Jorge Hessen
Brasília -DF
Havia, numa cidade, uma “criatura”que dizia possuir um dom extraordinário: afirmava conversar com os mortos.
Não dizia simplesmente receber impressões vagas. Suas mensagens eram minuciosas. Citava nomes, apelidos, acontecimentos familiares, lugares, datas, hábitos e episódios aparentemente conhecidos apenas pelos parentes mais próximos.
As cartas emocionavam.
Mães choravam. Filhos se abraçavam. Viúvas diziam reconhecer expressões que seus companheiros costumavam utilizar. Famílias inteiras passaram a acreditar que, por intermédio daquela pessoa, seus mortos queridos finalmente haviam encontrado uma porta de retorno.
E a fama cresceu.
Primeiro vieram centenas de seguidores. Depois, milhares. As redes sociais fizeram o restante. Cada carta publicada produzia novas histórias, novos testemunhos e novas lágrimas. A multidão passou a repetir a mesma frase:
— Só pode ser verdade. Como a“criatura” poderia saber disso?
Pouquíssimos fizeram a pergunta seguinte:
— Como poderia a “criatura” ter obtido essas informações?
Era justamente aí que estava o detalhe que ninguém queria examinar.
Naquela época, a vida das pessoas já não permanecia inteiramente escondida. Fotografias, obituários, redes sociais, comentários, homenagens, páginas familiares, notícias antigas, vídeos, entrevistas, registros públicos e incontáveis fragmentos de memória haviam transformado a internet numa gigantesca biblioteca de informações pessoais.
Bastava procurar.
E, quando a busca manual não era suficiente, havia ferramentas tecnológicas capazes de reunir, organizar e cruzar informações em poucos minutos.
Assim, aquilo que parecia impossível poderia, em determinadas circunstâncias, ser apenas uma sofisticada operação de coleta de dados.
Mas a multidão não queria ouvir falar disso.
A multidão queria acreditar.
A “criatura”, então, tornou-se celebridade.
Vieram convites, entrevistas, homenagens e grandes plateias. Pessoas passaram a defendê-la com uma devoção que ultrapassava qualquer prudência. Seus admiradores não apenas acreditavam nela: passaram a atacar quem ousasse fazer perguntas.
E foi nesse momento que surgiu uma segunda história.
A “criatura” começou a organizar uma grande obra assistencialista. Distribuía alimentos, roupas, medicamentos e outros recursos aos necessitados. Criou projetos sociais, reuniu voluntários e conquistou ainda mais prestígio.
E aconteceu algo curioso.
Quando alguém levantava dúvidas sobre suas cartas, imediatamente aparecia uma resposta:
— Mas olhe tudo o que ela faz pelos pobres!
A pergunta sobre a autenticidade da mediunidade era substituída pela fotografia da cesta básica.
A investigação sobre as cartas era respondida com imagens de crianças recebendo alimentos.
A dúvida sobre o fenômeno espiritual era sufocada por vídeos de campanhas beneficentes.
Sem perceber, muitos haviam criado uma perigosa confusão:
Obra assistencial e autenticidade mediúnica passaram a ser consideradas a mesma coisa.
Não são.
Uma pessoa pode praticar excelente caridade material e, simultaneamente, equivocar-se em suas convicções.
Pode fazer o bem e interpretar mal um fenômeno.
Pode ser generosa e estar enganada.
E, infelizmente, também pode utilizar uma obra benemérita como escudo para impedir questionamentos sobre outra atividade.
A caridade não transforma uma alegação em prova.
Um homem que distribui mil cestas básicas não se torna, por isso, um médium autêntico.
Uma “criatura”que ampara centenas de necessitados não adquire, por esse motivo, certificado de comunicação com os mortos.
O bem realizado deve ser reconhecido como bem. A alegação mediúnica deve ser examinada como alegação mediúnica.
Foi então que jornalistas de uma importante emissora de televisão souberam da história.
Não pretendiam humilhar ninguém. Queriam investigar.
Fizeram perguntas.
Solicitaram entrevistas.
Propuseram procedimentos.
Queriam saber como aquelas mensagens eram produzidas, quais eram os critérios utilizados, de que maneira se preservava a privacidade das famílias e se seria possível realizar testes nos quais a “criatura” não tivesse acesso prévio às informações.
A oportunidade estava colocada.
Era a hora de demonstrar.
Mas a “criatura” recusou.
Mais do que recusar, passou a condenar os jornalistas.
Os repórteres eram apresentados como inimigos.
Os investigadores, como perseguidores.
A emissora, como instrumento de ataque.
Os questionamentos, como manifestações de intolerância.
E seus seguidores, inflamados pela devoção, repetiam a narrativa.
Foi quando um velho estudioso do Espiritismo, observando aquela movimentação, fez uma pergunta simples:
— Se o fenômeno é verdadeiro, por que a investigação é tão perigosa?
Ninguém respondeu.
Ele insistiu:
— Se a mensagem vem realmente de um Espírito desencarnado, uma investigação honesta deveria destruí-la ou confirmá-la?
Silêncio.
— Se é verdadeira, a verdade continuará sendo verdadeira depois da investigação. Se é falsa, não seria melhor descobrir antes que milhares de pessoas entregassem sua confiança, seu patrimônio e suas emoções a uma ilusão?
Mais silêncio.
O velho então abriu um exemplar de O Livro dos Médiuns.
Lembrou que Allan Kardec jamais recomendou a credulidade cega. Ao contrário: a Doutrina Espírita nasceu submetendo os fenômenos à observação, à comparação, ao raciocínio e ao discernimento.
Para Kardec, não bastava alguém declarar-se médium.
Era necessário examinar.
Não bastava uma mensagem emocionar.
Era necessário verificar.
Não bastava uma multidão acreditar.
Era necessário discernir.
A emoção não é método científico.
A popularidade não é evidência.
A quantidade de seguidores não constitui prova de mediunidade.
E uma lágrima sincera diante de uma carta não demonstra a identidade de quem supostamente a escreveu.
O velho estudioso fechou o livro e disse:
— Há algo ainda mais perigoso nesta história.
Todos olharam para ele.
— A fraude mediúnica não precisa apenas de um fraudador. Ela precisa também de uma multidão disposta a substituir investigação por idolatria.
A frase caiu como uma pedra.
Porque havia, naquela história, outro fenômeno que precisava ser investigado: não apenas a “criatura”, mas o comportamento de seus seguidores.
Alguns já não defendiam uma ideia.
Defendiam uma pessoa.
Não discutiam argumentos.
Atacavam críticos.
Não examinavam evidências.
Repetiam testemunhos.
Não perguntavam como a informação poderia ter sido obtida.
Perguntavam quem estava por trás da denúncia.
A “criatura”havia deixado de ser simplesmente uma pessoa que alegava possuir uma faculdade.
Transformara-se, aos olhos de alguns, numa espécie de autoridade moral acima de qualquer suspeita.
E esse é precisamente o terreno onde a prudência começa a morrer.
Há uma lição espírita que não deveria jamais ser esquecida:
O Espiritismo não pede que abandonemos a razão para aceitar o fenômeno. Pede justamente o contrário.
O verdadeiro médium não deveria temer o exame sério.
O verdadeiro pesquisador não deveria temer a verdade.
O verdadeiro benfeitor não deveria utilizar sua obra social para impedir perguntas.
E o verdadeiro espírita não deveria transformar médium algum em ídolo.
Porque quando a pessoa passa a ser mais importante que a Doutrina, o fenômeno passa a ser mais importante que a verdade e a emoção passam a ser mais importantes que a razão, já não estamos diante da prudência recomendada por Kardec.
Estamos diante da idolatria.
E idolatria também pode vestir roupa de caridade.
Pode distribuir sopa.
Pode abraçar crianças.
Pode organizar campanhas.
Pode construir instituições.
Pode acumular seguidores.
Pode produzir vídeos emocionantes.
Pode receber aplausos.
Pode até tornar-se internacionalmente conhecida.
Nada disso, porém, responde à pergunta fundamental:
As cartas são realmente psicografias?
Essa pergunta permanece.
E nenhuma cesta básica, nenhum discurso emocionado, nenhum testemunho multitudinário e nenhuma legião de admiradores podem respondê-la.
A historieta termina com uma imagem.
Certa noite, depois de uma grande campanha assistencial, a “criatura” contemplou de longe o enorme prédio da instituição que havia construído.
Centenas de pessoas aplaudiam.
As câmeras registravam tudo.
Os seguidores gritavam seu nome.
Naquele instante, um jornalista aproximou-se e fez apenas uma pergunta:
— Por que não aceitar uma investigação independente?
Ela não respondeu.
A multidão respondeu por ela.
E foi então que o jornalista compreendeu o verdadeiro tamanho da cortina de fumaça.
Não eram apenas os alimentos.
Não eram apenas as roupas.
Não eram apenas os medicamentos.
Não eram apenas os milhares de seguidores.
A cortina de fumaça era a própria devoção das pessoas.
Quanto maior a idolatria, mais difícil se tornava enxergar o que havia atrás dela.
E talvez essa seja a advertência mais importante para os espíritas do nosso tempo:
Não confundamos caridade com autenticidade, popularidade com verdade, emoção com prova e fama com mediunidade.
A caridade deve continuar.
A investigação também.
Mas cada coisa no seu devido lugar.
Porque fazer o bem não concede licença para enganar.
E ser admirado por milhares não transforma uma falsidade em verdade.
No Espiritismo, a verdade não precisa de adoradores.
Precisa de consciência, razão, honestidade e coragem para ser examinada.