05 setembro 2026

Quando a postura kardeciana incomoda, é preciso coragem para não se calar


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

E foi exatamente isso que Paulo Maia, Presidente da Federação Espírita do Distrito Federal,  fez.

Enquanto muitos preferem o silêncio para evitar conflitos, ele escolheu permanecer firme.

Não por vaidade.
Não por conveniência.
Mas por compromisso com Allan Kardec, com o Cristo e com a responsabilidade que a mediunidade séria exige.

Hoje, queremos dizer publicamente:

Paulo Maia, nós reconhecemos a sua coragem.

Mediunidade não é espetáculo.
Não é comércio.
Não é autorização para transformar informações colhidas nas redes sociais em supostas revelações do mundo espiritual.

Kardec ensinou-nos a examinar, questionar e submeter os fatos ao crivo da razão.

Não estamos contra pessoas. Estamos contra a claudicação.
Não estamos promovendo perseguições. Estamos defendendo princípios.

E quem permanece fiel ao Cristo e ao Codificador, mesmo diante das pressões, não pode ser abandonado.

PAULO MAIA, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO.

Eu, as vítimas, estamos com você.
Nós estamos com você.
Todos aqueles que defendem uma doutrina espírita séria, ética e fiel a Kardec estão com você.

Se precisar, conte conosco.

Porque a verdade pode ser pressionada.

Pode ser atacada.

Mas jamais deve ser abandonada.

E a fidelidade a Allan Kardec, essa não se negocia.

 

Não se responde às cartas “consoladoras” com “flores”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Havia, numa pequena cidade, uma casa conhecida pelo belo jardim.

 Semanalmente seus voluntários distribuíam alimentos, roupas e outros recursos aos necessitados. Gioconda trabalhava ali há muitos anos. Sabia quem precisava de uma cesta básica, quem chegava em silêncio e quem voltava apenas para conversar. Para ela, a caridade não era uma ideia: tinha rosto, nome e história.

 Epifânio era diferente. Gostava de documentos, datas e comparações. Quando ouvia uma afirmação extraordinária, sua primeira reação não era acreditar nem desacreditar.

Era perguntar:

— Como podemos saber?

 Ariosto, o velho jardineiro, conhecia os dois.

 Numa manhã, encontrou-os conversando diante de uma mesa onde estavam algumas cartas “consoladoras”.

— Lá estão vocês dois outra vez — disse ele. — Uma querendo respostas e a outra querendo proteger o jardim.

 Gioconda sorriu.

 — Não estou protegendo o jardim, Ariosto. Estou protegendo pessoas. É diferente.

 Epifânio respondeu:

— E eu não estou tentando derrubar o jardim. Estou tentando descobrir de onde vieram essas cartas “consoladoras”.

 Gioconda cruzou os braços.

— Você sabe como essas coisas funcionam. Quando uma história começa a circular, ninguém fica apenas nas cartas “consoladoras”. Daqui a pouco estão falando da casa inteira.

 — E justamente por isso precisamos ser precisos — respondeu Epifânio. — Se eu questiono uma carta “consoladora”, diga que questionei a carta. Não diga que ataquei a caridade.

 Gioconda ficou séria.

 — Mas você também precisa reconhecer que palavras têm consequências. Para quem recebe ajuda aqui, ouvir que a casa está sendo questionada pode causar insegurança.

Epifânio fez uma pausa.

— Reconheço. Mas isso vale para os dois lados. Se uma dúvida sobre as cartas “consoladoras” for apresentada como se fosse uma condenação da caridade, também se cria uma impressão que não corresponde ao que foi perguntado.

 Ariosto, que até então observava em silêncio, puxou uma cadeira.

— Muito bem. Agora estamos chegando ao ponto.

Gioconda olhou para ele.

— Qual ponto?

 — O ponto em que vocês percebem que estão falando de duas preocupações diferentes.

 Epifânio perguntou:

 — Quais?

— Você quer saber se as cartas “consoladoras” resistem ao exame. Gioconda quer ter certeza de que as pessoas que dependem da casa não serão prejudicadas pela discussão.

Gioconda concordou.

 — É exatamente isso.

 — E nenhuma dessas preocupações é absurda — continuou Ariosto. — O problema começa quando uma resposta para uma preocupação é usada para substituir a outra.

 Epifânio pegou uma carta “consoladora”.

— Então vamos ao concreto. Se existem informações aqui que também aparecem em entrevistas, publicações ou redes sociais, eu quero saber como isso é explicado.

 Gioconda respondeu imediatamente:

 — E eu quero saber se você já ouviu a explicação completa.

Epifânio levantou os olhos.

— Ainda não.

 — Então talvez esse seja o primeiro passo — disse ela.

 Epifânio sorriu.

 — Justo.

Ariosto bateu levemente na mesa.

— Vejam só. Uma pergunta e uma resposta. Sem precisar transformar ninguém em vilão.

 Gioconda riu.

 — Você sempre acha tudo mais simples.

— Não. Eu só já vivi o suficiente para saber que uma discussão fica mais difícil quando começamos a adivinhar o que existe na cabeça dos outros.

 Epifânio concordou:

 — Isso é verdade. Eu posso dizer o que observei. Não posso afirmar por que alguém fez alguma coisa sem ter elementos para isso.

 Gioconda olhou novamente para a carta “consoladora”.

 — E eu posso defender o trabalho da casa sem afirmar que qualquer pessoa que faça uma pergunta está atacando a instituição.

 Ariosto levantou-se.

 — Agora vocês estão aprendendo a conversar.

Gioconda provocou:

— E você? De que lado está?

 O velho jardineiro apontou para o jardim.

 — Do lado das perguntas bem feitas, das respostas honestas e das flores bem cuidadas.

 Epifânio riu.

 — Isso não é exatamente um lado.

 — É o melhor que consigo oferecer.

Gioconda pegou a carta “consoladora”e a colocou novamente sobre a mesa.

— Então fica combinado: o trabalho assistencial continua sendo reconhecido pelo que é. E as cartas “consoladoras” são examinadas pelo que apresentam.

 — E sem antecipar a conclusão — acrescentou Epifânio.

 — Sem transformar crítica em acusação — disse Gioconda.

Ariosto completou:

 — E sem transformar caridade em argumento para uma questão que precisa ser respondida por evidências.

 Os três ficaram em silêncio.

 O jardim continuou sendo cuidado.

 As cartas “consoladoras” permaneceram sobre a mesa.

 E a pequena comunidade descobriu que é possível defender uma obra sem defender previamente todas as suas práticas, assim como é possível questionar uma prática sem desmerecer toda a obra.

Moral:

 Quando cada pessoa fala a partir de sua preocupação, a conversa pode parecer uma disputa. Quando cada uma aprende a separar fatos, perguntas e conclusões, a mesma conversa pode se transformar em busca pela verdade.

 

04 setembro 2026

No STF, quem deve ser investigado — aquele que acende a luz ou aquilo que a luz revela?


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Hoje mesmo escrevi que o Brasil atravessa um período de grave tensão institucional. As divergências entre os Poderes, as controvérsias envolvendo autoridades e a crescente desconfiança de parcela da sociedade exigem algo elementar: serenidade, transparência, investigação e respeito absoluto à Constituição. O cidadão não pode ser obrigado a escolher entre a autoridade e a verdade. Autoridade alguma substitui a prova.

O próprio ordenamento constitucional estabelece que ninguém será privado de liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal e assegura aos acusados o contraditório e a ampla defesa. Também determina que a Administração Pública observe, entre outros, os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade.

Para o espírita, entretanto, a questão ultrapassa a esfera jurídica. É também uma questão moral. Allan Kardec jamais ensinou submissão cega a autoridades humanas. Ao contrário, a Doutrina Espírita valoriza o livre exame, a liberdade de consciência e o uso da razão. A fé espírita não teme a investigação porque, sendo racional, não precisa esconder-se atrás de dogmas ou de intimidações. A própria orientação doutrinária destaca que a fé verdadeira deve poder enfrentar a razão em qualquer época.

Por isso, quando surgem denúncias envolvendo pessoas poderosas, o comportamento correto não é transformar automaticamente o denunciante em inimigo. É investigar. Se alguém mente, manipula documentos, calunia ou pratica qualquer abuso, que responda por seus atos. Mas isso precisa ser demonstrado por investigação regular, com provas e devido processo. Não se pode substituir a apuração pela suspeita, a prova pela autoridade ou o argumento pelo silêncio.

Há uma pergunta que deveria ecoar na consciência de todos: quem deve ser investigado — aquele que acende a luz ou aquilo que a luz revela?

A resposta espírita não pode ser outra: os fatos devem falar mais alto que as paixões.  Kardec ensinou que o Espiritismo não impõe a fé cega e que o livre exame é indispensável. Isso significa que o espírita não deve transformar ministro, presidente, parlamentar, partido ou instituição em objeto de veneração política. Respeito à autoridade não significa abdicação da consciência.

A Doutrina Espírita também nos recorda a responsabilidade individual. Cada ser responde moralmente pelos próprios atos. Portanto, quanto maior a posição ocupada por alguém na sociedade, maior deveria ser sua responsabilidade perante a própria consciência e perante a coletividade.

O Brasil não precisa de salvadores institucionais. Precisa de instituições submetidas à lei, homens públicos submetidos à responsabilidade e cidadãos livres para questionar sem medo.

Se há denúncias, investiguem-se. Se são falsas, demonstre-se. Se são verdadeiras, responsabilizem-se os envolvidos. Se nada houver, que a própria investigação produza a absolvição.

É assim que uma República madura funciona. E é assim também que uma sociedade moralmente saudável deve proceder: sem ódio, sem idolatria, sem perseguição e sem medo da verdade.

Porque a verdade não precisa de violência para prevalecer.

Precisa apenas que lhe permitam aparecer.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República

 

Brasil em alerta - quando os poderes perdem o equilíbrio, a democracia perde o rumo



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Brasil atravessa uma hora gravíssima. E o pior que poderíamos fazer seria fingir normalidade.

A República está politicamente fraturada. O Congresso Nacional revela limitações preocupantes para exercer, com independência e eficácia, suas prerrogativas. Câmara e Senado frequentemente parecem incapazes de responder à altura da gravidade dos acontecimentos. E o Supremo Tribunal Federal, “guardião” da Constituição, enfrenta uma crise interna que já expõe publicamente divergências, acusações e questionamentos sobre procedimentos e condutas de seus próprios ministros. A imprensa registra o episódio como uma das mais graves crises da história recente da Corte.

Não se trata de demonizar o STF, o Congresso ou qualquer Poder. Trata-se de lembrar uma verdade elementar: nenhuma instituição da República está acima da Constituição.

A própria Carta Magna estabelece a independência e a harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Quando um Poder avança sobre as atribuições de outro, quando decisões judiciais passam a ser percebidas como substituição da atividade política do Parlamento, ou quando o Legislativo deixa de exercer adequadamente suas prerrogativas, a democracia entra em zona de perigo.

E onde está o espírita diante disso?

Debaixo da cama escondido atrás de uma falsa neutralidade?

Não deveria!

O espírita não deve ser cabo eleitoral de partido algum, mas tem o dever moral de ser cidadão atento. Não pode trocar consciência por ideologia nem fraternidade por submissão política.

Allan Kardec ensinou que o progresso exige justiça e que o verdadeiro espírita deve trabalhar pela transformação moral da sociedade. Em O Livro dos Espíritos, a Lei de Justiça, Amor e Caridade não é apresentada como simples contemplação religiosa, mas como fundamento da vida humana (KARDEC, 2019, questões 873-892).

Portanto, não cabe ao espírita aplaudir abusos porque foram praticados por aqueles de quem gosta, nem condená-los porque partiram de seus adversários. Abuso não muda de natureza conforme a ideologia de quem o pratica.

Se há suspeita de violação constitucional, que seja investigada. Se há abuso de autoridade, que seja apurado. Se há crime, que haja devido processo legal. Se há injustiça, que seja corrigida. E se houver acusações falsas, que também sejam desmentidas pelos instrumentos legítimos da Justiça.

O que não podemos aceitar é a substituição da verdade pelo fanatismo e da justiça pela vingança. Jesus ensinou: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32).

O Brasil precisa dessa verdade. Precisa de instituições fortes, mas também instituições controladas pela Constituição. Precisa de Legislativo independente, Judiciário responsável, Executivo submetido à lei e cidadãos capazes de fiscalizar todos os Poderes.

O espírita consciente não pede ruptura. Pede equilíbrio, justiça, responsabilidade, obediência à Constituição. E talvez esta seja uma das maiores provas morais do nosso tempo: permanecer sereno sem ser omisso; fraterno sem ser ingênuo; pacífico sem ser covarde; e fiel à verdade mesmo quando ela contraria aqueles de quem gostamos.

Porque quando a República adoece, a consciência do cidadão honrado não pode entrar em coma.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.

 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988

03 setembro 2026

Quando um palestrante “global” sobe à tribuna espírita e a ideologia desce na cloaca


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Imagine um auditório espírita reunido para ouvir uma palestra. Pessoas chegam em busca de reflexão, consolo, conhecimento e, sobretudo, de uma palavra capaz de aproximá-las dos ensinamentos de Jesus e da Doutrina Espírita. De repente, um orador convidado célebre e “global” assume o microfone e regurgita, em alto e bom som:

“ANISTIA NÃO! ANISTIA NÃO!”

O ambiente muda. A palestra deixa de ser espaço de reflexão e passa a carregar a atmosfera de uma disputa política. Pessoas começam a se retirar. É preciso perguntar, sem medo e sem partidarismo: o que uma palavra de ordem política faz dentro de uma atividade espírita?

A crítica aqui não é à opinião política de ninguém. Todo cidadão tem direito de defender ou rejeitar a anistia, dentro dos limites democráticos. O problema está em transformar uma tribuna espírita em palanque político, especialmente quando o espaço foi oferecido para exposição da Doutrina.

O Evangelho também não oferece respaldo para essa postura. Jesus não ensinou seus discípulos a organizar torcidas. Não recomendou a fabricação de inimigos políticos. Ensinou o amor ao próximo, inclusive ao que pensa de maneira diferente.

Por isso, o problema não é ser progressista, conservador, liberal, socialista, de direita ou de esquerda. O problema começa quando qualquer dessas identidades pretende ocupar o lugar da Doutrina Espírita dentro da Casa Espírita.

A instituição espírita não deveria reproduzir a mesma guerra de narrativas que domina as redes sociais, os parlamentos e os palanques. O ambiente espírita não é comitê eleitoral e palestra espírita não é comício e a tribuna doutrinária não é palanque de politiqueiros.

Quem recebe a responsabilidade de falar em nome do Espiritismo deveria compreender que um microfone representa responsabilidade, não licença para provocar polarizações.

Pode-se defender a anistia. Pode-se rejeitá-la. Pode-se discutir suas implicações jurídicas, políticas e sociais. Mas essa discussão precisa encontrar o espaço apropriado.

Quando uma reunião espírita é utilizada para proclamar palavras de ordem, cria-se uma divisão absolutamente desnecessária entre pessoas que poderiam estar unidas pelo estudo do Evangelho e da Doutrina.

E há uma consequência ainda mais grave: o cidadão que pensa diferentemente pode sentir que aquele espaço deixou de ser dele. Isso é exatamente o contrário da fraternidade.

O movimento espírita brasileiro não precisa importar para seus centros a lógica do “nós contra eles”. Precisa recuperar a serenidade,  estudar Kardec, compreender Jesus e respeitar a consciência alheia.

E precisa, sobretudo, lembrar que a força do Espiritismo não está na capacidade de levantar multidões contra alguém, mas na capacidade de transformar seres humanos para melhor.

Se uma tribuna espírita provoca mais divisão política do que reflexão espiritual, talvez seja hora de perguntar, com absoluta serenidade: estamos realmente divulgando o Espiritismo — ou apenas utilizando o Espiritismo para divulgar nossas próprias convicções políticas?

Essa pergunta não é perseguição. É legítima preocupação doutrinária. E talvez seja uma das perguntas mais urgentes que o movimento espírita precise enfrentar.

 

 

02 setembro 2026

Quando a dor dos pais enlutados vira R$ 300 mil é preciso investigar



jorge Hessen

Brasília -DF

 

O caso revelado pelo Metrópoles é perturbador e exige investigação rigorosa. Segundo a reportagem, dezenas de pessoas acusam uma suposta médium de produzir cartas do “além” utilizando informações disponíveis em redes sociais. Uma das denúncias é especialmente grave: o suposto espírito de um jovem teria orientado os pais a doar a uma instituição uma poupança de R$ 300 mil.

É preciso repetirR$ 300 mil.

Não estamos diante de uma pequena contribuição espontânea. Estamos falando de uma quantia expressiva, patrimônio acumulado por uma família. Se ficar comprovado que uma comunicação espiritual falsa foi conscientemente utilizada para “aliviar” a consciência  e induzir alguém a transferir um patrimônio de R$ 300 mil, estaremos diante de uma situação que ultrapassa o campo metafísico e exige responsabilização jurídica.

E há um agravante humano: a suposta mensagem teve como destinatários pais enlutados. E sabemos que  o luto produz vulnerabilidade. Quem perde um filho pode desejar desesperadamente ouvir novamente sua voz. Nesse estado emocional, uma informação verdadeira sobre a família pode parecer uma prova sobrenatural.

Hoje, redes sociais, fotografias, comentários, obituários e publicações oferecem enorme quantidade de dados capazes de alimentar narrativas aparentemente íntimas. A própria reportagem afirma que informações públicas teriam sido utilizadas na elaboração das cartas.

Por isso, a dor do luto jamais pode transformar-se em matéria-prima para exploração financeira tampouco na bagatela de  R$ 300 mil.

A Doutrina Espírita também não oferece salvo-conduto para qualquer alegação mediúnica. Jesus é categórico: “De graça recebestes, de graça dai” (MATEUS, 10:8). Kardec, ao tratar da mediunidade, enfatiza a necessidade de prudência, discernimento e controle diante das comunicações espirituais (KARDEC, 2013).

Mais importante ainda: nenhum médium é proprietário da verdade. Mediunidade não é título de autoridade, certificado de infalibilidade nem autorização para interferir em decisões patrimoniais de pessoas fragilizadas.

O caso ganhou nova dimensão institucional. O Metrópoles informou que a 11ª Delegacia de Polícia do DF investiga fatos relacionados a médium e que, em 1º de setembro de 2026, o MPDFT instaurou notícia de fato para apurar as denúncias.

Agora é preciso ir até o fim, onde os documentos devem ser examinados; as mensagens, registros digitais e eventuais movimentações financeiras precisam ser periciados (sobretudo os dados na Internet desse jovem “mão aberta”). Vítimas e testemunhas devem ser ouvidas. Obviamente , se não houver crime comprovado (inobstante o áudio contido na reportagem), isso também precisa ser claramente estabelecido.

Não se trata de condenar antecipadamente ninguém. Trata-se de exigir investigação. Se alguém utilizou, conscientemente, o nome de mortos para manipular enlutados e obter vantagens econômicas, a gravidade é imensa (o áudio da suposta médium contido na reportagem é emblemático). Porém , se as denúncias não forem evidenciadas, que a verdade igualmente prevaleça.

O Espiritismo não precisa de silêncio diante de denúncias. Precisa de coragem para separar fé de credulidade, mediunidade de mistificação e caridade de exploração.

O nome de um morto não pode ser transformado em instrumento de pressão sobre os vivos.

E uma suposta mensagem do além jamais deveria servir de mecanismo para constranger alguém a entregar seu patrimônio. Quando a dor de uma família pode ser convertida em R$ 300 mil, já não estamos diante de uma simples questão de fé. Estamos diante de um cenário que exige avaliações, investigação e, se houver crime, Justiça já!

 

Referências — ABNT

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.

BÍBLIA.. Mateus 10:8.

METRÓPOLES. Médium é acusada de forjar psicografia com dados obtidos nas redes sociais. Brasília, 31 ago. 2026.

METRÓPOLES. MPDFT recebe denúncias e abre apuração de supostos crimes da médium Maira. Brasília, 1 set. 2026. 

01 setembro 2026

Ministério Público investiga. Polícia Civil apura. Pernambuco homenageia.


Jorge Hessen

Brasília -DF  

Enquanto denúncias graves são apuradas em Brasília, uma honraria pública está marcada para Recife. É coincidência? Imprudência? Ou simplesmente ninguém está olhando? O Movimento Espírita  precisa olhar.

Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) recebeu denúncias contra uma cidadã, apontada como médium e dirigente de uma instituição supostamente “religiosa” em Águas Claras. Diante das manifestações, o MPDFT instaurou Notícia de Fato, encaminhada para análise de uma Promotoria de Justiça Criminal. A Polícia Civil do Distrito Federal também mantém inquérito sobre fatos relacionados à atuação da suposta médium.

Isso muito obviamente não significa condenação. Significa investigação. E investigação oficial não pode ser tratada como detalhe irrelevante.

O que causa perplexidade é que, enquanto Brasília apura denúncias envolvendo supostas cartas “consoladoras” psicografadas, está prevista para esta quarta-feira, 2 de setembro, em Recife, uma homenagem pública à mesma pessoa.

É preciso perguntar: 

QUE CORRERIA É ESSA?

Por que conceder agora uma honraria de tamanha simbologia? Por que não aguardar o esclarecimento de fatos tão graves? Ninguém está pedindo condenação antecipada. Está-se pedindo prudência institucional.

Uma investigação não transforma automaticamente alguém em culpado. Mas uma homenagem pública também não transforma ninguém em inocente. O título de cidadania não é um certificado de idoneidade.

As denúncias, segundo a imprensa, envolvem alegações de que informações disponíveis em redes sociais de familiares teriam aparecido posteriormente em cartas atribuídas a pessoas desencarnadas. Há relatos de inconsistências, erros e contradições que precisam ser tecnicamente examinados.

Se tudo for falso, que a investigação demonstre. Se houver explicações plausíveis, que sejam apresentadas. Mas, se as acusações forem comprovadas, estaremos diante de algo moralmente devastador: a possível exploração da vulnerabilidade de pessoas mergulhadas no luto.

E há ainda a referência a R$ 300 MIL em patrimônio, mencionada nas denúncias relacionadas ao caso.

Trezentos mil reais não são apenas números. Podem representar anos de trabalho, economias familiares e a confiança depositada em alguém, justamente quando a pessoa está emocionalmente fragilizada.

O luto não pode transformar-se em território de caça. Quem perdeu um filho não está procurando espetáculo. Quem perdeu uma mãe não está participando de um jogo. Quem procura uma suposta mensagem psicografada pode estar disposto a acreditar em qualquer palavra que, por alguns instantes, devolva a sensação de proximidade com quem partiu.

É justamente por isso que a mediunidade exige responsabilidade, ética e absoluta repulsa à exploração da dor humana.

Se houver fraude, que seja desmascarada. Se não houver, que a investigação o demonstre.

Mas transformar uma pessoa sob investigação em personalidade homenageada, antes do esclarecimento de acusações dessa natureza, é uma decisão que merece explicações públicas.

Ministério Público investiga. Polícia Civil apura. Pernambuco homenageia. Essa sequência deveria, no mínimo, provocar reflexão.

Não se trata de perseguir uma pessoa. Trata-se de defender instituições, famílias, o direito à verdade e a própria dignidade da mediunidade.

Às autoridades responsáveis pela homenagem, fica uma pergunta simples: Se não há nada a temer, qual seria o problema em esperar?

A verdade não desaparece porque uma solenidade é adiada.

Uma investigação séria não pode ser atropelada por aplausos. E uma honraria pública não deveria produzir, ainda que involuntariamente, uma aparência de respeitabilidade enquanto órgãos oficiais procuram descobrir o que realmente aconteceu.

Antes da medalha, a verdade. Antes do aplauso, os fatos. Antes da homenagem, a investigação.

Quando estão em jogo luto, fé, patrimônio e denúncias de possível fraude, a sociedade não pode simplesmente aplaudir e virar a página.

É preciso parar. Perguntar. Investigar. E, acima de tudo, exigir verdade.

Referências Bibliográficas:

CARONE, Carlos; ALMEIDA, Thamires; ARAÚJO, Saulo; BRAGANÇA, Miguel. Médium é acusada de forjar psicografia com dados obtidos em redes sociais. Metrópoles, Brasília, 31 ago. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/. Acesso em: 1 set. 2026.

CARONE, Carlos. MPDFT recebe denúncias e abre apuração de supostos crimes da médium Maira. Metrópoles, Brasília, 1 set. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/. Acesso em: 1 set. 2026.

DISTRITO FEDERAL. Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. Corregedoria-Geral: Notícia de Fato e Procedimento Administrativo. Brasília: MPDFT. Disponível em: https://www.mpdft.mp.br/. Acesso em: 1 set. 2026

 

30 agosto 2026

Quando a internet vira “espírito” e a pérfida carta que desconsola



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

“É uma questão de fé.” Eis a frase favorita de  charlatães que não querem responder perguntas. Questiona-se uma suposta carta psicografada e imediatamente aparece o argumento salvador: quem acredita, acredita; quem não acredita, não acredita. Assim, dispensa-se a investigação, arquivam-se as dúvidas e manda-se a razão para o esgoto.

Mas não. Mediunidade não é licença para a credulidade. E uma carta “consoladora” não se torna autêntica porque fez uma mãe chorar.

Allan Kardec jamais ensinou que toda mensagem atribuída aos mortos deveria ser aceita de joelhos. Pelo contrário: recomendou análise, comparação e vigilância diante das mistificações. O Espiritismo não foi codificado para produzir uma multidão de crentes incapazes de formular uma pergunta incômoda.

Uma comunicação verdadeiramente extraordinária pode conter informações íntimas, específicas e verificáveis, inacessíveis ao público e desconhecidas do médium por meios normais. Detalhes que somente a família — às vezes parentes distantes ou pouquíssimas pessoas — conhecia. Isso merece investigação séria.

Agora, quando a “revelação do além” está disponível no Facebook, no Instagram, numa reportagem, num vídeo ou numa simples pesquisa na internet, convém conter o entusiasmo. Antes de convocar os Espíritos, talvez seja suficiente consultar o mecanismo de busca.

É a mediunidade assistida pelo Google e pela I.A.

A situação é particularmente grave porque o alvo é quase sempre o mesmo: a pessoa enlutada. Alguém ferido pela ausência, vulnerável, desejando desesperadamente ouvir novamente a voz de quem partiu. E é precisamente nesse território sagrado da dor que “prosperam” os charlatães  da esperança.

Não se está afirmando que toda carta seja fraudulenta. Seria tão irresponsável quanto aceitar todas como autênticas. O que se exige é outra coisa: prova, comparação, investigação e prudência. Se uma mensagem reproduz informações previamente expostas na internet, sua alegada origem mediúnica não pode ser automaticamente presumida.

A exploração deliberada do luto mediante informações coletadas previamente e apresentadas como revelações espirituais, sobretudo quando envolve vantagem econômica ou qualquer forma de proveito, pode e deve, conforme as circunstâncias concretas e as provas disponíveis, gerar responsabilidades jurídicas. É preciso dizer isso sem medo.

E é igualmente necessário repelir a tentativa de transformar o processo judicial em instrumento de intimidação. Perguntar não é caluniar. Comparar informações não é perseguir. Investigar não é atacar a mediunidade. Ao contrário: é defendê-la contra aqueles que a degradam.

O movimento espírita brasileiro precisa escolher: continuará protegendo a reputação de supostos “intocáveis” ou protegerá as famílias contra os exploradores da saudade?

A mediunidade verdadeira não teme a investigação. A fraude, sim, precisa que todos acreditem sem perguntar.

Portanto, diante de uma carta consoladora, menos ajoelhamento emocional e mais senso crítico. Menos celebridade e mais responsabilidade. Menos espetáculo e mais evidência.

Porque, convenhamos: se tudo o que o “Espírito” sabe também está no Google e/ou I.A., talvez o primeiro fenômeno a ser investigado não seja mediúnico.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília: Federação Espírita Brasileira, edições diversas. Capítulos referentes às mistificações, à identidade dos Espíritos e ao exame das comunicações.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, edições diversas.

BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF: Presidência da República, texto vigente.

 

A “criatura”, os aplausos , os "perrapados" e o mercado do luto


 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há criaturas que nasceram para o trabalho honesto. Outras, para a arte. Algumas, para a ciência. E há aquelas que descobrem, com notável esperteza, que a dor alheia pode ser um excelente modelo de negócio.

Esta “criatura”, por exemplo, não precisava possuir nem tinha mediunidade. Que necessidade haveria disso? A mediunidade autêntica exige responsabilidade moral, estudo, disciplina, desinteresse e, sobretudo, consciência. Tudo muito trabalhoso. Mais simples é inventar uma ligação direta com o Além, convocar os mortos para o palco das cartas consoladoras  e deixar que os vivos paguem a conta.

E a “criatura” prosperou. Primeiro, descobriu a força de uma lágrima. Depois, percebeu o poder da saudade. Finalmente, compreendeu que poucas coisas tornam uma pessoa mais vulnerável do que a dor de perder alguém que ama. Eis o seu grande laboratório: corações partidos.

Então, entra em cena. Com voz solene, gestos estudados e a indispensável aura de “elevação espiritual”, anuncia que alguém do outro lado deseja “falar ou escrever”. Os enlutados choram. A “criatura”  comove-se — profissionalmente, naturalmente. E, de repente, numa dessas extraordinárias coincidências que só acontecem nos negócios espirituais da “criatura” , o morto também demonstra grande preocupação com… dinheiro.

Que prodígio!   Os Espíritos, segundo a “criatura” , não pedem uma transformação moral mais profunda, nem recomendam prudência diante das aparências, nem alertam contra a exploração da credulidade. Não. Eles parecem estar sempre preocupados com leilões, campanhas, arrecadações e doações para a obra da própria “criatura” .

É realmente uma “mediunidade” muito eficiente. Os mortos fazem propaganda, os vivos se emocionam e o caixa financeiro agradece.

Mas toda representação possui seus espectadores inconvenientes. Surgem aqueles que perguntam. Aqueles  que investigam.  Aqueles que desejam saber como as mensagens são produzidas, por que existem contradições, onde estão as evidências e por que tanta espiritualidade precisa de tanta publicidade.

“criatura” , naturalmente, não gosta. Em vez de responder às perguntas, conta e compara o número de seguidores.

— Quantos seguidores vocês têm? Têm poucos seguidores na internet, ah! São uns perrapados!

E pronto! Está resolvido o problema da verdade.

Porque no universo mental da “criatura” , aparentemente a razão funciona por contagem de cabeças virtuais da Internet. Se “milhões” a seguem, ela deve estar certa. Se alguém tem poucos seguidores, deve estar errado. É uma espécie de novo Evangelho segundo o algoritmo: “Bem-aventurados os viralizados, porque deles será o reino da verdade.”

Que maravilha! A “criatura”  confunde popularidade com legitimidade, fama com caráter e aplauso com inocência. Talvez ainda não tenha descoberto que multidões já aplaudiram inúmeros impostores ao longo da história. Uma multidão pode ser barulhenta, mas não possui o poder mágico de transformar mentira em verdade.

E há outro detalhe curioso. Quanto mais questionada, mais a “criatura”  se declara perseguida. É o último recurso de certas consciências: quando as perguntas se tornam incômodas, o questionador vira inimigo; quando as evidências apertam, surge uma conspiração; quando a máscara ameaça cair, proclama-se martírio; daí advém o ASSÉDIO JUDICIAL.

“criatura” , então, sobe ao altar de sua própria fantasia e se proclama vítima. Afinal, como poderia alguém tão admirado estar errado?

Simples: admiração não é atestado de honestidade.   Allan Kardec jamais ofereceu ao Espiritismo um cheque em branco para celebridades do sobrenatural. Ao contrário, recomendou o exame, a razão e o discernimento, advertindo contra a exploração e os perigos da mistificação. A mediunidade séria não precisa transformar a morte em espetáculo nem a saudade em máquina de arrecadação.

A verdadeira tragédia MENTAL da “criatura” , entretanto, talvez seja outra: depois de representar tanto tempo, pode ter começado a acreditar no próprio personagem MENTIROSO.

A mentira repetida tornou-se sua biografia. A fama, sua defesa. Os seguidores, seu tribunal de absolvição. E os “perrapados” que fazem perguntas, seu inimigo imaginário.

Mas, quando os refletores se apagarem e os seguidores forem embora, restará uma pergunta que nenhum leilão poderá arrematar:

De que vale conquistar multidões, se para isso foi necessário perder a própria consciência?

Porque “PERRAPADO” não é quem tem poucos seguidores. Pobretão — miserável, espiritualmente miserável — é a “criatura”  que transforma lágrimas em capital, saudade em mercadoria e mentira em profissão.

E nenhum aplauso do mundo consegue enriquecer uma consciência falida.

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000