Brasília -DF
Periodicamente, sobretudo em períodos eleitorais, ressurge o debate acerca da suposta necessidade de o espírita ingressar na política partidária como forma de promover transformações sociais. Tal tese, embora revestida de boas intenções, carece de sustentação doutrinária e frequentemente se apoia em uma perigosa presunção: a de que os espíritas seriam os mais preparados para conduzir a sociedade rumo à justiça e à fraternidade.
O Espiritismo jamais ensinou que a regeneração do mundo ocorrerá pela conquista de espaços partidários. Ao contrário, sua proposta fundamental é a transformação moral do indivíduo. A verdadeira revolução social começa na consciência, no lar, no trabalho e nas relações humanas. A mudança das leis é consequência natural da mudança dos costumes, e não o contrário.
Isso não significa alienação ou indiferença perante os destinos da sociedade. O espírita consciente exerce plenamente sua cidadania, vota, acompanha a vida pública e cumpre seus deveres civis. Entretanto, uma coisa é participar da vida social; outra, muito diferente, é transformar a Doutrina Espírita em instrumento de propaganda político-partidária.
A experiência demonstra que a mistura entre religião e política quase sempre resulta em prejuízos para ambas. O centro espírita não pode converter-se em palanque eleitoral, nem seus trabalhadores em cabos eleitorais. A casa espírita existe para estudar, consolar, esclarecer e promover a vivência do Evangelho, jamais para favorecer candidaturas ou correntes ideológicas.
Não por acaso, quando Allan Kardec fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1858, estabeleceu expressamente que as questões políticas, as controvérsias religiosas e os debates de economia social seriam interditos nas atividades da instituição. O Codificador compreendia que a preservação dos objetivos espirituais exigia independência diante das paixões transitórias do mundo.
Igualmente falacioso é o argumento segundo o qual determinados parlamentares estariam investidos da missão de “representar o Espiritismo” nos poderes públicos. A rigor, não existem representantes oficiais do Espiritismo na política humana. Quem exerce mandato representa seus eleitores, seu partido e sua própria consciência, jamais a Doutrina Espírita.
Jesus também não buscou reformar o Império Romano por meio de disputas políticas. Seu método consistiu na transformação dos corações. Dois mil anos depois, sua mensagem continua viva exatamente porque não se vinculou às estruturas efêmeras do poder temporal.
Emmanuel adverte que a missão essencial do Espiritismo é consolar e instruir, conduzindo as criaturas à iluminação interior. Subordinar essa tarefa à disputa por cargos públicos equivale a inverter a escala de valores do Evangelho. Todas as organizações humanas são passageiras; a educação espiritual, porém, possui caráter permanente.
O espírita que, por vocação pessoal, desejar militar na política partidária possui pleno direito de fazê-lo. Contudo, sua atuação deverá ocorrer em nome próprio, jamais em nome da Doutrina. O Movimento Espírita precisa manter-se fiel à sua finalidade superior, evitando concessões que possam descaracterizar os postulados da Terceira Revelação.
A fidelidade a Jesus e a Kardec exige vigilância. O Espiritismo não necessita de bancadas, partidos ou representantes oficiais. Necessita, acima de tudo, de homens e mulheres moralmente renovados, capazes de exemplificar no cotidiano os valores do Evangelho. Porquanto a verdadeira transformação social é um processo de dentro para fora, onde a mudança de mentalidade, os valores e as ações do indivíduo acabam gerando um efeito cascata que culmina na transformação da massa (a sociedade).
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
VIEIRA, Valdo. Conduta Espírita. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2001.
XAVIER, Francisco Cândido. Entender Conversando. Pelo Espírito Emmanuel. 3. ed. São Paulo: IDE, 1984.
XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1984.






















