Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Hoje mesmo escrevi que o
Brasil atravessa um período de grave tensão institucional. As divergências
entre os Poderes, as controvérsias envolvendo autoridades e a crescente
desconfiança de parcela da sociedade exigem algo elementar: serenidade,
transparência, investigação e respeito absoluto à Constituição. O cidadão não
pode ser obrigado a escolher entre a autoridade e a verdade. Autoridade
alguma substitui a prova.
O próprio ordenamento
constitucional estabelece que ninguém será privado de liberdade ou de seus bens
sem o devido processo legal e assegura aos acusados o contraditório e a ampla
defesa. Também determina que a Administração Pública observe, entre outros, os
princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade.
Para o espírita,
entretanto, a questão ultrapassa a esfera jurídica. É também uma questão moral.
Allan Kardec jamais ensinou submissão cega a autoridades humanas. Ao
contrário, a Doutrina Espírita valoriza o livre exame, a liberdade de
consciência e o uso da razão. A fé espírita não teme a investigação porque,
sendo racional, não precisa esconder-se atrás de dogmas ou de intimidações.
A própria orientação doutrinária destaca que a fé verdadeira deve poder
enfrentar a razão em qualquer época.
Por isso, quando surgem
denúncias envolvendo pessoas poderosas, o comportamento correto não é
transformar automaticamente o denunciante em inimigo. É investigar. Se
alguém mente, manipula documentos, calunia ou pratica qualquer abuso, que
responda por seus atos. Mas isso precisa ser demonstrado por investigação
regular, com provas e devido processo. Não se pode substituir a apuração pela
suspeita, a prova pela autoridade ou o argumento pelo silêncio.
Há uma pergunta que
deveria ecoar na consciência de todos: quem deve ser investigado — aquele que
acende a luz ou aquilo que a luz revela?
A resposta espírita não
pode ser outra: os fatos devem falar mais alto que as paixões. Kardec ensinou que o Espiritismo não
impõe a fé cega e que o livre exame é indispensável. Isso significa que o
espírita não deve transformar ministro, presidente, parlamentar, partido ou
instituição em objeto de veneração política. Respeito à autoridade não
significa abdicação da consciência.
A Doutrina Espírita
também nos recorda a responsabilidade individual. Cada ser responde moralmente
pelos próprios atos. Portanto, quanto maior a posição ocupada por alguém na
sociedade, maior deveria ser sua responsabilidade perante a própria consciência
e perante a coletividade.
O Brasil não precisa de
salvadores institucionais. Precisa de instituições submetidas à lei, homens
públicos submetidos à responsabilidade e cidadãos livres para questionar sem
medo.
Se há denúncias,
investiguem-se. Se são falsas, demonstre-se. Se são verdadeiras,
responsabilizem-se os envolvidos. Se nada houver, que a
própria investigação produza a absolvição.
É assim que uma República
madura funciona. E é assim também que uma sociedade moralmente saudável deve
proceder: sem ódio, sem idolatria, sem perseguição e sem medo da verdade.
Porque a verdade não
precisa de violência para prevalecer.
Precisa apenas que lhe
permitam aparecer.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro
dos espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação
Espírita Brasileira, 2005.
KARDEC, Allan. O
evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira,
2004.
KARDEC, Allan. Obras
póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.
BRASIL. Constituição da
República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República







