Jorge Hessen
Brasília -DF
Há uma distorção grave em curso no movimento espírita brasileiro e o mais inquietante é que muitos não a percebem. Grupos espíritas (feudos) que deveriam funcionar como escolas de consciência têm, gradativamente, assumido a postura de tribunais morais. Aí, não se acolhe para educar; julga-se para desqualificar. Não se orienta com empatia, mas corrige-se com aspereza. Não se constrói consciência, mas impõe-se conduta padronizada.
E tudo isso em nome de uma suposta “fidelidade” doutrinária. Obviamente é preciso dizer com clareza que isso não é Espiritismo. É certo que a Doutrina jamais propôs a eliminação do julgamento. Julgar faz parte da estrutura racional do ser, pois nos permite discernir, escolher e evoluir. Sem julgamento, não há ética. Sem ética, não há progresso. Porém, o que se observa hoje não é o uso saudável dessa faculdade, mas sua perversão.
O julgamento, em muitos ambientes “espíritas”, deixou de ser instrumento de lucidez para se tornar mecanismo de poder. Pois julga-se para constranger, para controlar e, sobretudo, para sentir-se acima. E aqui está o ponto central que muitos evitam encarar. O que se apresenta como “rigor moral” é, frequentemente, apenas orgulho bem articulado. Portanto, não se trata de defesa da doutrina, mas de vaidade espiritual.
Cria-se, então, um ambiente tóxico. As pessoas passam a medir cada palavra, cada atitude, não por consciência, mas por receio do olhar alheio, da crítica velada e da exclusão silenciosa. O resultado é previsível: consciências reprimidas, culpas infladas, relações superficiais e uma crescente necessidade de parecer aquilo que ainda não se é.
Isso tem nome: hipocrisia moral. E isso não é exagero. É consequência direta de um modelo onde a aparência de virtude vale mais do que o esforço sincero de transformação.
Enquanto isso, a base moral do Espiritismo vai sendo esvaziada na prática. A advertência do Cristo, relembrada em O Evangelho segundo o Espiritismo “Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado” — tornou-se, para muitos, apenas uma citação decorativa (KARDEC, 2018).
Porque, na vivência real, as pedras continuam sendo lançadas com impressionante facilidade. O mais preocupante é que essa cultura se perpetua sob o silêncio de lideranças “oficiais” que, por responsabilidade doutrinária, deveriam se posicionar. A omissão, nesse caso, não é neutra , ela legitima o desvio. E assim, o movimento segue, pouco a pouco, se afastando de sua essência.
É preciso interromper esse processo. O Espiritismo não forma juízes, mas Espíritos em aprendizado e não exige perfeição imediata, mas esforço contínuo. Porque Kardec não legitima a dureza, mas ensina a caridade. Que não é condescendência com o erro, mas compreensão de quem erra. Sem isso, tudo o que resta é uma caricatura da doutrina: rígida, fria e incapaz de transformar realmente o ser humano.
Fica, portanto, uma pergunta incômoda , mas necessária: estamos formando consciências livres ou apenas reproduzindo tribunais disfarçados de grupos espíritas? Ora, se a resposta não vier acompanhada de autocrítica sincera, o risco é evidente: continuaremos chamando de Espiritismo aquilo que, na prática, já se afastou da Terceira Revelação.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131. ed. Brasília: FEB, 2018.
XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2016.
DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2017.










