Jorge Hessen
Brasília -DF
Sabemos de práticas “mediúnicas”
estranhas à proposta racional de Allan Kardec. Surgem figuras cercadas de aura
mística do tipo, supostos “desmanchadores de feitiços”, há até exibições
de “algodões desobsessores” com objetos de feitiço materializados,
líquidos misteriosos e toda sorte de teatralizações mediúnicas que mais lembram
superstição medieval do que mediunidade séria.
O caso dos algodões
mágicos de Votuporanga é exemplo preocupante dessa deformação: a
substituição da fé raciocinada pelo fascínio do extraordinário. Há até
excursões para os adoradores do algodão prestidigitador
Kardec jamais edificou o
Espiritismo sobre o maravilhoso. Em O Livro dos Médiuns, advertiu severamente
contra: mistificações; charlatanismo; animismo; fraudes; fascinação mediúnica;
e imaginação exaltada.
O verdadeiro espírita não
deve correr atrás do fantástico, mas analisá-lo com prudência. A mediunidade
séria jamais precisou de espetáculos para demonstrar autenticidade.
Quanto maior a
teatralidade, maior deveria ser a cautela crítica. Entretanto, muitos ambientes
espiritualistas alimentam exatamente o contrário: quanto mais extravagante o
fenômeno, maior o encantamento popular.
Criou-se quase uma
“indústria do sobrenatural”, sustentada pelo medo de “trabalhos feitos”,
obsessões imaginárias e fantasias de feitiçaria materializada.
Ora, o Espiritismo nunca
ensinou que obsessão espiritual funcione como “implantação mágica” de
objetos físicos nas pessoas. Segundo Allan Kardec, a obsessão é processo
psíquico e moral estabelecido por sintonia mental inferior, e não um teatro
de “extrações” de panos, agulhas, líquidos ou algodões misteriosos diante de
plateias impressionáveis.
Esse tipo de prática
aproxima-se muito mais do pensamento mágico medieval do que da sobriedade
kardequiana. Em A Gênese, Kardec afirma que o sobrenatural é irreal; existem
apenas fenômenos naturais ainda desconhecidos. Portanto, quanto mais
extraordinária a alegação, maior deve ser o rigor investigativo.
Curiosamente, fenômenos
espetaculares quase sempre desaparecem quando submetidos a: filmagem contínua;
controle rigoroso; perícia independente; e observação científica séria.
A história do mediunismo
está repleta de “médiuns extraordinários” posteriormente desmascarados. E
justamente os efeitos físicos sempre foram os mais suscetíveis a truques e
manipulações, porque impressionam os sentidos e enfraquecem o senso crítico.
Há ainda o poderoso fator
psicológico. Ambientes emocionalmente carregados favorecem: autosugestão;
histeria coletiva; interpretações fantasiosas; e dramatizações inconscientes.
Em muitos casos, o
próprio médium pode acreditar sinceramente em suas manifestações sem perceber
mecanismos psicológicos envolvidos. Em outros, infelizmente, pode existir
fraude deliberada.
O problema maior é que
essas práticas desviam completamente o eixo moral do Espiritismo. Enquanto
Kardec propunha reforma íntima, educação moral e emancipação intelectual, certos
grupos preferem alimentar: terror espiritual; dependência emocional; fetichismo
mediúnico; e superstição.
Transformam o Espiritismo
em ritual mágico de “desmancho de feitiços”.
Léon Denis advertia que o
excesso de maravilhoso costuma atrair mistificação. Já Chico Xavier, através de
Emmanuel, lembrava que fenômeno, por si só, não prova elevação espiritual.O
critério espírita nunca foi o impacto emocional do fenômeno, mas sua coerência
moral, racional e lógica.
Quando uma prática
supostamente mediúnica produz mais curiosidade
do que esclarecimento, mais fascinação do que consciência e mais superstição do
que razão, ela já se afastou perigosamente da proposta kardequiana.
O Espiritismo não nasceu
para ser religião de assombração ou espetáculo folclórico. Surgiu para libertar
o ser humano da ignorância — inclusive da ignorância espiritual.
A fé espírita autêntica
não necessita de algodões misteriosos, teatralizações mediúnicas ou lendas de
feitiçarias (trabalhos feitos) materializadas. Sustenta-se na
razão, na moral e no discernimento.

















