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Jorge Hessen
Brasília -DF
Há um comportamento cada vez mais enjoativo, entediante, fastidioso de alguns “PhDs” “kardequiólogos” apostando na transformação do Espiritismo numa estrutura rígida, engessada e quase medieval, na qual tudo aquilo que não foi literalmente pronunciado por Allan Kardec passa a ser automaticamente condenado como “não espírita”. Tal postura, além de intelectualmente rasa, pobre e medíocre, contradiz frontalmente o próprio método kardequiano.
Temos lido alguns textos propondo uma espécie de patrulhamento doutrinário em que alguns “PhDs kardequiólogos guardiões da pureza” repetem, como um mantra dogmático: “se Kardec não citou, não pertence ao Espiritismo”. Curiosamente, esses mesmos “míopes PhDs” esquecem que o Codificador jamais propôs uma doutrina estanque, petrificada ou encerrada em si mesma.
Em A Gênese, Kardec asseverou: “O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado.” A afirmação do Codificador é uma das mais extraordinárias demonstrações de humildade intelectual já feitas no campo religioso e filosófico.
Ainda em A Gênese, capítulo I, Kardec registra: “Se uma verdade nova se revelar, ele (o Espiritismo) a aceitará. Se uma nova descoberta demonstrar estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele (o Espiritismo) se modificará nesse ponto.” Essa declaração destrói completamente a pretensão dogmática dos PhDs ortodoxos que desejam transformar o Espiritismo num sistema fechado, inflexível e fossilizado.
As frases são devastadoras contra qualquer tentativa de congelamento doutrinário. Kardec não fundou uma seita arqueológica (dinossáurica) destinada à repetição mecânica de conceitos do século XIX. Ele estruturou uma filosofia libertária , progressiva, aberta ao avanço do conhecimento humano.
Quando alguns espíritas rejeitam histericamente qualquer aproximação entre Espiritismo e conceitos orientais como chakras ou karma, demonstram desconhecer tanto a universalidade da verdade quanto a própria metodologia kardequiana. Até porque Kardec não utilizou esses termos porque eram adventícios ao clássico ambiente cultural francês de sua época. Isso, porém, não significa inexistência de correspondências conceituais.
Kardec descreveu o perispírito como estrutura semimaterial, sensível ao pensamento, às emoções e às vibrações morais. Em várias passagens de O Livro dos Espíritos e A Gênese, encontramos referências às regiões do sentimento e da inteligência, associadas ao coração e ao cérebro, indicando funções psíquicas vinculadas ao organismo semimaterial.
Posteriormente, André Luiz aprofundaria essa questão ao abordar os “centros de força” em obras como Entre a Terra e o Céu. A semelhança com a percepção oriental dos chakras é evidente. Apenas os PhDs sectários fingem não perceber.
O mesmo ocorre com a ideia de karma. Kardec não empregou a palavra, mas trabalhou exaustivamente o princípio de causa e efeito moral. Em O Céu e o Inferno, demonstra que cada espírito colhe as consequências de seus atos através das reencarnações sucessivas. O nome muda; o princípio permanece.
Há, infelizmente, um medo patológico do diálogo filosófico. Alguns imaginam que reconhecer aproximações entre tradições espirituais destruiria a identidade espírita. Pelo contrário: apenas demonstra maturidade intelectual. A verdade não nasce numa única cultura, numa única língua ou numa única civilização.
O problema desses pseudoespíritas dogmatizantes (PhDs insignificantes) é confundirem fidelidade doutrinária com idolatria textual. Transformam Kardec numa “divindade indefectível” — justamente aquilo que o Codificador jamais quis ser. Kardec propôs método, raciocínio e investigação contínua. Não fundou um tribunal inquisitorial para interditar reflexões.
A consequência desse radicalismo é desastrosa: empobrece-se o pensamento espírita, sufoca-se o debate e afasta-se a juventude intelectualizada, que percebe rapidamente o autoritarismo disfarçado de “defesa doutrinária”.
O verdadeiro espírita não teme o conhecimento. Analisa, compara, pondera e investiga. Foi exatamente esse o método ensinado por Kardec. Negar toda contribuição filosófica externa ao Espiritismo é admitir, implicitamente, que a doutrina seria frágil demais para dialogar com outras tradições.
O Espiritismo não precisa de Phds censores. Precisa de estudiosos sérios, capazes de compreender que a revelação espiritual é progressiva e que a verdade divina jamais coube integralmente nas fronteiras culturais da França do século XIX.















