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  • 22 março 2026

    O Espiritismo e a democracia real

    Jorge Hessen

    Brasília -DF


    Atualmente  em nome da liberdade, da ordem ou da Constituição brasileira, têm-se sacrificado direitos, silenciado vozes discordantes e estabelecido uma forma de controle que, embora se apresente aparentemente como necessária, culmina por limitar a própria dignidade da cidadania  brasileira.

    Quando qualquer autoridade — seja política, administrativa ou judicial — ultrapassa os limites naturais de sua competência, cria-se um desequilíbrio perigoso. A segurança jurídica enfraquece, a confiança nas instituições diminui e o cidadão passa a sentir que já não vive sob regras claras, mas sob interpretações variáveis conforme interesses ideológicos ou circunstâncias.

    O Brasil atravessa um período de grave tensão institucional, no qual decisões do Supremo Tribunal Federal têm sido interpretadas por grande parte da sociedade como excessivas e incompatíveis com o espírito da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

    Embora o país permaneça “formalmente” dentro de um regime constitucional, cresce, em diversos setores, a percepção de restrição de liberdades, de judicialização da política e de enfraquecimento do equilíbrio entre os poderes, o que gera preocupações legítimas quanto à soberania, à segurança jurídica e ao “futuro” da alquebrada democracia brasileira.

    A Constituição de 1988 foi concebida sob o ideal de separação e harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário, princípio inspirado na teoria clássica da divisão dos poderes que baseia-se na separação tripartite de Montesquieu, consagrada pela Constituição Federal de 1988

    Tal estrutura visa impedir a concentração excessiva de autoridade em um único órgão do Estado, garantindo que cada poder exerça suas funções dentro de limites definidos.

    Quando decisões judiciais passam a ocupar espaço predominante no debate político, surge o fenômeno conhecido como judicialização, que, embora previsto em um Estado de Direito, tem gerado tensões em face da percepção da substituição da vontade popular expressa pelo Legislativo.

    Nos últimos  anos, parte da sociedade tem interpretado determinadas decisões do STF como expansivas , inovadoras ou extrapolantes em relação ao texto constitucional, especialmente em temas sensíveis envolvendo liberdade de expressão, atuação das redes sociais, investigações de autoridades e conflitos entre poderes. Para juristas “AVERMELHADOS”, trata-se do exercício “legítimo” da função de guardião da Constituição; para a maioria sensata, já está ocorrendo o ativismo judicial, em que o STF tem assumido papel mais amplo do que o tradicionalmente previsto.

    Esse cenário tem produzido um ambiente de polarização institucional, no qual a confiança nas instituições tem sido afetada. A democracia constitucional depende não apenas da existência formal das leis, mas também da percepção coletiva de que elas são aplicadas com equilíbrio, previsibilidade e respeito aos limites de cada poder.

    Quando essa confiança se fragiliza, surgem debates intensos sobre legitimidade, competência e alcance das decisões judiciais. É verdade que o Brasil continua sendo uma república constitucional, com eleições , liberdade de organização política e funcionamento formal das instituições. Entretanto, a coexistência entre legalidade formal e sensação social de instabilidade jurídica não é comum em democracias contemporâneas consolidadas.

    Diante desse quadro, o desafio central consiste em preservar o Estado de Direito, fortalecer a harmonia entre os poderes e garantir que a Constituição de 1988 continue sendo interpretada como instrumento de equilíbrio, e não de concentração cavalar de poder.

    O debate público, quando realizado com responsabilidade, respeito às instituições e compromisso com a verdade jurídica, é parte essencial desse processo e constitui um dos pilares da própria democracia real e não a de faz de conta.

    O combate à decadência moral não se faz com violência nem com intolerância, mas com lucidez, coragem intelectual e fidelidade aos princípios espirituais. É necessário reafirmar a existência de Deus, a imortalidade da alma e a responsabilidade de cada indivíduo por seus atos. Sem esses fundamentos, qualquer sistema — seja político, econômico ou cultural — corre o risco de transformar-se em instrumento de dominação, e não de libertação.

     A relação entre o Espiritismo e a democracia é profunda, pois ambos se fundamentam em princípios como liberdade de consciência, responsabilidade individual, igualdade essencial entre os seres humanos e progresso moral da sociedade. A doutrina codificada por Allan Kardec não propõe um sistema político específico, mas apresenta valores éticos que se harmonizam de forma natural com o ideal democrático.

    O Espiritismo nasceu sob o signo da liberdade. A democracia, por sua vez, baseia-se na liberdade de opinião, de expressão e de escolha. Assim, o espírita coerente deve defender o direito de todos pensarem diferente, pois o progresso espiritual depende da experiência e do livre-arbítrio. Essa visão elimina justificativas para sistemas políticos baseados em castas, tiranias ou na dominação de grupos.

    O Espiritismo não aceita a ideia de fatalismo social. Cada indivíduo é responsável por seus atos, e a coletividade reflete o nível moral de seus membros. Por isso, a democracia não pode funcionar sem cidadãos conscientes.

    O espírita é chamado a agir com ética, honestidade e respeito às leis, lembrando que toda ação gera consequências, segundo a lei de causa e efeito.

    Chico Xavier ensinava que a transformação do mundo começa na transformação moral de cada pessoa. Sem renovação íntima, nenhum sistema político consegue produzir justiça verdadeira.

    É importante destacar que o Espiritismo não é partido, não é ideologia e não é instrumento de poder.

    Ele não pertence à direita, nem à esquerda, nem a qualquer projeto de dominação. A função da doutrina é iluminar consciências, não controlar governos.

    O Espiritismo alerta que leis humanas, por si sós, não garantem justiça. Sem valores morais, a democracia pode degenerar em corrupção, manipulação, populismo ou tirania disfarçada.

    A verdadeira liberdade exige responsabilidade, e a verdadeira igualdade exige fraternidade. Por isso, a contribuição espírita para a sociedade não é impor regras, mas formar consciências mais maduras, capazes de construir uma civilização mais justa.

    Espiritismo e democracia se aproximam porque ambos valorizam: liberdade de consciência , igualdade entre os seres humanos ,responsabilidade individual ,progresso moral da humanidade  e respeito à dignidade da pessoa. Porquanto, sem moral , a democracia se perde; sem liberdade, o espírito não evolui; sem fraternidade, a sociedade se desintegra.

    O Espiritismo, portanto, não é um sistema político, mas uma filosofia espiritual que oferece bases éticas para que qualquer democracia seja mais humana, mais justa e mais duradoura.

     

     


    21 março 2026

    Perdoar não é esquecer mas impede que o "passado" destrua o presente e o "futuro"

     


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A frase “perdoar, mas ninguém esquece” expressa uma compreensão mais profunda e madura sobre o perdão, distinguindo-o da simples amnésia emocional. Durante muito tempo, difundiu-se a ideia ingênua de que perdoar seria apagar completamente a lembrança da ofensa, como se a mente humana pudesse eliminar voluntariamente registros dolorosos. Entretanto, tanto a psicologia contemporânea quanto a Doutrina Espírita ensinam que o perdão verdadeiro não consiste em esquecer, mas em libertar-se do ressentimento associado ao fato vivido.

    No campo psicológico, o perdão é compreendido como um processo de reorganização emocional. A memória permanece, porque faz parte da estrutura psíquica do indivíduo, mas a carga afetiva negativa pode ser transformada. A lembrança deixa de ser uma ferida aberta e passa a ser apenas uma cicatriz. A cicatriz recorda o ocorrido, porém já não provoca a mesma dor. Assim, perdoar não significa negar o passado, mas retirar dele o poder de continuar ferindo o presente.

    A Doutrina Espírita apresenta entendimento semelhante, porém mais profundo, ao tratar o perdão como conquista moral do Espírito em evolução. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, instrui que o verdadeiro perdão é aquele que não guarda rancor nem desejo de vingança, mas isso não implica esquecer o fato ocorrido. O esquecimento absoluto não depende da vontade, pois a memória é patrimônio da alma imortal. O que se exige do homem é dominar as paixões e substituir o ressentimento pela compreensão. Portanto,  perdoar os inimigos é sinal de superioridade moral, porque demonstra que o Espírito já não se deixa escravizar pelo orgulho e pelo ódio.

    Também Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, explica que o sofrimento moral, quando não superado, prende o indivíduo a vibrações inferiores, retardando seu progresso espiritual. O perdão, nesse contexto, é libertação íntima. Não se trata de absolver o erro alheio, mas de impedir que o mal recebido continue produzindo novos males dentro de nós. Guardar rancor é prolongar indefinidamente a agressão sofrida.

    Nas obras literárias de  Emmanuel, encontra-se a orientação de que o perdão é disciplina da alma. Mas  esquecer completamente as ofensas seria incompatível com a própria experiência evolutiva, pois a memória também serve de aprendizado. O importante é lembrar sem revolta, transformando a recordação em lição, e não em motivo de amargura.

    Sob esse ponto de vista, a frase “perdoar, mas ninguém esquece” não é sinal de fraqueza, e sim de maturidade. O esquecimento profundo pode até ocorrer com o tempo, por mecanismos naturais da mente, mas não é condição para o perdão. O que realmente importa é cessar o vínculo emocional negativo que mantém o indivíduo preso ao passado.

    Perdoar não significa negar a injustiça, nem aceitar o erro, nem manter convivência obrigatória com quem feriu. Perdoar é escolher não carregar o peso do ressentimento. É um ato de autocuidado, de equilíbrio psicológico e de elevação espiritual. Quem não perdoa conserva a ferida aberta; quem perdoa permite que ela cicatrize. A cicatriz permanece na memória, mas já não domina o coração.

    Portanto, à luz da psicologia e do Espiritismo, perdoar é lembrar sem dor, é libertar-se sem negar a experiência, é seguir adiante sem carregar correntes invisíveis. O perdão não apaga o passado, mas impede que o passado destrua o futuro.


    Referências Bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

    DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: FEB, 2018.

    XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte viva. Brasília: FEB, 2016.

    20 março 2026

    ​“Meu corpo, minhas regras?” O aborto provocado é crime ante o Código Moral de Lei


     



    A questão do aborto, à luz da Doutrina Espírita, não admite interpretações relativistas quando analisada sob o prisma dos princípios fundamentais codificados por Allan Kardec.

    O Espiritismo afirma, de forma categórica, que a vida começa na concepção, momento em que o Espírito inicia o processo de ligação ao corpo físico, dando início a uma experiência reencarnatória previamente planejada no mundo espiritual.

    No Livro dos Espíritos, questão 344, ensina-se que a união da alma ao corpo começa na concepção, razão pela qual a interrupção voluntária da gestação constitui grave infração às leis divinas, por impedir a realização de uma existência necessária ao progresso do Espírito.

    A Doutrina Espírita não trata o aborto como simples questão de escolha individual, mas como tema profundamente vinculado à Lei de Causa e Efeito. Conforme explica Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, a existência corporal é oportunidade concedida pela Justiça Divina para reparação e aprendizado. Impedir essa oportunidade, deliberadamente, significa criar débitos morais que inevitavelmente exigirão reajuste futuro, pois ninguém frustra impunemente as leis que regem a evolução do Espírito.

    Na  literatura  de André Luiz, encontram-se descrições detalhadas do processo reencarnatório, demonstrando que o retorno à vida física envolve planejamento cuidadoso, assistência espiritual e compromissos assumidos antes do nascimento. Em tais relatos, a interrupção da gestação aparece como fator de profundo sofrimento, não apenas para o Espírito impedido de renascer, mas também para os envolvidos, que mais tarde enfrentarão consequências morais e psicológicas decorrentes do ato.

    De modo igualmente rigoroso, o Espírito Manoel Philomeno de Miranda descreve o aborto provocado como prática que gera graves perturbações espirituais, favorecendo processos obsessivos e estados de sofrimento prolongado, tanto no plano físico quanto no espiritual. Tais narrativas não têm caráter de ameaça, mas de advertência moral, mostrando que toda violação da lei natural produz efeitos inevitáveis.

    Também o Espírito Emmanuel ensina que a maternidade e a paternidade são compromissos espirituais assumidos antes da reencarnação, não sendo fruto do acaso. Em diversas mensagens, ressalta que o filho que chega ao lar é, muitas vezes, instrumento de reconciliação, resgate ou aprendizado, e que rejeitá-lo deliberadamente significa recusar oportunidade valiosa de crescimento moral.

    As instruções do Espírito Bezerra de Menezes seguem a mesma linha, afirmando que a defesa da vida desde a concepção constitui dever moral inalienável, devendo o espírita agir com firmeza doutrinária, mas sem fanatismo, oferecendo esclarecimento, amparo e orientação, jamais condenação cruel.

    Importa destacar que o Espiritismo admite exceção apenas em casos extremos, quando a vida da mãe está em risco, conforme questão 359 do Livro dos Espíritos. Fora disso, a interrupção voluntária da gravidez é considerada violação da Lei Divina, por impedir a realização de um programa reencarnatório necessário ao progresso do Espírito.

    Assim, a posição espírita contrária ao aborto não se baseia em imposição religiosa, mas em princípios racionais como a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e efeito e a finalidade educativa da existência. À luz desses fundamentos, o aborto provocado configura grave responsabilidade moral, cujas consequências acompanham o Espírito até que o equilíbrio seja restabelecido pela dor da reparação e pelo aprendizado.

     

    Referências Bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB.

    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB.

    DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB.

    XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB.

    FRANCO, Divaldo Pereira. Nos Bastidores da Obsessão. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL.

    XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

    MENEZES, Bezerra de. Mensagens espirituais diversas. Rio de Janeiro: FEB.

    Pornografia e desequilíbrio moral numa breve reflexão espírita

     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    O dicionário define pornografia como representação que fere o pudor e os bons costumes. A sexualidade, entretanto, acompanha a humanidade desde tempos longínquos. Registros arqueológicos mostram imagens de nudez e de conjunção carnal desde a pré-história, muitas vezes com significado ritualístico ou simbólico. Na atualidade, porém, a pornografia perdeu qualquer conotação espiritual e transformou-se em poderosa indústria voltada à exploração do instinto, amplamente difundida pela internet, pelo cinema e pelas redes sociais.

    A Doutrina Espírita ensina que os instintos são necessários à conservação da vida, mas devem ser disciplinados pela razão. Conforme adverte Allan Kardec, o abuso das paixões aproxima o homem da animalidade e o afasta de sua destinação espiritual (KARDEC, 2013). O sexo, quando reduzido a objeto de excitação contínua, perde sua função elevada e passa a gerar perturbações morais e emocionais.

    Estudos modernos indicam que o consumo compulsivo de pornografia pode produzir dependência psíquica, dificultando relacionamentos afetivos equilibrados. A visão espírita confirma tal realidade ao afirmar que o pensamento cria estados vibratórios que influenciam o comportamento. Segundo Léon Denis, a mente é campo de forças que atrai entidades em sintonia com nossos desejos; pensamentos inferiores aproximam Espíritos igualmente inferiores, fortalecendo tendências viciosas (DENIS, 2012).

    A literatura mediúnica reforça esse ensinamento. O espírito Emmanuel, pela mediunidade de Chico Xavier, ensina que o pensamento é energia viva, capaz de criar hábitos e determinar destinos. A invigilância mental abre campo para influências perturbadoras, enquanto a disciplina interior favorece o equilíbrio (EMMANUEL, 2006). O abuso das excitações sensoriais, portanto, não é apenas problema social, mas também espiritual.

    O educador espírita Eurípedes Barsanulfo destacava que a formação moral começa no lar. Pais que não vigiam a própria conduta dificilmente conseguirão orientar os filhos. A exposição precoce de crianças e adolescentes a conteúdos erotizados compromete o desenvolvimento emocional e favorece vícios difíceis de corrigir.

    Sob a ótica espiritual, a pornografia pode favorecer processos obsessivos. Espíritos ainda presos às sensações materiais encontram sintonia em pensamentos lascivos, estimulando imagens e desejos que se repetem, formando verdadeiro circuito de dependência. A libertação exige vigilância, educação moral e cultivo de ideias elevadas.

    A sociedade contemporânea vive a banalização da sexualidade, convertida em espetáculo permanente. A arte e os meios de comunicação frequentemente substituem valores estéticos pela exploração do corpo, e a pornografia tornou-se mercado altamente lucrativo, muitas vezes associado à exploração humana. Diante desse quadro, a omissão representa grave responsabilidade.

    Emmanuel ensina que o pensamento gera atitudes, hábitos e destinos (EMMANUEL, 2006). Se a mente se fixa em imagens degradantes, cria desequilíbrio; se se eleva, constrói harmonia. O Evangelho de Jesus permanece como roteiro seguro, convidando ao domínio das paixões e ao respeito ao próximo.

    A liberdade não dispensa responsabilidade. A Doutrina Espírita recorda que a felicidade verdadeira nasce do equilíbrio entre instinto e consciência, entre desejo e dever. Educar a sexualidade, sem repressão e sem libertinagem, é caminho necessário para o progresso moral do indivíduo e da sociedade.


    Referências Bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013.

    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

    DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2012.

    XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Pensamento e Vida. Brasília: FEB, 2006.

    XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Vida e Sexo. Brasília: FEB, 2010.

    BARSANULFO, Eurípedes. Lições de Moral Cristã. Uberaba: edições diversas.

     

    18 março 2026

    Perversas cartas “consoladoras” e a necessidade de responsabilidade à luz da legislação brasileira

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    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    No Brasil há um fenômeno perturbador: mães enlutadas, devastadas pela perda de filhos, sendo iludidas por supostas comunicações mediúnicas produzidas por pessoa que se apresenta  como “intermediária” do além, mas que, na realidade, utiliza informações obtidas em redes sociais e bancos de dados digitais para simular mensagens espirituais.

     Trata-se de prática moralmente repugnante e juridicamente questionável, que pode ser compreendida como verdadeiro estelionato do luto, pois explora o sofrimento extremo para obtenção de fama, prestígio ou vantagens materiais.

    É verdade que a Constituição Federal brasileira assegura a liberdade religiosa (art. 5º, VI), garantindo o livre exercício dos cultos e das crenças. Mas tal garantia não pode ser confundida com autorização para fraude. A própria ordem constitucional estabelece que ninguém está acima da lei e que a liberdade termina quando começa o direito do outro, especialmente quando há dano moral, exploração da vulnerabilidade e obtenção de vantagem indevida.

    No campo penal, diversas condutas relacionadas a falsas práticas mediúnicas podem ser enquadradas no Código Penal brasileiro, especialmente no art. 171, que define o crime de estelionato como obter vantagem ilícita mediante fraude. Dependendo do caso, também podem ser considerados os crimes de charlatanismo (art. 283), quando alguém promete resultados extraordinários por meios supostamente sobrenaturais com finalidade de lucro ou engano.

    Quando a fraude envolve uso de dados pessoais retirados de redes sociais para simular comunicações espirituais, pode-se cogitar ainda responsabilidade civil por dano moral e violação da boa-fé objetiva.

    Do ponto de vista doutrinário, tais práticas são frontalmente incompatíveis com o Espiritismo codificado por Allan Kardec. Em O Livro dos Médiuns, Kardec advertiu repetidas vezes contra a mistificação e contra o uso leviano da mediunidade. Para o Codificador, a mediunidade é faculdade séria, que exige estudo, moralidade e desinteresse material. Ele afirma que as comunicações devem ser analisadas com rigor e que a credulidade cega favorece a ação de mistificadores, encarnados e desencarnados.

    Kardec ensina que a primeira garantia contra o engano é o controle racional das comunicações, recomendando que nenhuma mensagem seja aceita sem exame criterioso. O Codificador também alertou que os Espíritos superiores não se prestam a espetáculos, nem a satisfazer curiosidades pessoais, muito menos a alimentar vaidades ou interesses financeiros. Quando alguém transforma a dor de famílias em instrumento de projeção pessoal, está em evidente desacordo com os princípios espíritas mais elementares.

    Além do aspecto doutrinário, existe uma dimensão ética profunda. O luto é um estado de extrema fragilidade emocional. A pessoa que perdeu um filho encontra-se em condição psicológica vulnerável, muitas vezes disposta a acreditar em qualquer promessa de reencontro ou mensagem consoladora. Aproveitar-se dessa situação para produzir falsas comunicações constitui grave violação da dignidade humana, podendo gerar danos psíquicos ainda maiores do que a própria perda.

    Por essa razão, cresce no meio jurídico a discussão sobre a necessidade de tipificação mais clara de condutas que envolvam exploração do sofrimento, fraude emocional e manipulação da fé. Embora o ordenamento jurídico já permita punição em casos comprovados de estelionato, a dificuldade probatória em situações que envolvem religião e mediunidade frequentemente impede a responsabilização dos culpados. A liberdade religiosa não pode servir de escudo para práticas fraudulentas, assim como a dor alheia não pode ser transformada em instrumento de notoriedade.

    O Espiritismo sério jamais autorizou espetacularização da mediunidade, nem comércio de mensagens, nem exploração do sofrimento humano. Ao contrário, a obra kardeciana insiste na necessidade de prudência, estudo e responsabilidade moral. Defender a verdade doutrinária, denunciar abusos e exigir respeito à lei não é intolerância religiosa; é dever ético de todo espírita consciente e de todo cidadão comprometido com a dignidade humana.

    Se o Estado deve proteger a liberdade de crença, deve também proteger os vulneráveis contra a fraude. Quando a mediunidade é usada para consolar com sinceridade, cumpre função nobre. Quando é usada para enganar mães enlutadas, transforma-se em instrumento de violência moral. E violência moral, em qualquer sociedade que se pretenda justa, não pode permanecer impune.

    Referências Bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

    BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

    BRASIL. Código Penal Brasileiro. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940.

    17 março 2026

    Espíritas "carolas" e suas "rezações" quilométricas cansativas


     

    Sei que  os chamados “espíritas carolas” — aqueles que desejam transformar qualquer situação em prece (“rezação” comprida), reunião de vibrações— não são temas novos dentro do movimento espírita.

    O próprio Allan Kardec advertiu diversas vezes contra o excesso de formalismo, de misticismo e de práticas mecânicas, que acabam afastando o Espiritismo de sua proposta racional e educativa.

    Óbvio que o problema não está na prece em si, mas no uso exagerado, automático e emocionalmente dependente da “rezação” (um rosário completo), como se ela fosse solução mágica para tudo.

    Allan Kardec jamais defendeu prática de rezas intermináveis (cansativas). O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVII, ensina que a prece deve ser simples, sincera e consciente, e não longa, repetitiva ou teatral. Pois que a eficácia da prece está no sentimento, não na quantidade de palavras.

    Também no Livro dos Médiuns, Kardec alerta contra práticas que aproximem o Espiritismo do ritualismo religioso, dizendo que a doutrina não deve criar cerimônias, fórmulas ou hábitos mecânicos e vazios de sentido.

    Em boa lógica o querer transformar tudo em rezação caracteriza insegurança espiritual do rezador, além da dependência emocional, da falta de estudo, com certeza da influência do catolicismo devocional ou do pentecostalismo emocional e jamais característica de  elevação no moral do rezador.

    Muitos companheiros utilizam a oração como mecanismo de fuga da responsabilidade pessoal. Em vez de refletir, estudar, decidir e agir, prefere-se rezar para que tudo se resolva sozinho. Mas o Espírito Emmanuel ensina, em O Consolador, que a prece é recurso valioso, mas não substitui o esforço individual. Segundo ele, a oração sem ação pode se tornar simples hábito verbal (“inútil”).

    O mesmo pensamento aparece em Léon Denis, que advertia que o Espiritismo não veio restaurar práticas devocionais, mas educar a consciência. De outra forma transforma-se em um  “espiritismo carola”.

    Esse comportamento gera vários problemas dentro dos centros espíritas do tipo: reuniões cansativas e improdutivas, afastamento de jovens e estudiosos, clima de misticismo exagerado, substituição do estudo pela devoção (rezação), ilusão de “santidade” sem transformação moral.

    Kardec legou-nos uma Doutrina séria, racional, sem rituais, sem fórmulas, sem fanatismo.

    Quando tudo vira rezação, o Espiritismo começa a parecer aquilo que ele veio renovar. Em face disso, alguns caminhos coerentes com Kardec são urgentes , ou seja, valorizarmos o estudo doutrinário, pois que o Centro espírita que não estuda vira igreja improfícua. Nas horas das preces fazê-las curtas e objetivas sem discursos, sem teatralização, sem improvisos intermináveis.

    Devemos evitar prece para tudo, nem tudo exige vibração coletiva, pois muitas coisas exigem bom senso.

    Ademais, a prece ajuda, mas não faz o trabalho por nós. O excesso de preces não é sinal de mais espiritualidade. Muitas vezes, é sinal de insegurança, de hábito religioso antigo ou de fuga da culpa. E não percamos o foco, pois se dependesse de Allan Kardec, o Espiritismo teria: menos rezação, menos sentimentalismo piegas, menos formalismo, mais estudo, mais consciência e mais transformação moral.

    Ao ler este meu artigo, algum rezador, com certeza, terá o impulso de rezar por mim, pois devo estar obsidiado.

    É mole?

     

    16 março 2026

    É coerente ser espírita e frequentar igrejas paralelamente ?


     

    Torna-se cada vez mais comum observar pessoas que se declaram espíritas, mas permanecem vinculadas ao catolicismo ou ao protestantismo, frequentando missas, cultos e, simultaneamente, reuniões em centros espíritas.

    Surge então a questão inevitável se é racional e plausível conciliar plenamente o Espiritismo com doutrinas que abjuram seus princípios fundamentais?

    Do ponto de vista da Codificação, a resposta exige seriedade, pois a Doutrina Espírita não foi estruturada como um sincretismo, mas como um corpo coerente de princípios filosóficos, morais e científicos.

    Segundo Allan Kardec, espírita não é apenas quem frequenta um centro, mas quem aceita as consequências morais e intelectuais da Doutrina, entre elas a reencarnação, a lei de causa e efeito, a comunicabilidade dos espíritos e a fé raciocinada (1). O Codificador  afirma que “reconhece-se o verdadeiro espírita e cristão pela sua transformação moral e pelo esforço que emprega para dominar suas más tendências” (2).

    Ora sabemos de sobejo que todas (isso mesmo TODAS!) as doutrinas cristãs tradicionais negam a reencarnação, condenam a mediunidade e sustentam a salvação única em uma só existência. Ora, conciliar tais sistemas com os princípios do Espiritismo produz contradição inconciliável.

    Léon Denis advertia que o Espiritismo não deve tornar-se um amontoado de crenças confusas, mas um ensinamento claro e progressivo (3).

    No contexto brasileiro, a dupla frequência religiosa muitas vezes nasce da insegurança espiritual. A pessoa procura vários templos para sentir “proteção”, não por convicção, mas por medo ou necessidade emocional.

    Emmanuel ensina que a fé precisa apoiar-se no raciocínio, para não se converter em superstição (4). Quando se aceitam simultaneamente ideias incompatíveis, a religião passa a ser consolo psicológico, não compreensão espiritual.

    Óbvio que o Espiritismo não obriga ninguém a abandonar sua religião de origem. Contudo, liberdade não significa ausência de coerência. Cada qual no seu “quadrado”. André Luiz lembra que ninguém se ilumina apenas mudando de ambiente, mas renovando a si mesmo (5). Frequentar muitos templos não substitui o esforço de reforma íntima.

    Bezerra de Menezes sempre defendeu fidelidade à Codificação, alertando que adaptações por conveniência pessoal enfraquecem a Doutrina. O Espiritismo ensina respeito a todas as crenças, mas não exige que se abandonem a razão e a coerência. (6)

    Ser espírita não é apenas simpatizar com ideias espirituais, mas aceitar uma visão de mundo baseada na responsabilidade moral e no progresso do espírito. Frequentar simultaneamente doutrinas que se contradizem pode ser compreensível como fase de “transição”, porém torna-se paradoxal quando se transforma em hábito permanente sem reflexão.

    O Espiritismo não impõe exclusividade, mas exige sinceridade. Porquanto , sem estudo, a fé vira superstição, tanto quanto sem coerência, a “religião” vira fuga.

     

    Referências Bibliográficas:

    1            KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

    2            KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2018.

    3            DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2012.

    4            XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2013.

    5            XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2015.

    6            MENEZES, Bezerra de. Doutrina e Vida. Brasília: FEB, 2010.

    14 março 2026

    As falsas “cartas consoladoras”, que têm arremessado no esgoto as autênticas práticas mediúnicas




    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    As recentes preocupações manifestadas pelo Presidente da Federação Espírita do Distrito Federal acerca da proliferação de mensagens mediúnicas de procedência espúria, especialmente as chamadas “cartas consoladoras”, convidam o movimento espírita brasileiro a uma reflexão séria, serena e profundamente doutrinária.

    Ora a prática mediúnica, por sua própria natureza, exige vigilância moral, critério racional e fidelidade aos princípios estabelecidos pela Codificação. Até porque o Espiritismo nunca ensinou que toda comunicação espiritual fosse autêntica. Ao contrário, desde o início, Allan Kardec advertiu que a mediunidade está sujeita a imperfeições, interferências ,  mistificações e charlatanismos.

    Em O Livro dos Médiuns, o codificador insiste na necessidade do exame rigoroso das comunicações, recomendando prudência diante de mensagens que apelam excessivamente à emoção ou que se apoiam apenas na autoridade do médium. O método do controle universal do ensino dos espíritos foi proposto exatamente para evitar que a fé se transformasse em credulidade.

    As cartas consoladoras que Chico Xavier psicografava ocupavam lugar sensível dentro da vivência espírita, pois se dirigiam a corações feridos pela perda de entes queridos e representavam fonte legítima de conforto e esperança.

    Mas atualmente falsos e infelizes médiuns produzem paródia de “cartas consoladoras” sem o devido critério, cercadas de interesses pessoais, institucionais e ou financeiros, e têm causado grave dano moral, tanto às famílias quanto à própria credibilidade da doutrina.

     A dor humana não pode ser instrumento de projeção pessoal, nem de afirmação de autoridade espiritual. Até porque em diferentes momentos da história do Espiritismo no Brasil, questionamentos sobre fenômenos mediúnicos deram origem a conflitos internos e até a disputas judiciais.

    Nesses episódios, três princípios igualmente legítimos entram em tensão: a liberdade religiosa, o direito de crítica e investigação e a proteção da honra e da imagem de todos os envolvidos. É natural que divergências existam; o que não é aceitável é que a pesquisa dos fenômenos autênticos  seja execrada e o pesquisador honesto seja intimidado com os abjetos assédios judiciais.

    Os recursos frequentes das ações judiciais em controvérsias dessa natureza merecem reflexões. A defesa da honra é direito inquestionável, mas o Espiritismo sempre se afirmou como doutrina que se sustenta pelo esclarecimento e não pela imposição. Quando o exame crítico (a pesquisa séria) passa a ser interpretado como agressão, perseguição e incitação à violência , corre-se o risco de criar a política da mordaça que favorece a perpetuação do charlatanismo das ignóbeis e falsas “cartas consoladoras”. A lógica sussurra que a honestidade mediúnica , quando acompanhada de boa-fé, não teme investigação.

    Este momento deve ser compreendido como oportunidade de amadurecimento coletivo. Preservar a pureza dos princípios espíritas não significa negar fenômenos, mas submetê-los ao critério da razão e da moral.

    A confiança do público na mediunidade espírita foi construída ao longo de décadas por meio de trabalho sério, desinteressado e disciplinado. Essa confiança não pode ser arremessada na tubulação do esgoto por práticas que não resistam ao exame honesto.

    Que este momento seja, portanto, não motivo de escândalo, mas de vigilância e renovação. Como ensinou Kardec, a solidez da doutrina não está na ausência de críticas, mas na capacidade de enfrentá-las com equilíbrio, honestidade e fidelidade aos seus próprios princípios. Somente assim a mediunidade  autêntica continuará sendo instrumento de consolo real, e não de inquietação para as consciências.

     

    12 março 2026

    “Cartas consoladoras” que formatam os Chico’s e Chica’s Xavier’es “paraguaios” no Brasil

     




    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

     

    Persistirei no tema que para mim é extremamente grave sobre as assombradoras falsas cartas consoladoras.  Relembro que na atualidade, a ampla exposição de dados pessoais nas redes sociais e nos bancos de dados virtuais criou um ambiente propício para novas formas de mistificação, mormente no movimento espírita brasileiro. Informações como nomes, fotografias, preferências, vínculos familiares e registros públicos são divulgadas com facilidade na internet e estão sendo utilizadas de maneira vil por pessoas mal-intencionadas que se apresentam como “médiuns” (padrão Chico(a) Xavier  da Disneylândia).

    Tais recursos virtuais têm favorecido a atuação de farsantes da sagrada mediunidade  que produzem comunicações (recados) artificiais, elaboradas a partir de dados previamente obtidos nas redes sociais, simulando mensagens de parentes desencarnados. O problema é gravíssimo, porquanto as supostas “psicografias” são dirigidas a pessoas enlutadas, explorando de forma desumana a fragilidade emocional em nome de um falso consolo ou de um estelionato do luto.

    Segundo Allan Kardec, a primeira garantia contra o erro nas comunicações espirituais é o uso da razão e do exame rigoroso. Em O Livro dos Médiuns, o Codificador adverte que a mediunidade está sujeita à mistificação e que nem todos os que se dizem médiuns o são de fato, recomendando prudência, controle e verificação constante das mensagens. Kardec afirma que a credulidade irrefletida abre caminho para abusos e compromete a seriedade da Doutrina Espírita. (1)

    Também Léon Denis ensina que a mediunidade é faculdade respeitável, mas pode ser desvirtuada quando associada à vaidade ou ao interesse material. Em suas obras, Denis alerta que o verdadeiro médium deve agir com humildade, desinteresse e responsabilidade moral, pois a exploração do fenômeno mediúnico conduz ao descrédito da causa espírita.(2)

    No mesmo sentido, Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, recorda que a mediunidade é tarefa de serviço e renúncia, jamais instrumento de promoção pessoal. O mentor espiritual ressalta que o trabalhador sincero não transforma a faculdade mediúnica em meio de lucro, nem busca notoriedade, mantendo disciplina moral e fidelidade aos princípios do Evangelho. (3)

    Diante disso, é dever dos líderes do movimento espírita manter vigilância permanente. A facilidade tecnológica não pode substituir o critério doutrinário. Mensagens mediúnicas devem ser analisadas com serenidade, confrontadas com os princípios da Codificação e observadas à luz da lógica e da moral espírita.

    É necessário separar o joio do trigo, reconhecendo que existem médiuns sérios e dedicados, mas também indivíduos que utilizam a aparência de mediunidade para obter vantagens materiais ou prestígio pessoal nas redes sociais. A advertência de Kardec permanece atual: sem exame, sem controle e sem bom-senso, a mediunidade pode transformar-se em instrumento de engano.

    Assim, devemos denunciar as fraudes, esclarecer os confrades e exigir fidelidade às obras básicas e isso não constitui atitude de intolerância, mas sim dever de consciência para com a Doutrina Espírita e para com todos aqueles que buscam nela consolo e verdade.

     

    Referências Bibliográficas:

     

    1          KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB.

    2          DENIS, Léon. No Invisível. Rio de Janeiro: FEB.

    3          XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

     

    11 março 2026

    Patocracia quando psicopatas chegam ao poder numa reflexão espírita


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

    A história humana registra inúmeros momentos em que sociedades inteiras foram conduzidas por líderes moralmente deformados. Guerras devastadoras, perseguições ideológicas, manipulação coletiva e corrupção sistêmica raramente surgem por acaso. Nos últimos anos, uma área de estudo chamada ponerologia tem procurado compreender esse fenômeno de forma científica.

    O principal sistematizador desse campo foi o psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski, que analisou como indivíduos com graves distúrbios de personalidade — especialmente psicopatas — conseguem infiltrar-se em estruturas políticas, administrativas e institucionais. Quando tais personalidades passam a dominar posições estratégicas, surge aquilo que ele denominou patocracia: um regime no qual pessoas moralmente patológicas governam e moldam a sociedade segundo sua própria psicologia.

    Nesse ambiente, valores como empatia, verdade e responsabilidade tornam-se obstáculos. A mentira transforma-se em método político. A manipulação psicológica torna-se estratégia de poder. Pessoas equilibradas passam a ser afastadas ou desmoralizadas, enquanto indivíduos com perfil manipulador e frio ascendem rapidamente na hierarquia.

    Quando observamos muitas crises políticas contemporâneas — marcadas por corrupção estrutural, polarização artificial, propaganda ideológica e desprezo pela dignidade humana — a análise ponerológica torna-se inquietantemente atual. Não se trata apenas de divergências políticas, mas de uma possível deterioração moral das elites dirigentes.

    Curiosamente, muito antes de existir a ponerologia, a Doutrina Espírita já advertia sobre os efeitos sociais da inferioridade moral dos indivíduos que ocupam posições de poder.

    Allan Kardec explicou em O Livro dos Espíritos que a humanidade terrestre ainda se encontra em estágio moral imperfeito, dominado por paixões como orgulho, egoísmo e ambição. Kardec chega a afirmar que o egoísmo constitui a “chaga da humanidade”, responsável por grande parte das desordens sociais.

    Essa observação dialoga diretamente com o fenômeno descrito pela ponerologia: quando o egoísmo e a ausência de empatia dominam indivíduos em posições de comando, as instituições passam a refletir essas mesmas deformações morais.

    Léon Denis também advertiu que as civilizações entram em crise quando o poder se afasta da consciência moral. Em sua análise, sociedades decaem não apenas por fatores econômicos ou militares, mas principalmente pela corrupção ética das elites dirigentes.

    Já o espírito Emmanuel, nas obras psicografadas por Chico Xavier, ressalta que posições de autoridade representam provas espirituais severas. Quando espíritos ainda dominados pela vaidade e pela ambição alcançam o poder, transformam a autoridade em instrumento de dominação e prestígio pessoal.

    Sob essa perspectiva, o conceito moderno de patocracia encontra uma explicação mais profunda. Não se trata apenas de uma patologia psicológica individual, mas também de um problema moral e espiritual coletivo.

    Sociedades que ainda cultivam o egoísmo, o culto ao poder e a indiferença moral acabam criando o ambiente propício para a ascensão de líderes patológicos. Em outras palavras, a patocracia não nasce apenas no topo do poder — ela se alimenta das fragilidades morais da própria sociedade.

    Entretanto, a visão espírita acrescenta um elemento de esperança que muitas análises políticas ignoram: a lei do progresso. Segundo Kardec, a humanidade evolui gradualmente, e regimes baseados na mentira, na violência e na manipulação são inevitavelmente transitórios.

    Por isso, o verdadeiro antídoto contra a patocracia não reside apenas em reformas institucionais ou disputas partidárias. A solução profunda encontra-se na educação moral das consciências. Quanto mais indivíduos desenvolvem responsabilidade ética, empatia e senso espiritual da vida, menos espaço haverá para a ascensão de líderes dominados pela frieza moral.

    A história mostra que a patocracia pode dominar por algum tempo. Mas também demonstra que nenhuma estrutura fundada na perversão moral permanece indefinidamente diante do avanço da consciência humana.

    No fundo, a crise política é também uma crise espiritual da humanidade. E somente a renovação moral poderá transformá-la.

     

    ​ “Cartas consoladoras” fajutas, astúcias e assédio judicial no País da fantasia mediúnica


     

     

    Estamos convivendo e sobrevivendo com dois fenômenos opostos: de um lado, a busca sincera pela vivência do Evangelho; de outro, episódios lamentáveis de mistificação mediúnica com “cartas consoladoras” fabricadas com dados da internet . O que causa espanto, porém, é quando a fraude não se limita ao campo moral e passa a adotar estratégias de intimidação judicial contra quem ousa questioná-la.

    Tragicamente há indivíduos que se apresentam como “médiuns”, conquistam popularidade, mobilizam seguidores fanáticos e arrecadam recursos sob o argumento de manter “obras assistenciais”.

    Quando jornalistas espíritas, pesquisadores, estudiosos ou espíritas sérios , honrados e  estudiosos levantam dúvidas legítimas sobre a autenticidade das maracutaias das cartas consoladoras chinfrim, um nefasto estelionato do luto , a resposta não vem em forma de esclarecimento, transparência ou investigação séria. Surge, em vez disso, a tentativa de amordaçar o debate por meio de ameaças judiciais.

    Tal postura é profundamente contrária ao espírito da doutrina codificada por Allan Kardec. O Espiritismo nasceu justamente da investigação, do questionamento e do exame rigoroso dos fatos. Kardec jamais incentivou a aceitação cega de supostos fenômenos mediúnicos. Pelo contrário: no Livro dos Médiuns, ele adverte repetidamente que a mediunidade é terreno fértil tanto para manifestações legítimas quanto para mistificações e fraudes.

    A história demonstra que muitas vezes a mediunidade se associa à vaidade, ao personalismo ou à busca de projeção pública; em face disso, o risco de desvio moral cresce consideravelmente. A mediunidade, segundo, deve ser exercida com simplicidade, desinteresse material e profundo senso moral. Quando ela se transforma em instrumento de celebridade espiritual ou mecanismo de captação de recursos, já estamos diante de um sinal de alerta.

    Repito que o mais grave é quando se tenta transformar o debate doutrinário em caso de polícia ou tribunal. O recurso sistemático ao assédio judicial contra críticos e pesquisadores representa uma forma de intimidação incompatível com a própria natureza do Espiritismo.

    A verdade, quando autêntica, não teme investigação. Fenômenos genuínos resistem ao exame; fraudes, ao contrário, precisam do silêncio imposto pelo medo.

    Além disso, a própria ordem jurídica brasileira, fundada na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, garante simultaneamente a liberdade religiosa, a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão.

    Questionar práticas suspeitas ou denunciar possíveis abusos não constitui crime; ao contrário, pode representar um dever moral quando há risco de exploração da boa-fé das pessoas.

    O Espiritismo não é uma doutrina de credulidade passiva. Ele nasceu sob o signo da razão, da crítica e da responsabilidade moral. Defender esses princípios é preservar a própria integridade do movimento espírita.

    Quando a mediunidade se transforma em espetáculo, quando a fé se converte em instrumento de poder e quando a crítica é combatida com assédio judicial, algo está profundamente errado. Nesse momento, mais do que nunca, torna-se necessário recordar o princípio kardeciano fundamental: é preferível rejeitar dez verdades a aceitar uma única mentira.

    Pensemos nisso!