundamentalmente de dois princípios gerais: o princípio material e o princípio espiritual. A compreensão dessa distinção é essencial para entender a natureza da vida e da própria existência humana.

    Para o Espiritismo o princípio material é o elemento constitutivo da matéria em todas as suas formas. Ele está presente em tudo aquilo que percebemos pelos sentidos, das galáxias aos micro-organismos da Terra. Esse princípio universal e material se organiza e se transforma continuamente, dando origem aos diversos corpos físicos que compõem o mundo visível. Assim, pode-se dizer que a individualização do princípio material são os corpos, estruturas temporárias sujeitas às leis de transformação da matéria.

    Por outro lado, o princípio espiritual corresponde ao elemento inteligente do universo. É dele que procede a consciência, a capacidade de pensar, amar, escolher e evoluir moralmente. Quando esse princípio se individualiza, surge o Espírito racional (humano), ser imortal criado por Deus, destinado ao progresso infinito.

    Nesse sentido, os Espíritos (racionais) são individualizações do princípio espiritual, cada qual com sua história evolutiva e responsabilidade moral.

    Entretanto, entre a matéria em si e o espírito consciente (racional) existe ainda um elemento intermediário muito mal compreendido: o princípio vital. Kardec explica que esse princípio é a força que anima os organismos vivos. Ele não é o Espírito, nem é simplesmente matéria; trata-se de uma espécie de energia ou dinamismo que permite a manifestação da vida orgânica. É por meio dele que a matéria organizada se torna capaz de realizar funções vitais, como crescimento, reprodução e metabolismo.

    Assim, um corpo pode estar dotado de princípio vital e ainda não possuir um Espírito humano, como ocorre nos vegetais e nos animais irracionais. No ser humano, porém, o fenômeno é mais complexo: o corpo material é animado pelo princípio vital, enquanto o Espírito se liga a ele através do perispírito, envoltório semimaterial que serve de intermediário entre a alma e o organismo físico.

    A vida encarnada, portanto, resulta da interação desses três elementos: o corpo material, o princípio vital que o anima e o Espírito que o dirige. Quando ocorre a morte (desagregação molecular) , o princípio vital se extingue, o corpo físico retorna aos elementos da matéria e o Espírito prossegue sua existência no mundo extrafísico (espiritual).

    Essa concepção revela a extraordinária coerência da filosofia espírita. O ser humano encarnado não é apenas matéria, como afirma o materialismo, nem apenas espírito desligado da realidade física. Ele é, antes, um Espírito imortal utilizando temporariamente um organismo material animado pela força vital, em uma jornada de aprendizado e aperfeiçoamento moral.

    Compreender essa estrutura tripla da vida permite perceber com maior clareza o verdadeiro sentido da existência: a evolução do Espírito, que se serve da experiência material como instrumento de progresso intelectual e moral até a pura e eterna felicidade.

     


    Kardec nunca, jamais e em tempo algum negou cidades no mundo espiritual


     


     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    Há no movimento espírita tupiniquim uma afirmação enganadora: a de que Allan Kardec jamais teria afirmado a existência de cidades, habitações ou estruturas organizadas no plano espiritual.

    Essa ideia, repetida muitas vezes (por “sabichões” da “lógica”) sem maior critério na análise das fontes, não resiste (e não resiste mesmo!!!) a uma simples leitura das obras do próprio codificador.

    O fato histórico demonstra que Kardec registrou diversas descrições de sociedades espirituais organizadas, incluindo habitações, centros de reunião e até verdadeiras cidades.

    Vejamos na edição de agosto de 1858 da Revista Espírita: Kardec publica o estudo intitulado “Habitações em Júpiter”, baseado em comunicações mediúnicas analisadas por ele. Nesse texto aparece a descrição da cidade espiritual chamada Julnius.

    O relato não deixa margem para interpretações minimalistas e pueris dos soberbos da “lógica acadêmica”. O texto descreve literalmente ruas e caminhos organizados, praças públicas, pórticos e pontes, canais, edificações coletivas.

    Há um trecho claríssimo (no superlativo mesmo​!), vejamos:“Tem suas ruas, seus caminhos traçados para o serviço interno; tem suas praças públicas, seus pórticos e suas pontes lançadas sobre os canais.”

    E  a  descrição prossegue com um detalhe ainda mais intensíssimo: “A cidade inteligente, a verdadeira Julnius, não deve ser procurada no solo. Ela está no ar” (no ar????....).  E completa: “Veríeis os céus escurecidos por nuvens de casas que chegam de todos os pontos do horizonte.

    Não se trata de metáfora vaga. O texto fala explicitamente de uma cidade espiritual organizada, com moradias e estruturas coletivas.

    No mesmo estudo, Kardec registra que há  habitações e vida social entre os Espíritos, portanto,  vivem em grupos sociais estruturados. E também afirma: “Possuem habitações comuns e famílias, grupos harmoniosos de Espíritos simpáticos.” E vai mais além, (muito “além”) “existem edifícios destinados a reuniões públicas, festas e cerimônias.”

    Destarte, como vimos o texto consigna elementos característicos de qualquer sociedade organizada tais como habitações, vida familiar, espaços coletivos, locais de reunião e celebração

    Portanto, mais de um ano após a Codificação , a literatura espírita registrava formas de organização social no mundo espiritual.

    Como atualmente a reação cética também existia. Curiosamente, Kardec expõe que algumas pessoas ridicularizaram essas descrições e traz à baila comentários irônicos como:

    “Casas de Espíritos em Júpiter!... Que gozação!”

    O ceticismo já existia no século XIX. A diferença é que Kardec não reagiu com dogmatismo nem com negação. Como pesquisador, ele fez o que sempre fez: publicou, analisou e deixou a questão aberta ao exame crítico.

    A confusão atual nasce principalmente de reducionismos como confundir prudência metodológica de Kardec com negação e imaginar que tudo o que não está detalhado no Livro dos Espíritos teria sido rejeitado pelo codificador.

    Porém, a vasta literatura kardeciana é mais abrangente do que os 5 livros da codificação, pois  há todo o material de pesquisa publicado mensalmente por quase 12 anos perfazendo  135 edições  da Revista Espírita (que raros espíritas leem), onde o Codificador registrou inúmeros estudos sobre a organização da vida espiritual. Nos 12 anos da R.E. aparecem referências a sociedades espirituais, agrupamentos de Espíritos por afinidade, habitações espirituais, centros de reunião, comunidades organizadas. Como se deduz nada disso, indica um “vácuo espiritual” onde os Espíritos vagariam sem estrutura social.

    A grande questão talvez seja  terminológica. É verdade que a expressão “colônia espiritual” não aparece na obra de Kardec. Essa terminologia se popularizou no século XX, especialmente após a publicação de Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier e atribuído ao espírito André Luiz.

    Contudo, a ausência da expressão não significa ausência do conceito. O que Kardec descreve são sociedades espirituais organizadas com habitações e espaços coletivos — exatamente os elementos que mais tarde seriam chamados de “colônias espirituais”.

    Do ponto de vista histórico e documental, a conclusão é clara: Kardec nunca negou a existência de estruturas organizadas no plano espiritual, muitíssimo pelo contrário. . 

    6.3.26

    Socialistas Utópicos e as Ideias que Antecederam o Espiritismo


     Jorge Hessen
    Brasília -DF

     

    Antes da publicação de O Livro dos Espíritos, em 1857, algumas ideias que mais tarde seriam sistematizadas por Allan Kardec já circulavam no ambiente intelectual francês do início do século XIX. Entre os pensadores que contribuíram para esse clima espiritualista destacam-se três autores ligados ao chamado socialismo utópico: Jean Reynaud, Pierre Leroux e Charles Fourier. Embora não tenham sido espíritas, eles formularam reflexões filosóficas que apresentam notáveis afinidades com alguns princípios posteriormente consolidados pelo Espiritismo.

    Esses pensadores viveram em uma época marcada por intensas transformações sociais e intelectuais na França. Após a Revolução Francesa, muitos filósofos procuraram reconstruir uma visão espiritual do mundo capaz de conciliar razão, progresso e moralidade. Nesse contexto, surgiram especulações sobre a imortalidade da alma, o aperfeiçoamento moral do ser humano e até mesmo a possibilidade de múltiplas existências.

    Entre eles, Jean Reynaud talvez seja o que mais se aproxima das ideias que depois apareceriam no Espiritismo. Em sua obra Terre et Ciel (1854), o filósofo apresentou a teoria da “palingenesia”, defendendo que a alma progride através de sucessivas existências. Reynaud via a reencarnação como um mecanismo divino de aperfeiçoamento moral e rejeitava a ideia de condenações eternas, sustentando que a justiça divina se manifesta por meio do progresso contínuo do espírito.

    Pierre Leroux, por sua vez, também desenvolveu uma concepção espiritualista do destino humano. Para ele, a humanidade evolui por meio de um processo de solidariedade e de perfeitação moral. Porém, Leroux defendia uma forma estranha de metempsicose progressiva, na qual o espírito se aperfeiçoa ao longo de diversas existências. Embora suas formulações fossem mais filosóficas do que sistemáticas, apontavam para uma visão dinâmica da vida espiritual, semelhante àquela que posteriormente seria organizada pela doutrina espírita.

    Já Charles Fourier ficou conhecido principalmente por suas propostas de reorganização social baseadas nas chamadas falanges comunitárias. Contudo, sua obra também apresenta uma curiosa cosmologia espiritual. Fourier admitia a existência de vida em outros planetas e defendia a ideia de um universo em constante progresso. Ainda que não tenha formulado claramente uma teoria da reencarnação, sua visão da pluralidade dos mundos e da evolução moral da humanidade aproxima-se de conceitos que seriam mais tarde desenvolvidos pelo Espiritismo.

    Apesar dessas afinidades, é importante destacar uma diferença fundamental. Reynaud, Leroux e Fourier chegaram a essas ideias por meio da reflexão filosófica e da especulação intelectual. Já o Espiritismo, segundo Kardec, fundamenta-se no estudo das comunicações mediúnicas, analisadas de forma comparada e submetidas a um método de observação. Assim, a doutrina espírita não se apresenta como simples continuidade dessas filosofias, mas como uma sistematização que buscou reunir ensinamentos espirituais sob critérios de racionalidade e universalidade.

    Dessa forma, pode-se afirmar que esses socialistas utópicos não foram espíritas propriamente ditos, mas contribuíram para formar um ambiente intelectual favorável ao surgimento do Espiritismo. Suas reflexões sobre a imortalidade da alma, o progresso moral e a pluralidade das existências demonstram que certas intuições espirituais já estavam presentes no pensamento europeu antes da codificação kardeciana. Nesse sentido, eles podem ser vistos como precursores filosóficos de ideias que Allan Kardec organizaria posteriormente em um corpo doutrinário coerente e sistemático.