10 setembro 2026

Quando a fraternidade vira escudo



Jorge Hessen

Brasília -DF


No movimento espírita, caridade não pode significar silêncio diante do erro, nem misericórdia servir de salvo-conduto para práticas que exigem esclarecimento

Há algo profundamente equivocado quando, em nome da fraternidade, se tenta impedir a crítica; quando, em nome da caridade, se pretende encerrar o debate; quando, em nome do Evangelho, se exige silêncio diante de fatos que deveriam ser examinados. A fraternidade cristã não foi instituída para proteger erros, reputações ou interesses institucionais. Foi instituída para aproximar consciências da verdade.

O alerta de Emmanuel, no capítulo 20 de Caminho, Verdade e Vida, é de uma atualidade desconcertante. Sob o título “O Companheiro”, o autor espiritual recorda que ninguém percorre sozinho a estrada da evolução.

Encontraremos companheiros agradáveis e difíceis, concordantes e discordantes, aqueles que nos estimulam e aqueles que nos incomodam. Todos podem ser instrumentos de aprendizado. O problema começa quando transformamos a fraternidade em uma espécie de salvo-conduto moral para não examinar aquilo que nos convém ignorar.

Uma doutrina que ensina o livre exame não pode cultivar uma cultura de intocáveis. O Espiritismo não exige que seus adeptos concordem com tudo nem que aceitem uma prática simplesmente porque é realizada dentro de uma instituição espírita, por uma liderança admirada ou por alguém cercado de prestígio. Kardec não ensinou submissão intelectual. Ensinou investigação, raciocínio, observação e prudência. A fé espírita não teme a verdade — receia, isto sim, a acomodação que dispensa a verdade.

Emmanuel é ainda mais preciso ao recomendar: “Elevemos os que nos rodeiam.” Elevar não é adular. Não é proteger indefinidamente quem erra. Não é transformar crítica em perseguição e questionamento em ofensa. Muitas vezes, elevar significa ter a coragem de advertir o companheiro, apontar-lhe o equívoco e ajudá-lo a repará-lo.

Essa é uma concepção de fraternidade muito mais exigente do que a mera cordialidade.

O movimento espírita não pode cair na tentação de criar zonas de imunidade moral. Nenhum médium, dirigente, palestrante, trabalhador, instituição ou entidade federativa está acima do exame da consciência e dos princípios doutrinários.

Isso não significa licença para acusações irresponsáveis. Ao contrário. Toda crítica séria deve respeitar os fatos, evitar precipitações e distinguir claramente suspeitas, indícios e acusações comprovadas. Mas exatamente por isso não se pode responder a toda contestação com ataques pessoais, desqualificações ou tentativas de silenciamento.

A pergunta correta diante de uma crítica não deveria ser: “Quem está criticando?”

Deveria ser: “O que está sendo apontado é verdadeiro?”

Se a crítica for injusta, os fatos a desmontarão. Se houver equívoco, o esclarecimento será suficiente. Se existir uma falha, o caminho cristão será reconhecê-la e corrigi-la.

O que não é aceitável é substituir a investigação pela indignação. 

Também não se pode confundir caridade com permissividade. A questão 886 de O Livro dos Espíritos relaciona a caridade à benevolência, à indulgência e ao perdão das imperfeições alheias. Mas indulgência não significa negar a realidade. Podemos ser indulgentes com a pessoa sem sermos complacentes com o erro.

Perdoar não é aprovar. Compreender não é concordar. Amar não é acobertar.

Essa distinção deveria estar no centro de qualquer instituição que se apresente como cristã.

Há, ainda, um fenômeno particularmente preocupante: a transformação de determinadas personalidades em referências quase incontestáveis. Quando a admiração substitui o discernimento, nasce o personalismo. E quando o personalismo se instala, a crítica passa a ser percebida como ameaça.

É justamente nesse momento que o movimento espírita precisa recordar Kardec.

A Doutrina não é propriedade de indivíduos. Não existe “dono” da verdade espírita. O trabalhador é passageiro; a instituição é instrumento; a Doutrina permanece.

Por isso, nenhuma obra assistencial, por mais meritória que seja, pode ser utilizada como argumento para impedir questionamentos. A caridade não confere imunidade moral a ninguém. Fazer o bem não transforma automaticamente todas as práticas daquele que faz o bem em práticas corretas.

Essa é uma verdade incômoda, mas necessária.

Se houver erro, que seja corrigido. 

Se houver dúvida, que seja investigada.

Se houver denúncia, que seja examinada com serenidade.

Se houver injustiça, que seja reparada.

E se não houver fundamento, que os fatos esclareçam.

O que não podemos fazer é transformar o companheiro que questiona em inimigo e o companheiro questionado em vítima automática.

Emmanuel nos convida a enxergar no próximo uma oportunidade de aprendizado. Talvez seja hora de aplicar a mesma lição às nossas próprias instituições.

O crítico também pode ser um companheiro.

Pode incomodar. Pode contrariar. Pode expor aquilo que preferíamos não enxergar. Mas, se sua crítica tiver fundamento, talvez esteja prestando um serviço que muitos aduladores jamais tiveram coragem de prestar.

O verdadeiro espírita não deveria perguntar primeiro como preservar sua reputação.

Deveria perguntar como preservar sua consciência.

Porque, no fim, a maior ameaça à fraternidade não é a crítica honesta. É a mentira protegida pelo silêncio dos que deveriam ter coragem de examiná-la.

Fraternidade não é blindagem.

Fraternidade é verdade com misericórdia.

A fé que não teme a razão



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Andá com fé, eu vou, que a fé não costuma faiá”, canta Gilberto Gil. A imagem popular traduz uma experiência humana profunda: diante das incertezas da existência, precisamos de confiança para prosseguir. A Epístola aos Hebreus define a fé como “o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem” (BÍBLIA, Hebreus, 11:1).

Mas é preciso distinguir a fé da credulidade. Para o Espiritismo, fé verdadeira não significa acreditar cegamente, muito menos aceitar afirmações apenas porque alguém as apresenta como verdades espirituais. Allan Kardec é categórico: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade” (KARDEC, 2008, p. 239).

Essa concepção é particularmente importante nos momentos de crise. Doença, desemprego, dificuldades financeiras, insegurança, envelhecimento, solidão e perdas afetivas podem despertar medo, ansiedade e desalento. A fé racional não elimina automaticamente essas experiências, mas pode oferecer ao indivíduo um eixo interior para enfrentá-las com maior serenidade, responsabilidade e esperança.

No entendimento espírita, essa esperança encontra fundamento na imortalidade da alma e na reencarnação. A morte deixa de ser compreendida como aniquilamento e passa a ser encarada como etapa da existência. Isso não autoriza passividade diante das dificuldades; ao contrário, convoca-nos ao trabalho, à resignação ativa e à transformação moral.

Fé, portanto, não é privilégio concedido a alguns, nem imposição religiosa. É conquista progressiva da consciência. Desenvolve-se pelo estudo, pela experiência, pela reflexão e, sobretudo, pela vivência do bem. A fé que dispensa a razão pode facilmente converter-se em superstição; a razão que despreza toda dimensão espiritual pode reduzir a existência àquilo que os sentidos conseguem perceber.

Jesus ensinou uma fé capaz de “transportar montanhas” (MATEUS, 17:20). As montanhas, porém, também podem representar nossas limitações interiores: medo, egoísmo, pessimismo, orgulho e desesperança.

A verdadeira fé não promete uma vida sem dificuldades. Ela nos ensina a atravessá-las sem perder o sentido da vida. Por isso, mais do que repetir que “a fé não costuma faiá”, precisamos construir uma fé que não tema a razão, não fuja dos fatos e, sobretudo, transforme-se em coragem para viver e amor para servir.

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

GIL, Gilberto. Andar com fé. In: GILBERTO GIL. Um banda um. Rio de Janeiro: Warner Music Brasil, 1982.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 129. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008.

 

07 setembro 2026

A morte não pode ser explorada: o grito de uma mãe contra o estelionato do luto


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há dores que deveriam ser invioláveis. A morte de um esposo, de um filho ou de um pai não pode transformar-se em espetáculo, instrumento de sedução ou oportunidade de exploração. Por isso, são profundamente assombrosos os relatos de famílias que, em busca desesperada de uma palavra consoladora, acreditaram em supostas mensagens mediúnicas e, posteriormente, passaram a desconfiar de que informações íntimas haviam sido obtidas previamente pela internet.

O Programa Fantástico da Rede Globo, de 6 de setembro de 2026, veiculou o testemunho de Marina, mãe de Mateu, e foi um desses relatos que exigem atenção. Tiago (esposo de Marina) desencarnou após uma longa luta contra o câncer e complicações decorrentes de um transplante de medula. Quando faleceu, deixou um filho pequeno. A família, devastada, procurou consolo naquilo em que acreditava: a continuidade da vida.

Marina, espírita desde a infância, acreditava sinceramente na possibilidade das comunicações espirituais. Em sua dor, mobilizou familiares, reuniu recursos e viajou de São Paulo até a cidade onde vive tal suposto médium em busca de uma mensagem que lhe dissesse como estava o homem que amava. Como milhares de enlutados, ela desejava apenas uma notícia do outro lado da vida.

Mas, posteriormente, com a infida carta consoladora em mãos, afirma ter descoberto que as informações apresentadas como extraordinárias estavam disponíveis em redes sociais e em bancos de dados na internet. A confiança converteu-se em angústia. E o impacto não teria atingido apenas uma adulta fragilizada pelo luto: segundo seu relato, seu filho (Mateu) — que tinha apenas três anos quando o pai faleceu e hoje ainda é uma criança — também teria sido profundamente afetado pela situação, necessitando de acompanhamento e terapias caríssimas.

A denúncia moral aqui é gravíssima: estamos diante de crime real, pois não se pode “matar” simbolicamente um pai duas vezes na memória de uma criança. Primeiro, pela morte física; depois, pela manipulação da esperança, da saudade e das crenças familiares. Houve crime comprovado; não se trata de simples divergência religiosa. Trata-se de uma ferida psicológica que pode atravessar anos.

E tal suposto médium tem ameaçado com processos judiciais contra quem questiona suas desumanas práticas. Provar que as falsas cartas desse suposto médium são obtidas através das informações da internet é a coisa mais fácil de se constatar. Logicamente sabemos que quem faz acusações deve apresentar provas e quem é acusado tem direito à ampla defesa; mas, existindo indícios objetivos, as autoridades policiais têm o dever de investigar. Até porque ameaçar mães, testemunhas e pesquisadores sérios não substitui perícia técnica , mas afirmo que é extremamente fácil  constatar que as mensagens daquelas cartas consoladoras são cópias  da internet.

Em face disso, é indispensável preservar vídeos, transmissões, mensagens, publicações, registros financeiros e, sobretudo, comparar as supostas informações “reveladas” com aquilo que já estava disponível na internet antes das mensagens. Também é legítimo investigar a circulação de dinheiro em torno de eventos e atendimentos que envolvam pessoas fragilizadas.

O Espiritismo sério não precisa de blindagem contra perguntas. Allan Kardec jamais ensinou que a emoção fosse prova de autenticidade. Lágrimas não autenticam uma psicografia. Fama não transforma ninguém em médium verdadeiro. Seguidores não substituem investigação.

Quando alguém explora — conscientemente ou fraudulentamente — a esperança de quem sofre, a vítima não perde apenas dinheiro. Pode perder a paz, a confiança e a capacidade de elaborar saudavelmente o próprio luto.

Por isso, proteger as famílias não é perseguir médiuns. É defender a fé contra os que, eventualmente, transformam a credulidade humana em instrumento de poder. A dor não pode ser mercadoria. A saudade não pode ser explorada. E nenhuma ameaça judicial deve impedir que fatos sérios sejam apresentados às autoridades competentes.

05 setembro 2026

Quando a postura kardeciana incomoda, é preciso coragem para não se calar


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

E foi exatamente isso que Paulo Maia, Presidente da Federação Espírita do Distrito Federal,  fez.

Enquanto muitos preferem o silêncio para evitar conflitos, ele escolheu permanecer firme.

Não por vaidade.
Não por conveniência.
Mas por compromisso com Allan Kardec, com o Cristo e com a responsabilidade que a mediunidade séria exige.

Hoje, queremos dizer publicamente:

Paulo Maia, nós reconhecemos a sua coragem.

Mediunidade não é espetáculo.
Não é comércio.
Não é autorização para transformar informações colhidas nas redes sociais em supostas revelações do mundo espiritual.

Kardec ensinou-nos a examinar, questionar e submeter os fatos ao crivo da razão.

Não estamos contra pessoas. Estamos contra a claudicação.
Não estamos promovendo perseguições. Estamos defendendo princípios.

E quem permanece fiel ao Cristo e ao Codificador, mesmo diante das pressões, não pode ser abandonado.

PAULO MAIA, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO.

Eu, as vítimas, estamos com você.
Nós estamos com você.
Todos aqueles que defendem uma doutrina espírita séria, ética e fiel a Kardec estão com você.

Se precisar, conte conosco.

Porque a verdade pode ser pressionada.

Pode ser atacada.

Mas jamais deve ser abandonada.

E a fidelidade a Allan Kardec, essa não se negocia.

 

Não se responde às cartas “consoladoras” com “flores”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Havia, numa pequena cidade, uma casa conhecida pelo belo jardim.

 Semanalmente seus voluntários distribuíam alimentos, roupas e outros recursos aos necessitados. Gioconda trabalhava ali há muitos anos. Sabia quem precisava de uma cesta básica, quem chegava em silêncio e quem voltava apenas para conversar. Para ela, a caridade não era uma ideia: tinha rosto, nome e história.

 Epifânio era diferente. Gostava de documentos, datas e comparações. Quando ouvia uma afirmação extraordinária, sua primeira reação não era acreditar nem desacreditar.

Era perguntar:

— Como podemos saber?

 Ariosto, o velho jardineiro, conhecia os dois.

 Numa manhã, encontrou-os conversando diante de uma mesa onde estavam algumas cartas “consoladoras”.

— Lá estão vocês dois outra vez — disse ele. — Uma querendo respostas e a outra querendo proteger o jardim.

 Gioconda sorriu.

 — Não estou protegendo o jardim, Ariosto. Estou protegendo pessoas. É diferente.

 Epifânio respondeu:

— E eu não estou tentando derrubar o jardim. Estou tentando descobrir de onde vieram essas cartas “consoladoras”.

 Gioconda cruzou os braços.

— Você sabe como essas coisas funcionam. Quando uma história começa a circular, ninguém fica apenas nas cartas “consoladoras”. Daqui a pouco estão falando da casa inteira.

 — E justamente por isso precisamos ser precisos — respondeu Epifânio. — Se eu questiono uma carta “consoladora”, diga que questionei a carta. Não diga que ataquei a caridade.

 Gioconda ficou séria.

 — Mas você também precisa reconhecer que palavras têm consequências. Para quem recebe ajuda aqui, ouvir que a casa está sendo questionada pode causar insegurança.

Epifânio fez uma pausa.

— Reconheço. Mas isso vale para os dois lados. Se uma dúvida sobre as cartas “consoladoras” for apresentada como se fosse uma condenação da caridade, também se cria uma impressão que não corresponde ao que foi perguntado.

 Ariosto, que até então observava em silêncio, puxou uma cadeira.

— Muito bem. Agora estamos chegando ao ponto.

Gioconda olhou para ele.

— Qual ponto?

 — O ponto em que vocês percebem que estão falando de duas preocupações diferentes.

 Epifânio perguntou:

 — Quais?

— Você quer saber se as cartas “consoladoras” resistem ao exame. Gioconda quer ter certeza de que as pessoas que dependem da casa não serão prejudicadas pela discussão.

Gioconda concordou.

 — É exatamente isso.

 — E nenhuma dessas preocupações é absurda — continuou Ariosto. — O problema começa quando uma resposta para uma preocupação é usada para substituir a outra.

 Epifânio pegou uma carta “consoladora”.

— Então vamos ao concreto. Se existem informações aqui que também aparecem em entrevistas, publicações ou redes sociais, eu quero saber como isso é explicado.

 Gioconda respondeu imediatamente:

 — E eu quero saber se você já ouviu a explicação completa.

Epifânio levantou os olhos.

— Ainda não.

 — Então talvez esse seja o primeiro passo — disse ela.

 Epifânio sorriu.

 — Justo.

Ariosto bateu levemente na mesa.

— Vejam só. Uma pergunta e uma resposta. Sem precisar transformar ninguém em vilão.

 Gioconda riu.

 — Você sempre acha tudo mais simples.

— Não. Eu só já vivi o suficiente para saber que uma discussão fica mais difícil quando começamos a adivinhar o que existe na cabeça dos outros.

 Epifânio concordou:

 — Isso é verdade. Eu posso dizer o que observei. Não posso afirmar por que alguém fez alguma coisa sem ter elementos para isso.

 Gioconda olhou novamente para a carta “consoladora”.

 — E eu posso defender o trabalho da casa sem afirmar que qualquer pessoa que faça uma pergunta está atacando a instituição.

 Ariosto levantou-se.

 — Agora vocês estão aprendendo a conversar.

Gioconda provocou:

— E você? De que lado está?

 O velho jardineiro apontou para o jardim.

 — Do lado das perguntas bem feitas, das respostas honestas e das flores bem cuidadas.

 Epifânio riu.

 — Isso não é exatamente um lado.

 — É o melhor que consigo oferecer.

Gioconda pegou a carta “consoladora”e a colocou novamente sobre a mesa.

— Então fica combinado: o trabalho assistencial continua sendo reconhecido pelo que é. E as cartas “consoladoras” são examinadas pelo que apresentam.

 — E sem antecipar a conclusão — acrescentou Epifânio.

 — Sem transformar crítica em acusação — disse Gioconda.

Ariosto completou:

 — E sem transformar caridade em argumento para uma questão que precisa ser respondida por evidências.

 Os três ficaram em silêncio.

 O jardim continuou sendo cuidado.

 As cartas “consoladoras” permaneceram sobre a mesa.

 E a pequena comunidade descobriu que é possível defender uma obra sem defender previamente todas as suas práticas, assim como é possível questionar uma prática sem desmerecer toda a obra.

Moral:

 Quando cada pessoa fala a partir de sua preocupação, a conversa pode parecer uma disputa. Quando cada uma aprende a separar fatos, perguntas e conclusões, a mesma conversa pode se transformar em busca pela verdade.

 

04 setembro 2026

No STF, quem deve ser investigado — aquele que acende a luz ou aquilo que a luz revela?


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Hoje mesmo escrevi que o Brasil atravessa um período de grave tensão institucional. As divergências entre os Poderes, as controvérsias envolvendo autoridades e a crescente desconfiança de parcela da sociedade exigem algo elementar: serenidade, transparência, investigação e respeito absoluto à Constituição. O cidadão não pode ser obrigado a escolher entre a autoridade e a verdade. Autoridade alguma substitui a prova.

O próprio ordenamento constitucional estabelece que ninguém será privado de liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal e assegura aos acusados o contraditório e a ampla defesa. Também determina que a Administração Pública observe, entre outros, os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade.

Para o espírita, entretanto, a questão ultrapassa a esfera jurídica. É também uma questão moral. Allan Kardec jamais ensinou submissão cega a autoridades humanas. Ao contrário, a Doutrina Espírita valoriza o livre exame, a liberdade de consciência e o uso da razão. A fé espírita não teme a investigação porque, sendo racional, não precisa esconder-se atrás de dogmas ou de intimidações. A própria orientação doutrinária destaca que a fé verdadeira deve poder enfrentar a razão em qualquer época.

Por isso, quando surgem denúncias envolvendo pessoas poderosas, o comportamento correto não é transformar automaticamente o denunciante em inimigo. É investigar. Se alguém mente, manipula documentos, calunia ou pratica qualquer abuso, que responda por seus atos. Mas isso precisa ser demonstrado por investigação regular, com provas e devido processo. Não se pode substituir a apuração pela suspeita, a prova pela autoridade ou o argumento pelo silêncio.

Há uma pergunta que deveria ecoar na consciência de todos: quem deve ser investigado — aquele que acende a luz ou aquilo que a luz revela?

A resposta espírita não pode ser outra: os fatos devem falar mais alto que as paixões.  Kardec ensinou que o Espiritismo não impõe a fé cega e que o livre exame é indispensável. Isso significa que o espírita não deve transformar ministro, presidente, parlamentar, partido ou instituição em objeto de veneração política. Respeito à autoridade não significa abdicação da consciência.

A Doutrina Espírita também nos recorda a responsabilidade individual. Cada ser responde moralmente pelos próprios atos. Portanto, quanto maior a posição ocupada por alguém na sociedade, maior deveria ser sua responsabilidade perante a própria consciência e perante a coletividade.

O Brasil não precisa de salvadores institucionais. Precisa de instituições submetidas à lei, homens públicos submetidos à responsabilidade e cidadãos livres para questionar sem medo.

Se há denúncias, investiguem-se. Se são falsas, demonstre-se. Se são verdadeiras, responsabilizem-se os envolvidos. Se nada houver, que a própria investigação produza a absolvição.

É assim que uma República madura funciona. E é assim também que uma sociedade moralmente saudável deve proceder: sem ódio, sem idolatria, sem perseguição e sem medo da verdade.

Porque a verdade não precisa de violência para prevalecer.

Precisa apenas que lhe permitam aparecer.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República

 

Brasil em alerta - quando os poderes perdem o equilíbrio, a democracia perde o rumo



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Brasil atravessa uma hora gravíssima. E o pior que poderíamos fazer seria fingir normalidade.

A República está politicamente fraturada. O Congresso Nacional revela limitações preocupantes para exercer, com independência e eficácia, suas prerrogativas. Câmara e Senado frequentemente parecem incapazes de responder à altura da gravidade dos acontecimentos. E o Supremo Tribunal Federal, “guardião” da Constituição, enfrenta uma crise interna que já expõe publicamente divergências, acusações e questionamentos sobre procedimentos e condutas de seus próprios ministros. A imprensa registra o episódio como uma das mais graves crises da história recente da Corte.

Não se trata de demonizar o STF, o Congresso ou qualquer Poder. Trata-se de lembrar uma verdade elementar: nenhuma instituição da República está acima da Constituição.

A própria Carta Magna estabelece a independência e a harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Quando um Poder avança sobre as atribuições de outro, quando decisões judiciais passam a ser percebidas como substituição da atividade política do Parlamento, ou quando o Legislativo deixa de exercer adequadamente suas prerrogativas, a democracia entra em zona de perigo.

E onde está o espírita diante disso?

Debaixo da cama escondido atrás de uma falsa neutralidade?

Não deveria!

O espírita não deve ser cabo eleitoral de partido algum, mas tem o dever moral de ser cidadão atento. Não pode trocar consciência por ideologia nem fraternidade por submissão política.

Allan Kardec ensinou que o progresso exige justiça e que o verdadeiro espírita deve trabalhar pela transformação moral da sociedade. Em O Livro dos Espíritos, a Lei de Justiça, Amor e Caridade não é apresentada como simples contemplação religiosa, mas como fundamento da vida humana (KARDEC, 2019, questões 873-892).

Portanto, não cabe ao espírita aplaudir abusos porque foram praticados por aqueles de quem gosta, nem condená-los porque partiram de seus adversários. Abuso não muda de natureza conforme a ideologia de quem o pratica.

Se há suspeita de violação constitucional, que seja investigada. Se há abuso de autoridade, que seja apurado. Se há crime, que haja devido processo legal. Se há injustiça, que seja corrigida. E se houver acusações falsas, que também sejam desmentidas pelos instrumentos legítimos da Justiça.

O que não podemos aceitar é a substituição da verdade pelo fanatismo e da justiça pela vingança. Jesus ensinou: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32).

O Brasil precisa dessa verdade. Precisa de instituições fortes, mas também instituições controladas pela Constituição. Precisa de Legislativo independente, Judiciário responsável, Executivo submetido à lei e cidadãos capazes de fiscalizar todos os Poderes.

O espírita consciente não pede ruptura. Pede equilíbrio, justiça, responsabilidade, obediência à Constituição. E talvez esta seja uma das maiores provas morais do nosso tempo: permanecer sereno sem ser omisso; fraterno sem ser ingênuo; pacífico sem ser covarde; e fiel à verdade mesmo quando ela contraria aqueles de quem gostamos.

Porque quando a República adoece, a consciência do cidadão honrado não pode entrar em coma.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.

 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988

03 setembro 2026

Quando um palestrante “global” sobe à tribuna espírita e a ideologia desce na cloaca


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Imagine um auditório espírita reunido para ouvir uma palestra. Pessoas chegam em busca de reflexão, consolo, conhecimento e, sobretudo, de uma palavra capaz de aproximá-las dos ensinamentos de Jesus e da Doutrina Espírita. De repente, um orador convidado célebre e “global” assume o microfone e regurgita, em alto e bom som:

“ANISTIA NÃO! ANISTIA NÃO!”

O ambiente muda. A palestra deixa de ser espaço de reflexão e passa a carregar a atmosfera de uma disputa política. Pessoas começam a se retirar. É preciso perguntar, sem medo e sem partidarismo: o que uma palavra de ordem política faz dentro de uma atividade espírita?

A crítica aqui não é à opinião política de ninguém. Todo cidadão tem direito de defender ou rejeitar a anistia, dentro dos limites democráticos. O problema está em transformar uma tribuna espírita em palanque político, especialmente quando o espaço foi oferecido para exposição da Doutrina.

O Evangelho também não oferece respaldo para essa postura. Jesus não ensinou seus discípulos a organizar torcidas. Não recomendou a fabricação de inimigos políticos. Ensinou o amor ao próximo, inclusive ao que pensa de maneira diferente.

Por isso, o problema não é ser progressista, conservador, liberal, socialista, de direita ou de esquerda. O problema começa quando qualquer dessas identidades pretende ocupar o lugar da Doutrina Espírita dentro da Casa Espírita.

A instituição espírita não deveria reproduzir a mesma guerra de narrativas que domina as redes sociais, os parlamentos e os palanques. O ambiente espírita não é comitê eleitoral e palestra espírita não é comício e a tribuna doutrinária não é palanque de politiqueiros.

Quem recebe a responsabilidade de falar em nome do Espiritismo deveria compreender que um microfone representa responsabilidade, não licença para provocar polarizações.

Pode-se defender a anistia. Pode-se rejeitá-la. Pode-se discutir suas implicações jurídicas, políticas e sociais. Mas essa discussão precisa encontrar o espaço apropriado.

Quando uma reunião espírita é utilizada para proclamar palavras de ordem, cria-se uma divisão absolutamente desnecessária entre pessoas que poderiam estar unidas pelo estudo do Evangelho e da Doutrina.

E há uma consequência ainda mais grave: o cidadão que pensa diferentemente pode sentir que aquele espaço deixou de ser dele. Isso é exatamente o contrário da fraternidade.

O movimento espírita brasileiro não precisa importar para seus centros a lógica do “nós contra eles”. Precisa recuperar a serenidade,  estudar Kardec, compreender Jesus e respeitar a consciência alheia.

E precisa, sobretudo, lembrar que a força do Espiritismo não está na capacidade de levantar multidões contra alguém, mas na capacidade de transformar seres humanos para melhor.

Se uma tribuna espírita provoca mais divisão política do que reflexão espiritual, talvez seja hora de perguntar, com absoluta serenidade: estamos realmente divulgando o Espiritismo — ou apenas utilizando o Espiritismo para divulgar nossas próprias convicções políticas?

Essa pergunta não é perseguição. É legítima preocupação doutrinária. E talvez seja uma das perguntas mais urgentes que o movimento espírita precise enfrentar.

 

 

02 setembro 2026

Quando a dor dos pais enlutados vira R$ 300 mil é preciso investigar



jorge Hessen

Brasília -DF

 

O caso revelado pelo Metrópoles é perturbador e exige investigação rigorosa. Segundo a reportagem, dezenas de pessoas acusam uma suposta médium de produzir cartas do “além” utilizando informações disponíveis em redes sociais. Uma das denúncias é especialmente grave: o suposto espírito de um jovem teria orientado os pais a doar a uma instituição uma poupança de R$ 300 mil.

É preciso repetirR$ 300 mil.

Não estamos diante de uma pequena contribuição espontânea. Estamos falando de uma quantia expressiva, patrimônio acumulado por uma família. Se ficar comprovado que uma comunicação espiritual falsa foi conscientemente utilizada para “aliviar” a consciência  e induzir alguém a transferir um patrimônio de R$ 300 mil, estaremos diante de uma situação que ultrapassa o campo metafísico e exige responsabilização jurídica.

E há um agravante humano: a suposta mensagem teve como destinatários pais enlutados. E sabemos que  o luto produz vulnerabilidade. Quem perde um filho pode desejar desesperadamente ouvir novamente sua voz. Nesse estado emocional, uma informação verdadeira sobre a família pode parecer uma prova sobrenatural.

Hoje, redes sociais, fotografias, comentários, obituários e publicações oferecem enorme quantidade de dados capazes de alimentar narrativas aparentemente íntimas. A própria reportagem afirma que informações públicas teriam sido utilizadas na elaboração das cartas.

Por isso, a dor do luto jamais pode transformar-se em matéria-prima para exploração financeira tampouco na bagatela de  R$ 300 mil.

A Doutrina Espírita também não oferece salvo-conduto para qualquer alegação mediúnica. Jesus é categórico: “De graça recebestes, de graça dai” (MATEUS, 10:8). Kardec, ao tratar da mediunidade, enfatiza a necessidade de prudência, discernimento e controle diante das comunicações espirituais (KARDEC, 2013).

Mais importante ainda: nenhum médium é proprietário da verdade. Mediunidade não é título de autoridade, certificado de infalibilidade nem autorização para interferir em decisões patrimoniais de pessoas fragilizadas.

O caso ganhou nova dimensão institucional. O Metrópoles informou que a 11ª Delegacia de Polícia do DF investiga fatos relacionados a médium e que, em 1º de setembro de 2026, o MPDFT instaurou notícia de fato para apurar as denúncias.

Agora é preciso ir até o fim, onde os documentos devem ser examinados; as mensagens, registros digitais e eventuais movimentações financeiras precisam ser periciados (sobretudo os dados na Internet desse jovem “mão aberta”). Vítimas e testemunhas devem ser ouvidas. Obviamente , se não houver crime comprovado (inobstante o áudio contido na reportagem), isso também precisa ser claramente estabelecido.

Não se trata de condenar antecipadamente ninguém. Trata-se de exigir investigação. Se alguém utilizou, conscientemente, o nome de mortos para manipular enlutados e obter vantagens econômicas, a gravidade é imensa (o áudio da suposta médium contido na reportagem é emblemático). Porém , se as denúncias não forem evidenciadas, que a verdade igualmente prevaleça.

O Espiritismo não precisa de silêncio diante de denúncias. Precisa de coragem para separar fé de credulidade, mediunidade de mistificação e caridade de exploração.

O nome de um morto não pode ser transformado em instrumento de pressão sobre os vivos.

E uma suposta mensagem do além jamais deveria servir de mecanismo para constranger alguém a entregar seu patrimônio. Quando a dor de uma família pode ser convertida em R$ 300 mil, já não estamos diante de uma simples questão de fé. Estamos diante de um cenário que exige avaliações, investigação e, se houver crime, Justiça já!

 

Referências — ABNT

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.

BÍBLIA.. Mateus 10:8.

METRÓPOLES. Médium é acusada de forjar psicografia com dados obtidos nas redes sociais. Brasília, 31 ago. 2026.

METRÓPOLES. MPDFT recebe denúncias e abre apuração de supostos crimes da médium Maira. Brasília, 1 set. 2026.