21 maio 2026

Assistencialismo ou “repasses” de coisas como cajado psicológico?



 Jorge Hessen

Brasília DF

 

Insisto no tema por observar “fazedores” de coisas para os vulneráveis econômicos sem esforço de mudança de caráter. Há quem transforme o ato de dar, de oferecer algo a quem tem menos, numa espécie de encosto interno — uma verdadeira muleta psicológica para se sustentar diante de si mesmo.

Para essas pessoas, a doação não nasce de um impulso genuíno de auxiliar, mas sim da necessidade de preencher vazios, aliviar culpas ou construir uma imagem proeminente de si mesmas.

E há uma razão profunda para isso: quem é amargo consigo mesmo, que carrega ressentimentos, insatisfação e dureza com a própria existência, não é capaz de viver um conforto íntimo e verdadeiro ao doar.

Por mais que entreguem bens transitórios, alimentos ou recursos, o gesto permanece frio, desprovido daquela ligação humana que torna o auxílio algo significativo. A amargura que habita dentro deles não deixa espaço para a generosidade sincera; a doação se torna apenas um ato mecânico, uma forma de tentar compensar o que lhes falta por dentro, sem nunca conseguir sentir a paz ou a satisfação que vem de um coração realmente disposto a compartilhar.

No fundo, a verdadeira solidariedade só floresce quando a pessoa está em paz consigo mesma. Quem não consegue ser gentil com o próprio ser também não consegue dar algo que tenha valor real ao próximo — pois o que se doa reflete sempre o que se tem dentro de si.

Há ainda um sinal bastante sutil: aqueles excessivamente vinculados à “fazeção de coisas” costumam revelar pouca tolerância diante das imperfeições alheias, exatamente o contrário da visão kardeciana de caridade, que exige indulgência e benevolência. Assim, o ativismo pode tanto servir de mecanismo de fuga quanto de valiosa escola evolutiva — tudo dependerá do grau de consciência e maturidade espiritual de quem realiza a ação.

Sempre digo que o ponto essencial não está simplesmente em “fazer” ou “deixar de fazer”, mas na intenção e na consciência com que se age no assistencialismo. Quando a ação produz humildade, ela se converte em instrumento de educação do espírito. Contudo, quando alimenta a prepotência , acaba apenas fortalecendo a sombra do ego.

Da mesma forma, evitar conflitos íntimos pode representar mera fuga da realidade interior; porém, se a experiência assistencialista  amplia a capacidade de compreender, servir e amar, então estamos diante da verdadeira caridade.

 

 

20 maio 2026

A bebida alcoólica e a ilusão do enganoso “só um gole”






Jorge Hessen

Brasília -DF

O vinho é escarnecedor e a bebida forte alvoroçadora; todo aquele que por eles é vencido não é sábio.” — Provérbios 20:1.

A ingestão de bebidas alcoólicas constitui um dos mais graves problemas médico-sociais da atualidade. Embora socialmente glamourizado, o álcool continua destruindo famílias, adoecendo jovens, incentivando a violência e comprometendo bilhões de consciências.

A propaganda sedutora da indústria alcoólica, especialmente difundida pela televisão e pelas redes sociais, transforma o vício em símbolo de status, diversão e aceitação social, anestesiando a percepção moral sobre seus efeitos devastadores.

No Evangelho, encontramos clara advertência quanto aos excessos. Sobre João Batista, registra Lucas: “não beberá vinho nem bebida forte” (Lc 1:15). A orientação evangélica aponta para a vigilância e o equilíbrio, jamais para a exaltação dos prazeres intoxicantes.

Sob a ótica espírita, o alcoolismo não é apenas enfermidade física ou psicológica: é também processo de grave comprometimento espiritual. Divaldo Pereira Franco, pela psicografia de Victor Hugo, afirma que a obsessão através do alcoolismo é muito mais ampla do que aparenta, tornando o indivíduo instrumento de forças perturbadoras. O vício corrói lentamente à vontade, enfraquece os mecanismos de defesa moral e abre campo às influências espirituais inferiores.

Entretanto, ainda há quem tente justificar “pequenas concessões” com argumentos frágeis: “todo mundo bebe”, “socialmente não faz mal”, “uma taça faz bem ao coração”. Tal retórica permissiva apenas mascara uma tragédia coletiva. O primeiro gole raramente permanece sozinho. Quase toda dependência começou um dia sob o pretexto inocente do “só hoje” ou “só um pouquinho”.

Joanna de Ângelis adverte que não devemos nos comprometer com o hábito da bebida sob qualquer pretexto festivo ou social. Pequenas permissividades constroem grandes escravidões. Uma gota de veneno pode bastar para desencadear consequências irreversíveis.

O quadro torna-se ainda mais alarmante entre adolescentes. Especialistas apontam que o álcool funciona frequentemente como porta de entrada para drogas mais destrutivas. O estímulo familiar e cultural ao consumo precoce tem reduzido drasticamente a idade de iniciação alcoólica. Jovens de 12 ou 13 anos já apresentam padrões de abuso outrora observados apenas em adultos. A banalização da bebida cria uma geração emocionalmente fragilizada, vulnerável à violência, aos acidentes e às dependências químicas severas.

No Brasil, o alcoolismo permanece como grave questão de saúde pública. Hospitais, clínicas psiquiátricas, delegacias e cemitérios testemunham diariamente os efeitos da embriaguez. Violência doméstica, acidentes de trânsito, homicídios, suicídios e desestruturação familiar possuem frequentemente o álcool como agente silencioso.

Infelizmente, alguns adeptos espíritas adotam perigosa incoerência: defendem a disciplina moral no discurso, mas relativizam os próprios hábitos. Criam um “espiritismo de conveniência”, no qual os princípios doutrinários servem para os outros, jamais para si mesmos. Esquecem que nem tudo o que é comum na sociedade é moralmente saudável.

A verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em possuir domínio sobre si mesmo. Allan Kardec recorda, em O Evangelho segundo o Espiritismo, ensinamento ditado por Hahnemann: “o homem não permanece vicioso senão porque quer permanecer vicioso”. A renovação moral exige disciplina, vigilância e coragem para romper hábitos nocivos.

Num mundo marcado pelo culto aos excessos, resistir ao alcoolismo é ato de lucidez espiritual. Quem preserva a própria consciência dos entorpecentes protege não apenas o corpo, mas também a dignidade da alma.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

FRANCO, Divaldo Pereira Franco. Calvário de Libertação. Pelo Espírito Victor Hugo. Salvador: Alvorada, 1979.

FRANCO, Divaldo Pereira Franco. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Rio de Janeiro: FEB, 1983.

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Provérbios 20:1; Lucas 1:15.

JORNAL MUNDO ESPÍRITA. Editorial. Federação Espírita do Paraná, jul. 2002.

REVISTA ÉPOCA. Consumo precoce de álcool preocupa especialistas. Rio de Janeiro, 29 jul. 2002.

Lacração? Kardec não é porta-voz de agendas ideológicas pessoais





Jorge Hessen

Brasília -DF

 Com a polarização política, o termo Lacração foi apropriado por grupos “conservadores”. Hoje, é amplamente utilizado de forma pejorativa, principalmente nas redes sociais e na crítica cultural, para deslegitimar obras de arte, filmes ou discursos focados em diversidade, acusando-os de impor agendas políticas de forma forçada.

Trazendo o tema para as hostes espiritas e apropriando-nos do termo, percebemos com certa frequência os chamados “lacradores” da interpretação espírita, que tentam aprisionar o pensamento de Allan Kardec em categorias ideológicas estreitas, como “conservador”, “liberal”, “progressista”, “reacionário” ou quaisquer outros rótulos humanos e transitórios. Entretanto, a obra kardequiana ultrapassa essas reduções simplistas.

O pensamento de Kardec é profundamente racional, mas igualmente moral e amoroso. Ele jamais construiu um sistema de fanatismo político, nem um mecanismo de dominação ideológica. Seu compromisso foi com a verdade, com a lógica, com a observação dos fatos e, sobretudo, com a transformação moral do ser humano.

Quando Kardec defende a prudência, a disciplina moral e a responsabilidade espiritual, alguns o chamam de conservador. Quando combate privilégios, preconceitos, castas e desigualdades, outros o classificam como liberal ou progressista. Todavia, Kardec não pertence a nenhuma trincheira humana. Seu pensamento é supraideológico, porque se fundamenta nas leis espirituais, que transcendem as paixões políticas e culturais de cada época.

A Doutrina Espírita não foi criada para servir de plataforma de militância emocional, nem para satisfazer vaidades intelectuais ou disputas de poder dentro do movimento espírita. O Espiritismo é, antes de tudo, um convite à renovação íntima, à fraternidade e à emancipação da consciência.

O problema dos “lacradores” modernos é que frequentemente substituem o estudo sério pela teatralização das opiniões. Em vez de investigarem profundamente O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo ou A Gênese, preferem adaptar a Doutrina às modas culturais do momento, tentando fazer de Kardec um porta-voz das próprias agendas pessoais.

Entretanto, Kardec foi um homem de equilíbrio admirável. Defendia a liberdade de consciência, mas repudiava os excessos da intolerância. Incentivava o progresso, mas advertia contra os perigos do orgulho intelectual. Exaltava a razão, mas nunca divorciada do amor e da humildade.

O verdadeiro espírita não deve cair nem no dogmatismo endurecido nem no emocionalismo superficial. O Espiritismo pede reflexão madura, estudo contínuo e caridade real. Reduzir Kardec a um “rótulo ideológico” é reduzir a universalidade da Doutrina Espírita.

Como ensinava Allan Kardec, “fora da caridade não há salvação”. Essa máxima não é de direita nem de esquerda; não é conservadora nem progressista. É uma lei espiritual destinada à evolução de toda a humanidade.


19 maio 2026

Congressos “espíritas” palestrantes “ungidos” e a vil mercantilização da fé





Jorge Hessen

Brasília -DF

A crescente profissionalização de determinados eventos “espíritas” exige reflexão séria e corajosa por parte do Movimento Espírita brasileiro. Multiplicam-se congressos grandiosos, seminários caros, encontros elitizados e atividades doutrinárias cercadas de forte aparato comercial e personalista, enquanto o ideal de simplicidade ensinado por Jesus e defendido por Allan Kardec vai sendo gradativamente relegado a plano secundário.

A discussão não é nova. Em fevereiro de 1994, o Conselho Federativo Estadual da Federação Espírita do Paraná analisou a crescente prática de cobrança de taxas de inscrição em eventos espíritas. O documento elaborado à época demonstrou rara lucidez ao reconhecer que determinadas promoções poderiam exigir custos inevitáveis com alimentação, hospedagem ou infraestrutura. Entretanto, estabeleceu princípio moral inegociável: a cobrança jamais poderia transformar-se em obstáculo ao acesso à mensagem espírita nem converter a divulgação doutrinária em mecanismo de arrecadação financeira.

Essa advertência permanece profundamente atual.  Em muitos casos, os chamados “congressões espíritas” passaram a reproduzir métodos típicos do mercado religioso contemporâneo. Repetem-se as mesmas “figurinhas carimbadas”, escolhidas não necessariamente pela profundidade doutrinária, mas pelo poder de atração de público.

Criou-se uma espécie de celebrização de palestrantes, em que determinados nomes ungidos funcionam como marcas comerciais capazes de garantir auditórios lotados, venda de livros e sustentabilidade financeira dos eventos. A consequência inevitável é a espetacularização da fé.

Substitui-se o estudo sério pela emoção superficial; a reflexão doutrinária pela performance; a simplicidade evangélica pela grandiosidade institucional. Muitos encontros acabam mais próximos de feiras religiosas do que propriamente de ambientes de estudo espírita.

Não se trata de negar a necessidade material das instituições. Auditórios possuem custos. Equipamentos demandam manutenção. Eventos exigem organização. Todavia, o problema começa quando a lógica financeira passa a determinar a própria dinâmica doutrinária.

O documento da Federação Espírita do Paraná foi extremamente feliz ao afirmar que “os fins não justificam os meios”. Tal orientação possui enorme profundidade ética. Em nome da arrecadação, alguns grupos espíritas passaram a tolerar práticas incompatíveis com os princípios da Codificação, como excessiva comercialização de produtos, apelos mercadológicos e verdadeira profissionalização das atividades religiosas.

O Espiritismo jamais foi concebido como produto de consumo. Jesus Cristo ensinou: “Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes”. Kardec, por sua vez, sempre demonstrou preocupação com qualquer tentativa de exploração material da Doutrina Espírita. O caráter moral e educativo do Espiritismo exige coerência entre finalidade e método.

Além disso, há grave consequência sociológica nesse modelo de megaeventos: a elitização do acesso ao conhecimento espírita. Muitos confrades humildes não conseguem participar de congressos devido aos altos valores cobrados. Cria-se, assim, uma divisão silenciosa entre os que podem consumir determinados espaços doutrinários e aqueles que permanecem excluídos deles.

Paradoxalmente, uma doutrina fundada sobre fraternidade e universalidade corre o risco de adotar critérios semelhantes aos do mercado capitalista religioso.

Outro aspecto preocupante é o personalismo crescente. O Movimento Espírita corre sério perigo quando determinadas lideranças “santificadas” passam a concentrar excessiva visibilidade, transformando-se em referências quase intocáveis. O foco deixa de ser a mensagem espírita para recair sobre a figura do “ungido” expositor. Onde há culto à personalidade, inevitavelmente surgem distorções doutrinárias, fascinação e dependência emocional.

O verdadeiro centro do Movimento Espírita deve continuar sendo o estudo da obra kardequiana e a vivência do Evangelho, jamais o brilho de estruturas grandiosas ou a popularidade de expositores. Até porque a autenticidade espírita não se mede pelo tamanho dos auditórios, pela sofisticação dos eventos ou pelo volume arrecadado, mas pela fidelidade aos princípios morais do Cristo.

O Espiritismo necessita urgentemente recuperar a simplicidade. Menos espetáculo. Menos marketing religioso. Menos comércio da fé. Mais estudo, fraternidade e coerência evangélica.

 

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

Conduta Espírita. Psicografia de Waldo Vieira. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

Estude e Viva. Psicografia de Chico Xavier e Waldo Vieira. Rio de Janeiro: FEB, 2016.

Federação Espírita do Paraná. Conselho Federativo Estadual. Diretrizes sobre eventos doutrinários e captação de recursos. Curitiba, 1994.

 

18 maio 2026

A obsessão pela “sorte” tem aniquilado famílias, carreiras e valores morais.




 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Existem estudos mostrando que muitos “sortudos” ganhadores de loteria enfrentam dificuldades financeiras alguns anos após receberem grandes prêmios e voltam à estaca zero e às vezes em condições financeiras muito piores. Há inúmeros casos que revelam falências, conflitos familiares, vícios, depressão e perdas patrimoniais após enriquecimento repentino. O dinheiro fácil, sem preparo emocional e sem educação financeira, frequentemente transforma-se em instrumento de muita perturbação e desequilíbrio generalizado.

Sob o ponto de vista moral e espiritual, a ilusão da fortuna instantânea alimenta fantasias incompatíveis com a lei do esforço e do mérito. Muitos passam a acreditar que a felicidade pode ser comprada por um golpe de sorte, esquecendo-se de que o verdadeiro patrimônio do Espírito é construído pelo trabalho digno, pela disciplina e pela perseverança. A chamada “sorte” não substitui a maturidade necessária para administrar recursos materiais com equilíbrio e responsabilidade.

Os jogos de azar, inclusive as modernas apostas virtuais (“tigrinhos”), exploram justamente a fragilidade psicológica da esperança fácil. Prometem riqueza rápida, mas frequentemente conduzem ao endividamento, à ansiedade e à dependência emocional. Em muitos casos, a pessoa deixa de investir em qualificação, trabalho produtivo e planejamento financeiro para viver alimentando expectativas irreais.

A Doutrina Espírita valoriza o trabalho como instrumento de progresso moral e intelectual. O Livro dos Espíritos ensina que o trabalho é lei da Natureza e condição necessária ao desenvolvimento humano. Allan Kardec esclarece que toda conquista sólida resulta do esforço consciente e da responsabilidade pessoal. Da mesma forma, Chico Xavier costumava lembrar que “o dinheiro abençoado é aquele que chega pelo trabalho honesto e serve ao bem”.

Isso não significa condenar quem eventualmente participa de uma loteria ocasionalmente, mas é necessário alertar para a mentalidade perigosa da riqueza sem esforço, hoje amplificada pelas plataformas digitais de apostas e cassinos eletrônicos. A obsessão pelo ganho imediato pode destruir famílias, carreiras e valores morais.

Muitos apostadores passam a viver em função de uma expectativa fantasiosa, sacrificando o equilíbrio financeiro e emocional da família. A fascinação pelo jogo pode transformar-se numa escravidão mental. O que começa como distração termina, frequentemente, em compulsão da jogatina nesse sanatório global lembrada aqui como metáfora para descrever o estado atual da sociedade e/ou da internet, como um ambiente caótico e completamente doente.

Há pessoas que comprometem salários, patrimônio e até relações afetivas na tentativa desesperada de recuperar perdas. É um ciclo cruel: quanto mais se perde, mais se aposta na ilusão de recuperar.

A verdadeira fortuna não nasce do acaso (do jogo), mas do esforço honesto, da perseverança e da administração equilibrada da vida. A paz íntima jamais será encontrada em bilhetes ou apostas, mas na consciência tranquila de quem constrói o próprio destino com trabalho, ética e fé no futuro.

A verdadeira prosperidade nasce da consciência tranquila, do trabalho honrado, da administração prudente e da confiança em Deus. O patrimônio material pode desaparecer; entretanto, ninguém perde os patrimônios imperecíveis conquistados pelo estudo, pela honestidade e pelo esforço próprio.

Delírio no movimento espírita e a “fascinante” reencarnação de Kardec em Chico Xavier





Jorge Hessen

Brasília -DF

A Doutrina Espírita, edificada por Allan Kardec sob bases racionais, filosóficas e morais, jamais incentivou especulações fantasiosas acerca de “quem foi quem” nas sucessivas existências corporais. Entretanto, ainda persistem no movimento espírita brasileiro certas ideias simplistas e improdutivas, entre elas a velha tese de que Chico Xavier teria sido a reencarnação de Kardec. Trata-se de uma hipótese sem sustentação doutrinária, sem coerência lógica e absolutamente estéril do ponto de vista moral.

O Espiritismo não foi criado para alimentar curiosidades personalistas nem para produzir mitologias em torno de médiuns venerados. Seu objetivo essencial é a transformação moral do ser humano. Kardec foi categórico ao afirmar que o verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços para domar suas más inclinações. Portanto, discutir obsessivamente supostas identidades espirituais revela desvio do foco doutrinário e perigosa tendência à fascinação.

A fascinação, aliás, é amplamente estudada por Kardec no Livro dos Médiuns. Nela, o Codificador explica que o fascinado perde o senso crítico e passa a aceitar ideias absurdas sem análise racional. Muitos adeptos dessas teses circenses agem exatamente assim: abandonam o critério kardequiano para mergulhar em conjecturas emocionalistas e cultos de personalidade.

Nem o próprio Chico Xavier admitiu semelhante absurdo. Pelo contrário: sempre demonstrou humildade extrema, reconhecendo-se apenas como servidor imperfeito do Cristo. Em inúmeras entrevistas, Chico evitava qualquer exaltação pessoal e combatia o personalismo dentro do Espiritismo. Atribuir-lhe a condição de Kardec reencarnado contraria frontalmente sua postura moral e espiritual.

Também Divaldo Franco diversas vezes advertiu sobre os perigos da mistificação e do fanatismo no meio espírita. O médium baiano recorda que o Espiritismo deve permanecer fiel à razão e ao bom senso, sem criar “santos espíritas” nem dogmas emocionais. Quando o movimento abandona a análise crítica, cai inevitavelmente no misticismo que Kardec tanto combateu.

Nas consagradas obras de André Luiz observa-se constante valorização do esforço íntimo, da disciplina mental e do serviço ao próximo. Em nenhum momento existe estímulo para especulações vaidosas sobre identidades passadas. O foco é sempre a transformação moral. Já Emmanuel advertia que o Espiritismo perderia sua finalidade se fosse transformado em palco de fantasias e disputas personalistas.

Do mesmo modo, Bezerra de Menezes sempre defendeu a união espírita baseada na caridade, na humildade e no estudo sério da Doutrina. Alimentar teorias fantasiosas apenas estimula divisões inúteis, idolatrias e infantilizações incompatíveis com a maturidade filosófica do Espiritismo.

A fascinação (obsessão) em descobrir reencarnações famosas revela, muitas vezes, profunda imaturidade espiritual. É mecanismo psicológico de fuga diante do verdadeiro desafio espírita: ressignificar o egoísmo, o orgulho e a vaidade. Enquanto alguns discutem fantasiosamente se Chico foi Kardec, esquecem-se da tarefa essencial de viver os ensinos morais do Evangelho.

O Espiritismo não necessita dessas narrativas fantasiosas para validar sua grandeza. Sua força está justamente na racionalidade, na universalidade do ensino dos Espíritos e no convite permanente ao aperfeiçoamento moral. Fora disso, sobram apenas emocionalismo, fascinação e ilusão.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2020.

XAVIER, Francisco Cândido. Pinga-Fogo com Chico Xavier. São Paulo: IDE, 2008.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

FRANCO, Divaldo Pereira. Diretrizes de Segurança. Salvador: LEAL, 2009.

MENEZES, Bezerra de. A Loucura sob Novo Prisma. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

 

 

Nostradamus, armagedom, islã e os conflitos contemporâneos na visão espírita

 




 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Ao longo da história, períodos de crise social, guerras e transformações culturais sempre estimularam interpretações proféticas sobre o futuro da humanidade. Entre essas previsões, destacam-se as famosas Centúrias de Nostradamus, frequentemente associadas ao chamado “Armagedom”, entendido por muitos como uma guerra global de caráter religioso ou civilizacional. Em tempos atuais, diante do crescimento das populações islâmicas na Europa, do avanço de ideologias políticas polarizadas e do aumento de tensões geopolíticas, muitos tentam relacionar tais fenômenos às antigas profecias.

Todavia, sob a ótica espírita, convêm prudência, racionalidade e equilíbrio. Allan Kardec advertiu que o Espiritismo não deve se apoiar em previsões fatalistas nem em interpretações apocalípticas sem base lógica e moral. A Doutrina Espírita analisa os acontecimentos humanos a partir da lei de progresso, das consequências morais das ações coletivas e da responsabilidade espiritual dos indivíduos.

O crescimento do islamismo na Europa não pode ser interpretado simploriamente como “invasão destrutiva” ou ameaça inevitável. Seria incompatível com o pensamento espírita transformar povos inteiros em inimigos espirituais. O próprio Cristo ensinou que o ódio produz mais ódio, enquanto a fraternidade constitui a única solução duradoura para os conflitos humanos. Kardec recorda que todas as religiões guardam sementes de verdade e representam etapas evolutivas da humanidade.

É evidente que existem movimentos extremistas dentro de várias tradições religiosas e políticas. O terrorismo, seja praticado em nome da religião, do nacionalismo ou de ideologias revolucionárias, representa grave expressão do atraso moral humano. Entretanto, seria injusto associar bilhões de muçulmanos ao extremismo violento. O Espiritismo condena qualquer forma de fanatismo, seja religioso, político ou ideológico.

A chamada “onda vermelha”, os radicalismos ideológicos contemporâneos e a polarização entre conservadores  e progressistas também precisam ser analisados com serenidade. Emmanuel, através de Chico Xavier, advertia que as grandes crises do mundo decorrem sobretudo da ausência de transformação moral do homem. Quando grupos políticos passam a justificar violência, intolerância ou autoritarismo em nome de projetos de poder, revelam apenas o velho materialismo travestido de discurso humanitário.

León Denis ensinava que as civilizações não perecem por causa de povos estrangeiros, mas pela decadência moral interna. Assim, a Europa não enfrentaria uma crise por causa apenas da imigração islâmica, mas sobretudo pela perda de valores espirituais, pelo vazio existencial, pelo consumismo excessivo e pela fragilidade ética das instituições modernas.

André Luiz, em diversas obras psicografadas por Chico Xavier, demonstra que a humanidade terrestre atravessa fase de transição espiritual. Nesse contexto, conflitos culturais, choques ideológicos e tensões sociais tendem a intensificar-se. Contudo, tais acontecimentos não significam condenação definitiva da humanidade, mas oportunidades de aprendizado coletivo.

Bezerra de Menezes afirmava que a regeneração do mundo dependerá menos de sistemas políticos e mais da educação moral baseada no Evangelho. Nenhuma ideologia salvará a humanidade sem a vivência do amor, da tolerância e da justiça.

Divaldo Franco frequentemente advertiu sobre o crescimento do extremismo e da violência, mas sempre destacou que o medo coletivo alimenta ainda mais as sombras sociais. O Espiritismo não estimula paranoia civilizacional nem guerras religiosas; propõe discernimento, caridade e vigilância moral.

Desse modo, as profecias atribuídas a Nostradamus devem ser analisadas com cautela. O Espiritismo não sustenta determinismos absolutos. O futuro resulta das escolhas humanas. A humanidade pode caminhar rumo a conflitos devastadores, mas também pode construir uma era de regeneração moral se aprender a superar o egoísmo, o fanatismo e a intolerância.

Mais importante do que tentar identificar “o inimigo profético” é reconhecer que o verdadeiro Armagedom ocorre no próprio homem, na luta entre o orgulho e o amor, entre o ódio e a fraternidade.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

FRANCO, Divaldo Pereira. Transição Planetária. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2010.

KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2021.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2022.

XAVIER, Francisco Cândido. A Caminho da Luz. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2020.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2021.

--


17 maio 2026

Refletindo sobre transplantes de órgãos sob a perspectiva espírita




 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Nas diversas especialidades médicas, o transplante de órgãos talvez seja uma das práticas que melhor simbolizam a ligação entre morte e renovação da vida, recordando a imagem da fênix  (ave mitológica associada ao renascimento). O avanço da ciência, especialmente nas áreas de transplantes, genética e terapias celulares (utiliza células-tronco, fatores de crescimento ou estímulos biológicos para reparar, substituir ou rejuvenescer tecidos danificados), tem ampliado as possibilidades de prolongamento e melhoria da existência física.

No passado, os transplantes eram marcados por elevadas taxas de rejeição e reduzidas perspectivas de sobrevida. Atualmente, graças aos imunossupressores e ao aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas, tornaram-se recursos terapêuticos seguros e eficazes. Ainda assim, muitos espíritas demonstram receios quanto à doação de órgãos, geralmente motivados por interpretações equivocadas de opiniões atribuídas a Chico Xavier.

Em entrevista concedida à TV Tupi, em 1964, Chico Xavier afirmou que os Espíritos consideravam o transplante “um problema da ciência muito legítimo e muito natural”. Explicou ainda ser perfeitamente compreensível a doação de órgãos úteis após a desencarnação, em benefício de pessoas necessitadas. A conhecida declaração do médium sobre não desejarem “mexer em seu corpo” referia-se, especificamente, ao temor de que seu cérebro fosse utilizado em estudos após sua morte, e não a uma condenação dos transplantes.

Na visão espírita, doar órgãos representa gesto elevado de solidariedade. Joanna de Ângelis define o transplante como “verdadeira bênção”, capaz de proporcionar moratória existencial ao Espírito reencarnado, permitindo-lhe prosseguir na experiência terrena.

Alguns questionam se a retirada dos órgãos causaria danos ao perispírito. Contudo, não há fundamento doutrinário para essa preocupação. O doador de córneas, por exemplo, não despertará cego na vida espiritual. Caso contrário, os Espíritos desencarnados em acidentes, incêndios ou explosões permaneceriam eternamente mutilados, hipótese incompatível com a justiça divina.

Outro ponto frequentemente debatido é a morte encefálica. A medicina contemporânea considera morto o indivíduo que apresenta cessação irreversível de todas as funções encefálicas, inclusive do tronco cerebral, ainda que aparelhos mantenham artificialmente a circulação e a respiração. O diagnóstico exige rigorosos protocolos clínicos e exames complementares. Portanto, a retirada de órgãos nessas circunstâncias não configura eutanásia, pois a morte já ocorreu sob critérios científicos universalmente aceitos.

O Espiritismo ensina que o desligamento do Espírito do corpo varia conforme as condições morais e psíquicas de cada indivíduo. Em alguns casos, pode ocorrer de maneira lenta; em outros, quase instantaneamente. Entretanto, seria incoerente admitir que a Justiça Divina ficasse subordinada às circunstâncias materiais do cadáver, seja em transplantes, necrópsias ou cremações.

Allan Kardec esclarece que a alma não permanece presa indefinidamente ao corpo sem vida. André Luiz acrescenta que células transplantadas passam gradualmente a adaptar-se ao comando mental e espiritual do receptor, integrando-se ao novo organismo. Joanna de Ângelis complementa, afirmando que o órgão transplantado sofre naturalmente influência do perispírito do beneficiário.

Assim, à luz da Doutrina Espírita, a doação de órgãos constitui legítima expressão de caridade e fraternidade. Trata-se de valiosa conquista da ciência humana, colocada a serviço do amor, oferecendo a muitos irmãos a oportunidade de continuar a jornada terrena. Negar essa possibilidade por temor infundado seria duvidar da misericórdia e da perfeita justiça das Leis Divinas.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em Dois Mundos. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1972.

FRANCO, Divaldo Pereira. Dias Gloriosos. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1999.

SIMONETTI, Richard. Quem Tem Medo da Morte?. São Paulo: Lumini, 2001.

BEZERRA, Evandro Noleto. “Transplante de Órgãos na Visão Espírita”. Reformador, Rio de Janeiro, out. 1998.

ABBUD FILHO, Mário. Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Estudos sobre transplantes e doação de órgãos.

SANTOS, Rita Maria P. Dos Transplantes de Órgãos à Clonagem. Rio de Janeiro: Forense, 2000.

16 maio 2026

Adultério e invasão de privacidade numa reflexão kardequiana

 





Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Diante da infidelidade conjugal, muitas pessoas atravessam duas etapas emocionais marcantes: o protesto e o desespero. Na primeira fase, predominam o choro, a revolta, os pedidos de reconciliação e a sensação de perda. Na segunda, surgem sintomas semelhantes aos quadros depressivos, como insônia, isolamento social, desânimo e perda de interesse pela vida cotidiana.

 Em meio a esse contexto, ganhou repercussão o caso do norte-americano Leon Walker, de Michigan, que acessou o correio eletrônico da esposa para confirmar uma relação extraconjugal. Alegou ter agido para proteger os filhos, mas acabou acusado de invasão de privacidade eletrônica, podendo inclusive responder criminalmente perante a legislação norte-americana.

O episódio suscita reflexão ética e jurídica. De um lado, a invasão de correspondência eletrônica constitui afronta ao direito à intimidade, protegido pelas legislações modernas e pela própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo artigo 12 condena interferências arbitrárias na vida privada.

No Brasil, a Constituição Federal de 1988 assegura a inviolabilidade da intimidade, da vida privada e das comunicações (BRASIL, 1988). A expansão tecnológica, entretanto, tornou cada vez mais tênue a fronteira entre o público e o privado, favorecendo mecanismos de vigilância doméstica, espionagem virtual e monitoramento de mensagens pessoais.

Sob a ótica espírita, porém, o adultério possui implicações morais profundas, por atingir diretamente os sentimentos, a confiança e os compromissos afetivos. Allan Kardec recorda a advertência do Cristo à mulher adúltera: “Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra” (João 8:7), ensinando que a indulgência deve prevalecer sobre a condenação precipitada. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec afirma que não devemos julgar com maior severidade os erros alheios sem antes examinarmos nossas próprias imperfeições.

O Espírito Emmanuel observa que muitos dramas afetivos decorrem da imaturidade emocional humana e que, no futuro, o adultério tenderá a desaparecer à medida que as relações forem edificadas sobre respeito, responsabilidade e afinidade espiritual. A verdadeira união, segundo a visão espírita, transcende os impulsos meramente corporais, fundamentando-se no amor, na compreensão e no crescimento mútuo. Por isso, diante das desarmonias conjugais, a prudência recomenda menos acusações e mais reflexão íntima.

Não cabe ao observador humano penetrar a consciência alheia nem emitir sentenças definitivas. Cada criatura enfrenta provas específicas diante da Lei Divina. O Mentor de Chico Xavier adverte que muitos erros aparentes podem converter-se em caminhos de aprendizado, enquanto aparentes acertos podem ocultar graves desvios morais. Assim, perante conflitos afetivos, a recomendação cristã continua atual: substituir o julgamento pela compreensão e recordar o ensinamento do Cristo — “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (João 15:12).

 

Referências Bibliográficas:

 

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

Novo Testamento. João 8:7; João 15:12.

O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

Francisco Cândido Xavier; Emmanuel. Vida e Sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1978.

GUEIROS JUNIOR, Nehemias. Insegurança na internet: há remédio? Disponível em: Mundo Jurídico. Acesso em: 16 de maio de 2026.

Heranças insólitas e paradoxos humanos


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Casos de milionários que deixam fortunas para seus animais de estimação chamam a atenção pelo contraste entre riqueza e afeto. Gail Posner, socialite americana, destinou sua mansão de US$ 8,3 milhões e um fundo de US$ 3 milhões à cadela. Leona Helmsley, magnata de Nova York, deixou US$ 12 milhões para sua maltês Trouble, excluindo os netos. Oprah Winfrey reservou US$ 30 milhões para seus cães, enquanto Drew Barrymore determinou que sua cadela herdasse sua casa de US$ 3 milhões. A condessa alemã Karlotta Liebenstein, em 1992, legou US$ 194 milhões ao pastor alemão Gunther III; o fundo hoje ultrapassa US$ 370 milhões.

Tais atitudes revelam um sintoma psicopatológico com o recado: “Recebi mais amor do meu animal do que das pessoas.” Esses extremos refletem uma sociedade marcada por contradições: fortunas destinadas a cães coexistem com miséria, drogas, violência, racismo e fome.

Ainda convivemos com pessoas em situação de rua, doenças como tuberculose e AIDS, e epidemias de crack, apesar de vivermos em uma era tecnológica que parecia inimaginável nos anos 1970, quando não existiam microcomputadores, celulares ou internet.

Porém, reconheço que nem tudo é desolador. Ao lado de heranças excêntricas destinadas a animais de estimação, que frequentemente despertam curiosidade e repercussão pública, existem também exemplos marcantes de profunda responsabilidade social. Muitos empresários, artistas e milionários optam por destinar parte significativa de suas fortunas ao amparo do ser humano, financiando hospitais, pesquisas científicas, bolsas de estudo, projetos culturais e ações de solidariedade.

Desde o século XIX, milionários americanos praticam o mecenato e a filantropia, financiando museus, universidades e projetos sociais. Atualmente, muitos não esperam a morte para doar: criam fundações ainda jovens, garantindo que os recursos sejam aplicados em causas escolhidas. Além disso, evitam deixar grandes heranças aos filhos, temendo que isso destrua sua autonomia. Nos EUA, valoriza-se o self-made man (*) e heranças excessivas são vistas como um obstáculo ao mérito pessoal.

Nesse cenário de profundas crises morais, desigualdades sociais e desafios coletivos que afligem a humanidade contemporânea, a mensagem do Cristo permanece como um roteiro seguro para a regeneração espiritual do homem. Seus ensinamentos de amor, perdão, fraternidade e solidariedade continuam atuais e indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa e pacífica.

Exemplos luminosos como Vicente de Paulo, Francisco de Assis, Irmã Dulce, Madre Teresa e Chico Xavier demonstram, por meio de suas existências dedicadas ao próximo, que a caridade genuína, associada ao amor incondicional, possui extraordinária força moral capaz de aliviar sofrimentos, despertar consciências adormecidas e transformar realidades sociais. Pela vivência sincera do Evangelho, esses benfeitores revelaram que o verdadeiro progresso da humanidade não será alcançado apenas pelo avanço material, mas, sobretudo, pela renovação íntima e pela prática do bem, sem distinções.

Como disse Paulo: “Já não sou eu quem vive, mas o Cristo vive em mim” (Gl 2,20). Cabe a nós escolher, entre o berço e o túmulo, atitudes que elevem a vida por meio da fé e das boas obras.

 (*)  termo usado para descrever indivíduos que alcançaram grande sucesso, riqueza ou prestígio social partindo do zero, sem heranças, privilégios ou ajuda externa significativa

Referências Bibliográficas:

  1. IstoÉ Independente, Edição 1925, 2010.
  2. Mario Marcondes, veterinário, Hospital Sena Madureira, SP.
  3. Rick Cohen, Comitê Nacional de Filantropia Responsável.
  4. Bíblia, Gálatas 2,20.