20 junho 2026

"Apocalipse" e "A caminho da luz" - duas abordagens no mesmo prognóstico de regeneração



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há quem decodifique o Apocalipse apenas como um catálogo de catástrofes. Outros o transformam numa espécie de roteiro de punições divinas destinadas a uma humanidade condenada. Ambas as interpretações se afastam do espírito do Cristianismo e da lógica da Doutrina Espírita.

Quando confrontamos o Apocalipse narrado pelo evangelista João com a obra A Caminho da Luz, ditada por Emmanuel, percebemos notável convergência de princípios. Embora separados por quase dois milênios e expressos em linguagens distintas, ambos descrevem o mesmo fenômeno: a evolução moral da humanidade sob a direção de Jesus.

O Apocalipse é essencialmente simbólico. Seus selos, trombetas, flagelos e batalhas não representam o aniquilamento do planeta, mas as crises inevitáveis que acompanham toda transformação coletiva. Emmanuel, por sua vez, descreve a história humana como um processo educativo conduzido pelo Cristo, Cocriador e Governador Espiritual da Terra, no qual as civilizações ascendem e declinam conforme sua fidelidade às leis divinas.

A correspondência torna-se ainda mais evidente quando analisamos a questão da regeneração planetária. Allan Kardec esclarece que a Terra está submetida à lei do progresso e atravessa períodos de transformação moral que assinalam novas etapas evolutivas da humanidade. As crises não representam o fracasso do plano divino, mas instrumentos de renovação providencial.

Emmanuel reafirma esse princípio ao demonstrar que as dores coletivas, as convulsões sociais, as guerras e os conflitos ideológicos não constituem acontecimentos fortuitos. São mecanismos pelos quais a humanidade é impulsionada para estágios superiores de consciência.

O chamado "Juízo Final", tão explorado por interpretações literalistas, encontra explicação racional na Codificação Espírita. Não se trata de uma sentença arbitrária pronunciada por um Deus colérico. Refere-se à seleção natural dos Espíritos conforme suas condições morais. Kardec ensina que, na transição para um mundo regenerado, Espíritos endurecidos no mal serão transferidos para ambientes compatíveis com suas necessidades evolutivas, enquanto Espíritos mais comprometidos com o bem permanecerão para edificar uma nova civilização.

É exatamente essa realidade que o Apocalipse simboliza ao apresentar a separação entre os que permanecem fiéis às leis divinas e aqueles que insistem na rebeldia moral.

Outro ponto de convergência encontra-se na imagem da Nova Jerusalém. Para muitos, trata-se de uma cidade celestial material. Para o Espiritismo, representa uma humanidade renovada, fundada sobre a justiça, a fraternidade e o amor. Emmanuel projeta precisamente esse cenário ao descrever o futuro da Terra como mundo de regeneração, onde o Evangelho deixará de ser apenas discurso para converter-se em prática social.

O equívoco dos intérpretes apocalípticos está em enxergar destruição onde existe transformação. Kardec é categórico ao afirmar que os "tempos são chegados" não para a subversão das leis naturais, mas para o cumprimento delas. A humanidade atravessa uma crise de crescimento semelhante àquela experimentada pelo indivíduo em sua jornada evolutiva. Após a turbulência surge inevitavelmente uma fase superior de progresso moral.

Sob essa perspectiva, a obra A Caminho da Luz pode ser compreendida como uma interpretação histórica e espiritual daquilo que o Apocalipse apresenta em linguagem profética. Ambos apontam para a mesma direção: o triunfo gradual do bem, não pela imposição da força, mas pela educação moral do Espírito.

O Apocalipse não é o livro do medoÉ o livro da esperança. Emmanuel não anuncia o fim da humanidade, mas sua renovação. E Kardec demonstra que a regeneração da Terra não constitui fantasia religiosa, mas consequência inevitável da Lei do Progresso, que conduz todas as criaturas, sem exceção, à perfeição relativa e à felicidade futura.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A Gênese. 2. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. A caminho da Luz. 38. ed. Brasília: FEB, 2019.

BÍBLIA. Novo Testamento. Apocalipse de João. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

 

18 junho 2026

Espiritismo sem religião? A insanidade dos PhD kardequiólogos de plantão de expulsar o Cristo do Movimento Espírita Brasileiro



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

De repente , ressurge no Movimento Espírita uma velha e alquebrada controvérsia da tentativa de reduzir o Espiritismo à condição de mera escola filosófica ou laboratório de pesquisas psíquicas, destituindo-o de sua dimensão religiosa.

Trata-se de uma discussão antiga, mas que, sazonalmente , tem adquirido novos contornos, impulsionada por correntes de PhD kardequiólogos de plantão que reivindicam para si uma suposta fidelidade exclusiva ao pensamento de Allan Kardec.

Toda ideia inovadora produz divergências. Com o Espiritismo não poderia ser diferente. Desde os primórdios do Movimento Espírita Brasileiro, duas tendências se destacaram: uma mais voltada para o aspecto científico e experimental dos fenômenos mediúnicos; outra, representada por Bezerra de Menezes, enfatizando a vivência evangélica e a transformação moral do ser humano.

A história demonstra qual dessas correntes se consolidou como referência predominante: aquela que compreendeu o Espiritismo como ciência, filosofia e religião, em perfeita harmonia.

Alguns PhD kardequiólogos de carteirinha acadêmica, pretensos intérpretes contemporâneos, insistem em utilizar o nome de Kardec para sustentar que a Doutrina Espírita seria apenas uma ciência da alma. Todavia, essa leitura ignora textos fundamentais do Codificador.

Basta recordar que os princípios espíritas se distribuem em três grandes eixos: filosófico, em O Livro dos Espíritos; científico-experimental, em O Livro dos Médiuns; e moral-religioso, em O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Em memorável discurso pronunciado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1º de novembro de 1868, Kardec definiu religião como o elo moral que une corações, pensamentos e aspirações, estabelecendo fraternidade, solidariedade e benevolência entre os homens. Foi nesse contexto que afirmou categoricamente: “O Espiritismo é uma religião, e nós nos ufanamos disso” (KARDEC, 1868).

Evidentemente, não se trata de religião nos moldes tradicionais. O Espiritismo não possui sacerdócio, sacramentos, rituais, liturgias, templos suntuosos ou hierarquias clericais. Sua religiosidade não se expressa por meio de formalismos exteriores, mas pela transformação íntima proposta pelo Evangelho. Sua essência encontra-se no mandamento de Jesus: “Amai-vos uns aos outros” (João 15:12).

A própria Codificação é explícita quanto ao caráter religioso da Doutrina. No Livro dos Espíritos, os benfeitores afirmam que os Espíritos não vêm destruir a religião, mas confirmá-la mediante provas irrecusáveis. No Livro dos Médiuns, Kardec declara que o Espiritismo repousa sobre as bases fundamentais da religião e fortalece os sentimentos religiosos daqueles que vacilam na fé.

Causa estranheza, portanto, o empenho de alguns grupos de presunçosos PhD kardequiólogos em minimizar a presença de Jesus no Espiritismo, reduzindo-o a simples personagem histórica ou a mero reformador moral. Tal postura contraria frontalmente a posição do próprio Kardec, que classificou o Cristo como o modelo mais perfeito oferecido por Deus à Humanidade (O Livro dos Espíritos, questão 625).

Se retirarmos Jesus do Espiritismo, o que restará? Uma filosofia espiritualista entre tantas outras. Um sistema de investigação psíquica sem finalidade moral. Uma teoria da sobrevivência da alma desprovida de direção ética. O Cristo não é um acessório da Doutrina Espírita; é seu eixo moral.

Emmanuel reafirma essa realidade ao ensinar que a missão do Espiritismo é essencialmente religiosa, destinada à restauração da fé viva e à revivescência do Cristianismo em sua pureza original. Não se trata de fundar uma nova seita nem de promover disputas dogmáticas, mas de reconduzir o homem à vivência dos ensinos de Jesus.

Por essa razão, toda tentativa de separar artificialmente os aspectos científicos, filosóficos e religiosos da Doutrina representa uma mutilação de sua estrutura. Kardec jamais concebeu um Espiritismo sem Evangelho. O Espiritismo surgiu para esclarecer a inteligência, mas também para iluminar o coração. Sua finalidade maior é promover a regeneração moral da Humanidade.

Sem ciência, o Espiritismo perderia sua base racional. Sem filosofia, perderia sua coerência lógica. Sem religião, perderia sua alma.

E essa alma tem um nome: Jesus.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Dezembro de 1868. Artigo: “O Espiritismo é uma religião”.

KARDEC, Allan. Discurso pronunciado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 1º de novembro de 1868.

BÍBLIA. Evangelho de João. 15:12.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

 

Espiritismo e política partidária uma distinção necessária



Jorge Hessen 

Brasília -DF  

Periodicamente, sobretudo em períodos eleitorais, ressurge o debate acerca da suposta necessidade de o espírita ingressar na política partidária como forma de promover transformações sociais. Tal tese, embora revestida de boas intenções, carece de sustentação doutrinária e frequentemente se apoia em uma perigosa presunção: a de que os espíritas seriam os mais preparados para conduzir a sociedade rumo à justiça e à fraternidade.

O Espiritismo jamais ensinou que a regeneração do mundo ocorrerá pela conquista de espaços partidários. Ao contrário, sua proposta fundamental é a transformação moral do indivíduo. A verdadeira revolução social começa na consciência, no lar, no trabalho e nas relações humanas. A mudança das leis é consequência natural da mudança dos costumes, e não o contrário.

Isso não significa alienação ou indiferença perante os destinos da sociedade. O espírita consciente exerce plenamente sua cidadania, vota, acompanha a vida pública e cumpre seus deveres civis. Entretanto, uma coisa é participar da vida social; outra, muito diferente, é transformar a Doutrina Espírita em instrumento de propaganda político-partidária.

A experiência demonstra que a mistura entre religião e política quase sempre resulta em prejuízos para ambas. O centro espírita não pode converter-se em palanque eleitoral, nem seus trabalhadores em cabos eleitorais. A casa espírita existe para estudar, consolar, esclarecer e promover a vivência do Evangelho, jamais para favorecer candidaturas ou correntes ideológicas.

Não por acaso, quando Allan Kardec fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1858, estabeleceu expressamente que as questões políticas, as controvérsias religiosas e os debates de economia social seriam interditos nas atividades da instituição. O Codificador compreendia que a preservação dos objetivos espirituais exigia independência diante das paixões transitórias do mundo.

Igualmente falacioso é o argumento segundo o qual determinados parlamentares estariam investidos da missão de “representar o Espiritismo” nos poderes públicos. A rigor, não existem representantes oficiais do Espiritismo na política humana. Quem exerce mandato representa seus eleitores, seu partido e sua própria consciência, jamais a Doutrina Espírita.

Jesus também não buscou reformar o Império Romano por meio de disputas políticas. Seu método consistiu na transformação dos corações. Dois mil anos depois, sua mensagem continua viva exatamente porque não se vinculou às estruturas efêmeras do poder temporal.

Emmanuel adverte que a missão essencial do Espiritismo é consolar e instruir, conduzindo as criaturas à iluminação interior. Subordinar essa tarefa à disputa por cargos públicos equivale a inverter a escala de valores do Evangelho. Todas as organizações humanas são passageiras; a educação espiritual, porém, possui caráter permanente.

O espírita que, por vocação pessoal, desejar militar na política partidária possui pleno direito de fazê-lo. Contudo, sua atuação deverá ocorrer em nome próprio, jamais em nome da Doutrina. O Movimento Espírita precisa manter-se fiel à sua finalidade superior, evitando concessões que possam descaracterizar os postulados da Terceira Revelação.

A fidelidade a Jesus e a Kardec exige vigilância. O Espiritismo não necessita de bancadas, partidos ou representantes oficiais. Necessita, acima de tudo, de homens e mulheres moralmente renovados, capazes de exemplificar no cotidiano os valores do Evangelho. Porquanto a verdadeira transformação social é um processo de dentro para fora, onde a mudança de mentalidade, os valores e as ações do indivíduo acabam gerando um efeito cascata que culmina na transformação da massa (a sociedade).

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

VIEIRA, Valdo. Conduta Espírita. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

XAVIER, Francisco Cândido. Entender Conversando. Pelo Espírito Emmanuel. 3. ed. São Paulo: IDE, 1984.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1984.

17 junho 2026

Emmanuel e os romances que Kardec não desaprovaria



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Observamos que os romances psicografados pelo Espírito Emmanuel, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, ocupam posição de destaque no movimento espírita.

Tal observação não constitui exagero nem simples manifestação de admiração afetiva. Trata-se de uma constatação baseada na natureza, no conteúdo e nos objetivos dessas obras.

Allan Kardec estabeleceu os fundamentos doutrinários do Espiritismo mediante um criterioso trabalho de observação, análise e comparação dos ensinos dos Espíritos. Sua missão consistiu em organizar os princípios da Doutrina Espírita, edificando uma estrutura filosófica, científica e moral sólida e coesa.

Todavia, a assimilação dos princípios espíritas não se limita ao conhecimento intelectual. O próprio Codificador advertiu que o verdadeiro espírita é reconhecido por sua transformação moral e, nesse contexto, a obra de Emmanuel surge como valioso complemento educativo, oferecendo exemplos concretos da aplicação dos ensinos evangélicos à vida cotidiana.

Romances como Há Dois Mil Anos, Cinquenta Anos Depois, Ave, Cristo! E Paulo e Estêvão transportam o leitor para cenários históricos onde a luta entre o orgulho e a humildade, entre o egoísmo e o amor, entre o poder terreno e os valores espirituais é apresentada de forma viva e envolvente. Não se trata de mera ficção religiosa. São narrativas que com certeza absoluta conduzem à reflexão moral, ao autoconhecimento e ao aprimoramento espiritual.

Emmanuel não altera um único princípio codificado por Kardec. Ao contrário, desenvolve, ilustra e exemplifica os fundamentos doutrinários já estabelecidos. Seus livros não competem com a Codificação; antes, funcionam como instrumentos pedagógicos que facilitam a compreensão dos ensinamentos espíritas e evangélicos.

Alguns PhDs “sabe-tudo” alegam que Kardec teria sido excessivamente rigoroso na análise de comunicações mediúnicas e, por isso, não acolheria facilmente a literatura produzida décadas após sua desencarnação. Entretanto, tal objeção dos “sabichões” ignora um aspecto essencial: Kardec jamais rejeitou obras mediúnicas por preconceito. Exigia apenas coerência doutrinária, elevação moral, utilidade prática e concordância com os princípios da razão.

Exatamente por atenderem a esses critérios, os livros de Emmanuel alcançaram extraordinária repercussão. Neles não encontramos misticismo vazio, promessas miraculosas ou dogmatismos sectários. Encontramos, sim, a exaltação do trabalho, da responsabilidade individual, da reencarnação, da lei de causa e efeito, da imortalidade da alma e da vivência do Evangelho de Jesus.

Por essa razão, é razoável concluir que Allan Kardec seguramente veria nessas obras um poderoso recurso de educação moral. Se aprovou comunicações espirituais que promoviam o progresso da humanidade, dificilmente desaprovaria uma literatura que, há décadas, vem inspirando milhões de pessoas ao estudo, à reforma moral  e à prática do bem.

Os romances de Emmanuel constituem, assim, uma extensão literária dos princípios espíritas, transformando conceitos doutrinários em experiências humanas palpáveis. São páginas que esclarecem a inteligência, sensibilizam o coração e convidam-nos à renovação espiritual, exatamente como propõe o Espiritismo em sua finalidade maior.

 

 

13 junho 2026

Anorexia nervosa: entre o sofrimento psíquico e a visão espírita



 A morte da jovem francesa Isabelle Caro, em 17 de novembro de 2010, chamou a atenção do mundo para uma das mais graves enfermidades da atualidade: a anorexia nervosa. Conhecida por expor seu corpo extremamente debilitado em campanhas de conscientização, Isabelle procurou alertar outras jovens sobre os riscos da busca obsessiva por padrões estéticos inatingíveis. Sua trajetória recorda casos igualmente dramáticos, como o da cantora Karen Carpenter, que desencarnou em 1983, aos 32 anos, em consequência de complicações cardíacas associadas à anorexia.

Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH), os transtornos alimentares apresentam algumas das mais elevadas taxas de mortalidade entre os transtornos psiquiátricos. A anorexia nervosa caracteriza-se pela distorção da imagem corporal, medo intenso de ganhar peso e restrição alimentar severa, afetando predominantemente adolescentes e mulheres jovens.

Embora seja considerada uma patologia contemporânea, manifestações semelhantes podem ser identificadas ao longo da História. Na Europa medieval, práticas extremas de jejum religioso eram frequentemente interpretadas como demonstrações de santidade. O pesquisador Rudolph Bell denominou esse fenômeno de “anorexia santa”, identificando paralelos entre aqueles comportamentos e os quadros clínicos atualmente reconhecidos pela psiquiatria.

A etiologia da anorexia é multifatorial. Aspectos genéticos, psicológicos, familiares, culturais, hormonais e sociais interagem de forma complexa. Perdas afetivas, traumas, baixa autoestima, perfeccionismo, ansiedade e depressão frequentemente compõem o contexto do adoecimento.

Sob a ótica espírita, sem desconsiderar as causas biológicas e psicológicas estudadas pela ciência, é possível ampliar a compreensão do fenômeno. O Espírito imortal traz em si registros profundos de experiências pretéritas que influenciam a personalidade e as tendências da existência atual. Determinados conflitos podem emergir como desequilíbrios emocionais e psicossomáticos, refletindo-se sobre o corpo físico.

A Doutrina Espírita também adverte para a influência dos processos obsessivos, que podem agravar quadros de fragilidade emocional já existentes. Evidentemente, a obsessão não constitui causa única da enfermidade, mas fator agravante que exige atenção espiritual paralelamente ao tratamento médico e psicológico.

A recuperação da anorexia requer abordagem multidisciplinar, envolvendo psiquiatras, psicólogos, nutricionistas e o indispensável apoio familiar. No contexto espírita, recursos como a prece, o passe magnético, a água fluidificada, o estudo doutrinário e o atendimento fraterno podem oferecer importante suporte moral e espiritual ao enfermo.

O médico espírita Elias Barbosa relatou que, em situações graves de anorexia nervosa e outros transtornos mentais, recorria ao auxílio espiritual de Chico Xavier, observando resultados encorajadores no amparo aos pacientes. Tais experiências não substituem a terapêutica convencional, mas evidenciam a importância da assistência espiritual integrada ao tratamento.

A anorexia nervosa demonstra que o ser humano não pode ser compreendido apenas em sua dimensão biológica. Corpo, mente e Espírito constituem uma unidade indissociável. Cuidar dessa integração é caminho indispensável para a preservação da saúde e para a conquista do equilíbrio que conduz à verdadeira libertação interior.

Referências Bibliográficas:

BARBOSA, Elias. Entrevista à revista Reformador. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

BELL, Rudolph M. Holy Anorexia. Chicago: University of Chicago Press, 1985.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2000. Questão 964.

NATIONAL INSTITUTE OF MENTAL HEALTH (NIMH). Eating Disorders. Bethesda: NIMH, 2010.

PAULO DE TARSO. Segunda Epístola aos Coríntios, 12:7. In: A Bíblia Sagrada.

HESSEN, Jorge. Somente Deus tem o direito de dispor da vida humana. Revista Eletrônica O Consolador, 2010.

11 junho 2026

Os limites entre o Espiritismo e as ideologias partidárias



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Causa perplexidade o surgimento de discursos que procuram associar o Espiritismo a correntes ideológicas de natureza político-partidária, como se a Doutrina Espírita pudesse servir de instrumento para a legitimação de projetos sociais ou econômicos transitórios. Tal interpretação não decorre da Codificação Kardeciana, mas de uma leitura que desloca o Espiritismo de sua finalidade essencial, que é a transformação moral do ser humano.

A primeira confusão consiste em equiparar “caridade” (assistencialismo material) à engenharia politiqueira social. Allan Kardec ensina que a desigualdade das condições sociais integra a própria ordem natural e possui finalidade educativa para o progresso dos Espíritos. Afirma ainda que “a desigualdade das condições sociais é uma das leis da Natureza” (KARDEC, 2013, q. 806).

O problema moral não reside na diversidade das situações humanas, mas nos abusos produzidos pelo egoísmo, pelo orgulho e pela exploração (não só econômica, mas ideológica também). O Espiritismo combate os excessos e as injustiças, mas não propõe a uniformização compulsória (comunista) das condições de vida.

Outra distorção ocorre quando se tenta interpretar o homem exclusivamente a partir de fatores econômicos, sociais ou estruturais. Enquanto determinadas correntes materialistas explicam a existência humana pelas circunstâncias externas, o Espiritismo ensina que o Espírito preexiste ao corpo, sobrevive à morte e é responsável por suas próprias escolhas.

 Kardec esclarece que a encarnação tem por objetivo o aperfeiçoamento do Espírito (KARDEC, 2013, q. 132). Desconsiderar a responsabilidade individual e a Lei de Causa e Efeito significa despedaçar um dos fundamentos da Doutrina Espírita.

Nessa perspectiva, Léon Denis adverte que nenhuma reforma social será duradoura sem a renovação íntima dos indivíduos. O aperfeiçoamento das instituições depende, antes de tudo, do aperfeiçoamento moral daqueles que as compõem. A transformação coletiva não pode prescindir da transformação individual, sob pena de apenas substituir problemas antigos por novas e perversas formas de desequilíbrio.

Emmanuel reforça essa compreensão ao afirmar que nenhuma modificação exterior é capaz de dispensar o homem do esforço de sua própria renovação espiritual. A verdadeira libertação não nasce de decretos, sistemas ou ideologias, mas da conquista de valores morais que elevem a consciência humana.

Por isso, a Casa Espírita não deve nem  pode converter-se em espaço de militância política. Sua missão é estudar, esclarecer, consolar e promover o crescimento espiritual das criaturas. Quando o espaço ou a tribuna espírita são utilizados para difundir bandeiras ideológicas, substitui-se o Evangelho pela retórica partidária e a educação moral pela disputa de narrativas.

Não existe espiritismo de qualquer viés ideológico partidário. Existe espiritismo fiel ou infiel aos princípios codificados por Allan Kardec. A Doutrina Espírita transcende os sistemas políticos porque se dirige ao Espírito imortal e não às circunstâncias transitórias da vida material. Sua proposta não é a conquista do poder terreno, mas a conquista de si mesmo.

Como sintetiza Léon Denis, o progresso social constitui consequência natural do progresso moral. Inverter essa ordem significa atribuir às estruturas externas uma capacidade de regeneração que pertence, em essência, à consciência humana. Para o Espiritismo, a verdadeira revolução é sempre a revolução interior.

E tenho dito!

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

Francisco Cândido Xavier; EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

 

09 junho 2026

Caboclo ou preto velho? Animismo, atavismos culturais e o desvio da prática mediúnica espírita

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre os inúmeros desafios enfrentados pelo movimento espírita contemporâneo, um dos mais delicados diz respeito à interpretação das comunicações mediúnicas associadas a personagens oriundos das tradições afro-brasileiras, tais como caboclos, pretos-velhos, exus, pombagiras e marinheiros. A questão exige serenidade, respeito às demais crenças e, sobretudo, fidelidade ao método de análise estabelecido por Allan Kardec.

A experiência acumulada ao longo de décadas de observação das atividades mediúnicas permite constatar que grande parte dessas manifestações apresenta um forte componente anímico. Em muitos casos, o conteúdo transmitido revela mais os condicionamentos psicológicos, culturais e emocionais do médium do que propriamente a presença objetiva de uma entidade espiritual identificável.

Obviamente não se pode afirmar, de forma absoluta, que todas essas comunicações sejam meras criações mentais; entretanto, a prudência recomenda reconhecer que a maioria delas contém expressiva participação do psiquismo medianímico (ANIMISMO INGÊNUO).

O Espiritismo jamais orientou seus adeptos a aceitar passivamente qualquer manifestação espiritual. Pelo contrário, Kardec estabeleceu como princípio fundamental o exame racional das comunicações. Em O Livro dos Médiuns, alerta repetidamente contra a fascinação, a mistificação e o culto às identidades espirituais. Os Espíritos devem ser julgados por suas ideias, pela elevação moral de seus ensinos e pelos resultados produzidos, jamais pelas UTILIZAÇÕES   DESNECESSÁRIAS dos nomes, títulos ou personagens que adotam .

Infelizmente, muitas instituições espíritas acabam desenvolvendo uma cultura de valorização dessas denominações de terreiro. Reuniões mediúnicas passam a girar em torno de supostas especializações espirituais, criando dependência psicológica de determinados rótulos. O estudo sério da Codificação cede espaço à curiosidade por manifestações exóticas, enquanto o critério kardequiano é gradualmente substituído pelo emocionalismo e pela aceitação acrítica.

A Doutrina Espírita ensina que, após a desencarnação, permanecem a inteligência, as virtudes e as imperfeições do Espírito. Não subsistem títulos, uniformes, posições sociais ou personagens culturais. Um Espírito não adquire autoridade moral por apresentar-se como caboclo, preto-velho, sacerdote, marinheiro ou qualquer outra figura ligada às experiências transitórias da existência corporal.

Isso não representa desrespeito às religiões afro-brasileiras, que possuem identidade própria, história legítima e estrutura doutrinária específica. O respeito à diversidade religiosa é dever moral do espírita. Todavia, preservar a identidade doutrinária do Espiritismo também é uma obrigaçãoCentro espírita não é terreiro, assim como terreiro não é centro espírita. Cada instituição deve manter coerência com seus fundamentos e estatutos.

Quando o foco das reuniões mediúnicas desloca-se dos princípios para os personagens, perde-se a essência da proposta kardequiana. O objetivo da mediunidade espírita é esclarecer Espíritos sofredores, promover a educação moral dos encarnados e servir ao progresso espiritual de todos os envolvidos. Qualquer prática que estimule o apego a identidades espirituais específicas afasta-se desse propósito.

A melhor proteção contra os enganos da mediunidade continua sendo a mesma indicada por Kardec há mais de um século e meio: estudo sério, controle racional das comunicações, análise criteriosa dos fatos e submissão de toda mensagem ao crivo da lógica e da moral. Fora disso, corre-se o risco de substituir a investigação espírita pela fantasia, o discernimento pela credulidade e a Doutrina pela mitologia mediúnica.

O desafio das instituições espíritas contemporâneas é permanecer fiéis ao espírito da obra kardequiana: estudar, educar, consolar e esclarecer. Quando o foco se desloca dos princípios para os rótulos, corre-se o risco de perder a essência. O que importa não é se o comunicante se apresenta como caboclo, preto-velho, exu ou qualquer outra denominação. A Doutrina Espírita não se ocupa de cultuar identidades espirituais, mas de compreender o Espírito imortal em sua jornada evolutiva. O centro espírita deve ser uma escola de almas, não um espaço de apego a classificações ou personagens. Como ensinou Kardec, a melhor garantia contra os enganos da mediunidade é sempre o estudo sério, o exame racional e o critério moral.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 94. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

MIRANDA, Hermínio C. Diversidade dos Carismas. 8. ed. Niterói: Lachâtre, 2013.

SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão e Desobsessão. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

08 junho 2026

Centro espírita não é e jamais deverá ser palanque de poder


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A instituição espírita nasceu para ser escola de almas, oficina de trabalho no bem e posto avançado de fraternidade. Sua finalidade não é a conquista de posições de chefiaprestígio ou autoridade administrativa, mas a transformação moral dos frequentadores  à luz do Evangelho do Cristo.

Entretanto, não raras vezes, observa-se o surgimento de aborrecíveis disputas por cargos, movimentos de bastidores, articulações silenciosas (maledicência) e verdadeiras campanhas eleitorais antecipadas em torno de futuras diretorias e presidências. Trata-se de um fenômeno deplorável que revela o quanto ainda estamos distantes dos valores que supostamente abraçamos.

O cargo de direção, em uma casa espírita, deveria representar oportunidade de serviço e não instrumento de poder, de mando e desmandos. Quem aspira à direção apenas para ser reconhecido, influenciar pessoas ou satisfazer necessidades egóicas de afirmação pessoal demonstra entrave moral e incompreensão da essência da liderança espírita cristã. Jesus, o Governador Espiritual da Terra, ensinou exatamente o contrário: “aquele que quiser ser o maior, seja o servo de todos”.

É igualmente inquietante quando pessoas comprovadamente desajustadas em seus próprios ambientes domésticos  se apresentam como modelos de equilíbrio para conduzir instituições espíritas. Evidentemente, não devemos exigir perfeição de ninguém, pois todos somos aprendizes. Contudo, a direção de uma organização espírita exige maturidade emocional, capacidade de diálogo, espírito conciliador, testemunho moral e exemplo de equilíbrio familiar compatível com as responsabilidades assumidas.

Os grupos espíritas não podem e nem devem transformar-se em ambientes de fofoca (maledicência), formação de grupelhos “dissidentes”, alianças politiqueiras ou busca de “eleitores” para futuras administrações. Quando isso acontece, o foco deixa de ser o Evangelho para concentrar-se nas desprezíveis ambições humanas de mando e desmando. O resultado inevitável é a desarmonia, o afastamento de inocentes úteis (trabalhadores sinceros) e o enfraquecimento das atividades doutrinárias.

Allan Kardec advertiu que o verdadeiro espírita se reconhece por sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações. A disputa por podera intriga e o desejo de controle constituem justamente algumas dessas infelizes inclinações que necessitam ser vencidas.

A casa espírita deve permanecer como reduto de paz, de união legítima e não mascarada, de educação espiritual, estudo sério da Doutrina, acolhimento fraterno e serviço desinteressado ao próximo. Seus dirigentes são administradores temporários de uma tarefa que pertence a Cristo, portanto, não proprietários de cargos ou de instituições.

Quando interesses pessoais passam a prevalecer sobre os interesses da causa espírita, perde-se a perspectiva do serviço e instala-se a cultura da competição. E onde há competição por prestígio e “poder” , impossível haver espaço para a verdadeira fraternidade.

Quem não consegue adaptar-se aos princípios de respeito, cooperação e humildade que devem caracterizar o movimento espírita talvez encontre maior afinidade em outros ambientes voltados às disputas de influência e poder. A seara espírita, porém, exige outra postura: a do trabalhador que serve sem exigir reconhecimento, que coopera sem disputar posições e que compreende que a maior autoridade é a do exemplo sobretudo no ambiente doméstico.

O futuro saudável das instituições espíritas dependerá menos de estatutos, regimentos, cargos ou eleições e muito mais da capacidade de seus integrantes cultivarem a humildade, a tolerância e o espírito de serviço. Afinal, na Casa do Cristo, os maiores não são os que mandam mais, mas os que servem melhor.

Nesta abordagem acima preservamos o tom fundamentado de nossa análise, mas deslocamos o foco temático para princípios doutrinários universais, evitando quaisquer personalizações, reforçando o ideal de serviço ensinado por Jesus e pela Doutrina Espírita.

Pensemos nisso!

 

07 junho 2026

A assistência social e a inaceitável barganha de cestas básicas por doutrinação espírita


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre as distorções mais graves que ainda podem ser encontradas em alguns ambientes religiosos está a prática de condicionar a entrega de cestas básicas ou outros benefícios assistenciais à participação obrigatória em palestras, cultos ou atividades doutrinárias. Quando isso ocorre em instituições espíritas, o problema se torna ainda mais contraditório, pois afronta simultaneamente a legislação brasileira, a liberdade de consciência e os princípios fundamentais da Doutrina Espírita.

A fome não pode ser utilizada como instrumento de convencimento espírita . Quem procura auxílio material encontra-se, muitas vezes, em situação de extrema vulnerabilidade. Exigir que o necessitado assista a palestras públicas para receber alimentos equivale a transformar a caridade em moeda de troca. Não se trata mais de auxílio fraterno, mas de constrangimento moral disfarçado de doutrinação.

O Espiritismo jamais autorizou semelhante prática. Allan Kardec ensina que a verdadeira caridade se fundamenta na benevolência, na indulgência e no respeito ao próximo. Em nenhum momento propõe que a assistência material seja condicionada à adesão religiosa. Pelo contrário, a Doutrina Espírita respeita profundamente a liberdade de consciência, reconhecendo que a fé legítima somente existe quando resulta da convicção livre e racional.

Jesus também não condicionava o socorro às multidões à frequência obrigatória em reuniões religiosas. Quando multiplicou os pães, alimentou indistintamente a todos. Não perguntou a crença de ninguém, não exigiu profissão de fé prévia e não transformou a necessidade humana em oportunidade de recrutamento religioso. O Mestre servia primeiro; ensinava depois e sempre sem constrangimento.

Sob o aspecto jurídico, a prática é igualmente questionável. A Constituição Federal assegura a liberdade de consciência e de crença, vedando qualquer forma de coerção religiosa. O Estado brasileiro é laico, e a dignidade humana exige que ninguém seja colocado diante do dilema entre receber alimento e submeter-se a uma atividade religiosa indesejada. A assistência deve ser oferecida com respeito à autonomia moral do indivíduo.

Pesquisas acadêmicas têm demonstrado que parte das atividades assistenciais religiosas ainda conserva características assistencialistas, nas quais a ajuda material permanece fortemente vinculada a objetivos confessionais. Tal modelo vem sendo objeto de críticas por dificultar a emancipação do assistido e por confundir solidariedade com proselitismo religioso.

Não há mérito moral e digo mais , é profundamente imoral  evangelizar alguém cuja liberdade de escolha está limitada pela fome. A casa espírita existe para servir, não para constranger. Quem recebe uma cesta básica não está adquirindo uma obrigação espiritual. Está apenas exercendo o direito de ser tratado com dignidade. Se desejar participar das atividades doutrinárias, que o faça por livre escolha e sincero interesse, nunca por necessidade alimentar.

A verdadeira caridade não cobra essa coação ao socorrido para assistir a palestras públicas.  Não impõe condições. Não explora a fragilidade humana. Alimenta o corpo sem violar a consciência. Fora disso, já não estaremos diante do Evangelho do Cristo nem da proposta libertadora do Espiritismo, mas diante de uma forma disfarçada de comércio moral da miséria.

A missão da casa espírita não é conquistar frequentadores pela necessidade material, mas servir ao próximo com dignidade, respeito e amor.

Onde existe a obrigatoriedade de assistir a palestras ou outras atividades espirituais, ainda que sutil, a caridade é uma paródia do bem. Mas onde há liberdade e legítima solidariedade, o Cristo é mais autêntico.

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

SIMÕES, José Pedro. O assistencialismo espírita. Interações – Cultura e Comunidade, v. 17, n. 2, p. 358-375, 2022. DOI: 10.5752/P.1983-2478.2022v17n2p358-375.

SOUZA, André Ricardo de; SIMÕES, Pedro. Desafios do trabalho assistencial espírita: dois modelos de atuação. REVER – Revista de Estudos da Religião, v. 17, n. 1, 2017.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988.

LOPES, Márcia Helena Carvalho. Assistencialismo não é assistência social. Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), 2019.

 

06 junho 2026

Abduções e Alienígenas? A tribuna e o empobrecimento do pensamento espírita

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Temos observado um fenômeno preocupante em determinados segmentos do movimento espírita brasileiro: a crescente substituição do estudo doutrinário sério por narrativas sensacionalistas envolvendo extraterrestres, abduções alienígenas, conspirações cósmicas e supostas revelações extraordinárias apresentadas como se fossem ensinamentos espíritas legítimos.

O problema não reside na possibilidade da existência de vida em outros mundos. A pluralidade dos mundos habitados constitui um princípio claramente exposto por Allan Kardec em O Livro dos Espíritos. O equívoco começa quando hipóteses ufológicas, relatos anedóticos ou experiências subjetivas passam a ser divulgados em tribunas espíritas como se integrassem o corpo doutrinário da Codificação.

Allan Kardec edificou o Espiritismo sobre bases radicalmente diferentes. Sua metodologia exigia observação rigorosa, análise racional, comparação universal dos ensinos dos Espíritos e permanente submissão dos fatos ao crivo da razão. Em nenhum momento o Codificador autorizou a aceitação de afirmações extraordinárias apenas porque são fascinantes ou despertam curiosidade.

Ao contrário, Kardec advertiu que um dos maiores perigos para o Espiritismo seria a invasão de ideias fantasiosas capazes de comprometer sua credibilidade perante a sociedade. Em A Gênese, afirmou que uma teoria somente pode ser incorporada ao patrimônio doutrinário quando resistir simultaneamente ao exame da lógica, da razão e dos fatos.

Entretanto, alguns expositores contemporâneos parecem ignorar esse princípio fundamental. Utilizam a tribuna espírita para difundir narrativas sobre extraterrestres que sequestram seres humanos, realizam experiências biológicas ou monitoram secretamente a humanidade. Frequentemente, tais afirmações são apresentadas sem qualquer comprovação objetiva e, pior ainda, associadas indevidamente ao nome de Kardec.

Esse procedimento produz graves consequências. A primeira delas é a descaracterização da própria Doutrina Espírita. O público leigo passa a confundir Espiritismo com ufologia, esoterismo ou literatura de ficção científica. A segunda consequência é o enfraquecimento da credibilidade intelectual da doutrina, justamente uma das características mais valorizadas por Kardec.

Enquanto alguns se ocupam de especulações sobre discos voadores e abduções, temas essenciais da renovação moral acabam relegados ao segundo plano. Fala-se menos de reforma íntima, responsabilidade espiritual, caridade, educação das emoções e vivência evangélica. A curiosidade substitui o autoconhecimento; o espetáculo toma o lugar do estudo.

A obsessão pelo extraordinário não representa avanço espiritual. Muitas vezes, constitui apenas uma forma sofisticada de fuga das próprias responsabilidades morais. É mais fácil discutir civilizações galácticas do que enfrentar os desafios cotidianos do orgulho, do egoísmo e da intolerância.

A tribuna espírita não foi criada para entreter nem para impressionar e agradar auditórios. Sua finalidade é esclarecer consciências à luz da razão e do Evangelho. Quando opiniões pessoais são apresentadas como verdades doutrinárias, abre-se espaço para a mistificação, fenômeno amplamente denunciado por Kardec em suas obras.

O movimento espírita necessita urgentemente retornar às fontes da Codificação. Isso não significa fechar-se à investigação de novos fenômenos, mas preservar a distinção entre hipótese e doutrina, entre opinião individual e ensinamento espírita. Sem esse cuidado, corre-se o risco de transformar uma filosofia racional em um repositório de crenças sem controle metodológico.

O Espiritismo não tem necessidade de extraterrestres sequestradores (abdução) para justificar sua existência. Seus fundamentos são suficientemente sólidos para sustentar uma visão elevada do ser humano, da vida e da imortalidade. A verdadeira grandeza da doutrina não está no fantástico, mas na sua capacidade de unir razão, ciência, filosofia e moral em favor do progresso espiritual da humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 53. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

SILVA, Deolindo Amorim. O Espiritismo e os Problemas Humanos. Rio de Janeiro: CELD, 2002.

PIRES, José Herculano. O Espírito e o Tempo. São Paulo: Paideia, 1995.