19 setembro 2026

Não, Bezerra de Menezes jamais “diria” que o amor acaba



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Paixão termina. Relacionamentos se desfazem. O amor, porém, não pode ser reduzido ao fogo passageiro do desejo e muito menos colocado na boca do Espírito Bezerra de Menezes sem qualquer comprovação.

Há frases que são tão irresponsáveis que se tornam perigosas quando recebem o carimbo de um Espírito venerável.

Dizer que “o amor também acaba e ninguém ama só uma vez” pode ser uma opinião pessoal sobre relacionamentos. O problema começa quando essa afirmação é apresentada como suposta comunicação de Bezerra de Menezes. Nesse momento, já não se discute apenas uma concepção sentimental. Discutem-se responsabilidade mediúnica, autoridade doutrinária e respeito ao público.

Convém colocar cada coisa em seu devido lugar. Paixão não é amor. Desejo não é amor. Encantamento não é amor. Dependência afetiva não é amor. Um relacionamento pode terminar; duas pessoas podem deixar de conviver; a atração pode desaparecer. Tudo isso pertence à experiência humana.

Mas daí concluir que o amor acaba é outra coisa. No horizonte espírita, o amor não se reduz à combustão emocional entre duas pessoas. Está associado à lei divina, à fraternidade, à caridade e ao próprio processo de aperfeiçoamento do Espírito.

Em Kardec, o amor não aparece como mercadoria sentimental com prazo de validade. Ele constitui princípio de transformação moral. Quem verdadeiramente amou pode deixar de desejar. Pode deixar de conviver. Pode reconstruir a própria vida. Pode até compreender que aquela relação não deveria continuar. Mas nada disso exige que transforme o afeto em ódio ou declare morto todo sentimento de fraternidade.

O que frequentemente acaba é a paixão. O amor pode mudar de forma. É justamente aí que a atribuição a Bezerra de Menezes se torna particularmente delicada. Não basta alguém afirmar que viu determinado Espírito ou recebeu dele determinada frase. Kardec jamais recomendou essa credulidade. No Livro dos Médiuns, estabeleceu critérios de prudência para a identificação dos Espíritos e para o exame das comunicações.

O Espiritismo não é a doutrina do “eu vi”.  É a doutrina do examine, compare, raciocine e não aceite sem discernimento.

Quanto mais respeitável o nome apresentado, maior deveria ser o cuidado. Afinal, uma mensagem atribuída a Bezerra chega ao público revestida de uma autoridade que uma opinião pessoal jamais teria.

E esse é o verdadeiro problema. Quando milhares de pessoas escutam uma palestrante conhecida afirmar que determinada frase veio de Bezerra, quantas terão condições de separar a opinião da suposta revelação? Quantas conhecem os critérios kardecianos de análise mediúnica? Quantas simplesmente aceitarão a declaração porque confiam na celebridade de quem fala?

É assim que a fama pode substituir o critério e a autoridade pessoal pode ocupar o lugar da razão. Não se combate isso com censura. Combate-se com estudo.

Se é uma reflexão pessoal, que seja assumida como tal. Se é uma comunicação mediúnica, que seja submetida ao exame que Kardec recomendou. O que não se pode fazer é transformar o nome de um Espírito venerável em espécie de certificado automático de autenticidade.

Bezerra de Menezes merece respeito precisamente porque seu nome não deveria ser utilizado como aval para qualquer afirmação.

E o amor também merece respeito.

Porque, se confundirmos amor com paixão, estaremos ensinando uma geração inteira a chamar de “amor” aquilo que pode ser apenas desejo, apego, encantamento ou necessidade afetiva.

A paixão pode incendiar e depois apagar-se. O amor, compreendido em sua dimensão espiritual, não é um fósforo: é caminho de evolução.

O Espiritismo não precisa de frases espetaculares atribuídas aos Espíritos. Precisa de verdade, responsabilidade, razão e humildade.

E, antes de afirmar “Bezerra disse”, talvez fosse prudente fazer a pergunta que todo espírita deveria fazer.

Onde está a prova?

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

17 setembro 2026

Lançai a rede à direita , mas não entregueis a consciência à ideologia


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Obviamente Jesus não ensinou a pescar homens para partidos. Ensinou a orientar a consciência pelo caminho da verdade, da justiça e do equilíbrio. Quando qualquer ideologia pretende capturar o pensamento humano pela coerção, a rede já foi lançada para o lado errado.

Lançai a rede para a banda direita do barco e achareis.” (João 21:6). À primeira vista, trata-se apenas de uma orientação dada por Jesus a pescadores. Emmanuel, porém, extrai dessa cena uma lição muito mais profunda: a posição do barco simboliza a condição espiritual de quem age; a rede representa os interesses, pensamentos, desejos e esforços que lançamos diariamente na existência. Pergunta Emmanuel: para que lado estamos lançando nossas redes?

Não se trata de geografia. Muito menos do que uma senha partidária.

Trata-se de orientação moralA “direita” mencionada por Cristo pode ser compreendida como o caminho reto, a direção justa, a escolha equilibrada, a conduta coerente com as leis divinas. Emmanuel pergunta se nossos pensamentos e atos estão fundamentados na verdadeira justiça e recomenda atenção aos “caminhos retos”.

E aqui a metáfora evangélica adquire uma atualidade desconcertante. Vivemos uma época em que determinadas correntes ideológicas passaram a reivindicar para si o direito de estabelecer o que pode ser dito, pensado, publicado ou contestado. Isso não é exclusividade de uma corrente política. A tentação autoritária não possui partido; possui apenas ideologia quando esta deixa de ser instrumento de reflexão e passa a funcionar como mecanismo de dominação.

É justamente aí que precisamos lançar a rede à direita. Não à direita de um partido, mas à direita da consciência. Não podemos aceitar que a liberdade de pensamento seja tolerada apenas quando o pensamento coincide com aquilo que determinado grupo considera aceitável. Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode transformar divergência em delito por mera conveniência ideológica.

A Constituição brasileira estabelece como direitos fundamentais a livre manifestação do pensamento, a liberdade de consciência e a liberdade de expressão intelectual, artística, científica e de comunicação. Ao mesmo tempo, protege honra, imagem e outros direitos fundamentais, estabelecendo que liberdade não significa licença para violar direitos alheios.

Eis o ponto que frequentemente desaparece no debate político: liberdade não é licença para caluniar; mas combate à calúnia também não pode converter-se em instrumento para silenciar a crítica legítima. Uma democracia madura precisa suportar o contraditório, o dissenso, a opinião impopular e até mesmo a opinião que incomoda.

O Supremo Tribunal Federal, em julgamento com repercussão geral concluído em 2026, reafirmou que determinadas campanhas de mobilização social estão protegidas pela liberdade de expressão, estabelecendo também parâmetros para responsabilização quando presentes elementos de má-fé.

Isso demonstra que a questão não pode ser reduzida à caricatura de “liberdade absoluta” contra “censura absoluta”. Existe uma zona constitucionalmente delicada entre liberdade, responsabilidade, honra, segurança, democracia e proteção contra ilícitos.

Mas justamente por ser delicada, essa zona não pode ser tratada com fanatismo. Toda vez que o poder passa a considerar perigoso aquele que discorda, a democracia começa a adoecer. E isso vale para a esquerda, vale para a direita, vale para liberais, conservadores, socialistas, progressistas, religiosos, ateus e para qualquer outro agrupamento humano.

O Espiritismo, aliás, não recomenda submissão intelectual. Kardec estabeleceu como princípio fundamental o livre exame, a razão e a análise dos ensinamentos. A fé espírita não deveria produzir consciências domesticadas, mas homens e mulheres capazes de raciocinar, confrontar informações, reconhecer erros e modificar suas convicções diante de evidências.

Por isso, há algo profundamente incompatível com o espírito do Evangelho quando alguém pretende monopolizar a verdade política. Jesus não pediu discípulos de partido. Pediu discípulos da verdade.

A rede lançada à direita é, portanto, a rede da consciência esclarecida,  da responsabilidade,  do pensamento livre, porém responsável, da crítica sem ódio, da convicção sem fanatismo e da liberdade sem irresponsabilidade.

E talvez esta seja uma das maiores urgências espirituais do nosso tempo: não permitir que ideologias transformem pessoas em peixes capturados por redes de propaganda, medo, ressentimento ou submissão.

Cristo mandou lançar a rede. Mas não mandou entregar a consciência, porque a consciência pertence ao indivíduo diante de Deus.

Por isso, quando a política exigir silêncio onde deveria existir debate, quando a ideologia exigir obediência onde deveria existir reflexão, quando o poder pretender substituir a consciência individual por uma cartilha oficial de pensamento, é preciso recordar a advertência evangélica.

Lançai a rede à direita.

À direita da verdade,  da justiça,  da liberdade responsável,  da dignidade humana. Porque o problema não é simplesmente descobrir se somos “de esquerda” ou “de direita”. O problema muito mais grave é descobrir se estamos lançando nossas redes na direção da verdade ou se já estamos presos dentro das redes que outros lançaram sobre nossa própria consciência (A DITADURA).

 

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. João 21:6. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Caminho, Verdade e Vida. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 21: “Caminhos retos”.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Tema 837: definição dos limites da liberdade de expressão em contraposição a outros direitos de igual hierarquia jurídica. Brasília, DF, 2026

A grande hipocrisia moral: exigir dos outros o que recusamos fazer em nós


jorge hessen

Brasília -DF

 

Enquanto exigimos a reforma dos governos, das instituições e da sociedade, continuamos tolerando, dentro de nós, o egoísmo, a intolerância, a vaidade e a indiferença. Essa contradição não é apenas social: é, antes de tudo, moral.

Há uma praga silenciosa que atravessa a sociedade: a terceirização da responsabilidade. Tudo é culpa dos outros. O governo é culpado. Os políticos são culpados. Os empresários são culpados. As instituições são culpadas. A família é culpada. A sociedade é culpada. Até as circunstâncias recebem a conta.

E nós? Quase sempre nos colocamos convenientemente fora do problema. É muito fácil apontar o dedo para fora. Difícil é apontá-lo para dentro de nós mesmos.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, não oferece ao homem o conforto da passividade. Cada criatura possui deveres, possibilidades e utilidade no processo do progresso. Quem espera que os outros façam aquilo que também lhe compete não está exercendo cidadania moral; está apenas terceirizando a própria consciência.

Queremos justiça, mas promovemos injustiças. Pedimos tolerância, mas agenciamos intolerâncias. Exigimos compreensão, mas não compreendemos. Condenamos o egoísmo alheio enquanto negociamos vantagens para nós mesmos. Ora, que espécie de reforma social pretendemos realizar sem reforma moral?

Eis a diferença entre uma consciência ainda escravizada pelos desejos e outra que começa a conquistar a própria liberdade. O Codificador não propõe a destruição das paixões, mas o governo dos impulsos inferiores pela razão e pela vontade. Espiritualidade sem autodomínio é apenas retórica religiosa.

Também por isso precisamos abandonar a ilusão de que a oração substitui a transformação. Orar é importante. Mas quem ora pedindo paz e continua espalhando agressividade precisa perguntar se realmente compreendeu o sentido da oração.

“Fora da caridade não há salvação” não é um convite à esmola automática nem um salvo-conduto para a hipocrisia. Caridade é benevolência, indulgência, perdão, solidariedade e respeito.

Podemos discordar. Podemos estabelecer limites. Podemos buscar justiça. O que não precisamos é transformar divergência em ódio e indignação em vingança.

Há ainda os que, decepcionados com a humanidade, passam a desprezá-la. É a misantropia disfarçada de lucidez. Isolam-se, criticam todos e terminam acreditando que a própria amargura é sinal de superioridade. Não é!

Ninguém evolui sozinho. A família é oficina de aprendizado. Os vínculos complexos também podem ser oportunidades de paciência, tolerância, reparação e crescimento. E ademais, a fraternidade não termina na porta de casa.

Quem proclama espiritualidade, mas aceita a destruição irresponsável das florestas, a contaminação dos rios, a crueldade contra os animais e a devastação da biodiversidade precisa rever sua própria compreensão de respeito à vida. Não podemos falar em reverência à criação enquanto tratamos a natureza como simples mercadoria.

O Espiritismo convoca à razão, ao livre exame, à responsabilidade e ao progresso. Não é uma doutrina para alimentar a reclamação permanente, o vitimismo ou a confortável posição de espectador.

O verdadeiro espírita não é aquele que se apresenta como moralmente superior. É aquele que, silenciosamente, torna-se menos egoísta, menos intolerante, menos vingativo, mais fraterno e mais útil.

A Terra não será transformada pela multiplicação de discursos inflamados, acusações permanentes ou salvacionismos de ocasião. A transformação começa quando deixamos de perguntar quem é o culpado e começamos a perguntar qual é a nossa responsabilidade.

Porque, no fim das contas, há uma verdade incômoda que ninguém deveria ignorar: o mundo que tanto condenamos também é construído pelas consciências que somos.

E a reforma que exigimos da humanidade começa, inevitavelmente, diante do espelho.

Agora!

 

 

16 setembro 2026

Assistencialismo, terapismo e personalismo e um Espiritismo desidratado



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre assistencialismo, terapias inócuas e personalismos, a Doutrina Espírita corre o risco de ser empurrada para o canto, justamente onde deveria estar o centro de tudo.

Há algo profundamente reprovável quando uma Casa Espírita consegue multiplicar campanhas, terapias, tratamentos, eventos e atividades sociais, mas encontra cada vez menos tempo para estudar Allan Kardec.

É preciso dizer sem rodeios: assistência social não é sinônimo de Espiritismo, tanto quanto as terapias de “cura”  não são sinônimo de Espiritismo. Até mesmo os passes , os fenômenos mediúnicos não são sinônimos de Espiritismo. Tudo isso pode encontrar lugar numa instituição espírita. Nada disso, porém, pode ocupar o lugar da Doutrina.

O problema não é “ajudar” os pobres. Ao contrário. O problema é transformar a assistência em finalidade absoluta, criando uma instituição extremamente ativa no plano material e progressivamente desidratada no plano espiritual.

A caridade espírita não pode limitar-se à cesta básica. Ela deve também libertar da ignorância, educar a consciência, estimular a autonomia e promover a transformação moral. Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 886, ao tratar da caridade, não a reduz ao socorro material.

Mais preocupante ainda é a crescente terapização das Casas Espíritas. O Espiritismo não foi criado para funcionar como clínica alternativa.

O corpo precisa de cuidados médicos. O sofrimento físico merece assistência. Mas o objeto essencial da Doutrina é o Espírito: sua imortalidade, responsabilidade, evolução e transformação moral.

Quando uma Casa espírita passa a ser procurada principalmente por suas terapias, e não pelo estudo e vivência da Doutrina, alguma coisa saiu do eixo.

O Livro dos EspíritosO Evangelho segundo o EspiritismoO Livro dos Médiuns e A Gênese não podem ser tratados como peças decorativas de uma biblioteca. Kardec não pode virar rodapé de uma instituição que se diz espírita.

Léon Denis, Emmanuel e André Luiz, cada qual em sua perspectiva e contexto, igualmente colocaram a educação espiritual, a responsabilidade e o aperfeiçoamento moral no centro da experiência espírita. A literatura espírita clássica jamais autorizou a redução do ser humano ao corpo ou a substituição da reforma íntima por uma sucessão interminável de procedimentos.

E há uma questão que precisa ser enfrentada: caridade não significa conivência.  Devemos advertir, porque advertir não é odiar. Precisamos questionar, porque questionar não é perseguir. Discordar, com respeito e fundamento, não é faltar com a fraternidade. E humildade não significa silenciar diante do erro. Ao contrário: há momentos em que o verdadeiro compromisso com a fraternidade exige a coragem de advertir, questionar e discordar.

Uma Casa Espírita que não aceita questionamento corre o risco de trocar a Doutrina pelo personalismo de seus dirigentes. E o dirigente não é proprietário. Até porque  o cargo é encargo, tanto quanto o mandato é responsabilidade; ademais, uma instituição espírita não é feudo particular.

Também não se pode transformar a mediunidade em mercado. Jesus foi explícito: “De graça recebestes, de graça dai” (MATEUS, 10:8). A manutenção financeira de uma instituição é legítima e necessária; outra, muito diferente, é transformar benefícios espirituais em mercadoria, vinculando-os a relações comerciais.

O movimento espírita precisa recuperar o eixo.

Urge menos culto à estrutura, menos personalismo, menos terapismo, menos assistencialismo sem emancipação e mais Kardec,  Evangelho, estudo, discernimento,  educação espiritual e

Mais reforma moral.

A Casa Espírita não precisa fazer menos caridade. Precisa fazer caridade mais inteligente, mais educativa e mais libertadora. Nem precisa abandonar o cuidado do corpo, mas importa deixar de confundir o corpo com o Espírito.

A Casa Espírita precisa ser mais acolhedora,  mais fiel àquilo que afirma representar. Porque há uma diferença brutal entre uma instituição cheia de atividades e uma instituição vazia de doutrina. Pode haver uma multidão entrando pela porta de uma Casa Espírita e, paradoxalmente, o Espiritismo saindo pela porta dos fundos.

Esse é o perigo que não podemos fingir que não enxergamos.

 

 

15 setembro 2026

Quando a mediunidade vira espetáculo, o silêncio institucional já não pode ser confundido com prudência


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre cartas “consoladoras” contraditas, revelações espetaculares e supostos diálogos com Kardec, o movimento espírita parece ter esquecido a vacina contra a credulidade: a própria razão.

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e começa a parecer omissão ou cumplicidade. O movimento espírita brasileiro vive um desses momentos.

Não estamos diante de uma simples divergência entre correntes doutrinárias. O que se vê é algo muito mais grave: a progressiva banalização do charlatanismo, a personalização da mediunidade e a substituição do método kardeciano pela autoridade de quem afirma possuir acesso privilegiado ao mundo espiritual.

Cartas “consoladoras” supostamente psicografadas (com informações 100% obtidas na Internet), destinadas a famílias devastadas pelo luto, passaram a ser objeto de denúncias e questionamentos jornalísticos sérios porque informações atribuídas aos mortos poderiam, segundo as acusações, ter sido obtidas em redes sociais e na internet. O assunto chegou à televisão aberta, provocou reação pública e colocou sob suspeita procedimentos que, por sua natureza, deveriam ser tratados judicialmente com extremo rigor.

A resposta não pode ser o insulto aos jornalistas, aos pesquisadores ou às famílias que questionam. A resposta deve ser a prova. Se a comunicação é autêntica, que seja examinada. Se existem elementos verificáveis, que sejam apresentados. Se as acusações são infundadas, que sejam refutadas documentalmente.

Mas transformar todo questionamento em acusações difamatórias e perseguição pela internet é uma maneira particularmente criminosa de fugir da questão central. E a questão é brutalmente simples: de onde vieram as informações?

Kardec jamais construiu o Espiritismo sobre a credulidade diante do médium. Ao contrário. O Livro dos Médiuns é uma advertência permanente contra a mistificação, a fraude, a fascinação, o charlatanismo e a aceitação precipitada de comunicações espirituais.

É por isso que determinadas novidades que circulam no movimento causam perplexidade. Agora aparecem afirmações de comunicação direta com Allan Kardec e até a proposta de um suposto “Livro dos Espíritos 2”.

É preciso dizer sem rodeios: Allan Kardec não é selo de autenticação para qualquer revelação contemporânea. Quem afirma conversar com Kardec não recebe, por isso, autoridade kardeciana.

Quem declara receber mensagens do além não adquire imunidade contra a crítica. Quem reúne milhares de seguidores não ganha certificado de infalibilidade. O Espiritismo não funciona assim. Ou não deveria funcionar.

Há ainda a defesa pública de práticas mediúnicas realizadas no ambiente familiar, acompanhada da valorização da evocação de Espíritos como se a simples experiência pessoal fosse suficiente para legitimar o procedimento.

Não é.

No universo kardeciano, fenômeno sem exame é apenas fenômeno. Experiência pessoal não constitui doutrina. Convicção íntima não constitui prova. O Espiritismo não nasceu para abolir a razão em nome dos Espíritos. Nasceu para aproximar a investigação espiritual da razão.

E justamente por isso a postura da Federação Espírita Brasileira merece ser discutida. Não se trata de exigir que uma instituição condene pessoas sem investigação. Trata-se de perguntar qual é seu papel diante de episódios que repercutem nacionalmente e podem deformar a imagem pública da Doutrina Espírita.

Uma Federação que historicamente se apresenta como referência na difusão do Espiritismo não pode ser percebida apenas como uma indústria que só mira lucros com editora, distribuidora de livros ou administradora institucional.

O movimento precisa de uma voz doutrinária. Precisa de estudo, de esclarecimento e de coragem para dizer onde termina o Espiritismo e onde começam as invenções humanas atribuídas a ele.

Não há aqui qualquer guerra contra a mediunidade. A guerra é contra a credulidade travestida de fé. Contra o personalismo travestido de autoridade espiritual e o espetáculo travestido de fenômeno.

Contra a exploração do sofrimento e estelionato do luto  travestida de consolação. E contra a ideia absurda de que questionar um médium equivale a atacar o Espiritismo. É exatamente o contrário.

Questionar é proteger a Doutrina. Investigar é honrar Kardec. Exigir provas é respeitar os Espíritos. Desconfiar daquilo que parece maravilhoso demais é exercer a própria faculdade que Kardec mais valorizou: o pensamento.

O movimento espírita precisa decidir o que quer ser. Uma escola de pensamento fundada na observação, na razão, na moral cristã e no livre exame? Ou um ambiente de celebridades mediúnicas, revelações particulares e histórias extraordinárias consumidas por uma multidão sedenta de consolo?

A escolha não é pequena. Porque se tudo pode ser chamado de Espiritismo, então nada mais é Espiritismo. Talvez estejamos mesmo diante da apoteose dos desvios.

Talvez seja o momento em que a caricatura se tornou tão grotesca que já não pode ser ignorada. Então que venha a atitude. Não pela censura.Não pela perseguição. Não pela intolerância. Pela razão.

Que se abram os livros de Kardec e estudem os textos,  confrontem as afirmações,  investiguem os fatos. Que se retirem os holofotes. E que permaneça aquilo que sobreviver ao exame.

Porque o Espiritismo não precisa temer a verdade. Quem precisa temê-la é o falso médium. E se existe uma coisa que Allan Kardec jamais nos ensinou, foi a acreditar porque alguém mandou. Ele nos ensinou a pensar e a repelir dez verdades do que a admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conheça a FEB: missão e história da Federação Espírita Brasileira. Brasília, DF: FEB.

 

14 setembro 2026

Mediunidade não é brinquedo de família


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma inquietante irresponsabilidade quando um protótipo de espírita , querendo ser “autoridade” no movimento espírita, transforma a mediunidade em atividade doméstica banal e, pior ainda, apresenta a evocação de desencarnados como se fosse prática simples, segura e recomendável a qualquer grupo familiar.

Convém separar as coisas. Allan Kardec não condenou pequenas reuniões familiares de estudo espírita. Em 1862, na Revista Espírita, ele chegou a reconhecer vantagens nas reuniões particulares realizadas nos lares, inclusive como espaços de iniciação e estudo.

Outra coisa, muito diferente, é transformar a residência em núcleo improvisado de manifestações mediúnicas, evocações e atendimento a Espíritos sofredores, sobretudo quando conduzido por soberbos e “infalíveis” espíritas sem preparo doutrinário, sem disciplina e sem compreensão dos riscos morais e psíquicos envolvidos.

O próprio Kardec é taxativo quanto à necessidade de ordem, prudência, recolhimento e finalidade séria. No regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, determinou-se que perguntas aos Espíritos poderiam ser recusadas quando fossem fúteis, pessoais, movidas por curiosidade ou desprovidas de finalidade geral.

Isso deveria bastar para desmontar certas aventuras mediúnicas travestidas de Espiritismo.

Evocar mortos por bisbilhotice, saudade, interesse particular ou desejo de obter respostas pessoais não é demonstração de fé; pode ser, precisamente, o contrário da prudência espírita. O capítulo das evocações, em O Livro dos Médiuns, não é um convite à improvisação. É um estudo sério sobre as condições, as consequências, a identidade dos Espíritos e as possibilidades de mistificação.

Também é grave a ideia de que todo pequeno grupo familiar seja, por isso mesmo, espiritualmente seguro. Número reduzido não significa competência; intimidade não produz superioridade espiritual; parentesco não confere autoridade mediúnica.

O Espiritismo não necessita de líderes soezes que fabriquem facilidades onde Kardec recomendou estudo, método, disciplina e discernimento. Tampouco precisa de pretensas autoridades que, pela força da fama, transformem opiniões pessoais em supostas orientações doutrinárias.

O movimento espírita precisa recuperar uma virtude elementar: responsabilidade.

Reunião familiar para estudar o Evangelho, refletir sobre Kardec e cultivar a prece é uma coisa. Outra, inteiramente diversa, é organizar em casa sessões mediúnicas para evocar desencarnados, atender Espíritos sofredores ou experimentar fenômenos como quem manipula um laboratório doméstico.

Não se trata de medo. Trata-se de prudência espírita. O Espiritismo sério não é espetáculo, passatempo nem laboratório de curiosidades sobrenaturais. É conhecimento submetido à razão, à observação e à moral cristã.

Quem pretende falar em nome de Kardec deveria, antes de tudo, lê-lo com honestidade. Porque a maior irresponsabilidade doutrinária não é desconhecer uma página de Kardec. É conhecê-la e, mesmo assim, ensinar de forma enviesada.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: FEB, cap. XXV, XXIX e XXX.

 KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Paris, jul. 1862, “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”. 

13 setembro 2026

O mar está fervendo e a humanidade continua dormindo



 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O aquecimento dos oceanos expõe a irresponsabilidade humana e exige mais consciência e não profecias “apocalípticas”.

“Cem dias de recordes de calor nos oceanos”. Não é manchete de filme de catástrofe. É o retrato de uma realidade climática que já bate à porta da humanidade. Desde 2 de junho de 2026, as temperaturas médias diárias dos mares permanecem em níveis sem precedentes nos registros contemporâneos. Em 10 de setembro, a estimativa global chegou a 21,15 °C.

Enquanto cientistas medem o aquecimento, parcela da humanidade continua discutindo se a crise climática existe. É como discutir a existência da chuva enquanto a água invade a sala. O problema já não é apenas ambiental. É civilizatório. Oceanos mais quentes ameaçam ecossistemas, favorecem eventos extremos, elevam o nível do mar e ampliam a vulnerabilidade de populações costeiras.

E há uma ironia amarga: justamente a humanidade que se proclama racional demonstra, diante dos fatos, uma preocupante incapacidade de aprender. O planeta registra sucessivos sinais de desequilíbrio, enquanto interesses econômicos imediatos continuam prevalecendo sobre a responsabilidade coletiva.

Há uma reportagem que aponta que o atual calor oceânico resulta da combinação do El Niño com o aquecimento decorrente das emissões humanas de gases de efeito estufa. Os oceanos absorvem cerca de 90% do calor adicional provocado por essas emissões. Ou seja: o mar vem funcionando como gigantesco amortecedor térmico da irresponsabilidade humana.

O Espiritismo oferece uma perspectiva que não combina nem com a negação irresponsável nem com o pânico apocalíptico.

Kardec ensinou que os grandes fenômenos da Natureza obedecem a leis e possuem finalidade dentro da ordem universal. Ao tratar dos flagelos destruidores, esclarece que muitos deles concorrem para o restabelecimento do equilíbrio das forças naturais. (KARDEC, 2001, q. 536).

Isso não significa que devamos cruzar os braços. A Lei de Causa e Efeito não transforma o homem em espectador passivo da própria história. Ao contrário: quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade. Se nossa civilização produz desmatamento, poluição, desperdício e emissões que agravam o aquecimento planetário, não podemos depois atribuir exclusivamente à “vontade divina” as consequências de nossas escolhas.

Deus não precisa ser responsabilizado por aquilo que a imprudência humana produz. Também é necessário combater outro equívoco: transformar cada desastre climático em anúncio de “fim do mundo”. O Espiritismo não é doutrina de terror. Não necessita de profetas do caos, datas apocalípticas ou interpretações mirabolantes para demonstrar que a humanidade precisa mudar.

O que precisamos é muito mais simples — e infinitamente mais complexo: educação moral, responsabilidade ambiental e fraternidade.

A Terra é nossa moradia. Não somos seus proprietários absolutos. Somos usufrutuários temporários de um patrimônio que pertence também às futuras gerações. Por isso, preservar a natureza não é moda ideológica. É dever moral.

O verdadeiro espírita não deve perguntar quando o mundo vai acabar. Deve perguntar que mundo está auxiliando a construir.

Os oceanos já deram o alerta. Agora falta à humanidade decidir se continuará dormindo diante dele.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2001.

MAES, Jéssica. Oceanos completam 100 dias de recordes de calor e a temperatura segue alta. Folhapress, 2026. Material reproduzido no documento fornecido.

HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz. 2. ed. São Paulo: Mandarim, 2002.

12 setembro 2026

Espiritismo não é marxismo com verniz espiritual


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 


Justiça social não exige submissão 
da Doutrina Espírita a qualquer ideologia.
 Kardec ensinou transformação moral, 
solidariedade e responsabilidade 
— não revolução política.

                               

A crítica ao meu artigo “Quando a revolução ignora o Espírito, a liberdade é sepultada”, feita por Lindemberg Macena , procura apresentar como “conservadorismo”, “alienação” e até “sadismo disfarçado” qualquer tentativa de distinguir o Espiritismo do marxismo. É precisamente aí que o debate perde qualidade, querido Macena. Discordar de uma determinada ideologia não significa defender a miséria, a desigualdade ou a injustiça. E defender  a justiça social não concede a ninguém autorização para transformar o Espiritismo em instrumento de militância ideológica.

Meu argumento jamais foi que o espírita deva ignorar a pobreza, a desigualdade ou o sofrimento social. Ao contrário. Kardec é claríssimo: “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome” (KARDEC, 1998, q. 930). O problema está em dar um salto que Kardec não deu: transformar essa afirmação moral em autorização doutrinária para importar ao Espiritismo determinada teoria econômica, política ou revolucionária.

A questão 930, aliás, desmonta parcialmente a própria crítica. Kardec não atribui automaticamente toda desigualdade a uma estrutura econômica externa ao indivíduo. O texto afirma que as próprias faltas humanas podem resultar do meio em que o indivíduo se encontra, mas aponta como solução uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade, acompanhada da melhoria moral do próprio ser humano. Não há ali uma palavra sequer sobre luta de classes, ditadura do proletariado, socialização dos meios de produção ou revolução marxista.

Mais importante: na questão 799, quando Kardec pergunta de que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso, a resposta destaca a destruição do materialismo, a compreensão da vida futura e a solidariedade que deve unir os homens. Portanto, reduzir o pensamento espírita à transformação das estruturas materiais é tão unilateral quanto reduzir o Espiritismo à contemplação individual.

A caridade espírita também não pode ser sequestrada por uma concepção política. Kardec afirma que a caridade não se limita à esmola e abrange todas as relações humanas. Ela é complemento da justiça e exige benevolência, indulgência e respeito à dignidade do próximo. Isso é muito diferente de afirmar que uma determinada ideologia política seja a expressão necessária da caridade.

Há outro problema na crítica: citar Herculano Pires, Léon Denis, Humberto Mariotti, Manuel Porteiro ou outros autores para demonstrar que o Espiritismo pode dialogar com o socialismo não prova que Espiritismo e marxismo sejam doutrinariamente complementares. Prova apenas que espíritas podem estudar, dialogar, concordar parcialmente ou divergir de diferentes correntes filosóficas e políticas.

E aqui está uma distinção elementar: autor espírita não é sinônimo de Codificador.

O Espiritismo não pode ser reconstruído a partir da soma das opiniões políticas de seus intérpretes. Kardec estabeleceu um método de análise e não uma licença para revestir preferências ideológicas com autoridade doutrinária. O fato de um pensador espírita defender determinada concepção política não transforma essa concepção em princípio do Espiritismo.

Da mesma maneira, chamar de “conservador” quem discorda do marxismo não é argumentoÉ apenas um rótulo. Se alguém deseja demonstrar que meu artigo está doutrinariamente equivocado, precisa apresentar Kardec contra Kardec, não uma sucessão de adjetivos políticos.

Também não aceito a falsa alternativa segundo a qual existiriam apenas duas possibilidades: engajamento político revolucionário ou alienação espiritual. Há uma terceira — e ela é profundamente espírita: transformar o ser humano sem transformar o Evangelho em programa partidário.

O espírita pode combater a fome, defender a dignidade humana, trabalhar pela educação, amparar presidiários, acolher dependentes químicos, proteger crianças, socorrer vítimas de violência e denunciar injustiças. Pode, inclusive, exercer plenamente sua cidadania política. O que não pode é atribuir automaticamente à Doutrina Espírita a sua própria preferência ideológica.

A caridade não precisa de partido. A fraternidade não precisa de comitê político. A dignidade humana não pertence à esquerda nem à direita. E o Evangelho não cabe em manifesto ideológico.

É igualmente perigoso transformar o sofrimento humano em argumento de autoridade para uma corrente política. O necessitado não pode ser convertido em instrumento retórico para legitimar uma ideologia. A pobreza exige socorro, educação, oportunidades, responsabilidade pública e solidariedade privada — mas exige também respeito à liberdade e à consciência individual.

O verdadeiro perigo está justamente em outro lugar: quando uma doutrina espiritual passa a ser julgada pela régua de uma ideologia política, a autonomia do pensamento espírita começa a desaparecer.

A crítica afirma que o Espiritismo deve “encarnar-se” no mundo. Concordo. Mas encarnar-se no mundo não significa submeter-se ao mundo.

Kardec não propôs um partido espírita. Não criou um programa econômico espírita. Não transformou o Espiritismo em braço de qualquer revolução política. Sua contribuição foi muito mais profunda: modificar o homem pela compreensão da imortalidade, da responsabilidade pelos próprios atos, da lei de causa e efeito, da justiça divina e da fraternidade.

É precisamente por isso que meu artigo não precisa pedir desculpas por distinguir Espiritismo de marxismo.

Uma doutrina que pretende libertar o Espírito não pode trocar uma forma de dogmatismo por outra.

Nem dogmatismo religioso, nem dogmatismo político.

O Espiritismo deve dialogar com a filosofia, a sociologia, a psicologia, a pedagogia e as ciências humanas. Deve estudar a sociedade. Deve compreender suas contradições. Deve combater a miséria. Deve defender a dignidade humana. Mas deve fazê-lo preservando aquilo que lhe é próprio.

Porque se toda crítica ao capitalismo for automaticamente espírita, e toda crítica ao marxismo for automaticamente “conservadora”, já não estaremos diante de uma doutrina aberta ao livre exame.

Estaremos diante de uma ideologia procurando ocupar o lugar da Doutrina.

E isso, sim, seria sepultar a liberdade.

A verdadeira revolução espírita começa no Espírito, alcança as relações humanas e produz consequências sociais. Mas ela não precisa de Marx para ser cristã, nem de partido para ser fraterna.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de José Herculano Pires. 59. ed. São Paulo: LAKE, 1998.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, ed. consultada.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. Bragança Paulista: Comenius, 2022.

PIRES, José Herculano. O reino. 1946.

MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. São Paulo: EDICEL, 1967.

PORTEIRO, Manuel. Espiritismo dialético. Bragança Paulista: Comenius, 2022.