Jorge Hessen
Brasília -DF
O aquecimento dos oceanos expõe a irresponsabilidade humana e exige mais consciência e não profecias “apocalípticas”.
“Cem dias de recordes de calor nos oceanos”. Não é manchete de filme de catástrofe. É o retrato de uma realidade climática que já bate à porta da humanidade. Desde 2 de junho de 2026, as temperaturas médias diárias dos mares permanecem em níveis sem precedentes nos registros contemporâneos. Em 10 de setembro, a estimativa global chegou a 21,15 °C.
Enquanto cientistas medem o aquecimento, parcela da humanidade continua discutindo se a crise climática existe. É como discutir a existência da chuva enquanto a água invade a sala. O problema já não é apenas ambiental. É civilizatório. Oceanos mais quentes ameaçam ecossistemas, favorecem eventos extremos, elevam o nível do mar e ampliam a vulnerabilidade de populações costeiras.
E há uma ironia amarga: justamente a humanidade que se proclama racional demonstra, diante dos fatos, uma preocupante incapacidade de aprender. O planeta registra sucessivos sinais de desequilíbrio, enquanto interesses econômicos imediatos continuam prevalecendo sobre a responsabilidade coletiva.
Há uma reportagem que aponta que o atual calor oceânico resulta da combinação do El Niño com o aquecimento decorrente das emissões humanas de gases de efeito estufa. Os oceanos absorvem cerca de 90% do calor adicional provocado por essas emissões. Ou seja: o mar vem funcionando como gigantesco amortecedor térmico da irresponsabilidade humana.
O Espiritismo oferece uma perspectiva que não combina nem com a negação irresponsável nem com o pânico apocalíptico.
Kardec ensinou que os grandes fenômenos da Natureza obedecem a leis e possuem finalidade dentro da ordem universal. Ao tratar dos flagelos destruidores, esclarece que muitos deles concorrem para o restabelecimento do equilíbrio das forças naturais. (KARDEC, 2001, q. 536).
Isso não significa que devamos cruzar os braços. A Lei de Causa e Efeito não transforma o homem em espectador passivo da própria história. Ao contrário: quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade. Se nossa civilização produz desmatamento, poluição, desperdício e emissões que agravam o aquecimento planetário, não podemos depois atribuir exclusivamente à “vontade divina” as consequências de nossas escolhas.
Deus não precisa ser responsabilizado por aquilo que a imprudência humana produz. Também é necessário combater outro equívoco: transformar cada desastre climático em anúncio de “fim do mundo”. O Espiritismo não é doutrina de terror. Não necessita de profetas do caos, datas apocalípticas ou interpretações mirabolantes para demonstrar que a humanidade precisa mudar.
O que precisamos é muito mais simples — e infinitamente mais complexo: educação moral, responsabilidade ambiental e fraternidade.
A Terra é nossa moradia. Não somos seus proprietários absolutos. Somos usufrutuários temporários de um patrimônio que pertence também às futuras gerações. Por isso, preservar a natureza não é moda ideológica. É dever moral.
O verdadeiro espírita não deve perguntar quando o mundo vai acabar. Deve perguntar que mundo está auxiliando a construir.
Os oceanos já deram o alerta. Agora falta à humanidade decidir se continuará dormindo diante dele.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2001.
MAES, Jéssica. Oceanos completam 100 dias de recordes de calor e a temperatura segue alta. Folhapress, 2026. Material reproduzido no documento fornecido.
HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz. 2. ed. São Paulo: Mandarim, 2002.







