Jorge Hessen
Brasília -DF
No movimento espírita, caridade não pode significar silêncio diante do erro, nem misericórdia servir de salvo-conduto para práticas que exigem esclarecimento
Há algo profundamente equivocado quando, em nome da fraternidade, se tenta impedir a crítica; quando, em nome da caridade, se pretende encerrar o debate; quando, em nome do Evangelho, se exige silêncio diante de fatos que deveriam ser examinados. A fraternidade cristã não foi instituída para proteger erros, reputações ou interesses institucionais. Foi instituída para aproximar consciências da verdade.
O alerta de Emmanuel, no capítulo 20 de Caminho, Verdade e Vida, é de uma atualidade desconcertante. Sob o título “O Companheiro”, o autor espiritual recorda que ninguém percorre sozinho a estrada da evolução.
Encontraremos companheiros agradáveis e difíceis, concordantes e discordantes, aqueles que nos estimulam e aqueles que nos incomodam. Todos podem ser instrumentos de aprendizado. O problema começa quando transformamos a fraternidade em uma espécie de salvo-conduto moral para não examinar aquilo que nos convém ignorar.
Uma doutrina que ensina o livre exame não pode cultivar uma cultura de intocáveis. O Espiritismo não exige que seus adeptos concordem com tudo nem que aceitem uma prática simplesmente porque é realizada dentro de uma instituição espírita, por uma liderança admirada ou por alguém cercado de prestígio. Kardec não ensinou submissão intelectual. Ensinou investigação, raciocínio, observação e prudência. A fé espírita não teme a verdade — receia, isto sim, a acomodação que dispensa a verdade.
Emmanuel é ainda mais preciso ao recomendar: “Elevemos os que nos rodeiam.” Elevar não é adular. Não é proteger indefinidamente quem erra. Não é transformar crítica em perseguição e questionamento em ofensa. Muitas vezes, elevar significa ter a coragem de advertir o companheiro, apontar-lhe o equívoco e ajudá-lo a repará-lo.
Essa é uma concepção de fraternidade muito mais exigente do que a mera cordialidade.
O movimento espírita não pode cair na tentação de criar zonas de imunidade moral. Nenhum médium, dirigente, palestrante, trabalhador, instituição ou entidade federativa está acima do exame da consciência e dos princípios doutrinários.
Isso não significa licença para acusações irresponsáveis. Ao contrário. Toda crítica séria deve respeitar os fatos, evitar precipitações e distinguir claramente suspeitas, indícios e acusações comprovadas. Mas exatamente por isso não se pode responder a toda contestação com ataques pessoais, desqualificações ou tentativas de silenciamento.
A pergunta correta diante de uma crítica não deveria ser: “Quem está criticando?”
Deveria ser: “O que está sendo apontado é verdadeiro?”
Se a crítica for injusta, os fatos a desmontarão. Se houver equívoco, o esclarecimento será suficiente. Se existir uma falha, o caminho cristão será reconhecê-la e corrigi-la.
O que não é aceitável é substituir a investigação pela indignação.
Também não se pode confundir caridade com permissividade. A questão 886 de O Livro dos Espíritos relaciona a caridade à benevolência, à indulgência e ao perdão das imperfeições alheias. Mas indulgência não significa negar a realidade. Podemos ser indulgentes com a pessoa sem sermos complacentes com o erro.
Perdoar não é aprovar. Compreender não é concordar. Amar não é acobertar.
Essa distinção deveria estar no centro de qualquer instituição que se apresente como cristã.
Há, ainda, um fenômeno particularmente preocupante: a transformação de determinadas personalidades em referências quase incontestáveis. Quando a admiração substitui o discernimento, nasce o personalismo. E quando o personalismo se instala, a crítica passa a ser percebida como ameaça.
É justamente nesse momento que o movimento espírita precisa recordar Kardec.
A Doutrina não é propriedade de indivíduos. Não existe “dono” da verdade espírita. O trabalhador é passageiro; a instituição é instrumento; a Doutrina permanece.
Por isso, nenhuma obra assistencial, por mais meritória que seja, pode ser utilizada como argumento para impedir questionamentos. A caridade não confere imunidade moral a ninguém. Fazer o bem não transforma automaticamente todas as práticas daquele que faz o bem em práticas corretas.
Essa é uma verdade incômoda, mas necessária.
Se houver erro, que seja corrigido.
Se houver dúvida, que seja investigada.
Se houver denúncia, que seja examinada com serenidade.
Se houver injustiça, que seja reparada.
E se não houver fundamento, que os fatos esclareçam.
O que não podemos fazer é transformar o companheiro que questiona em inimigo e o companheiro questionado em vítima automática.
Emmanuel nos convida a enxergar no próximo uma oportunidade de aprendizado. Talvez seja hora de aplicar a mesma lição às nossas próprias instituições.
O crítico também pode ser um companheiro.
Pode incomodar. Pode contrariar. Pode expor aquilo que preferíamos não enxergar. Mas, se sua crítica tiver fundamento, talvez esteja prestando um serviço que muitos aduladores jamais tiveram coragem de prestar.
O verdadeiro espírita não deveria perguntar primeiro como preservar sua reputação.
Deveria perguntar como preservar sua consciência.
Porque, no fim, a maior ameaça à fraternidade não é a crítica honesta. É a mentira protegida pelo silêncio dos que deveriam ter coragem de examiná-la.
Fraternidade não é blindagem.
Fraternidade é verdade com misericórdia.








