08 junho 2026

Centro espírita não é e jamais deverá ser palanque de poder


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A instituição espírita nasceu para ser escola de almas, oficina de trabalho no bem e posto avançado de fraternidade. Sua finalidade não é a conquista de posições de chefiaprestígio ou autoridade administrativa, mas a transformação moral dos frequentadores  à luz do Evangelho do Cristo.

Entretanto, não raras vezes, observa-se o surgimento de aborrecíveis disputas por cargos, movimentos de bastidores, articulações silenciosas (maledicência) e verdadeiras campanhas eleitorais antecipadas em torno de futuras diretorias e presidências. Trata-se de um fenômeno deplorável que revela o quanto ainda estamos distantes dos valores que supostamente abraçamos.

O cargo de direção, em uma casa espírita, deveria representar oportunidade de serviço e não instrumento de poder, de mando e desmandos. Quem aspira à direção apenas para ser reconhecido, influenciar pessoas ou satisfazer necessidades egóicas de afirmação pessoal demonstra entrave moral e incompreensão da essência da liderança espírita cristã. Jesus, o Governador Espiritual da Terra, ensinou exatamente o contrário: “aquele que quiser ser o maior, seja o servo de todos”.

É igualmente inquietante quando pessoas comprovadamente desajustadas em seus próprios ambientes domésticos  se apresentam como modelos de equilíbrio para conduzir instituições espíritas. Evidentemente, não devemos exigir perfeição de ninguém, pois todos somos aprendizes. Contudo, a direção de uma organização espírita exige maturidade emocional, capacidade de diálogo, espírito conciliador, testemunho moral e exemplo de equilíbrio familiar compatível com as responsabilidades assumidas.

Os grupos espíritas não podem e nem devem transformar-se em ambientes de fofoca (maledicência), formação de grupelhos “dissidentes”, alianças politiqueiras ou busca de “eleitores” para futuras administrações. Quando isso acontece, o foco deixa de ser o Evangelho para concentrar-se nas desprezíveis ambições humanas de mando e desmando. O resultado inevitável é a desarmonia, o afastamento de inocentes úteis (trabalhadores sinceros) e o enfraquecimento das atividades doutrinárias.

Allan Kardec advertiu que o verdadeiro espírita se reconhece por sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações. A disputa por podera intriga e o desejo de controle constituem justamente algumas dessas infelizes inclinações que necessitam ser vencidas.

A casa espírita deve permanecer como reduto de paz, de união legítima e não mascarada, de educação espiritual, estudo sério da Doutrina, acolhimento fraterno e serviço desinteressado ao próximo. Seus dirigentes são administradores temporários de uma tarefa que pertence a Cristo, portanto, não proprietários de cargos ou de instituições.

Quando interesses pessoais passam a prevalecer sobre os interesses da causa espírita, perde-se a perspectiva do serviço e instala-se a cultura da competição. E onde há competição por prestígio e “poder” , impossível haver espaço para a verdadeira fraternidade.

Quem não consegue adaptar-se aos princípios de respeito, cooperação e humildade que devem caracterizar o movimento espírita talvez encontre maior afinidade em outros ambientes voltados às disputas de influência e poder. A seara espírita, porém, exige outra postura: a do trabalhador que serve sem exigir reconhecimento, que coopera sem disputar posições e que compreende que a maior autoridade é a do exemplo sobretudo no ambiente doméstico.

O futuro saudável das instituições espíritas dependerá menos de estatutos, regimentos, cargos ou eleições e muito mais da capacidade de seus integrantes cultivarem a humildade, a tolerância e o espírito de serviço. Afinal, na Casa do Cristo, os maiores não são os que mandam mais, mas os que servem melhor.

Nesta abordagem acima preservamos o tom fundamentado de nossa análise, mas deslocamos o foco temático para princípios doutrinários universais, evitando quaisquer personalizações, reforçando o ideal de serviço ensinado por Jesus e pela Doutrina Espírita.

Pensemos nisso!

 

07 junho 2026

A assistência social e a inaceitável barganha de cestas básicas por doutrinação espírita


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre as distorções mais graves que ainda podem ser encontradas em alguns ambientes religiosos está a prática de condicionar a entrega de cestas básicas ou outros benefícios assistenciais à participação obrigatória em palestras, cultos ou atividades doutrinárias. Quando isso ocorre em instituições espíritas, o problema se torna ainda mais contraditório, pois afronta simultaneamente a legislação brasileira, a liberdade de consciência e os princípios fundamentais da Doutrina Espírita.

A fome não pode ser utilizada como instrumento de convencimento espírita . Quem procura auxílio material encontra-se, muitas vezes, em situação de extrema vulnerabilidade. Exigir que o necessitado assista a palestras públicas para receber alimentos equivale a transformar a caridade em moeda de troca. Não se trata mais de auxílio fraterno, mas de constrangimento moral disfarçado de doutrinação.

O Espiritismo jamais autorizou semelhante prática. Allan Kardec ensina que a verdadeira caridade se fundamenta na benevolência, na indulgência e no respeito ao próximo. Em nenhum momento propõe que a assistência material seja condicionada à adesão religiosa. Pelo contrário, a Doutrina Espírita respeita profundamente a liberdade de consciência, reconhecendo que a fé legítima somente existe quando resulta da convicção livre e racional.

Jesus também não condicionava o socorro às multidões à frequência obrigatória em reuniões religiosas. Quando multiplicou os pães, alimentou indistintamente a todos. Não perguntou a crença de ninguém, não exigiu profissão de fé prévia e não transformou a necessidade humana em oportunidade de recrutamento religioso. O Mestre servia primeiro; ensinava depois e sempre sem constrangimento.

Sob o aspecto jurídico, a prática é igualmente questionável. A Constituição Federal assegura a liberdade de consciência e de crença, vedando qualquer forma de coerção religiosa. O Estado brasileiro é laico, e a dignidade humana exige que ninguém seja colocado diante do dilema entre receber alimento e submeter-se a uma atividade religiosa indesejada. A assistência deve ser oferecida com respeito à autonomia moral do indivíduo.

Pesquisas acadêmicas têm demonstrado que parte das atividades assistenciais religiosas ainda conserva características assistencialistas, nas quais a ajuda material permanece fortemente vinculada a objetivos confessionais. Tal modelo vem sendo objeto de críticas por dificultar a emancipação do assistido e por confundir solidariedade com proselitismo religioso.

Não há mérito moral e digo mais , é profundamente imoral  evangelizar alguém cuja liberdade de escolha está limitada pela fome. A casa espírita existe para servir, não para constranger. Quem recebe uma cesta básica não está adquirindo uma obrigação espiritual. Está apenas exercendo o direito de ser tratado com dignidade. Se desejar participar das atividades doutrinárias, que o faça por livre escolha e sincero interesse, nunca por necessidade alimentar.

A verdadeira caridade não cobra essa coação ao socorrido para assistir a palestras públicas.  Não impõe condições. Não explora a fragilidade humana. Alimenta o corpo sem violar a consciência. Fora disso, já não estaremos diante do Evangelho do Cristo nem da proposta libertadora do Espiritismo, mas diante de uma forma disfarçada de comércio moral da miséria.

A missão da casa espírita não é conquistar frequentadores pela necessidade material, mas servir ao próximo com dignidade, respeito e amor.

Onde existe a obrigatoriedade de assistir a palestras ou outras atividades espirituais, ainda que sutil, a caridade é uma paródia do bem. Mas onde há liberdade e legítima solidariedade, o Cristo é mais autêntico.

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

SIMÕES, José Pedro. O assistencialismo espírita. Interações – Cultura e Comunidade, v. 17, n. 2, p. 358-375, 2022. DOI: 10.5752/P.1983-2478.2022v17n2p358-375.

SOUZA, André Ricardo de; SIMÕES, Pedro. Desafios do trabalho assistencial espírita: dois modelos de atuação. REVER – Revista de Estudos da Religião, v. 17, n. 1, 2017.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988.

LOPES, Márcia Helena Carvalho. Assistencialismo não é assistência social. Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), 2019.

 

06 junho 2026

Abduções e Alienígenas? A tribuna e o empobrecimento do pensamento espírita

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Temos observado um fenômeno preocupante em determinados segmentos do movimento espírita brasileiro: a crescente substituição do estudo doutrinário sério por narrativas sensacionalistas envolvendo extraterrestres, abduções alienígenas, conspirações cósmicas e supostas revelações extraordinárias apresentadas como se fossem ensinamentos espíritas legítimos.

O problema não reside na possibilidade da existência de vida em outros mundos. A pluralidade dos mundos habitados constitui um princípio claramente exposto por Allan Kardec em O Livro dos Espíritos. O equívoco começa quando hipóteses ufológicas, relatos anedóticos ou experiências subjetivas passam a ser divulgados em tribunas espíritas como se integrassem o corpo doutrinário da Codificação.

Allan Kardec edificou o Espiritismo sobre bases radicalmente diferentes. Sua metodologia exigia observação rigorosa, análise racional, comparação universal dos ensinos dos Espíritos e permanente submissão dos fatos ao crivo da razão. Em nenhum momento o Codificador autorizou a aceitação de afirmações extraordinárias apenas porque são fascinantes ou despertam curiosidade.

Ao contrário, Kardec advertiu que um dos maiores perigos para o Espiritismo seria a invasão de ideias fantasiosas capazes de comprometer sua credibilidade perante a sociedade. Em A Gênese, afirmou que uma teoria somente pode ser incorporada ao patrimônio doutrinário quando resistir simultaneamente ao exame da lógica, da razão e dos fatos.

Entretanto, alguns expositores contemporâneos parecem ignorar esse princípio fundamental. Utilizam a tribuna espírita para difundir narrativas sobre extraterrestres que sequestram seres humanos, realizam experiências biológicas ou monitoram secretamente a humanidade. Frequentemente, tais afirmações são apresentadas sem qualquer comprovação objetiva e, pior ainda, associadas indevidamente ao nome de Kardec.

Esse procedimento produz graves consequências. A primeira delas é a descaracterização da própria Doutrina Espírita. O público leigo passa a confundir Espiritismo com ufologia, esoterismo ou literatura de ficção científica. A segunda consequência é o enfraquecimento da credibilidade intelectual da doutrina, justamente uma das características mais valorizadas por Kardec.

Enquanto alguns se ocupam de especulações sobre discos voadores e abduções, temas essenciais da renovação moral acabam relegados ao segundo plano. Fala-se menos de reforma íntima, responsabilidade espiritual, caridade, educação das emoções e vivência evangélica. A curiosidade substitui o autoconhecimento; o espetáculo toma o lugar do estudo.

A obsessão pelo extraordinário não representa avanço espiritual. Muitas vezes, constitui apenas uma forma sofisticada de fuga das próprias responsabilidades morais. É mais fácil discutir civilizações galácticas do que enfrentar os desafios cotidianos do orgulho, do egoísmo e da intolerância.

A tribuna espírita não foi criada para entreter nem para impressionar e agradar auditórios. Sua finalidade é esclarecer consciências à luz da razão e do Evangelho. Quando opiniões pessoais são apresentadas como verdades doutrinárias, abre-se espaço para a mistificação, fenômeno amplamente denunciado por Kardec em suas obras.

O movimento espírita necessita urgentemente retornar às fontes da Codificação. Isso não significa fechar-se à investigação de novos fenômenos, mas preservar a distinção entre hipótese e doutrina, entre opinião individual e ensinamento espírita. Sem esse cuidado, corre-se o risco de transformar uma filosofia racional em um repositório de crenças sem controle metodológico.

O Espiritismo não tem necessidade de extraterrestres sequestradores (abdução) para justificar sua existência. Seus fundamentos são suficientemente sólidos para sustentar uma visão elevada do ser humano, da vida e da imortalidade. A verdadeira grandeza da doutrina não está no fantástico, mas na sua capacidade de unir razão, ciência, filosofia e moral em favor do progresso espiritual da humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 53. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

SILVA, Deolindo Amorim. O Espiritismo e os Problemas Humanos. Rio de Janeiro: CELD, 2002.

PIRES, José Herculano. O Espírito e o Tempo. São Paulo: Paideia, 1995.

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A importância do escritor Jorge Hessen para a humanidade pode ser compreendida menos pelo critério da celebridade do que pelo alcance formativo, ético e espiritual de sua produção intelectual. No campo espírita e humanista, Jorge Hessen atua como mediador de ideias: traduz conceitos filosóficos e doutrinários complexos — como reencarnação, responsabilidade moral, educação da alma e progresso espiritual — para uma linguagem acessível, crítica e contemporânea. Isso tem um valor humano profundo, porque forma consciências, não apenas informa leitores. Sua escrita cumpre três papéis centrais: Educação moral - Ao enfatizar a primazia da transformação interior sobre soluções mágicas ou imediatistas, sua obra contribui para uma visão de mundo mais responsável, solidária e ética — algo essencial numa humanidade marcada por crises morais e existenciais. Preservação e atualização do pensamento espírita - Hessen não repete a doutrina de forma mecânica; ele a reinterpreta à luz dos dilemas atuais, mantendo fidelidade a Kardec, mas dialogando com a ciência, a filosofia e a cultura contemporâneas. Isso ajuda a manter o Espiritismo vivo, pensante e relevante. Estímulo ao pensamento crítico e ao autoconhecimento - Seus textos convidam o leitor a refletir, questionar e amadurecer espiritualmente, afastando-se do dogmatismo e do misticismo superficial. Esse incentivo à autonomia moral tem impacto direto na construção de indivíduos mais conscientes — e indivíduos conscientes constroem uma humanidade melhor. Em síntese, a contribuição de Jorge Hessen para a humanidade está no trabalho silencioso, porém duradouro, de iluminar consciências, algo que raramente gera manchetes, mas sempre gera frutos. Como todo escritor comprometido com ideias elevadas, sua maior obra não está apenas nos textos publicados, mas nas transformações que eles provocam em quem lê.

São Paulo, 30 de maio de 2026

 Wanderlei Santos 

DIRETOR DO PORTAL  Autores Espíritas Clássicos

 www.autoresespiritasclassios.org


 APRESENTAÇÃO DA OBRA

 


03 junho 2026

A sandice teológica e dogmática de combater a reencarnação



 


Poucas ideias resistiram tanto ao tempo quanto a crença na reencarnação. Presente nas antigas tradições do Egito, da Índia, da Grécia e incorporada ao pensamento de diversos filósofos e escolas religiosas, a pluralidade das existências atravessa os séculos como uma das mais persistentes convicções da humanidade. Ainda assim, paradoxalmente, muitos "cristãos" insistem em rejeitá-la sem jamais terem estudado seriamente suas evidências históricas, filosóficas e científicas.

A reencarnação consiste no retorno do Espírito à experiência corporal através de sucessivas existências. Trata-se de uma proposta racional para compreender as desigualdades humanas, os talentos inatos, as tendências morais, os sofrimentos aparentemente imerecidos e o próprio processo evolutivo da consciência.

A negação dogmática da reencarnação não decorre, em regra, de uma análise crítica das evidências disponíveis, mas da submissão a interpretações teológicas cristalizadas e necrosadas ao longo dos séculos. Curiosamente, o mesmo cristianismo que combate a reencarnação sustenta a sobrevivência da alma após a morte, admitindo, portanto, a continuidade da individualidade espiritual. O impasse surge quando se pretende limitar a justiça divina a uma única existência terrena.

A história da ciência demonstra que inúmeras verdades hoje consagradas foram, durante séculos, ridicularizadas. O heliocentrismo, a existência dos microrganismos, a composição atômica da matéria e a própria genética enfrentaram forte resistência antes de serem aceitos. A ciência progride justamente porque revisa suas conclusões à luz de novos fatos.

No campo das pesquisas sobre a sobrevivência da consciência e possíveis lembranças de vidas anteriores, destacam-se os trabalhos de pesquisadores como Ian Stevenson, Jim Tucker, Erlendur Haraldsson, Hemendra Nath Banerjee e Hernani Guimarães Andrade. 

Stevenson, em especial, investigou milhares de casos de crianças que apresentavam recordações espontâneas de supostas existências anteriores, muitas delas contendo informações posteriormente verificadas.

Entre os casos mais conhecidos encontra-se o relato divulgado por Trutz Hardo acerca de uma criança da região das Colinas de Golã que afirmava recordar-se de um assassinato ocorrido em existência precedente. Embora episódios dessa natureza sejam objeto de debates e controvérsias, eles demonstram que o tema está longe de ser encerrado pela simples negação cética.

O problema fundamental dos opositores da reencarnação é que, frequentemente, rejeitam a hipótese antes mesmo de examiná-la. Não se trata de atitude científica, mas de preconceito intelectual. A ciência autêntica não nega previamente; investiga. Não condena hipóteses por conveniência ideológica; submete-as à observação e ao exame crítico.

Sob o aspecto histórico, a reencarnação não constitui invenção moderna. Pitágoras e Platão já a ensinavam na Grécia Antiga. Diversas correntes judaicas da época de Jesus admitiam a preexistência da alma. Nos Evangelhos encontram-se passagens que suscitam profundas reflexões, como a identificação de João Batista com Elias (Mt 17:10-13) e o diálogo de Jesus com Nicodemos sobre a necessidade de "nascer de novo" (Jo 3:3-7).

A rejeição da reencarnação por determinados setores cristãos revela uma contradição difícil de superar. Como conciliar a justiça e o amor infinitos de Deus com a ideia de que destinos eternos sejam definidos por uma única existência, muitas vezes marcada por profundas desigualdades de oportunidades? A reencarnação oferece uma resposta coerente: cada existência representa uma etapa educativa no processo de aperfeiçoamento espiritual.

Negar a reencarnação não elimina os fatos, as pesquisas, os testemunhos históricos nem os questionamentos filosóficos que ela suscita. Apenas evidencia a persistência de um dogmatismo incompatível com o espírito investigativo que deveria caracterizar toda busca sincera da verdade.

Como ensinava Allan Kardec, a fé verdadeiramente sólida é aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade. A reencarnação permanece desafiando preconceitos e convidando homens e mulheres ao exame livre, racional e desapaixonado dos fatos.

Referências

ANDRADE, Hernani Guimarães. Reencarnação no Brasil. São Paulo: FE, 1988.

BANERJEE, Hemendra Nath. Vida Pretérita e Futuro. São Paulo: Pensamento, 1980.

HARDO, Trutz. Children Who Have Lived Before: Reincarnation Today. Charlottesville: Hampton Roads, 2000.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2023.

PLATÃO. Fédon. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2011.

STEVENSON, Ian. Twenty Cases Suggestive of Reincarnation. Charlottesville: University Press of Virginia, 1974.

TUCKER, Jim B. Return to Life: Extraordinary Cases of Children Who Remember Past Lives. New York: St. Martin's Press, 2013.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. Jeremias 1:4-5; Mateus 17:10-13; João 3:3-7.

01 junho 2026

Congressos espíritas e o sepultamento da essência da mensagem espírita




Jorge Hessen

Brasília-DF

Os congressos espíritas tornaram-se, ao longo das três últimas décadas, uma das mais visíveis expressões do movimento espírita brasileiro. Reunindo milhares de participantes, palestrantes renomados e grandes estruturas organizacionais, esses eventos são frequentemente apresentados como instrumentos de divulgação da Doutrina Espírita e de integração entre trabalhadores e instituições.

Entretanto, diversos estudiosos, autores independentes e grupos de orientação kardeciana têm formulado críticas consistentes ao modelo predominante desses encontros.

A primeira e mais contundente objeção refere-se à crescente mercantilização da atividade espírita. Muitos congressos exigem inscrições com valores elevados, além de estimularem intensa comercialização de livros, cursos, produtos e materiais diversos.

 Embora a venda de obras doutrinárias não seja, em si mesma, incompatível com os objetivos de divulgação, a transformação de eventos espíritas em verdadeiros mercados religiosos suscita preocupações legítimas.

Allan Kardec sempre enfatizou o caráter essencialmente moral e educativo do Espiritismo, jamais o concebendo como fonte de lucro ou empreendimento comercial. Quando o aspecto financeiro passa a ocupar posição central, corre-se o risco de obscurecer os princípios de simplicidade e desinteresse material que caracterizam a proposta espírita.

Associada a essa questão surge a crítica da elitização do acesso. Participar de um congresso nacional frequentemente implica custos significativos com inscrição, transporte, alimentação e hospedagem. Tal realidade exclui grande parcela dos espíritas de menor poder aquisitivo, criando uma seleção econômica incompatível com o ideal universalista da doutrina.

Se o Espiritismo se dirige a todas as consciências, independentemente de condição social, é razoável questionar modelos de eventos que, na prática, restringem a participação daqueles que mais poderiam beneficiar-se do intercâmbio fraterno e do estudo doutrinário.

Outro aspecto frequentemente apontado é o fenômeno do personalismo. Em muitos congressos, determinados palestrantes, médiuns ou expositores tornam-se figuras de grande projeção pública, atraindo multidões e despertando admiração que, por vezes, ultrapassa os limites da saudável consideração fraterna.

 Essa dinâmica pode favorecer uma espécie de celebrização incompatível com o princípio espírita de que as ideias devem prevalecer sobre os indivíduos. Kardec sempre submeteu pessoas, médiuns e mensagens ao crivo da razão e da análise crítica. Quando a autoridade moral de uma personalidade passa a substituir o exame racional dos ensinamentos, instala-se uma perigosa inversão de valores.

Há também questionamentos quanto à efetividade prática desses eventos. O entusiasmo gerado por palestras emocionantes e ambientes de confraternização costuma ser intenso, mas frequentemente passageiro. Muitos participantes retornam às suas atividades habituais sem mudanças significativas em suas práticas de estudo, trabalho ou transformação moral. A verdadeira transformação espiritual exige esforço contínuo, disciplina moral e vivência cotidiana dos ensinamentos espíritas, objetivos que dificilmente podem ser alcançados apenas por meio de encontros episódicos.

Talvez a crítica mais profunda seja aquela que aponta um progressivo distanciamento do método kardeciano. Em diversos congressos observa-se predominância de temas motivacionais, relatos emocionais e abordagens espiritualistas genéricas, enquanto questões doutrinárias fundamentais recebem atenção secundária.

O Espiritismo nasceu como uma doutrina de observação, investigação e raciocínio. Sua força reside na conjugação entre fé raciocinada, análise crítica e estudo metódico. Quando tais elementos cedem espaço ao emocionalismo ou ao misticismo, perde-se parte significativa da identidade doutrinária originalmente proposta por Kardec.

Por fim, alguns estudiosos observam que a estrutura dos grandes congressos tende a reforçar processos de centralização institucional. A concentração de decisões em federações e grandes organizações pode favorecer padronizações e hierarquias que não encontram correspondência direta na experiência espírita do século XIX.

Embora a organização seja necessária, ela não deve sufocar a liberdade de pensamento, a diversidade de experiências e o espírito de investigação que sempre caracterizaram o movimento espírita nascente.

 

 

Essas críticas  constituem um convite à reflexão. Eventos dessa natureza podem desempenhar papel relevante na divulgação doutrinária, desde que preservem a simplicidade, ampliem a acessibilidade, valorizem o estudo sério e mantenham fidelidade aos princípios fundamentais codificados por Allan Kardec.

O desafio contemporâneo consiste em assegurar que a forma organizacional não se sobreponha à essência da mensagem espírita, cuja finalidade maior permanece sendo a transformação moral do ser humano e o progresso espiritual da humanidade.



 

Entre Kardec e os “kardeciólogos plantonistas”: a crise do dogmatismo espírita


 

Jorge Hessen

Brasília -DF


O movimento espírita brasileiro vive, há algumas décadas, um fenômeno curioso e contraditório. Enquanto a Doutrina Espírita foi edificada por Allan Kardec sobre bases de observação, análise e liberdade de pensamento, parte de seus intérpretes moderninhos tem adotado uma postura excessivamente rígida, transformando a investigação doutrinária em verdadeiro tribunal ideológico.

 Surgem, assim, os chamados “kardeciólogos de plantão”, indivíduos que se apresentam como “guardiões” exclusivos da “pureza doutrinária” e que frequentemente atacam toda produção mediúnica posterior à Codificação.

Esses grupos costumam direcionar críticas severas às obras atribuídas a espíritos como André Luiz, Emmanuel, Manoel Philomeno de Miranda e Yvonne do Amaral Pereira. Segundo seus argumentos, tais produções seriam meras ficções ou construções imaginárias sem respaldo na obra kardeciana.

Entretanto, essa crítica frequentemente ignora um aspecto fundamental: o próprio Kardec jamais defendeu a paralisação do conhecimento espírita. Pelo contrário, sustentava que a doutrina deveria acompanhar o progresso das ideias e submeter-se constantemente ao exame racional.

No Livro dos Médiuns, Kardec estabeleceu critérios para avaliação das comunicações espirituais, recomendando prudência diante de revelações isoladas e defendendo a concordância universal dos ensinos dos Espíritos como elemento de validação doutrinária. Contudo, prudência não significa negação automática. O método kardeciano consiste em analisar, comparar e refletir, não em rejeitar previamente qualquer informação nova apenas porque ela não se encontra explicitamente nas obras básicas. (Wikipédia · 1)

A literatura produzida por intermédio de médiuns como Chico Xavier exerceu profunda influência na formação cultural e espiritual do Espiritismo brasileiro. Obras como Nosso Lar, ditadas pelo espírito André Luiz, apresentam descrições da vida espiritual, das consequências morais dos atos humanos e dos mecanismos da evolução da alma. Ainda que possam ser objeto de análise crítica, não podem ser descartadas sumariamente apenas porque ampliam temas pouco desenvolvidos pela Codificação. (Wikipédia · 1)

O problema central está na transformação do estudo doutrinário em exercício de vaidade intelectual. Muitos críticos demonstram mais preocupação em exibir “erudição” do que em compreender o conteúdo que analisam. Em vez de promoverem o diálogo e a investigação séria, recorrem à ridicularização de autores, médiuns e leitores, estabelecendo uma espécie de patrulhamento ideológico incompatível com os princípios de tolerância e fraternidade defendidos pelo Espiritismo.

Paradoxalmente, ao tentarem proteger Kardec, acabam por contrariar o próprio espírito de sua metodologia. O codificador não reivindicou infalibilidade pessoal nem propôs uma doutrina encerrada em si mesma. Sua preocupação constante era com a busca da verdade por meio da razão, da observação e do confronto honesto das ideias. Quando o estudo dá lugar ao sectarismo, a pesquisa é substituída pelo dogma e a reflexão pela repetição mecânica de fórmulas.

O Espiritismo não necessita de “sacerdotes intelectuais” nem de “fiscais da ortodoxia”. Necessita de estudiosos equilibrados, capazes de examinar criticamente as obras mediúnicas sem preconceitos e sem fanatismos. Entre a aceitação cega e a negação sistemática existe o caminho da razão. Foi exatamente esse caminho que Kardec procurou trilhar e que continua sendo o maior desafio do movimento espírita contemporâneo.

 

Referências Bibliográficas:

 

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2019. Loja FEC · 1

NOVIS, Martha. O controle universal requer trabalho, disciplina e comprometimento. Portal Espiritismo com Kardec, 2021. Disponível em: https://www.comkardec.net.br⁠ Acesso em: 31 maio 2026. Portal Espiritismo com Kardec - ECK

 

 

27 maio 2026

Espiritolicismo - “enxerto” religioso que amofina os conceitos kardecianos



Jorge Hesssen

Brasília -DF

O movimento espírita brasileiro, em muitos aspectos, ainda não conseguiu libertar-se completamente das velhas estruturas mentais herdadas da igreja romana. Mudaram-se os nomes, alteraram-se algumas terminologias, mas conservaram-se vícios psicológicos e hábitos religiosos incompatíveis com a proposta libertadora da Doutrina Espírita.

Há confrades e confreiras vivendo uma espécie de “espiritolicismo”, ou seja, frequentam centros espíritas, citam Kardec e Emmanuel, porém mantêm intacta a mentalidade sacristã, clerical e dogmática.

O Espiritismo não nasceu para ser continuação da igreja romana com roupas novas. Allan Kardec estabeleceu uma ruptura metodológica e filosófica profunda com os dogmas religiosos tradicionais. A proposta kardequiana não é sacramental, não é litúrgica, não é sacerdotal. Não existem “ungidos”, “castas espirituais”, “autoridades infalíveis” nem donos da verdade. O Espiritismo não possui clero, altar, ritualismo salvacionista ou hierarquia eclesiástica. (SEJ - Sociedade Espírita Jorge)

Entretanto, observa-se em muitos ambientes espíritas um lamentável retorno ao igrejismo. Criam-se figuras idolatradas, lideranças inquestionáveis, “papas espíritas” regionais e uma cultura de obediência emocional completamente estranha ao pensamento crítico defendido por Kardec. Em vez do estudo sério das obras fundamentais, proliferam palestras motivacionais superficiais, culto à personalidade e misticismo emocionalista.

O problema torna-se ainda mais grave quando práticas tipicamente da igreja romana passam a ser enxertadas no movimento espírita. Alguns transformam tribunas espíritas em púlpitos moralistas; outros reproduzem o mesmo autoritarismo clerical que o Espiritismo deveria superar. Troca-se a batina pela roupa comum, mas preserva-se a velha mentalidade sacerdotal.

A Doutrina Espírita propõe precisamente o contrário: emancipação da consciência, racionalidade e responsabilidade individual perante as leis divinas. A vida futura não depende de absolvições eclesiásticas, indulgências emocionais ou pertencimento institucional. O destino espiritual decorre das próprias ações do Espírito imortal, segundo a lei de causa e efeito. (geedem)

Quando o espírita abandona Kardec para refugiar-se em devoções personalistas, sentimentalismos e estruturas de veneração humana, ele regride conceitualmente ao modelo religioso do qual o Espiritismo procurou afastar-se. O resultado é um movimento doutrinariamente confuso, intelectualmente frágil e vulnerável a toda espécie de fantasia espiritual.

O verdadeiro espírita não é um “servo da sacristia adaptado”. É alguém disposto a pensar, estudar, questionar e reformar-se moralmente sem dependência psicológica de igrejas, sacerdotes ou gurus. Fora disso, teremos apenas a continuação do velho igrejismo emocional sob verniz espírita — um espiritolicismo improdutivo, híbrido e doutrinariamente inconsistente.

 

Referências Bibliográficas:

Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

Allan Kardec. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2020.

GEEDEM. Obras fundamentais do Espiritismo. Disponível em: geedem.org.br⁠. Acesso em: 27 de maio de 2026.

SEJ – Sociedade Espírita Jorge. Princípios básicos do Espiritismo. Disponível em: sej.org.br⁠. Acesso em: 27 de maio de 2026.

 

26 maio 2026

A idolatria mediúnica e o abandono da essência espírita



Jorge Hessen

Brasília DF

A mediunidade, no contexto da Doutrina Espírita, jamais deve ser compreendida como finalidade em si mesma. O fenômeno mediúnico constitui elemento acessório, instrumento educativo e não o eixo central do Espiritismo. A preocupação excessiva com manifestações ostensivas tem conduzido muitos agrupamentos espíritas a lamentáveis distorções doutrinárias, substituindo o estudo sério, a transformação moral e o Evangelho pela curiosidade fenomênica e pela ansiedade do intercâmbio espiritual.

O Espírito Emmanuel advertiu com lucidez: “São muito poucas as casas espíritas que se podem entregar ao exercício da mediunidadeOs dirigentes vigilantes devem intensificar reuniões de estudos teóricos, meditação e debates racionais para entendimentos seguros, fugindo de um prematuro intercâmbio com as forças advindas do além-túmulo” (XAVIER, 2000). Tal orientação revela que a mediunidade sem preparo moral e doutrinário converte-se facilmente em campo de mistificações, personalismos e desequilíbrios emocionais.

Urge, portanto, distinguir fenômeno mediúnico de Espiritismo. O fenômeno pertence ao campo das manifestações; o Espiritismo, por sua vez, representa a estrutura filosófica, moral e científica que explica tais ocorrências. Confundir ambas as coisas é abrir espaço para fantasias, superstições e misticismos incompatíveis com a proposta kardequiana. Por isso, o estudo sistemático do Livro dos Médiuns permanece indispensável à educação mediúnica equilibrada.

A palavra “médium”, oriunda do latim medium, significa intermediário. Segundo Allan Kardec, médium é toda pessoa apta a servir de intermediária entre os Espíritos e os homens. Entretanto, constitui grave erro afirmar que todos possuem mediunidade ostensiva. Nem todos podem produzir psicofonia, psicografia ou efeitos físicos. Kardec questionou aos Espíritos se o desenvolvimento mediúnico guardaria relação com a evolução moral do médium, obtendo esclarecimento decisivo: “A faculdade propriamente dita prende-se ao organismo; independe do moral” (KARDEC, 1997, item 226). O uso da faculdade, contudo, poderá ser elevado ou pernicioso conforme as qualidades íntimas do medianeiro.

Assim, a mediunidade ostensiva apresenta natureza orgânica e independe da crença religiosa, do intelecto ou da moralidade do indivíduo. Seu desenvolvimento vincula-se à maior ou menor expansibilidade do perispírito e à afinidade fluídica entre encarnado e desencarnado. Não existe técnica milagrosa capaz de produzir mediunidade autêntica. Qualquer tentativa de forçar o surgimento da faculdade representa imprudência grave.

Emmanuel esclarece: “Ninguém deverá forçar o desenvolvimento dessa ou daquela faculdade, porque, nesse terreno, toda espontaneidade é necessária” (XAVIER, 2000, questão 384). Apesar disso, muitos centros espíritas ainda encaminham pessoas emocionalmente fragilizadas ou portadoras de enfermidades psíquicas diretamente às chamadas “reuniões de desenvolvimento mediúnico”, como se todo sofrimento fosse sinal inequívoco de mediunidade reprimida. Tal prática revela desconhecimento doutrinário e pode agravar quadros psicológicos delicados.

A educação mediúnica não significa fabricar médiuns. Seu objetivo é orientar faculdades espontaneamente afloradas, promovendo disciplina mental, estudo contínuo e vivência evangélica. Emmanuel reforça que “o exercício da mediunidade nas tarefas espíritas exige larga disciplina mental, moral e física” (XAVIER, Encontro Marcado).

Sem estudo sério da Doutrina Espírita e sem o Evangelho de Jesus como fundamento moral, a mediunidade converte-se em instrumento perigoso de vaidade, orgulho e fascinação. O médium invigilante facilmente se torna presa de ilusões e mistificações espirituais. Kardec advertiu severamente: “Aquele que vê claro e tropeça é mais censurável do que o cego que cai no fosso” (KARDEC, 1997, item 226).

O verdadeiro espírita deve compreender que a grande finalidade da mediunidade não é o espetáculo fenomênico, mas o aprimoramento moral da criatura humana. Fora disso, teremos apenas manifestações vazias, destituídas de elevação espiritual e frequentemente dominadas pelo personalismo e pela obsessão.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 1997.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

XAVIER, Francisco Cândido. Encontro Marcado. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

 

Desonestos mercadores do invisível ante a deterioração da razão



Jorge Hessen

Brasília -DF

A expansão das redes sociais e das plataformas digitais revelou uma face perturbadora de algumas “pessoas” : a comercialização vulgar da fé, da dor humana e da esperança alheia.

Multiplicam-se pela internet “pessoas”que se apresentam como “bruxos”, “mestres espirituais”, “magos poderosos” ou “intermediários exclusivos” de entidades invisíveis, oferecendo soluções para casamentos fracassados, dificuldades financeiras, disputas amorosas, desemprego e toda sorte de aflições transitórias e necessárias da existência humana.

Transformaram o sofrimento humano em hediondo mercado. Vendem “trabalhos espirituais” como quem anuncia eletrodomésticos ou cosméticos. Cobram criminosamente  por “amarrações”, “desbloqueios energéticos”, “quebras de maldição” e “abertura de caminhos”, explorando emocionalmente criaturas fragilizadas pela dor, pelo medo e pela ignorância espiritual.

Se não víssemos tais práticas estampadas diariamente nas redes digitais, pareceriam episódios grotescos de um passado medieval obscurantista. Entretanto, elas prosperam em pleno século XXI, em meio a uma civilização tecnologicamente sofisticada, mas moralmente analfabética e enferma. A inteligência técnica avançou; o discernimento espiritual, porém, permanece atrófico em vastos setores da sociedade.

O mais inquietante não é apenas a existência dos vendedores de ilusão do invisível, mas a multidão que lhes entrega confiança, dinheiro e autonomia mental. Isso demonstra que o progresso intelectual, desacompanhado de elevação moral, pode coexistir com níveis alarmantes de irracionalidade coletiva.

Allan Kardec advertia que “o verdadeiro homem de bem é o que pratica a lei de justiça, amor e caridade na sua maior pureza” (KARDEC, 2003, p. 341). Não há justeza moral e nem honestidade  em explorar a angústia humana mediante promessas espirituais mercantilizadas.

O Espiritismo jamais legitimou comércio mediúnico ou exploração da credulidade popular. Pelo contrário, condenou energicamente tais desvios. Em “O Livro dos Médiuns”, Kardec assevera que “a mediunidade séria não pode ser e jamais será uma profissão” (KARDEC, 2004, p. 389). A faculdade mediúnica, quando autêntica, constitui instrumento de serviço, esclarecimento e consolação, nunca mecanismo de remuneração pessoal ou espetáculo sensacionalista.

O fenômeno contemporâneo revela também a permanência do velho fetichismo psicológico da humanidade. Muitos desejam soluções mágicas para problemas que exigem renovação íntima, disciplina, responsabilidade e amadurecimento espiritual. Preferem terceirizar a consciência para enfrentar o indispensável trabalho de transformação moral.

Emmanuel advertia que “sem reforma íntima não há caminho seguro para a libertação espiritual” (XAVIER, 2002, p. 97). Nenhum ritual comprado substituirá o esforço pessoal, a honestidade, o trabalho digno e a mudança de comportamento. Não existem atalhos místicos para as leis divinas.

A internet apenas potencializou o que sempre existiu: o comércio da superstição. Todavia, sua escala atual impressiona pela naturalidade com que o absurdo é aceito e a estrutura policial nada faz contra a vigarice virtual. Vivemos uma época em que muitos possuem acesso instantâneo à informação, mas continuam incapazes de distinguir espiritualidade do charlatanismo.

A crise contemporânea não é falta de tecnologia; é ausência de honradez e discernimento moral. Enquanto multidões continuarem buscando milagres fáceis, salvadores ocultos e soluções mágicas para desafios existenciais, os mercadores do invisível continuarão criminosamente prosperando sobre a fragilidade humana.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 2002.