06 julho 2026

O centro espírita não é clínica espiritual - a cura moral começa no lar

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quantas pessoas encontramos afirmando que "não foram acolhidas" em determinada casa espírita, que "não encontraram paz" ou que ainda procuram uma instituição "equilibrada" para desenvolver a mediunidade, receber tratamentos espirituais ou solucionar seus conflitos íntimos?

Passam anos peregrinando de centro em centro, convencidas de que existe, em algum lugar, a instituição capaz de realizar aquilo que elas mesmas nunca começaram a construir dentro de si.

Essa mentalidade revela um dos maiores desvios do movimento espírita contemporâneo: a transformação gradual dos centros espíritas em verdadeiras clínicas espirituais, onde muitos chegam como consumidores de serviços religiosos, esperando diagnósticos mediúnicos, curas, cirurgias espirituais, desobsessões e soluções imediatas para problemas cuja raiz permanece intacta na própria conduta moral.

Entretanto, essa nunca foi a proposta da Doutrina Espírita. O Espiritismo não promete milagres. Não oferece atalhos para a felicidade nem terceiriza a renovação moral. Allan Kardec jamais apresentou o centro espírita como hospital destinado a eliminar os efeitos sem combater as causas. A finalidade da Doutrina é essencialmente educativa. Seu objetivo é conduzir o ser humano ao autoconhecimento, à reforma moral e ao aperfeiçoamento espiritual.

A verdadeira transformação começa onde ninguém pode substituí-la: no lar. É na convivência diária com os familiares — justamente aqueles Espíritos com os quais possuímos os maiores compromissos reencarnatórios — que somos convidados ao exercício permanente da paciência, do perdão, da humildade, da tolerância e da caridade. É ali que o Evangelho deixa de ser teoria para converter-se em experiência concreta. Fugir desse laboratório moral enquanto se procura uma casa espírita "mais equilibrada" representa apenas uma forma sofisticada de adiar o próprio crescimento espiritual.

Não existe passe capaz de substituir a paciência. Não existe desobsessão que dispense o perdão. Não existe cirurgia espiritual que elimine o orgulho, o egoísmo, a vaidade ou a intolerância. Nenhuma reunião mediúnica reforma o caráter de quem insiste em permanecer moralmente imóvel.

O centro espírita orienta, esclarece, consola e fortalece. Jamais foi concebido para funcionar como ambulatório permanente de problemas existenciais. Quando uma instituição espírita passa a concentrar quase todas as suas energias em "trabalhos de cura", "atendimentos espirituais", "cirurgias mediúnicas" e fenômenos extraordinários, corre o risco de deslocar o eixo da Doutrina: substitui a educação da consciência pela assistência ao sintoma, alimentando exatamente a dependência espiritual que deveria combater.

Infelizmente, essa lógica tem produzido um movimento de consumidores religiosos sempre insatisfeitos. Quando não obtêm o resultado esperado, simplesmente migram para outro centro, depois para outro, numa peregrinação interminável em busca da instituição "ideal". Mudam de casa espírita, mas não mudam a si mesmos. Alteram o endereço, mas preservam as mesmas imperfeições que geram seus conflitos.

O Espiritismo jamais ensinou que a paz pudesse ser encontrada em um prédio, em um dirigente, em um médium ou em uma equipe espiritual. A paz nasce da consciência pacificada pelo esforço diário de viver os ensinamentos de Jesus.

A casa espírita continua sendo indispensável, mas exatamente porque é escola, não porque seja clínica. Escola exige estudo, disciplina, esforço, autocrítica e transformação. Clínica sugere apenas tratamento passivo. Kardec optou pela primeira alternativa; parte significativa do movimento espírita parece preferir a segunda.

Quem deseja equilíbrio deve começar equilibrando o próprio coração. Quem busca paz deve construí-la dentro da família. Quem aspira à libertação espiritual precisa compreender que nenhuma instituição substituirá o trabalho silencioso da reforma íntima.

Enquanto o movimento espírita insistir em oferecer prioritariamente serviços espirituais em vez de educação moral, continuará atraindo pessoas interessadas muito mais na cura do corpo e dos problemas imediatos do que na renovação da alma. E enquanto muitos frequentadores continuarem procurando fora aquilo que se recusam a edificar dentro de si, atravessarão toda uma existência mudando de centro espírita, mas permanecendo exatamente com seus quistos morais.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2018.

 

O delírio pela mediunidade está deformando o centro espírita

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma retumbante desordem que se consolidou no movimento espírita brasileiro e que precisa ser ajuizada sem rodeios: a falsa ideia de que o centro espírita somente cumpre sua missão se estiver permanentemente ocupado com reuniões mediúnicas, desenvolvimento de médiuns, "trabalhos espirituais", cirurgias espirituais ou manifestações psicográficas extraordinárias.

Em quase todos os centros espíritas , parece que a mediunidade deixou de ser um instrumento para transformar-se no próprio objetivo da instituição. Porém, essa ingênua inversão jamais pertenceu ao projeto da Doutrina Espírita.

Allan Kardec edificou o Espiritismo sobre o estudo, a educação moral e a reforma moral. A mediunidade ocupa lugar relativamente importante, mas sempre subordinada ao progresso espiritual. Nunca foi apresentada como devoção, nem como mecanismo milagroso para resolver conflitos psicológicos, familiares ou existenciais.

Infelizmente, parcela esmagadoramente significativa do movimento espírita “tupiniquim”  criou uma verdadeira paranoia mediúnica. Tudo é explicado pela mediunidade. Toda dificuldade emocional é atribuída à obsessão. Toda pessoa inquieta é aconselhada a "desenvolver a mediunidade". Toda instituição sente-se incompleta se não possuir inúmeros grupos mediúnicos. O resultado é previsível: multiplicam-se reuniões, enquanto escasseiam exemplos sadios de moralidade e o estudo sério do Evangelho e da Codificação.

Essa mentalidade encontra frontal oposição nos ensinamentos de Emmanuel, em O Consolador. Ao responder se é correto organizar trabalhos especiais para produzir fenômenos e convencer descrentes, Emmanuel é categórico: "Um fenômeno não edifica a fé sincera." A verdadeira convicção nasce do esforço pessoal, da meditação e da transformação moral, jamais da contemplação de manifestações extraordinárias.

Mais contundente ainda é sua advertência contra a provocação do desenvolvimento mediúnico. Emmanuel afirma que ninguém deve forçar o desenvolvimento de qualquer faculdade, pois, nesse campo, a espontaneidade é indispensável. As tarefas mediúnicas pertencem à direção dos Benfeitores Espirituais, não às estratégias administrativas de dirigentes ansiosos por ampliar equipes mediúnicas.

Quantos centros, porém, fazem exatamente o contrário? Incentivam pessoas emocionalmente fragilizadas a ingressarem em grupos mediúnicos como se isso fosse terapia. Confundem sensibilidade psicológica com faculdade ostensiva. Alimentam expectativas de missões grandiosas. Produzem dependência emocional da atividade mediúnica. E, não raras vezes, terminam gerando frustrações, desequilíbrios psíquicos e mistificações infantis.

Emmanuel também recomenda que, antes de intensificar sessões mediúnicas, sejam fortalecidas as reuniões de leitura, meditação e comentários doutrinários, justamente para evitar o "prematuro comércio com as energias do plano invisível". A expressão permanece atual. Muitos ambientes espíritas negociam simbolicamente com o invisível, valorizando mensagens, fenômenos e revelações muito mais do que o estudo sistemático das obras fundamentais.

Criou-se, assim, uma perigosa cultura de excepcionalidade. O médium passou a ocupar posição de destaque, enquanto o estudioso, o trabalhador anônimo e o servidor do Evangelho permanecem invisíveis. A autoridade moral foi substituída pelo prestígio mediúnico; o conhecimento doutrinário cedeu espaço ao fascínio pelo extraordinário e ao delírio metafísico.

Urge esclarecer que o verdadeiro centro espírita não existe para fabricar médiuns. Existe para formar consciências. A mediunidade é faculdade humana, não certificado de evolução espiritual. Existem excelentes médiuns moralmente frágeis e pessoas sem qualquer faculdade ostensiva profundamente evangelizadas. Jesus jamais afirmou que reconheceríamos seus discípulos pelos fenômenos que produzem, mas pelo amor que manifestam.

É urgente libertar o movimento espírita desse frenesi  pela mediunidade. A Casa Espírita deve voltar a ser escola de almas, oficina de educação moral, laboratório de autoconhecimento e núcleo de vivência do Evangelho. Quando isso acontece, a mediunidade encontra naturalmente seu lugardiscreto, responsável, disciplinado e subordinado aos superiores interesses da regeneração humana.

Enquanto continuarmos imaginando, na escola da ilusão, que o êxito de uma instituição espírita depende da quantidade de reuniões mediúnicas que realiza, permaneceremos distantes do pensamento de Kardec e dos Espíritos Superiores. O Espiritismo não veio para impressionar multidões com fenômenos. Veio propor a transformação moral do homem. Todo o restante é acessório e perfumaria de brechó .

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2019.

05 julho 2026

Sim à reforma moral , não ao espetáculo das “curas”, pois o centro espírita não é clínica de milagres



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É sintomático que, em numerosos centros espíritas, as atividades mais concorridas sejam justamente aquelas anunciadas como "trabalhos de cura", "cirurgias espirituais" ou atendimentos realizados por supostos "médicos espirituais". O fenômeno desperta curiosidade, atrai multidões e alimenta expectativas ilusórias. Contudo, permanece a pergunta inevitável: essa prioridade de cirurgiões do além encontra respaldo na Codificação Espírita?

A resposta é definitivamente NÃO!

Allan Kardec jamais priorizou ou atribuiu centralidade à chamada mediunidade de cura dos corpos. Em toda a Codificação, o eixo do Espiritismo repousa na educação moral do ser humano, na renovação da consciência e na vivência dos ensinamentos de Jesus. A faculdade mediúnica nunca foi apresentada como espetáculo, nem como instrumento destinado a satisfazer a ansiedade humana pela eliminação imediata das patologias físicas.

No Livro dos Médiuns, Kardec esclarece que a mediunidade é faculdade destinada ao intercâmbio entre os dois planos da vida, exigindo discernimento, estudo e responsabilidade. Não a transforma em método terapêutico nem estabelece qualquer hierarquia que coloque os chamados médiuns de cura (com supostos cirurgiões do além) acima das demais formas de intercâmbio espiritual.

Do mesmo modo, no Evangelho segundo o Espiritismo, ao comentar as curas realizadas por Jesus, Kardec demonstra que o verdadeiro milagre consiste na transformação moral. O Cristo jamais limitou sua missão à recuperação de organismos enfermos. Seu propósito era despertar consciências para o Reino de Deus, mostrando que a libertação do Espírito tem valor infinitamente superior ao restabelecimento transitório do corpo físico.

É evidente que os recursos fluídicos podem contribuir para o alívio de enfermidades, conforme esclarece a Gênese. Todavia, tais benefícios dependem de múltiplos fatores, entre eles as necessidades evolutivas do Espírito, as leis de causa e efeito e a vontade divina. A Doutrina Espírita jamais prometeu curas universais nem autorizou campanhas de marketing espiritual baseadas em resultados extraordinários de hipotéticas curas espirituais.

Transformar a casa espírita em um centro de promessas terapêuticas representa um inquietante desvio de finalidade. Quando o fenômeno ocupa o lugar do estudo, quando a expectativa da cura física supera o esforço da reforma íntima e quando determinados médiuns passam a ser vistos como detentores de poderes especiais por supostamente incorporam o “Espírito” Dr. “X,Y,X” (normalmente nome de um inglês ,de  um  alemão ou de um hindu), instala-se um ambiente propício ao personalismo, ao misticismo e à superstição — exatamente aquilo que Kardec combateu durante toda a elaboração e codificação da Doutrina.

O Centro espírita não existe para disputar espaço com hospitais, clínicas ou práticas alternativas de saúde. Sua missão é muito mais profunda: esclarecer, consolar, educar e promover a transformação moral do indivíduo. O passe, a prece e a assistência espiritual são valiosos recursos de auxílio, mas jamais substituem o compromisso pessoal com o próprio crescimento espiritual nem autorizam promessas incompatíveis com a prudência kardeciana.

Quem busca o Espiritismo exclusivamente para curar o corpo talvez até encontre algum “alívio” passageiro. Entretanto, quem compreende sua essência descobre algo incomparavelmente maior: um roteiro seguro de renovação interior, capaz de libertar o Espírito das enfermidades morais que constituem a verdadeira causa de grande parte das doenças humanas.

Aliviar” doenças pode ser uma permissão circunstancial. Educar Espíritos é a missão permanente do Espiritismo. Inverter essa ordem significa afastar-se da proposta de Kardec e reduzir uma doutrina de iluminação da consciência a mera fornecedora de expectativas milagrosas.

04 julho 2026

Caminhar juntos ou caminhar sob tutela? O perigo de delegar a própria consciência



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

"Quem caminha sozinho chega mais rápido, mas quem caminha acompanhado vai mais longe." O provérbio encerra uma verdade que o movimento espírita brasileiro ainda não assimilou plenamente. O problema, porém, não é apenas o individualismo. Em muitos casos, trocou-se a cooperação pela tutela, a fraternidade pela hierarquia informal e a construção coletiva pela concentração de poder.

Allan Kardec jamais concebeu um Espiritismo organizado em torno de dirigentes permanentes (nunca largam o cargo), celebridades doutrinárias ou estruturas centralizadoras. A Codificação nasceu do diálogo, da comparação universal dos ensinos dos Espíritos e do permanente exame racional dos fatos (KARDEC, 2019). Não existe, no pensamento kardequiano, espaço para "autoridades doutrinárias" infalíveis nem para organismos que se apresentem como intérpretes oficiais da Verdade.

Entretanto, parcela significativa do movimento espírita brasileiro parece ter seguido caminho diferente. O centralismo federativo, frequentemente apresentado como garantia de unidade, muitas vezes termina produzindo uniformização, dependência intelectual e esvaziamento da autonomia dos centros espíritas. A unidade desejada por Kardec resulta da convergência espontânea dos princípios, nunca da padronização administrativa ou da submissão institucional.

Paralelamente, cresce a burocratização das casas espíritas. Multiplicam-se reuniões administrativas, planejamentos, regulamentos, comissões, protocolos e organogramas. Não há problema na boa organização; ela é necessária. O problema surge quando a máquina administrativa passa a consumir a energia que deveria ser destinada ao estudo, à assistência moral e à transformação moral. O centro espírita deixa de ser escola do Evangelho para funcionar como repartição religiosa.

Outro fenômeno preocupante é o culto às personalidades. Alguns expositores transformam-se em verdadeiras celebridades (ungidas). Auditórios lotam para ouvi-los; suas frases são repetidas como se possuíssem autoridade doutrinária e suas interpretações passam a substituir o estudo direto das obras de Kardec. O Espiritismo, porém, não possui sacerdotes nem oráculos. A única autoridade permanente da Doutrina encontra-se nas obras fundamentais da Codificação, permanentemente submetidas ao exame da razão e da universalidade dos ensinos (KARDEC, 2023).

Esse personalismo produz um empobrecimento intelectual inevitável. Em vez de formar estudiosos, forma admiradores. Em vez de incentivar o pensamento crítico, estimula a repetição de opiniões. O trabalhador deixa de perguntar: "O que Kardec ensina?" para indagar: "O que determinado expositor pensa?" Essa inversão é profundamente incompatível com o método espírita.

Talvez a consequência mais grave seja a terceirização da vivência do Evangelho. Muitos imaginam que basta frequentar reuniões, ouvir palestras, participar de campanhas assistenciais (fazeção de coisas para os “pobres”) ou admirar bons oradores para cumprir seus deveres espirituais. Esquecem que ninguém evolui por procuração. Ninguém delega a reforma moral, a caridade, o estudo ou o esforço moral. O Evangelho não admite representantes. O Cristo continua dirigindo a cada consciência o mesmo convite de dois mil anos atrás: "Segue-me."

O verdadeiro trabalho coletivo não consiste em obedecer passivamente a estruturas ou lideranças. Consiste em compartilhar responsabilidades entre pessoas livres, conscientes e comprometidas com a verdade. Caminhar juntos não significa abdicar da consciência crítica, mas colocá-la a serviço da fraternidade.

O movimento espírita necessita menos de estruturas centralizadoras e mais de centros autônomos, doutrinariamente sólidos e intelectualmente livres. Necessita menos de celebridades e mais de estudiosos. Menos burocracia e mais Evangelho. Menos preocupação com a imagem institucional e mais compromisso com a transformação moral.

Quem caminha sozinho pode cair no orgulho. Mas quem caminha apenas seguindo pessoas ou instituições, sem refletir, corre risco ainda maior: abdicar da própria consciência. O Espiritismo não foi revelado para formar seguidores de dirigentes, federações ou expositores. Foi revelado para formar homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de pensar, servir e amar segundo os ensinamentos de Jesus e os princípios da Codificação.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Nova ed. rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: FEB, 2023.

30 junho 2026

James Webb: quanto mais o Universo se revela, maiores se tornam as perguntas



As extraordinárias descobertas do Telescópio Espacial James Webb (JWST) revelam um universo muito mais complexo do que se supunha há poucas décadas. A identificação de galáxias extremamente antigas, formadas nos primeiros centenas de milhões de anos após o Big Bang, tem levado cosmólogos a revisar hipóteses sobre a evolução do cosmos. Longe de invalidar a teoria do Big Bang, essas observações demonstram a vitalidade do método científico, que progride justamente pela constante confrontação entre teoria e evidência.

Todavia, é necessário evitar conclusões precipitadas. O James Webb não está observando um suposto "antes do Big Bang". Segundo a cosmologia contemporânea, o telescópio capta a luz emitida quando o Universo já existia e se expandia. Até o momento, não há evidências empíricas de eventos anteriores ao Big Bang, tampouco instrumentos capazes de observá-los diretamente.

Esse cenário, entretanto, conduz a uma questão filosófica inevitável: quanto mais a ciência explica o funcionamento do Universo, mais profundas se tornam as perguntas acerca de sua origem última. De onde procedem as leis da natureza? Por que o Universo apresenta uma ordem matemática tão extraordinária? Por que existe algo em vez do nada?

A história da ciência demonstra que essas indagações nunca foram estranhas aos seus grandes fundadores. A teoria do Big Bang foi proposta pelo padre e físico belga Georges Lemaître, que distinguiu cuidadosamente a investigação científica da reflexão teológica. Para ele, a ciência descreve a evolução do Universo; a questão da criação pertence ao campo da filosofia e da metafísica.

Séculos antes, Francis Bacon advertia que a verdadeira ciência exige humildade intelectual diante dos fatos inesperados. Segundo ele, quando a experiência contradiz uma hipótese, não se deve forçar os fatos a se ajustarem à teoria; é a teoria que deve ser reformulada. Essa postura continua sendo um dos pilares do conhecimento científico.

A célebre máxima atribuída a Sócrates — "Só sei que nada sei" — permanece atual. Quanto maior o conhecimento, maior a consciência daquilo que ainda ignoramos. O James Webb não encerra o debate sobre a origem do Universo; ao contrário, amplia-o.

Pode a ciência provar a existência de Deus? A resposta, sob o rigor metodológico, é negativa. A ciência investiga fenômenos naturais observáveis e testáveis. Deus, concebido como causa primeira ou fundamento do ser, não constitui objeto de experimentação laboratorial. Isso, porém, não significa que a ideia de Deus seja irracional. A reflexão filosófica, desde Aristóteles até inúmeros cientistas modernos, reconhece que a ordem, a inteligibilidade e a racionalidade do cosmos podem conduzir legitimamente à hipótese de uma Inteligência Criadora.

O maior legado do Telescópio Espacial James Webb talvez não seja apenas revelar galáxias cada vez mais distantes ou registrar imagens inéditas dos primórdios do Universo, mas recordar à humanidade que o avanço do conhecimento não elimina o mistério. Ao contrário, cada descoberta amplia o horizonte da investigação e evidencia que a realidade é muito mais vasta e complexa do que supunham os modelos anteriores.

 Quanto mais o Universo se revela, maiores se tornam as perguntas sobre sua origem, estrutura, evolução e finalidade. Nesse contexto, a ciência continua cumprindo seu papel essencial de investigar os fenômenos por meio da observação, da experimentação e da revisão permanente de hipóteses. 

A filosofia, por sua vez, é chamada a refletir sobre os significados mais profundos dessas descobertas. Assim, razão e filosofia podem dialogar de forma harmoniosa, sem confundir seus campos de atuação, enriquecendo a compreensão humana diante da grandiosidade do cosmos e dos limites ainda existentes do conhecimento.


Referências bibliográficas:

BACON, Francis. Novum Organum. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

LEMAÎTRE, Georges. The Primeval Atom: An Essay on Cosmogony. New York: D. Van Nostrand, 1950.

NASA. James Webb Space Telescope. Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/webb/. Acesso em: 30 jun. 2026.

Campanha "Auta de Souza": caridade ou proselitismo? Uma reflexão imprescindível


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Espiritismo não foi instituído como uma religião destinada à conquista de adeptos. Allan Kardec jamais recomendou visitas domiciliares para divulgação da Doutrina associadas à arrecadação de donativos. Ao contrário, ensinou que o Espiritismo se propagaria "pela força das coisas", isto é, pela lógica de seus princípios, pela razão e pelo exemplo moral de seus seguidores, jamais por estratégias que pudessem sugerir captação religiosa.

Nesse contexto, merece reflexão a denominada "Campanha Auta de Souza", semelhante à tradicional "Campanha do Quilo", na qual trabalhadores espíritas percorrem residências arrecadando alimentos e, simultaneamente, distribuem mensagens e convites para atividades doutrinárias. Embora inspirada em nobres intenções, essa prática não encontra respaldo explícito na Codificação Espírita.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec ensina que a beneficência deve ser absolutamente desinteressada. O auxílio material deve ser prestado sem qualquer expectativa de adesão religiosa ou influência sobre a consciência daquele que o recebe. O conhecido princípio "Fora da caridade não há salvação" evidencia que a salvação moral decorre da prática do bem, e não da filiação a qualquer crença.

Quando a arrecadação de alimentos é acompanhada da distribuição de mensagens ou convites para reuniões espíritas, estabelece-se, ainda que involuntariamente, uma associação entre assistência social e divulgação doutrinária. Ainda que inexista intenção de converter pessoas, tal procedimento pode ser percebido como forma indireta de proselitismo, incompatível com o respeito à liberdade de consciência, princípio basilar do Espiritismo.

Em Obras Póstumas, Kardec afirma que o Espiritismo conquistará espaço pela superioridade moral e racional de seus ensinos, jamais por meios artificiais de propaganda. A divulgação doutrinária deve ocorrer em ambientes próprios — palestras públicas, grupos de estudo, livros, imprensa e meios digitais — frequentados espontaneamente por aqueles que desejam conhecer a Doutrina.

Há também uma dimensão ética relevante. Visitas religiosas não solicitadas podem representar interferência na esfera privada das famílias, especialmente em uma sociedade plural, onde coexistem diferentes convicções filosóficas e religiosas. O Evangelho esclarece e convida; nunca constrange nem invade.

Igualmente importante é reconhecer que campanhas eventuais de arrecadação, embora meritórias, não enfrentam as causas estruturais da pobreza. A promoção humana requer educação, capacitação, acolhimento, fortalecimento moral e oportunidades de emancipação, indo além da simples distribuição periódica de alimentos.

Por isso, o movimento espírita deve reexaminar práticas consagradas pela tradição, distinguindo costumes históricos dos princípios efetivamente codificados por Allan Kardec. Fidelidade à Codificação exige discernimento permanente.

A verdadeira caridade não necessita de anunciar uma doutrina. Ela se manifesta pelo respeito, pela gratuidade, pela discrição e pelo amor ao próximo. O Espiritismo não cresce quando bate às portas das casas; cresce quando alcança as consciências pela coerência de seus princípios e pelo testemunho moral de seus adeptos. A melhor divulgação da Doutrina continua sendo a vivência sincera do Evangelho.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 129. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2023.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 43. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2022.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 94. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2023

27 junho 2026

As "BETS" e a tragédia silenciosa das apostas online



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há tragédias que não chegam pela violência das armas nem pelo estrondo das guerras. Entram sorrateiramente pela tela do celular, travestidas de entretenimento, promessa de riqueza fácil e propaganda milionária. Assim se apresenta a indústria das apostas esportivas na internet, um dos mais devastadores mecanismos contemporâneos de destruição moral, financeira e emocional.

O caso do tenente da Polícia Militar de Goiás, Danilo Lopes Negrão, é um retrato doloroso dessa realidade. Um homem de apenas 41 anos, pai de uma menina de cinco anos, iniciou apostas durante a Copa do Mundo de 2022. No começo vieram os ganhos, suficientes para alimentar a perigosa ilusão de controle. Depois, as perdas sucessivas, empréstimos, quase um milhão de reais em dívidas, depressão profunda e, finalmente, o suicídio.

Sua viúva, Raquel Maria, rompeu o silêncio para advertir outras famílias: "Não joguem. Não joguem pouco. Não joguem muito. Não joguem nada." Não fala como uma especialista em economia ou psicologia. Fala quem viu sua família ser destruída.

O drama do tenente não é um episódio isolado. É o roteiro repetido de milhares de brasileiros. A lógica das apostas online não foi construída para enriquecer apostadores. Foi projetada para enriquecer plataformas. Os algoritmos exploram mecanismos psicológicos conhecidos: recompensas intermitentes, sensação de quase vitória, impulsividade e esperança permanente de recuperar o prejuízo. O resultado é uma dependência comportamental que pode atingir níveis comparáveis aos de outras formas de vício.

Enquanto isso, a publicidade vende fantasia. Celebridades, influenciadores e até clubes esportivos emprestam sua credibilidade para normalizar uma atividade cujo modelo econômico depende justamente das perdas da maioria dos jogadores.

Sob a ótica espírita, a questão ultrapassa o aspecto financeiro. O trabalho honesto permanece sendo o instrumento legítimo da construção da prosperidade. Allan Kardec ensina que o progresso decorre do esforço, da inteligência e da responsabilidade. Emmanuel recorda que não existem atalhos para as leis divinas. Toda tentativa de obter vantagens sem o correspondente mérito costuma cobrar elevado preço moral.

O jogo alimenta ilusões perigosas: riqueza sem trabalho, recompensa sem esforço, fortuna sem disciplina. Em vez de fortalecer a vontade, enfraquece-a. Em vez de cultivar a perseverança, estimula a ansiedade. Em vez da confiança em Deus, promove a dependência da sorte.

Não se trata de condenar pessoas. Muitos dos que hoje sofrem são vítimas de um sistema cuidadosamente elaborado para capturar sua atenção, seu tempo e seu patrimônio. Precisam de acolhimento, tratamento especializado, apoio familiar e espiritual, jamais de desprezo.

Todavia, acolher a pessoa não significa silenciar diante da perversidade do mecanismo. Uma sociedade que transforma o vício em entretenimento, o endividamento em negócio e o sofrimento em fonte de lucro caminha perigosamente para a banalização da dor humana.

Que o testemunho de Raquel Maria não seja apenas mais uma notícia esquecida. Que seja um alerta. Antes de apostar o próximo real, alguém pode estar apostando a própria paz, a estabilidade da família e, em casos extremos, a própria vida.

O verdadeiro patrimônio do ser humano nunca esteve na sorte. Sempre esteve no trabalho digno, com a consciência tranquila e na confiança em Deus.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Doenças – CID-11. Genebra: OMS.

26 junho 2026

Honestidade: dever inegociável nas instituições espíritas


 Jorge Hessen

Brasília -DF

 

"Mais vale repelir dez verdades que admitir uma só mentira, uma só teoria falsa." — Erasto (O Livro dos Médiuns).

Quando o assunto é a honestidade de dirigentes e trabalhadores das instituições espíritas, o silêncio nunca foi boa política. A credibilidade do Movimento Espírita depende, em grande medida, da coerência entre o discurso e a prática.

Infelizmente, a imprensa noticia com frequência escândalos envolvendo líderes religiosos que enriquecem à custas da fé alheia. Não afirmamos que essa seja a realidade da maioria das casas espíritas, mas basta um único caso para comprometer a imagem de muitos. Daí a necessidade de vigilância permanente.

O verdadeiro cristão é honesto em todas as circunstâncias. Quem contrai uma dívida tem o dever moral de quitá-la. Quem administra recursos doados deve prestar contas com absoluta transparência. Publicar periodicamente receitas e despesas não é favor aos colaboradores; é obrigação ética e demonstração de respeito aos que confiam na instituição.

A transparência afasta suspeitas, preserva a credibilidade e impede comentários que, muitas vezes, surgem exatamente pela ausência de informações. Onde há lisura, não há espaço para insinuações.

Ao longo dos anos, em diversas palestras, abordamos esse tema. Em algumas ocasiões, a reação de certos dirigentes foi de desconforto. Houve até quem nos excluísse de escalas de oradores. Não nos surpreendeu. A verdade, quando toca em interesses pessoais, costuma provocar resistência. Contudo, advertir sobre desvios de conduta jamais significou atacar esta ou aquela instituição, mas sim alertar todo o Movimento Espírita para um risco real.

Também é lamentável quando dirigentes se apropriam de doações destinadas aos necessitados, manipulam recursos, burlam obrigações legais ou se perpetuam no poder como se fossem proprietários da casa espírita. Tais práticas afrontam o Evangelho e desrespeitam frontalmente os princípios da Codificação.

No Espiritismo não existe "meia honestidade". Não há espaço para o "quase honesto". Jesus foi categórico: "Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não." A ética cristã não admite zonas cinzentas nem justificativas convenientes para pequenas fraudes ou privilégios pessoais.

Os Benfeitores espirituais esperam de nós fidelidade aos princípios, não discursos eloquentes desacompanhados de exemplos. As influências espirituais inferiores encontram terreno fértil justamente onde florescem a vaidade, o apego ao poder e a falta de transparência.

Advertir sobre a necessidade de honestidade não é semear discórdia; é defender a dignidade da Doutrina Espírita. A casa espírita deve ser reconhecida pela simplicidade, pela responsabilidade administrativa e pela absoluta retidão moral de seus dirigentes. Onde prevalecem a ética, a transparência e o espírito de serviço, o Evangelho permanece vivo e a confiança dos trabalhadores e frequentadores se fortalece.

 

25 junho 2026

Pode um pastor que nega a reencarnação palestrar numa Casa Espírita?


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Convidar um líder religioso (pastor) que nega a reencarnação e a mediunidade para palestrar  numa casa espírita é, no mínimo, uma alucinação.  O problema começa quando se perde a clareza dos objetivos doutrinários.

O Espiritismo ensina o respeito irrestrito à liberdade de consciência. Allan Kardec jamais defendeu o sectarismo. Aliás, dialogou com cientistas, materialistas, religiosos e céticos. O diálogo é saudável e necessário. Todavia, existe uma diferença fundamental entre dialogar com quem pensa diferente e conceder tribuna doutrinária a quem combate os princípios fundamentais da Doutrina Espírita.

Se um palestrante evangélico afirma categoricamente que a comunicação entre encarnados e desencarnados é impossível; que a mediunidade é fraude ou ação demoníaca; que a reencarnação não existe, então estamos diante de alguém que rejeita os pilares básicos do Espiritismo.

Qual seria, então, a finalidade de convidá-lo?

Se o objetivo for um debate acadêmico ou inter-religioso longe da casa espírita , explicitamente apresentado como tal, não há incoerência. O público sabe que ouvirá uma visão divergente.

Mas se o convite ocorre em ambiente espírita, como atividade de concepção doutrinária, a situação se torna, no mínimo, insustentável.

Kardec adverte em diversas passagens sobre a necessidade de preservar a identidade doutrinária. Em O Livro dos Médiuns, ao tratar das infiltrações ideológicas e dos desvios de finalidade, enfatiza que a fidelidade aos princípios é indispensável para a unidade do movimento.

Imagine um congresso de matemática convidando alguém para ensinar que dois mais dois são cinco. O expositor tem o direito de pensar assim. O congresso, porém, teria o dever de explicar por que está oferecendo sua tribuna para negar os fundamentos da própria disciplina.

Muitas vezes, o fenômeno decorre de uma mentalidade contemporânea segundo a qual toda divergência deve ser diluída em nome de uma suposta inclusão. Entretanto, tolerância não significa relativização dos princípios.

Pode-se respeitar profundamente um pastor evangélico sem concordar com sua teologia. Pode-se admirar suas qualidades morais e até aprender com sua experiência humana. Mas isso não transforma suas convicções em passaporte para palestrar com suas ideias e convicções no espaço espírita.

O próprio Kardec ensinava que a fraternidade não exige uniformidade de opiniões, porém exige honestidade intelectual. Quando uma instituição espírita promove alguém que combate os fundamentos da Codificação, ainda que esclarecendo  os propósitos do convite, irá  gerar confusão doutrinária.

A pergunta central não é: "O pastor pode falar?"
A pergunta é: "Para quê foi convidado?"
Se for para apresentar uma visão externa, identificada como tal, o diálogo é suportável. Mas, se for para representar ou ensinar espiritismo, apesar de negar a mediunidade e a reencarnação, a lógica doutrinária realmente se torna difícil de compreender, tipo roda quadrada.
Como ensinava Allan Kardec, a tolerância deve caminhar ao lado da lógica. Sem coerência, o diálogo deixa de ser um intercâmbio de ideias e passa a ser uma fonte de desorientação para aqueles que buscam conhecer a Doutrina Espírita em sua legítima estrutura conceitual.

É isso!!

24 junho 2026

Preservação urgente da identidade da Doutrina Espírita


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Em determinados círculos espíritas contemporâneos, a expressão "pureza doutrinária" passou a ser vista com desconfiança, como se representasse rigidez, intolerância ou apego excessivo ao passado. Entretanto, sob a ótica espírita, ela significa algo muito diferente: a preservação da identidade da Doutrina Espírita conforme estruturada por Allan Kardec, sem acréscimos místicos, esotéricos ou ritualísticos estranhos à Codificação.

A questão permanece atual. Em diversos grupos, práticas como apometria, uso de cristais, pirâmides, cromoterapia espiritual, banhos ritualísticos e outras práticas excêntricas são frequentemente apresentadas como recursos espíritas. Todavia, tais procedimentos não encontram respaldo nas obras fundamentais da Doutrina.

Kardec estabeleceu um método baseado na observação, na razão e no controle universal do ensino dos Espíritos, não em sistemas paralelos ou revelações isoladas. Isso não significa negar a intenção positiva daqueles que as praticam. Muitas pessoas dedicam-se sinceramente ao auxílio do próximo. O mérito da caridade permanece intacto. Contudo, de boa intenção, o umbral está abarrotado e não é critério suficiente para caracterizar uma prática como espírita. A fidelidade doutrinária exige que as atividades desenvolvidas nos centros espíritas estejam em harmonia com os princípios codificados.

O Centro Espírita deve funcionar como um verdadeiro hospital da alma, oferecendo esclarecimento, consolo e renovação moral à luz do Evangelho. Sua força não reside em métodos extraordinários ou promessas de “milagrosas” curas espetaculares, mas na transformação íntima proporcionada pelo conhecimento espírita e pela vivência dos ensinos de Jesus.

Grande parte das distorções surge quando se abandonam os estudos das obras básicas em favor de literaturas secundárias, muitas vezes sem critérios doutrinários seguros. Como advertia Kardec, o Espiritismo possui um corpo de princípios definido, cuja coerência garante sua estabilidade e sua capacidade de dialogar com a ciência, a filosofia e a religião.

Entretanto, defender a pureza doutrinária não significa cair em extremismos. A vigilância doutrinária deve caminhar lado a lado com a fraternidade. O excesso de rigor pode gerar sectarismo; a excessiva permissividade, por sua vez, conduz à descaracterização da Doutrina. O equilíbrio consiste em preservar os princípios fundamentais sem sufocar a liberdade de ação e a criatividade nas atividades compatíveis com eles.

Nesse sentido, a advertência de Bezerra de Menezes continua atual ao conclamar os espíritas à preservação da "claridade dos postulados" e da "limpidez dos conteúdos" do Espiritismo. O movimento espírita necessita de permanente reflexão para que não se transformem opiniões pessoais em princípios doutrinários.

A mediunidade, por exemplo, deve permanecer vinculada aos critérios de responsabilidade, estudo e finalidade moral ensinados por Kardec. Quando convertida em espetáculo, experimentalismo inconsequente ou promessa de soluções mágicas, perde sua finalidade educativa e cristã.

O Espiritismo oferece à humanidade um patrimônio doutrinário de extraordinária riqueza. Preservá-lo não constitui atitude conservadora, mas compromisso de lealdade para com a Terceira Revelação. A tolerância não exige silêncio diante dos equívocos; exige, sim, que a discordância seja apresentada com respeito, firmeza e fundamentação.

Se desejamos um movimento espírita forte, coerente e fiel às suas origens, precisamos recordar que a maior defesa da Doutrina não está em inovações esdrúxulas inúteis, mas no estudo sério das obras de Kardec e na vivência do Evangelho de Jesus. Toda concessão indevida enfraquece sua identidade; toda fidelidade consciente fortalece sua missão.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 132. ed. Brasília: FEB, 2023.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 91. ed. Brasília: FEB, 2023.

FRANCO, Divaldo Pereira. Mensagem de Bezerra de Menezes no encerramento da Reunião do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira. Brasília, 9 nov. 2003.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Orientação ao Centro Espírita. Brasília: FEB, 2022.

HESSEN, Jorge. Reflexões sobre fidelidade doutrinária e preservação dos postulados espíritas. Artigo revisado e atualizado, 2026.

23 junho 2026

Espiritismo, saúde integral e o desafio de cuidar do corpo, da mente e do espírito



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A ciência contemporânea começa a confirmar aquilo que as tradições espiritualistas sustentam há séculos: o ser humano não pode ser compreendido apenas como um organismo biológico. Estudo publicado por pesquisadores da Universidade de Harvard, da Harvard T.H. Chan School of Public Health e do Brigham and Women's Hospital, na revista JAMA (2022), concluiu que a “espiritualidade” está associada a menores índices de depressão, suicídio, abuso de substâncias, sofrimento emocional e desesperança, além de favorecer resiliência, qualidade de vida e melhor enfrentamento das adversidades.

Os pesquisadores adotaram uma definição ampla de “espiritualidade”, desvinculada de confissões religiosas específicas, entendendo-a como busca de significado, propósito, conexão, valores e transcendência. Tal compreensão reforça a necessidade de um cuidado integral, que considere não apenas o corpo físico, mas também as dimensões psicológicas, sociais e existenciais da criatura humana.

A história da psiquiatria demonstra o quanto a visão exclusivamente materialista foi insuficiente e até danosa. Durante décadas, predominou o modelo manicomial, marcado pelo isolamento dos pacientes e pelo excessivo recurso à medicalização. Posteriormente, a reforma psiquiátrica introduziu abordagens mais humanizadas, valorizando a reintegração social, a arteterapia, a musicoterapia, o psicodrama e outras técnicas que reconhecem a complexidade do sofrimento mental.

Sob a ótica espírita, tais avanços representam importantes conquistas, mas não esgotam a compreensão especialmente da enfermidade psíquica. Allan Kardec ensina que o homem é constituído de corpo, perispírito e Espírito, sendo o perispírito o elemento de ligação entre os planos material e espiritual (KARDEC, 2019). Dessa forma, determinadas perturbações podem envolver fatores que transcendem os mecanismos puramente orgânicos.

A Doutrina Espírita não nega a contribuição da medicina nem propõe substituí-la. Ao contrário, reconhece o valor dos medicamentos, da psicoterapia, da terapia ocupacional e de todos os recursos científicos disponíveis. Entretanto, acrescenta a necessidade de investigar as causas morais e espirituais das patologias humanas. Nesse contexto, a obsessão espiritual pode atuar como fator agravante em determinados quadros, exigindo assistência especializada, perseverança e asseio mental. (FRANCO, 1995).

Importa destacar que nenhum tratamento espiritual dispensa o acompanhamento médico tradicional. Constitui grave equívoco a suspensão de medicamentos ou a formulação de diagnósticos precipitados em nome dos tratamentos espíritas. À Casa Espírita compete oferecer apoio moral, passes, preces, água fluidificada, estudo do Evangelho e esclarecimento fraterno, sempre em harmonia com as orientações dos profissionais de saúde.

A espiritualidade, portanto, não deve ser encarada como solução milagrosa, mas como dimensão essencial da existência humana. Ela fortalece a esperança, amplia o senso de propósito, melhora os vínculos afetivos e favorece a reorganização interior diante das provas da vida. Ao reconhecer essa realidade, a ciência e o Espiritismo aproximam-se em benefício dos enfermos.

Chegará o dia em que a medicina compreenderá plenamente que a saúde resulta da interação entre corpo, mente e Espírito. Quando isso ocorrer, o tratamento das doenças será mais eficaz e verdadeiramente humano, pois considerará o homem em sua integralidade, e não apenas em seus sintomas.

 

Referências Bibliográficas:

FRANCO, Divaldo Pereira. Nos Bastidores da Obsessão. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

KARDEC, Allan. A Gênese. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2018.

KOENIG, Harold G.; BALBONI, Tracy A.; VANDERWEELE, Tyler J. Spirituality and Health: The Research and Clinical Implications. JAMA, Chicago, v. 328, n. 2, p. 184-197, 2022.