07 julho 2026

Emmanuel provoca urticária doutrinária? Uma reflexão sobre o sectarismo às avessas - parte 2


 Jorge Hessen
Brasília -DF

 

Prossigamos nesta parte 2 refletindo sobre esse fenômeno invasor que tenta colonizar silenciosamente os bobos úteis em tacanhos segmentos do movimento espírita brasileiro e que merece contínua reflexão: a transformação da defesa da Codificação em uma espécie de fundamentalismo kardequista. Não se trata da fidelidade a Allan Kardec — dever inalienável de todo espírita consciente —, mas da deformação de seu método, substituído por um comportamento de intolerância que rejeita, de antemão, qualquer contribuição oriunda da literatura subsidiária, especialmente a de Emmanuel.

Basta mencionar o nome de Eammanuel para que alguns confrades reajam com indisfarçável aversão. Não examinam argumentos; repelem autores. Não confrontam princípios; desqualificam pessoas. Não aplicam o método kardequiano; recorrem às ASNEIRAS do preconceito. Emmanuel passa a ser condenado antes de ser lido. Essa atitude não traduz rigor doutrinário; revela um dogmatismo incompatível com a natureza científica e filosófica do Espiritismo.

É oportuno recordar uma verdade elementar: Allan Kardec nunca ensinou a rejeição automática de qualquer comunicação espiritual. Ao contrário, edificou toda a Codificação sobre o exame crítico, a comparação, a lógica, a experiência e o Controle Universal do Ensino dos Espíritos. O Codificador jamais propôs uma ortodoxia fechada, mas um método permanente de investigação.

No capítulo I de A Gênese, Kardec afirma que, diante de novos conhecimentos comprovados, o Espiritismo não permaneceria imóvel; se uma verdade nova fosse demonstrada, a Doutrina a acolheria. Essa afirmação destrói qualquer pretensão de transformar a Codificação em um sistema intelectual impermeável à análise, à pesquisa e ao diálogo. Fidelidade a Kardec jamais significou fossilização do pensamento.

Curiosamente, alguns dos que proclamam "Espiritismo é Kardec" acabam contrariando justamente aquilo que Kardec mais prezava: a liberdade do exame. Criam uma espécie de magistério informal de ASNEIRAS, onde determinados autores são proscritos, determinados livros tornam-se suspeitos e determinados estudiosos passam a ser vistos como desviacionistas simplesmente por reconhecerem méritos na obra de Emmanuel.

É preciso afirmar, com absoluta clareza: Emmanuel não é codificador. Nunca reivindicou esse título. Nunca afirmou estar corrigindo Allan Kardec. Nunca pediu que suas obras substituíssem a Codificação. Pelo contrário, inúmeras vezes reconheceu Kardec como o fundamento doutrinário do Espiritismo. Essa realidade histórica é frequentemente omitida pelos seus críticos mais severos.

Isso significa que Emmanuel é infalível? Evidentemente não.

Existem temas em sua vasta produção que suscitam legítimas reservas doutrinárias. Entretanto, reconhecer divergências não autoriza condenações globais.

Quem rejeita integralmente Emmanuel por causa de alguns aspectos discutíveis abandona precisamente o critério estabelecido por Kardec. O método espírita não recomenda nem aceitação cega nem rejeição absoluta. Recomenda discernimento. Recomenda separar o acessório do essencial. Recomenda conservar aquilo que resiste ao exame racional e deixar como opinião pessoal aquilo que não alcançou confirmação doutrinária.

Infelizmente, alguns preferem um caminho mais simples: substituir a análise pelo anátema. Esse comportamento aproxima-se muito mais do espírito das antigas controvérsias confessionais do que da investigação espírita. Em vez de argumentos, apresentam rótulos. Em vez de comparação, distribuem suspeitas. Em vez de estudo, cultivam a exclusão.

O resultado é paradoxal. Combatendo aquilo que chamam de "emmanuelismo", acabam criando uma nova ortodoxia: o fundamentalismo kardequista.

Não se trata do legítimo retorno às fontes da Codificação, absolutamente necessário para preservar a identidade doutrinária do Espiritismo. Trata-se da tentativa de reduzir toda a cultura espírita às cinco obras fundamentais, como se mais de um século e meio de produção séria de autores respeitados nada tivesse a oferecer.

A consequência inevitável seria o empobrecimento intelectual do movimento espírita. Mais grave ainda é observar que esse fundamentalismo frequentemente se apresenta revestido de uma aparente superioridade doutrinária. Alguns comportam-se como se fossem guardiões exclusivos da ortodoxia, distribuindo certificados de fidelidade a Kardec conforme simpatias pessoais. Esquecem-se de que o primeiro inimigo do conhecimento espírita sempre foi o orgulho intelectual.

Kardec jamais instituiu tribunais doutrinários. Jamais autorizou caças às bruxas literárias. Jamais incentivou campanhas de desmoralização contra autores. Ao contrário, advertiu repetidas vezes contra o fascínio, contra o personalismo e contra os julgamentos precipitados.

Paradoxalmente, aqueles que denunciam a idolatria em torno de Emmanuel muitas vezes caem no extremo oposto (idolatria a Kardec): transformam sua rejeição em verdadeira obsessão intelectual. Emmanuel passa a ocupar permanentemente suas preocupações, não como objeto de estudo, mas como alvo preferencial de ataques. O que deveria ser análise converte-se em aversão sistemática.

Essa postura não fortalece a Doutrina. Fragiliza-a. Porque transmite às novas gerações a falsa ideia de que o Espiritismo se preserva por meio de proibições, listas de autores aceitáveis ou condenações sumárias. Kardec jamais propôs semelhante método. A força do Espiritismo reside justamente na liberdade responsável de investigação.

O espírita maduro não idolatra Emmanuel. Também não o demoniza. Lê-o criticamente. Confronta suas afirmações com a Codificação. Aproveita aquilo que se harmoniza com os princípios fundamentais. Suspende o juízo sobre o que permanece controverso. Essa é a postura verdadeiramente kardequiana.

Quem transforma Emmanuel em autoridade infalível erra. Mas quem o transforma em inimigo da Doutrina também erra. Os extremos sempre empobrecem o pensamento.

O Espiritismo não necessita de novos dogmas nem de novos inquisidores (idólatras de Kardec). Precisa de homens e mulheres capazes de estudar sem paixões, discutir sem sectarismo e divergir sem hostilidade.

 A fidelidade a Allan Kardec não se mede pelo número de condenações lançadas contra autores subsidiários. Mede-se pela disposição de aplicar, com honestidade intelectual, o método que ele próprio legou ao mundo: observar, comparar, raciocinar, submeter tudo ao crivo da lógica, da experiência e da universalidade do ensino dos Espíritos.

Quem abandona esse método, ainda que o faça em nome de Kardec, já começou a afastar-se do verdadeiro espírito da Codificação.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 132. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018

DENIS, Léon. Depois da morte. 32. ed. Brasília: FEB, 2019

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. 29. ed. Brasília: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. 42. ed. Brasília: FEB, 2018.

Emmanuel provoca urticária doutrinária? Uma reflexão sobre o sectarismo às avessas - parte 1



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É curioso observar que alguns “espíritas”, ao ouvirem o nome de Emmanuel, reagem como se estivessem diante de um inimigo da Doutrina Espírita. Bastam algumas letras psicografadas por Chico Xavier para que se acenda uma espécie de "urticária doutrinária", acompanhada de condenações sumárias, rótulos depreciativos e sentenças definitivas. Esse comportamento, longe de representar fidelidade a Allan Kardec, revela  uma preocupante mistura de puerilidade intelectual, orgulho e incapacidade de exercer o discernimento recomendado pelo próprio Codificador.

É perfeitamente legítimo examinar criticamente qualquer obra mediúnica. Aliás, esse é o método espírita. O problema surge quando a análise criteriosa é substituída pelo preconceito sistemático. Há quem rejeite Emmanuel antes mesmo de lê-lo, como se seu nome bastasse para invalidar milhares de páginas dedicadas ao Evangelho, à reforma moral , à caridade e ao aperfeiçoamento moral.

Convém recordar um princípio elementar: Emmanuel jamais reivindicou autoridade codificadora. Nunca afirmou estar reformulando o Espiritismo, nem pretendeu ocupar o lugar de Allan Kardec. Ao contrário, reconheceu reiteradamente a Codificação como fundamento seguro da Doutrina Espírita. Quando recomenda o estudo doutrinário, é evidente que se refere, antes de tudo, às obras fundamentais organizadas por Kardec, sem as quais ninguém pode pretender compreender o Espiritismo.

Talvez determinadas passagens de sua produção suscitem questionamentos (não há problema nisso). Existem opiniões relativas a Roustaing, à teoria das almas gêmeas, à numerologia e à astrologia em algumas respostas da obra O Consolador, bem como outros tópicos que não encontram ressonância explícita na Codificação. OK! Entretanto, transformar essas afirmativas pontuais  em motivo para condenar toda a sua monumental obra representa uma flagrante transgressão da metodologia kardequiana.

O próprio Kardec jamais ensinou que um autor devesse ser integralmente rejeitado por emitir opiniões discutíveis. Seu método consiste exatamente no contrário: examinar, comparar, submeter à razão, confrontar com o Controle Universal do Ensino dos Espíritos e conservar apenas aquilo que resiste ao crivo da lógica e da universalidade. O Espiritismo não conhece nem infalibilidades humanas nem excomunhões doutrinárias.

É paradoxal que alguns se apresentem como "defensores de Kardec", mas adotem um comportamento que Kardec jamais aprovou: a rejeição apriorística, o julgamento absoluto e a desqualificação pessoal. Combatem o dogmatismo enquanto criam outro; criticam o sectarismo enquanto edificam uma nova seita dentro do próprio movimento espírita.

Não deixa de ser sintomático que muitos desses críticos jamais tenham produzido uma única obra comparável ao extraordinário patrimônio moral legado por Emmanuel. Durante mais de quatro décadas, por intermédio de Chico Xavier, suas mensagens inspiraram incontáveis pessoas ao estudo do Evangelho, à prática da caridade, ao combate ao egoísmo, ao consolo dos aflitos e ao aprimoramento espiritual. Ainda que se reconheça a existência de opiniões pessoais de Emmanuel em determinados temas, isso não autoriza apagar o imenso valor educativo de sua produção.

A posição equilibrada sempre foi ensinada por Kardec. Nenhuma comunicação mediúnica possui autoridade automática; nenhuma deve ser aceita sem exame; igualmente, nenhuma deve ser recusada por preconceito. O espírita maduro não idolatra Espíritos nem os demoniza. Analisa. Pondera. Compara. Retém o que é compatível com a Codificação e deixa como opinião aquilo que ultrapassa seus limites.

Há um aspecto psicológico que merece reflexão. Em alguns ambientes, parece existir verdadeira aversão emocional ao nome de Emmanuel. Não se discutem apenas ideias; combate-se a pessoa do Espírito comunicante. Essa postura revela fanatismo e ingênua inversão metodológica. A crítica doutrinária cede lugar ao ressentimento, e a serenidade científica é substituída pela paixão sectária. Quando isso acontece, já não estamos diante do método kardequiano, mas de uma forma sutil “asneiras” (derivado do substantivo primitivo asno) e intolerância.

Também é incoerente afirmar que toda literatura complementar deva ser descartada porque não integra a Codificação. Se esse raciocínio fosse levado às últimas consequências, seria necessário rejeitar igualmente Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano e tantos outros autores que jamais pretenderam substituir Kardec, mas contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da cultura espírita.

A autoridade doutrinária pertence exclusivamente à Codificação. Esse princípio permanece intocável. Contudo, reconhecer essa exclusividade não exige destruir todo o patrimônio subsidiário construído ao longo da história do movimento espírita. Entre a idolatria e a iconoclastia existe o caminho da maturidade.

O que realmente enfraquece o Espiritismo não é a leitura de Emmanuel, mas a incapacidade de muitos leitores aplicarem o método crítico ensinado por Kardec. A Doutrina não precisa de censores nem de tribunais inquisitoriais. Precisa de estudiosos capazes de raciocinar, comparar e dialogar sem paixões.

Quem sente "urticária" apenas ao ouvir o nome de Emmanuel talvez devesse revisitar o capítulo de O Evangelho segundo o Espiritismo que trata do orgulho intelectual. Afinal, a soberba não se manifesta apenas na pretensão de possuir a verdade; manifesta-se igualmente na recusa obstinada de reconhecer qualquer mérito naqueles que pensam ou escrevem de forma diferente.

O verdadeiro discípulo de Kardec não transforma Emmanuel em novo codificador, mas tampouco o converte em adversário da Doutrina. Examina suas páginas com serenidade, aceita o que se harmoniza com os princípios espíritas, suspende o juízo sobre aquilo que considera opinativo e prossegue estudando. Essa postura é infinitamente mais científica, mais humilde e mais espírita do que qualquer condenação sumária motivada por asneirice e/ou antipatias pessoais.

 

Referências Bibliográficas:

 

DENIS, Léon. Depois da morte. 32. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 132. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. 29. ed. Brasília: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. 42. ed. Brasília: FEB, 2018. 

06 julho 2026

O centro espírita não é clínica espiritual - a cura moral começa no lar

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quantas pessoas encontramos afirmando que "não foram acolhidas" em determinada casa espírita, que "não encontraram paz" ou que ainda procuram uma instituição "equilibrada" para desenvolver a mediunidade, receber tratamentos espirituais ou solucionar seus conflitos íntimos?

Passam anos peregrinando de centro em centro, convencidas de que existe, em algum lugar, a instituição capaz de realizar aquilo que elas mesmas nunca começaram a construir dentro de si.

Essa mentalidade revela um dos maiores desvios do movimento espírita contemporâneo: a transformação gradual dos centros espíritas em verdadeiras clínicas espirituais, onde muitos chegam como consumidores de serviços religiosos, esperando diagnósticos mediúnicos, curas, cirurgias espirituais, desobsessões e soluções imediatas para problemas cuja raiz permanece intacta na própria conduta moral.

Entretanto, essa nunca foi a proposta da Doutrina Espírita. O Espiritismo não promete milagres. Não oferece atalhos para a felicidade nem terceiriza a renovação moral. Allan Kardec jamais apresentou o centro espírita como hospital destinado a eliminar os efeitos sem combater as causas. A finalidade da Doutrina é essencialmente educativa. Seu objetivo é conduzir o ser humano ao autoconhecimento, à reforma moral e ao aperfeiçoamento espiritual.

A verdadeira transformação começa onde ninguém pode substituí-la: no lar. É na convivência diária com os familiares — justamente aqueles Espíritos com os quais possuímos os maiores compromissos reencarnatórios — que somos convidados ao exercício permanente da paciência, do perdão, da humildade, da tolerância e da caridade. É ali que o Evangelho deixa de ser teoria para converter-se em experiência concreta. Fugir desse laboratório moral enquanto se procura uma casa espírita "mais equilibrada" representa apenas uma forma sofisticada de adiar o próprio crescimento espiritual.

Não existe passe capaz de substituir a paciência. Não existe desobsessão que dispense o perdão. Não existe cirurgia espiritual que elimine o orgulho, o egoísmo, a vaidade ou a intolerância. Nenhuma reunião mediúnica reforma o caráter de quem insiste em permanecer moralmente imóvel.

O centro espírita orienta, esclarece, consola e fortalece. Jamais foi concebido para funcionar como ambulatório permanente de problemas existenciais. Quando uma instituição espírita passa a concentrar quase todas as suas energias em "trabalhos de cura", "atendimentos espirituais", "cirurgias mediúnicas" e fenômenos extraordinários, corre o risco de deslocar o eixo da Doutrina: substitui a educação da consciência pela assistência ao sintoma, alimentando exatamente a dependência espiritual que deveria combater.

Infelizmente, essa lógica tem produzido um movimento de consumidores religiosos sempre insatisfeitos. Quando não obtêm o resultado esperado, simplesmente migram para outro centro, depois para outro, numa peregrinação interminável em busca da instituição "ideal". Mudam de casa espírita, mas não mudam a si mesmos. Alteram o endereço, mas preservam as mesmas imperfeições que geram seus conflitos.

O Espiritismo jamais ensinou que a paz pudesse ser encontrada em um prédio, em um dirigente, em um médium ou em uma equipe espiritual. A paz nasce da consciência pacificada pelo esforço diário de viver os ensinamentos de Jesus.

A casa espírita continua sendo indispensável, mas exatamente porque é escola, não porque seja clínica. Escola exige estudo, disciplina, esforço, autocrítica e transformação. Clínica sugere apenas tratamento passivo. Kardec optou pela primeira alternativa; parte significativa do movimento espírita parece preferir a segunda.

Quem deseja equilíbrio deve começar equilibrando o próprio coração. Quem busca paz deve construí-la dentro da família. Quem aspira à libertação espiritual precisa compreender que nenhuma instituição substituirá o trabalho silencioso da reforma moral.

Enquanto o movimento espírita insistir em oferecer prioritariamente serviços espirituais em vez de educação moral, continuará atraindo pessoas interessadas muito mais na cura do corpo e dos problemas imediatos do que na renovação da alma. E enquanto muitos frequentadores continuarem procurando fora aquilo que se recusam a edificar dentro de si, atravessarão toda uma existência mudando de centro espírita, mas permanecendo exatamente com seus quistos morais.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2018.

 

O delírio pela mediunidade está deformando o centro espírita

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma retumbante desordem que se consolidou no movimento espírita brasileiro e que precisa ser ajuizada sem rodeios: a falsa ideia de que o centro espírita somente cumpre sua missão se estiver permanentemente ocupado com reuniões mediúnicas, desenvolvimento de médiuns, "trabalhos espirituais", cirurgias espirituais ou manifestações psicográficas extraordinárias.

Em quase todos os centros espíritas , parece que a mediunidade deixou de ser um instrumento para transformar-se no próprio objetivo da instituição. Porém, essa ingênua inversão jamais pertenceu ao projeto da Doutrina Espírita.

Allan Kardec edificou o Espiritismo sobre o estudo, a educação moral e a reforma moral. A mediunidade ocupa lugar relativamente importante, mas sempre subordinada ao progresso espiritual. Nunca foi apresentada como devoção, nem como mecanismo milagroso para resolver conflitos psicológicos, familiares ou existenciais.

Infelizmente, parcela esmagadoramente significativa do movimento espírita “tupiniquim”  criou uma verdadeira paranoia mediúnica. Tudo é explicado pela mediunidade. Toda dificuldade emocional é atribuída à obsessão. Toda pessoa inquieta é aconselhada a "desenvolver a mediunidade". Toda instituição sente-se incompleta se não possuir inúmeros grupos mediúnicos. O resultado é previsível: multiplicam-se reuniões, enquanto escasseiam exemplos sadios de moralidade e o estudo sério do Evangelho e da Codificação.

Essa mentalidade encontra frontal oposição nos ensinamentos de Emmanuel, em O Consolador. Ao responder se é correto organizar trabalhos especiais para produzir fenômenos e convencer descrentes, Emmanuel é categórico: "Um fenômeno não edifica a fé sincera." A verdadeira convicção nasce do esforço pessoal, da meditação e da transformação moral, jamais da contemplação de manifestações extraordinárias.

Mais contundente ainda é sua advertência contra a provocação do desenvolvimento mediúnico. Emmanuel afirma que ninguém deve forçar o desenvolvimento de qualquer faculdade, pois, nesse campo, a espontaneidade é indispensável. As tarefas mediúnicas pertencem à direção dos Benfeitores Espirituais, não às estratégias administrativas de dirigentes ansiosos por ampliar equipes mediúnicas.

Quantos centros, porém, fazem exatamente o contrário? Incentivam pessoas emocionalmente fragilizadas a ingressarem em grupos mediúnicos como se isso fosse terapia. Confundem sensibilidade psicológica com faculdade ostensiva. Alimentam expectativas de missões grandiosas. Produzem dependência emocional da atividade mediúnica. E, não raras vezes, terminam gerando frustrações, desequilíbrios psíquicos e mistificações infantis.

Emmanuel também recomenda que, antes de intensificar sessões mediúnicas, sejam fortalecidas as reuniões de leitura, meditação e comentários doutrinários, justamente para evitar o "prematuro comércio com as energias do plano invisível". A expressão permanece atual. Muitos ambientes espíritas negociam simbolicamente com o invisível, valorizando mensagens, fenômenos e revelações muito mais do que o estudo sistemático das obras fundamentais.

Criou-se, assim, uma perigosa cultura de excepcionalidade. O médium passou a ocupar posição de destaque, enquanto o estudioso, o trabalhador anônimo e o servidor do Evangelho permanecem invisíveis. A autoridade moral foi substituída pelo prestígio mediúnico; o conhecimento doutrinário cedeu espaço ao fascínio pelo extraordinário e ao delírio metafísico.

Urge esclarecer que o verdadeiro centro espírita não existe para fabricar médiuns. Existe para formar consciências. A mediunidade é faculdade humana, não certificado de evolução espiritual. Existem excelentes médiuns moralmente frágeis e pessoas sem qualquer faculdade ostensiva profundamente evangelizadas. Jesus jamais afirmou que reconheceríamos seus discípulos pelos fenômenos que produzem, mas pelo amor que manifestam.

É urgente libertar o movimento espírita desse frenesi  pela mediunidade. A Casa Espírita deve voltar a ser escola de almas, oficina de educação moral, laboratório de autoconhecimento e núcleo de vivência do Evangelho. Quando isso acontece, a mediunidade encontra naturalmente seu lugardiscreto, responsável, disciplinado e subordinado aos superiores interesses da regeneração humana.

Enquanto continuarmos imaginando, na escola da ilusão, que o êxito de uma instituição espírita depende da quantidade de reuniões mediúnicas que realiza, permaneceremos distantes do pensamento de Kardec e dos Espíritos Superiores. O Espiritismo não veio para impressionar multidões com fenômenos. Veio propor a transformação moral do homem. Todo o restante é acessório e perfumaria de brechó .

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2019.

05 julho 2026

Sim à reforma moral , não ao espetáculo das “curas”, pois o centro espírita não é clínica de milagres



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É sintomático que, em numerosos centros espíritas, as atividades mais concorridas sejam justamente aquelas anunciadas como "trabalhos de cura", "cirurgias espirituais" ou atendimentos realizados por supostos "médicos espirituais". O fenômeno desperta curiosidade, atrai multidões e alimenta expectativas ilusórias. Contudo, permanece a pergunta inevitável: essa prioridade de cirurgiões do além encontra respaldo na Codificação Espírita?

A resposta é definitivamente NÃO!

Allan Kardec jamais priorizou ou atribuiu centralidade à chamada mediunidade de cura dos corpos. Em toda a Codificação, o eixo do Espiritismo repousa na educação moral do ser humano, na renovação da consciência e na vivência dos ensinamentos de Jesus. A faculdade mediúnica nunca foi apresentada como espetáculo, nem como instrumento destinado a satisfazer a ansiedade humana pela eliminação imediata das patologias físicas.

No Livro dos Médiuns, Kardec esclarece que a mediunidade é faculdade destinada ao intercâmbio entre os dois planos da vida, exigindo discernimento, estudo e responsabilidade. Não a transforma em método terapêutico nem estabelece qualquer hierarquia que coloque os chamados médiuns de cura (com supostos cirurgiões do além) acima das demais formas de intercâmbio espiritual.

Do mesmo modo, no Evangelho segundo o Espiritismo, ao comentar as curas realizadas por Jesus, Kardec demonstra que o verdadeiro milagre consiste na transformação moral. O Cristo jamais limitou sua missão à recuperação de organismos enfermos. Seu propósito era despertar consciências para o Reino de Deus, mostrando que a libertação do Espírito tem valor infinitamente superior ao restabelecimento transitório do corpo físico.

É evidente que os recursos fluídicos podem contribuir para o alívio de enfermidades, conforme esclarece a Gênese. Todavia, tais benefícios dependem de múltiplos fatores, entre eles as necessidades evolutivas do Espírito, as leis de causa e efeito e a vontade divina. A Doutrina Espírita jamais prometeu curas universais nem autorizou campanhas de marketing espiritual baseadas em resultados extraordinários de hipotéticas curas espirituais.

Transformar a casa espírita em um centro de promessas terapêuticas representa um inquietante desvio de finalidade. Quando o fenômeno ocupa o lugar do estudo, quando a expectativa da cura física supera o esforço da reforma moral e quando determinados médiuns passam a ser vistos como detentores de poderes especiais por supostamente incorporam o “Espírito” Dr. “X,Y,X” (normalmente nome de um inglês ,de  um  alemão ou de um hindu), instala-se um ambiente propício ao personalismo, ao misticismo e à superstição — exatamente aquilo que Kardec combateu durante toda a elaboração e codificação da Doutrina.

O Centro espírita não existe para disputar espaço com hospitais, clínicas ou práticas alternativas de saúde. Sua missão é muito mais profunda: esclarecer, consolar, educar e promover a transformação moral do indivíduo. O passe, a prece e a assistência espiritual são valiosos recursos de auxílio, mas jamais substituem o compromisso pessoal com o próprio crescimento espiritual nem autorizam promessas incompatíveis com a prudência kardeciana.

Quem busca o Espiritismo exclusivamente para curar o corpo talvez até encontre algum “alívio” passageiro. Entretanto, quem compreende sua essência descobre algo incomparavelmente maior: um roteiro seguro de renovação interior, capaz de libertar o Espírito das enfermidades morais que constituem a verdadeira causa de grande parte das doenças humanas.

Aliviar” doenças pode ser uma permissão circunstancial. Educar Espíritos é a missão permanente do Espiritismo. Inverter essa ordem significa afastar-se da proposta de Kardec e reduzir uma doutrina de iluminação da consciência a mera fornecedora de expectativas milagrosas.

04 julho 2026

Caminhar juntos ou caminhar sob tutela? O perigo de delegar a própria consciência



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

"Quem caminha sozinho chega mais rápido, mas quem caminha acompanhado vai mais longe." O provérbio encerra uma verdade que o movimento espírita brasileiro ainda não assimilou plenamente. O problema, porém, não é apenas o individualismo. Em muitos casos, trocou-se a cooperação pela tutela, a fraternidade pela hierarquia informal e a construção coletiva pela concentração de poder.

Allan Kardec jamais concebeu um Espiritismo organizado em torno de dirigentes permanentes (nunca largam o cargo), celebridades doutrinárias ou estruturas centralizadoras. A Codificação nasceu do diálogo, da comparação universal dos ensinos dos Espíritos e do permanente exame racional dos fatos (KARDEC, 2019). Não existe, no pensamento kardequiano, espaço para "autoridades doutrinárias" infalíveis nem para organismos que se apresentem como intérpretes oficiais da Verdade.

Entretanto, parcela significativa do movimento espírita brasileiro parece ter seguido caminho diferente. O centralismo federativo, frequentemente apresentado como garantia de unidade, muitas vezes termina produzindo uniformização, dependência intelectual e esvaziamento da autonomia dos centros espíritas. A unidade desejada por Kardec resulta da convergência espontânea dos princípios, nunca da padronização administrativa ou da submissão institucional.

Paralelamente, cresce a burocratização das casas espíritas. Multiplicam-se reuniões administrativas, planejamentos, regulamentos, comissões, protocolos e organogramas. Não há problema na boa organização; ela é necessária. O problema surge quando a máquina administrativa passa a consumir a energia que deveria ser destinada ao estudo, à assistência moral e à transformação moral. O centro espírita deixa de ser escola do Evangelho para funcionar como repartição religiosa.

Outro fenômeno preocupante é o culto às personalidades. Alguns expositores transformam-se em verdadeiras celebridades (ungidas). Auditórios lotam para ouvi-los; suas frases são repetidas como se possuíssem autoridade doutrinária e suas interpretações passam a substituir o estudo direto das obras de Kardec. O Espiritismo, porém, não possui sacerdotes nem oráculos. A única autoridade permanente da Doutrina encontra-se nas obras fundamentais da Codificação, permanentemente submetidas ao exame da razão e da universalidade dos ensinos (KARDEC, 2023).

Esse personalismo produz um empobrecimento intelectual inevitável. Em vez de formar estudiosos, forma admiradores. Em vez de incentivar o pensamento crítico, estimula a repetição de opiniões. O trabalhador deixa de perguntar: "O que Kardec ensina?" para indagar: "O que determinado expositor pensa?" Essa inversão é profundamente incompatível com o método espírita.

Talvez a consequência mais grave seja a terceirização da vivência do Evangelho. Muitos imaginam que basta frequentar reuniões, ouvir palestras, participar de campanhas assistenciais (fazeção de coisas para os “pobres”) ou admirar bons oradores para cumprir seus deveres espirituais. Esquecem que ninguém evolui por procuração. Ninguém delega a reforma moral, a caridade, o estudo ou o esforço moral. O Evangelho não admite representantes. O Cristo continua dirigindo a cada consciência o mesmo convite de dois mil anos atrás: "Segue-me."

O verdadeiro trabalho coletivo não consiste em obedecer passivamente a estruturas ou lideranças. Consiste em compartilhar responsabilidades entre pessoas livres, conscientes e comprometidas com a verdade. Caminhar juntos não significa abdicar da consciência crítica, mas colocá-la a serviço da fraternidade.

O movimento espírita necessita menos de estruturas centralizadoras e mais de centros autônomos, doutrinariamente sólidos e intelectualmente livres. Necessita menos de celebridades e mais de estudiosos. Menos burocracia e mais Evangelho. Menos preocupação com a imagem institucional e mais compromisso com a transformação moral.

Quem caminha sozinho pode cair no orgulho. Mas quem caminha apenas seguindo pessoas ou instituições, sem refletir, corre risco ainda maior: abdicar da própria consciência. O Espiritismo não foi revelado para formar seguidores de dirigentes, federações ou expositores. Foi revelado para formar homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de pensar, servir e amar segundo os ensinamentos de Jesus e os princípios da Codificação.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Nova ed. rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: FEB, 2023.

30 junho 2026

James Webb: quanto mais o Universo se revela, maiores se tornam as perguntas



As extraordinárias descobertas do Telescópio Espacial James Webb (JWST) revelam um universo muito mais complexo do que se supunha há poucas décadas. A identificação de galáxias extremamente antigas, formadas nos primeiros centenas de milhões de anos após o Big Bang, tem levado cosmólogos a revisar hipóteses sobre a evolução do cosmos. Longe de invalidar a teoria do Big Bang, essas observações demonstram a vitalidade do método científico, que progride justamente pela constante confrontação entre teoria e evidência.

Todavia, é necessário evitar conclusões precipitadas. O James Webb não está observando um suposto "antes do Big Bang". Segundo a cosmologia contemporânea, o telescópio capta a luz emitida quando o Universo já existia e se expandia. Até o momento, não há evidências empíricas de eventos anteriores ao Big Bang, tampouco instrumentos capazes de observá-los diretamente.

Esse cenário, entretanto, conduz a uma questão filosófica inevitável: quanto mais a ciência explica o funcionamento do Universo, mais profundas se tornam as perguntas acerca de sua origem última. De onde procedem as leis da natureza? Por que o Universo apresenta uma ordem matemática tão extraordinária? Por que existe algo em vez do nada?

A história da ciência demonstra que essas indagações nunca foram estranhas aos seus grandes fundadores. A teoria do Big Bang foi proposta pelo padre e físico belga Georges Lemaître, que distinguiu cuidadosamente a investigação científica da reflexão teológica. Para ele, a ciência descreve a evolução do Universo; a questão da criação pertence ao campo da filosofia e da metafísica.

Séculos antes, Francis Bacon advertia que a verdadeira ciência exige humildade intelectual diante dos fatos inesperados. Segundo ele, quando a experiência contradiz uma hipótese, não se deve forçar os fatos a se ajustarem à teoria; é a teoria que deve ser reformulada. Essa postura continua sendo um dos pilares do conhecimento científico.

A célebre máxima atribuída a Sócrates — "Só sei que nada sei" — permanece atual. Quanto maior o conhecimento, maior a consciência daquilo que ainda ignoramos. O James Webb não encerra o debate sobre a origem do Universo; ao contrário, amplia-o.

Pode a ciência provar a existência de Deus? A resposta, sob o rigor metodológico, é negativa. A ciência investiga fenômenos naturais observáveis e testáveis. Deus, concebido como causa primeira ou fundamento do ser, não constitui objeto de experimentação laboratorial. Isso, porém, não significa que a ideia de Deus seja irracional. A reflexão filosófica, desde Aristóteles até inúmeros cientistas modernos, reconhece que a ordem, a inteligibilidade e a racionalidade do cosmos podem conduzir legitimamente à hipótese de uma Inteligência Criadora.

O maior legado do Telescópio Espacial James Webb talvez não seja apenas revelar galáxias cada vez mais distantes ou registrar imagens inéditas dos primórdios do Universo, mas recordar à humanidade que o avanço do conhecimento não elimina o mistério. Ao contrário, cada descoberta amplia o horizonte da investigação e evidencia que a realidade é muito mais vasta e complexa do que supunham os modelos anteriores.

 Quanto mais o Universo se revela, maiores se tornam as perguntas sobre sua origem, estrutura, evolução e finalidade. Nesse contexto, a ciência continua cumprindo seu papel essencial de investigar os fenômenos por meio da observação, da experimentação e da revisão permanente de hipóteses. 

A filosofia, por sua vez, é chamada a refletir sobre os significados mais profundos dessas descobertas. Assim, razão e filosofia podem dialogar de forma harmoniosa, sem confundir seus campos de atuação, enriquecendo a compreensão humana diante da grandiosidade do cosmos e dos limites ainda existentes do conhecimento.


Referências bibliográficas:

BACON, Francis. Novum Organum. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

LEMAÎTRE, Georges. The Primeval Atom: An Essay on Cosmogony. New York: D. Van Nostrand, 1950.

NASA. James Webb Space Telescope. Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/webb/. Acesso em: 30 jun. 2026.

Campanha "Auta de Souza": caridade ou proselitismo? Uma reflexão imprescindível


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Espiritismo não foi instituído como uma religião destinada à conquista de adeptos. Allan Kardec jamais recomendou visitas domiciliares para divulgação da Doutrina associadas à arrecadação de donativos. Ao contrário, ensinou que o Espiritismo se propagaria "pela força das coisas", isto é, pela lógica de seus princípios, pela razão e pelo exemplo moral de seus seguidores, jamais por estratégias que pudessem sugerir captação religiosa.

Nesse contexto, merece reflexão a denominada "Campanha Auta de Souza", semelhante à tradicional "Campanha do Quilo", na qual trabalhadores espíritas percorrem residências arrecadando alimentos e, simultaneamente, distribuem mensagens e convites para atividades doutrinárias. Embora inspirada em nobres intenções, essa prática não encontra respaldo explícito na Codificação Espírita.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec ensina que a beneficência deve ser absolutamente desinteressada. O auxílio material deve ser prestado sem qualquer expectativa de adesão religiosa ou influência sobre a consciência daquele que o recebe. O conhecido princípio "Fora da caridade não há salvação" evidencia que a salvação moral decorre da prática do bem, e não da filiação a qualquer crença.

Quando a arrecadação de alimentos é acompanhada da distribuição de mensagens ou convites para reuniões espíritas, estabelece-se, ainda que involuntariamente, uma associação entre assistência social e divulgação doutrinária. Ainda que inexista intenção de converter pessoas, tal procedimento pode ser percebido como forma indireta de proselitismo, incompatível com o respeito à liberdade de consciência, princípio basilar do Espiritismo.

Em Obras Póstumas, Kardec afirma que o Espiritismo conquistará espaço pela superioridade moral e racional de seus ensinos, jamais por meios artificiais de propaganda. A divulgação doutrinária deve ocorrer em ambientes próprios — palestras públicas, grupos de estudo, livros, imprensa e meios digitais — frequentados espontaneamente por aqueles que desejam conhecer a Doutrina.

Há também uma dimensão ética relevante. Visitas religiosas não solicitadas podem representar interferência na esfera privada das famílias, especialmente em uma sociedade plural, onde coexistem diferentes convicções filosóficas e religiosas. O Evangelho esclarece e convida; nunca constrange nem invade.

Igualmente importante é reconhecer que campanhas eventuais de arrecadação, embora meritórias, não enfrentam as causas estruturais da pobreza. A promoção humana requer educação, capacitação, acolhimento, fortalecimento moral e oportunidades de emancipação, indo além da simples distribuição periódica de alimentos.

Por isso, o movimento espírita deve reexaminar práticas consagradas pela tradição, distinguindo costumes históricos dos princípios efetivamente codificados por Allan Kardec. Fidelidade à Codificação exige discernimento permanente.

A verdadeira caridade não necessita de anunciar uma doutrina. Ela se manifesta pelo respeito, pela gratuidade, pela discrição e pelo amor ao próximo. O Espiritismo não cresce quando bate às portas das casas; cresce quando alcança as consciências pela coerência de seus princípios e pelo testemunho moral de seus adeptos. A melhor divulgação da Doutrina continua sendo a vivência sincera do Evangelho.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 129. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2023.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 43. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2022.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 94. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2023

27 junho 2026

As "BETS" e a tragédia silenciosa das apostas online



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há tragédias que não chegam pela violência das armas nem pelo estrondo das guerras. Entram sorrateiramente pela tela do celular, travestidas de entretenimento, promessa de riqueza fácil e propaganda milionária. Assim se apresenta a indústria das apostas esportivas na internet, um dos mais devastadores mecanismos contemporâneos de destruição moral, financeira e emocional.

O caso do tenente da Polícia Militar de Goiás, Danilo Lopes Negrão, é um retrato doloroso dessa realidade. Um homem de apenas 41 anos, pai de uma menina de cinco anos, iniciou apostas durante a Copa do Mundo de 2022. No começo vieram os ganhos, suficientes para alimentar a perigosa ilusão de controle. Depois, as perdas sucessivas, empréstimos, quase um milhão de reais em dívidas, depressão profunda e, finalmente, o suicídio.

Sua viúva, Raquel Maria, rompeu o silêncio para advertir outras famílias: "Não joguem. Não joguem pouco. Não joguem muito. Não joguem nada." Não fala como uma especialista em economia ou psicologia. Fala quem viu sua família ser destruída.

O drama do tenente não é um episódio isolado. É o roteiro repetido de milhares de brasileiros. A lógica das apostas online não foi construída para enriquecer apostadores. Foi projetada para enriquecer plataformas. Os algoritmos exploram mecanismos psicológicos conhecidos: recompensas intermitentes, sensação de quase vitória, impulsividade e esperança permanente de recuperar o prejuízo. O resultado é uma dependência comportamental que pode atingir níveis comparáveis aos de outras formas de vício.

Enquanto isso, a publicidade vende fantasia. Celebridades, influenciadores e até clubes esportivos emprestam sua credibilidade para normalizar uma atividade cujo modelo econômico depende justamente das perdas da maioria dos jogadores.

Sob a ótica espírita, a questão ultrapassa o aspecto financeiro. O trabalho honesto permanece sendo o instrumento legítimo da construção da prosperidade. Allan Kardec ensina que o progresso decorre do esforço, da inteligência e da responsabilidade. Emmanuel recorda que não existem atalhos para as leis divinas. Toda tentativa de obter vantagens sem o correspondente mérito costuma cobrar elevado preço moral.

O jogo alimenta ilusões perigosas: riqueza sem trabalho, recompensa sem esforço, fortuna sem disciplina. Em vez de fortalecer a vontade, enfraquece-a. Em vez de cultivar a perseverança, estimula a ansiedade. Em vez da confiança em Deus, promove a dependência da sorte.

Não se trata de condenar pessoas. Muitos dos que hoje sofrem são vítimas de um sistema cuidadosamente elaborado para capturar sua atenção, seu tempo e seu patrimônio. Precisam de acolhimento, tratamento especializado, apoio familiar e espiritual, jamais de desprezo.

Todavia, acolher a pessoa não significa silenciar diante da perversidade do mecanismo. Uma sociedade que transforma o vício em entretenimento, o endividamento em negócio e o sofrimento em fonte de lucro caminha perigosamente para a banalização da dor humana.

Que o testemunho de Raquel Maria não seja apenas mais uma notícia esquecida. Que seja um alerta. Antes de apostar o próximo real, alguém pode estar apostando a própria paz, a estabilidade da família e, em casos extremos, a própria vida.

O verdadeiro patrimônio do ser humano nunca esteve na sorte. Sempre esteve no trabalho digno, com a consciência tranquila e na confiança em Deus.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Doenças – CID-11. Genebra: OMS.

26 junho 2026

Honestidade: dever inegociável nas instituições espíritas


 Jorge Hessen

Brasília -DF

 

"Mais vale repelir dez verdades que admitir uma só mentira, uma só teoria falsa." — Erasto (O Livro dos Médiuns).

Quando o assunto é a honestidade de dirigentes e trabalhadores das instituições espíritas, o silêncio nunca foi boa política. A credibilidade do Movimento Espírita depende, em grande medida, da coerência entre o discurso e a prática.

Infelizmente, a imprensa noticia com frequência escândalos envolvendo líderes religiosos que enriquecem à custas da fé alheia. Não afirmamos que essa seja a realidade da maioria das casas espíritas, mas basta um único caso para comprometer a imagem de muitos. Daí a necessidade de vigilância permanente.

O verdadeiro cristão é honesto em todas as circunstâncias. Quem contrai uma dívida tem o dever moral de quitá-la. Quem administra recursos doados deve prestar contas com absoluta transparência. Publicar periodicamente receitas e despesas não é favor aos colaboradores; é obrigação ética e demonstração de respeito aos que confiam na instituição.

A transparência afasta suspeitas, preserva a credibilidade e impede comentários que, muitas vezes, surgem exatamente pela ausência de informações. Onde há lisura, não há espaço para insinuações.

Ao longo dos anos, em diversas palestras, abordamos esse tema. Em algumas ocasiões, a reação de certos dirigentes foi de desconforto. Houve até quem nos excluísse de escalas de oradores. Não nos surpreendeu. A verdade, quando toca em interesses pessoais, costuma provocar resistência. Contudo, advertir sobre desvios de conduta jamais significou atacar esta ou aquela instituição, mas sim alertar todo o Movimento Espírita para um risco real.

Também é lamentável quando dirigentes se apropriam de doações destinadas aos necessitados, manipulam recursos, burlam obrigações legais ou se perpetuam no poder como se fossem proprietários da casa espírita. Tais práticas afrontam o Evangelho e desrespeitam frontalmente os princípios da Codificação.

No Espiritismo não existe "meia honestidade". Não há espaço para o "quase honesto". Jesus foi categórico: "Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não." A ética cristã não admite zonas cinzentas nem justificativas convenientes para pequenas fraudes ou privilégios pessoais.

Os Benfeitores espirituais esperam de nós fidelidade aos princípios, não discursos eloquentes desacompanhados de exemplos. As influências espirituais inferiores encontram terreno fértil justamente onde florescem a vaidade, o apego ao poder e a falta de transparência.

Advertir sobre a necessidade de honestidade não é semear discórdia; é defender a dignidade da Doutrina Espírita. A casa espírita deve ser reconhecida pela simplicidade, pela responsabilidade administrativa e pela absoluta retidão moral de seus dirigentes. Onde prevalecem a ética, a transparência e o espírito de serviço, o Evangelho permanece vivo e a confiança dos trabalhadores e frequentadores se fortalece.