Jorge Hessen
Brasília-DF
O respeito não se conquista por títulos honoríficos, mas pela dignidade moral, pelo conhecimento e pela maneira como tratamos o próximo.
Em 2012, publicamos um artigo sobre o uso indiscriminado do tratamento “doutor” no Brasil, particularmente entre médicos, advogados e algumas lideranças espíritas. Mais de uma década depois, uma reportagem recente da Globo, reproduzindo informações da BBC News Brasil, reacende oportunamente essa discussão. O que antes parecia uma provocação continua sendo uma questão cultural, social e, sobretudo, moral.
A reportagem apresenta profissionais que recusam o tratamento de doutor por entenderem que a palavra, quando utilizada para estabelecer superioridade, reproduz uma hierarquia incompatível com relações humanas verdadeiramente respeitosas. A médica Melania Amorim, que possui doutorado, afirma que o título deve permanecer circunscrito ao ambiente acadêmico. A promotora Maísa Oliveira e o defensor público Renan Reis também defendem relações profissionais sem reverências artificiais. São posicionamentos que merecem reflexão.
Historicamente, a palavra doutor procede do latim doctor, derivado de docere, ensinar. Designava aquele que possuía conhecimentos reconhecidos e estava habilitado a ensinar. Na contemporaneidade, entretanto, seu significado acadêmico passou a conviver com uma tradição brasileira que estendeu o tratamento a profissionais sem doutorado.
A reportagem esclarece um aspecto jurídico relevante: o conhecido decreto de Dom Pedro I, de 1827, frequentemente invocado por advogados para justificar o tratamento, não constitui prerrogativa atualmente exigível. Segundo o professor de Direito Otávio Luiz Rodrigues, da USP, embora não tenha ocorrido revogação expressa, legislações posteriores modificaram o reconhecimento dos títulos acadêmicos. Portanto, não existe obrigação legal de chamar médicos ou advogados de doutores. Trata-se, essencialmente, de uma tradição cultural.
Não pretendemos desrespeitar profissionais nem desconhecer a importância de suas formações acadêmicas. O problema está na transformação de um tratamento convencional em instrumento de distinção social. Quando alguém exige ser chamado de doutor para afirmar superioridade, o título deixa de representar conhecimento e passa a alimentar a vaidade.
Essa questão ganha contornos ainda mais delicados no movimento espírita. Causa-nos estranheza observar dirigentes, expositores e representantes institucionais que fazem questão de ostentar o prefixo “Dr.” em apresentações públicas, congressos e eventos doutrinários, como se a titulação acadêmica acrescentasse autoridade moral às suas palavras.
A Doutrina Espírita não reconhece privilégios espirituais decorrentes de diplomas, patrimônio, posição social ou prestígio institucional. Em O Livro dos Espíritos, questão 817 e seguintes, Kardec examina a igualdade natural entre os seres humanos. Na questão 886, Jesus é apresentado como referência da caridade, entendida como benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias e perdão das ofensas.
Que sentido tem, portanto, invocar o Evangelho enquanto cultivamos formalidades que alimentam distâncias entre criaturas humanas?
Recordemos que Chico Xavier, Yvonne Pereira, Léon Denis e tantos trabalhadores respeitáveis da divulgação espírita conquistaram reconhecimento pela dedicação, humildade e fidelidade aos princípios cristãos, não pela ostentação de títulos universitários. O próprio Jesus, sem credenciais acadêmicas ou honrarias terrenas, permanece como o maior referencial moral da humanidade.
Não se trata de combater a instrução, muito menos de desvalorizar o conhecimento científico. Ao contrário, devemos prestigiar os estudos e a qualificação intelectual. O que precisamos combater é a presunção de que o saber acadêmico confere superioridade humana.
A reportagem da Globo confirma que essa discussão ultrapassa o ambiente espírita e alcança instituições fundamentais da sociedade. Profissionais que preferem ser chamados pelo próprio nome demonstram que a autoridade pode conviver perfeitamente com a simplicidade e a cordialidade.
No Espiritismo, essa compreensão deveria ser ainda mais evidente. O verdadeiro trabalhador cristão não necessita de reverências, salamaleques ou distinções protocolares para demonstrar sua importância. Seu testemunho está na capacidade de servir, acolher e aprender, sem transformar a tarefa doutrinária em palco para vaidades pessoais.
Afinal, diante da imortalidade da alma e da grandeza da vida espiritual, que importância terão os títulos terrenos? O que verdadeiramente distinguirá cada criatura será o patrimônio moral conquistado ao longo da caminhada evolutiva.
Doutorado é titulação acadêmica; dignidade é conquista moral. E, no Evangelho, ninguém é maior porque exige ser chamado de doutor, mas porque aprende a servir sem precisar ser reverenciado.








