07 novembro 2026

Espiritismo, Umbanda e a forçosa precaução no trato com os espíritos



 





Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Sem preconceitos, sem rótulos e sem sincretismos: os desencarnados são individualidades espirituais em permanente processo de evolução.

O Espiritismo, desde sua codificação, apresenta uma identidade filosófica, científica e moral própria, cujos princípios não devem ser confundidos com práticas ritualísticas de outras expressões religiosas. No Brasil, sua trajetória adquiriu características particulares, em contato com uma diversidade cultural e religiosa que merece respeito, mas não justifica a descaracterização dos fundamentos kardequianos.

Não aludimos a uma suposta superioridade do Espiritismo sobre outras religiões. Defendemos, sim, sua identidade doutrinária. A Umbanda e as demais tradições afro-brasileiras possuem histórias, fundamentos e práticas próprias. Respeitá-las significa, igualmente, não as confundir com a Doutrina Espírita.

A palavra espírita, criada por Kardec em 1857, identifica os adeptos do Espiritismo, e não indistintamente todos aqueles que trabalham com manifestações mediúnicas. A mediunidade, por sua vez, não é exclusiva do espiritismo. É uma faculdade humana, presente em diferentes culturas e tradições religiosas.

O problema surge quando instituições que se apresentam como espíritas incorporam procedimentos ritualísticos, objetos de culto, práticas mágicas, promessas, despachos, bebidas alcoólicas, fumo, vestimentas cerimoniais e outras práticas incompatíveis com a metodologia e os princípios da codificação. Não se trata de condenar outras religiões, mas de preservar a coerência do que professamos.

Entretanto, há uma questão ainda mais delicada: como devemos compreender e tratar os Espíritos que se comunicam conosco?

Precisamos abandonar preconceitos, atavismos e classificações que confundem a aparência espiritual com a condição evolutiva. Um Espírito não é superior ou inferior porque se apresenta com aparência de negro, branco, indígena, jovem, idoso, caboclo ou preto-velho. Essas denominações podem expressar referências culturais, experiências reencarnatórias ou formas de identificação adotadas em determinadas tradições, mas não constituem, por si mesmas, certificados de elevação ou inferioridade espiritual.

Para o Espiritismo, somos Espíritos imortais, temporariamente revestidos de corpos físicos, submetidos à lei do progresso. A cor da pele, a nacionalidade, o sexo, a posição social e a idade pertencem às experiências transitórias da existência corporal. Na dimensão espiritual, permanecemos individualidades em evolução, portadoras de conquistas, limitações e responsabilidades.

Kardec esclarece, em O Livro dos Espíritos, que a alma conserva sua individualidade depois da morte (questões 149 a 152). Portanto, não devemos transformar características de antigas encarnações em categorias espirituais permanentes.

Em O Livro dos Médiuns, especialmente nos capítulos XXIV e XXXI, encontramos orientações indispensáveis para o discernimento mediúnico. A qualidade dos Espíritos deve ser examinada pelo conteúdo de suas comunicações, pela linguagem, pelos sentimentos que inspiram e pela elevação moral demonstrada. Não é a aparência, o nome adotado, a maneira de falar ou a suposta procedência que determina sua superioridade espiritual (KARDEC, 2013).

Isso não significa desprezar manifestações simples, humildes ou culturalmente identificadas. Um Espírito pode conservar hábitos linguísticos e referências da última existência física. Todavia, simplicidade de linguagem não é sinônimo de inferioridade, assim como eloquência, títulos pomposos e manifestações espetaculares não comprovam superioridade.

O critério é moral e racional. Devemos analisar as ideias, os propósitos, a coerência, a bondade e a utilidade das orientações recebidas. A vigilância deve ser permanente, sem credulidade, mas também sem arrogância.

Jesus, nosso guia e modelo, ensinou-nos a caridade sem distinções. Não podemos invocar seu Evangelho para justificar rejeição, humilhação ou tratamento discriminatório aos Espíritos que procuram auxílio. Tampouco devemos acolher indiscriminadamente toda manifestação, supondo que qualquer entidade esteja habilitada a orientar os trabalhos mediúnicos.

Acolher não significa aceitar cegamente. Orientar não significa submeter-se. Esclarecer não significa humilhar. Os Espíritos em sofrimento necessitam de fraternidade, esclarecimento e amparo, enquanto os médiuns e dirigentes precisam de preparo e estudo doutrinário, equilíbrio emocional e vigilância moral.

A mediunidade não deve ser convertida em espetáculo, instrumento de poder ou mecanismo de satisfação de interesses materiais. As reuniões espíritas devem conservar simplicidade, seriedade, estudo e finalidade essencialmente educativa e fraterna.

Em O Livro dos Médiuns, Kardec recomenda o exame rigoroso das comunicações, advertindo-nos contra as mistificações e a influência dos Espíritos imperfeitos. Portanto, não devemos rejeitar uma entidade simplesmente porque ela se apresenta com uma identidade cultural diferente da nossa, nem conferir-lhe autoridade apenas porque utiliza uma denominação respeitada em determinada tradição.

Precisamos, sobretudo, evitar dois extremos: o sincretismo que dissolve a identidade espírita e o sectarismo que transforma a fidelidade doutrinária em intolerância religiosa.

O Espiritismo não pretende monopolizar a verdade nem desqualificar outras crenças. Seu compromisso é com o estudo, a fé raciocinada, a transformação moral e a prática desinteressada da caridade.

Preservar a identidade kardequiana não significa fechar as portas ao sofrimento humano ou espiritual. Significa saber acolher, discernir e orientar, sem abandonar os princípios que fundamentam nossa tarefa.

Afinal, diante da imortalidade, não existem Espíritos destinados a carregar eternamente os rótulos de suas antigas encarnações. Existem consciências em diferentes estágios de amadurecimento, todas submetidas à lei divina do progresso.

Sejamos, pois, rigorosos com os princípios, prudentes diante das manifestações mediúnicas e fraternos com todos os Espíritos. A fidelidade a Kardec não combina com preconceitos, assim como a caridade não combina com a ingenuidade.

 

Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013. Questões 149-152, 625, 886 e 919.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013. Segunda parte, capítulos XXIV e XXXI.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013. Capítulos XI e XVII.

FERNANDES, Stéfani Martins; HENN, Leonardo Guedes. As voltas da religião: o desenvolvimento histórico da Umbanda. Religare, João Pessoa, v. 15, n. 2, 2018.

06 novembro 2026

Masturbação: entre o impulso, a consciência e a educação sexual




A sexualidade integra a natureza humana e não deve ser abordada sob o estigma do "pecado", tampouco reduzida à satisfação dos impulsos. Para o Espiritismo, somos Espíritos em processo evolutivo, responsáveis pelo emprego que fazemos de nossas faculdades, inclusive das energias sexuais.

A masturbação, também denominada autoerotismo, suscita dúvidas, conflitos íntimos e, frequentemente, sentimentos de culpa. Durante séculos, preconceitos religiosos atribuíram-lhe consequências absurdas, como loucura, enfermidades e degradação física. A ciência clássica contemporânea não confirma essas afirmações. A masturbação, isoladamente, não constitui doença, não provoca infertilidade nem representa, necessariamente, comportamento prejudicial.

Isso, entretanto, não significa que toda manifestação do impulso sexual seja indiferente às consequências psicológicas, afetivas e comportamentais. Precisamos distinguir a manifestação natural da sexualidade de situações em que a prática se torna compulsiva, interfere nas responsabilidades cotidianas, prejudica relacionamentos ou compromete o equilíbrio pessoal.

A Organização Mundial da Saúde, na CID-11, reconhece o transtorno do comportamento sexual compulsivo, caracterizado pela dificuldade persistente de controlar impulsos sexuais repetitivos, com prejuízos significativos à vida pessoal, familiar ou social. A frequência da masturbação, por si só, não estabelece diagnóstico. Tampouco a culpa decorrente exclusivamente de convicções morais caracteriza uma enfermidade.

Sob a perspectiva espírita, o livre-arbítrio constitui fundamento indispensável à responsabilidade individual. Em O Livro dos Espíritos, questão 843, Allan Kardec esclarece que a liberdade de agir decorre da liberdade de pensar. Portanto, não cabe estabelecer condenações generalizadas, mas compreender que nossas escolhas produzem consequências e integram o processo de amadurecimento espiritual.

Em O Céu e o Inferno, Kardec também examina a conhecida expressão de que a carne é fraca, demonstrando que a responsabilidade moral não pode ser atribuída ao organismo, mas ao Espírito, que é pensante e dotado de vontade.

Emmanuel, na questão 184 de O Consolador, recomenda que, em vez da educação sexual fundamentada exclusivamente na satisfação dos instintos, eduquemos a alma para uma compreensão elevada do sexo. Em Vida e Sexo, sintetiza essa orientação em princípios oportunos: não proibição, mas educação; não abstinência imposta, mas emprego digno; não indisciplina, mas controle; não impulso livre, mas responsabilidade.

Essa orientação não autoriza transformar a masturbação em "desvio" doutrinário, tampouco permite ignorar os excessos e suas consequências. A disciplina sexual deve nascer da consciência esclarecida, e não do medo, da repressão ou da culpa patológica.

Também precisamos evitar explicações simplistas que atribuam automaticamente a prática à influência de Espíritos obsessores. A influência espiritual é tema da literatura espírita, mas não deve ser utilizada como diagnóstico universal nem substituir a compreensão psicológica, médica e comportamental de cada indivíduo.

O caminho educativo envolve autoconhecimento, administração dos impulsos, ocupação construtiva, relações afetivas respeitosas e desenvolvimento de sentimentos mais elevados. Quando houver compulsão, sofrimento persistente ou prejuízo funcional, a orientação de profissionais qualificados será apropriada, sem constrangimento ou julgamento.

A Doutrina Espírita não estabelece proibições sexuais arbitrárias. Propõe educação, responsabilidade e aperfeiçoamento moral. Afinal, não se trata de demonizar o prazer, mas de aprender a integrá-lo harmoniosamente à existência.

O desafio não é negar a sexualidade, mas educar a consciência para que o impulso não se sobreponha à razão, ao respeito e ao amor.

 

Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB. Questão 843.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Brasília: FEB. Segunda parte, cap. VII.

KRAUS, Shane W. et al. Compulsive sexual behaviour disorder in the ICD-11. World Psychiatry, v. 17, n. 1, p. 109-110, 2018.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). International classification of diseases 11th revision (ICD-11). Geneva: WHO, 2022.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB. Questão 184.

XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2003.

 

05 novembro 2026

Os bandeirantes do Espiritismo: A ideia que antecedeu a codificação




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Antecedentes filosóficos, científicos e fenomênicos da Doutrina Espírita

As grandes ideias não surgem repentinamente. Antes de sua sistematização por Allan Kardec, em 1857, o pensamento espiritualista percorreu séculos de reflexões filosóficas, experiências mediúnicas e investigações sobre a natureza da alma. O Espiritismo, portanto, não nasceu de um acontecimento isolado, mas de um processo histórico que preparou a humanidade para uma compreensão mais ampla da existência.

Na Antiguidade, Sócrates (469–399 a.C.) e Platão (427–347 a.C.) anteciparam princípios fundamentais posteriormente examinados pela Doutrina Espírita. Sócrates defendia a imortalidade da alma e a primazia da virtude; Platão abordava a pré-existência, a sobrevivência e a reencarnação. Allan Kardec reconheceu expressamente ambos como precursores da ideia cristã e do Espiritismo, dedicando-lhes uma seção da introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo (KARDEC, 2013).

Na Idade Moderna, Emanuel Swedenborg (1688–1772), cientista e pensador sueco, relatou experiências visionárias e descrições do mundo espiritual. Embora suas concepções não coincidissem com a futura Codificação, suas narrativas contribuíram para o debate sobre a sobrevivência da consciência após a morte.

Outro antecedente relevante foi Franz Anton Mesmer (1734–1815), que desenvolveu a teoria do magnetismo animal. Embora suas hipóteses sobre o fluido magnético a ciência ocidental contemporânea rejeite, suas experiências abriram espaço para investigações sobre estados alterados de consciência. O marquês de Puységur, seu discípulo, estudou o sonambulismo magnético, fenômeno que posteriormente despertaria interesse nas pesquisas sobre emancipação da alma (CRABTREE, 2019).

No século XIX, Andrew Jackson Davis (1826–1910), nos Estados Unidos, difundiu ideias espiritualistas e relatos de experiências clarividentes. Na França, Jean Reynaud refletiu sobre a pluralidade das existências. Esses pensadores, embora distintos em suas abordagens, integraram o ambiente intelectual que antecedeu o Espiritismo.

Merece destaque Victor Hugo (1802–1885). Durante seu exílio na ilha de Jersey, entre 1853 e 1855, participou de numerosas sessões de mesas girantes, cujos registros foram reunidos sob a denominação O Livro das Mesas. As experiências, documentadas em manuscritos e atas, revelam o interesse do escritor pelos fenômenos de comunicação com entidades invisíveis. Não constituíram uma codificação doutrinária, mas representam importante episódio da história pré-espírita (BOIVIN, s.d.).

Também os acontecimentos de Hydesville, em 1848, associados às irmãs Fox, nos Estados Unidos, e a posterior popularização das mesas girantes na Europa despertaram grande curiosidade pública. Foi nesse contexto que Allan Kardec empreendeu uma investigação metódica dos fenômenos.

A diferença essencial está na contribuição do Codificador: em vez de simplesmente aceitar manifestações extraordinárias, submeteu os ensinamentos atribuídos aos Espíritos à análise racional, à comparação e ao critério da concordância universal, estabelecendo os fundamentos de uma doutrina filosófica, científica e moral.

Assim, reconhecer os precursores não significa confundir suas concepções com o Espiritismo. Significa compreender que a Codificação representou um marco de sistematização de ideias e fenômenos anteriormente dispersos. Como o próprio Kardec assinalou, as grandes verdades encontram precursores que lhes preparam o caminho. A Terceira Revelação não surgiu no vazio: encontrou uma humanidade intelectualmente preparada para ampliar sua compreensão da vida, da morte e da destinação espiritual do ser.

 

Referências bibliográficas

BOIVIN, Patrice. L’écriture des tables: le Livre des Tables. Groupe Hugo, s.d.

CRABTREE, Adam. 1784: The Marquis de Puységur and the psychological turn in the West. Journal of the History of the Behavioral Sciences, v. 55, n. 3, p. 199-215, 2019.

DAVIS, Andrew Jackson. The principles of nature, her divine revelations. New York: S. S. Lyon & W. Fishbough, 1847.

HUGO, Victor. O livro das mesas: as sessões espíritas de Jersey. Tradução de Sandra M. Stroparo. Curitiba: Editora UFPR, 2014.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.

MESMER, Franz Anton. Mémoire sur la découverte du magnétisme animal. Genève; Paris, 1779.

 

De “doutores”, o “céu” está vazio: a verdadeira autoridade mora na desafetação


Jorge Hessen

Brasília-DF

 

O respeito não se conquista por títulos honoríficos, mas pela dignidade moral, pelo conhecimento e pela maneira como tratamos o próximo.

Em 2012, publicamos um artigo sobre o uso indiscriminado do tratamento “doutor” no Brasil, particularmente entre médicos, advogados e algumas lideranças espíritas. Mais de uma década depois, uma reportagem recente da Globo, reproduzindo informações da BBC News Brasil, reacende oportunamente essa discussão. O que antes parecia uma provocação continua sendo uma questão cultural, social e, sobretudo, moral.

A reportagem apresenta profissionais que recusam o tratamento de doutor por entenderem que a palavra, quando utilizada para estabelecer superioridade, reproduz uma hierarquia incompatível com relações humanas verdadeiramente respeitosas. A médica Melania Amorim, que possui doutorado, afirma que o título deve permanecer circunscrito ao ambiente acadêmico. A promotora Maísa Oliveira e o defensor público Renan Reis também defendem relações profissionais sem reverências artificiais. São posicionamentos que merecem reflexão.

Historicamente, a palavra doutor procede do latim doctor, derivado de docere, ensinar. Designava aquele que possuía conhecimentos reconhecidos e estava habilitado a ensinar. Na contemporaneidade, entretanto, seu significado acadêmico passou a conviver com uma tradição brasileira que estendeu o tratamento a profissionais sem doutorado.

A reportagem esclarece um aspecto jurídico relevante: o conhecido decreto de Dom Pedro I, de 1827, frequentemente invocado por advogados para justificar o tratamento, não constitui prerrogativa atualmente exigível. Segundo o professor de Direito Otávio Luiz Rodrigues, da USP, embora não tenha ocorrido revogação expressa, legislações posteriores modificaram o reconhecimento dos títulos acadêmicos. Portanto, não existe obrigação legal de chamar médicos ou advogados de doutores. Trata-se, essencialmente, de uma tradição cultural.

Não pretendemos desrespeitar profissionais nem desconhecer a importância de suas formações acadêmicas. O problema está na transformação de um tratamento convencional em instrumento de distinção social. Quando alguém exige ser chamado de doutor para afirmar superioridade, o título deixa de representar conhecimento e passa a alimentar a vaidade.

Essa questão ganha contornos ainda mais delicados no movimento espírita. Causa-nos estranheza observar dirigentes, expositores e representantes institucionais que fazem questão de ostentar o prefixo “Dr.” em apresentações públicas, congressos e eventos doutrinários, como se a titulação acadêmica acrescentasse autoridade moral às suas palavras.

A Doutrina Espírita não reconhece privilégios espirituais decorrentes de diplomas, patrimônio, posição social ou prestígio institucional. Em O Livro dos Espíritos, questão 817 e seguintes, Kardec examina a igualdade natural entre os seres humanos. Na questão 886, Jesus é apresentado como referência da caridade, entendida como benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias e perdão das ofensas.

Que sentido tem, portanto, invocar o Evangelho enquanto cultivamos formalidades que alimentam distâncias entre criaturas humanas?

Recordemos que Chico Xavier, Yvonne Pereira, Léon Denis e tantos trabalhadores respeitáveis da divulgação espírita conquistaram reconhecimento pela dedicação, humildade e fidelidade aos princípios cristãos, não pela ostentação de títulos universitários. O próprio Jesus, sem credenciais acadêmicas ou honrarias terrenas, permanece como o maior referencial moral da humanidade.

Não se trata de combater a instrução, muito menos de desvalorizar o conhecimento científico. Ao contrário, devemos prestigiar os estudos e a qualificação intelectual. O que precisamos combater é a presunção de que o saber acadêmico confere superioridade humana.

A reportagem da Globo confirma que essa discussão ultrapassa o ambiente espírita e alcança instituições fundamentais da sociedade. Profissionais que preferem ser chamados pelo próprio nome demonstram que a autoridade pode conviver perfeitamente com a simplicidade e a cordialidade.

No Espiritismo, essa compreensão deveria ser ainda mais evidente. O verdadeiro trabalhador cristão não necessita de reverências, salamaleques ou distinções protocolares para demonstrar sua importância. Seu testemunho está na capacidade de servir, acolher e aprender, sem transformar a tarefa doutrinária em palco para vaidades pessoais.

Afinal, diante da imortalidade da alma e da grandeza da vida espiritual, que importância terão os títulos terrenos? O que verdadeiramente distinguirá cada criatura será o patrimônio moral conquistado ao longo da caminhada evolutiva.

Doutorado é titulação acadêmica; dignidade é conquista moral. E, no Evangelho, ninguém é maior porque exige ser chamado de doutor, mas porque aprende a servir sem precisar ser reverenciado.

 



 

04 novembro 2026

Espiritismo sem castas: a doutrina não pode ser privilégio de elites




 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O elitismo intelectual, o corporativismo e a ostentação acadêmica ameaçam a simplicidade e a universalidade da Terceira Revelação.

Quando contemplamos milhares de espíritas humildes, muitos deles desprovidos de formação acadêmica e recursos materiais, mas dotados de extraordinária dedicação ao Evangelho, reconhecemos os verdadeiros sustentáculos do Movimento Espírita. São trabalhadores anônimos que, longe dos holofotes, mantêm vivas as atividades de assistência, acolhimento, estudo e divulgação doutrinária. Por isso, causa-nos preocupação a crescente valorização de determinadas elites intelectuais em nossas instituições.

Chico Xavier já advertia, em 1977, sobre os riscos da elitização do Espiritismo. Defendia que a Doutrina deveria permanecer próxima do povo, especialmente dos companheiros social e intelectualmente mais humildes, evitando a formação de ambientes restritos a pessoas laureadas por títulos acadêmicos (ARANTES, 1979).

Passadas quase cinco décadas, sua advertência permanece atual. Não somos contrários à ciência, à pesquisa, à formação universitária ou à contribuição de profissionais qualificados. Pelo contrário, o conhecimento científico, quando exercido com humildade e compromisso ético, pode enriquecer significativamente a compreensão dos postulados espíritas. O problema começa quando a titulação se transforma em instrumento de distinção, autoridade ou superioridade dentro do movimento.

Preocupa-nos, nesse contexto, a multiplicação de associações espíritas organizadas por categorias profissionais — jornalistas, médicos, psicólogos, pedagogos, magistrados, escritores e outras. Embora a cooperação profissional possa produzir contribuições legítimas, não podemos ignorar o risco de corporativismo, fragmentação e formação de círculos de prestígio. Afinal, onde estão as associações espíritas de pedreiros, carpinteiros, lavadeiras, garis, serventes e trabalhadores anônimos que também sustentam nossas instituições?

Outro aspecto inquietante é a realização de congressos, seminários e simpósios que, não raro, apresentam custos elevados de inscrição, hospedagem e deslocamento. A programação doutrinária acaba, por vezes, subordinada à grandiosidade dos eventos, à notoriedade dos convidados e à exposição de seus currículos. Em tempos de redes sociais, essa tendência pode adquirir outra dimensão: a transformação do divulgador em personalidade pública, com a doutrina servindo de plataforma para a autopromoção.

Não se trata de condenar eventos especializados ou a participação de intelectuais, mas de questionar a exclusão indireta daqueles que não dispõem de recursos financeiros ou credenciais acadêmicas. O Espiritismo não pode se tornar um produto cultural destinado a consumidores privilegiados.

Kardec estabeleceu, em O Livro dos Espíritos, que a verdadeira superioridade moral não se confunde com a posição social ou a condição intelectual (KARDEC, 2013). A Doutrina propõe a transformação do ser humano, não a constituição de castas de intérpretes autorizados. O conhecimento, sem humildade e vivência moral, pode alimentar o orgulho em vez de promover o progresso espiritual.

Jesus, aliás, não escolheu seus discípulos entre as elites acadêmicas de sua época. Aproximou-se de pescadores, trabalhadores e pessoas socialmente marginalizadas, demonstrando que a grandeza espiritual não depende de títulos, fortuna ou prestígio.

Precisamos, portanto, recuperar a simplicidade doutrinária, sem confundi-la com superficialidade intelectual. Estudar profundamente é indispensável; transformar o conhecimento em instrumento de vaidade é lamentável. A autoridade moral não nasce de diplomas, cargos ou aplausos, mas da coerência entre o que ensinamos e o que vivenciamos.

A unificação espírita também exige vigilância contra o espírito de cúpula, os privilégios institucionais e a concentração de influência. Nenhuma organização deve se considerar proprietária da Doutrina ou detentora exclusiva de sua interpretação. A liberdade de consciência, o livre exame e a fraternidade precisam prevalecer sobre personalismos e disputas por protagonismo.

O Espiritismo é para todos: com os intelectuais, mas não exclusivamente para eles; com os humildes, mas sem confiná-los à condição de assistidos. É uma doutrina universal, destinada a promover a emancipação moral da humanidade.

Não podemos admitir um Espiritismo de primeira classe para os doutores e outro de segunda classe para os trabalhadores humildes. Jesus e Kardec não instituíram castas. A Terceira Revelação não necessita de celebridades, passarelas acadêmicas ou privilégios corporativos. Necessita de servidores comprometidos com a verdade, a humildade e o amor ao próximo.

 

Referências Bibliográficas:

ARANTES, Hércio Marcos Cintra (org.). Encontro no tempo: entrevistas com Chico Xavier. São Paulo: IDE, 1979. Entrevista concedida a Jarbas Leone Varanda, publicada originalmente em O Triângulo Espírita, em 20 mar. 1977.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

REVISTA O ESPÍRITA. Editorial. Ano 11, n. 57, jan./mar. 1990.

 

 

03 novembro 2026

O sentido da existência, entre a dor, o amor e a evolução




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Não estamos na Terra por mero acaso, tampouco submetidos a acontecimentos destituídos de significado espiritual. A vida representa uma grandiosa escola de aperfeiçoamento, na qual cada experiência, cada relacionamento e cada desafio oferecem oportunidades de aprendizado e crescimento da consciência.

A evolução é uma lei universal e inexorável. Todos os Espíritos, sem exceção, foram criados simples e ignorantes, destinados à perfeição relativa, mediante o desenvolvimento progressivo de suas potencialidades intelectuais e morais. Ninguém permanece eternamente aprisionado à ignorância, ao egoísmo ou à imperfeição.

Essa compreensão modifica profundamente nossa maneira de interpretar a existência. A vida não é um castigo divino, nem o sofrimento representa uma condenação imposta por um Deus vingativo.

A dor, nesse contexto, assume uma função educativa e corretiva. Quando o orgulho nos impede de reconhecer nossos equívocos, quando o egoísmo nos torna insensíveis às necessidades alheias e quando a vaidade nos faz acreditar que somos superiores aos demais, frequentemente precisamos enfrentar experiências capazes de abalar nossas ilusões.

Isso não significa glorificar o sofrimento, tampouco considerar que toda dor seja necessariamente uma expiação ou consequência de faltas anteriores. Existem sofrimentos relacionados às próprias condições biológicas, sociais e naturais da existência.

Todavia, existe uma diferença fundamental entre conhecer as verdades espirituais e incorporá-las à própria existência. Podemos estudar durante décadas os ensinamentos de Jesus, conhecer profundamente as obras de Allan Kardec, citar princípios elevados e discorrer com desenvoltura sobre a imortalidade da alma.

O conhecimento ilumina o entendimento, mas é o amor vivenciado que transforma a consciência.

Jesus não nos convidou simplesmente a conhecer o amor, mas a praticá-lo. A recomendação de amar o próximo como a nós mesmos não constitui uma abstração filosófica, mas uma diretriz de transformação moral.

O amor verdadeiro não é sentimentalismo, dependência afetiva ou submissão. É uma conquista da consciência que nos permite superar o egoísmo e reconhecer a dignidade espiritual do outro.

O perdão, nesse processo, representa uma das mais importantes expressões do amor. Perdoar não significa apagar a memória, justificar injustiças ou renunciar à responsabilidade. Significa retirar do ressentimento o poder de controlar nossa vida.

É nesse movimento de autoconhecimento, reforma íntima e vivência do amor que nos aproximamos do autoencontro. Descobrimos que a verdadeira plenitude não está na acumulação de bens, no reconhecimento público, na superioridade intelectual ou na satisfação irrestrita dos desejos pessoais. Está na harmonização progressiva entre aquilo que pensamos, sentimos e fazemos.

O autoencontro acontece quando deixamos de fugir de nós mesmos, reconhecemos nossas sombras sem desespero e assumimos a responsabilidade pela construção de nossa realidade interior. É quando a consciência deixa de procurar culpados para suas dificuldades e começa a identificar, em cada experiência, uma oportunidade de transformação.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões 115 e 132, apresenta fundamentos importantes para compreendermos a destinação evolutiva dos Espíritos e o sentido da existência corporal.

Portanto, a pedagogia divina nos ensina que ninguém está condenado à estagnação, que nenhuma imperfeição é definitiva e que nenhuma experiência precisa ser desperdiçada. A evolução é inevitável, mas a velocidade e a qualidade da nossa caminhada dependem do esforço consciente que fazemos.

A dor pode despertar-nos, o conhecimento pode orientar-nos, mas somente o amor efetivamente praticado é capaz de promover a libertação profunda da alma.

A grande finalidade da existência não é simplesmente acumular conhecimentos sobre a vida espiritual, mas transformar o conhecimento em sabedoria, a dor em aprendizado, o perdão em libertação e o amor em nossa maneira permanente de existir.

É assim que, gradualmente, rompemos os grilhões do passado, reencontramos nossa essência espiritual e caminhamos, sob a orientação das leis divinas, rumo à plenitude do ser.

 

Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira. Especialmente questões 115, 132, 621, 919 e 922.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira. Especialmente os capítulos V, XI e XII.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

EMMANUEL (Espírito). Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Pensamento e vida. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

 

Mediunidade, estudo e reforma moral: A visão Espírita do intercâmbio espiritual




Jorge Hessen

Brasília -DF


A mediunidade, à luz da Doutrina Espírita e, particularmente, dos ensinamentos de André Luiz, constitui uma sublime oportunidade educativa concedida ao Espírito em sua trajetória evolutiva.

Nas obras de André Luiz, especialmente Nos Domínios da Mediunidade, Missionários da Luz e Mecanismos da Mediunidade, encontramos importantes esclarecimentos sobre a complexidade dos fenômenos mediúnicos. O autor espiritual apresenta a mediunidade como uma atividade que envolve estruturas do organismo espiritual, recursos energéticos, mecanismos mentais e processos de sintonia entre encarnados e desencarnados.

O perispírito desempenha função essencial nessa dinâmica, atuando como elemento de ligação entre o Espírito e o corpo físico. A mente, por sua vez, exerce papel decisivo na qualidade do intercâmbio, uma vez que pensamentos, emoções e intenções estabelecem padrões de afinidade vibratória.

Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, especialmente ao abordar a influência moral do médium, demonstra que as disposições íntimas e as qualidades morais exercem influência relevante sobre a natureza das comunicações. Por isso, o desenvolvimento mediúnico deve caminhar paralelamente ao aperfeiçoamento moral.

A educação da mediunidade não se resume ao treinamento de faculdades psíquicas. Exige disciplina, estudo doutrinário, humildade e reforma moral. Sem esses recursos, o exercício mediúnico poderá favorecer a vaidade, o personalismo, a fascinação e a credulidade.

Outro aspecto fundamental é o conhecimento doutrinário. A boa vontade não substitui o estudo, assim como a fé não dispensa o discernimento. Kardec recomenda o exame criterioso das comunicações, considerando seu conteúdo moral, sua coerência e sua submissão ao crivo da razão.

A mediunidade responsável deve estar a serviço da caridade, jamais da exploração da vulnerabilidade humana. Não pode ser utilizada para estabelecer dependências psicológicas, impor orientações pessoais ou conferir autoridade incontestável a quem se apresenta como intermediário da espiritualidade.

Nas experiências relatadas por André Luiz, percebemos que o intercâmbio mediúnico envolve responsabilidades que ultrapassam o momento da reunião. O verdadeiro resultado da tarefa deve manifestar-se na existência cotidiana, na maneira de tratar as pessoas, na disposição para perdoar e na capacidade de enfrentar as próprias imperfeições.

Quando orientada pelo Evangelho, a mediunidade converte-se em instrumento de fraternidade, favorecendo a consolação dos aflitos, o esclarecimento dos desencarnados e a compreensão da imortalidade da alma.

Em última análise, a mediunidade constitui um valioso campo de autoconhecimento. Ao lidar com as influências espirituais, o médium é igualmente convidado a reconhecer suas fragilidades, identificar tendências inferiores e desenvolver virtudes ainda não consolidadas.

A maior realização de um médium não é demonstrar que consegue falar com os Espíritos, mas demonstrar, por sua conduta, que compreendeu a responsabilidade de viver os ensinamentos do Cristo.


Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Mecanismos da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB.

 

 

31 outubro 2026

Brasil: precisamos de líderes que unam, não de personalidades que dividam!




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz do Espiritismo, a proteção espiritual de uma nação deve inspirar o progresso coletivo, mas a construção da unidade nacional depende também da maturidade moral dos cidadãos e de lideranças comprometidas com o bem comum.

Nas últimas três décadas, o Brasil conheceu diferentes lideranças políticas, algumas carismáticas, outras controversas, mas frequentemente marcadas por uma característica preocupante: a incapacidade de unir os brasileiros em torno de um projeto nacional. Direita ou esquerda, os extremos têm alimentado antagonismos, ressentimentos e disputas que ultrapassam os espaços políticos e invadem famílias, instituições religiosas e antigas amizades.

É inquietante observar compatriotas que, embora compartilhem a mesma história, cultura e território, passaram a enxergar uns aos outros como adversários irreconciliáveis. A divergência democrática é legítima; a transformação do contraditório em hostilidade permanente, entretanto, representa um preocupante retrocesso civilizatório.

À luz do Espiritismo, essa realidade merece uma reflexão mais profunda. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, aborda expressamente a assistência espiritual às coletividades. Na questão 518, os Espíritos explicam que sociedades, cidades e povos recebem influências espirituais conforme as paixões e o caráter predominantes entre seus integrantes. Na questão 519, esclarecem que as nações possuem Espíritos protetores especiais, por constituírem individualidades coletivas que necessitam de direção superior.

Essa abordagem oferece uma perspectiva instigante: a trajetória espiritual de um povo não está dissociada de sua conduta moral. A questão 518 é particularmente elucidativa ao relacionar o aperfeiçoamento moral das coletividades à atração de influências espirituais mais elevadas.

Seria razoável, portanto, imaginar que a espiritualidade superior permaneça indiferente às dificuldades de uma nação com tantas possibilidades como o Brasil? Não temos como conhecer seus planejamentos, tampouco afirmar que determinado governante esteja sendo preparado no mundo espiritual. Entretanto, podemos admitir, dentro dos princípios doutrinários, que Espíritos comprometidos com o progresso das coletividades trabalhem pela inspiração de consciências e pelo amadurecimento dos povos.

Talvez estejamos precisando, mais do que nunca, de lideranças com outra estatura moral. Homens e mulheres capazes de compreender que governar não significa conquistar seguidores incondicionais, insuflar ressentimentos ou alimentar a idolatria da própria personalidade. Governar significa servir à sociedade, respeitar as instituições democráticas e trabalhar por todos, independentemente de classe social, origem, cor ou convicção ideológica.

Precisamos de estadistas, não de supostos salvadores da pátria; de conciliadores, não de incendiários políticos; de projetos nacionais, não de projetos pessoais ou de grupos. O verdadeiro patriotismo não consiste em hostilizar quem pensa diferente, mas em reconhecer que a diversidade de opiniões pode coexistir com o compromisso de construir uma nação melhor.

Não se trata de defender uma terceira via partidária, tampouco de alimentar expectativas messiânicas em torno de algum nome. Trata-se de aspirar a lideranças genuinamente democráticas, solidárias, equilibradas e comprometidas com a dignidade humana.

O Brasil, frequentemente associado à expressão Pátria do Evangelho, precisa demonstrar essa vocação também nas relações entre seus cidadãos. Não basta ostentar uma referência espiritual; é indispensável vivenciá-la na fraternidade, na justiça e no respeito recíproco.

Até quando permaneceremos reféns de uma polarização que enfraquece a convivência nacional? A mudança, certamente, não virá exclusivamente de um governante nem poderá ser transferida à espiritualidade como se os Espíritos superiores devessem resolver aquilo que compete aos encarnados.

A espiritualidade pode inspirar, mas cabe aos homens escolher. A transformação nacional começa pela transformação das consciências.

Tenho esperança de que surjam lideranças capazes de reunir os brasileiros em torno de objetivos superiores, sem radicalismos, sem personalismos e sem submissão ideológica. Que o futuro nos apresente homens e mulheres que compreendam a grandeza de servir ao Brasil.

Precisamos de uma liderança que desperte o sentimento de pertencimento nacional, e não de personalidades que transformem irmãos em inimigos. A união é possível. E o Brasil merece conquistá-la!

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013. Parte segunda, cap. IX, questões 518 a 520.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.