Jorge Hessen
Brasília -DF
Vivemos um paradoxo: enquanto idealizamos um Brasil vocacionado à fraternidade, assistimos à deterioração do diálogo público, sufocado pelo ódio entre grupos que se autodenominam de direita ou de progressistas. Divergir é legítimo; transformar adversários em inimigos é um sintoma de imaturidade política e moral.
O problema ganha gravidade diante da situação fiscal brasileira. Conforme já escrevi, em agosto de 2026, segundo os dados apresentados pelo Tesouro Nacional, a Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,293 trilhões, com projeção de encerramento do ano entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. Trata-se de um desafio que exigirá responsabilidade administrativa, planejamento e capacidade de negociação, independentemente da orientação ideológica do próximo governo.
A polarização agrava esse quadro ao converter medidas econômicas em instrumentos de disputa partidária. O país necessita de instituições capazes de dialogar, investimentos sustentáveis e políticas públicas que conciliem equilíbrio fiscal e proteção social. Não há responsabilidade social duradoura sem administração criteriosa dos recursos públicos.
Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec (2008), ao abordar a Lei de Sociedade, esclarece que a vida coletiva constitui condição para o progresso humano. Na questão 913, identifica o egoísmo como uma das grandes chagas da humanidade. Quando esse sentimento ultrapassa o indivíduo e se instala nas facções políticas, surge o egoísmo coletivo: o interesse do grupo passa a valer mais que a verdade, a justiça e o bem comum.
Léon Denis (2008), em O problema do ser, do destino e da dor, oferece elementos para compreender o aperfeiçoamento moral como processo vinculado à responsabilidade individual. Nenhuma reforma social será consistente se não for acompanhada pela transformação das consciências. Leis e instituições são indispensáveis, mas sua eficácia depende também da honestidade e do compromisso de quem as conduz.
Na perspectiva psicológica espírita, Joanna de Ângelis, por intermédio de Divaldo Franco, convida-nos a reconhecer os conflitos interiores que projetamos nos outros. O adversário político pode errar, mas isso não nos autoriza a ignorar os equívocos do próprio grupo. A autocrítica é condição da maturidade; a intolerância, ao contrário, perpetua os mesmos vícios sob bandeiras diferentes.
A dívida pública não deve ser chamada, sem distinção, de dívida “cármica”. É, antes, um problema econômico e institucional com consequências humanas concretas. Seu enfrentamento exige transparência, controle dos gastos, combate à corrupção, crescimento sustentável e políticas sociais responsáveis. Juros elevados e escolhas fiscais inadequadas podem restringir recursos destinados a serviços essenciais.
O Espiritismo não nos convoca à neutralidade diante dos erros, mas à justiça sem fanatismo. Não precisamos escolher entre responsabilidade fiscal e solidariedade, nem entre prudência administrativa e inclusão social. Precisamos avaliar propostas e resultados, sem transformar partidos em ídolos ou adversários em inimigos.
O Brasil não será salvo pela direita derrotando a esquerda, nem pela esquerda esmagando a direita. Será fortalecido quando seus cidadãos compreenderem que a divergência democrática deve servir à construção coletiva. A caridade também se expressa na responsabilidade de governar, na honestidade de fiscalizar e na coragem de reconhecer os próprios erros.
Referências Bibliográficas:
DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
FRANCO, Divaldo Pereira. O homem integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1990.
BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria do Tesouro Nacional. Relatórios e estatísticas da Dívida Pública Federal. Brasília, DF: Tesouro Nacional, 2026.









