Jorge Hessen
Brasília -DF
Quanto mais a ciência amplia as fronteiras do conhecimento, mais evidente se torna a nossa ignorância diante da imensidão cósmica — e mais necessário se faz distinguir fé raciocinada de crença cega.
Há perguntas que atravessam os séculos sem perder a força. Uma delas é inevitável: Deus existe?
Allan Kardec enfrentou a questão sem recorrer ao dogmatismo. No Livro dos Espíritos, perguntou: “Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?”. A resposta é de extraordinária simplicidade: “Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”[1]
É justamente aí que começa a originalidade do pensamento espírita. Kardec não propôs uma religião fundada na submissão intelectual, mas uma doutrina que convoca o indivíduo a pensar. Não perguntou “Quem é Deus?”, como se estivéssemos diante de uma personalidade humana, mas “Que é Deus?”. A resposta define uma concepção radicalmente diferente: “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”[1]
A ciência contemporânea, por sua vez, demoliu definitivamente a pretensão humana de compreender o Universo a partir de uma perspectiva limitada à Terra. Vivemos em um planeta que orbita uma estrela comum, numa galáxia que abriga centenas de bilhões de estrelas e que representa apenas uma entre uma quantidade imensa de galáxias observáveis.
O telescópio James Webb vem permitindo investigar galáxias extremamente antigas e ampliar nosso conhecimento sobre as primeiras etapas da história cósmica. A cosmologia estima em aproximadamente 13,8 bilhões de anos a idade do Universo. Ainda assim, permanecem grandes enigmas: a natureza da matéria escura, a energia escura, os primeiros instantes cósmicos e a possibilidade de uma teoria capaz de conciliar gravidade e mecânica quântica.
Mas é preciso prudência: nenhuma dessas descobertas constitui, por si mesma, uma prova científica da existência de Deus. Transformar uma hipótese cosmológica em demonstração religiosa seria substituir o dogmatismo religioso pelo dogmatismo científico.
O Espiritismo propõe outro caminho: razão sem materialismo e fé sem cegueira.
Quanto mais penetramos nos mistérios da matéria, mais percebemos que a realidade é muito maior do que nossos sentidos alcançam. E quanto mais avançamos intelectualmente, mais somos obrigados a reconhecer os limites do conhecimento humano.
Para Kardec, Deus não é uma figura antropomórfica perdida entre as estrelas, mas a Inteligência Suprema e causa primária de todas as coisas. A compreensão dessa realidade acompanha a própria evolução do Espírito.
Talvez esteja aí uma das maiores lições da astronomia moderna: o Universo não diminui porque ainda não o compreendemos; nós é que descobrimos, a cada avanço, o tamanho da nossa própria ignorância.
Diante de bilhões de galáxias, de mundos ainda desconhecidos e de leis cósmicas cuja profundidade mal começamos a compreender, a atitude mais racional não é afirmar que já sabemos tudo.
É manter a mente aberta e investigar, questionar e, sobretudo, contemplar o Universo com a humildade de quem reconhece que o Infinito jamais caberá inteiramente nos limites da inteligência humana.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte primeira, cap. I, questões 1 e 4.
KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. II — Deus, itens 8-19.
XAVIER, Francisco Cândido. Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.
DAVIES, Paul. Deus e a Nova Física. Lisboa: Edições 70.









