Jorge Hessen
Brasília -DF
Há uma diferença fundamental entre educar e controlar. Educar significa auxiliar o Espírito a desenvolver discernimento, responsabilidade e autonomia moral. Controlar, muitas vezes, significa obter obediência pelo medo. É nesse terreno que surge uma das práticas mais nocivas na relação entre pais e filhos: a chantagem emocional.
Frases como “se você fizer isso, não vou mais gostar de você” podem produzir obediência imediata, mas não formam consciência. A criança aprende, antes, uma perigosa equação: para ser amada, precisa agradar. Em consequência, pode esconder sentimentos, negar conflitos, dissimular erros e desenvolver uma personalidade moldada pela necessidade de aprovação.
O problema não está em corrigir. Pais têm o dever de estabelecer limites. O problema está em transformar o afeto em instrumento de opressão. Podemos reprovar uma atitude sem rejeitar aquele que a praticou. Podemos dizer “isso que você fez está errado” sem transmitir “por causa disso, você deixou de ser digno do meu amor”.
Allan Kardec situa a educação moral no centro do aperfeiçoamento humano. Ao comentar a questão 685-a do Livro dos Espíritos, afirma que ela consiste na “arte de formar os caracteres”, isto é, naquela educação capaz de criar hábitos e fortalecer o domínio de si (KARDEC, 2019). A finalidade, portanto, não é fabricar crianças obedientes, mas auxiliar Espíritos a desenvolverem consciência.
Em Depois da Morte, Léon Denis é igualmente incisivo ao atribuir à família papel decisivo na formação moral. Para ele, educar exige firmeza, perseverança e ternura, sem confundir amor com fraqueza. Os pais recebem a responsabilidade de ajudar os filhos a desenvolver suas boas tendências e superar as más (DENIS, 2018).
Joanna de Ângelis aprofunda essa compreensão ao apresentar a família como verdadeiro educandário do Espírito. Em S.O.S. Família, destacam-se os deveres dos pais e a necessidade de investimento em amor, vigilância e sacrifício. Em Amor, Imbatível Amor, alerta-se para os efeitos psicológicos de pais que fazem a criança acreditar que somente será amada quando obedecer ou agradar.
André Luiz, em Sinal Verde, enfatiza que a criança necessita de amor, educação e amparo, lembrando que os adultos constituem referências permanentes para sua formação. Educar implica corrigir, orientar, proteger e, sobretudo, exemplificar.
Emmanuel, por sua vez, insiste na responsabilidade dos adultos diante dos processos de renovação moral. Não basta transmitir palavras edificantes: é indispensável transformar princípios em atitudes. O exemplo dos pais educa muito mais profundamente do que discursos repetidos.
Bezerra de Menezes segue a mesma linha ao enfatizar que a Doutrina Espírita deve sair do campo da teoria e alcançar a vivência cotidiana. Na família, isso significa substituir imposição, medo e autoritarismo por diálogo, compreensão, responsabilidade e amor efetivamente praticado.
Quando uma criança manifesta ciúme, inveja, raiva ou ressentimento, não devemos ensiná-la a esconder o sentimento. Devemos ajudá-la a compreendê-lo. Sentir não é o mesmo que agir. A emoção pode surgir espontaneamente; a conduta, porém, pode e deve ser educada.
O pai pode dizer para o filho já da segunda infância em diante: “Entendo que você esteja com raiva, mas não pode machucar seu irmão”. A mãe pode afirmar: “Você pode estar com ciúme, mas vamos conversar sobre isso. Assim, a criança aprende algo muito mais importante do que a simples obediência: aprende a reconhecer o próprio mundo interior e a responsabilizar-se por aquilo que faz com ele.
Amor incondicional, portanto, não significa ausência de limites. Significa que o vínculo afetivo não é colocado como prêmio ou castigo. O comportamento tem consequências; o amor não deve ser moeda de troca.
Kardec recorda que os pais têm a missão de contribuir para o desenvolvimento intelectual e moral dos filhos. Léon Denis acrescenta que a educação deve falar também ao coração e ensinar o ser humano a combater suas imperfeições.
Educar é exatamente isso: oferecer limites sem retirar o aconchego; corrigir sem humilhar; advertir sem ameaçar; exigir responsabilidade sem destruir a autoestima.
A criança a partir da segunda infância precisa saber que poderá confessar um erro sem perder o amor dos pais. Precisa descobrir que suas fragilidades não são motivos para vergonha, mas oportunidades de crescimento. Precisa aprender que ninguém é perfeito e que a verdadeira grandeza está em reconhecer o erro, repará-lo e esforçar-se para não repeti-lo.
Pais não devem criar filhos dependentes da aprovação alheia. Devem ajudá-los a construir uma consciência suficientemente forte para discernir o certo do errado mesmo quando ninguém estiver olhando.
Essa é a verdadeira educação espírita: não formar criaturas submissas ao medo, mas Espíritos capazes de governar a si mesmos.
O amor educa. A chantagem apenas constrange. E entre constranger uma criança para obter obediência e ampará-la para que desenvolva consciência existe toda a distância entre dominação e educação, medo e confiança, dependência e maturidade.
Referências Bibliográficas:
BEZERRA DE MENEZES. Bezerra, Chico e você. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2020.
DENIS, Léon. Depois da morte. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2018. cap. 54.
EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
JOANNA DE ÂNGELIS (Espírito). Amor, imbatível amor. Psicografia de Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2018.
JOANNA DE ÂNGELIS (Espírito). S.O.S. família. Psicografia de Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2019.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
LUÍZ, André (Espírito). Sinal verde. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.









