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  • 12.3.26

    “Cartas consoladoras” que formatam os Chico’s e Chica’s Xavier’es “paraguaios” no Brasil

     


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    Serei incansável e persistirei no tema que para mim é extremamente grave sobre as assombradoras falsas cartas consoladoras.  Relembro que, atualmente, a ampla exposição de dados pessoais nas redes sociais e nos bancos de dados virtuais criou um ambiente propício a novas formas de mistificação, mormente no movimento espírita brasileiro. Informações como nomes, fotografias, preferências, vínculos familiares e registros públicos são divulgadas com facilidade na internet e estão sendo utilizadas de maneira vil por pessoas mal-intencionadas que se apresentam como “médiuns” (padrão Chico(a) Xavier  da Disneylândia).

    Tais recursos virtuais têm favorecido a atuação de farsantes da sagrada mediunidade  que produzem comunicações (recados) artificiais, elaboradas a partir de dados previamente obtidos nas redes sociais, simulando mensagens de parentes desencarnados. O problema é gravíssimo, porquanto as supostas “psicografias” são dirigidas a pessoas enlutadas, explorando de forma desumana a fragilidade emocional em nome de um falso consolo ou de um estelionato do luto.

    Segundo Allan Kardec, a primeira garantia contra o erro nas comunicações espirituais é o uso da razão e do exame rigoroso. Em O Livro dos Médiuns, o Codificador adverte que a mediunidade está sujeita à mistificação e que nem todos os que se dizem médiuns o são de fato, recomendando prudência, controle e verificação constante das mensagens. Kardec afirma que a credulidade irrefletida abre caminho para abusos e compromete a seriedade da Doutrina Espírita. (1)

    Também Léon Denis ensina que a mediunidade é faculdade respeitável, mas pode ser desvirtuada quando associada à vaidade ou ao interesse material. Em suas obras, Denis alerta que o verdadeiro médium deve agir com humildade, desinteresse e responsabilidade moral, pois a exploração do fenômeno mediúnico conduz ao descrédito da causa espírita.(2)

    No mesmo sentido, Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, recorda que a mediunidade é tarefa de serviço e renúncia, jamais instrumento de promoção pessoal. O mentor espiritual ressalta que o trabalhador sincero não transforma a faculdade mediúnica em meio de lucro, nem busca notoriedade, mantendo disciplina moral e fidelidade aos princípios do Evangelho. (3)

    Diante disso, é dever dos líderes do movimento espírita manter vigilância permanente. A facilidade tecnológica não pode substituir o critério doutrinário. Mensagens mediúnicas devem ser analisadas com serenidade, confrontadas com os princípios da Codificação e observadas à luz da lógica e da moral espírita.

    É necessário separar o joio do trigo, reconhecendo que existem médiuns sérios e dedicados, mas também indivíduos que utilizam a aparência de mediunidade para obter vantagens materiais ou prestígio pessoal nas redes sociais. A advertência de Kardec permanece atual: sem exame, sem controle e sem bom-senso, a mediunidade pode transformar-se em instrumento de engano.

    Assim, devemos denunciar as fraudes, esclarecer os confrades e exigir fidelidade às obras básicas e isso não constitui atitude de intolerância, mas sim dever de consciência para com a Doutrina Espírita e para com todos aqueles que buscam nela consolo e verdade.

     


    Referências Bibliográficas:

     

    1     KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB.

    2     DENIS, Léon. No Invisível. Rio de Janeiro: FEB.

    3     XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

     

    11.3.26

    Patocracia quando psicopatas chegam ao poder numa reflexão espírita


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

    A história humana registra inúmeros momentos em que sociedades inteiras foram conduzidas por líderes moralmente deformados. Guerras devastadoras, perseguições ideológicas, manipulação coletiva e corrupção sistêmica raramente surgem por acaso. Nos últimos anos, uma área de estudo chamada ponerologia tem procurado compreender esse fenômeno de forma científica.

    O principal sistematizador desse campo foi o psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski, que analisou como indivíduos com graves distúrbios de personalidade — especialmente psicopatas — conseguem infiltrar-se em estruturas políticas, administrativas e institucionais. Quando tais personalidades passam a dominar posições estratégicas, surge aquilo que ele denominou patocracia: um regime no qual pessoas moralmente patológicas governam e moldam a sociedade segundo sua própria psicologia.

    Nesse ambiente, valores como empatia, verdade e responsabilidade tornam-se obstáculos. A mentira transforma-se em método político. A manipulação psicológica torna-se estratégia de poder. Pessoas equilibradas passam a ser afastadas ou desmoralizadas, enquanto indivíduos com perfil manipulador e frio ascendem rapidamente na hierarquia.

    Quando observamos muitas crises políticas contemporâneas — marcadas por corrupção estrutural, polarização artificial, propaganda ideológica e desprezo pela dignidade humana — a análise ponerológica torna-se inquietantemente atual. Não se trata apenas de divergências políticas, mas de uma possível deterioração moral das elites dirigentes.

    Curiosamente, muito antes de existir a ponerologia, a Doutrina Espírita já advertia sobre os efeitos sociais da inferioridade moral dos indivíduos que ocupam posições de poder.

    Allan Kardec explicou em O Livro dos Espíritos que a humanidade terrestre ainda se encontra em estágio moral imperfeito, dominado por paixões como orgulho, egoísmo e ambição. Kardec chega a afirmar que o egoísmo constitui a “chaga da humanidade”, responsável por grande parte das desordens sociais.

    Essa observação dialoga diretamente com o fenômeno descrito pela ponerologia: quando o egoísmo e a ausência de empatia dominam indivíduos em posições de comando, as instituições passam a refletir essas mesmas deformações morais.

    Léon Denis também advertiu que as civilizações entram em crise quando o poder se afasta da consciência moral. Em sua análise, sociedades decaem não apenas por fatores econômicos ou militares, mas principalmente pela corrupção ética das elites dirigentes.

    Já o espírito Emmanuel, nas obras psicografadas por Chico Xavier, ressalta que posições de autoridade representam provas espirituais severas. Quando espíritos ainda dominados pela vaidade e pela ambição alcançam o poder, transformam a autoridade em instrumento de dominação e prestígio pessoal.

    Sob essa perspectiva, o conceito moderno de patocracia encontra uma explicação mais profunda. Não se trata apenas de uma patologia psicológica individual, mas também de um problema moral e espiritual coletivo.

    Sociedades que ainda cultivam o egoísmo, o culto ao poder e a indiferença moral acabam criando o ambiente propício para a ascensão de líderes patológicos. Em outras palavras, a patocracia não nasce apenas no topo do poder — ela se alimenta das fragilidades morais da própria sociedade.

    Entretanto, a visão espírita acrescenta um elemento de esperança que muitas análises políticas ignoram: a lei do progresso. Segundo Kardec, a humanidade evolui gradualmente, e regimes baseados na mentira, na violência e na manipulação são inevitavelmente transitórios.

    Por isso, o verdadeiro antídoto contra a patocracia não reside apenas em reformas institucionais ou disputas partidárias. A solução profunda encontra-se na educação moral das consciências. Quanto mais indivíduos desenvolvem responsabilidade ética, empatia e senso espiritual da vida, menos espaço haverá para a ascensão de líderes dominados pela frieza moral.

    A história mostra que a patocracia pode dominar por algum tempo. Mas também demonstra que nenhuma estrutura fundada na perversão moral permanece indefinidamente diante do avanço da consciência humana.

    No fundo, a crise política é também uma crise espiritual da humanidade. E somente a renovação moral poderá transformá-la.

     

    ​ “Cartas consoladoras” fajutas, astúcias e assédio judicial no País da fantasia mediúnica


     

     

    Estamos convivendo e sobrevivendo com dois fenômenos opostos: de um lado, a busca sincera pela vivência do Evangelho; de outro, episódios lamentáveis de mistificação mediúnica com “cartas consoladoras” fabricadas com dados da internet . O que causa espanto, porém, é quando a fraude não se limita ao campo moral e passa a adotar estratégias de intimidação judicial contra quem ousa questioná-la.

    Tragicamente há indivíduos que se apresentam como “médiuns”, conquistam popularidade, mobilizam seguidores fanáticos e arrecadam recursos sob o argumento de manter “obras assistenciais”.

    Quando jornalistas espíritas, pesquisadores, estudiosos ou espíritas sérios , honrados e  estudiosos levantam dúvidas legítimas sobre a autenticidade das maracutaias das cartas consoladoras chinfrim, um nefasto estelionato do luto , a resposta não vem em forma de esclarecimento, transparência ou investigação séria. Surge, em vez disso, a tentativa de amordaçar o debate por meio de ameaças judiciais.

    Tal postura é profundamente contrária ao espírito da doutrina codificada por Allan Kardec. O Espiritismo nasceu justamente da investigação, do questionamento e do exame rigoroso dos fatos. Kardec jamais incentivou a aceitação cega de supostos fenômenos mediúnicos. Pelo contrário: no Livro dos Médiuns, ele adverte repetidamente que a mediunidade é terreno fértil tanto para manifestações legítimas quanto para mistificações e fraudes.

    A história demonstra que muitas vezes a mediunidade se associa à vaidade, ao personalismo ou à busca de projeção pública; em face disso, o risco de desvio moral cresce consideravelmente. A mediunidade, segundo, deve ser exercida com simplicidade, desinteresse material e profundo senso moral. Quando ela se transforma em instrumento de celebridade espiritual ou mecanismo de captação de recursos, já estamos diante de um sinal de alerta.

    Repito que o mais grave é quando se tenta transformar o debate doutrinário em caso de polícia ou tribunal. O recurso sistemático ao assédio judicial contra críticos e pesquisadores representa uma forma de intimidação incompatível com a própria natureza do Espiritismo.

    A verdade, quando autêntica, não teme investigação. Fenômenos genuínos resistem ao exame; fraudes, ao contrário, precisam do silêncio imposto pelo medo.

    Além disso, a própria ordem jurídica brasileira, fundada na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, garante simultaneamente a liberdade religiosa, a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão.

    Questionar práticas suspeitas ou denunciar possíveis abusos não constitui crime; ao contrário, pode representar um dever moral quando há risco de exploração da boa-fé das pessoas.

    O Espiritismo não é uma doutrina de credulidade passiva. Ele nasceu sob o signo da razão, da crítica e da responsabilidade moral. Defender esses princípios é preservar a própria integridade do movimento espírita.

    Quando a mediunidade se transforma em espetáculo, quando a fé se converte em instrumento de poder e quando a crítica é combatida com assédio judicial, algo está profundamente errado. Nesse momento, mais do que nunca, torna-se necessário recordar o princípio kardeciano fundamental: é preferível rejeitar dez verdades a aceitar uma única mentira.

    Pensemos nisso!

    ​O dogmatismo kardequiano sob o despotismo dos PhDs da “lógica”


     



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Temos observado em certas “lideranças” do movimento espírita brasileiro, mormente os “doutores em lógica”, a afirmação esdrúxula  de que “tudo o que não está nas obras da Codificação não é Espiritismo.” Essa frase soa, à primeira vista, como defesa da “pureza” doutrinária. Contudo, analisada com mais cuidado, revela algo inquietante: uma forma coercitiva de dogmatismo incompatível com o próprio método espírita.

    É evidente que as obras fundamentais de Allan Kardec constituem a base filosófica e metodológica do Espiritismo. Nelas encontramos os princípios estruturais da doutrina e negar essa centralidade seria ignorar a própria identidade do Espiritismo.

    O problema surge quando essa base é transformada em fronteira absoluta, como se o conhecimento espírita tivesse morrido e sido definitivamente encerrado em 1869, com a partida do Codificador para o além..

    Essa postura contradiz diretamente o pensamento do Mestre de Lyon. Em A Gênese, o codificador afirma que o Espiritismo “marchando com o progresso, jamais será ultrapassado”, pois, se novas descobertas demonstrarem erro em algum ponto, ele se modificará nesse ponto. Essa afirmação expressa a própria natureza progressiva da doutrina.

    Além disso, grande parte das reflexões kardecianas não se limita aos chamados cinco livros da Codificação, mas também se encontra na Revista Espírita, publicada mensalmente entre 1858 e 1869. Ali Kardec analisou fenômenos, apresentou comunicações espirituais, discutiu hipóteses e examinou questões filosóficas que ampliam significativamente a compreensão do pensamento espírita.

    Se adotássemos o critério de que apenas a Codificação define o Espiritismo, teríamos de ignorar boa parte do material estudado e debatido pelo próprio Kardec — o que seria, no mínimo, paradoxal.

    O Espiritismo nasceu como doutrina de investigação, baseada na observação dos fatos, no exame racional e no princípio da universalidade do ensino dos Espíritos. Transformá-lo em um sistema ortodoxo fechado entre os “deuses da lógica” equivale a negar o método que lhe deu origem.

    O resultado desse “kardequilogismo dogmático” é peculiar: em nome da fidelidade a Kardec, acaba-se abandonando justamente o que havia de mais essencial em sua obra — o espírito crítico, o método comparativo e a abertura ao progresso do conhecimento.

    Respeitar a Codificação não significa aprisionar o Espiritismo no século XIX. Significa compreender seus fundamentos e, a partir deles, continuar investigando, refletindo e dialogando com o progresso intelectual e espiritual da humanidade.

    Em outras palavras, ser fiel a Kardec não é ecoar Kardec de forma robotizada. É ajuizar e refletir com Kardec.

    9.3.26

    ​Viajar demais pode ser fuga da alma. Para onde ir?

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    Sob o ponto de vista psicológico, certos comportamentos repetitivos de viagens constantes podem, em muitos casos, funcionar como mecanismos de fuga emocional. Nesses contextos, o movimento contínuo não decorre apenas de interesse cultural ou lazer, mas pode representar uma tentativa subconsciente de evitar conflitos internos, frustrações afetivas, tensões familiares ou insatisfações existenciais.

    Quando alguém sente necessidade permanente de “estar viajando para outro lugar”, pode ocorrer um processo de deslocamento simbólico: muda-se o cenário externo sem que os problemas internos sejam efetivamente enfrentados. Assim, a viagem deixa de ser uma escolha livre e passa a assumir a função psicológica de anestesiar angústias ou adiar enfrentamentos das experiências desafiadoras.

    Esse fenômeno é relativamente conhecido nas diversas abordagens da psicologia contemporânea. Em algumas circunstâncias, as viagens constantes funcionam como estratégia de regulação emocional: a pessoa busca novidade, estímulos e sensações de liberdade para compensar estados internos de vazio, ansiedade ou insatisfação. Não significa necessariamente um “transtorno” psíquico, mas pode indicar inseguranças de lidar com aspectos da própria vida.

    Viajar é, sem dúvida, uma experiência atraente. Conhecer novos lugares, culturas e paisagens pode ampliar horizontes e favorecer o autoconhecimento. Entretanto, quando as viagens constantes se transformam em “necessidade” quase compulsiva, convém refletir se estaríamos diante de um simples gosto por viagens ou de uma tentativa inconsciente de fugir de nós mesmos?

    A Doutrina Espírita convida o ser humano a analisar sempre as motivações íntimas de seus atos. No Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, na questão 922, os Espíritos ensinam que a felicidade possível na Terra não depende da multiplicação de prazeres ou distrações, mas da posse do necessário e, sobretudo, de algo mais profundo: a consciência tranquila e a fé no futuro. Isso significa que nenhuma soma de experiências exteriores consegue preencher o vazio de um coração inquieto.

    A sociedade contemporânea estimula a ideia de viagens permanentes: viajar sempre, mudar sempre, experimentar sempre. Porém, essa agitação constante pode esconder um problema espiritual antigo: a dificuldade de permanecer consigo mesmo. Quando o indivíduo sente necessidade contínua de viajar e deslocar-se para outras regiões, pode estar tentando silenciar uma inquietação interior que não deseja enfrentar em sua própria consciência..

    Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, observa que o ser humano frequentemente procura no exterior aquilo que apenas o mundo interior pode oferecer. Para ele, muitas distrações da vida moderna funcionam como uma espécie de anestesia da consciência. O homem se cerca de estímulos, ruídos e novidades para evitar o encontro com suas próprias questões morais.

    O espírito Emmanuel ensina, em páginas de Fonte Viva, que o coração vazio de valores espirituais procura compensações incessantes nas coisas do mundo. Assim, multiplicam-se distrações, atividades e viagens, mas o sentimento de vazio permanece, pois sua causa é interior.

    Nossas reflexões não significam condenar as viagens. Viajar pode ser saudável, educativo e espiritualmente atraente. O problema surge quando as viagens deixam de ser escolha consciente e passam a ser patológicas por necessidade psicológica de fuga de si mesmas.

    Em termos espirituais, a verdadeira viagem não é geográfica, mas sim para dentro de si mesmo. Podemos atravessar continentes e ainda assim permanecer distantes de nós mesmos. Por outro lado, aquele que cultiva serenidade interior pode viver em qualquer lugar e, ainda assim, sentir-se em paz.

    A Doutrina Espírita recorda que o progresso real do Espírito não depende da quantidade de lugares visitados, mas da transformação íntima realizada ao longo da existência. Afinal, por mais que o homem se desloque pelo mundo, haverá sempre um lugar do qual ele jamais conseguirá escapar: a própria consciência.

    Obviamente a questão não está nas viagens em si, mas na função psicológica que elas assumem. Quando realizadas de forma moderada, consciente e equilibrada, as viagens podem ser fontes de crescimento humano. Contudo, quando se transformam em necessidade compulsiva de fuga, tornam-se gatilhos para tentativa de fuga dos conflitos de si mesmos.