02 maio 2026

Estigmatizar o corpo e responsabilidade moral - entre o livre-arbítrio e a prudência




Jorge Hessen

Brasília -DF

A expansão contemporânea da tatuagem e do piercing impõe uma reflexão que ultrapassa o campo estético. Não se trata de moralismo superficial, mas de responsabilidade integral diante do corpo e da vida alheia. A legislação sanitária brasileira estabelece inaptidão temporária de 12 meses para doação de sangue após tatuagens ou piercings, considerando o risco de transmissão de agentes infecciosos. Tal medida não é arbitrária: decorre de evidências médicas que associam esses procedimentos à possibilidade de contaminação por hepatites virais, HIV e infecções bacterianas, sobretudo quando não realizados sob rigor técnico.

A tatuagem consiste na introdução de pigmentos insolúveis na derme por meio de múltiplas perfurações — até centenas por segundo —, o que, por si, já configura uma agressão controlada ao tecido corporal. Ainda que existam estúdios sérios e profissionais habilitados, o risco jamais é absolutamente nulo. A prudência, portanto, não é conservadorismo: é inteligência aplicada à preservação da saúde.

Contudo, reduzir o debate à dimensão biológica seria insuficiente. À luz da Doutrina Espírita, a questão central não reside na tinta sob a pele, mas nas intenções que movem o indivíduo. Uma tatuagem não define o caráter; não torna alguém virtuoso nem vicioso. O Espiritismo não legisla sobre adornos corporais, tampouco estabelece proibições formais. Antes, convida ao discernimento: “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”.

O corpo físico, ensina Allan Kardec, é instrumento sagrado de evolução, concedido como empréstimo divino para as experiências reencarnatórias. Qualquer intervenção sobre ele deve ser ponderada à luz da necessidade, da utilidade e da responsabilidade. Quando a modificação corporal nasce do impulso irrefletido, da vaidade exacerbada ou da necessidade de afirmação externa, pode revelar desalinhamentos íntimos que pedem análise mais profunda.

Sob o enfoque espiritual, o corpo está interligado ao perispírito, matriz sutil que registra impressões e experiências. Lesões voluntárias, ainda que socialmente aceitas, podem repercutir nesse envoltório energético, sobretudo quando associadas a estados mentais desequilibrados. Não se trata de condenação, mas de consequência natural das leis que regem a vida.

Por outro lado, o julgamento apressado do próximo constitui falha igualmente grave. Ninguém penetra a consciência alheia para avaliar suas motivações reais. O Espiritismo é claro ao afirmar que cada Espírito responde por seus atos segundo o grau de conhecimento que possui. Cabe-nos orientar, jamais condenar.

Assim, entre a liberdade individual e a responsabilidade moral, impõe-se o equilíbrio. A escolha é pessoal, mas os efeitos são inevitavelmente coletivos e espirituais. A verdadeira maturidade não está em fazer tudo o que se deseja, mas em discernir o que convém fazer. Pensar antes de agir continua sendo a mais elevada forma de respeito à própria vida e à vida do outro.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de hemoterapia e critérios para doação de sangue. Brasília: MS, 2020.

Espiritismo e marxismo são ontologicamente inconciliáveis

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A tentativa de conciliar o pensamento de Karl Marx com a Doutrina Espírita exige rigor conceitual. Não se trata de mera divergência periférica, mas de fundamentos distintos sobre a natureza da realidade, do ser humano e da transformação social.

No plano filosófico, o marxismo estrutura-se sobre o materialismo histórico-dialético. Segundo Marx, a consciência é produto das condições materiais: “não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, o seu ser social que determina sua consciência” (Karl Marx, 2013, p. 47). A religião, nesse contexto, aparece como fenômeno derivado e compensatório como um “suspiro da criatura oprimida [...] o ópio do povo” (Karl Marx, 2010, p. 145).

Opostamente, o Espiritismo afirma a primazia do espírito sobre a matéria. Kardec estabelece que “o princípio inteligente é distinto da matéria” (Allan Kardec, 2019, q. 23), indicando uma ontologia espiritualista incompatível com o reducionismo materialista. Ao tratar da reencarnação, reforça que o progresso não se limita às condições sociais imediatas, mas transcende existências corporais sucessivas (KARDEC, 2019, q. 166). 

Essa divergência se aprofunda no método de transformação. O marxismo aposta na mudança estrutural mediante conflito histórico. No Manifesto, lê-se que “a história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes” (Karl Marx; Friedrich Engels, 2010, p. 40). Já o Espiritismo desloca o eixo da mudança para o interior do ser. Léon Denis afirma: “A sociedade será o que forem os indivíduos que a compõem” (DENIS, 2017, p. 112), indicando que sem reforma moral não há ordem social justa e duradoura.

Na mesma linha, Emmanuel adverte: “Nenhuma organização social poderá substituir o esforço de iluminação íntima de cada um” (EMMANUEL, 2016, p. 89). Tal afirmação confronta diretamente a expectativa marxista de que a reorganização das estruturas econômicas seja suficiente para produzir justiça social.

O marxismo culpa o óbvio “da exploração econômica e da desigualdade social”; o Espiritismo não aprova a indiferença moral. Kardec, ao definir a caridade, é incisivo: “fora da caridade não há salvação” (Allan Kardec, 2018, cap. XV, item 10). E amplia o conceito ao afirmar que a verdadeira caridade envolve benevolência, indulgência e perdão, o que implica uma ética social ativa.

Não existe semelhança no plano ontológico. Para Marx, a superação da injustiça é essencialmente estruturalpara o Espiritismo, é moral e espiritual. Kardec adverte que “o egoísmo é a chaga da humanidade” (KARDEC, 2018, cap. XI, item 11), indicando que qualquer sistema social será corrompido enquanto o homem não se transformar interiormente.

Dessa forma, a tese de uma síntese plena entre marxismo e Espiritismo não se sustentaO materialismo marxista é inconciliável com a Doutrina dos Espíritos. Com muito boa vontade, podemos viabilizar uma interlocução relativa em alguns aspectos pontuais. Porquanto há uma incompatibilidade metafísica estruturante, como disse, podem subsistir raríssimos pontos de contato éticos, sobretudo na reprovação da injustiça social.

O desafio, portanto, não é fundir sistemas inconciliáveis, mas preservar a coerência doutrinária espírita ao mesmo tempo em que se enfrenta, com lucidez e responsabilidade, a realidade das desigualdades humanas — sem reduzir o homem ao materialismo, mas obviamente não ignorar as exigências da justiça social.


Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Depois da morte. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

EMMANUEL (Espírito). O consolador. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2016. Psicografado por Francisco Cândido Xavier.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 94. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.

 

A ilusão digital do ganho fácil e a demência das apostas online no Brasil




 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O crescimento das apostas online no Brasil evidencia um fenômeno preocupante: a expansão de comportamentos compulsivos que comprometem a saúde mental, financeira e espiritual dos indivíduos. Daí analisaremos o jogo de azar como fator de alienação da consciência, enfatizando o papel do autodomínio, da responsabilidade moral e das influências espirituais nos processos de dependência.

Nunca foi tão fácil perder tanto dinheiro. Com um simples toque na tela, milhões de brasileiros acessam impulsivamente plataformas de apostas que prometem “riqueza” instantânea, mas entregam ansiedade, endividamento , desestruturação íntima e fissura familiar. O problema não está apenas na tecnologia, mas na atitude desgovernada do desejo de ganho fácil. A Doutrina Espírita oferece argumentos seguros para compreender e enfrentar essa realidade.

Os Benfeitores espirituais, no Livro dos Espíritos, questão 909, ensinam que o verdadeiro progresso moral reside no domínio das paixões. O jogo compulsivo representa a rendição da vontade ao impulso do desejo. A mente, antes senhora de si, torna-se refém da excitação momentânea e da expectativa ilusória do ganho fácil.

No ambiente digital, essa alienação se intensifica: algoritmos são estruturados para estimular repetição, reforçando ciclos de recompensa e frustração. O indivíduo já não joga por lazer , joga por compulsão.

A Doutrina Espírita é clara ao afirmar que o progresso é fruto do esforço. Não há construção legítima fora do trabalho digno. As apostas subvertem essa lógica ao prometerem prosperidade sem mérito, criando uma distorção perigosa da realidade.

Léon Denis adverte que toda ilusão que afasta o homem da verdade o escraviza. O jogador compulsivo passa a viver em função de uma promessa que quase nunca se concretiza, comprometendo sua dignidade e equilíbrio.

O vício não é apenas um fenômeno psicológico , é também patologia espiritual. Emmanuel destaca que pensamentos reiterados criam campos de sintonia. A fixação no jogo estabelece conexão com faixas espirituais inferiores, favorecendo processos obsessivos.

A mente viciada vibra em desarmonia: ansiedade, culpa, frustração e desespero tornam-se estados frequentes. Esse padrão mental fragiliza o espírito, dificultando ações conscientes e ampliando o ciclo de dependência.

O Espiritismo não condena nada, apenas esclarece. O “ingênuo” jogador não deve ser visto como culpado irremediável, mas como consciência em desequilíbrio, necessitada de orientação e esforço regenerativo.

Para a libertação desse vício assustador é importante o reconhecimento do problema, disciplina no uso da vontade, reconstrução de hábitos, busca de apoio moral, espiritual e, quando necessário, um tratamento terapêutico.

A Doutrina dos Espíritos convida à transmutação da ilusão pelo esforço disciplinado, do impulso automático pela consciência e  da fuga egoica pela responsabilidade das escolhas.

As apostas online representam uma das faces modernas de antigas paixões humanas. O que mudou foi a velocidade, o acesso e o potencial de destruição silenciosa. Diante disso, o papel do Espiritismo é urgente: alertar, educar e promover a emancipação da alma.  Não se trata apenas de evitar perdas financeiras , trata-se de preservar a lucidez espiritual. Porque, no fim, o maior prejuízo do jogo não é só o dinheiro perdido, mas a consciência que se perde de si mesma.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

01 maio 2026

​Burocracia e estagnação e os eternos diretores federativos


 







Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Avaliamos aqui a intolerável rigidez das estruturas federativas espíritas e a permanência prolongada de seus dirigentes. Circunstância que evidencia o contraste entre a natureza progressiva da Doutrina Espírita e práticas institucionais que tendem à cristalização. Sugerimos neste artigo uma revisão baseada na transitoriedade dos cargos e na renovação de lideranças.

Isso mesmo!! O movimento espírita deveria refletir, em sua organização, o dinamismo da Doutrina. Contudo, observa-se a consolidação de estruturas burocráticas rígidas, frequentemente associadas à permanência prolongada (eterna) das mesmas lideranças. Surge, então, um paradoxo: uma doutrina evolucionista  sustentada por práticas administrativas estagnadas.

Allan Kardec não instituiu hierarquias rígidas nem legitimou a perpetuação de poder. Ao contrário, valorizou a autoridade moral baseada no exemplo e advertiu sobre os perigos da vaidade nas funções.

Léon Denis alertou que o Espiritismo não deveria repetir os vícios das instituições religiosas tradicionais, sobretudo o apego à hierarquia das estruturas cristalizadas. Emmanuel enfatiza que toda função é transitória e que o verdadeiro servidor se define pelo trabalho, não pela posição institucional.

A estrutura federativa espírita  possui relativa relevância organizacional, mas torna-se problemática quando a burocracia se sobrepõe à finalidade espiritual. A repetição contínua de dirigentes — ainda que eleitos — pode limitar a diversidade de ideias e dificultar a adaptação às novas realidades.

Não se trata aqui de desqualificar pessoas, mas de reconhecer que a ausência de alternância favorece o engessamento institucional e, por vezes, o apego sutil ou descarado ao poder.

A superação desse quadro exige mudança de cultura: compreensão dos cargos como tarefas transitórias; formação de novas lideranças; redução de formalismos excessivos; abertura ao diálogo intergeracional. Mais do que ajustes administrativos, trata-se de transformação moral.

O Espiritismo é, por essência, progressivo. A permanência prolongada no poder, mesmo legitimada, deve ser confrontada com a finalidade maior da Doutrina. A questão central permanece: estamos servindo à causa espírita ou às estruturas hierárquicas que construímos?  Responder com sinceridade a essa indagação é condição para que o movimento espírita recupere sua vitalidade e coerência com os princípios que Allan Kardec nos legou.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

XAVIER, Francisco Cândido (psicografia). EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2019.



29 abril 2026

“Unificação” na era digital - entre a estrutura e a consciência espírita


 


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A transição civilizatória impulsionada pelas tecnologias digitais impõe ao movimento espírita brasileiro uma revisão honesta de seus métodos de organização e difusão. O modelo federativo, concebido em contexto histórico analógico, cumpriu papel relevante na consolidação doutrinária e na preservação da “unificação”. Contudo, na atualidade, a dinâmica comunicacional descentralizada desafia a permanência de estruturas burocráticas  excessivamente centralizadoras, convidando à reflexão sobre novos paradigmas de “unificação”.

Allan Kardec já advertia que o Espiritismo caminharia com o progresso, jamais se cristalizando em formas rígidas (KARDEC, 1868). Tal princípio é essencial para compreendermos que a “unificação”  não pode ser confundida com uniformização. A tentativa de controle institucional absoluto, em um mundo marcado pela horizontalidade das redes, tende não apenas à ineficácia, mas também ao distanciamento das novas gerações.

A finalidade das federações espíritas pode ser a de preservar a fidelidade doutrinária, promover a união dos grupos e oferecer orientação equilibrada. Entretanto, o problema contemporâneo não reside na finalidade, mas na forma. Quando a estrutura material se sobrepõe ao espírito, instala-se a vil burocratização da fé e do esvaziamento da vivência transformadora.

Emmanuel adverte que “a união sincera em torno do Cristo é a base de toda realização espiritual elevada” (XAVIER, 1996). Tal união não decorre de vínculos administrativos, mas de afinidade moral e compromisso com o bem. Da mesma forma, André Luiz enfatiza que o verdadeiro trabalho espiritual se realiza pela sintonia de propósitos e pela disciplina íntima, e não por imposições externas (XAVIER, 2013).

Nesse sentido, o paradigma emergente aponta para uma “unificação” orgânica, baseada em princípios e não em estruturas. As federações, se desejarem manter relevância, precisarão migrar de um papel normativo para uma atuação como centros de inteligência doutrinária, promovendo o estudo sério, a curadoria de conteúdos e a formação contínua.

Léon Denis já destacava que o Espiritismo não deveria se tornar um sistema fechado, mas um campo vivo de investigação e elevação moral (DENIS, 1910). Essa perspectiva reforça que a autoridade no movimento espírita brasileiro deve derivar da coerência com os princípios e da vivência ética, e não da posição institucional.

A tecnologia, por sua vez, não deve ser vista como ameaça, mas como instrumento. Ela amplia o alcance da mensagem, mas também exige responsabilidade. A desintermediação permite que qualquer indivíduo se torne comunicador, o que reforça a necessidade de maturidade doutrinária e vigilância moral, evitando personalismos (diretores-deuses federativos) e deformidades de poder.

Dessa forma, a nova abordagem para a “unificação”  espírita deve se apoiar em três pilares fundamentais: fidelidade doutrinária, liberdade responsável e convergência ética. A unidade não será fruto de “estudos sistematizados” ou regulamentações, mas da adesão consciente aos valores espíritas.

Conclui-se, portanto, que o futuro do movimento espírita brasileiro não dependerá da manutenção de estruturas rígidas, mas da capacidade de adaptação sem perda da essência. A verdadeira “unificação”  ocorrerá quando os espíritas compreenderem que o elo que os une não é institucional, mas espiritual — firmado na vivência do Evangelho e na prática do bem.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Depois da morte. 10. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1910.

KARDEC, Allan. A Gênese. 1. ed. Paris: Didier, 1868.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo espírito Emmanuel. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996.

XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo espírito André Luiz. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.


​Salvacionismo, vitimismo e autoconfiança numa análise espírita


 



Jorge Hessen

Brasília -DF

A convivência humana frequentemente revela padrões psicológicos que se retroalimentam, formando vínculos de dependência emocional prejudiciais ao progresso espiritual. Entre esses padrões, destacam-se o chamado “salvacionismo” — atitude daquele que se coloca como redentor das dificuldades alheias — e o “vitimismo” , postura daquele que se percebe constantemente como incapaz ou injustiçado. Sob a ótica da Doutrina Espírita, tais comportamentos configuram desvios do equilíbrio moral, pois afastam o indivíduo do exercício da responsabilidade pessoal e da autotransformação.

Allan Kardec instrui que o progresso do Espírito é intransferível, sendo fruto do esforço próprio. Na obra O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões relacionadas à liberdade e responsabilidade moral, evidencia-se que cada ser é artífice do seu destino. O salvacionismo, portanto, embora muitas vezes travestido de caridade, pode ocultar uma forma sutil de orgulho, na medida em que o indivíduo se julga indispensável à redenção do outro.

Por outro lado, o vitimismo constitui uma fuga psicológica diante dos desafios evolutivos. Ao assumir constantemente a posição de “coitado”, o indivíduo abdica de sua capacidade de ação, entregando-se à inércia moral. Esse comportamento, longe de atrair verdadeira ajuda, cria laços de dependência afetiva, em que o dominador (salvacionista) e o dominado (coitadinho) se complementam em um ciclo de estagnação espiritual.

A Doutrina Espírita propõe, como antídoto a esse desequilíbrio, o desenvolvimento da autoconfiança, entendida não como orgulho, mas como reconhecimento das próprias potencialidades concedidas por Deus. A literatura de Emmanuel ressalta que o verdadeiro auxílio deve capacitar o outro a caminhar com as próprias forças, jamais aprisioná-lo em dependência emocional. Ajudar, portanto, não é substituir o esforço do próximo, mas iluminá-lo para que ele descubra sua própria força interior.

Nesse contexto, a autoaceitação surge como etapa essencial. Reconhecer limitações sem se acomodar a elas é um exercício de maturidade espiritual. A criatura que se aceita, mas também se compromete com o próprio aprimoramento, rompe tanto com o vitimismo quanto com a necessidade de ser salva ou de salvar compulsivamente.

Léon Denis reforça que o Espírito cresce pelo esforço consciente, enfrentando provas e desafios como oportunidades de evolução. Assim, qualquer relação que anule a autonomia moral do indivíduo contraria as leis divinas de progresso.

Em síntese, a Doutrina Espírita convida à construção de relações mais equilibradas, baseadas na fraternidade lúcida. Nem salvadores, nem vítimas: apenas Espíritos em aprendizado, cooperando mutuamente sem abdicar da própria responsabilidade. A verdadeira caridade, nesse sentido, é aquela que liberta , nunca a que aprisiona e cria dependência.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2011

28 abril 2026

Nem culpar-nos indefinidamente, nem justificar nossos equívocos.







 A reflexão sobre culpa e consciência, à luz da Doutrina Espírita, exige distinção cuidadosa entre dois movimentos psíquicos distintos: o alerta consciencial e o estado patológico da culpa. Conforme ensina Allan Kardec, a consciência é a sede da lei divina no ser humano, sendo a “voz interior” que orienta para o bem e adverte quanto aos desvios morais. Tal alerta não constitui condenação, mas convite ao arrependimento e à reparação.

O chamado “conflito de consciência” representa, portanto, mecanismo saudável de autorregulação moral. Léon Denis afirma que a consciência é reflexo da lei eterna em nós, funcionando como guia seguro na jornada evolutiva. Ignorá-la é optar pela desarmonia. Nesse sentido, o alerta consciencial é indispensável à rearmonização psíquica, pois sinaliza a necessidade de corrigir rotas e recompor o equilíbrio interior.

Entretanto, quando esse alerta é negligenciado, instala-se a culpa como processo doentio. Diferentemente do arrependimento construtivo, a culpa aprisiona o indivíduo em ciclos de autojulgamento, autocondenação e autopunição. Segundo Emmanuel, o erro reconhecido deve conduzir ao trabalho regenerador, e não ao imobilismo mental. A culpa, ao contrário, paralisa e distancia o ser da ação no bem, única via legítima de superação.

A Lei de Causa e Efeito, princípio fundamental do Espiritismo, esclarece que toda ação gera consequências compatíveis, sem caráter punitivo, mas educativo. O sofrimento decorrente do erro não visa castigar, e sim ensinar. Quando o alerta da consciência é acolhido, transforma-se em responsabilidade ativa; quando rejeitado, degenera em desculpismo ou culpa patológica.

Observa-se ainda a manifestação sutil da culpa em práticas assistencialistas desprovidas de consciência moral. Muitos indivíduos, movidos por inquietação íntima, buscam na “fazeção de coisas” uma forma de anestesiar conflitos internos. Tal postura, embora beneficie momentaneamente terceiros, não resolve o drama interior, pois carece de autoconhecimento e sincera transformação. A verdadeira caridade, como ensina Kardec, é aquela que se alia à reforma íntima.

Outro aspecto relevante é a culpa oriunda de expectativas frustradas, como nos casos em que o indivíduo se recrimina por não ter vivido prazeres efêmeros. Trata-se de distorção da consciência, pois não decorre da transgressão da lei moral, mas da adesão a valores superficiais. Ainda assim, o mecanismo autopunitivo se instala, revelando a necessidade de educação dos sentimentos.

A superação da culpa exige três movimentos fundamentais: reconhecimento do erro, arrependimento sincero e reparação possível. O autoperdão, nesse contexto, não significa esquecimento irresponsável, mas compreensão madura de si mesmo, aliada ao compromisso moral. Como destaca Emmanuel, “cada dia é nova oportunidade de recomeço”.

Por fim, importa ressaltar que ninguém está privado da voz da consciência, salvo em casos extremos de grave patologia psíquica. Em condições normais, ela sempre se manifesta, ainda que silenciada. Ouvi-la é caminho de libertação; ignorá-la, fonte de sofrimento.

Assim, não cabe ao ser humano culpar-se indefinidamente, nem justificar seus equívocos. O caminho equilibrado consiste em escutar a consciência, aprender com os erros e agir no bem. Somente desse modo o espírito se liberta dos grilhões da culpa e avança rumo à harmonia interior, finalidade última das leis divinas.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido (psicografia). Fonte Viva (Espírito Emmanuel). Rio de Janeiro: FEB, 2019.

26 abril 2026

Psicotrópicos atenuam quadros psíquicos desorganizados, mas não neutralizam a mediunidade

                                                         



A questão sobre o uso de fármacos psicotrópicos para supostamente “neutralizar” a mediunidade exige, antes de tudo, uma distinção rigorosa entre fenômenos espirituais e transtornos psíquicos. Para Allan Kardec a mediunidade é uma faculdade humana natural, inerente à sensibilidade do espírito encarnado, não sendo, por si só, uma patologia. Entretanto, pode coexistir com quadros de sofrimento mental, o que frequentemente gera confusão diagnóstica.

Do ponto de vista médico, fármacos psicotrópicos ,  como antipsicóticos, ansiolíticos,  benzodiazepínicos  e estabilizadores de humor ,  não têm obviamente a finalidade de “bloquear mediunidade”, mas sim de regular alterações neuroquímicas associadas a transtornos como esquizofrenia, transtorno bipolar ou episódios psicóticos. Quando administrados corretamente, podem reduzir alucinações, delírios e estados de agitação, trazendo estabilidade ao paciente. Os psicotrópicos no autismo (TEA) não tratam os núcleos do transtorno (comunicação/socialização), mas gerenciam comorbidades e comportamentos desafiadores como irritabilidade e agressividade. Assim, o que eventualmente se observa não é a supressão da mediunidade, mas a atenuação de manifestações psíquicas desorganizadas que poderiam estar sendo confundidas com fenômenos mediúnicos.

Numa perspectiva espírita profunda a mediunidade deseducada pode tornar-se fonte de perturbação, especialmente quando associada a fragilidades emocionais. Nesses casos, o tratamento médico é legítimo e necessário. O Espiritismo jamais se opõe à ciência; ao contrário, recomenda prudência e equilíbrio. O uso de medicamentos, portanto, não é visto como antagonista da espiritualidade, mas como recurso terapêutico para restaurar condições mínimas de discernimento.

Emmanuel, em diversas orientações, destaca que o desenvolvimento mediúnico exige disciplina moral, estudo e equilíbrio psicológico. Um indivíduo em sofrimento mental grave não está em condições adequadas para o exercício mediúnico seguro. Nesse contexto, o tratamento psiquiátrico torna-se não apenas válido, mas imprescindível. O medicamento atua sobre o instrumento cerebral, favorecendo a reorganização das funções mentais, enquanto o espírito, gradualmente, retoma sua capacidade de expressão lúcida.

Bezerra de Meneses, frequentemente citado como símbolo da integração entre ciência e espiritualidade, reforça a necessidade de abordagem conjunta: tratamento médico, apoio espiritual e reforma moral. Para ele, reduzir a experiência humana apenas ao biológico ou apenas ao espiritual constitui erro grave. Assim, o uso de psicotrópicos não elimina a mediunidade em sua essência, mas pode reduzir manifestações descontroladas, permitindo que o indivíduo recupere equilíbrio.

Do ponto de vista ético e científico, é perigoso atribuir a fenômenos espirituais aquilo que pode ser sintoma de doença mental, assim como é igualmente imprudente medicalizar experiências subjetivas sem avaliação criteriosa. A fronteira entre mediunidade e psicopatologia exige discernimento técnico e sensibilidade espiritual.

Portanto, não existe fármaco destinado a “neutralizar a mediunidade”. O que há são medicamentos que tratam distúrbios mentais, podendo, indiretamente, diminuir manifestações que eram interpretadas como mediúnicas. A abordagem ideal é integrada: medicina responsável, acompanhamento psicológico e orientação espiritual séria, evitando tanto o misticismo ingênuo quanto o reducionismo materialista.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília: FEB, 2013.

DENIS, Léon. No Invisível. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Brasília: FEB, 2013.

MENESSES, Bezerra de. Obras Diversas. Brasília: FEB, várias edições.

24 abril 2026

“Fazeção de coisas” assistencialistas ou fuga psicológica ?




Jorge Hessen

Brasília -DF



Sem generalização temos ciência de que nem toda “fazeção de coisas” é fuga psicológica e pode ser exatamente o contrário: gente culpada tentando acertar no único campo em que consegue agir , o do assistencialismo.

Quando Allan Kardec, na questão 886 do Livro dos Espíritos, define caridade como benevolência, indulgência e perdão, ele amplia o conceito para além da esmola material. Ele não nega a ação , mas a qualifica. O cerne da questão não é fazer muito; o problema é fazeção de coisa  sem transformação moral.

Há, sim, um risco real: a ação assistencial virar anestesia moral. A pessoa se ocupa tanto em distribuir coisas, organizar campanhas, elaborar eventos, ajudar externamente, mas evita olhar para dentro , onde estão orgulho, mágoas, vaidades, conflitos não resolvidos. Nesse caso, a caridade vira um “escudo psicológico”: ajuda-se o outro para não confrontar a si mesmo.

Mas há outro lado igualmente verdadeiro: fazeção de coisa  pode ser justamente o caminho de transformação íntima. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, a caridade material aparece como porta de entrada. Quem começa dando pão pode, com o tempo, aprender a dar compreensão, respeito e perdão. Nem todos começam pela caridade moral , muitos chegam a ela pelo exercício material.

O ponto crucial, então, não é “fazer ou não fazer”, mas como e por quê se faz: pois se a ação gera humildade , obviamente está educando o espírito. Se gera vaidade  do tipo “eu ajudo”, “eu faço”,  está inflando o ego. Porém, se evita conflitos internos , pode ser fuga , mas se amplia a capacidade de amar , com certeza é caridade real

Um sinal sutil: quem se vincula à fazeção de coisa  costuma ter pouca tolerância com as imperfeições alheias , justamente o oposto da definição kardeciana. Então fazeção de coisas pode ser tanto fuga quanto escola evolutiva. Dependendo do nível de consciência de quem faz.

23 abril 2026

​O ideário comunista (ateísta / materialista) que amordaça a voz cristã pela bestialidade

 

                                                         




Jorge Hessen

Brasília -DF

O episódio envolvendo a condenação de uma criança de dois anos e sua família à prisão perpétua na Coreia do Norte, em razão da posse de uma Bíblia, não é somente uma violação jurídica: é a expressão extrema de um sistema cruel e desumano que pretende controlar a consciência que é a dimensão mais íntima do ser. À luz do pensamento espírita, tal fato não pode ser analisado apenas como execrável abuso político, mas como grave atentado às leis divinas que regem a liberdade de pensar e crer.

O Codificador, ao abordar a liberdade de consciência em O Livro dos Espíritos, é categórico ao afirmar que a crença não pode ser imposta. A repressão religiosa, portanto, não apenas falha em seu objetivo , ela produz a selvageria, o  medo e o atraso intelecto moral. O caso em questão revela exatamente isso: um Estado (se é que podemos nominar a Coreia do Norte como Estado) que, incapaz de convencer, recorre à violência para sufocar e “sepultar” o espírito humano. Kardec veria nesse cenário a negação do progresso, pois onde há coerção, não há evolução legítima do pensamento.

Sob a ótica de Léon Denis, a liberdade é condição essencial para o desenvolvimento da alma. Em suas obras, ele sustenta que o espírito cresce pela experiência e pela escolha. Ao punir uma família inteira — inclusive uma criança — por um ato de fé, o regime não apenas comete injustiça social, mas interfere brutalmente no processo educativo do espírito. Ainda que a lei humana imponha sofrimento, a lei divina não chancela tais abusos, e cada consciência responderá, em momento oportuno, por seus atos.

Emmanuel, ao refletir sobre os regimes autoritários, destaca que toda forma de poder que tenta substituir Deus pela força está fadada à ruína moral. A tentativa de controlar a fé revela insegurança moral e desconhecimento das leis superiores. O sofrimento imposto não destrói a crença; ao contrário, muitas vezes a fortalece silenciosamente no íntimo das vítimas, transformando dor em resistência moral.

Todos os atos de opressão geram débitos graves perante a lei de causa e efeito. A perseguição religiosa, especialmente quando atinge inocentes, configura comprometimento profundo do agressor, que responderá não apenas pelos atos externos, mas pelas intenções de domínio e violência.

O episódio norte-coreano expõe, assim, um paradoxo fundamental: pode-se encarcerar corpos, mas jamais aprisionar consciências. A história espiritual da humanidade demonstra que a fé, quando autêntica, resiste às mais severas perseguições. O Espiritismo, ao afirmar a imortalidade da alma e a liberdade de pensamento como direito natural, posiciona-se de forma inequívoca contra o comunismo (ateísmo materialista) que tem mantido o ideal de controlar a crença cristã pela violência.

Mais do que indignação, o caso exige reflexão: toda ideologia que cerceia a liberdade espiritual compromete seu próprio futuro, pois bloqueia o principal motor do progresso — a consciência livre.  E, conforme preconiza a Doutrina Espírita, nenhuma estrutura baseada na opressão (ateísta/materialista/comunista) se sustenta indefinidamente diante das leis eternas.

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva (pelo Espírito Emmanuel). Brasília: FEB, 2016.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar (pelo Espírito André Luiz). Brasília: FEB, 2015.


19 abril 2026

​Expressões que denotam contrassenso na denominação de instituições espíritas




Jorge Hessen

Brasília -DF

No movimento espírita brasileiro, um elemento aparentemente periférico vem produzindo efeitos profundos na percepção pública da Doutrina Espírita. Trata-se da escolha dos nomes das instituições. Longe de constituir mero detalhe administrativo ou expressão cultural inofensiva, a nomenclatura adotada comunica valores, orienta expectativas e, não raro, induz a equívocos graves quanto à natureza do Espiritismo. À luz da codificação kardequiana, o nome de um centro espírita jamais é neutro; ele é, antes, a primeira síntese doutrinária oferecida ao público.

Desde sua origem, o Espiritismo foi definido por Allan Kardec como uma doutrina de tríplice aspecto  filosófico, científico e moral , desprovida de culto exterior, rituais, sacramentos ou hierarquias sacerdotais (KARDEC, 2013). Sua proposta é essencialmente educativa, racional e voltada ao aperfeiçoamento íntimo. Nesse contexto, a proliferação de instituições com denominações como “Templo”, “Santuário”, “Tenda”, "Igreja", “Casa de Milagres” ou mesmo expressões como “Santíssima Trindade” revela uma preocupante dissonância entre forma e conteúdo.

Não se trata de desconsiderar a “boa intenção” de muitos dirigentes, frequentemente movidos pelo salvacionismo melodramático com desejo febril de “acolher” e “consolar”. O problema é outro: trata-se de coerência doutrinária. Ao evocar termos associados a práticas ritualísticas, promessas de intervenção sobrenatural ou devoção a entidades específicas, tais nomes sugerem exatamente aquilo que o Espiritismo não ensina. Criam, assim, uma falsa expectativa no frequentador, desviando-o da compreensão correta da lei de causa e efeito e da responsabilidade individual sobre o próprio destino.

Kardec foi categórico ao afastar o Espiritismo de qualquer caráter místico ou supersticioso. Em O Livro dos Médiuns, alerta contra mistificações e enfatiza a necessidade de discernimento, simplicidade e seriedade nas práticas mediúnicas (KARDEC, 2014). O Espiritismo não promete curas milagrosas, não cultua espíritos e não estabelece intermediários privilegiados entre o homem e Deus. Toda sugestão em contrário representa desvio conceitual.

Autores clássicos como Léon Denis e Emmanuel reforçam essa diretriz ao sublinhar o caráter moral e educativo da Doutrina. A ênfase recai na reforma íntima, no estudo sistematizado e na prática da caridade, jamais em manifestações exteriores que alimentem ilusões ou imediatismos (DENIS, 2012; XAVIER, 2010). Quando uma instituição se denomina, por exemplo, “Centro Espírita ‘pai’ da Cura”, transmite a ideia de soluções prontas e extraordinárias, incompatíveis com os princípios espíritas.

Ainda mais delicada é a adoção de nomes que incorporam entidades específicas ou figuras de outras tradições religiosas, como “Pai João”, “Caboclo”, “Exu” ou santos da igreja romana. Embora respeitáveis em seus contextos próprios, tais referências introduzem elementos estranhos à proposta universalista e impessoal do Espiritismo, que reconhece a individualidade dos espíritos, mas não institui culto ou devoção a nenhum deles.

É inegável que o Brasil possui uma formação religiosa plural e sincrética. Contudo, o respeito à diversidade não autoriza a diluição dos princípios. Preservar a identidade doutrinária é, antes, uma forma de respeito tanto ao Espiritismo quanto às demais tradições. Misturar linguagens distintas não amplia a compreensão; ao contrário, obscurece-a.

Diante disso, a escolha de nomes deve refletir com fidelidade os objetivos essenciais da instituição: estudo, caridade e difusão da Doutrina. Denominações simples e claras , como “Centro Espírita”, “Casa Espírita”, “Grupo de Estudos Espíritas” ou “Sociedade Espírita”, acrescidas de valores morais , são muito mais coerentes com a proposta kardequiana.

Não se trata de preciosismo semântico, mas de responsabilidade e coerência doutrináriaO nome da instituição  é a porta de entradaSe ele induz ao erro, compromete toda a compreensão subsequente. Em tempos de ampla circulação de informações e desinformações, a fidelidade aos princípios torna-se imperativa.

Revisar a forma como as instituições se apresentam não é negar a cultura, mas aprimorar a comunicação da verdade espírita. O Espiritismo não necessita de adornos místicos para cumprir sua missão. Sua força reside na clareza, na lógica e na profundidade moral de seus ensinamentos. Assim, renomear (corrigir) e nomear corretamente uma instituição é mais que um detalhe: é um compromisso com a verdade, com a coerência e com o legado de Kardec.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília: FEB, 2014.

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo? Brasília: FEB, 2013.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2010.