Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Paixão termina.
Relacionamentos se desfazem. O amor, porém, não pode ser reduzido ao fogo
passageiro do desejo e muito menos colocado na boca do Espírito Bezerra de
Menezes sem qualquer comprovação.
Há frases que são tão irresponsáveis que se tornam perigosas quando recebem o carimbo de um Espírito venerável.
Dizer que “o amor também
acaba e ninguém ama só uma vez” pode ser uma opinião pessoal sobre
relacionamentos. O problema começa quando essa afirmação é apresentada como
suposta comunicação de Bezerra de Menezes. Nesse momento, já não se discute
apenas uma concepção sentimental. Discutem-se responsabilidade mediúnica,
autoridade doutrinária e respeito ao público.
Convém colocar cada coisa
em seu devido lugar. Paixão não é amor. Desejo não é amor. Encantamento
não é amor. Dependência afetiva não é amor. Um relacionamento pode terminar;
duas pessoas podem deixar de conviver; a atração pode desaparecer. Tudo isso
pertence à experiência humana.
Mas daí concluir que o
amor acaba é outra coisa. No horizonte espírita, o amor não se reduz à
combustão emocional entre duas pessoas. Está associado à lei divina, à
fraternidade, à caridade e ao próprio processo de aperfeiçoamento do Espírito.
Em Kardec, o amor não
aparece como mercadoria sentimental com prazo de validade. Ele constitui
princípio de transformação moral. Quem verdadeiramente amou pode deixar de
desejar. Pode deixar de conviver. Pode reconstruir a própria vida. Pode até
compreender que aquela relação não deveria continuar. Mas nada disso exige que
transforme o afeto em ódio ou declare morto todo sentimento de fraternidade.
O que frequentemente
acaba é a paixão. O amor pode mudar de forma. É
justamente aí que a atribuição a Bezerra de Menezes se torna particularmente
delicada. Não basta alguém afirmar que viu determinado Espírito ou recebeu dele
determinada frase. Kardec jamais recomendou essa credulidade. No Livro dos
Médiuns, estabeleceu critérios de prudência para a identificação dos
Espíritos e para o exame das comunicações.
O Espiritismo não é a doutrina
do “eu vi”. É a doutrina do examine,
compare, raciocine e não aceite sem discernimento.
Quanto mais respeitável o
nome apresentado, maior deveria ser o cuidado. Afinal, uma mensagem atribuída a
Bezerra chega ao público revestida de uma autoridade que uma opinião pessoal
jamais teria.
E esse é o verdadeiro
problema. Quando milhares de pessoas escutam uma palestrante conhecida afirmar
que determinada frase veio de Bezerra, quantas terão condições de separar a
opinião da suposta revelação? Quantas conhecem os critérios kardecianos de
análise mediúnica? Quantas simplesmente aceitarão a declaração porque confiam
na celebridade de quem fala?
É assim que a fama pode
substituir o critério e a autoridade pessoal pode ocupar o lugar da razão. Não
se combate isso com censura. Combate-se com estudo.
Se é uma reflexão
pessoal, que seja assumida como tal. Se é uma comunicação mediúnica, que seja
submetida ao exame que Kardec recomendou. O que não se pode fazer é transformar
o nome de um Espírito venerável em espécie de certificado automático de autenticidade.
Bezerra de Menezes merece
respeito precisamente porque seu nome não deveria ser utilizado como aval para
qualquer afirmação.
E o amor também merece
respeito.
Porque, se confundirmos
amor com paixão, estaremos ensinando uma geração inteira a chamar de “amor”
aquilo que pode ser apenas desejo, apego, encantamento ou necessidade afetiva.
A paixão pode incendiar e
depois apagar-se. O amor, compreendido em sua dimensão espiritual, não é um
fósforo: é caminho de evolução.
O Espiritismo não precisa
de frases espetaculares atribuídas aos Espíritos. Precisa de verdade,
responsabilidade, razão e humildade.
E, antes de afirmar
“Bezerra disse”, talvez fosse prudente fazer a pergunta que todo espírita
deveria fazer.
Onde está a prova?
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro
dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília, DF: Federação
Espírita Brasileira.
KARDEC, Allan. O livro
dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.
KARDEC, Allan. O
evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita
Brasileira.
XAVIER, Francisco
Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF:
Federação Espírita Brasileira.







