28 setembro 2026

Deus: o grande enigma diante do universo

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quanto mais a ciência amplia as fronteiras do conhecimento, mais evidente se torna a nossa ignorância diante da imensidão cósmica — e mais necessário se faz distinguir fé raciocinada de crença cega.

Há perguntas que atravessam os séculos sem perder a força. Uma delas é inevitável: Deus existe?

Allan Kardec enfrentou a questão sem recorrer ao dogmatismo. No Livro dos Espíritos, perguntou: “Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?”. A resposta é de extraordinária simplicidade: “Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”[1]

É justamente aí que começa a originalidade do pensamento espírita. Kardec não propôs uma religião fundada na submissão intelectual, mas uma doutrina que convoca o indivíduo a pensar. Não perguntou “Quem é Deus?”, como se estivéssemos diante de uma personalidade humana, mas “Que é Deus?”. A resposta define uma concepção radicalmente diferente: “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”[1]

A ciência contemporânea, por sua vez, demoliu definitivamente a pretensão humana de compreender o Universo a partir de uma perspectiva limitada à Terra. Vivemos em um planeta que orbita uma estrela comum, numa galáxia que abriga centenas de bilhões de estrelas e que representa apenas uma entre uma quantidade imensa de galáxias observáveis.

O telescópio James Webb vem permitindo investigar galáxias extremamente antigas e ampliar nosso conhecimento sobre as primeiras etapas da história cósmica. A cosmologia estima em aproximadamente 13,8 bilhões de anos a idade do Universo. Ainda assim, permanecem grandes enigmas: a natureza da matéria escura, a energia escura, os primeiros instantes cósmicos e a possibilidade de uma teoria capaz de conciliar gravidade e mecânica quântica.

Mas é preciso prudência: nenhuma dessas descobertas constitui, por si mesma, uma prova científica da existência de Deus. Transformar uma hipótese cosmológica em demonstração religiosa seria substituir o dogmatismo religioso pelo dogmatismo científico.

O Espiritismo propõe outro caminho: razão sem materialismo e fé sem cegueira.

Quanto mais penetramos nos mistérios da matéria, mais percebemos que a realidade é muito maior do que nossos sentidos alcançam. E quanto mais avançamos intelectualmente, mais somos obrigados a reconhecer os limites do conhecimento humano.

Para Kardec, Deus não é uma figura antropomórfica perdida entre as estrelas, mas a Inteligência Suprema e causa primária de todas as coisas. A compreensão dessa realidade acompanha a própria evolução do Espírito.

Talvez esteja aí uma das maiores lições da astronomia moderna: o Universo não diminui porque ainda não o compreendemos; nós é que descobrimos, a cada avanço, o tamanho da nossa própria ignorância.

Diante de bilhões de galáxias, de mundos ainda desconhecidos e de leis cósmicas cuja profundidade mal começamos a compreender, a atitude mais racional não é afirmar que já sabemos tudo.

É manter a mente aberta e investigar, questionar e, sobretudo, contemplar o Universo com a humildade de quem reconhece que o Infinito jamais caberá inteiramente nos limites da inteligência humana.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte primeira, cap. I, questões 1 e 4.

KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. II — Deus, itens 8-19.

XAVIER, Francisco Cândido. Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

DAVIES, Paul. Deus e a Nova Física. Lisboa: Edições 70.

25 setembro 2026

A prece entre a ciência e a espiritualidade: o que Léon Denis já ensinava


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Durante décadas, pesquisas científicas procuraram investigar se a prece poderia produzir efeitos mensuráveis sobre a saúde. No Brasil, um estudo coordenado pelo professor Carlos Eduardo Tosta, da Universidade de Brasília, realizado entre 2000 e 2003, envolveu 52 estudantes de Medicina e examinou possíveis efeitos da oração à distância sobre parâmetros imunológicos. A divulgação do trabalho despertou grande interesse, especialmente entre os estudiosos da interface entre espiritualidade e saúde.

Entretanto, a ciência avançou — e também impôs cautela. Estudos posteriores apresentaram resultados diferentes. O ensaio STEP, publicado em 2006 no American Heart Journal, acompanhou 1.802 pacientes submetidos a cirurgia de revascularização cardíaca e não encontrou redução das complicações pós-operatórias entre aqueles que receberam oração intercessória. Portanto, seria precipitado afirmar que a ciência já comprovou a eficácia terapêutica da prece à distância. A questão permanece aberta à investigação.

Para o Espiritismo, porém, a importância da prece não depende exclusivamente de indicadores laboratoriais. Léon Denis, em Depois da Morte, capítulo 51, define-a como “expansão íntima da alma para com Deus”, relacionando-a à meditação, ao consolo e à renovação das forças interiores. Aqui está uma diferença fundamental: a prece não deve ser reduzida a uma espécie de medicamento invisível.

Denis amplia ainda mais essa concepção ao sustentar que o pensamento, impulsionado pela vontade, pode estabelecer uma corrente espiritual capaz de alcançar outras almas. Para ele, a oração dirigida aos Espíritos sofredores constitui expressão de caridade e pode contribuir para sua consolação e despertar. Essa concepção aproxima-se da questão 662 do Livro dos Espíritos, na qual Allan Kardec considera que o pensamento e a vontade possuem poder de ação para além dos limites corporais.

A prece, portanto, não é fórmula mágica, nem mecanismo destinado a revogar as leis da vida. Tampouco substitui tratamento médico, psicológico ou qualquer recurso científico necessário. Sua finalidade mais profunda é moral e espiritual: modificar aquele que ora, fortalecendo a confiança, a resignação, a esperança e a disposição para enfrentar as provas da existência.

É justamente nesse ponto que Léon Denis permanece atual. A prece pode não alterar aquilo que necessariamente precisamos viver, mas pode transformar nossa maneira de atravessar a experiência. O homem que ora sinceramente não está necessariamente pedindo que Deus retire sua prova; muitas vezes está pedindo forças para compreendê-la e vencê-la.

Por isso, a prece espírita não deveria ser transformada em ritual mecânico nem em promessa de cura. Ela exige pensamento, sentimento, vontade e sinceridade. Mais do que movimentar os lábios, significa movimentar a consciência.

A ciência pode investigar seus possíveis efeitos sobre o organismo e sobre a mente. A Doutrina Espírita, por sua vez, convida-nos a compreender sua dimensão moral e espiritual. Entre uma perspectiva e outra, não precisa existir conflito. Há, antes, uma questão que permanece aberta: até onde alcança o poder do pensamento quando impulsionado pelo amor e pela vontade sincera de fazer o bem?

Essa pergunta, mais do que uma resposta precipitada, talvez seja o verdadeiro convite ao estudo.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

KARDEC, Allan. A gênese. Rio de Janeiro: FEB, 1999.

DENIS, Léon. Depois da morte. Cap. 51: A prece.

BENSON, Herbert et al. Study of the therapeutic effects of intercessory prayer (STEP) in cardiac bypass patients. American Heart Journal, v. 151, n. 4, p. 934-942, 2006.

LEIBOVICI, Leonard. Effects of remote, retroactive intercessory prayer on outcomes in patients with bloodstream infection. BMJ, v. 323, p. 1450-1451, 2001.

 

24 setembro 2026

Liberdade sem responsabilidade - quem protege a infância do algoritmo?



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A liberdade de expressão não pode servir de salvo-conduto para a exposição indiscriminada de crianças e adolescentes ao sensualismo digital

Há uma fronteira que a sociedade brasileira precisa discutir com urgência: até onde pode avançar a exploração do sensualismo nas plataformas digitais sem que alguém se responsabilize pelas consequências educacionais e sociais dessa exposição?

Os vídeos curtos transformaram a atenção humana em mercadoria. Quanto mais uma imagem captura olhares, provoca curiosidade, desejo ou excitação, maior tende a ser sua capacidade de circular. Nesse ambiente, a exposição ostensiva do corpo — frequentemente apresentada como entretenimento, humor, lifestyle ou estratégia de audiência — tornou-se uma presença cotidiana nas telas.

O problema não é o corpo, nem a beleza, nem a sexualidade e  tampouco se trata de censurar a liberdade individual. O problema é a exploração sistemática do estímulo sexual em um ambiente no qual também estão crianças e adolescentes, ainda em processo de formação emocional, moral e psicológica.

Uma criança não possui os mesmos recursos de compreensão que um adulto. Um adolescente atravessa justamente a fase em que identidade, afetividade, desejo, pertencimento e autoestima estão sendo construídos. Submetê-lo repetidamente a conteúdos erotizados, sem mediação familiar e sem critérios adequados de proteção, significa transferir para um algoritmo uma parcela da responsabilidade que deveria pertencer à educação.

A Doutrina Espírita oferece uma chave particularmente lúcida para essa discussão. Allan Kardec não ensinou que as paixões sejam, em sua origem, um mal. Ao contrário, O Livro dos Espíritos esclarece que elas decorrem de necessidades naturais, tornando-se perigosas quando deixam de ser governadas e passam a produzir prejuízo a si ou aos outros.

Eis a questão central: não é necessário combater o impulso; é necessário educá-lo. Emmanuel, em Vida e Sexo, apresenta a sexualidade como realidade natural e respeitável, mas ressalta precisamente a necessidade de educação, controle e responsabilidade na canalização dessa energia.

André Luiz, em Sexo e Destino, associa sexualidade ao amor, à consciência, à liberdade e ao compromisso, inserindo o tema na perspectiva da responsabilidade perante a própria trajetória evolutiva.

Léon Denis, por sua vez, atribui à vontade papel essencial na condução das forças da alma. Não somos obrigados a obedecer passivamente a todo estímulo que chega à consciência.

Essa compreensão precisa alcançar a educação contemporânea. Pais não podem entregar um celular a uma criança e entregar a infância ao algoritmo.

É indispensável acompanhar o que os filhos assistem, conversar sobre sexualidade sem tabus, estabelecer limites compatíveis com a idade e ensinar que nem tudo aquilo que aparece na tela merece atenção. A escola também precisa desenvolver alfabetização digital, emocional e ética.

Mas a responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre as famílias. As plataformas digitais precisam aperfeiçoar mecanismos de proteção de menores, classificação etária, filtros, controles parentais e sistemas capazes de reduzir a recomendação de conteúdos sexualmente apelativos a públicos vulneráveis.

Isso não é censura. É responsabilidade tecnológica.

Não quero transformar pessoas que produzem conteúdos sensuais em objetos de condenação moral. Cada adulto responde por suas próprias escolhas, dentro da lei. O que se discute aqui é outra coisa: a circulação massiva e algorítmica desses conteúdos e sua acessibilidade a públicos que ainda não possuem maturidade para processá-los adequadamente.

O Espiritismo não propõe perseguição aos que erram. Propõe educação, esclarecimento, responsabilidade e reforma moral. Em tempos de violência, solidão, sofrimento emocional e crescente exposição de jovens a múltiplos fatores de risco, precisamos cuidar também daquilo que alimenta a imaginação.

Seria imprudente afirmar que conteúdos sensuais sejam, isoladamente, responsáveis por comportamentos extremos. A realidade humana é muito mais complexa. Mas seria igualmente imprudente ignorar a influência dos estímulos repetidos sobre uma mente em formação.

A pergunta que devemos fazer não é: “Podemos publicar?” A pergunta mais madura é: “Devemos recomendar indiscriminadamente?”

Liberdade sem responsabilidade transforma-se facilmente em permissividade. Tecnologia sem ética transforma atenção em negócio. E educação sem limites deixa crianças e adolescentes entregues a forças que ainda não aprenderam a administrar.

A sexualidade é uma força natural da existência. O desafio espiritual não é sufocá-la, mas educá-la, sublimá-la e integrá-la ao amor, ao respeito e à responsabilidade.

A sociedade não precisa de uma cruzada contra o corpo. Precisa de uma defesa da infância, da adolescência e da dignidade humana diante da indústria da atenção.

Porque quando o algoritmo aprende a capturar nossos olhos, cabe à educação ensinar a consciência a escolher onde olhar.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Questões 907-908.

EMMANUEL (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido. Vida e sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1970. A FEB registra a obra como dedicada aos diversos aspectos da sexualidade, destacando educação, controle e responsabilidade.

ANDRÉ LUIZ (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e destino. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1965. 

22 setembro 2026

Quando a toga perde a confiança, a República entra em alerta - uma reflexão espírita sobre a crise no STF


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos na vida de uma nação em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser omissão. O Brasil atravessa um desses momentos.

O Supremo Tribunal Federal — instituição essencial ao Estado Democrático de Direito — precisa ser preservado. Mas preservar uma instituição não significa blindá-la contra críticas. Significa justamente exigir dela aquilo que a Constituição determina: independência, imparcialidade, fundamentação, transparência e respeito aos limites de sua competência.

O artigo 102 da Constituição é inequívoco ao estabelecer que compete precipuamente ao STF a guarda da Constituição.  E quem guarda a Constituição precisa, antes de tudo, transmitir à sociedade a segurança de que a própria Constituição está sendo respeitada.

Os números recentes deveriam acender uma luz amarela — ou talvez vermelha — em Brasília.

Pesquisa Datafolha divulgada em 18 de setembro de 2026 apontou que 48% dos entrevistados afirmam não confiar no STF, o maior percentual da série histórica iniciada em 2012, e 35% disseram confiar um pouco. Foram ouvidas 2.001 pessoas, em 125 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Outra pesquisa, realizada pela Quaest entre 10 e 13 de setembro, encontrou 56% de brasileiros que declararam não confiar na Corte, contra apenas 9% que afirmaram confiar.

Obviamente não se deve transformar pesquisa de opinião em sentença contra uma instituição. Pesquisa mede percepção; não prova, por si só, que determinada decisão seja correta ou incorreta, nem demonstra que ministros tenham agido de maneira correta ou ilícita. Mas ignorar uma deterioração tão expressiva da confiança pública seria igualmente imprudente.

Como espírita que sou, aqui entra uma reflexão kardeciana. O Codificador ensinou que o Espiritismo não recomenda a fé cega. Da liberdade de consciência decorre o direito ao livre exame, e a fé verdadeira, segundo a tradição espírita, deve poder enfrentar a razão.

Ora, se o cidadão espírita é chamado a raciocinar diante das questões espirituais, com maior razão deve exercer sua consciência diante das instituições humanas. Respeitar autoridade não significa abdicar do discernimento.

Uma sociedade que perde a confiança em seus árbitros vive sob permanente tensão. E a insegurança jurídica não é assunto restrito aos juristas. Ela alcança o cidadão comum, a atividade econômica, os investimentos, as relações trabalhistas, a produção cultural, a liberdade de expressão e a própria estabilidade das relações sociais.

Por isso, o alerta não deve ser contra ou a favor do Supremo, mas em defesa do Estado democrático de direito.

É necessário recuperar a confiança por meio de procedimentos institucionais capazes de demonstrar à sociedade que nenhum ministro está acima da Constituição, que nenhuma decisão deve ser confundida com vontade pessoal e que nenhuma crítica legítima deve ser tratada como ameaça.

O Brasil não precisa de um Supremo enfraquecido. Precisa de um Supremo forte porque confiável; respeitado porque respeitável; poderoso porque constitucionalmente limitado. Até porque a última trincheira da cidadania não pode transformar-se em trincheira de brasileiros contra brasileiros.

Quando a confiança desaparece, a República adoece institucionalmente. E, diante desse cenário, a responsabilidade moral de todos — cidadãos, parlamentares, magistrados, jornalistas, juristas e formadores de opinião — é contribuir para a reconstrução do equilíbrio, da serenidade e da confiança.

Exprobrar uma instituição não é destruí-la. Às vezes, é exatamente o modo mais responsável de tentar salvá-la.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Arts. 101-103.

DATAFOLHA. Desconfiança no STF cresce, vai a 48% e atinge recorde. Folha de S.Paulo, 18 set. 2026.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

QUAEST. Pesquisa de confiança nas instituições — setembro de 2026. Pesquisa divulgada em 14 set. 2026.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

 

 

 

21 setembro 2026

Quando Aristóteles vira enfeite de toga


Jorge Hessen

Brasília -DF

Se a autoridade invoca Aristóteles para legitimar ironias, silogismos e decisões jurídicas, é preciso retornar ao próprio Aristóteles — e perguntar se a retórica está servindo à verdade ou apenas ao “triunfo” no estéril debate.

Há momentos em que uma frase aparentemente espirituosa revela um problema muito maior. Durante sessão do Supremo Tribunal Federal, o ministro Flávio Dino afirmou, ao responder a um motejo do presidente Edson Fachin: “A ironia serve para descontrair o ambiente. Vossa Excelência sabe disso. Aristóteles.”

Como professor de História, não consigo ouvir uma autoridade invocar Aristóteles e simplesmente fingir que não ouvi. É preciso conferir.

E a primeira constatação é elementar: na Ética a Nicômaco, Livro IV, capítulo 7, Aristóteles não apresenta a ironia simplesmente como instrumento para “descontrair o ambiente”. Ele a examina no contexto da relação entre verdade, falsidade, jactância e dissimulação. O homem virtuoso situa-se entre aquele que exagera suas qualidades e aquele que as diminui ou dissimula. A questão central é a veracidade.

Isso não significa que toda ironia seja ilegítima. Significa apenas que atribuir a Aristóteles uma formulação que ele não apresentou exige cautela intelectual.

Dino também invocou moderação, ponderação, corrupção dos regimes e, em outro momento, o silogismo. Nesses pontos, há elementos relacionados ao pensamento aristotélico. O problema começa quando conceitos filosóficos deixam de ser instrumentos de investigação e passam a funcionar como recursos de autoridade retórica.

Silogismo não é palavra mágica destinada a encerrar uma divergência. É uma estrutura lógica de dedução. Suas premissas precisam ser examinadas, e a conclusão precisa decorrer delas. Invocar “Aristóteles” não substitui a demonstração. Ao contrário: aumenta a responsabilidade de demonstrar.

É aqui que o debate deixa de ser apenas filosófico e passa a ser institucional. Um tribunal constitucional não existe para produzir vencedores de debates. Existe para decidir segundo a Constituição, as leis, as provas, a competência e o devido processo.

A autoridade do juiz não nasce da quantidade de filósofos citados como ornamento retórico, nem da força da ironia, tampouco da capacidade de dominar verbalmente um colega.

E reflito aqui como espírita, pois há uma lição kardeciana ainda mais severa. Allan Kardec ensina que o verdadeiro espírita deve reconhecer-se pela sua transformação moral e pelo esforço que emprega para domar suas más inclinações.

A palavra também é um instrumento moral. No Evangelho segundo o Espiritismo, Jesus é apresentado como referência de caridade, benevolência e indulgência nas relações humanas. Não basta possuir inteligência; é necessário empregá-la com responsabilidade.

Por isso, não me interessa saber se a fala de Flávio Dino foi espirituosa, brilhante ou politicamente conveniente. Interessa saber se suas afirmações foram apropriadas, logicamente sustentadas e compatíveis com a dignidade da função judicial.

Num ambiente institucional já submetido a intenso escrutínio público, inclusive diante de denúncias e controvérsias que precisam ser apuradas pelas instituições competentes, o Supremo deveria compreender que cada palavra de seus ministros tem peso excessivo.

Não se combate a desconfiança pública com erudição florida e ornamental. Combate-se com transparência, fundamentação, coerência e respeito aos limites institucionais.

Até porque, senhor Flávio, Aristóteles ensinava que a virtude está no meio-termo. Mas o meio-termo não é mediocridade: é a medida racional da conduta.

E talvez esta seja a pergunta que realmente importa:

Quando Aristóteles entra numa sessão judicial, ele deve entrar como argumento ou como autoridade perfumosa e decorativa?

Porque citar o filósofo é fácil.

Difícil é submeter a própria palavra à verdade que o filósofo ensinou a procurar.

 

Referências bibliográficas

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro IV, cap. 7, 1127a-1127b.

ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martins Fontes.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB.


20 setembro 2026

A república não se ajoelha diante da toga - uma reflexão espírita



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando a autoridade pública é alcançada por suspeitas, não cabe reverência: cabe transparência, investigação e respeito absoluto à verdade

Há uma pergunta que nenhuma democracia madura deveria temer: quem fiscaliza aqueles que fiscalizam todos?

O Brasil vive um daqueles momentos em que o silêncio das instituições pode ser mais corrosivo do que o barulho das ruas. Quando surgem suspeitas envolvendo autoridades encarregadas de fazer cumprir a lei, não se pode exigir do cidadão fé cega. Exige-se exatamente o contrário: prova, transparência, contraditório e prestação de contas.

O caso Banco Master tornou essa questão ainda mais sensível. O próprio Supremo Tribunal Federal informou que existem questões envolvendo magistrados mencionados nos autos que precisam ser examinadas, inclusive quanto a possíveis indícios de recebimento de valores indevidos. Isso não autoriza condenação antecipada. Mas também não autoriza que dúvidas legítimas sejam tratadas como irrelevantes.

Suspeita não é condenação. Mas suspeita também não se dissolve por decreto.  É precisamente aqui que o pensamento espírita oferece uma contribuição que ultrapassa os muros dos centros espíritas. Allan Kardec recusou a fé irracional, a autoridade incontestável e a aceitação passiva de afirmações sem exame. O Espiritismo nasceu sob o signo do livre exame, da observação e da submissão dos fatos ao crivo da razão.

A toga, portanto, não transforma ninguém em ser moralmente superior.  E a farda tampouco.

Os militares condenados no processo relativo à tentativa de golpe de Estado devem responder perante a Justiça segundo as provas constantes dos autos e as garantias constitucionais. Patente não constitui salvo-conduto. Mas a acusação também não pode converter-se em sentença moral antecipada.

General não é sinônimo de golpista. Ministro do Supremo não é sinônimo de incorruptível. A República exige uma régua única.

Se houve crime, que a prova o demonstre, tanto quanto se houve inocência, que seja reconhecida. Mas, se houve abuso, que seja responsabilizado e se existe conflito de interesses, que seja esclarecido.

É justamente nesse ponto que a consciência espírita não pode permanecer indiferente. Kardec ensinou que o progresso moral exige responsabilidade individual e que ninguém está dispensado do exame da própria consciência. Quanto maior o poder, maior deveria ser a responsabilidade diante da verdade.

A caridade espírita não é cumplicidade com o erro. Perdoar não significa encobrir e fraternidade não significa silenciar diante da injustiça. O Brasil não precisa de uma Suprema Corte enfraquecida. Precisa de uma Suprema Corte suficientemente forte para suportar o escrutínio público.

Não carece de militares acima da lei. Necessita de militares submetidos à lei e protegidos contra acusações que não possam ser sustentadas por provas.

Não necessita de cidadãos reverentes diante do poder. Precisa de cidadãos livres para perguntar. Porque nenhuma instituição democrática pode exigir confiança enquanto recusa transparência.

A autoridade não nasce da toga, nem da farda e muito menos do cargo. Nasce da legitimidade dos atos. E, perante a Justiça Divina, nenhum título humano constitui privilégio.

A República não deve escolher entre toga e farda. Deve escolher a Constituição, a Verdade e a Justiça.  Porque quando uma instituição teme ser examinada, a pergunta já deixou de ser inconveniente.

Tornou-se absolutamente necessária.

 

Quando o Espiritismo vira arena de práticas “diferentonas”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre a codificação e a fantasia mediúnica, alguns parecem ter escolhido a segunda

Há algo profundamente preocupante no movimento espírita brasileiro: a crescente transformação da mediunidade em laboratório de novidades. Cada grupo inventa sua fórmula, cada dirigente anuncia seu método, cada médium apresenta uma experiência particular, como se representasse a evolução da Doutrina. E, quando alguém pergunta onde está Kardec, responde-se com a palavra mágica: “caridade”.

Não. Caridade não é salvo-conduto para a improvisação “diferentona”.

Há no interior paulista o anúncio de um “centro espírita diferentão”, estruturado como espécie de “pronto-socorro” espiritual, com três atividades principais: desobsessão, evocações particulares e “cirurgias espirituais”. O interessado seria atendido individualmente, inclusive para tentar estabelecer contato com determinado desencarnado. O projeto ainda convoca médiuns de outros centros para integrar o empreendimento.

Convém perguntar, sem rodeios: isso é Espiritismo , circo ou uma nova modalidade de fantasia mediúnica? A resposta não pode ser dada pelo entusiasmo dos seus promotores. Deve ser procurada na Codificação.

É verdade que Allan Kardec estudou as evocações que eram importantes na época da codificação.  No Livro dos Médiuns, capítulo XXV, explica que os Espíritos podem atender ao chamado e dedica diversas páginas ao assunto. Mas justamente aí está o problema: Kardec não transformou a evocação em balcão de atendimento espiritual. Ao contrário, advertiu que as evocações pormenorizadas exigem médiuns especiais, “flexíveis e positivos”, e que não devem ser realizadas sem conhecimento do desenvolvimento da faculdade e da natureza dos Espíritos que assistem o médium.

Mais ainda: nas evocações particulares, Kardec recomenda extrema reserva e rejeita perguntas motivadas por simples curiosidade ou interesse. É justamente essa prudência que desaparece quando a mediunidade passa a ser anunciada como serviço especializado.

O Espiritismo não é um pronto-socorro sobrenatural nem o médium é atendente de plantão. O desencarnado não é funcionário de uma central espiritual. E o sofrimento humano não pode ser convertido em campo de experimentação “diferentona”.

Quanto às chamadas “cirurgias espirituais”, a questão é ainda mais delicada. Uma coisa é estudar os fenômenos de ação fluídica; outra, muito diferente, é apresentar intervenções espirituais como procedimento terapêutico organizado, especialmente quando isso pode induzir pessoas enfermas a expectativas que não possuem comprovação médica.

O movimento espírita precisa recuperar uma palavra que parece ter entrado em desuso: critério. Kardec não fundou uma religião da novidade. Fundou um método de investigação. Não ensinou a aceitar tudo o que venha do mundo espiritual; ensinou a examinar, comparar, confrontar e submeter as comunicações ao crivo da razão.

Por isso, o verdadeiro perigo não está em alguém querer fazer “diferente”. O perigo está em qualquer experiência particular ser promovida como Espiritismo sem demonstrar sua compatibilidade com os princípios espíritas.

Se cada grupo puder acrescentar procedimentos, terapias, técnicas e experiências pessoais à Doutrina e simplesmente chamá-los de “novos caminhos diferentões”, em pouco tempo ninguém saberá mais o que é Espiritismo e o que é apenas circo ou fantasia mediúnica.

O Brasil não precisa de mais novidades espíritas. Precisa de mais Kardec. Porque quando a novidade passa a valer mais que a Codificação, a mediunidade deixa de ser instrumento de estudo e pode transformar-se em espetáculo circense.

É um movimento que abandona o critério para venerar a novidade; já não está avançando. Está apenas se afastando de sua própria identidade.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005. Cap. XXV — Das evocações.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013

 

19 setembro 2026

Não, Bezerra de Menezes jamais “diria” que o amor acaba



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Paixão termina. Relacionamentos se desfazem. O amor, porém, não pode ser reduzido ao fogo passageiro do desejo e muito menos colocado na boca do Espírito Bezerra de Menezes sem qualquer comprovação.

Há frases que são tão irresponsáveis que se tornam perigosas quando recebem o carimbo de um Espírito venerável.

Dizer que “o amor também acaba e ninguém ama só uma vez” pode ser uma opinião pessoal sobre relacionamentos. O problema começa quando essa afirmação é apresentada como suposta comunicação de Bezerra de Menezes. Nesse momento, já não se discute apenas uma concepção sentimental. Discutem-se responsabilidade mediúnica, autoridade doutrinária e respeito ao público.

Convém colocar cada coisa em seu devido lugar. Paixão não é amor. Desejo não é amor. Encantamento não é amor. Dependência afetiva não é amor. Um relacionamento pode terminar; duas pessoas podem deixar de conviver; a atração pode desaparecer. Tudo isso pertence à experiência humana.

Mas daí concluir que o amor acaba é outra coisa. No horizonte espírita, o amor não se reduz à combustão emocional entre duas pessoas. Está associado à lei divina, à fraternidade, à caridade e ao próprio processo de aperfeiçoamento do Espírito.

Em Kardec, o amor não aparece como mercadoria sentimental com prazo de validade. Ele constitui princípio de transformação moral. Quem verdadeiramente amou pode deixar de desejar. Pode deixar de conviver. Pode reconstruir a própria vida. Pode até compreender que aquela relação não deveria continuar. Mas nada disso exige que transforme o afeto em ódio ou declare morto todo sentimento de fraternidade.

O que frequentemente acaba é a paixão. O amor pode mudar de forma. É justamente aí que a atribuição a Bezerra de Menezes se torna particularmente delicada. Não basta alguém afirmar que viu determinado Espírito ou recebeu dele determinada frase. Kardec jamais recomendou essa credulidade. No Livro dos Médiuns, estabeleceu critérios de prudência para a identificação dos Espíritos e para o exame das comunicações.

O Espiritismo não é a doutrina do “eu vi”.  É a doutrina do examine, compare, raciocine e não aceite sem discernimento.

Quanto mais respeitável o nome apresentado, maior deveria ser o cuidado. Afinal, uma mensagem atribuída a Bezerra chega ao público revestida de uma autoridade que uma opinião pessoal jamais teria.

E esse é o verdadeiro problema. Quando milhares de pessoas escutam uma palestrante conhecida afirmar que determinada frase veio de Bezerra, quantas terão condições de separar a opinião da suposta revelação? Quantas conhecem os critérios kardecianos de análise mediúnica? Quantas simplesmente aceitarão a declaração porque confiam na celebridade de quem fala?

É assim que a fama pode substituir o critério e a autoridade pessoal pode ocupar o lugar da razão. Não se combate isso com censura. Combate-se com estudo.

Se é uma reflexão pessoal, que seja assumida como tal. Se é uma comunicação mediúnica, que seja submetida ao exame que Kardec recomendou. O que não se pode fazer é transformar o nome de um Espírito venerável em espécie de certificado automático de autenticidade.

Bezerra de Menezes merece respeito precisamente porque seu nome não deveria ser utilizado como aval para qualquer afirmação.

E o amor também merece respeito.

Porque, se confundirmos amor com paixão, estaremos ensinando uma geração inteira a chamar de “amor” aquilo que pode ser apenas desejo, apego, encantamento ou necessidade afetiva.

A paixão pode incendiar e depois apagar-se. O amor, compreendido em sua dimensão espiritual, não é um fósforo: é caminho de evolução.

O Espiritismo não precisa de frases espetaculares atribuídas aos Espíritos. Precisa de verdade, responsabilidade, razão e humildade.

E, antes de afirmar “Bezerra disse”, talvez fosse prudente fazer a pergunta que todo espírita deveria fazer.

Onde está a prova?

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

17 setembro 2026

Lançai a rede à direita , mas não entregueis a consciência à ideologia


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Obviamente Jesus não ensinou a pescar homens para partidos. Ensinou a orientar a consciência pelo caminho da verdade, da justiça e do equilíbrio. Quando qualquer ideologia pretende capturar o pensamento humano pela coerção, a rede já foi lançada para o lado errado.

“Lançai a rede para a banda direita do barco e achareis.” (João 21:6). À primeira vista, trata-se apenas de uma orientação dada por Jesus a pescadores. Emmanuel, porém, extrai dessa cena uma lição muito mais profunda: a posição do barco simboliza a condição espiritual de quem age; a rede representa os interesses, pensamentos, desejos e esforços que lançamos diariamente na existência. Pergunta Emmanuel: para que lado estamos lançando nossas redes?

Não se trata de geografia. Muito menos do que uma senha partidária.

Trata-se de orientação moral.  A “direita” mencionada por Cristo pode ser compreendida como o caminho reto, a direção justa, a escolha equilibrada, a conduta coerente com as leis divinas. Emmanuel pergunta se nossos pensamentos e atos estão fundamentados na verdadeira justiça e recomenda atenção aos “caminhos retos”.

E aqui a metáfora evangélica adquire uma atualidade desconcertante. Vivemos uma época em que determinadas correntes ideológicas passaram a reivindicar para si o direito de estabelecer o que pode ser dito, pensado, publicado ou contestado. Isso não é exclusividade de uma corrente política. A tentação autoritária não possui partido; possui apenas ideologia quando esta deixa de ser instrumento de reflexão e passa a funcionar como mecanismo de dominação.

É justamente aí que precisamos lançar a rede à direita. Não à direita de um partido, mas à direita da consciência. Não podemos aceitar que a liberdade de pensamento seja tolerada apenas quando o pensamento coincide com aquilo que determinado grupo considera aceitável. Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode transformar divergência em delito por mera conveniência ideológica.

A Constituição brasileira estabelece como direitos fundamentais a livre manifestação do pensamento, a liberdade de consciência e a liberdade de expressão intelectual, artística, científica e de comunicação. Ao mesmo tempo, protege honra, imagem e outros direitos fundamentais, estabelecendo que liberdade não significa licença para violar direitos alheios.

Eis o ponto que frequentemente desaparece no debate político: liberdade não é licença para caluniar; mas combate à calúnia também não pode converter-se em instrumento para silenciar a crítica legítima. Uma democracia madura precisa suportar o contraditório, o dissenso, a opinião impopular e até mesmo a opinião que incomoda.

O Supremo Tribunal Federal, em julgamento com repercussão geral concluído em 2026, reafirmou que determinadas campanhas de mobilização social estão protegidas pela liberdade de expressão, estabelecendo também parâmetros para responsabilização quando presentes elementos de má-fé.

Isso demonstra que a questão não pode ser reduzida à caricatura de “liberdade absoluta” contra “censura absoluta”. Existe uma zona constitucionalmente delicada entre liberdade, responsabilidade, honra, segurança, democracia e proteção contra ilícitos.

Mas justamente por ser delicada, essa zona não pode ser tratada com fanatismo. Toda vez que o poder passa a considerar perigoso aquele que discorda, a democracia começa a adoecer. E isso vale para a esquerda, vale para a direita, vale para liberais, conservadores, socialistas, progressistas, religiosos, ateus e para qualquer outro agrupamento humano.

O Espiritismo, aliás, não recomenda submissão intelectual. Kardec estabeleceu como princípio fundamental o livre exame, a razão e a análise dos ensinamentos. A fé espírita não deveria produzir consciências domesticadas, mas homens e mulheres capazes de raciocinar, confrontar informações, reconhecer erros e modificar suas convicções diante de evidências.

Por isso, há algo profundamente incompatível com o espírito do Evangelho quando alguém pretende monopolizar a verdade política. Jesus não pediu discípulos de partido. Pediu discípulos da verdade.

A rede lançada à direita é, portanto, a rede da consciência esclarecida,  da responsabilidade,  do pensamento livre, porém responsável, da crítica sem ódio, da convicção sem fanatismo e da liberdade sem irresponsabilidade.

E talvez esta seja uma das maiores urgências espirituais do nosso tempo: não permitir que ideologias transformem pessoas em peixes capturados por redes de propaganda, medo, ressentimento ou submissão.

Cristo mandou lançar a rede. Mas não mandou entregar a consciência, porque a consciência pertence ao indivíduo diante de Deus.

Por isso, quando a política exigir silêncio onde deveria existir debate, quando a ideologia exigir obediência onde deveria existir reflexão, quando o poder pretender substituir a consciência individual por uma cartilha oficial de pensamento, é preciso recordar a advertência evangélica.

Lançai a rede à direita.

À direita da verdade,  da justiça,  da liberdade responsável,  da dignidade humana. Porque o problema não é simplesmente descobrir se somos “de esquerda” ou “de direita”. O problema muito mais grave é descobrir se estamos lançando nossas redes na direção da verdade ou se já estamos presos dentro das redes que outros lançaram sobre nossa própria consciência (A DITADURA).

 

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. João 21:6. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Caminho, Verdade e Vida. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 21: “Caminhos retos”.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Tema 837: definição dos limites da liberdade de expressão em contraposição a outros direitos de igual hierarquia jurídica. Brasília, DF, 2026

A grande hipocrisia moral: exigir dos outros o que recusamos fazer em nós


jorge hessen

Brasília -DF

 

Enquanto exigimos a reforma dos governos, das instituições e da sociedade, continuamos tolerando, dentro de nós, o egoísmo, a intolerância, a vaidade e a indiferença. Essa contradição não é apenas social: é, antes de tudo, moral.

Há uma praga silenciosa que atravessa a sociedade: a terceirização da responsabilidade. Tudo é culpa dos outros. O governo é culpado. Os políticos são culpados. Os empresários são culpados. As instituições são culpadas. A família é culpada. A sociedade é culpada. Até as circunstâncias recebem a conta.

E nós? Quase sempre nos colocamos convenientemente fora do problema. É muito fácil apontar o dedo para fora. Difícil é apontá-lo para dentro de nós mesmos.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, não oferece ao homem o conforto da passividade. Cada criatura possui deveres, possibilidades e utilidade no processo do progresso. Quem espera que os outros façam aquilo que também lhe compete não está exercendo cidadania moral; está apenas terceirizando a própria consciência.

Queremos justiça, mas promovemos injustiças. Pedimos tolerância, mas agenciamos intolerâncias. Exigimos compreensão, mas não compreendemos. Condenamos o egoísmo alheio enquanto negociamos vantagens para nós mesmos. Ora, que espécie de reforma social pretendemos realizar sem reforma moral?

Eis a diferença entre uma consciência ainda escravizada pelos desejos e outra que começa a conquistar a própria liberdade. O Codificador não propõe a destruição das paixões, mas o governo dos impulsos inferiores pela razão e pela vontade. Espiritualidade sem autodomínio é apenas retórica religiosa.

Também por isso precisamos abandonar a ilusão de que a oração substitui a transformação. Orar é importante. Mas quem ora pedindo paz e continua espalhando agressividade precisa perguntar se realmente compreendeu o sentido da oração.

“Fora da caridade não há salvação” não é um convite à esmola automática nem um salvo-conduto para a hipocrisia. Caridade é benevolência, indulgência, perdão, solidariedade e respeito.

Podemos discordar. Podemos estabelecer limites. Podemos buscar justiça. O que não precisamos é transformar divergência em ódio e indignação em vingança.

Há ainda os que, decepcionados com a humanidade, passam a desprezá-la. É a misantropia disfarçada de lucidez. Isolam-se, criticam todos e terminam acreditando que a própria amargura é sinal de superioridade. Não é!

Ninguém evolui sozinho. A família é oficina de aprendizado. Os vínculos complexos também podem ser oportunidades de paciência, tolerância, reparação e crescimento. E ademais, a fraternidade não termina na porta de casa.

Quem proclama espiritualidade, mas aceita a destruição irresponsável das florestas, a contaminação dos rios, a crueldade contra os animais e a devastação da biodiversidade precisa rever sua própria compreensão de respeito à vida. Não podemos falar em reverência à criação enquanto tratamos a natureza como simples mercadoria.

O Espiritismo convoca à razão, ao livre exame, à responsabilidade e ao progresso. Não é uma doutrina para alimentar a reclamação permanente, o vitimismo ou a confortável posição de espectador.

O verdadeiro espírita não é aquele que se apresenta como moralmente superior. É aquele que, silenciosamente, torna-se menos egoísta, menos intolerante, menos vingativo, mais fraterno e mais útil.

A Terra não será transformada pela multiplicação de discursos inflamados, acusações permanentes ou salvacionismos de ocasião. A transformação começa quando deixamos de perguntar quem é o culpado e começamos a perguntar qual é a nossa responsabilidade.

Porque, no fim das contas, há uma verdade incômoda que ninguém deveria ignorar: o mundo que tanto condenamos também é construído pelas consciências que somos.

E a reforma que exigimos da humanidade começa, inevitavelmente, diante do espelho.

Agora!