11 agosto 2026

Educar sem chantagem é o amor que corrige sem humilhar


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma diferença fundamental entre educar e controlar. Educar significa auxiliar o Espírito a desenvolver discernimento, responsabilidade e autonomia moral. Controlar, muitas vezes, significa obter obediência pelo medo. É nesse terreno que surge uma das práticas mais nocivas na relação entre pais e filhos: a chantagem emocional.

Frases como “se você fizer isso, não vou mais gostar de você” podem produzir obediência imediata, mas não formam consciência. A criança aprende, antes, uma perigosa equação: para ser amada, precisa agradar. Em consequência, pode esconder sentimentos, negar conflitos, dissimular erros e desenvolver uma personalidade moldada pela necessidade de aprovação.

O problema não está em corrigir. Pais têm o dever de estabelecer limites. O problema está em transformar o afeto em instrumento de opressão. Podemos reprovar uma atitude sem rejeitar aquele que a praticou. Podemos dizer “isso que você fez está errado” sem transmitir “por causa disso, você deixou de ser digno do meu amor”.

Allan Kardec situa a educação moral no centro do aperfeiçoamento humano. Ao comentar a questão 685-a do Livro dos Espíritos, afirma que ela consiste na “arte de formar os caracteres”, isto é, naquela educação capaz de criar hábitos e fortalecer o domínio de si (KARDEC, 2019). A finalidade, portanto, não é fabricar crianças obedientes, mas auxiliar Espíritos a desenvolverem consciência.

Em Depois da Morte, Léon Denis é igualmente incisivo ao atribuir à família papel decisivo na formação moral. Para ele, educar exige firmeza, perseverança e ternura, sem confundir amor com fraqueza. Os pais recebem a responsabilidade de ajudar os filhos a desenvolver suas boas tendências e superar as más (DENIS, 2018).

Joanna de Ângelis aprofunda essa compreensão ao apresentar a família como verdadeiro educandário do Espírito. Em S.O.S. Famíliadestacam-se os deveres dos pais e a necessidade de investimento em amor, vigilância e sacrifício. Em Amor, Imbatível Amor, alerta-se para os efeitos psicológicos de pais que fazem a criança acreditar que somente será amada quando obedecer ou agradar.

André Luiz, em Sinal Verde, enfatiza que a criança necessita de amor, educação e amparo, lembrando que os adultos constituem referências permanentes para sua formação. Educar implica corrigir, orientar, proteger e, sobretudo, exemplificar.

Emmanuel, por sua vez, insiste na responsabilidade dos adultos diante dos processos de renovação moral. Não basta transmitir palavras edificantes: é indispensável transformar princípios em atitudes. O exemplo dos pais educa muito mais profundamente do que discursos repetidos.

Bezerra de Menezes segue a mesma linha ao enfatizar que a Doutrina Espírita deve sair do campo da teoria e alcançar a vivência cotidiana. Na família, isso significa substituir imposição, medo e autoritarismo por diálogo, compreensão, responsabilidade e amor efetivamente praticado.

Quando uma criança manifesta ciúme, inveja, raiva ou ressentimento, não devemos ensiná-la a esconder o sentimento. Devemos ajudá-la a compreendê-lo. Sentir não é o mesmo que agir. A emoção pode surgir espontaneamente; a conduta, porém, pode e deve ser educada.

O pai pode dizer para o filho já da segunda infância em diante: “Entendo que você esteja com raiva, mas não pode machucar seu irmão”. A mãe pode afirmar: “Você pode estar com ciúme, mas vamos conversar sobre isso. Assim, a criança aprende algo muito mais importante do que a simples obediência: aprende a reconhecer o próprio mundo interior e a responsabilizar-se por aquilo que faz com ele.

Amor incondicional, portanto, não significa ausência de limites. Significa que o vínculo afetivo não é colocado como prêmio ou castigo. O comportamento tem consequências; o amor não deve ser moeda de troca.

Kardec recorda que os pais têm a missão de contribuir para o desenvolvimento intelectual e moral dos filhos. Léon Denis acrescenta que a educação deve falar também ao coração e ensinar o ser humano a combater suas imperfeições.

Educar é exatamente isso: oferecer limites sem retirar o aconchegocorrigir sem humilharadvertir sem ameaçar; exigir responsabilidade sem destruir a autoestima.

A criança a partir da segunda infância  precisa saber que poderá confessar um erro sem perder o amor dos pais. Precisa descobrir que suas fragilidades não são motivos para vergonha, mas oportunidades de crescimento. Precisa aprender que ninguém é perfeito e que a verdadeira grandeza está em reconhecer o erro, repará-lo e esforçar-se para não repeti-lo.

Pais não devem criar filhos dependentes da aprovação alheia. Devem ajudá-los a construir uma consciência suficientemente forte para discernir o certo do errado mesmo quando ninguém estiver olhando.

Essa é a verdadeira educação espírita: não formar criaturas submissas ao medo, mas Espíritos capazes de governar a si mesmos.

O amor educa. A chantagem apenas constrange. E entre constranger uma criança para obter obediência e ampará-la para que desenvolva consciência existe toda a distância entre dominação e educação, medo e confiança, dependência e maturidade.

 

Referências Bibliográficas:

BEZERRA DE MENEZES. Bezerra, Chico e você. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2020.

DENIS, Léon. Depois da morte. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2018. cap. 54.

EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

JOANNA DE ÂNGELIS (Espírito). Amor, imbatível amor. Psicografia de Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2018.

JOANNA DE ÂNGELIS (Espírito). S.O.S. família. Psicografia de Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2019.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

LUÍZ, André (Espírito). Sinal verde. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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10 agosto 2026

A cumplicidade dos honestos e a ascensão dos desonestos


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A informação circula hoje com velocidade inédita. Escândalos, fraudes, abusos e desvios podem ser conhecidos em minutos. O mundo tornou-se uma espécie de vitrine permanente da condição humana. E o espetáculo não é edificante.

O que mais espanta, entretanto, não é a existência dos desonestos. Eles sempre existiram. O verdadeiramente perturbador é a facilidade com que alguns deles conquistam poder, prestígio e autoridade — enquanto pessoas honestas, competentes e moralmente respeitáveis assistem a tudo em silêncio.

Na política, nos negócios, na administração pública, no meio jurídico, na educação e até em instituições que deveriam cultivar valores superiores, a mesma história se repete: indivíduos de caráter duvidoso avançam porque encontram pouca resistência.

Não se trata de afirmar que todo acusado é culpado, nem de transformar suspeita em condenação. Trata-se de reconhecer um princípio elementar: caráter não nasce pronto, nem a corrupção surge por geração espontânea. O indivíduo que aprende a mentir nas pequenas coisas, a manipular, a fraudar, a abusar de sua posição e a justificar seus próprios privilégios está construindo, dia após dia, o caminho que o levará a transgressões maiores.

E onde estavam os que perceberam os sinais?  Frequentemente, estavam calados. Há uma concepção pueril de caridade que transforma indulgência em omissão e prudência em covardia. Como se apontar uma conduta nociva fosse falta de fraternidade. Como se o dever de amar o próximo obrigasse a sociedade a fechar os olhos diante daquele que prejudica o próximo.

Não é assim.

Kardec definiu a caridade como benevolência, indulgência e perdão, mas isso jamais autorizou a cumplicidade com o erro. A própria Doutrina Espírita vincula a caridade à justiça e ao progresso moral.

É preciso, portanto, separar duas coisas que a hipocrisia costuma misturar: perseguir uma pessoa e combater uma conduta. A primeira pode nascer da maldade. A segunda pode ser um dever.

Quem denuncia uma fraude para destruir reputação pratica mesquinharia. Quem silencia diante de uma fraude comprovada para preservar amizades, interesses ou conveniências pratica algo talvez ainda mais perigoso: oferece ao desonesto o ambiente ideal para continuar agindo.

O dinheiro público roubado não é abstrato. É hospital que não se constrói, escola que não se reforma, serviço que não funciona. O patrimônio empresarial desviado pode significar empregos perdidos. A corrupção institucional destrói confiança e dissemina a convicção de que a honestidade é coisa de ingênuos.

E quando os honestos se calam, essa mensagem ganha força.

Allan Kardec identificou no egoísmo uma das grandes raízes das misérias humanas: quando cada um coloca seus interesses acima dos demais, o prejuízo individual transforma-se em miséria coletiva.

A sociedade não será saneada apenas pela punição dos corruptos. Será saneada também quando os homens de bem deixarem de entregar os espaços de decisão aos mais audaciosos.

A omissão dos bons é uma forma indireta de patrocínio do mal.

Não se exige ódio. Exige-se coragem. Não se exige perseguição. Exige-se vigilância. Não se exige humilhação do culpado. Exige-se que seus atos tenham consequências. Não se trata de alimentar o ódio, mas de recusar a covardia travestida de tolerância. Não se trata de perseguir culpados, mas de impedir que a complacência lhes sirva de salvo-conduto. Não se trata de humilhar ninguém, porque a justiça não precisa de linchamento moral. Exige-se, simplesmente, responsabilidade.

Quem erra deve responder pelo que fez; quem causa dano não pode esconder-se atrás de discursos piedosos; e quem viola princípios não pode esperar que o silêncio alheio transforme sua culpa em inocência. A indulgência que elimina as consequências deixa de ser virtude e passa a ser cumplicidade. Afinal, uma sociedade que se recusa a responsabilizar os que abusam não promove a paz: apenas institucionaliza a impunidade.

Perdoar não é aprovar. Compreender não é absolver. Ser caridoso não é ser tolo. O homem de bem não precisa transformar-se em inquisidor. Mas também não pode desempenhar o papel confortável de espectador.

Quando pessoas íntegras recusam responsabilidades por medo, comodismo ou falsa modéstia, deixam o caminho livre para quem não possui os mesmos escrúpulos.

Depois, não adianta lamentar a decadência das instituições.

Quem abandona o campo moral não pode se surpreender quando os indignos ocupam o campo abandonado.

É hora dos honestos compreenderem que também têm responsabilidade pelo mundo que ajudam a construir.

A virtude que se cala diante do vício deixa de ser virtude pública. Portanto, sem ódio, sem calúnia e sem injustiça — mas também sem silêncio, sem ingenuidade e sem cumplicidade.

 

Referências

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, DF: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Brasília, DF: FEB, 2019.

 

“O túmulo de Kardec não é cartório: a farsa do ‘Kardec 2’”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

Há algo de profundamente errado quando uma doutrina fundada no exame racional dos fatos passa a ser tratada como propriedade de médiuns que, a qualquer momento, anunciam uma nova “revelação” recebida diretamente do Além. O fenômeno não é apenas pitoresco. É preocupante. E, se não for enfrentado com firmeza, poderá transformar o Espiritismo brasileiro numa caricatura de si mesmo.

Circulam relatos sobre uma obra que teria pretendido “atualizar” O Livro dos Espíritos para o século XXI, acrescentando novas perguntas à Codificação. Agora aparece alegação ainda mais extraordinária: uma suposta médium teria ido ao túmulo de Allan Kardec, em Paris, e recebido do próprio Codificador desencarnado autorização para produzir um hipotético Livro dos Espíritos 2.

Se é assim que a história está sendo apresentada, há uma pergunta inevitável: desde quando o túmulo de Kardec se transformou em cartório para autenticar livros mediúnicos?

A pergunta é incômoda, mas necessária.

Allan Kardec não criou uma doutrina dependente de revelações privadas. Ao contrário. Criou um método para impedir justamente que indivíduos se transformassem em proprietários da verdade espiritual. No Livro dos Médiuns, advertiu contra a fascinação, a credulidade e os perigos da mistificação. No Livro dos Espíritos, submeteu as comunicações a exame e comparação. E, ao formular o princípio do Controle Universal do Ensino dos Espíritos, estabeleceu um mecanismo destinado a impedir que a opinião de um médium fosse elevada à condição de verdade doutrinária.

Portanto, uma comunicação particular — seja atribuída a Kardec, Emmanuel, André Luiz ou qualquer outro Espírito — não é, por si mesma, atualização alguma da Doutrina Espírita.

Nome não é prova. Assinatura espiritual não é prova. Fenômeno mediúnico não é prova. É muito menos uma suposta conversa junto a um túmulo.

Quem conhece Kardec deveria saber disso.

O problema é que a credulidade encontrou no ambiente contemporâneo um terreno extraordinariamente fértil. Podcasts, redes sociais, vídeos, congressos, celebridades e plataformas digitais transformaram a mediunidade em conteúdo de consumo. A cada novo personagem, uma revelação. A cada revelação, um livro. A cada livro, uma plateia. E a cada plateia, mais autoridade para o próprio autor.

É a lógica da celebridade aplicada ao sagrado.

O caso das chamadas cartas consolidadoras torna tudo ainda mais delicado. Famílias enlutadas são psicologicamente vulneráveis. A mensagem de um suposto comunicante pode representar enorme conforto — mas também pode alimentar dependência, idolatria e, quando existe exploração financeira ou promessa de certeza absoluta, uma forma particularmente cruel de abuso da credulidade.

O Espiritismo não nasceu para explorar a dor humana.

Nasceu para esclarecê-la.

Kardec também não construiu uma religião de médiuns infalíveis. Ao contrário, ensinou que os Espíritos comunicantes devem ser avaliados pelo conteúdo de suas mensagens, pela qualidade moral e pela concordância com os princípios já estabelecidos. A mediunidade é instrumento; não é diploma de infalibilidade.

Por isso, é preciso dizer sem eufemismos: quem pretende “completar” Kardec mediante revelação particular está assumindo uma responsabilidade gigantesca — e precisa apresentar muito mais do que a própria palavra.

A Doutrina Espírita não é um aplicativo que necessita de atualização anual. O Livro dos Espíritos não é um arquivo incompleto aguardando que algum médium descubra a pergunta número 1.019, 1.020 ou 1.500.

Kardec não deixou uma vaga aberta para sucessores.

E muito menos deixou procuração para alguém encontrá-lo no além-túmulo e voltar ao Brasil com autorização editorial.

Se novas ideias forem apresentadas, que sejam estudadas como ideias. Se novos livros forem publicados, que sejam avaliados como obras pessoais. Se novas comunicações forem recebidas, que sejam submetidas ao crivo da razão, da experiência e da concordância universal.

Mas que se pare de usar o nome de Kardec como selo sobrenatural de autenticidade.

O Espiritismo brasileiro já tem problemas suficientes com o culto à personalidade, a espetacularização da mediunidade e a transformação da divulgação doutrinária em mercado. Não precisa acrescentar a isso uma espécie de cartório mediúnico do Além, no qual qualquer revelador possa sair com um certificado assinado por Kardec.

A Terceira Revelação não precisa de donos, continuadores autoproclamados ou profetas particulares.

Precisa de espíritas que estudem.

Que pensem.

Que questionem.

Que não se deixem fascinar.

E, sobretudo, que compreendam a advertência fundamental de Kardec: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.”

O dia em que o Espiritismo aceitar que uma suposta conversa privada com um Espírito basta para modificar sua estrutura doutrinária será o dia em que terá abandonado o método kardequiano.

E, quando uma doutrina abandona o método que lhe deu origem, qualquer coisa pode ser apresentada como verdade.

Até um “Kardec 2”.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, DF: FEB, 2016.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Brasília, DF: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Brasília, DF: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Paris: Bureau de la Revue Spirite, 1858-1869

 

08 agosto 2026

Fama, ingressos e lucro - o Espiritismo diante da desprezível indústria de “congressos e seminários”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser conivência. A crescente industrialização dos congressos espíritas é um deles. Não se trata de combater eventos, despesas ou a legítima remuneração de serviços profissionais. O que precisa ser denunciado é a transformação da divulgação espírita em produto comercial, sustentado por marketing, celebridades e ingressos que podem afastar justamente o público que a Doutrina pretende alcançar.

O mecanismo é conhecido: grandes nomes no cartaz, auditórios lotados, inscrições caras e a exploração sistemática da notoriedade de determinados expositores como poderosa ferramenta de atração. O trabalhador pode até não perceber, mas seu nome pode estar funcionando como marca comercial. Quanto maior a celebridade, maior o poder de venda.

É preciso perguntar sem eufemismos: estamos diante de divulgação espírita ou de um mercado de eventos utilizando o Espiritismo como argumento de venda?

Allan Kardec não deixou margem para transformar a Doutrina em negócio. No Livro dos Espíritos, ao definir a caridade, registra: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas” (KARDEC, 2019). Não há nessa concepção espaço para o egoísmo econômico travestido de divulgação espiritual.

Mais explícita é sua advertência no Livro dos Médiuns: “A exploração da mediunidade [leia-se Doutrina Espírita] é um abuso” (KARDEC, 2019). Embora a passagem se refira diretamente à exploração comercial da faculdade mediúnica, o princípio ético é incontornável: o sagrado não pode ser instrumentalizado pela ganância.

O problema contemporâneo é que a mercantilização pode ocorrer sem que se cobre diretamente pela mediunidade. Cobra-se pelo evento, pela estrutura, pela experiência, pela proximidade com a celebridade. E assim, pouco a pouco, a mensagem espiritual passa a ser envolvida numa lógica de mercado.

O expositor famoso precisa refletir. Seu nome está sendo utilizado para servir à Doutrina ou para vender ingressos? Sua imagem está divulgando uma mensagem ou valorizando um empreendimento? Não basta dizer que se está falando de Jesus para tornar evangélica uma operação comercial.

Kardec, em Obras Póstumas, demonstrou preocupação com a organização do movimento e com os perigos das ambições pessoais. Na Revista Espírita, dedicou inúmeras páginas à preservação da seriedade, da independência e da finalidade moral do Espiritismo. A Doutrina não deveria tornar-se instrumento de interesses particulares.

Também não se pode esconder tudo sob o argumento das “despesas”. Naturalmente, congressos custam dinheiro. Mas a transparência é obrigação moral. Quanto foi arrecadado? Quanto custou a estrutura? Quanto receberam os contratados? Houve lucro? Para onde foi destinado? Quem controla as contas?

Se o objetivo é realmente divulgar, por que não oferecer inscrições populares, bolsas para pessoas de baixa renda, transmissão gratuita ou valores diferenciados? Por que a mensagem destinada a todos precisa ser filtrada pelo poder aquisitivo?

Chico Xavier ensinou pela própria vida que o Espiritismo deveria estar junto do povo. Não criou uma indústria em torno de seu nome. Não transformou sua popularidade em passaporte para uma elite espiritual. Sua grandeza estava justamente na simplicidade.

O movimento espírita precisa escolher entre duas lógicas: serviço ou mercado; fraternidade ou exclusividade; divulgação ou exploração comercial.

O congresso pode reunir milhares de pessoas e, ainda assim, estar vazio de espírito espírita.

O verdadeiro critério não é o tamanho do auditório, a fama dos conferencistas ou o faturamento obtido. É a finalidade.

Porque quando a Doutrina deixa de ser instrumento de esclarecimento e passa a ser instrumento de rentabilidade, ocorre uma inversão perversa: o Espiritismo deixa de servir ao povo e o povo passa a servir ao negócio.

E isso é precisamente o contrário do que Kardec desejou.

O Espiritismo não nasceu para ser vendido. Nasceu para libertar consciências.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

 

07 agosto 2026

A cor da intolerância: O racismo como negação da fraternidade

 

 

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

"Racismo é uma chaga aberta no corpo da Humanidade." A frase de Cornélio Pires continua a ecoar num século em que a ciência desmontou definitivamente o mito das raças superiores, mas em que a discriminação racial persiste sob novas roupagens.

O preconceito já não se manifesta apenas nas legislações segregacionistas do passado; ele sobrevive na exclusão social, na violência cotidiana, nas desigualdades econômicas, nos discursos de ódio disseminados pelas redes sociais e nas tentativas de justificar privilégios históricos.

Embora a genética moderna tenha demonstrado que todos os seres humanos compartilham a mesma origem biológica, setores extremistas insistem em ressuscitar antigas teorias raciais, travestidas de nacionalismo, supremacismo ou intolerância cultural.

O racismo contemporâneo não se limita aos insultos explícitos: ele se revela também na marginalização sistemática de populações negras, indígenas e pobres, no preconceito velado e na indiferença diante das injustiças sociais.

Sob a ótica espírita, toda pretensão de superioridade racial constitui um grave equívoco moral. Allan Kardec ensina que a pluralidade das existências dissolve os preconceitos de raça e de casta, porque o mesmo Espírito pode renascer em diferentes povos, culturas e condições sociais (KARDEC, 2019). O homem que hoje discrimina poderá amanhã experimentar a dor da discriminação; aquele que desfruta de privilégios poderá reencarnar em circunstâncias completamente distintas.

O Espiritismo rejeita frontalmente qualquer ideologia fundada na cor da pele, na origem étnica ou na posição econômica. Em A Gênese, Kardec afirma que a reencarnação funda "o princípio da fraternidade universal, da igualdade dos direitos sociais e da liberdade" (KARDEC, 2019). Não existem Espíritos predestinados à superioridade racial; existem apenas Espíritos em diferentes estágios de aperfeiçoamento, todos destinados ao progresso.

Infelizmente, o racismo moderno frequentemente se esconde atrás de discursos pseudocientíficos, estatísticas manipuladas e preconceitos culturais herdados de séculos de colonialismo. A antiga frenologia, que pretendia medir a inteligência pela anatomia craniana, foi substituída por novas formas de intolerância intelectual e social. Mudaram-se os argumentos, mas permanece a mesma ilusão de superioridade.

O movimento espírita, por sua vez, não pode permanecer indiferente diante dessa realidade. Os centros espíritas devem ser espaços de acolhimento, educação moral e combate intransigente a toda forma de discriminação. O silêncio diante do preconceito constitui uma forma de cumplicidade moral. Não basta proclamar a fraternidade em discursos; é indispensável traduzi-la em atitudes concretas de respeito, inclusão e solidariedade.

Importa reconhecer, igualmente, que algumas interpretações equivocadas de textos do século XIX não podem servir de justificativa para o preconceito contemporâneo. Nenhuma passagem isolada tem força para anular o núcleo ético da Doutrina Espírita, fundamentado na igualdade essencial entre todos os filhos de Deus.

Nas questões 798 e 799 do Livro dos Espíritos, os benfeitores espirituais anunciam que o Espiritismo exercerá profunda influência sobre o progresso humano justamente porque ensinará aos homens a reconhecerem-se como irmãos. O racismo, portanto, não é apenas um erro social ou político: é uma rebelião contra a lei divina da fraternidade.

Num mundo marcado pela intolerância, a Doutrina Espírita proclama uma verdade revolucionária: ninguém é superior a ninguém pela cor da pele, pela nacionalidade ou pela condição econômica. Diante da eternidade, somos todos Espíritos imortais em marcha para a perfeição, aprendendo, através das múltiplas existências, a grande lição do amor universal.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. A Gênese. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Paris, abril de 1861.

XAVIER, Francisco Cândido. Caminhos da Vida. Pelo Espírito Cornélio Pires. São Paulo: CEU, 1996.

05 agosto 2026

A internet desmascara os marionetes mediúnicos das “cartas consoladoras”



 




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Durante mais de sete décadas, Chico Xavier psicografou milhares de cartas consoladoras em reuniões públicas, quase sempre realizadas diante de testemunhas, pesquisadores e familiares. As mensagens surgiam semanalmente, sem agendamento prévio e numa época em que não existiam redes sociais, inteligência artificial, mecanismos de busca ou bancos de dados digitais capazes de revelar, em poucos segundos, a intimidade de uma pessoa falecida.

A realidade contemporânea, contudo, é completamente diferente e sinistra. Atualmente, fotografias, conversas privadas, preferências pessoais, vídeos, registros escolares, homenagens póstumas e inúmeras informações familiares encontram-se disponíveis na internet. Basta um like na página do falsário da mediunidade e tudo sobre você e sua família estará à disposição do pérfido médium. Em consequência, no último lustro multiplicaram-se denúncias envolvendo supostos médiuns que utilizam insolentemente dados públicos para construir falsas “cartas consoladoras” destinadas a pais, mães e parentes devastados pela dor da “perda”.

Não é coincidência que alguns desses personagens, que outrora anunciavam psicografias semanais, tenham reduzido drasticamente a frequência de suas falsas mensagens, limitando-se, atualmente, a meia dúzia de apresentações anuais. Eles têm astúcia e sabem que a insistência na produção dos protótipos de “cartas consoladoras”,  constante, inevitavelmente expõe contradições, repetições, equívocos e indícios de informações obtidas por meios virtuais ordinários. Curiosamente, a tecnologia, paradoxalmente, tornou-se um poderoso instrumento de fiscalização das fraudes mediúnicas.

Allan Kardec advertiu que a credulidade irrefletida constitui grave ameaça ao Espiritismo. No Livro dos Médiuns, o codificador recomenda que toda comunicação espiritual seja submetida ao controle da razão, afirmando que "é preferível repelir dez verdades a admitir uma única falsidade" (KARDEC, 1861). O fenômeno mediúnico autêntico não teme a investigação; ao contrário, fortalece-se diante do exame rigoroso.

Quando indivíduos exploram a fragilidade emocional de famílias enlutadas, utilizando informações extraídas das redes sociais para fabricar mensagens supostamente espirituais, ultrapassam os limites da mistificação religiosa e aproximam-se de uma forma perversa de exploração sentimental: o verdadeiro estelionato do luto. Não se trata apenas de enganar intelectualmente, mas de instrumentalizar a saudade, a esperança e a dor humana.

O consolo genuíno jamais dependerá de espetáculos nem de mensagens fabricadas nas ondas virtuais. A Doutrina Espírita ensina que a fé raciocinada exige prudência, discernimento e responsabilidade moral. O silêncio respeitoso vale infinitamente mais do que palavras falsas construídas sobre pesquisas digitais.

Num mundo em que a internet desvenda quase toda a biografia de uma pessoa, a vigilância crítica tornou-se imperativa e ética. Defender as famílias enlutadas contra a fraude é preservar a dignidade da dor humana e proteger a própria credibilidade da mediunidade séria.

 

Referências Bibliográficas:


KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Paris: Didier, 1861.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Paris: Didier, 1862-1869.

XAVIER, Francisco Cândido. Entrevistas e depoimentos. Diversas edições.

04 agosto 2026

O luto deve ser vivido como uma travessia dolorosa iluminada pela esperança.


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A morte física continua sendo um dos maiores desafios emocionais da existência humana. Diante do túmulo de alguém amado, as teorias se calam, os discursos perdem a força e a saudade parece transformar-se numa ferida impossível de cicatrizar. A perda de um filho, de um companheiro, de uma mãe ou de um amigo produz uma dor que, muitas vezes, parece despedaçar a própria alma. Entretanto, segundo a visão espírita, o luto não deve ser vivido como um mergulho interminável no desespero, mas como uma travessia dolorosa iluminada pela esperança.

Antes de tudo, é importante compreender que a Doutrina Espírita não estimula uma dependência psicológica de supostos contatos com os desencarnados. O verdadeiro consolo não reside na busca obsessiva por notícias do além, mas na compreensão racional da imortalidade da alma e da continuidade da vida. Allan Kardec ensina, em O Livro dos Espíritos, que a morte representa apenas a destruição do envoltório físico, permanecendo intacta a individualidade espiritual (KARDEC, 1857).

O sofrimento pela separação é natural e legítimo. Emmanuel, porém, adverte que o desespero prolongado pode converter-se em pesada corrente de sofrimento para aqueles que partiram. As lágrimas do amor sincero são compreensíveis, mas a revolta e a desesperança transformam-se em obstáculos para a recuperação espiritual de quem desencarnou. O luto saudável exige oração, serenidade e confiança na justiça divina.

Vivemos excessivamente voltados para a matéria. Construímos a ilusão de permanência, como se a morte fosse um acidente reservado apenas aos outros. Todavia, todos somos chamados ao testemunho da despedida temporária. Refletir sobre a morte não significa cultivar pessimismo, mas desenvolver maturidade espiritual. Quem aprende a considerar a transitoriedade da existência terrestre prepara-se melhor para enfrentar as inevitáveis separações.

A mensagem espírita não nega a dor; ela lhe confere significado. O ente querido não desapareceu no vazio nem foi tragado pelo nada. Continua vivo, pensando, sentindo e prosseguindo sua jornada evolutiva. Por isso, diante da saudade, o caminho mais digno não é a revolta, mas a transformação da dor em serviço, em oração e em amor.

Emmanuel aconselha que realizemos, em favor daqueles que partiram, as tarefas nobres que eles gostariam de continuar a executar. A caridade, o estudo, o trabalho no bem e a elevação moral tornam-se pontes invisíveis entre os dois planos da vida. Nossas preces sinceras representam estímulos e energias renovadoras para aqueles que atravessaram a grande fronteira.

O Cristo constitui o maior símbolo dessa esperança. Sua trajetória começou na simplicidade, atravessou o sofrimento humano e culminou na mensagem do “túmulo vazio”, que se tornou a maior proclamação da imortalidade. A morte não é o fim, mas um novo despertar.

Diante dos que partiram, o Espiritismo convida à coragem interior: sofrer sem desesperar, amar sem possuir e recordar sem aprisionar. Os chamados mortos não desapareceram; apenas seguiram adiante. E, enquanto caminhamos na Terra, cabe-nos transformar a saudade em luz, até o reencontro prometido pela eternidade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Religião dos Espíritos. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Palavras de Vida Eterna. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2017.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

 

 

01 agosto 2026

Obsessão e a crise moral por trás das depressões e ansiedades humanas


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Vivemos a era dos avanços tecnológicos, da comunicação instantânea e da abundância de informações. Nunca a humanidade dispôs de tantos recursos materiais e, paradoxalmente, nunca se mostrou tão angustiada, melancólica e espiritualmente desorientada. Multiplicam-se os transtornos emocionais, a desesperança e o vazio existencial. A pergunta inevitável permanece: por que o homem moderno sofre tanto?

A resposta espírita é que não se encontra nas circunstâncias exteriores, mas na intimidade da criatura. O sofrimento humano não nasce apenas das limitações da existência física; frequentemente, resulta do distanciamento das leis morais que governam a vida. O homem busca a felicidade no poder, no consumo e no reconhecimento social, esquecendo-se de que a Terra é uma escola transitória destinada ao aperfeiçoamento do Espírito.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, François de Genève ensina que a encarnação constitui uma oportunidade de aprendizado e reparação. Cada criatura traz compromissos invisíveis, débitos morais e responsabilidades que ultrapassam os estreitos limites de uma única existência. Quando a revolta substitui a resignação ativa, quando o egoísmo sufoca a fraternidade e quando a vaidade ocupa o lugar da humildade, instala-se um terreno fértil para as perturbações espirituais.

É nesse contexto que surge a obsessão, fenômeno frequentemente banalizado ou reduzido a mera superstição. Allan Kardec definiu-a como a influência persistente exercida por Espíritos inferiores sobre o pensamento humano. Entretanto, a obsessão não representa uma invasão arbitrária do mundo espiritual sobre a vida terrestre. Antes de tudo, ela expressa uma sintonia moral. Ninguém se torna vítima de influências espirituais perturbadoras sem oferecer, consciente ou subconscientemente, pontos de afinidade.

O verdadeiro campo de batalha da obsessão encontra-se na consciência. Ressentimento, orgulho, inveja, ódio e indisciplina mental constituem portas abertas para a instalação de processos obsessivos. Em contrapartida, a oração, a vigilância e a renovação íntima funcionam como mecanismos de defesa espiritual.

André Luiz adverte que antigos desafetos frequentemente renascem no mesmo lar para reconstruir laços rompidos no passado. Contudo, incapazes de superar a antipatia e o orgulho, muitos transformam a convivência familiar em palco de disputas silenciosas, produzindo enfermidades emocionais e profundas perturbações psíquicas.

A sociedade contemporânea, dominada pela exaltação do individualismo e pela cultura da gratificação imediata, pouco estimula o esforço de autotransformação. Busca-se eliminar sintomas, mas raramente se investigam as causas morais profundas do sofrimento. O resultado é uma civilização tecnologicamente sofisticada, porém espiritualmente fragilizada.

No Livro dos Médiuns, Kardec é categórico ao afirmar que as imperfeições morais oferecem acesso aos obsessores e que o meio mais seguro de afastá-los consiste na prática sincera do bem. Não existem fórmulas mágicas, rituais exteriores ou soluções instantâneas para os conflitos da alma. A libertação espiritual exige disciplina interior, reforma moral e fidelidade aos ensinamentos do Evangelho.

A obsessão é impotente diante da consciência esclarecida e do coração renovado. Somente a vigilância permanente, a oração e o esforço cotidiano de aperfeiçoamento podem imunizar o Espírito contra as sombras que ele próprio alimenta. A advertência de Jesus permanece atual e inadiável: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação."

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nos domínios da mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Mateus 26:41; Marcos 14:38; Lucas 21:36; 1 Pedro 5:8.

 

30 julho 2026

O circo “mediúnico” e a sabotagem moral do silêncio federativo



Jorge Hessen

Brasília -DF


Há algo profundamente perturbador no cenário espírita brasileiro contemporâneo. A mediunidade, que Allan Kardec definiu como instrumento de esclarecimento e aperfeiçoamento moral, vem sendo gradativamente transformada em espetáculo, entretenimento digital e, em muitos casos, em simples mercadoria.

Em nome da audiência, do prestígio pessoal e da monetização das plataformas virtuais, multiplicam-se apresentações grotescas em podcasts e redes sociais, nas quais supostos médiuns afirmam transmitir mensagens de Espíritos veneráveis em performances que oscilam entre o teatro amador e o circo de quinta categoria.

Recentemente, uma dessas encenações alcançou níveis particularmente constrangedores: uma pretensa comunicação psicofônica atribuída a Chico Xavier, apresentada num ambiente mais próximo de um espetáculo de variedades do que de uma reunião mediúnica séria. O que se viu não foi recolhimento, elevação espiritual ou profundidade doutrinária, mas um show de gestos extravagantes e emocionalismo barato, incompatível com a sobriedade que sempre caracterizou a mediunidade responsável.

O problema, entretanto, não se limita ao folclore digital. Espalha-se pelo país uma indústria das falsas cartas consoladoras, alimentada pela facilidade de acesso a informações pessoais disponíveis na internet.

Redes sociais, fotografias, homenagens póstumas e dados familiares transformaram-se em matéria-prima para a fabricação de cartas (“consoladoras”) supostamente mediúnicas, muitas delas dirigidas a pais, mães e parentes devastados pela dor da perda. O luto converteu-se em filão dos charlatães e a saudade em oportunidade comercial, arrastando a fé para o lixo do consumo.

Mais grave ainda é a omissão das instituições federativas que deveriam exercer papel orientador. A ausência de notas doutrinárias contundentes, de campanhas educativas e de esclarecimentos públicos diante da proliferação desses abusos revela um silêncio institucional difícil de justificar. Enquanto a mistificação avança, muitos dirigentes parecem acomodados a uma posição de confortável neutralidade.

Não faltam seminários, feiras, congressos e lançamentos editoriais. Não faltam campanhas de divulgação nem sofisticadas estratégias industrial de marketing. Mas faltam coragem doutrinária e disposição para enfrentar o charlatanismo espiritual que corrói a credibilidade do Espiritismo brasileiro.

A impressão que se fortalece é a de que determinadas instituições abandonaram gradativamente sua missão pedagógica para assumir a lógica do mercado cultural. Transformaram-se em milionárias editoras, gestoras de marcas e promotoras de eventos, preocupadas com números, vendas e arrecadação, enquanto questões fundamentais para a preservação da seriedade doutrinária permanecem relegadas ao quinto plano.

Allan Kardec advertiu, em O Livro dos Médiuns, que a fascinação e a mistificação constituem alguns dos maiores perigos da prática mediúnica. Ensinou que toda manifestação espiritual deve ser submetida ao controle da razão e ao exame rigoroso dos fatos. O Espiritismo nunca autorizou a idolatria de médiuns nem a aceitação passiva de mensagens espetaculosas.

Quando instituições federativas se calam diante do abuso, da fraude e da exploração emocional, deixam de cumprir sua função histórica. A omissão, nesses casos, não é simples neutralidade: é abdicação de responsabilidade, ou seja, crime moral.

O movimento espírita brasileiro encontra-se diante de uma encruzilhada moral. Ou retornará aos fundamentos kardecianos — estudo, discernimento e austeridade — ou continuará assistindo, impotente, à transformação da mediunidade em mercadoria e da doutrina em espetáculo.

O silêncio dos que deveriam orientar talvez seja, hoje, um dos sintomas mais graves da crise espiritual que atravessa o movimento espírita brasileiro às avessas.

 

29 julho 2026

A justiça de Deus não se curva ao “igualitarismo ideológico” (comunismo)


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Poucas ideias exercem tanto deslumbramento sobre o pensamento contemporâneo quanto a promessa de uma igualdade absoluta entre os homens. Transformada em palavra de ordem por diversas correntes ideológicas, ela seduz pelo apelo emocional, mas fracassa diante da realidade e, sobretudo, diante das leis morais que regem a vida. A Doutrina Espírita não endossa esse igualitarismo. Ao contrário, ensina que a justiça divina opera segundo a equidade, jamais segundo um nivelamento artificial das criaturas.

Confundir igualdade com justiça é um erro filosófico de assombrosas dimensões. Deus não distribui destinos por sorteio, nem recompensa o mérito e a negligência com a mesma medida. A Providência Divina não ignora o esforço individual, tampouco transforma responsabilidade em privilégio. Sua justiça é perfeita justamente porque considera a história espiritual de cada ser, suas escolhas, seus valores e suas obras.

Jesus sintetizou esse princípio ao afirmar que o Filho do Homem "retribuirá a cada um segundo as suas obras" (Mateus 16:27). Não disse segundo seus discursos, suas reivindicações ou suas pretensões, mas segundo suas obras. O apóstolo Paulo reforça a mesma lei: "Tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (Gálatas 6:7). É a Lei de Causa e Efeito, fundamento da responsabilidade moral e incompatível com qualquer pretensão de igualar consequências para condutas desiguais.

Allan Kardec demonstra que Deus concede a todos os Espíritos as mesmas possibilidades de aperfeiçoamento, mas jamais os mesmos resultados. O progresso é conquista, não concessão. Ninguém recebe evolução por decreto, virtude por herança ou felicidade por privilégio. Cada Espírito constrói o próprio destino pelo uso que faz do livre-arbítrio. As diferenças de inteligência, de caráter, de provas e de oportunidades não exprimem favoritismo divino; refletem diferentes estágios da caminhada evolutiva.

É precisamente nesse ponto que o igualitarismo ideológico colide com a visão espírita da existência. Quando se pretende apagar todas as diferenças em nome de uma igualdade abstrata, corre-se o risco de ignorar a responsabilidade individual, desvalorizar o mérito e obscurecer a justiça moral. A Doutrina Espírita não ensina que todos são iguais em evolução; ensina que todos são iguais em dignidade, em origem espiritual e em destino final, mas cada qual responde pelas próprias escolhas e avança conforme o próprio esforço.

A Previdência Divina não administra um universo de privilégios nem de nivelamentos artificiais. Administra um universo de justiça. Cada Espírito recebe oportunidades compatíveis com suas necessidades educativas. Cada prova possui finalidade corretiva. Cada conquista representa fruto do trabalho perseverante. Não há favorecidos; há trabalhadores mais ou menos diligentes na construção de si mesmos.

Essa compreensão desmonta tanto a inveja social quanto o orgulho. Ninguém deve vangloriar-se pelas próprias conquistas, porque elas são resultado de longas experiências reencarnatórias. Tampouco alguém pode revoltar-se diante das dificuldades, porque elas constituem instrumentos de crescimento. A justiça divina não pune por capricho nem recompensa por favoritismo. Educa, corrige e promove.

O Espiritismo proclama uma verdade frequentemente esquecida por uma cultura que prefere direitos sem deveres e recompensas sem esforço: perante Deus, ninguém recebe menos do que merece, mas ninguém recebe mais do que conquistou. A lei que governa o Universo não é a da igualdade artificial proclamada pelos homens. É a da equidade perfeita, na qual cada consciência colhe, inexoravelmente, aquilo que semeou.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus. Mateus 16:27; Gálatas 6:7.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, especialmente questões 171, 258, 804 e 805.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, cap. V, "Bem-aventurados os aflitos", e cap. XVII, "Sede perfeitos".