Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Na era da inteligência
artificial, do algoritmo e da informação instantânea, o Controle Universal
dos Ensinos dos Espíritos é mais necessário do que nunca.
Há algo intelectualmente
desconcertante em ouvir que o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos
teria perdido sua atualidade porque o mundo ingressou na era digital. Como se a
internet tivesse revogado Kardec. Não revogou. Se alguma coisa mudou, foi o
tamanho do problema: hoje circulam, em velocidade vertiginosa, milhões de
mensagens atribuídas a Espíritos, médiuns e supostas autoridades espirituais. Nunca
foi tão necessário separar ensino universal de opinião particular.
Kardec não criou o
Controle Universal para uma época específica. Criou um método
de aferição. Seu propósito era justamente impedir que o Espiritismo ficasse
refém da palavra de um médium, de um expositor ou de qualquer liderança humana.
Uma revelação isolada pode impressionar; uma opinião célebre pode seduzir; uma
mensagem viral pode arrastar multidões. Nada disso, porém, transforma uma ideia
em princípio doutrinário.
É exatamente aqui que
reside o equívoco daqueles que imaginam que a tecnologia tornou obsoleto o
método kardeciano. A internet multiplicou as vozes; não multiplicou
automaticamente as verdades.
O Controle Universal não
consiste em contar curtidas, visualizações, seguidores ou compartilhamentos.
Milhares de pessoas reproduzindo a mesma mensagem não representam milhares de
confirmações independentes. Podem representar apenas milhares de cópias da
mesma fonte.
O método é outro:
comparar comunicações obtidas por diferentes médiuns, em diferentes lugares e
circunstâncias; verificar a concordância substancial dos ensinos; confrontá-los
com a razão, a lógica e os princípios fundamentais da Doutrina.
É a convergência independente que confere peso ao ensino — não a celebridade de
quem o transmite.
E, na era da inteligência
artificial, isso se tornou ainda mais evidente. Hoje é possível produzir
textos, vozes, imagens e vídeos artificialmente convincentes. Informações
pessoais podem ser recolhidas nas redes sociais e reapresentadas como se fossem
revelações de cartas “consoladoras” . A aparência de autenticidade jamais foi
tão fácil de fabricar.
Por isso, justamente
agora, Kardec é mais atual do que nunca.
O Espiritismo não pode
transformar médium em oráculo, dirigente em autoridade infalível ou experiência
pessoal em dogma. Quem afirma algo em nome dos Espíritos deve aceitar o exame.
Quem realmente confia na verdade não teme o confronto das ideias.
A Doutrina Espírita
nasceu sob o signo da investigação, do livre exame e da razão. Não há lugar,
portanto, para uma espécie de monarquia mediúnica, na qual a palavra de uma
pessoa se torna suficiente para estabelecer aquilo que os Espíritos ensinam.
O verdadeiro espírita não
pergunta apenas: “Quem disse?” Pergunta, sobretudo: “Onde está a confirmação?
Qual é a concordância? O ensino é racional? É coerente com os princípios
espíritas? Outros médiuns, independentes daquela fonte, receberam orientação semelhante?”
Essa é a vacina contra o
personalismo.
Kardec não precisa ser
atualizado pela internet. É a internet que precisa ser submetida ao método de
Kardec. E quanto maior for o volume de mensagens espirituais despejadas
diariamente nas redes, maior deverá ser nossa responsabilidade em
submetê-las ao crivo da razão e ao Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos.
Porque uma coisa é
divulgar uma opinião. Outra, muito diferente, é pretender transformá-la em
ensinamento dos Espíritos.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira,
2019.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. A Gênese:
os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação
Espírita Brasileira, 2013.









