05 novembro 2026

De “doutores”, o “céu” está vazio: a verdadeira autoridade mora na desafetação


Jorge Hessen

Brasília-DF

 

O respeito não se conquista por títulos honoríficos, mas pela dignidade moral, pelo conhecimento e pela maneira como tratamos o próximo.

Em 2012, publicamos um artigo sobre o uso indiscriminado do tratamento “doutor” no Brasil, particularmente entre médicos, advogados e algumas lideranças espíritas. Mais de uma década depois, uma reportagem recente da Globo, reproduzindo informações da BBC News Brasil, reacende oportunamente essa discussão. O que antes parecia uma provocação continua sendo uma questão cultural, social e, sobretudo, moral.

A reportagem apresenta profissionais que recusam o tratamento de doutor por entenderem que a palavra, quando utilizada para estabelecer superioridade, reproduz uma hierarquia incompatível com relações humanas verdadeiramente respeitosas. A médica Melania Amorim, que possui doutorado, afirma que o título deve permanecer circunscrito ao ambiente acadêmico. A promotora Maísa Oliveira e o defensor público Renan Reis também defendem relações profissionais sem reverências artificiais. São posicionamentos que merecem reflexão.

Historicamente, a palavra doutor procede do latim doctor, derivado de docere, ensinar. Designava aquele que possuía conhecimentos reconhecidos e estava habilitado a ensinar. Na contemporaneidade, entretanto, seu significado acadêmico passou a conviver com uma tradição brasileira que estendeu o tratamento a profissionais sem doutorado.

A reportagem esclarece um aspecto jurídico relevante: o conhecido decreto de Dom Pedro I, de 1827, frequentemente invocado por advogados para justificar o tratamento, não constitui prerrogativa atualmente exigível. Segundo o professor de Direito Otávio Luiz Rodrigues, da USP, embora não tenha ocorrido revogação expressa, legislações posteriores modificaram o reconhecimento dos títulos acadêmicos. Portanto, não existe obrigação legal de chamar médicos ou advogados de doutores. Trata-se, essencialmente, de uma tradição cultural.

Não pretendemos desrespeitar profissionais nem desconhecer a importância de suas formações acadêmicas. O problema está na transformação de um tratamento convencional em instrumento de distinção social. Quando alguém exige ser chamado de doutor para afirmar superioridade, o título deixa de representar conhecimento e passa a alimentar a vaidade.

Essa questão ganha contornos ainda mais delicados no movimento espírita. Causa-nos estranheza observar dirigentes, expositores e representantes institucionais que fazem questão de ostentar o prefixo “Dr.” em apresentações públicas, congressos e eventos doutrinários, como se a titulação acadêmica acrescentasse autoridade moral às suas palavras.

A Doutrina Espírita não reconhece privilégios espirituais decorrentes de diplomas, patrimônio, posição social ou prestígio institucional. Em O Livro dos Espíritos, questão 817 e seguintes, Kardec examina a igualdade natural entre os seres humanos. Na questão 886, Jesus é apresentado como referência da caridade, entendida como benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias e perdão das ofensas.

Que sentido tem, portanto, invocar o Evangelho enquanto cultivamos formalidades que alimentam distâncias entre criaturas humanas?

Recordemos que Chico Xavier, Yvonne Pereira, Léon Denis e tantos trabalhadores respeitáveis da divulgação espírita conquistaram reconhecimento pela dedicação, humildade e fidelidade aos princípios cristãos, não pela ostentação de títulos universitários. O próprio Jesus, sem credenciais acadêmicas ou honrarias terrenas, permanece como o maior referencial moral da humanidade.

Não se trata de combater a instrução, muito menos de desvalorizar o conhecimento científico. Ao contrário, devemos prestigiar os estudos e a qualificação intelectual. O que precisamos combater é a presunção de que o saber acadêmico confere superioridade humana.

A reportagem da Globo confirma que essa discussão ultrapassa o ambiente espírita e alcança instituições fundamentais da sociedade. Profissionais que preferem ser chamados pelo próprio nome demonstram que a autoridade pode conviver perfeitamente com a simplicidade e a cordialidade.

No Espiritismo, essa compreensão deveria ser ainda mais evidente. O verdadeiro trabalhador cristão não necessita de reverências, salamaleques ou distinções protocolares para demonstrar sua importância. Seu testemunho está na capacidade de servir, acolher e aprender, sem transformar a tarefa doutrinária em palco para vaidades pessoais.

Afinal, diante da imortalidade da alma e da grandeza da vida espiritual, que importância terão os títulos terrenos? O que verdadeiramente distinguirá cada criatura será o patrimônio moral conquistado ao longo da caminhada evolutiva.

Doutorado é titulação acadêmica; dignidade é conquista moral. E, no Evangelho, ninguém é maior porque exige ser chamado de doutor, mas porque aprende a servir sem precisar ser reverenciado.

 



 

04 novembro 2026

Espiritismo sem castas: a doutrina não pode ser privilégio de elites




 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O elitismo intelectual, o corporativismo e a ostentação acadêmica ameaçam a simplicidade e a universalidade da Terceira Revelação.

Quando contemplamos milhares de espíritas humildes, muitos deles desprovidos de formação acadêmica e recursos materiais, mas dotados de extraordinária dedicação ao Evangelho, reconhecemos os verdadeiros sustentáculos do Movimento Espírita. São trabalhadores anônimos que, longe dos holofotes, mantêm vivas as atividades de assistência, acolhimento, estudo e divulgação doutrinária. Por isso, causa-nos preocupação a crescente valorização de determinadas elites intelectuais em nossas instituições.

Chico Xavier já advertia, em 1977, sobre os riscos da elitização do Espiritismo. Defendia que a Doutrina deveria permanecer próxima do povo, especialmente dos companheiros social e intelectualmente mais humildes, evitando a formação de ambientes restritos a pessoas laureadas por títulos acadêmicos (ARANTES, 1979).

Passadas quase cinco décadas, sua advertência permanece atual. Não somos contrários à ciência, à pesquisa, à formação universitária ou à contribuição de profissionais qualificados. Pelo contrário, o conhecimento científico, quando exercido com humildade e compromisso ético, pode enriquecer significativamente a compreensão dos postulados espíritas. O problema começa quando a titulação se transforma em instrumento de distinção, autoridade ou superioridade dentro do movimento.

Preocupa-nos, nesse contexto, a multiplicação de associações espíritas organizadas por categorias profissionais — jornalistas, médicos, psicólogos, pedagogos, magistrados, escritores e outras. Embora a cooperação profissional possa produzir contribuições legítimas, não podemos ignorar o risco de corporativismo, fragmentação e formação de círculos de prestígio. Afinal, onde estão as associações espíritas de pedreiros, carpinteiros, lavadeiras, garis, serventes e trabalhadores anônimos que também sustentam nossas instituições?

Outro aspecto inquietante é a realização de congressos, seminários e simpósios que, não raro, apresentam custos elevados de inscrição, hospedagem e deslocamento. A programação doutrinária acaba, por vezes, subordinada à grandiosidade dos eventos, à notoriedade dos convidados e à exposição de seus currículos. Em tempos de redes sociais, essa tendência pode adquirir outra dimensão: a transformação do divulgador em personalidade pública, com a doutrina servindo de plataforma para a autopromoção.

Não se trata de condenar eventos especializados ou a participação de intelectuais, mas de questionar a exclusão indireta daqueles que não dispõem de recursos financeiros ou credenciais acadêmicas. O Espiritismo não pode se tornar um produto cultural destinado a consumidores privilegiados.

Kardec estabeleceu, em O Livro dos Espíritos, que a verdadeira superioridade moral não se confunde com a posição social ou a condição intelectual (KARDEC, 2013). A Doutrina propõe a transformação do ser humano, não a constituição de castas de intérpretes autorizados. O conhecimento, sem humildade e vivência moral, pode alimentar o orgulho em vez de promover o progresso espiritual.

Jesus, aliás, não escolheu seus discípulos entre as elites acadêmicas de sua época. Aproximou-se de pescadores, trabalhadores e pessoas socialmente marginalizadas, demonstrando que a grandeza espiritual não depende de títulos, fortuna ou prestígio.

Precisamos, portanto, recuperar a simplicidade doutrinária, sem confundi-la com superficialidade intelectual. Estudar profundamente é indispensável; transformar o conhecimento em instrumento de vaidade é lamentável. A autoridade moral não nasce de diplomas, cargos ou aplausos, mas da coerência entre o que ensinamos e o que vivenciamos.

A unificação espírita também exige vigilância contra o espírito de cúpula, os privilégios institucionais e a concentração de influência. Nenhuma organização deve se considerar proprietária da Doutrina ou detentora exclusiva de sua interpretação. A liberdade de consciência, o livre exame e a fraternidade precisam prevalecer sobre personalismos e disputas por protagonismo.

O Espiritismo é para todos: com os intelectuais, mas não exclusivamente para eles; com os humildes, mas sem confiná-los à condição de assistidos. É uma doutrina universal, destinada a promover a emancipação moral da humanidade.

Não podemos admitir um Espiritismo de primeira classe para os doutores e outro de segunda classe para os trabalhadores humildes. Jesus e Kardec não instituíram castas. A Terceira Revelação não necessita de celebridades, passarelas acadêmicas ou privilégios corporativos. Necessita de servidores comprometidos com a verdade, a humildade e o amor ao próximo.

 

Referências Bibliográficas:

ARANTES, Hércio Marcos Cintra (org.). Encontro no tempo: entrevistas com Chico Xavier. São Paulo: IDE, 1979. Entrevista concedida a Jarbas Leone Varanda, publicada originalmente em O Triângulo Espírita, em 20 mar. 1977.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

REVISTA O ESPÍRITA. Editorial. Ano 11, n. 57, jan./mar. 1990.

 

 

03 novembro 2026

O sentido da existência, entre a dor, o amor e a evolução




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Não estamos na Terra por mero acaso, tampouco submetidos a acontecimentos destituídos de significado espiritual. A vida representa uma grandiosa escola de aperfeiçoamento, na qual cada experiência, cada relacionamento e cada desafio oferecem oportunidades de aprendizado e crescimento da consciência.

A evolução é uma lei universal e inexorável. Todos os Espíritos, sem exceção, foram criados simples e ignorantes, destinados à perfeição relativa, mediante o desenvolvimento progressivo de suas potencialidades intelectuais e morais. Ninguém permanece eternamente aprisionado à ignorância, ao egoísmo ou à imperfeição.

Essa compreensão modifica profundamente nossa maneira de interpretar a existência. A vida não é um castigo divino, nem o sofrimento representa uma condenação imposta por um Deus vingativo.

A dor, nesse contexto, assume uma função educativa e corretiva. Quando o orgulho nos impede de reconhecer nossos equívocos, quando o egoísmo nos torna insensíveis às necessidades alheias e quando a vaidade nos faz acreditar que somos superiores aos demais, frequentemente precisamos enfrentar experiências capazes de abalar nossas ilusões.

Isso não significa glorificar o sofrimento, tampouco considerar que toda dor seja necessariamente uma expiação ou consequência de faltas anteriores. Existem sofrimentos relacionados às próprias condições biológicas, sociais e naturais da existência.

Todavia, existe uma diferença fundamental entre conhecer as verdades espirituais e incorporá-las à própria existência. Podemos estudar durante décadas os ensinamentos de Jesus, conhecer profundamente as obras de Allan Kardec, citar princípios elevados e discorrer com desenvoltura sobre a imortalidade da alma.

O conhecimento ilumina o entendimento, mas é o amor vivenciado que transforma a consciência.

Jesus não nos convidou simplesmente a conhecer o amor, mas a praticá-lo. A recomendação de amar o próximo como a nós mesmos não constitui uma abstração filosófica, mas uma diretriz de transformação moral.

O amor verdadeiro não é sentimentalismo, dependência afetiva ou submissão. É uma conquista da consciência que nos permite superar o egoísmo e reconhecer a dignidade espiritual do outro.

O perdão, nesse processo, representa uma das mais importantes expressões do amor. Perdoar não significa apagar a memória, justificar injustiças ou renunciar à responsabilidade. Significa retirar do ressentimento o poder de controlar nossa vida.

É nesse movimento de autoconhecimento, reforma íntima e vivência do amor que nos aproximamos do autoencontro. Descobrimos que a verdadeira plenitude não está na acumulação de bens, no reconhecimento público, na superioridade intelectual ou na satisfação irrestrita dos desejos pessoais. Está na harmonização progressiva entre aquilo que pensamos, sentimos e fazemos.

O autoencontro acontece quando deixamos de fugir de nós mesmos, reconhecemos nossas sombras sem desespero e assumimos a responsabilidade pela construção de nossa realidade interior. É quando a consciência deixa de procurar culpados para suas dificuldades e começa a identificar, em cada experiência, uma oportunidade de transformação.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões 115 e 132, apresenta fundamentos importantes para compreendermos a destinação evolutiva dos Espíritos e o sentido da existência corporal.

Portanto, a pedagogia divina nos ensina que ninguém está condenado à estagnação, que nenhuma imperfeição é definitiva e que nenhuma experiência precisa ser desperdiçada. A evolução é inevitável, mas a velocidade e a qualidade da nossa caminhada dependem do esforço consciente que fazemos.

A dor pode despertar-nos, o conhecimento pode orientar-nos, mas somente o amor efetivamente praticado é capaz de promover a libertação profunda da alma.

A grande finalidade da existência não é simplesmente acumular conhecimentos sobre a vida espiritual, mas transformar o conhecimento em sabedoria, a dor em aprendizado, o perdão em libertação e o amor em nossa maneira permanente de existir.

É assim que, gradualmente, rompemos os grilhões do passado, reencontramos nossa essência espiritual e caminhamos, sob a orientação das leis divinas, rumo à plenitude do ser.

 

Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira. Especialmente questões 115, 132, 621, 919 e 922.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira. Especialmente os capítulos V, XI e XII.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

EMMANUEL (Espírito). Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Pensamento e vida. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

 

Mediunidade, estudo e reforma moral: A visão Espírita do intercâmbio espiritual




Jorge Hessen

Brasília -DF


A mediunidade, à luz da Doutrina Espírita e, particularmente, dos ensinamentos de André Luiz, constitui uma sublime oportunidade educativa concedida ao Espírito em sua trajetória evolutiva.

Nas obras de André Luiz, especialmente Nos Domínios da Mediunidade, Missionários da Luz e Mecanismos da Mediunidade, encontramos importantes esclarecimentos sobre a complexidade dos fenômenos mediúnicos. O autor espiritual apresenta a mediunidade como uma atividade que envolve estruturas do organismo espiritual, recursos energéticos, mecanismos mentais e processos de sintonia entre encarnados e desencarnados.

O perispírito desempenha função essencial nessa dinâmica, atuando como elemento de ligação entre o Espírito e o corpo físico. A mente, por sua vez, exerce papel decisivo na qualidade do intercâmbio, uma vez que pensamentos, emoções e intenções estabelecem padrões de afinidade vibratória.

Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, especialmente ao abordar a influência moral do médium, demonstra que as disposições íntimas e as qualidades morais exercem influência relevante sobre a natureza das comunicações. Por isso, o desenvolvimento mediúnico deve caminhar paralelamente ao aperfeiçoamento moral.

A educação da mediunidade não se resume ao treinamento de faculdades psíquicas. Exige disciplina, estudo doutrinário, humildade e reforma moral. Sem esses recursos, o exercício mediúnico poderá favorecer a vaidade, o personalismo, a fascinação e a credulidade.

Outro aspecto fundamental é o conhecimento doutrinário. A boa vontade não substitui o estudo, assim como a fé não dispensa o discernimento. Kardec recomenda o exame criterioso das comunicações, considerando seu conteúdo moral, sua coerência e sua submissão ao crivo da razão.

A mediunidade responsável deve estar a serviço da caridade, jamais da exploração da vulnerabilidade humana. Não pode ser utilizada para estabelecer dependências psicológicas, impor orientações pessoais ou conferir autoridade incontestável a quem se apresenta como intermediário da espiritualidade.

Nas experiências relatadas por André Luiz, percebemos que o intercâmbio mediúnico envolve responsabilidades que ultrapassam o momento da reunião. O verdadeiro resultado da tarefa deve manifestar-se na existência cotidiana, na maneira de tratar as pessoas, na disposição para perdoar e na capacidade de enfrentar as próprias imperfeições.

Quando orientada pelo Evangelho, a mediunidade converte-se em instrumento de fraternidade, favorecendo a consolação dos aflitos, o esclarecimento dos desencarnados e a compreensão da imortalidade da alma.

Em última análise, a mediunidade constitui um valioso campo de autoconhecimento. Ao lidar com as influências espirituais, o médium é igualmente convidado a reconhecer suas fragilidades, identificar tendências inferiores e desenvolver virtudes ainda não consolidadas.

A maior realização de um médium não é demonstrar que consegue falar com os Espíritos, mas demonstrar, por sua conduta, que compreendeu a responsabilidade de viver os ensinamentos do Cristo.


Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Mecanismos da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB.

 

 

31 outubro 2026

Brasil: precisamos de líderes que unam, não de personalidades que dividam!




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz do Espiritismo, a proteção espiritual de uma nação deve inspirar o progresso coletivo, mas a construção da unidade nacional depende também da maturidade moral dos cidadãos e de lideranças comprometidas com o bem comum.

Nas últimas três décadas, o Brasil conheceu diferentes lideranças políticas, algumas carismáticas, outras controversas, mas frequentemente marcadas por uma característica preocupante: a incapacidade de unir os brasileiros em torno de um projeto nacional. Direita ou esquerda, os extremos têm alimentado antagonismos, ressentimentos e disputas que ultrapassam os espaços políticos e invadem famílias, instituições religiosas e antigas amizades.

É inquietante observar compatriotas que, embora compartilhem a mesma história, cultura e território, passaram a enxergar uns aos outros como adversários irreconciliáveis. A divergência democrática é legítima; a transformação do contraditório em hostilidade permanente, entretanto, representa um preocupante retrocesso civilizatório.

À luz do Espiritismo, essa realidade merece uma reflexão mais profunda. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, aborda expressamente a assistência espiritual às coletividades. Na questão 518, os Espíritos explicam que sociedades, cidades e povos recebem influências espirituais conforme as paixões e o caráter predominantes entre seus integrantes. Na questão 519, esclarecem que as nações possuem Espíritos protetores especiais, por constituírem individualidades coletivas que necessitam de direção superior.

Essa abordagem oferece uma perspectiva instigante: a trajetória espiritual de um povo não está dissociada de sua conduta moral. A questão 518 é particularmente elucidativa ao relacionar o aperfeiçoamento moral das coletividades à atração de influências espirituais mais elevadas.

Seria razoável, portanto, imaginar que a espiritualidade superior permaneça indiferente às dificuldades de uma nação com tantas possibilidades como o Brasil? Não temos como conhecer seus planejamentos, tampouco afirmar que determinado governante esteja sendo preparado no mundo espiritual. Entretanto, podemos admitir, dentro dos princípios doutrinários, que Espíritos comprometidos com o progresso das coletividades trabalhem pela inspiração de consciências e pelo amadurecimento dos povos.

Talvez estejamos precisando, mais do que nunca, de lideranças com outra estatura moral. Homens e mulheres capazes de compreender que governar não significa conquistar seguidores incondicionais, insuflar ressentimentos ou alimentar a idolatria da própria personalidade. Governar significa servir à sociedade, respeitar as instituições democráticas e trabalhar por todos, independentemente de classe social, origem, cor ou convicção ideológica.

Precisamos de estadistas, não de supostos salvadores da pátria; de conciliadores, não de incendiários políticos; de projetos nacionais, não de projetos pessoais ou de grupos. O verdadeiro patriotismo não consiste em hostilizar quem pensa diferente, mas em reconhecer que a diversidade de opiniões pode coexistir com o compromisso de construir uma nação melhor.

Não se trata de defender uma terceira via partidária, tampouco de alimentar expectativas messiânicas em torno de algum nome. Trata-se de aspirar a lideranças genuinamente democráticas, solidárias, equilibradas e comprometidas com a dignidade humana.

O Brasil, frequentemente associado à expressão Pátria do Evangelho, precisa demonstrar essa vocação também nas relações entre seus cidadãos. Não basta ostentar uma referência espiritual; é indispensável vivenciá-la na fraternidade, na justiça e no respeito recíproco.

Até quando permaneceremos reféns de uma polarização que enfraquece a convivência nacional? A mudança, certamente, não virá exclusivamente de um governante nem poderá ser transferida à espiritualidade como se os Espíritos superiores devessem resolver aquilo que compete aos encarnados.

A espiritualidade pode inspirar, mas cabe aos homens escolher. A transformação nacional começa pela transformação das consciências.

Tenho esperança de que surjam lideranças capazes de reunir os brasileiros em torno de objetivos superiores, sem radicalismos, sem personalismos e sem submissão ideológica. Que o futuro nos apresente homens e mulheres que compreendam a grandeza de servir ao Brasil.

Precisamos de uma liderança que desperte o sentimento de pertencimento nacional, e não de personalidades que transformem irmãos em inimigos. A união é possível. E o Brasil merece conquistá-la!

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013. Parte segunda, cap. IX, questões 518 a 520.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

30 outubro 2026

O futuro do Espiritismo na era da internet e da inteligência artificial




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre a expansão extraordinária do conhecimento e os riscos da desinformação, a Doutrina Espírita precisa avançar tecnologicamente sem perder sua identidade kardeciana.

Em 2009, quando a internet ainda consolidava sua presença na sociedade, escrevemos sobre seu potencial para transformar a divulgação espírita. Naquela ocasião, já percebíamos que a comunicação virtual permitiria aproximar instituições, integrar pesquisadores, compartilhar conhecimentos e levar a mensagem espírita a lugares onde ela ainda era praticamente desconhecida. Hoje, aquela perspectiva tornou-se realidade, mas estamos diante de uma transformação ainda mais profunda: a inteligência artificial (IA).

Allan Kardec, em Obras Póstumas, já reconhecia a importância da publicidade em larga escala para popularizar as ideias espíritas. A internet materializou essa possibilidade, enquanto as plataformas digitais, as transmissões audiovisuais e, agora, a IA ampliaram exponencialmente seu alcance. Segundo o IBGE (2026), 90,5% dos brasileiros com dez anos ou mais utilizaram a internet em 2025. Estamos, portanto, diante de um ambiente extraordinário para a difusão do conhecimento espírita.

A IA poderá auxiliar na tradução de obras, na organização de bibliotecas digitais, na comparação de textos, na pesquisa histórica, na elaboração de cursos interativos e na acessibilidade do conhecimento. Poderá aproximar estudiosos de diferentes países e facilitar o acesso à monumental obra de Kardec. Entretanto, precisamos compreender uma distinção fundamental: a tecnologia pode processar informações, mas não substitui a consciência, o discernimento moral nem a responsabilidade intelectual.

Surge, nesse cenário, um desafio preocupante. A mesma ferramenta capaz de facilitar estudos poderá produzir textos apócrifos, falsas comunicações mediúnicas, citações inexistentes, imagens manipuladas e mensagens atribuídas indevidamente a Espíritos ou personalidades respeitáveis. A fabricação artificial de conteúdos poderá alimentar o misticismo, a credulidade e o comércio da fé. A aparência de autenticidade não constitui prova de veracidade.

Por isso, o futuro do Espiritismo dependerá também da capacidade de seus adeptos de desenvolver o pensamento crítico. Não podemos confundir popularidade com autoridade doutrinária, quantidade de seguidores com conhecimento, nem respostas produzidas por algoritmos com verdades comprovadas. A recomendação da UNESCO (2021) sobre a ética da inteligência artificial adverte para a necessidade de transparência, responsabilidade e proteção contra distorções e desigualdades.

É indispensável, igualmente, que o movimento espírita não se transforme em refém dos algoritmos, das disputas ideológicas e da superficialidade das redes sociais. A divulgação não pode sacrificar o estudo sistemático, a pesquisa séria e a fidelidade aos princípios fundamentais da Codificação. Emmanuel, André Luiz e Chico Xavier, entre outros autores respeitáveis, permanecem fontes subsidiárias de estudo, sem substituir a referência doutrinária de Kardec.

Os centros espíritas precisam incorporar essas ferramentas à educação doutrinária, à formação de trabalhadores, às atividades assistenciais e ao intercâmbio internacional. A tecnologia deve aproximar pessoas, não substituir o acolhimento presencial, o abraço fraterno e a convivência solidária. A exclusão digital e as limitações de acesso também exigem atenção.

Não devemos temer o progresso tecnológico, mas tampouco idolatrá-lo. Kardec ensinou que o Espiritismo deve caminhar com o progresso, sem se afastar da razão e do exame criterioso dos fatos.

O futuro da Doutrina não será determinado pela velocidade dos computadores, pela sofisticação dos robôs ou pela inteligência artificial. Será determinado pela maturidade intelectual e moral dos espíritas que utilizarem esses recursos.

A internet pode levar o Espiritismo aos quatro cantos do planeta; a inteligência artificial pode ampliar seu acesso; mas somente o estudo, a razão, a ética e a vivência do Evangelho poderão preservar sua essência.

 

 

Referências Bibliográficas:

BIBLIOTECA NACIONAL DE ESTATÍSTICAS (IBGE). Proporção de usuários da internet no país ultrapassou 90% da população de 10 anos ou mais, em 2025. Rio de Janeiro: IBGE, 2026.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2004.

UNESCO. Recomendação sobre a ética da inteligência artificial. Paris: UNESCO, 2021.

 

29 outubro 2026

A revolução cultural e a soberania da irracionalidade




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando o controle das palavras substitui o debate de ideias, a liberdade começa a sucumbir no abismo da irracionalidade.

Há um fenômeno contemporâneo que merece nossa atenção: a transformação da linguagem em instrumento de controle social. Sob o pretexto de promover virtudes, determinadas correntes ideológicas procuram estabelecer não apenas o que devemos dizer, mas também o que podemos pensar, questionar ou contestar. Quando a discordância passa a ser tratada como delito moral, o debate racional cede espaço à intimidação.

A linguagem evolui naturalmente, e algumas mudanças vocabulares são legítimas e necessárias. O problema surge quando a atualização dos termos deixa de ser uma escolha fundamentada e se converte em imposição, acompanhada de constrangimento público, censura e tentativas de silenciar opiniões divergentes. Nesse ambiente, a argumentação perde espaço para a patrulha ideológica.

Antonio Gramsci desenvolveu o conceito de hegemonia para analisar como a direção cultural e intelectual contribui para a manutenção do poder. Sua reflexão permite compreender a importância das instituições, da educação e dos meios de comunicação na formação do consenso social (GRAMSCI, 2000). Isso não significa, porém, que toda mudança cultural obedeça a um plano centralizado. Significa que devemos examinar criticamente quem produz as narrativas dominantes, como elas se difundem e quais consequências acarretam.

O perigo está em substituir a investigação pela palavra de ordem, a lógica pela emoção manipulada e a liberdade de consciência pela submissão ao pensamento predominante. Quando o indivíduo teme expressar uma dúvida para não ser estigmatizado, instala-se uma forma de autocensura. A sociedade pode conservar suas instituições formais e, ainda assim, empobrecer intelectualmente, porque seus cidadãos passam a repetir fórmulas em vez de examinar argumentos.

É nesse contexto que podemos falar na soberania da irracionalidade: não como ausência absoluta de inteligência, mas como a prevalência da pressão coletiva sobre a reflexão independente. A palavra torna-se instrumento de enquadramento, e o medo da reprovação pública substitui a busca honesta da verdade.

A Doutrina Espírita oferece um contraponto vigoroso a essa tendência. Em O Livro dos Espíritos, questão 837, Allan Kardec adverte que constranger alguém a agir contra a própria consciência favorece a hipocrisia. Na questão 841, os Espíritos ensinam que a convicção deve ser alcançada pela brandura e pela persuasão, jamais pela força (KARDEC, 2013).

Isso não significa licença para ofender, discriminar ou desprezar o próximo. A liberdade de expressão exige responsabilidade, assim como a caridade exige respeito. Entretanto, respeitar pessoas não significa abdicar do direito de examinar criticamente suas ideias. A tolerância não pode ser monopólio de quem exige concordância.

O Espiritismo, por seu compromisso com a razão e o livre exame, não deve submeter-se a modismos, sejam de esquerda ou de direita. Sua fidelidade é à verdade examinada, à consciência responsável e à lei moral. Em A Gênese, Kardec (2013) reafirma o caráter progressivo da Doutrina, aberta à verdade demonstrada e à correção de eventuais equívocos.

Precisamos, portanto, recuperar a coragem de pensar, perguntar e discordar sem hostilidade, mas também sem submissão. Uma sociedade verdadeiramente livre não protege ideias contra o questionamento: protege o direito de questioná-las.

Quando o medo determina as palavras e a pressão coletiva substitui a razão, a liberdade já apodreceu. Defender o livre pensamento é resistir à soberania da irracionalidade.

Por isso, costumo inventar um neologismo entre risos com meus amigos, dizendo que, por vezes, coexisto com 'sub-irmãos'. É como examinar os degraus desiguais de uma fraternidade e tentar decifrar a intrincada árvore genealógica que nos une.

 

Referências Bibliográficas:

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 2: Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.

 

28 outubro 2026

A eleição já passou: e agora, onde fica o evangelho?




Jorge Hessen

Brasília -DF

Vamos refletir aqui sobre a intolerável militância política, a coerência moral e a  responsabilidade espírita.

A eleição já ocorreu. Acabou! Quem frequenta uma casa espírita para aprender com Jesus precisa examinar, com sinceridade, se sua militância política está em consonância com os princípios do Evangelho.

Há uma incoerência gritante que precisa ser enfrentada no movimento espírita: frequentar a instituição, discursar sobre o amor ao próximo e, ao atravessar a porta, transformar as redes sociais em trincheiras de agressividade, ataques pessoais, desqualificação de adversários e disputas ideológicas. Afinal, que Evangelho estamos efetivamente praticando? A doutrina que professamos deve orientar nossa conduta cotidiana ou será apenas um discurso conveniente, abandonado quando contraria nossas paixões?

A transformação moral não pode ficar restrita às paredes do centro espírita. O compromisso com o Cristo precisa repercutir em nossas relações familiares, profissionais e sociais, sobretudo quando divergimos de quem pensa diferente. Em O Livro dos Espíritos, na questão 886, Allan Kardec registra a definição de caridade ensinada por Jesus: benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Não há ressalva partidária nessa orientação. Não podemos ser indulgentes com os correligionários e implacáveis com os adversários, como se a virtude dependesse da legenda que alguém defende.

A cidadania é legítima e constitui direito fundamental assegurado pela Constituição Federal (BRASIL, 1988, art. 5º). O Espiritismo não exige alienação política, tampouco proíbe a participação consciente na vida pública. A questão central é outra: quando a convicção se converte em fanatismo, a crítica degenera em hostilidade e o adversário político passa a ser tratado como inimigo moral, algo essencial e moralmente se perdeu. A defesa de ideias não nos autoriza a ferir consciências, alimentar rancores ou disseminar desprezo.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente nos capítulos XI e XVII, Kardec examina o mandamento do amor ao próximo e a necessidade de reconhecer o verdadeiro cristão por suas obras. Isso exige coerência entre aquilo que proclamamos e aquilo que fazemos. Não podemos servir a Jesus no discurso e ao ódio na prática. O Mestre nos ensinou a amar uns aos outros, não a nos armarmos contra aqueles que divergem de nossas escolhas.

A casa espírita, por sua vez, deve preservar sua finalidade educativa, fraterna e doutrinária, sem se transformar em extensão de palanque eleitoral. Se um ambiente religioso se torna palco de hostilidades ideológicas, cabe buscar o diálogo e a pacificação; se isso se mostrar impossível, é legítimo procurar outra instituição, sem converter a divergência em perseguição ou ressentimento.

Não fomos chamados a vencer adversários políticos, mas a vencer, dentro de nós, o egoísmo, o orgulho e a intolerância que ainda nos distanciam do amor ao próximo. A eleição terminou; a tarefa de renovação moral, não. O voto expressa uma escolha cívica, mas não constitui certificado de superioridade ética nem dispensa ninguém do dever de respeitar o semelhante.

Ou aprendemos a conviver fraternalmente com as diferenças, ou continuaremos repetindo as lições que nos recusamos a assimilar.

Pensemos nisso!


Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000.

 

27 outubro 2026

Fidelidade a Kardec ou submissão ao misticismo inútil?




Jorge Hessen

Brasília -DF

A instituição espírita não pode ser refém de personalismos, modismos terapêuticos e revelações sem controle racional. Sua missão exige estudo, discernimento e responsabilidade moral.

A Casa Espírita deve ser um celeiro de esperanças na tumultuada noite das angústias humanas. Sua finalidade, porém, não se resume ao acolhimento fraterno ou à assistência material. Deve promover o conhecimento espírita, o amadurecimento da consciência e a transformação moral, sem os quais a caridade corre o risco de degenerar em assistencialismo desprovido de educação espiritual.

Como célula fundamental do Movimento Espírita, o Centro deve preservar a identidade da Doutrina codificada por Allan Kardec. Entretanto, a expansão do Espiritismo nem sempre tem sido acompanhada pelo estudo metódico de suas obras fundamentais. O resultado é preocupante: princípios doutrinários são confundidos com opiniões particulares, manifestações mediúnicas são aceitas sem exame e práticas estranhas à Codificação recebem indevidamente o rótulo de espíritas.

Em O Livro dos Espíritos, questão 625, Kardec identifica Jesus como modelo e guia da humanidade. Na questão 886, esclarece o sentido da caridade segundo o Cristo. Já O Evangelho segundo o Espiritismo, na introdução, seção II, estabelece o controle universal do ensino dos Espíritos como critério de autoridade doutrinária. A concordância das comunicações, aliada ao exame da razão, impede que revelações isoladas sejam elevadas precipitadamente à condição de verdades incontestáveis.

Em O Livro dos Médiuns, Kardec examina as mistificações, as contradições e a necessidade de discernimento diante das comunicações espirituais. Portanto, nome respeitável, linguagem eloquente ou suposta identidade espiritual não constituem garantias de autenticidade. A credulidade não é virtude espírita; é vulnerabilidade que exige esclarecimento.

Por essa razão, sacramentos, batismos, crismas, dízimos e cerimônias religiosas não devem ser instituídos como exigências da Doutrina Espírita. Tampouco se justifica converter a Casa Espírita em palco de jogos de azar, desfiles, festivais espetaculares de arrecadação ou disputas partidárias. A independência de consciência e o respeito à pluralidade política devem prevalecer sobre os caprichos de dirigentes.

Merecem igual cautela as práticas denominadas apometria, piramideterapia, cristaloterapia, cromoterapia e choques anímicos por corrente magnética quando apresentadas como tratamentos espíritas ou dotadas de eficácia terapêutica sem comprovação científica. Não basta invocar a espiritualidade para legitimar procedimentos. Problemas de saúde exigem assistência profissional adequada; o acolhimento espiritual não substitui tratamentos médicos ou psicológicos.

É preciso, contudo, distinguir o que a Codificação não prescreve daquilo que ela efetivamente contradiz. Nem toda iniciativa extrínseca à obra de Kardec é automaticamente condenável; o equívoco está em atribuir-lhe autoridade doutrinária sem fundamentação, em substituir o estudo por novidades ou em alimentar promessas infundadas.

A Casa Espírita não pertence a dirigentes, médiuns ou grupos particulares. É um espaço de estudo, fraternidade e serviço, comprometido com a razão e a ética cristã. Sua administração requer preparo doutrinário, transparência e disposição para corrigir erros.

Fraternidade não significa conivência. Defender a identidade kardeciana não é intolerância: é responsabilidade perante uma Doutrina que não admite fé cega, mas convida ao livre exame, ao conhecimento e à reforma moral.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Introdução, seção II; cap. XV e XVII. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Questões 625 e 886. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Caps. XXIV e XXVII. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Abril de 1864: autoridade da Doutrina Espírita — controle universal do ensino dos Espíritos. Disponível em: https://kardecpedia.com/. Acesso em: 27 out. 2026.