Jorge Hessen
Brasília-DF
O Espiritismo não pode prescindir do critério, da razão e do exame rigoroso dos fenômenos. O Livro dos Médiuns afirma que o primeiro dever do médium sincero é a humildade e que a faculdade mediúnica não constitui privilégio, mas instrumento de serviço.
A mediunidade autêntica é concessão divina com finalidade moral. Não foi dada para alimentar vaidades nem para criar dependências psicológicas. É recurso de consolo, esclarecimento e caridade. Quando o fenômeno se transforma em show, quando o médium passa a ser o centro das atenções, quando há promessa de resultados garantidos, algo já se deslocou do eixo doutrinário honesto.
O charlatão (falso médium) revela-se por sinais claros: apego à fama, marketing religioso, personalismo excessivo, ostentação de “poderes”, promessas de cartas “consoladoras”, previsões categóricas e infalíveis. Mais grave ainda é a incoerência moral — o discurso aparentemente “dúlcido” e “elevado” contrastando com atitudes levianas, intimidatórias, manipuladoras ou autoritárias.
É extremamente dolorosa a atuação desses falsos médiuns indigestos que exploram famílias enlutadas por meio de “cartas consoladoras” sempre genéricas e comprovadamente fabricadas (via Internet). Valem-se de informações colhidas em redes sociais para compor mensagens aparentemente personalizadas, utilizando dados públicos para simular autenticidade espiritual. Trata-se de fraude moral gravíssima, porque sequestra e instrumentaliza o sofrimento alheio.
A melhor defesa contra a mistificação mediúnica é o conhecimento doutrinário. O estudo protege. A fé raciocinada impede que a emoção, especialmente no momento do luto, seja capturada por vis exploradores da credulidade.
Isso não significa adotar postura persecutória ou cética sistemática. O Espiritismo não ensina desconfiança neurótica, mas discernimento sereno. O verdadeiro médium não se ofende quando é pesquisado; ao contrário, compreende que a análise criteriosa preserva a pureza do trabalho.
Outro ponto essencial é observar os frutos. A comunicação espiritual séria produz paz, esclarecimento e fortalecimento moral. O falso intercâmbio do além produz dependência, medo, fanatismo e centralização na figura do médium histrião.
A preservação da fé espírita exige coragem para reconhecer desvios. Não se protege a Doutrina silenciando diante de abusos. A conivência é forma de cumplicidade. O Espiritismo, sendo doutrina de luz, não teme a transparência.
Identificar um médium charlatão, portanto, não é um gesto de intolerância — é um ato de responsabilidade. É zelar para que a mediunidade permaneça o que deve ser: abençoado instrumento de caridade, jamais ferramenta de exploração malacafenta. É defender a dor das famílias enlutadas contra a enganação. É honrar o legado de Kardec e dos Benfeitores espirituais, mantendo viva a fé lúcida, ética e moralmente lógica.
