22 setembro 2026

Quando a toga perde a confiança, a República entra em alerta - uma reflexão espírita sobre a crise no STF


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos na vida de uma nação em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser omissão. O Brasil atravessa um desses momentos.

O Supremo Tribunal Federal — instituição essencial ao Estado Democrático de Direito — precisa ser preservado. Mas preservar uma instituição não significa blindá-la contra críticas. Significa justamente exigir dela aquilo que a Constituição determina: independência, imparcialidade, fundamentação, transparência e respeito aos limites de sua competência.

O artigo 102 da Constituição é inequívoco ao estabelecer que compete precipuamente ao STF a guarda da Constituição.  E quem guarda a Constituição precisa, antes de tudo, transmitir à sociedade a segurança de que a própria Constituição está sendo respeitada.

Os números recentes deveriam acender uma luz amarela — ou talvez vermelha — em Brasília.

Pesquisa Datafolha divulgada em 18 de setembro de 2026 apontou que 48% dos entrevistados afirmam não confiar no STF, o maior percentual da série histórica iniciada em 2012, e 35% disseram confiar um pouco. Foram ouvidas 2.001 pessoas, em 125 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Outra pesquisa, realizada pela Quaest entre 10 e 13 de setembro, encontrou 56% de brasileiros que declararam não confiar na Corte, contra apenas 9% que afirmaram confiar.

Obviamente não se deve transformar pesquisa de opinião em sentença contra uma instituição. Pesquisa mede percepção; não prova, por si só, que determinada decisão seja correta ou incorreta, nem demonstra que ministros tenham agido de maneira correta ou ilícita. Mas ignorar uma deterioração tão expressiva da confiança pública seria igualmente imprudente.

Como espírita que sou, aqui entra uma reflexão kardeciana. O Codificador ensinou que o Espiritismo não recomenda a fé cega. Da liberdade de consciência decorre o direito ao livre exame, e a fé verdadeira, segundo a tradição espírita, deve poder enfrentar a razão.

Ora, se o cidadão espírita é chamado a raciocinar diante das questões espirituais, com maior razão deve exercer sua consciência diante das instituições humanas. Respeitar autoridade não significa abdicar do discernimento.

Uma sociedade que perde a confiança em seus árbitros vive sob permanente tensão. E a insegurança jurídica não é assunto restrito aos juristas. Ela alcança o cidadão comum, a atividade econômica, os investimentos, as relações trabalhistas, a produção cultural, a liberdade de expressão e a própria estabilidade das relações sociais.

Por isso, o alerta não deve ser contra ou a favor do Supremo, mas em defesa do Estado democrático de direito.

É necessário recuperar a confiança por meio de procedimentos institucionais capazes de demonstrar à sociedade que nenhum ministro está acima da Constituição, que nenhuma decisão deve ser confundida com vontade pessoal e que nenhuma crítica legítima deve ser tratada como ameaça.

O Brasil não precisa de um Supremo enfraquecido. Precisa de um Supremo forte porque confiável; respeitado porque respeitável; poderoso porque constitucionalmente limitado. Até porque a última trincheira da cidadania não pode transformar-se em trincheira de brasileiros contra brasileiros.

Quando a confiança desaparece, a República adoece institucionalmente. E, diante desse cenário, a responsabilidade moral de todos — cidadãos, parlamentares, magistrados, jornalistas, juristas e formadores de opinião — é contribuir para a reconstrução do equilíbrio, da serenidade e da confiança.

Exprobrar uma instituição não é destruí-la. Às vezes, é exatamente o modo mais responsável de tentar salvá-la.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Arts. 101-103.

DATAFOLHA. Desconfiança no STF cresce, vai a 48% e atinge recorde. Folha de S.Paulo, 18 set. 2026.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

QUAEST. Pesquisa de confiança nas instituições — setembro de 2026. Pesquisa divulgada em 14 set. 2026.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

 

 

 

21 setembro 2026

Quando Aristóteles vira enfeite de toga


Jorge Hessen

Brasília -DF

Se a autoridade invoca Aristóteles para legitimar ironias, silogismos e decisões jurídicas, é preciso retornar ao próprio Aristóteles — e perguntar se a retórica está servindo à verdade ou apenas ao “triunfo” no estéril debate.

Há momentos em que uma frase aparentemente espirituosa revela um problema muito maior. Durante sessão do Supremo Tribunal Federal, o ministro Flávio Dino afirmou, ao responder a um motejo do presidente Edson Fachin: “A ironia serve para descontrair o ambiente. Vossa Excelência sabe disso. Aristóteles.”

Como professor de História, não consigo ouvir uma autoridade invocar Aristóteles e simplesmente fingir que não ouvi. É preciso conferir.

E a primeira constatação é elementar: na Ética a Nicômaco, Livro IV, capítulo 7, Aristóteles não apresenta a ironia simplesmente como instrumento para “descontrair o ambiente”. Ele a examina no contexto da relação entre verdade, falsidade, jactância e dissimulação. O homem virtuoso situa-se entre aquele que exagera suas qualidades e aquele que as diminui ou dissimula. A questão central é a veracidade.

Isso não significa que toda ironia seja ilegítima. Significa apenas que atribuir a Aristóteles uma formulação que ele não apresentou exige cautela intelectual.

Dino também invocou moderação, ponderação, corrupção dos regimes e, em outro momento, o silogismo. Nesses pontos, há elementos relacionados ao pensamento aristotélico. O problema começa quando conceitos filosóficos deixam de ser instrumentos de investigação e passam a funcionar como recursos de autoridade retórica.

Silogismo não é palavra mágica destinada a encerrar uma divergência. É uma estrutura lógica de dedução. Suas premissas precisam ser examinadas, e a conclusão precisa decorrer delas. Invocar “Aristóteles” não substitui a demonstração. Ao contrário: aumenta a responsabilidade de demonstrar.

É aqui que o debate deixa de ser apenas filosófico e passa a ser institucional. Um tribunal constitucional não existe para produzir vencedores de debates. Existe para decidir segundo a Constituição, as leis, as provas, a competência e o devido processo.

A autoridade do juiz não nasce da quantidade de filósofos citados como ornamento retórico, nem da força da ironia, tampouco da capacidade de dominar verbalmente um colega.

E reflito aqui como espírita, pois há uma lição kardeciana ainda mais severa. Allan Kardec ensina que o verdadeiro espírita deve reconhecer-se pela sua transformação moral e pelo esforço que emprega para domar suas más inclinações.

A palavra também é um instrumento moral. No Evangelho segundo o Espiritismo, Jesus é apresentado como referência de caridade, benevolência e indulgência nas relações humanas. Não basta possuir inteligência; é necessário empregá-la com responsabilidade.

Por isso, não me interessa saber se a fala de Flávio Dino foi espirituosa, brilhante ou politicamente conveniente. Interessa saber se suas afirmações foram apropriadas, logicamente sustentadas e compatíveis com a dignidade da função judicial.

Num ambiente institucional já submetido a intenso escrutínio público, inclusive diante de denúncias e controvérsias que precisam ser apuradas pelas instituições competentes, o Supremo deveria compreender que cada palavra de seus ministros tem peso excessivo.

Não se combate a desconfiança pública com erudição florida e ornamental. Combate-se com transparência, fundamentação, coerência e respeito aos limites institucionais.

Até porque, senhor Flávio, Aristóteles ensinava que a virtude está no meio-termo. Mas o meio-termo não é mediocridade: é a medida racional da conduta.

E talvez esta seja a pergunta que realmente importa:

Quando Aristóteles entra numa sessão judicial, ele deve entrar como argumento ou como autoridade perfumosa e decorativa?

Porque citar o filósofo é fácil.

Difícil é submeter a própria palavra à verdade que o filósofo ensinou a procurar.

 

Referências bibliográficas

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro IV, cap. 7, 1127a-1127b.

ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martins Fontes.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB.


20 setembro 2026

A república não se ajoelha diante da toga - uma reflexão espírita



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando a autoridade pública é alcançada por suspeitas, não cabe reverência: cabe transparência, investigação e respeito absoluto à verdade

Há uma pergunta que nenhuma democracia madura deveria temer: quem fiscaliza aqueles que fiscalizam todos?

O Brasil vive um daqueles momentos em que o silêncio das instituições pode ser mais corrosivo do que o barulho das ruas. Quando surgem suspeitas envolvendo autoridades encarregadas de fazer cumprir a lei, não se pode exigir do cidadão fé cega. Exige-se exatamente o contrário: prova, transparência, contraditório e prestação de contas.

O caso Banco Master tornou essa questão ainda mais sensível. O próprio Supremo Tribunal Federal informou que existem questões envolvendo magistrados mencionados nos autos que precisam ser examinadas, inclusive quanto a possíveis indícios de recebimento de valores indevidos. Isso não autoriza condenação antecipada. Mas também não autoriza que dúvidas legítimas sejam tratadas como irrelevantes.

Suspeita não é condenação. Mas suspeita também não se dissolve por decreto.  É precisamente aqui que o pensamento espírita oferece uma contribuição que ultrapassa os muros dos centros espíritas. Allan Kardec recusou a fé irracional, a autoridade incontestável e a aceitação passiva de afirmações sem exame. O Espiritismo nasceu sob o signo do livre exame, da observação e da submissão dos fatos ao crivo da razão.

A toga, portanto, não transforma ninguém em ser moralmente superior.  E a farda tampouco.

Os militares condenados no processo relativo à tentativa de golpe de Estado devem responder perante a Justiça segundo as provas constantes dos autos e as garantias constitucionais. Patente não constitui salvo-conduto. Mas a acusação também não pode converter-se em sentença moral antecipada.

General não é sinônimo de golpista. Ministro do Supremo não é sinônimo de incorruptível. A República exige uma régua única.

Se houve crime, que a prova o demonstre, tanto quanto se houve inocência, que seja reconhecida. Mas, se houve abuso, que seja responsabilizado e se existe conflito de interesses, que seja esclarecido.

É justamente nesse ponto que a consciência espírita não pode permanecer indiferente. Kardec ensinou que o progresso moral exige responsabilidade individual e que ninguém está dispensado do exame da própria consciência. Quanto maior o poder, maior deveria ser a responsabilidade diante da verdade.

A caridade espírita não é cumplicidade com o erro. Perdoar não significa encobrir e fraternidade não significa silenciar diante da injustiça. O Brasil não precisa de uma Suprema Corte enfraquecida. Precisa de uma Suprema Corte suficientemente forte para suportar o escrutínio público.

Não carece de militares acima da lei. Necessita de militares submetidos à lei e protegidos contra acusações que não possam ser sustentadas por provas.

Não necessita de cidadãos reverentes diante do poder. Precisa de cidadãos livres para perguntar. Porque nenhuma instituição democrática pode exigir confiança enquanto recusa transparência.

A autoridade não nasce da toga, nem da farda e muito menos do cargo. Nasce da legitimidade dos atos. E, perante a Justiça Divina, nenhum título humano constitui privilégio.

A República não deve escolher entre toga e farda. Deve escolher a Constituição, a Verdade e a Justiça.  Porque quando uma instituição teme ser examinada, a pergunta já deixou de ser inconveniente.

Tornou-se absolutamente necessária.

 

Quando o Espiritismo vira arena de práticas “diferentonas”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre a codificação e a fantasia mediúnica, alguns parecem ter escolhido a segunda

Há algo profundamente preocupante no movimento espírita brasileiro: a crescente transformação da mediunidade em laboratório de novidades. Cada grupo inventa sua fórmula, cada dirigente anuncia seu método, cada médium apresenta uma experiência particular, como se representasse a evolução da Doutrina. E, quando alguém pergunta onde está Kardec, responde-se com a palavra mágica: “caridade”.

Não. Caridade não é salvo-conduto para a improvisação “diferentona”.

Há no interior paulista o anúncio de um “centro espírita diferentão”, estruturado como espécie de “pronto-socorro” espiritual, com três atividades principais: desobsessão, evocações particulares e “cirurgias espirituais”. O interessado seria atendido individualmente, inclusive para tentar estabelecer contato com determinado desencarnado. O projeto ainda convoca médiuns de outros centros para integrar o empreendimento.

Convém perguntar, sem rodeios: isso é Espiritismo , circo ou uma nova modalidade de fantasia mediúnica? A resposta não pode ser dada pelo entusiasmo dos seus promotores. Deve ser procurada na Codificação.

É verdade que Allan Kardec estudou as evocações que eram importantes na época da codificação.  No Livro dos Médiuns, capítulo XXV, explica que os Espíritos podem atender ao chamado e dedica diversas páginas ao assunto. Mas justamente aí está o problema: Kardec não transformou a evocação em balcão de atendimento espiritual. Ao contrário, advertiu que as evocações pormenorizadas exigem médiuns especiais, “flexíveis e positivos”, e que não devem ser realizadas sem conhecimento do desenvolvimento da faculdade e da natureza dos Espíritos que assistem o médium.

Mais ainda: nas evocações particulares, Kardec recomenda extrema reserva e rejeita perguntas motivadas por simples curiosidade ou interesse. É justamente essa prudência que desaparece quando a mediunidade passa a ser anunciada como serviço especializado.

O Espiritismo não é um pronto-socorro sobrenatural nem o médium é atendente de plantão. O desencarnado não é funcionário de uma central espiritual. E o sofrimento humano não pode ser convertido em campo de experimentação “diferentona”.

Quanto às chamadas “cirurgias espirituais”, a questão é ainda mais delicada. Uma coisa é estudar os fenômenos de ação fluídica; outra, muito diferente, é apresentar intervenções espirituais como procedimento terapêutico organizado, especialmente quando isso pode induzir pessoas enfermas a expectativas que não possuem comprovação médica.

O movimento espírita precisa recuperar uma palavra que parece ter entrado em desuso: critério. Kardec não fundou uma religião da novidade. Fundou um método de investigação. Não ensinou a aceitar tudo o que venha do mundo espiritual; ensinou a examinar, comparar, confrontar e submeter as comunicações ao crivo da razão.

Por isso, o verdadeiro perigo não está em alguém querer fazer “diferente”. O perigo está em qualquer experiência particular ser promovida como Espiritismo sem demonstrar sua compatibilidade com os princípios espíritas.

Se cada grupo puder acrescentar procedimentos, terapias, técnicas e experiências pessoais à Doutrina e simplesmente chamá-los de “novos caminhos diferentões”, em pouco tempo ninguém saberá mais o que é Espiritismo e o que é apenas circo ou fantasia mediúnica.

O Brasil não precisa de mais novidades espíritas. Precisa de mais Kardec. Porque quando a novidade passa a valer mais que a Codificação, a mediunidade deixa de ser instrumento de estudo e pode transformar-se em espetáculo circense.

É um movimento que abandona o critério para venerar a novidade; já não está avançando. Está apenas se afastando de sua própria identidade.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005. Cap. XXV — Das evocações.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013

 

19 setembro 2026

Não, Bezerra de Menezes jamais “diria” que o amor acaba



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Paixão termina. Relacionamentos se desfazem. O amor, porém, não pode ser reduzido ao fogo passageiro do desejo e muito menos colocado na boca do Espírito Bezerra de Menezes sem qualquer comprovação.

Há frases que são tão irresponsáveis que se tornam perigosas quando recebem o carimbo de um Espírito venerável.

Dizer que “o amor também acaba e ninguém ama só uma vez” pode ser uma opinião pessoal sobre relacionamentos. O problema começa quando essa afirmação é apresentada como suposta comunicação de Bezerra de Menezes. Nesse momento, já não se discute apenas uma concepção sentimental. Discutem-se responsabilidade mediúnica, autoridade doutrinária e respeito ao público.

Convém colocar cada coisa em seu devido lugar. Paixão não é amor. Desejo não é amor. Encantamento não é amor. Dependência afetiva não é amor. Um relacionamento pode terminar; duas pessoas podem deixar de conviver; a atração pode desaparecer. Tudo isso pertence à experiência humana.

Mas daí concluir que o amor acaba é outra coisa. No horizonte espírita, o amor não se reduz à combustão emocional entre duas pessoas. Está associado à lei divina, à fraternidade, à caridade e ao próprio processo de aperfeiçoamento do Espírito.

Em Kardec, o amor não aparece como mercadoria sentimental com prazo de validade. Ele constitui princípio de transformação moral. Quem verdadeiramente amou pode deixar de desejar. Pode deixar de conviver. Pode reconstruir a própria vida. Pode até compreender que aquela relação não deveria continuar. Mas nada disso exige que transforme o afeto em ódio ou declare morto todo sentimento de fraternidade.

O que frequentemente acaba é a paixão. O amor pode mudar de forma. É justamente aí que a atribuição a Bezerra de Menezes se torna particularmente delicada. Não basta alguém afirmar que viu determinado Espírito ou recebeu dele determinada frase. Kardec jamais recomendou essa credulidade. No Livro dos Médiuns, estabeleceu critérios de prudência para a identificação dos Espíritos e para o exame das comunicações.

O Espiritismo não é a doutrina do “eu vi”.  É a doutrina do examine, compare, raciocine e não aceite sem discernimento.

Quanto mais respeitável o nome apresentado, maior deveria ser o cuidado. Afinal, uma mensagem atribuída a Bezerra chega ao público revestida de uma autoridade que uma opinião pessoal jamais teria.

E esse é o verdadeiro problema. Quando milhares de pessoas escutam uma palestrante conhecida afirmar que determinada frase veio de Bezerra, quantas terão condições de separar a opinião da suposta revelação? Quantas conhecem os critérios kardecianos de análise mediúnica? Quantas simplesmente aceitarão a declaração porque confiam na celebridade de quem fala?

É assim que a fama pode substituir o critério e a autoridade pessoal pode ocupar o lugar da razão. Não se combate isso com censura. Combate-se com estudo.

Se é uma reflexão pessoal, que seja assumida como tal. Se é uma comunicação mediúnica, que seja submetida ao exame que Kardec recomendou. O que não se pode fazer é transformar o nome de um Espírito venerável em espécie de certificado automático de autenticidade.

Bezerra de Menezes merece respeito precisamente porque seu nome não deveria ser utilizado como aval para qualquer afirmação.

E o amor também merece respeito.

Porque, se confundirmos amor com paixão, estaremos ensinando uma geração inteira a chamar de “amor” aquilo que pode ser apenas desejo, apego, encantamento ou necessidade afetiva.

A paixão pode incendiar e depois apagar-se. O amor, compreendido em sua dimensão espiritual, não é um fósforo: é caminho de evolução.

O Espiritismo não precisa de frases espetaculares atribuídas aos Espíritos. Precisa de verdade, responsabilidade, razão e humildade.

E, antes de afirmar “Bezerra disse”, talvez fosse prudente fazer a pergunta que todo espírita deveria fazer.

Onde está a prova?

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

17 setembro 2026

Lançai a rede à direita , mas não entregueis a consciência à ideologia


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Obviamente Jesus não ensinou a pescar homens para partidos. Ensinou a orientar a consciência pelo caminho da verdade, da justiça e do equilíbrio. Quando qualquer ideologia pretende capturar o pensamento humano pela coerção, a rede já foi lançada para o lado errado.

Lançai a rede para a banda direita do barco e achareis.” (João 21:6). À primeira vista, trata-se apenas de uma orientação dada por Jesus a pescadores. Emmanuel, porém, extrai dessa cena uma lição muito mais profunda: a posição do barco simboliza a condição espiritual de quem age; a rede representa os interesses, pensamentos, desejos e esforços que lançamos diariamente na existência. Pergunta Emmanuel: para que lado estamos lançando nossas redes?

Não se trata de geografia. Muito menos do que uma senha partidária.

Trata-se de orientação moralA “direita” mencionada por Cristo pode ser compreendida como o caminho reto, a direção justa, a escolha equilibrada, a conduta coerente com as leis divinas. Emmanuel pergunta se nossos pensamentos e atos estão fundamentados na verdadeira justiça e recomenda atenção aos “caminhos retos”.

E aqui a metáfora evangélica adquire uma atualidade desconcertante. Vivemos uma época em que determinadas correntes ideológicas passaram a reivindicar para si o direito de estabelecer o que pode ser dito, pensado, publicado ou contestado. Isso não é exclusividade de uma corrente política. A tentação autoritária não possui partido; possui apenas ideologia quando esta deixa de ser instrumento de reflexão e passa a funcionar como mecanismo de dominação.

É justamente aí que precisamos lançar a rede à direita. Não à direita de um partido, mas à direita da consciência. Não podemos aceitar que a liberdade de pensamento seja tolerada apenas quando o pensamento coincide com aquilo que determinado grupo considera aceitável. Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode transformar divergência em delito por mera conveniência ideológica.

A Constituição brasileira estabelece como direitos fundamentais a livre manifestação do pensamento, a liberdade de consciência e a liberdade de expressão intelectual, artística, científica e de comunicação. Ao mesmo tempo, protege honra, imagem e outros direitos fundamentais, estabelecendo que liberdade não significa licença para violar direitos alheios.

Eis o ponto que frequentemente desaparece no debate político: liberdade não é licença para caluniar; mas combate à calúnia também não pode converter-se em instrumento para silenciar a crítica legítima. Uma democracia madura precisa suportar o contraditório, o dissenso, a opinião impopular e até mesmo a opinião que incomoda.

O Supremo Tribunal Federal, em julgamento com repercussão geral concluído em 2026, reafirmou que determinadas campanhas de mobilização social estão protegidas pela liberdade de expressão, estabelecendo também parâmetros para responsabilização quando presentes elementos de má-fé.

Isso demonstra que a questão não pode ser reduzida à caricatura de “liberdade absoluta” contra “censura absoluta”. Existe uma zona constitucionalmente delicada entre liberdade, responsabilidade, honra, segurança, democracia e proteção contra ilícitos.

Mas justamente por ser delicada, essa zona não pode ser tratada com fanatismo. Toda vez que o poder passa a considerar perigoso aquele que discorda, a democracia começa a adoecer. E isso vale para a esquerda, vale para a direita, vale para liberais, conservadores, socialistas, progressistas, religiosos, ateus e para qualquer outro agrupamento humano.

O Espiritismo, aliás, não recomenda submissão intelectual. Kardec estabeleceu como princípio fundamental o livre exame, a razão e a análise dos ensinamentos. A fé espírita não deveria produzir consciências domesticadas, mas homens e mulheres capazes de raciocinar, confrontar informações, reconhecer erros e modificar suas convicções diante de evidências.

Por isso, há algo profundamente incompatível com o espírito do Evangelho quando alguém pretende monopolizar a verdade política. Jesus não pediu discípulos de partido. Pediu discípulos da verdade.

A rede lançada à direita é, portanto, a rede da consciência esclarecida,  da responsabilidade,  do pensamento livre, porém responsável, da crítica sem ódio, da convicção sem fanatismo e da liberdade sem irresponsabilidade.

E talvez esta seja uma das maiores urgências espirituais do nosso tempo: não permitir que ideologias transformem pessoas em peixes capturados por redes de propaganda, medo, ressentimento ou submissão.

Cristo mandou lançar a rede. Mas não mandou entregar a consciência, porque a consciência pertence ao indivíduo diante de Deus.

Por isso, quando a política exigir silêncio onde deveria existir debate, quando a ideologia exigir obediência onde deveria existir reflexão, quando o poder pretender substituir a consciência individual por uma cartilha oficial de pensamento, é preciso recordar a advertência evangélica.

Lançai a rede à direita.

À direita da verdade,  da justiça,  da liberdade responsável,  da dignidade humana. Porque o problema não é simplesmente descobrir se somos “de esquerda” ou “de direita”. O problema muito mais grave é descobrir se estamos lançando nossas redes na direção da verdade ou se já estamos presos dentro das redes que outros lançaram sobre nossa própria consciência (A DITADURA).

 

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. João 21:6. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Caminho, Verdade e Vida. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 21: “Caminhos retos”.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Tema 837: definição dos limites da liberdade de expressão em contraposição a outros direitos de igual hierarquia jurídica. Brasília, DF, 2026

A grande hipocrisia moral: exigir dos outros o que recusamos fazer em nós


jorge hessen

Brasília -DF

 

Enquanto exigimos a reforma dos governos, das instituições e da sociedade, continuamos tolerando, dentro de nós, o egoísmo, a intolerância, a vaidade e a indiferença. Essa contradição não é apenas social: é, antes de tudo, moral.

Há uma praga silenciosa que atravessa a sociedade: a terceirização da responsabilidade. Tudo é culpa dos outros. O governo é culpado. Os políticos são culpados. Os empresários são culpados. As instituições são culpadas. A família é culpada. A sociedade é culpada. Até as circunstâncias recebem a conta.

E nós? Quase sempre nos colocamos convenientemente fora do problema. É muito fácil apontar o dedo para fora. Difícil é apontá-lo para dentro de nós mesmos.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, não oferece ao homem o conforto da passividade. Cada criatura possui deveres, possibilidades e utilidade no processo do progresso. Quem espera que os outros façam aquilo que também lhe compete não está exercendo cidadania moral; está apenas terceirizando a própria consciência.

Queremos justiça, mas promovemos injustiças. Pedimos tolerância, mas agenciamos intolerâncias. Exigimos compreensão, mas não compreendemos. Condenamos o egoísmo alheio enquanto negociamos vantagens para nós mesmos. Ora, que espécie de reforma social pretendemos realizar sem reforma moral?

Eis a diferença entre uma consciência ainda escravizada pelos desejos e outra que começa a conquistar a própria liberdade. O Codificador não propõe a destruição das paixões, mas o governo dos impulsos inferiores pela razão e pela vontade. Espiritualidade sem autodomínio é apenas retórica religiosa.

Também por isso precisamos abandonar a ilusão de que a oração substitui a transformação. Orar é importante. Mas quem ora pedindo paz e continua espalhando agressividade precisa perguntar se realmente compreendeu o sentido da oração.

“Fora da caridade não há salvação” não é um convite à esmola automática nem um salvo-conduto para a hipocrisia. Caridade é benevolência, indulgência, perdão, solidariedade e respeito.

Podemos discordar. Podemos estabelecer limites. Podemos buscar justiça. O que não precisamos é transformar divergência em ódio e indignação em vingança.

Há ainda os que, decepcionados com a humanidade, passam a desprezá-la. É a misantropia disfarçada de lucidez. Isolam-se, criticam todos e terminam acreditando que a própria amargura é sinal de superioridade. Não é!

Ninguém evolui sozinho. A família é oficina de aprendizado. Os vínculos complexos também podem ser oportunidades de paciência, tolerância, reparação e crescimento. E ademais, a fraternidade não termina na porta de casa.

Quem proclama espiritualidade, mas aceita a destruição irresponsável das florestas, a contaminação dos rios, a crueldade contra os animais e a devastação da biodiversidade precisa rever sua própria compreensão de respeito à vida. Não podemos falar em reverência à criação enquanto tratamos a natureza como simples mercadoria.

O Espiritismo convoca à razão, ao livre exame, à responsabilidade e ao progresso. Não é uma doutrina para alimentar a reclamação permanente, o vitimismo ou a confortável posição de espectador.

O verdadeiro espírita não é aquele que se apresenta como moralmente superior. É aquele que, silenciosamente, torna-se menos egoísta, menos intolerante, menos vingativo, mais fraterno e mais útil.

A Terra não será transformada pela multiplicação de discursos inflamados, acusações permanentes ou salvacionismos de ocasião. A transformação começa quando deixamos de perguntar quem é o culpado e começamos a perguntar qual é a nossa responsabilidade.

Porque, no fim das contas, há uma verdade incômoda que ninguém deveria ignorar: o mundo que tanto condenamos também é construído pelas consciências que somos.

E a reforma que exigimos da humanidade começa, inevitavelmente, diante do espelho.

Agora!

 

 

16 setembro 2026

Assistencialismo, terapismo e personalismo e um Espiritismo desidratado



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre assistencialismo, terapias inócuas e personalismos, a Doutrina Espírita corre o risco de ser empurrada para o canto, justamente onde deveria estar o centro de tudo.

Há algo profundamente reprovável quando uma Casa Espírita consegue multiplicar campanhas, terapias, tratamentos, eventos e atividades sociais, mas encontra cada vez menos tempo para estudar Allan Kardec.

É preciso dizer sem rodeios: assistência social não é sinônimo de Espiritismo, tanto quanto as terapias de “cura”  não são sinônimo de Espiritismo. Até mesmo os passes , os fenômenos mediúnicos não são sinônimos de Espiritismo. Tudo isso pode encontrar lugar numa instituição espírita. Nada disso, porém, pode ocupar o lugar da Doutrina.

O problema não é “ajudar” os pobres. Ao contrário. O problema é transformar a assistência em finalidade absoluta, criando uma instituição extremamente ativa no plano material e progressivamente desidratada no plano espiritual.

A caridade espírita não pode limitar-se à cesta básica. Ela deve também libertar da ignorância, educar a consciência, estimular a autonomia e promover a transformação moral. Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 886, ao tratar da caridade, não a reduz ao socorro material.

Mais preocupante ainda é a crescente terapização das Casas Espíritas. O Espiritismo não foi criado para funcionar como clínica alternativa.

O corpo precisa de cuidados médicos. O sofrimento físico merece assistência. Mas o objeto essencial da Doutrina é o Espírito: sua imortalidade, responsabilidade, evolução e transformação moral.

Quando uma Casa espírita passa a ser procurada principalmente por suas terapias, e não pelo estudo e vivência da Doutrina, alguma coisa saiu do eixo.

O Livro dos EspíritosO Evangelho segundo o EspiritismoO Livro dos Médiuns e A Gênese não podem ser tratados como peças decorativas de uma biblioteca. Kardec não pode virar rodapé de uma instituição que se diz espírita.

Léon Denis, Emmanuel e André Luiz, cada qual em sua perspectiva e contexto, igualmente colocaram a educação espiritual, a responsabilidade e o aperfeiçoamento moral no centro da experiência espírita. A literatura espírita clássica jamais autorizou a redução do ser humano ao corpo ou a substituição da reforma íntima por uma sucessão interminável de procedimentos.

E há uma questão que precisa ser enfrentada: caridade não significa conivência.  Devemos advertir, porque advertir não é odiar. Precisamos questionar, porque questionar não é perseguir. Discordar, com respeito e fundamento, não é faltar com a fraternidade. E humildade não significa silenciar diante do erro. Ao contrário: há momentos em que o verdadeiro compromisso com a fraternidade exige a coragem de advertir, questionar e discordar.

Uma Casa Espírita que não aceita questionamento corre o risco de trocar a Doutrina pelo personalismo de seus dirigentes. E o dirigente não é proprietário. Até porque  o cargo é encargo, tanto quanto o mandato é responsabilidade; ademais, uma instituição espírita não é feudo particular.

Também não se pode transformar a mediunidade em mercado. Jesus foi explícito: “De graça recebestes, de graça dai” (MATEUS, 10:8). A manutenção financeira de uma instituição é legítima e necessária; outra, muito diferente, é transformar benefícios espirituais em mercadoria, vinculando-os a relações comerciais.

O movimento espírita precisa recuperar o eixo.

Urge menos culto à estrutura, menos personalismo, menos terapismo, menos assistencialismo sem emancipação e mais Kardec,  Evangelho, estudo, discernimento,  educação espiritual e

Mais reforma moral.

A Casa Espírita não precisa fazer menos caridade. Precisa fazer caridade mais inteligente, mais educativa e mais libertadora. Nem precisa abandonar o cuidado do corpo, mas importa deixar de confundir o corpo com o Espírito.

A Casa Espírita precisa ser mais acolhedora,  mais fiel àquilo que afirma representar. Porque há uma diferença brutal entre uma instituição cheia de atividades e uma instituição vazia de doutrina. Pode haver uma multidão entrando pela porta de uma Casa Espírita e, paradoxalmente, o Espiritismo saindo pela porta dos fundos.

Esse é o perigo que não podemos fingir que não enxergamos.

 

 

15 setembro 2026

Quando a mediunidade vira espetáculo, o silêncio institucional já não pode ser confundido com prudência


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre cartas “consoladoras” contraditas, revelações espetaculares e supostos diálogos com Kardec, o movimento espírita parece ter esquecido a vacina contra a credulidade: a própria razão.

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e começa a parecer omissão ou cumplicidade. O movimento espírita brasileiro vive um desses momentos.

Não estamos diante de uma simples divergência entre correntes doutrinárias. O que se vê é algo muito mais grave: a progressiva banalização do charlatanismo, a personalização da mediunidade e a substituição do método kardeciano pela autoridade de quem afirma possuir acesso privilegiado ao mundo espiritual.

Cartas “consoladoras” supostamente psicografadas (com informações 100% obtidas na Internet), destinadas a famílias devastadas pelo luto, passaram a ser objeto de denúncias e questionamentos jornalísticos sérios porque informações atribuídas aos mortos poderiam, segundo as acusações, ter sido obtidas em redes sociais e na internet. O assunto chegou à televisão aberta, provocou reação pública e colocou sob suspeita procedimentos que, por sua natureza, deveriam ser tratados judicialmente com extremo rigor.

A resposta não pode ser o insulto aos jornalistas, aos pesquisadores ou às famílias que questionam. A resposta deve ser a prova. Se a comunicação é autêntica, que seja examinada. Se existem elementos verificáveis, que sejam apresentados. Se as acusações são infundadas, que sejam refutadas documentalmente.

Mas transformar todo questionamento em acusações difamatórias e perseguição pela internet é uma maneira particularmente criminosa de fugir da questão central. E a questão é brutalmente simples: de onde vieram as informações?

Kardec jamais construiu o Espiritismo sobre a credulidade diante do médium. Ao contrário. O Livro dos Médiuns é uma advertência permanente contra a mistificação, a fraude, a fascinação, o charlatanismo e a aceitação precipitada de comunicações espirituais.

É por isso que determinadas novidades que circulam no movimento causam perplexidade. Agora aparecem afirmações de comunicação direta com Allan Kardec e até a proposta de um suposto “Livro dos Espíritos 2”.

É preciso dizer sem rodeios: Allan Kardec não é selo de autenticação para qualquer revelação contemporânea. Quem afirma conversar com Kardec não recebe, por isso, autoridade kardeciana.

Quem declara receber mensagens do além não adquire imunidade contra a crítica. Quem reúne milhares de seguidores não ganha certificado de infalibilidade. O Espiritismo não funciona assim. Ou não deveria funcionar.

Há ainda a defesa pública de práticas mediúnicas realizadas no ambiente familiar, acompanhada da valorização da evocação de Espíritos como se a simples experiência pessoal fosse suficiente para legitimar o procedimento.

Não é.

No universo kardeciano, fenômeno sem exame é apenas fenômeno. Experiência pessoal não constitui doutrina. Convicção íntima não constitui prova. O Espiritismo não nasceu para abolir a razão em nome dos Espíritos. Nasceu para aproximar a investigação espiritual da razão.

E justamente por isso a postura da Federação Espírita Brasileira merece ser discutida. Não se trata de exigir que uma instituição condene pessoas sem investigação. Trata-se de perguntar qual é seu papel diante de episódios que repercutem nacionalmente e podem deformar a imagem pública da Doutrina Espírita.

Uma Federação que historicamente se apresenta como referência na difusão do Espiritismo não pode ser percebida apenas como uma indústria que só mira lucros com editora, distribuidora de livros ou administradora institucional.

O movimento precisa de uma voz doutrinária. Precisa de estudo, de esclarecimento e de coragem para dizer onde termina o Espiritismo e onde começam as invenções humanas atribuídas a ele.

Não há aqui qualquer guerra contra a mediunidade. A guerra é contra a credulidade travestida de fé. Contra o personalismo travestido de autoridade espiritual e o espetáculo travestido de fenômeno.

Contra a exploração do sofrimento e estelionato do luto  travestida de consolação. E contra a ideia absurda de que questionar um médium equivale a atacar o Espiritismo. É exatamente o contrário.

Questionar é proteger a Doutrina. Investigar é honrar Kardec. Exigir provas é respeitar os Espíritos. Desconfiar daquilo que parece maravilhoso demais é exercer a própria faculdade que Kardec mais valorizou: o pensamento.

O movimento espírita precisa decidir o que quer ser. Uma escola de pensamento fundada na observação, na razão, na moral cristã e no livre exame? Ou um ambiente de celebridades mediúnicas, revelações particulares e histórias extraordinárias consumidas por uma multidão sedenta de consolo?

A escolha não é pequena. Porque se tudo pode ser chamado de Espiritismo, então nada mais é Espiritismo. Talvez estejamos mesmo diante da apoteose dos desvios.

Talvez seja o momento em que a caricatura se tornou tão grotesca que já não pode ser ignorada. Então que venha a atitude. Não pela censura.Não pela perseguição. Não pela intolerância. Pela razão.

Que se abram os livros de Kardec e estudem os textos,  confrontem as afirmações,  investiguem os fatos. Que se retirem os holofotes. E que permaneça aquilo que sobreviver ao exame.

Porque o Espiritismo não precisa temer a verdade. Quem precisa temê-la é o falso médium. E se existe uma coisa que Allan Kardec jamais nos ensinou, foi a acreditar porque alguém mandou. Ele nos ensinou a pensar e a repelir dez verdades do que a admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conheça a FEB: missão e história da Federação Espírita Brasileira. Brasília, DF: FEB.

 

14 setembro 2026

Mediunidade não é brinquedo de família


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma inquietante irresponsabilidade quando um protótipo de espírita , querendo ser “autoridade” no movimento espírita, transforma a mediunidade em atividade doméstica banal e, pior ainda, apresenta a evocação de desencarnados como se fosse prática simples, segura e recomendável a qualquer grupo familiar.

Convém separar as coisas. Allan Kardec não condenou pequenas reuniões familiares de estudo espírita. Em 1862, na Revista Espírita, ele chegou a reconhecer vantagens nas reuniões particulares realizadas nos lares, inclusive como espaços de iniciação e estudo.

Outra coisa, muito diferente, é transformar a residência em núcleo improvisado de manifestações mediúnicas, evocações e atendimento a Espíritos sofredores, sobretudo quando conduzido por soberbos e “infalíveis” espíritas sem preparo doutrinário, sem disciplina e sem compreensão dos riscos morais e psíquicos envolvidos.

O próprio Kardec é taxativo quanto à necessidade de ordem, prudência, recolhimento e finalidade séria. No regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, determinou-se que perguntas aos Espíritos poderiam ser recusadas quando fossem fúteis, pessoais, movidas por curiosidade ou desprovidas de finalidade geral.

Isso deveria bastar para desmontar certas aventuras mediúnicas travestidas de Espiritismo.

Evocar mortos por bisbilhotice, saudade, interesse particular ou desejo de obter respostas pessoais não é demonstração de fé; pode ser, precisamente, o contrário da prudência espírita. O capítulo das evocações, em O Livro dos Médiuns, não é um convite à improvisação. É um estudo sério sobre as condições, as consequências, a identidade dos Espíritos e as possibilidades de mistificação.

Também é grave a ideia de que todo pequeno grupo familiar seja, por isso mesmo, espiritualmente seguro. Número reduzido não significa competência; intimidade não produz superioridade espiritual; parentesco não confere autoridade mediúnica.

O Espiritismo não necessita de líderes soezes que fabriquem facilidades onde Kardec recomendou estudo, método, disciplina e discernimento. Tampouco precisa de pretensas autoridades que, pela força da fama, transformem opiniões pessoais em supostas orientações doutrinárias.

O movimento espírita precisa recuperar uma virtude elementar: responsabilidade.

Reunião familiar para estudar o Evangelho, refletir sobre Kardec e cultivar a prece é uma coisa. Outra, inteiramente diversa, é organizar em casa sessões mediúnicas para evocar desencarnados, atender Espíritos sofredores ou experimentar fenômenos como quem manipula um laboratório doméstico.

Não se trata de medo. Trata-se de prudência espírita. O Espiritismo sério não é espetáculo, passatempo nem laboratório de curiosidades sobrenaturais. É conhecimento submetido à razão, à observação e à moral cristã.

Quem pretende falar em nome de Kardec deveria, antes de tudo, lê-lo com honestidade. Porque a maior irresponsabilidade doutrinária não é desconhecer uma página de Kardec. É conhecê-la e, mesmo assim, ensinar de forma enviesada.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: FEB, cap. XXV, XXIX e XXX.

 KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Paris, jul. 1862, “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”.