Jorge Hessen
Brasília -DF
A vulnerabilidade não é fraqueza: reconhecer nossas emoções constitui um passo importante para o autoconhecimento e a renovação interior.
Na dinâmica da existência, as lágrimas podem persistir durante uma noite inteira, mas o amanhecer poderá trazer novas esperanças. Chorar não resolve todos os problemas, mas pode ajudar-nos a reconhecer sentimentos, aliviar tensões e buscar o acolhimento de que necessitamos.
A pesquisa psicológica reconhece que o choro humano possui funções emocionais e sociais, podendo comunicar sofrimento, despertar empatia e favorecer a aproximação entre as pessoas. Entretanto, seus efeitos variam conforme as circunstâncias, e não se deve presumir que toda manifestação de lágrimas produza alívio imediato (GRAČANIN; BYLSMA; VINGERHOETS, 2018).
Precisamos abandonar a ideia equivocada de que chorar representa fraqueza. A repressão sistemática dos sentimentos pode dificultar o reconhecimento das próprias necessidades e prejudicar os relacionamentos. Não significa, porém, que devamos exteriorizar indiscriminadamente todas as emoções, mas aprender a identificá-las e expressá-las com equilíbrio.
A tristeza não deve ser confundida com depressão. A primeira é uma emoção humana, frequentemente passageira; a segunda é uma condição de saúde mental que pode envolver tristeza persistente, perda de interesse, alterações do sono e do apetite, fadiga e dificuldades de concentração. Quando os sintomas persistem, comprometem a vida cotidiana ou provocam sofrimento intenso, precisamos procurar ajuda profissional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023).
Jesus também chorou. Diante da morte de Lázaro, emocionou-se profundamente (João 11:35). No Getsêmani, experimentou intensa angústia (Mateus 26:36-39). Essas passagens evangélicas recordam-nos que a grandeza espiritual não exige insensibilidade, tampouco a negação da dor humana.
Sob a perspectiva espírita, compreendemos que a vulnerabilidade pode integrar nosso processo de aperfeiçoamento moral. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec examina a consolação diante das aflições e a confiança na continuidade da vida. Essa compreensão, contudo, não autoriza atribuir automaticamente às lágrimas causas mediúnicas ou espirituais. Chorar, por si só, não comprova a presença de Espíritos nem constitui diagnóstico de qualquer fenômeno mediúnico.
Precisamos, portanto, abandonar as máscaras do orgulho e da autossuficiência. Quantas vezes escondemos nossas inseguranças enquanto julgamos severamente os outros? Quantas vezes disfarçamos nossas angústias com irritação, agressividade ou uma aparente felicidade?
O autoconhecimento exige coragem para reconhecer nossas imperfeições sem nos condenarmos por elas. A fé espírita, compreendida racionalmente, não nos convida a negar o sofrimento, mas a enfrentá-lo com responsabilidade, esperança e disposição para aprender.
Quando alguém chora diante de nós, evitemos a frase automática: “Não chore!”. Talvez seja mais fraterno oferecer silêncio respeitoso, escuta sincera e um abraço, quando desejado. Acolher não significa resolver imediatamente a dor alheia, mas demonstrar que ninguém precisa atravessá-la em completo isolamento.
Choremos, se as lágrimas vierem. Busquemos ajuda quando necessário. Cultivemos a solidariedade e aprendamos com nossas experiências.
A verdadeira força não consiste em jamais chorar, mas em reconhecer nossas emoções, acolher nossas fragilidades e prosseguir trabalhando pela própria renovação. Assim, transformaremos a dor em aprendizado, a empatia em fraternidade e a esperança em compromisso com a vida.
Referências Bibliográficas:
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. João 11:35; Mateus 26:36-39.
GRAČANIN, Asmir; BYLSMA, Lauren M.; VINGERHOETS, Ad J. J. M. Why only humans shed emotional tears: evolutionary and cultural perspectives. Human Nature, v. 29, p. 357-377, 2018.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, [2009].
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Depressive disorder (depression). Geneva: WHO, 2023.









