30 setembro 2026

Epilepsia: entre o cérebro, a consciência e o cuidado espiritual


 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A doutrina espírita não autoriza substituir a medicina pela crença — nem transformar toda crise convulsiva em obsessão ou mediunidade.

A epilepsia acompanha a história da humanidade. Na Antiguidade, convulsões eram frequentemente atribuídas à ação de deuses, demônios ou forças sobrenaturais. Hipócrates representou uma ruptura importante ao sustentar que a chamada “doença sagrada” tinha relação com o cérebro e não com uma intervenção divina. Séculos depois, a medicina avançaria progressivamente na compreensão de suas múltiplas causas.

Hoje sabemos que a epilepsia é uma doença cerebral crônica, caracterizada por predisposição persistente à ocorrência de crises epilépticas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 50 milhões de pessoas convivam com a enfermidade no mundo e calcula que aproximadamente 70% poderiam viver sem crises mediante diagnóstico e tratamento adequados.

A medicina contemporânea dispõe de medicamentos antiepilépticos, procedimentos cirúrgicos, neuroestimulação e outras estratégias terapêuticas. A própria International League Against Epilepsy atualizou, em 2025, a classificação das crises, incorporando avanços no conhecimento neurológico e na prática clínica.

Diante disso, uma advertência espírita se torna indispensável: crise epiléptica não deve ser automaticamente confundida com obsessão, possessão ou mediunidade ostensiva. Tampouco uma pessoa com epilepsia deve ser encaminhada a desenvolvimento mediúnico como se sua enfermidade fosse, por si mesma, manifestação mediúnica.

Esse cuidado não diminui a contribuição do Espiritismo. Ao contrário. A Doutrina nos ensina a considerar o ser humano em sua integralidade, sem desprezar nenhuma dimensão da existência. Podemos compreender o homem como Espírito reencarnado, portador de um organismo submetido às leis biológicas, psicológicas e espirituais. Entretanto, uma interpretação espiritual não deve ser apresentada como diagnóstico médico.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ao tratar dos chamados “convulsionários”, aborda fenômenos específicos de seu tempo e menciona a influência do magnetismo e dos Espíritos. Isso não equivale a afirmar que toda convulsão neurológica seja causada por entidades desencarnadas.

Há, ainda, importante material na literatura espírita posterior. Em Nos Domínios da Mediunidade, André Luiz descreve o caso de Pedro, apresentado no contexto de possessão e epilepsia essencial, associando a crise à atuação de um desencarnado. Esse relato pertence ao campo da literatura espiritualista e deve ser compreendido dentro de seu respectivo referencial doutrinário, não utilizado como substituto da investigação neurológica.

Podemos, portanto, admitir como possibilidade doutrinária que existam situações em que processos obsessivos interfiram no equilíbrio psíquico e, segundo determinadas interpretações espíritas, repercutam sobre o organismo. Mas isso é diferente de afirmar que a ciência médica tenha demonstrado que a epilepsia seja causada por obsessão espiritual.  Essa distinção é fundamental.

O passe, a prece, o acolhimento fraterno e a assistência espiritual podem constituir recursos de amparo moral e emocional. Jamais, porém, devem servir de pretexto para abandonar medicamentos, consultas, exames ou tratamentos prescritos por profissionais habilitados. A própria terapêutica espírita perde sua legitimidade quando se converte em concorrente da medicina (inobstante esta ainda seja muito materialista).

Também precisamos combater outro equívoco: atribuir ao doente culpa moral por sua enfermidade. A existência de causas espirituais, quando admitida dentro da concepção reencarnacionista, não significa que devamos acusar o enfermo de estar exclusivamente “pagando” determinada falta. Tal interpretação pode acrescentar sofrimento, culpa e estigma a quem já enfrenta uma condição neurológica.

A postura espírita responsável deve ser outra: acolher sem rotular, orar sem substituir o tratamento, estudar sem dogmatizar e respeitar a ciência sem abdicar da dimensão espiritual da existência.

A epilepsia não é prova de inferioridade moral, não é certificado de mediunidade e não deve ser transformada em espetáculo religioso. O enfermo precisa, antes de tudo, de respeito, diagnóstico adequado, tratamento competente e solidariedade.

Se a espiritualidade puder contribuir, que o faça pela via do amor, da prece, do equilíbrio e da renovação íntima — nunca pela negação da realidade orgânica.

O verdadeiro compromisso espírita não é escolher entre ciência e espiritualidade. É aprender a colocá-las em seus devidos lugares, sem fanatismo, sem credulidade e sem abandono da razão.

 

Referências Bibliográficas:

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Epilepsy. Geneva: WHO, 2024. Organização Mundial da Saúde
  • INTERNATIONAL LEAGUE AGAINST EPILEPSY. Updated classification of epileptic seizures: Position paper of the International League Against Epilepsy. Epilepsia, 2025. Liga Internacional Contra a Epilepsia
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte segunda, cap. IX, questões 481–483. Nepe Brasil
  • XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Cap. 9 — “Possessão”

29 setembro 2026

A "neurotech" será o novo desafio à ciência e ao Espiritismo?



 





Jorge Hessen

Brasília -DF



 

A revolução tecnológica poderá não estar apenas na inteligência artificial, mas na crescente convergência entre cérebro, matéria viva e máquinas — um território que desafia a ciência e convida o Espiritismo a uma reflexão ainda mais profunda.

Durante décadas, a humanidade imaginou que o futuro dos computadores dependeria exclusivamente de máquinas cada vez mais velozes. Agora surge uma fronteira surpreendente: utilizar células nervosas vivas como parte de sistemas computacionais e estabelecer comunicação direta entre cérebro e dispositivos eletrônicos.

A Cortical Labs, por exemplo, desenvolve sistemas de computação biológica nos quais neurônios cultivados em laboratório interagem com circuitos eletrônicos. Paralelamente, as interfaces cérebro-computador avançam rapidamente. Em 2026, a China autorizou para uso comercial um dispositivo invasivo destinado a auxiliar pessoas com tetraplegia a recuperar movimentos de preensão mediante uma luva robótica controlada por sinais cerebrais.

Não estamos, portanto, diante de mera ficção científica. Estamos ingressando numa época em que a fronteira entre organismo e máquina se torna progressivamente mais permeável.

Mas justamente aqui começa a pergunta que interessa ao Espiritismo: o cérebro é a consciência ou é o instrumento através do qual a consciência se manifesta?

A Doutrina Espírita não precisa temer essa investigação. Ao contrário. Allan Kardec sustentou que a ciência deve descobrir as leis da Natureza e advertiu que o Espiritismo não poderia permanecer estacionário diante do progresso. Em A Gênese, afirmou que, se uma nova verdade fosse demonstrada, a Doutrina deveria aceitá-la e modificar-se nesse ponto.

Essa postura continua extraordinariamente atual.

A neurotecnologia poderá ampliar capacidades motoras, tratar enfermidades, restaurar comunicação e produzir formas inéditas de interação homem-máquina. Poderá também criar dilemas éticos gigantescos: privacidade mental, autonomia, manipulação neural, propriedade dos dados cerebrais e limites da intervenção sobre a intimidade psíquica.

Para nós, espíritas, existe ainda uma questão mais profunda. Um cérebro artificialmente estimulado, um conjunto de neurônios cultivados ou uma máquina capaz de reproduzir determinados padrões neurais constitui, por si só, uma consciência?

A ciência pode investigar neurônios, sinapses, impulsos elétricos e circuitos cerebrais. Isso não significa que já tenha solucionado o problema filosófico da consciência, muito menos demonstrado que o Espírito seja simplesmente um produto da matéria.

Kardec distinguia o princípio espiritual da organização corporal e reconhecia que a ciência material possui um campo próprio de investigação. A Gênese observa que o conhecimento completo do ser humano exige considerar tanto a dimensão material quanto a espiritual.

Por isso, não devemos combater a neurociência em nome da fé, nem transformar qualquer avanço tecnológico em suposta confirmação do Espiritismo. O verdadeiro espírito científico exige prudência diante daquilo que ainda não sabemos.

A grande revolução talvez não seja descobrir máquinas que imitem o cérebro, mas compreender finalmente aquilo que faz do ser humano muito mais do que uma máquina biológica.

Se a inteligência artificial pretende reproduzir capacidades cognitivas, a neurotecnologia poderá tentar conectar diretamente cérebro e máquina. O Espiritismo acrescenta uma pergunta que permanece aberta: quem é o ser que pensa, escolhe, ama, sofre e utiliza o cérebro como instrumento de manifestação?

Talvez seja justamente nessa fronteira — entre cérebro, consciência e Espírito — que ciência e filosofia serão convocadas a conversar com maior seriedade.

O progresso tecnológico será extraordinário. Mas seu verdadeiro valor dependerá de uma conquista ainda maior: usar o poder adquirido sobre a matéria sem perder o domínio moral sobre nós mesmos.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013.

FIELDHOUSE, Rachel; YOU, Xiaoying. China approves brain chip to treat paralysis — a world first. Nature, 16 de março de 2026.

NATURE BIOTECHNOLOGY. China approves brain chip to overcome paralysis. Nature Biotechnology, v. 44, p. 497, 2026.

TERINI, Ricardo Andrade. Allan Kardec e o progresso da ciência. Horizonte, Belo Horizonte, v. 22, n. 67, 2024.

 


O “Apocalipse” não é destino: é responsabilidade




Jorge Hessen
Brasília -DF

Entre o negacionismo e o catastrofismo, resta-nos a razão: a Terra não precisa de profetas do fim, mas de consciências capazes de reconstruí-la.

A velha metáfora da borboleta que bate as asas em Tóquio e pode, por uma complexa cadeia de acontecimentos, contribuir para uma chuva em Nova York tornou-se célebre graças a Stephen Hawking. A imagem não autoriza fantasias místicas: evidencia apenas a extraordinária interdependência dos sistemas naturais.

É justamente aí que o debate contemporâneo deveria começar. Não precisamos de profetas para anunciar o fim do mundo. Temos conhecimento suficiente para compreender que a ação humana interfere profundamente no ambiente. Mudanças climáticas, desmatamento, ocupação irregular do solo, impermeabilização das cidades, poluição e a ausência de planejamento ampliam as vulnerabilidades e podem transformar fenômenos naturais em tragédias humanas.

O erro está em atribuir tudo à natureza — ou, no extremo oposto, tudo a uma suposta punição divina.

O Espiritismo não recomenda nenhum desses atalhos. Allan Kardec, ao examinar os fenômenos naturais, pergunta se as perturbações dos elementos são sempre independentes da vontade dos Espíritos. A resposta é cautelosa: há fenômenos que têm relação com a existência humana, mas muitos visam simplesmente ao restabelecimento do equilíbrio das forças naturais. (O Livro dos Espíritos, questão 536).

Isso deveria bastar para desautorizar a indústria espiritual do medo.

Terremotos, furacões, enchentes, secas e erupções vulcânicas não podem ser convertidos em instrumentos de terror religioso. Tampouco devemos utilizar cada calamidade para fabricar calendários do “fim dos tempos”, para selecionar culpados ou para anunciar castigos coletivos. A tragédia já é suficientemente dolorosa sem que sobre ela acrescentemos superstição.

O mundo contemporâneo, entretanto, oferece razões concretas para preocupação. O IPCC demonstra que a influência humana sobre o clima é inequívoca e que determinados extremos climáticos sofreram alterações em frequência e intensidade. A ONU registra que 2015–2025 constituiu o período de onze anos mais quente já observado. O problema, portanto, não está em imaginar o apocalipse, mas em reconhecer responsabilidades objetivas.

Há ainda uma dimensão moral. Uma sociedade que desperdiça recursos, destrói florestas, contamina águas e transforma o consumo em finalidade existencial não pode esperar indefinidamente que a natureza suporte sua imprudência.

A resposta espírita não é o pânico. É a responsabilidade.

Também não devemos confundir esperança com acomodação. Jesus advertiu: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33). O ensinamento não promete uma existência sem dores. Ensina-nos a atravessá-las com coragem, lucidez e confiança.

A Terra não necessita de uma hecatombe para ingressar numa nova etapa. A transformação começa muito antes: quando mudamos nossos valores, nossas escolhas e nossa relação conosco e com o semelhante e com o planeta.

O verdadeiro “fim do mundo” que precisamos desejar é o fim do mundo velho em nós: o egoísmo, o orgulho, a indiferença e a irresponsabilidade.

Não esperemos que a próxima catástrofe nos ensine aquilo que a razão já deveria ter aprendido.

A natureza não precisa de profetas do apocalipse. Precisa de seres humanos responsáveis.

 

Referências Bibliográficas:

HAWKING, Stephen W. O universo numa casca de noz. São Paulo: Mandarim, 2002.

IPCC. Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: FEB, 2019. Questão 536.

NAÇÕES UNIDAS. The Sustainable Development Goals Report 2026: Goal 13 — Climate action. New York: United Nations, 2026.

BÍBLIA João, 16:33

28 setembro 2026

Deus: o grande enigma diante do universo

 




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quanto mais a ciência amplia as fronteiras do conhecimento, mais evidente se torna a nossa ignorância diante da imensidão cósmica — e mais necessário se faz distinguir fé raciocinada de crença cega.

Há perguntas que atravessam os séculos sem perder a força. Uma delas é inevitável: Deus existe?

Allan Kardec enfrentou a questão sem recorrer ao dogmatismo. No Livro dos Espíritos, perguntou: “Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?”. A resposta é de extraordinária simplicidade: “Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”[1]

É justamente aí que começa a originalidade do pensamento espírita. Kardec não propôs uma religião fundada na submissão intelectual, mas uma doutrina que convoca o indivíduo a pensar. Não perguntou “Quem é Deus?”, como se estivéssemos diante de uma personalidade humana, mas “Que é Deus?”. A resposta define uma concepção radicalmente diferente: “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”[1]

A ciência contemporânea, por sua vez, demoliu definitivamente a pretensão humana de compreender o Universo a partir de uma perspectiva limitada à Terra. Vivemos em um planeta que orbita uma estrela comum, numa galáxia que abriga centenas de bilhões de estrelas e que representa apenas uma entre uma quantidade imensa de galáxias observáveis.

O telescópio James Webb vem permitindo investigar galáxias extremamente antigas e ampliar nosso conhecimento sobre as primeiras etapas da história cósmica. A cosmologia estima em aproximadamente 13,8 bilhões de anos a idade do Universo. Ainda assim, permanecem grandes enigmas: a natureza da matéria escura, a energia escura, os primeiros instantes cósmicos e a possibilidade de uma teoria capaz de conciliar gravidade e mecânica quântica.

Mas é preciso prudência: nenhuma dessas descobertas constitui, por si mesma, uma prova científica da existência de Deus. Transformar uma hipótese cosmológica em demonstração religiosa seria substituir o dogmatismo religioso pelo dogmatismo científico.

O Espiritismo propõe outro caminho: razão sem materialismo e fé sem cegueira.

Quanto mais penetramos nos mistérios da matéria, mais percebemos que a realidade é muito maior do que nossos sentidos alcançam. E quanto mais avançamos intelectualmente, mais somos obrigados a reconhecer os limites do conhecimento humano.

Para Kardec, Deus não é uma figura antropomórfica perdida entre as estrelas, mas a Inteligência Suprema e causa primária de todas as coisas. A compreensão dessa realidade acompanha a própria evolução do Espírito.

Talvez esteja aí uma das maiores lições da astronomia moderna: o Universo não diminui porque ainda não o compreendemos; nós é que descobrimos, a cada avanço, o tamanho da nossa própria ignorância.

Diante de bilhões de galáxias, de mundos ainda desconhecidos e de leis cósmicas cuja profundidade mal começamos a compreender, a atitude mais racional não é afirmar que já sabemos tudo.

É manter a mente aberta e investigar, questionar e, sobretudo, contemplar o Universo com a humildade de quem reconhece que o Infinito jamais caberá inteiramente nos limites da inteligência humana.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte primeira, cap. I, questões 1 e 4.

KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. II — Deus, itens 8-19.

XAVIER, Francisco Cândido. Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

DAVIES, Paul. Deus e a Nova Física. Lisboa: Edições 70.

25 setembro 2026

A prece entre a ciência e a espiritualidade: o que Léon Denis já ensinava


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Durante décadas, pesquisas científicas procuraram investigar se a prece poderia produzir efeitos mensuráveis sobre a saúde. No Brasil, um estudo coordenado pelo professor Carlos Eduardo Tosta, da Universidade de Brasília, realizado entre 2000 e 2003, envolveu 52 estudantes de Medicina e examinou possíveis efeitos da oração à distância sobre parâmetros imunológicos. A divulgação do trabalho despertou grande interesse, especialmente entre os estudiosos da interface entre espiritualidade e saúde.

Entretanto, a ciência avançou — e também impôs cautela. Estudos posteriores apresentaram resultados diferentes. O ensaio STEP, publicado em 2006 no American Heart Journal, acompanhou 1.802 pacientes submetidos a cirurgia de revascularização cardíaca e não encontrou redução das complicações pós-operatórias entre aqueles que receberam oração intercessória. Portanto, seria precipitado afirmar que a ciência já comprovou a eficácia terapêutica da prece à distância. A questão permanece aberta à investigação.

Para o Espiritismo, porém, a importância da prece não depende exclusivamente de indicadores laboratoriais. Léon Denis, em Depois da Morte, capítulo 51, define-a como “expansão íntima da alma para com Deus”, relacionando-a à meditação, ao consolo e à renovação das forças interiores. Aqui está uma diferença fundamental: a prece não deve ser reduzida a uma espécie de medicamento invisível.

Denis amplia ainda mais essa concepção ao sustentar que o pensamento, impulsionado pela vontade, pode estabelecer uma corrente espiritual capaz de alcançar outras almas. Para ele, a oração dirigida aos Espíritos sofredores constitui expressão de caridade e pode contribuir para sua consolação e despertar. Essa concepção aproxima-se da questão 662 do Livro dos Espíritos, na qual Allan Kardec considera que o pensamento e a vontade possuem poder de ação para além dos limites corporais.

A prece, portanto, não é fórmula mágica, nem mecanismo destinado a revogar as leis da vida. Tampouco substitui tratamento médico, psicológico ou qualquer recurso científico necessário. Sua finalidade mais profunda é moral e espiritual: modificar aquele que ora, fortalecendo a confiança, a resignação, a esperança e a disposição para enfrentar as provas da existência.

É justamente nesse ponto que Léon Denis permanece atual. A prece pode não alterar aquilo que necessariamente precisamos viver, mas pode transformar nossa maneira de atravessar a experiência. O homem que ora sinceramente não está necessariamente pedindo que Deus retire sua prova; muitas vezes está pedindo forças para compreendê-la e vencê-la.

Por isso, a prece espírita não deveria ser transformada em ritual mecânico nem em promessa de cura. Ela exige pensamento, sentimento, vontade e sinceridade. Mais do que movimentar os lábios, significa movimentar a consciência.

A ciência pode investigar seus possíveis efeitos sobre o organismo e sobre a mente. A Doutrina Espírita, por sua vez, convida-nos a compreender sua dimensão moral e espiritual. Entre uma perspectiva e outra, não precisa existir conflito. Há, antes, uma questão que permanece aberta: até onde alcança o poder do pensamento quando impulsionado pelo amor e pela vontade sincera de fazer o bem?

Essa pergunta, mais do que uma resposta precipitada, talvez seja o verdadeiro convite ao estudo.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

KARDEC, Allan. A gênese. Rio de Janeiro: FEB, 1999.

DENIS, Léon. Depois da morte. Cap. 51: A prece.

BENSON, Herbert et al. Study of the therapeutic effects of intercessory prayer (STEP) in cardiac bypass patients. American Heart Journal, v. 151, n. 4, p. 934-942, 2006.

LEIBOVICI, Leonard. Effects of remote, retroactive intercessory prayer on outcomes in patients with bloodstream infection. BMJ, v. 323, p. 1450-1451, 2001.

 

24 setembro 2026

Liberdade sem responsabilidade - quem protege a infância do algoritmo?






Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A liberdade de expressão não pode servir de salvo-conduto para a exposição indiscriminada de crianças e adolescentes ao sensualismo digital

Há uma fronteira que a sociedade brasileira precisa discutir com urgência: até onde pode avançar a exploração do sensualismo nas plataformas digitais sem que alguém se responsabilize pelas consequências educacionais e sociais dessa exposição?

Os vídeos curtos transformaram a atenção humana em mercadoria. Quanto mais uma imagem captura olhares, provoca curiosidade, desejo ou excitação, maior tende a ser sua capacidade de circular. Nesse ambiente, a exposição ostensiva do corpo — frequentemente apresentada como entretenimento, humor, lifestyle ou estratégia de audiência — tornou-se uma presença cotidiana nas telas.

O problema não é o corpo, nem a beleza, nem a sexualidade e  tampouco se trata de censurar a liberdade individual. O problema é a exploração sistemática do estímulo sexual em um ambiente no qual também estão crianças e adolescentes, ainda em processo de formação emocional, moral e psicológica.

Uma criança não possui os mesmos recursos de compreensão que um adulto. Um adolescente atravessa justamente a fase em que identidade, afetividade, desejo, pertencimento e autoestima estão sendo construídos. Submetê-lo repetidamente a conteúdos erotizados, sem mediação familiar e sem critérios adequados de proteção, significa transferir para um algoritmo uma parcela da responsabilidade que deveria pertencer à educação.

A Doutrina Espírita oferece uma chave particularmente lúcida para essa discussão. Allan Kardec não ensinou que as paixões sejam, em sua origem, um mal. Ao contrário, O Livro dos Espíritos esclarece que elas decorrem de necessidades naturais, tornando-se perigosas quando deixam de ser governadas e passam a produzir prejuízo a si ou aos outros.

Eis a questão central: não é necessário combater o impulso; é necessário educá-lo. Emmanuel, em Vida e Sexo, apresenta a sexualidade como realidade natural e respeitável, mas ressalta precisamente a necessidade de educação, controle e responsabilidade na canalização dessa energia.

André Luiz, em Sexo e Destino, associa sexualidade ao amor, à consciência, à liberdade e ao compromisso, inserindo o tema na perspectiva da responsabilidade perante a própria trajetória evolutiva.

Léon Denis, por sua vez, atribui à vontade papel essencial na condução das forças da alma. Não somos obrigados a obedecer passivamente a todo estímulo que chega à consciência.

Essa compreensão precisa alcançar a educação contemporânea. Pais não podem entregar um celular a uma criança e entregar a infância ao algoritmo.

É indispensável acompanhar o que os filhos assistem, conversar sobre sexualidade sem tabus, estabelecer limites compatíveis com a idade e ensinar que nem tudo aquilo que aparece na tela merece atenção. A escola também precisa desenvolver alfabetização digital, emocional e ética.

Mas a responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre as famílias. As plataformas digitais precisam aperfeiçoar mecanismos de proteção de menores, classificação etária, filtros, controles parentais e sistemas capazes de reduzir a recomendação de conteúdos sexualmente apelativos a públicos vulneráveis.

Isso não é censura. É responsabilidade tecnológica.

Não quero transformar pessoas que produzem conteúdos sensuais em objetos de condenação moral. Cada adulto responde por suas próprias escolhas, dentro da lei. O que se discute aqui é outra coisa: a circulação massiva e algorítmica desses conteúdos e sua acessibilidade a públicos que ainda não possuem maturidade para processá-los adequadamente.

O Espiritismo não propõe perseguição aos que erram. Propõe educação, esclarecimento, responsabilidade e reforma moral. Em tempos de violência, solidão, sofrimento emocional e crescente exposição de jovens a múltiplos fatores de risco, precisamos cuidar também daquilo que alimenta a imaginação.

Seria imprudente afirmar que conteúdos sensuais sejam, isoladamente, responsáveis por comportamentos extremos. A realidade humana é muito mais complexa. Mas seria igualmente imprudente ignorar a influência dos estímulos repetidos sobre uma mente em formação.

A pergunta que devemos fazer não é: “Podemos publicar?” A pergunta mais madura é: “Devemos recomendar indiscriminadamente?”

Liberdade sem responsabilidade transforma-se facilmente em permissividade. Tecnologia sem ética transforma atenção em negócio. E educação sem limites deixa crianças e adolescentes entregues a forças que ainda não aprenderam a administrar.

A sexualidade é uma força natural da existência. O desafio espiritual não é sufocá-la, mas educá-la, sublimá-la e integrá-la ao amor, ao respeito e à responsabilidade.

A sociedade não precisa de uma cruzada contra o corpo. Precisa de uma defesa da infância, da adolescência e da dignidade humana diante da indústria da atenção.

Porque quando o algoritmo aprende a capturar nossos olhos, cabe à educação ensinar a consciência a escolher onde olhar.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Questões 907-908.

EMMANUEL (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido. Vida e sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1970. A FEB registra a obra como dedicada aos diversos aspectos da sexualidade, destacando educação, controle e responsabilidade.

ANDRÉ LUIZ (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e destino. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1965. 

22 setembro 2026

Quando a toga perde a confiança, a República entra em alerta - uma reflexão espírita sobre a crise no STF





Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos na vida de uma nação em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser omissão. O Brasil atravessa um desses momentos.

O Supremo Tribunal Federal — instituição essencial ao Estado Democrático de Direito — precisa ser preservado. Mas preservar uma instituição não significa blindá-la contra críticas. Significa justamente exigir dela aquilo que a Constituição determina: independência, imparcialidade, fundamentação, transparência e respeito aos limites de sua competência.

O artigo 102 da Constituição é inequívoco ao estabelecer que compete precipuamente ao STF a guarda da Constituição.  E quem guarda a Constituição precisa, antes de tudo, transmitir à sociedade a segurança de que a própria Constituição está sendo respeitada.

Os números recentes deveriam acender uma luz amarela — ou talvez vermelha — em Brasília.

Pesquisa Datafolha divulgada em 18 de setembro de 2026 apontou que 48% dos entrevistados afirmam não confiar no STF, o maior percentual da série histórica iniciada em 2012, e 35% disseram confiar um pouco. Foram ouvidas 2.001 pessoas, em 125 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Outra pesquisa, realizada pela Quaest entre 10 e 13 de setembro, encontrou 56% de brasileiros que declararam não confiar na Corte, contra apenas 9% que afirmaram confiar.

Obviamente não se deve transformar pesquisa de opinião em sentença contra uma instituição. Pesquisa mede percepção; não prova, por si só, que determinada decisão seja correta ou incorreta, nem demonstra que ministros tenham agido de maneira correta ou ilícita. Mas ignorar uma deterioração tão expressiva da confiança pública seria igualmente imprudente.

Como espírita que sou, aqui entra uma reflexão kardeciana. O Codificador ensinou que o Espiritismo não recomenda a fé cega. Da liberdade de consciência decorre o direito ao livre exame, e a fé verdadeira, segundo a tradição espírita, deve poder enfrentar a razão.

Ora, se o cidadão espírita é chamado a raciocinar diante das questões espirituais, com maior razão deve exercer sua consciência diante das instituições humanas. Respeitar autoridade não significa abdicar do discernimento.

Uma sociedade que perde a confiança em seus árbitros vive sob permanente tensão. E a insegurança jurídica não é assunto restrito aos juristas. Ela alcança o cidadão comum, a atividade econômica, os investimentos, as relações trabalhistas, a produção cultural, a liberdade de expressão e a própria estabilidade das relações sociais.

Por isso, o alerta não deve ser contra ou a favor do Supremo, mas em defesa do Estado democrático de direito.

É necessário recuperar a confiança por meio de procedimentos institucionais capazes de demonstrar à sociedade que nenhum ministro está acima da Constituição, que nenhuma decisão deve ser confundida com vontade pessoal e que nenhuma crítica legítima deve ser tratada como ameaça.

O Brasil não precisa de um Supremo enfraquecido. Precisa de um Supremo forte porque confiável; respeitado porque respeitável; poderoso porque constitucionalmente limitado. Até porque a última trincheira da cidadania não pode transformar-se em trincheira de brasileiros contra brasileiros.

Quando a confiança desaparece, a República adoece institucionalmente. E, diante desse cenário, a responsabilidade moral de todos — cidadãos, parlamentares, magistrados, jornalistas, juristas e formadores de opinião — é contribuir para a reconstrução do equilíbrio, da serenidade e da confiança.

Exprobrar uma instituição não é destruí-la. Às vezes, é exatamente o modo mais responsável de tentar salvá-la.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Arts. 101-103.

DATAFOLHA. Desconfiança no STF cresce, vai a 48% e atinge recorde. Folha de S.Paulo, 18 set. 2026.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

QUAEST. Pesquisa de confiança nas instituições — setembro de 2026. Pesquisa divulgada em 14 set. 2026.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

 

 

 

21 setembro 2026

Quando Aristóteles vira enfeite de toga





Jorge Hessen

Brasília -DF

Se a autoridade invoca Aristóteles para legitimar ironias, silogismos e decisões jurídicas, é preciso retornar ao próprio Aristóteles — e perguntar se a retórica está servindo à verdade ou apenas ao “triunfo” no estéril debate.

Há momentos em que uma frase aparentemente espirituosa revela um problema muito maior. Durante sessão do Supremo Tribunal Federal, o ministro Flávio Dino afirmou, ao responder a um motejo do presidente Edson Fachin: “A ironia serve para descontrair o ambiente. Vossa Excelência sabe disso. Aristóteles.”

Como professor de História, não consigo ouvir uma autoridade invocar Aristóteles e simplesmente fingir que não ouvi. É preciso conferir.

E a primeira constatação é elementar: na Ética a Nicômaco, Livro IV, capítulo 7, Aristóteles não apresenta a ironia simplesmente como instrumento para “descontrair o ambiente”. Ele a examina no contexto da relação entre verdade, falsidade, jactância e dissimulação. O homem virtuoso situa-se entre aquele que exagera suas qualidades e aquele que as diminui ou dissimula. A questão central é a veracidade.

Isso não significa que toda ironia seja ilegítima. Significa apenas que atribuir a Aristóteles uma formulação que ele não apresentou exige cautela intelectual.

Dino também invocou moderação, ponderação, corrupção dos regimes e, em outro momento, o silogismo. Nesses pontos, há elementos relacionados ao pensamento aristotélico. O problema começa quando conceitos filosóficos deixam de ser instrumentos de investigação e passam a funcionar como recursos de autoridade retórica.

Silogismo não é palavra mágica destinada a encerrar uma divergência. É uma estrutura lógica de dedução. Suas premissas precisam ser examinadas, e a conclusão precisa decorrer delas. Invocar “Aristóteles” não substitui a demonstração. Ao contrário: aumenta a responsabilidade de demonstrar.

É aqui que o debate deixa de ser apenas filosófico e passa a ser institucional. Um tribunal constitucional não existe para produzir vencedores de debates. Existe para decidir segundo a Constituição, as leis, as provas, a competência e o devido processo.

A autoridade do juiz não nasce da quantidade de filósofos citados como ornamento retórico, nem da força da ironia, tampouco da capacidade de dominar verbalmente um colega.

E reflito aqui como espírita, pois há uma lição kardeciana ainda mais severa. Allan Kardec ensina que o verdadeiro espírita deve reconhecer-se pela sua transformação moral e pelo esforço que emprega para domar suas más inclinações.

A palavra também é um instrumento moral. No Evangelho segundo o Espiritismo, Jesus é apresentado como referência de caridade, benevolência e indulgência nas relações humanas. Não basta possuir inteligência; é necessário empregá-la com responsabilidade.

Por isso, não me interessa saber se a fala de Flávio Dino foi espirituosa, brilhante ou politicamente conveniente. Interessa saber se suas afirmações foram apropriadas, logicamente sustentadas e compatíveis com a dignidade da função judicial.

Num ambiente institucional já submetido a intenso escrutínio público, inclusive diante de denúncias e controvérsias que precisam ser apuradas pelas instituições competentes, o Supremo deveria compreender que cada palavra de seus ministros tem peso excessivo.

Não se combate a desconfiança pública com erudição florida e ornamental. Combate-se com transparência, fundamentação, coerência e respeito aos limites institucionais.

Até porque, senhor Flávio, Aristóteles ensinava que a virtude está no meio-termo. Mas o meio-termo não é mediocridade: é a medida racional da conduta.

E talvez esta seja a pergunta que realmente importa:

Quando Aristóteles entra numa sessão judicial, ele deve entrar como argumento ou como autoridade perfumosa e decorativa?

Porque citar o filósofo é fácil.

Difícil é submeter a própria palavra à verdade que o filósofo ensinou a procurar.

 

Referências bibliográficas

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro IV, cap. 7, 1127a-1127b.

ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martins Fontes.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB.


20 setembro 2026

A república não se ajoelha diante da toga - uma reflexão espírita






Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando a autoridade pública é alcançada por suspeitas, não cabe reverência: cabe transparência, investigação e respeito absoluto à verdade

Há uma pergunta que nenhuma democracia madura deveria temer: quem fiscaliza aqueles que fiscalizam todos?

O Brasil vive um daqueles momentos em que o silêncio das instituições pode ser mais corrosivo do que o barulho das ruas. Quando surgem suspeitas envolvendo autoridades encarregadas de fazer cumprir a lei, não se pode exigir do cidadão fé cega. Exige-se exatamente o contrário: prova, transparência, contraditório e prestação de contas.

O caso Banco Master tornou essa questão ainda mais sensível. O próprio Supremo Tribunal Federal informou que existem questões envolvendo magistrados mencionados nos autos que precisam ser examinadas, inclusive quanto a possíveis indícios de recebimento de valores indevidos. Isso não autoriza condenação antecipada. Mas também não autoriza que dúvidas legítimas sejam tratadas como irrelevantes.

Suspeita não é condenação. Mas suspeita também não se dissolve por decreto.  É precisamente aqui que o pensamento espírita oferece uma contribuição que ultrapassa os muros dos centros espíritas. Allan Kardec recusou a fé irracional, a autoridade incontestável e a aceitação passiva de afirmações sem exame. O Espiritismo nasceu sob o signo do livre exame, da observação e da submissão dos fatos ao crivo da razão.

A toga, portanto, não transforma ninguém em ser moralmente superior.  E a farda tampouco.

Os militares condenados no processo relativo à tentativa de golpe de Estado devem responder perante a Justiça segundo as provas constantes dos autos e as garantias constitucionais. Patente não constitui salvo-conduto. Mas a acusação também não pode converter-se em sentença moral antecipada.

General não é sinônimo de golpista. Ministro do Supremo não é sinônimo de incorruptível. A República exige uma régua única.

Se houve crime, que a prova o demonstre, tanto quanto se houve inocência, que seja reconhecida. Mas, se houve abuso, que seja responsabilizado e se existe conflito de interesses, que seja esclarecido.

É justamente nesse ponto que a consciência espírita não pode permanecer indiferente. Kardec ensinou que o progresso moral exige responsabilidade individual e que ninguém está dispensado do exame da própria consciência. Quanto maior o poder, maior deveria ser a responsabilidade diante da verdade.

A caridade espírita não é cumplicidade com o erro. Perdoar não significa encobrir e fraternidade não significa silenciar diante da injustiça. O Brasil não precisa de uma Suprema Corte enfraquecida. Precisa de uma Suprema Corte suficientemente forte para suportar o escrutínio público.

Não carece de militares acima da lei. Necessita de militares submetidos à lei e protegidos contra acusações que não possam ser sustentadas por provas.

Não necessita de cidadãos reverentes diante do poder. Precisa de cidadãos livres para perguntar. Porque nenhuma instituição democrática pode exigir confiança enquanto recusa transparência.

A autoridade não nasce da toga, nem da farda e muito menos do cargo. Nasce da legitimidade dos atos. E, perante a Justiça Divina, nenhum título humano constitui privilégio.

A República não deve escolher entre toga e farda. Deve escolher a Constituição, a Verdade e a Justiça.  Porque quando uma instituição teme ser examinada, a pergunta já deixou de ser inconveniente.

Tornou-se absolutamente necessária.