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  • 5 de fev. de 2026

    O CORPO FÍSICO, O PERISPÍRITO E O ESPÍRITO COMO UNIDADE ÉTICA SEGUNDO O ESPIRITISMO

     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    A estrutura do ser humano em Platão baseia-se num dualismo antropológico que opõe o corpo (soma) à alma (psyche), sendo esta última capaz de atingir o inteligível ou intelectual (noético). Essa tríade representa o embate entre a matéria mortal, a alma imortal e a capacidade racional de contemplar as Formas/Ideias.

    A reflexão sobre essa tríade readquire atualidade diante da fragmentação do homem contemporâneo. O Espiritismo oferece chave interpretativa capaz de integrar esses níveis, ao compreender o ser humano como Espírito imortal que se manifesta por meio do perispírito e do corpo físico. Tal leitura supera reducionismos biológicos e psicologismos, recolocando a ética no centro da existência.

    O soma, para a Doutrina Espírita, é instrumento transitório da experiência terrena, “não passa de um envoltório destinado a receber o Espírito” (1), evidenciando sua função pedagógica. A vida orgânica possui dignidade, mas não soberania; serve aos propósitos evolutivos do princípio inteligente. Reduzir o homem ao soma significa ignorar sua natureza essencial e a continuidade da vida além da matéria.

    A psique corresponde, em grande medida, ao campo perispiritual. André Luiz define o perispírito como “organismo sutil, estruturado pelo pensamento, intermediário entre o Espírito e o corpo carnal” (2). Nele se registram emoções, tendências e memórias de outras existências, constituindo verdadeiro laboratório moral.

    A mente não é produto do cérebro, mas realidade anterior que dele se utiliza para expressar-se. Daí a repercussão direta dos estados psíquicos sobre a saúde física: desequilíbrios afetivos modelam o perispírito e alcançam o soma.

    O nível noético identifica-se com o próprio Espírito, sede do livre-arbítrio e da consciência. A lei divina está “gravada na consciência” (3) , indicando núcleo ético anterior a qualquer condicionamento biológico. Emmanuel reforça essa primazia ao afirmar que “o homem é um Espírito eterno, responsável por suas escolhas” (4). O noético é, portanto, o centro decisório que confere sentido às experiências psíquicas e corporais.

    A correta hierarquia antropológica estabelece: Espírito → perispírito → corpo. Quando tal ordem se inverte, o desejo governa e a consciência obedece, produzindo crises existenciais e enfermidades. O ódio e a culpa “corroem as células sutis do perispírito, refletindo-se mais tarde nos tecidos orgânicos” (5). A ética converte-se, assim, em questão de saúde integral.

    A educação proposta pelo Espiritismo dirige-se ao noético. Não se trata de negar o soma nem reprimir a psique, mas de iluminá-los pela razão moral. Emmanuel recorda que “o pensamento é força criadora que edifica ou destrói” (6). Disciplinar o pensamento, evangelizar o sentimento e utilizar o corpo para o bem constituem caminhos de harmonização dos três planos.

    Nessa perspectiva, o drama do homem moderno revela-se sobretudo noético: perda de sentido e de responsabilidade espiritual. A tríade espírita recompõe a unidade: o corpo como palco, a psique como roteiro em elaboração e o Espírito como autor responsável. A existência encarnada torna-se processo educativo pelo qual o ser transforma instintos em sentimentos e sentimentos em virtudes.

    Conclui-se que soma, psique e noético não são compartimentos estanques, mas expressões de uma mesma realidade em níveis distintos. O Espiritismo interpreta essa totalidade afirmando a precedência do Espírito, a função mediadora do perispírito e o caráter instrumental do corpo. A verdadeira terapêutica é ética, ou seja,  transformação moral, caridade e busca de sentido transcendente, para que o noético governe a psique e utilize o soma como ferramenta de luz.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

    1               KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

    2               XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em Dois Mundos. Pelo Espírito André Luiz. 26. ed. Brasília: FEB, 2013.

    3               KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

    4               XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. 18. ed. Brasília: FEB, 2015.

    5               XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Pelo Espírito André Luiz. 32. ed. Brasília: FEB, 2014.

    6               XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. 18. ed. Brasília: FEB, 2015

     

    4 de fev. de 2026

    CARNAVAL É UM OPIÁCEO POPULAR QUE ASSINALA O MONTURO DA DEVASSIDÃO MORAL

     


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    O discurso politicamente “correto” repete que o carnaval é “expressão cultural intocável”. A Doutrina Espírita, porém, não se curva a imposturas dogmáticas e ideológicas. Até porque “a opinião das maiorias não constitui critério de verdade moral” (1). Se uma prática coletiva estimula a degradação do Espírito, deve ser questionada — ainda que venha embalada por purpurinas, sambas, confetes e serpentinas.

    O que se chama de festa transformou-se em indústria do entorpecimento ético. Erotização precoce, alcoolismo glamorizado, drogas, violência e desperdício de recursos públicos compõem o cenário. Na verdade  “o prazer desregrado rebaixa as aspirações superiores e prepara a decadência dos povos” (2).  

    Defende-se que “é só uma vez por ano”. Mas Emmanuel responde com dureza: “O excesso converte a diversão em laboratório de sofrimento, onde muitos hipotecam o futuro por algumas horas de ilusão” (3). Quantas gravidezes sem amparo, quantos lares feridos, quantas vidas ceifadas no trânsito e na violência nascem desse delírio coletivo?

    A dimensão espiritual costuma ser ridicularizada, mas André Luiz descreve o que a propaganda turística oculta: “ambientes saturados de emoções inferiores atraem entidades em desequilíbrio, estabelecendo processos obsessivos de largo alcance” (4). O carnaval não é neutro; é poderoso campo de sintonia que alimenta zonas sombrias do mundo invisível.

    Manoel Philomeno de Miranda é ainda mais direto ao afirmar que “as multidões excitadas convertem-se em instrumento de forças espirituais perturbadoras” (5). Enquanto o marketing vende felicidade, hospitais lotam, famílias choram e a saúde mental da população cobra a fatura depois das cinzas.

    Dizer isso não é moralismo: é realismo espiritual. Kardec definiu o critério do progresso: “reconhece-se o adiantamento pelo domínio das más inclinações” (6). Que domínio existe numa celebração erguida sobre a perda deliberada dos limites?

    A defesa cega do carnaval revela dependência psicológica de um modelo de alegria infantilizada. Leon Denis projetava outra civilização: “a festa digna será aquela em que o homem saia melhor do que entrou” (7). O carnaval faz o contrário — muitos saem piores, endividados, feridos no corpo e na alma.

    É preciso romper o tabu: nada justifica festejos que transformam seres humanos em mercadoria de prazer. Cultura que necessita de anestesia moral para existir é cultura doente. O Espiritismo propõe alegria consciente, arte que eleve, encontro que respeite o corpo e o destino eterno.

    Entre o samba ensurdecedor e a voz da consciência, o espírita não pode hesitar. Ou escolhemos a evolução moral, ou continuaremos tratando como “tradição” aquilo que, à luz do Espírito imortal, não passa de monturo de devassidão ética .


    Referências Bibliográficas:

    1            KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris: 1864.

    2            DENIS, Léon. Depois da Morte. Paris: 1911.

    3            XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Caminho, Verdade e Vida. Rio de Janeiro: FEB, 1952.

    4            XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 1945.

    5            FRANCO, Divaldo Pereira; MIRANDA, Manoel Philomeno de. Nos Bastidores da Obsessão. Salvador: LEAL, 1990.

    6            KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: 1857.

    7            DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Paris: 1927.

    3 de fev. de 2026

    O CENTRO ESPÍRITA NO BRASIL É UM NÚCLEO DE RELIGIOSIDADE ESPIRITÓLICA

     


    Jorge Hessen

    Brasília - DF

    O modelo predominante de prática espírita no Brasil tornou-se progressivamente estranho ao projeto concebido por Allan Kardec. O que hoje se denomina centro espírita assemelha-se mais a templo de consolação emocional do que à oficina de educação intelectual e moral idealizada pelo Codificador. Filas de passe, aconselhamentos rápidos e devoção (idolatrias) a médiuns, palestrantes, dirigentes  substituíram o estudo metódico, núcleo da proposta original.

    Kardec definiu a Sociedade Parisiense como um espaço de investigação racional destinado a “estudar todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas e suas aplicações às ciências morais” (KARDEC, 1860, p. 15). O centro kardeciano era laboratório de ideias, não ambulatório metafísico. Advertiu que “as reuniões devem tender, antes de tudo, à instrução” e que os grupos limitados a pedir favores aos Espíritos “afastam-se do verdadeiro objetivo do Espiritismo” (KARDEC, 1861, p. 227).

    No Brasil, porém, consolidou-se lógica assistencialista (fazeção de coisa material), ou seja, realização de tarefas repetitivas, mecânicas ou sem valor essencial, uma autêntica "fazedura de coisas ‘pros’ carentes" ou desesperada tentativa de fuga do ego (culpa).

    A mediunidade converteu-se em serviço de “alívio imediato”, frequentemente sem critério. Ora “o Espiritismo sem estudo transforma-se em crendice piedosa, e a mediunidade sem disciplina degenera em porta aberta à mistificação” (XAVIER; EMMANUEL, 1940, p. 63). A advertência emmanuelina descreve com precisão o quadro atual.

    A cultura religiosista nacional moldou as casas espíritas à feição católico-devocional: palestras com tom de sermão, passes com aura sacramental, dirigentes elevados a oráculos. Porém , sabemos sobejamente  que  “o Espiritismo não pede crença cega, mas exame” (KARDEC, 1857, p. 32). Léon Denis reforçou a mesma linha ao afirmar que a doutrina deve formar consciências livres, pois “a fé que não pode encarar a razão é fé morta” (DENIS, 1919, p. 74).

    O crescimento numérico cobrou preço doutrinário. Muitos frequentadores conhecem mais psicografias recentes que a Codificação; preferem a opinião do(a) palestrante  endeusado(a) ao método do controle universal. O Codificador prevenira que, sem esse crivo, “o Espiritismo se perderia num labirinto de opiniões individuais” (KARDEC, 1864, p. 41). Cada centro tornou-se pequeno feudo interpretativo.

    A suposta “caridade” converteu-se em álibi para o abandono do estudo. Confundiu-se bondade com improviso. Sabemos que “fora da caridade não há salvação”, mas “sem instrução não há Espiritismo sólido” (KARDEC, 1868, p. 118). Portanto, “socorrer o corpo alheio e descurar da iluminação da alma é perpetuar a miséria sob nova máscara” (XAVIER; EMMANUEL, 1952, p. 102). Destacamos ainda que  “o Espiritismo será ciência ou não será nada” (DENIS, 1921, p. 29).

    Retomar os Princípios Originais  não é abolir o consolo assistencial, e sim recolocá-lo sobre base racional. O centro precisa voltar a ser escola do Espírito: análise de mensagens, pesquisa moral, formação do caráter. Menos altar (“mesas brancas”) e imagens, mais mesa de estudo; menos personalismo, mais método; menos dependência mediúnica, mais autonomia.

    Enquanto persistir o modelo devocional espiritólico, administraremos emoções, não transformaremos consciências. O Espiritismo é movimento para libertar inteligências; porém os espiritólicos o reduziram à farmácia de aflições. Cumpre decidir se honraremos o projeto do Codificador ou se preservaremos tradição mística brasileira que leva seu nome, mas não sua essência.

     

    Referências Bibliográficas:

    • DENIS, Léon. Depois da Morte. Paris: Livraria Espírita, 1919.
    • DENIS, Léon. No Invisível. Paris: Livraria Espírita, 1921.
    • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: Didier, 1857.
    • KARDEC, Allan. Estatutos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Paris: 1860.
    • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Paris: Didier, 1861.
    • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris: Didier, 1864.
    • KARDEC, Allan. A Gênese. Paris: Didier, 1868.
    • XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 1940.
    • XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 1952

    1 de fev. de 2026

    O ESPIRITISMO NO BANCO DOS BONIFRATES DA HIPOCRISIA SOCIAL “CANHOTA”

     


    Jorge Hessen

    Brasília- DF

    O racismo nunca foi apenas um desvio moral: é um projeto de poder. Ao longo dos séculos, revestiu-se de teologia, de ciência e de política para legitimar privilégios. Contra esse edifício de arrogância, o Espiritismo ergueu, ainda no século XIX, um argumento devastador: a reencarnação.

    Kardec sentencia que, por ela, “desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher” (KARDEC, 2019, p. 214). Se o Espírito muda de corpo como quem troca de roupa, que valor real possui a cor da epiderme?

    A afirmação kardeciana soou como heresia num tempo embriagado por teorias de superioridade racial. A Europa oitocentista produziu uma caricatura de ciência para sustentar a dominação colonial. A frenologia, por exemplo, pretendia medir a inteligência pelas saliências do crânio; a fisiognomonia jurava ler virtudes e vícios na forma do rosto.

     Hoje sabemos que tais doutrinas eram apenas álibis acadêmicos do racismo. Kardec dialogou com esse cenário e, sem submeter-se a ele, desferiu golpe certeiro ao afirmar que eventuais atrasos de povos africanos derivavam de fatores históricos e do grau evolutivo dos Espíritos — jamais de biologia imutável (KARDEC, 2010).

    A frenologia, criada por Franz Gall no início do século XIX, influenciou tribunais, escolas e políticas coloniais. Media crânios para “provar” inferioridades inatas. Foi desmontada pela ciência do século XX, mas seus fantasmas ainda assombram discursos contemporâneos travestidos de genética social.

    Kardec não foi politicamente correto; foi intelectualmente corajoso. Ao escrever na Revista Espírita o estudo “Frenologia espiritualista e espírita – Perfectibilidade da raça negra” (1862), recusou o dogma racista e recolocou o debate no terreno moral: “enfraquecem-se os preconceitos de raça; os povos entram a considerar-se membros de uma grande família” (KARDEC, 2010, p. 97). Em plena era do tráfico atlântico e dos impérios coloniais, essa frase tinha a força de um manifesto subversivo.

    A mensagem espírita desmonta a lógica perversa que ainda hoje contamina sociedades como a brasileira. Emmanuel recorda que “a cor da epiderme não define a grandeza da alma; perante as Leis Divinas, vale a luz que cada um acende no próprio coração” (XAVIER, 2015, p. 56). A tese é simples e explosiva: não existem raças superiores, existem Espíritos mais ou menos responsáveis por si mesmos.

    Léon Denis ampliou o alcance social dessa ideia: “A reencarnação destrói as barreiras artificiais que separam os homens e prepara a fraternidade real entre as nações” (DENIS, 2008, p. 142). Se ontem fui escravo e amanhã posso renascer senhor, que sentido tem humilhar o semelhante? O racismo revela-se, então, não só crime contra o outro, mas estupidez contra si mesmo.

    Alguns críticos apressados vasculham a obra kardeciana em busca de frases que reflitam a linguagem do século XIX para acusar Kardec de conivência com o preconceito. Ignoram o essencial: o núcleo doutrinário da Doutrina Espírita  implode qualquer hierarquia racial. Kardec é categórico ao afirmar que, com os princípios espíritas, “apaga-se, naturalmente, toda distinção estabelecida entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor” (KARDEC, 2019, p. 221). A palavra “estúpidos” não é diplomática; é julgamento ético.

    No Brasil, o problema ganha contornos de farsa histórica. A chamada “democracia racial” funciona como anestesia moral enquanto jovens negros continuam sendo os principais alvos da violência e da exclusão. O Espiritismo, se quiser ser fiel a si mesmo, não pode limitar-se a consolar consciências: precisa incomodar estruturas. Emmanuel adverte sem meias palavras: “ninguém se eleva humilhando o próximo; toda opressão racial é dívida que a consciência coletiva resgatará” (XAVIER, 2016, p. 88).

    É preciso também recusar o paternalismo que infantiliza o negro, como se sua emancipação dependesse da boa vontade alheia. A doutrina ensina responsabilidade pessoal e coletiva. Denis lembra que “a libertação do homem começa no íntimo, quando ele se reconhece Espírito imortal e irmão de todos” (DENIS, 2008, p. 167). Igualdade não é favor; é lei divina.

    Portanto, o Espiritismo não cabe nas prateleiras do discurso VERMELHO. Ele é, por natureza, uma filosofia incômoda aos sistemas de opressão CANHOTAPATA. Quem utiliza centros e tribunas espíritas para reproduzir preconceitos trai Kardec, Emmanuel e Denis. A reencarnação é dinamite ética: explode castas, ridiculariza racismos e desnuda a miséria do orgulho humano.

    Diante de Deus — e da razão — sob o ponto de vista racial não existem cores privilegiadas. Existem consciências em evolução. Transformar essa verdade em prática social é o teste definitivo da fé espírita no século XXI.


    Referência Bibliográfica:

    DENIS, Léon. Depois da morte. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

    KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos – abril de 1862. Brasília: FEB, 2010.

    XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Justiça Divina. 22. ed. Brasília: FEB, 2015.

    XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Religião dos Espíritos. 20. ed. Brasília: FEB, 2016

    UMA REFLEXÃO ESPÍRITA DA BANALIZAÇÃO TÉCNICO-JURÍDICA DO MAL



     

    Jorge Hessen

    Brasília - DF

    O fato ocorrido na madrugada de 22 de janeiro de 2026 na cidade-satélite em que moro ultrapassa a esfera da tragédia criminal e expõe uma fratura ética do sistema de justiça. Um adolescente de 16 anos foi espancado até o coma, sofreu parada cardíaca de doze minutos e teve parte do crânio removida para conter o edema cerebral. O agressor, de 19 anos, pagou fiança e foi libertado porque sua conduta “não evidenciaria periculosidade exacerbada”. O magistrado disse (pasmem): quase matar alguém por motivo fútil (chiclete) teria peso jurídico insuficiente para justificar prisão cautelar.

    A decisão contraria a lógica do próprio processo penal. O art. 312 do CPP autoriza a preventiva para garantia da ordem pública quando a gravidade concreta do fato e o risco de reiteração são evidentes (¹). A doutrina reconhece que o modus operandi brutal e desproporcional revela periculosidade concreta, legitimando a custódia (²). O STJ tem precedentes no mesmo sentido (³). Ignorar tais parâmetros transforma a lei em ficção e converte o processo em ritual sem função protetiva.

    Allan Kardec ensinou que “a lei humana deve ser reflexo da lei divina de justiça”(⁴). Quando a hermenêutica se descola da realidade da vítima e absolutiza presunções abstratas, rompe-se esse reflexo e instala-se a injustiça legalizada. O Direito não pode ser anestesia moral.

    Há ainda grave desvio na aplicação da fiança. O instituto destina-se a delitos de menor potencial, não a condutas que se aproximam da tentativa de homicídio ou da lesão gravíssima do art. 129, § 2º, do CP. A proporcionalidade exige correspondência entre dano e resposta estatal (²). O resultado foi a privatização da liberdade: quem possui R$ 24,3 mil compra o direito de responder solto, enquanto a vítima paga fraldas neurológicas e incerteza.(*)

    Emmanuel advertiu que “o direito sem consciência converte-se em maquinaria de opressão”(⁵). A frase descreve o cenário: uma interpretação que ampara o agressor e desampara o ofendido. Periculosidade social não é conceito etéreo; nasce dos fatos. Espancar alguém até a falência neurológica por motivo fútil é sinal objetivo de risco. Léon Denis lembrou que “a sociedade que confunde indulgência com impunidade constrói escolas de criminosos”(⁶).

    Não se propõe encarceramento cego, mas coerência. O sistema dispõe de cautelares diversas, monitoramento e requalificação para tentativa de homicídio. O inadmissível é neutralizar a função do processo. Kardec foi claro: “a indulgência para com o mal é cumplicidade”(⁷). A mensagem transmitida é pedagógica às avessas: a violência compensa quando há dinheiro.

    O delegado responsável pelo inquérito  que chorou em público protestou o evidente: autos não recompõem neurônios. Emmanuel recorda que “a impunidade terrestre agrava o débito perante a Lei Divina”(⁸), mas a vítima precisa de tutela agora. A missão do Estado é proteger a vida, não consolar o algoz.

    O episódio revela a troca da justiça pelo procedimento. Denis advertiu que “o mal triunfa quando os bons silenciam por comodismo”(⁹). Se o Direito permanecer prisioneiro de abstrações, estimulará a autotutela e a descrença social. Um fato fútil (chiclete) desnudou a falência de uma estrutura moral. Ou recolocamos a vida no centro da hermenêutica, ou continuaremos fabricando monstros com carimbo oficial. Como sintetizou Kardec, “a sociedade colherá exatamente o que semeia”(¹⁰).

     (*) Hoje (01-02-26)  o agressor foi novamente preso preventivamente. 

    Referências Bibliográficas:

    1          BRASIL. Código de Processo Penal, art. 312.

    2          NUCCI, Guilherme de Souza. Prisão e liberdade. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022, p.  214-216.

    3          STJ. HC 598.886/SC, Rel. Min. Ribeiro Dantas, 5ª T., j. 15.9.2021.

    4          KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019, q. 875.

    5          XAVIER, F. C.; EMMANUEL. Fonte Viva. 44. ed. Brasília: FEB, 2018, cap. 110.

    6          DENIS, Léon. Depois da Morte. 32. ed. Rio de Janeiro: CELD, 2017, p. 214.

    7          KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 69. ed. Brasília: FEB, 2020, cap. VII.

    8          XAVIER, F. C.; EMMANUEL. Pão Nosso. 41. ed. Brasília: FEB, 2019, cap. 98.

    9          DENIS, Léon. No Invisível. 27. ed. Rio de Janeiro: CELD, 2016, p. 167.

    10        KARDEC, Allan. A Gênese. 53. ed. Brasília: FEB, 2018, cap. III.

     

    31 de jan. de 2026

    O IMPULSO CENTRAL DO SER HUMANO: PRAZER, PODER OU SENTIDO? UMA REFLEXÃO COM ALLAN KARDEC


     

    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    Desde o surgimento da psicologia moderna, uma questão fundamental inquieta filósofos, teólogos e cientistas da alma: o que move verdadeiramente o ser humano? Sigmund Freud, Alfred Adler e Viktor Frankl ofereceram respostas distintas a essa pergunta, que, à luz da visão espírita e cristã, revelam estágios progressivos de compreensão da natureza espiritual do homem.

    Freud sustentou que o núcleo da vida psíquica humana reside na libido sexual, entendida como força primária da conduta. Para ele, o comportamento humano é majoritariamente determinado por impulsos inconscientes que buscam prazer e descarregam tensões reprimidas pela cultura e pela moral. “A libido é a energia, considerada como uma grandeza quantitativa, dessas pulsões que têm a ver com tudo o que pode ser abrangido sob a palavra amor” (FREUD, 1920). Nessa concepção, o homem aparece fortemente condicionado ao passado instintivo, quase prisioneiro de suas pulsões biológicas.

    Alfred Adler, rompendo com essa leitura reducionista, afirmou que o impulso central do ser humano não é sexual, mas o desejo de poder e autoafirmação. O indivíduo, segundo ele, luta continuamente para superar sentimentos de inferioridade e impor sua vontade ao mundo. “Ser humano significa sentir-se inferior e lutar continuamente para superar esse sentimento” (ADLER, 1933). Embora mais social que Freud, Adler ainda mantém o homem preso à lógica do ego, da competição e da dominação.

    É Viktor Frankl, entretanto, quem promove uma verdadeira virada antropológica. Sobrevivente dos campos de concentração nazistas, ele constatou que homens privados de prazer, poder e liberdade física ainda conseguiam manter-se espiritualmente vivos. A razão? O sentido da vida. Para Frankl, “a busca de sentido é a motivação primária do ser humano” (FRANKL, 1989). Não é o prazer que sustenta a existência, nem o poder, mas a certeza íntima de que a vida tem um propósito, mesmo no sofrimento.

    Essa concepção harmoniza-se profundamente com a visão espírita-cristã. Allan Kardec ensina que o Espírito é criado “simples e ignorante”, destinado ao progresso moral e intelectual ao longo das existências (KARDEC, 2013). O sofrimento, longe de ser absurdo, possui função educativa. O Cristo, por sua vez, revela que a vida encontra plenitude não na satisfação dos desejos nem na conquista do mundo, mas no amor, no serviço e na fidelidade à verdade.

    Frankl, sem recorrer diretamente à teologia, reencontra o Evangelho pela via da experiência humana: quem encontra um “para quê” suporta quase qualquer “como”. O sentido transcende o ego, relativiza a dor e dignifica a existência. Assim, entre o prazer freudiano, o poder adleriano e o sentido frankliano, a Doutrina Espírita reconhece um eixo superior: o ser humano é um Espírito imortal em jornada de aperfeiçoamento, chamado a transformar sofrimento em aprendizado e existência em missão.

     

    Referências Bibliográfica:

    ADLER, Alfred. O sentido da vida. São Paulo: Martins Fontes, 1933.

    FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1920.

    FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 1989.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.

    DIREITO DE ERRAR APRENDENDO ERRANDO; PROGREDINDO CORRIGINDO


    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    Urge reconhecermos o direito de errar, não como obséquio moral, mas como imperativo lógico da Criação. Fomos criados simples e ignorantes, conforme ensina o Espiritismo, destinados ao progresso gradual, pela experiência e pelo aprendizado sucessivo. Exigir acertos absolutos de espíritos ainda em formação é desconhecer a própria justiça divina.

    O Benfeitores são categóricos ao afirmar que “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem ciência, para que cada um tivesse o mérito de adquirir, pelo trabalho, o conhecimento” (KARDEC, 2013, q. 115). O erro, portanto, não é um desvio do plano divino, mas parte integrante de sua pedagogia. Aprende-se errando; progride-se corrigindo.

    Nesse cenário, a culpa, quando absolutizada, converte-se em mecanismo injusto e paralisante. Ela não educa; ela oprime. Ao negar-nos o direito de errar, a culpa excessiva contradiz a própria razão de nossa criação. Emmanuel adverte que “ninguém se reajusta pelo remorso improdutivo, mas pela reparação no bem” (EMMANUEL, 2012, p. 87). A consciência não foi feita para esmagar o espírito, e sim para despertá-lo.

    A Justiça Divina, diferentemente do que supõe a crença vulgar, não é condenatória nem punitiva. Ela é essencialmente educativa. As Leis de Deus, inscritas na consciência humana, operam por meio das provações, que ensinam, e das expiações, que reequilibram. Kardec esclarece que “a expiação é sempre uma prova, mas a prova nem sempre é uma expiação” (KARDEC, 2013, q. 171), demonstrando que não há castigo arbitrário, mas finalidade moral.

    Léon Denis reforça essa compreensão ao afirmar que “o sofrimento não é uma vingança do céu, mas um instrumento de educação para a alma” (DENIS, 2010, p. 214). Onde muitos enxergam punição, o Espiritismo identifica oportunidade de reajuste e crescimento interior.

    Todavia, reconhecer o direito de errar não nos exime do dever de acertar. Quando o indivíduo se refugia no desculpismo consigo mesmo, cai na preguiça moral e na acomodação espiritual. Emmanuel alerta que “a estagnação é uma forma sutil de rebeldia contra a Lei do Progresso (EMMANUEL, 2011, p. 132). A consciência desperta não se tortura, mas também não se absolve levianamente.

    Por isso, diante dos equívocos — sobretudo os deliberados —, impõe-se o movimento ativo do desagravo. Reparar não é sofrer inutilmente; é reconstruir. Não é penitência vazia; é responsabilidade lúcida. Kardec já advertia que “o verdadeiro espírita se reconhece por sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (KARDEC, 2013, Introdução, item VI).

    Esse processo exige reflexão consciencial, esforço contínuo de harmonização com as Leis Divinas, coragem para pacificar o próprio eu e disposição para desenvolver virtudes. Denis sintetiza com precisão: “não há progresso sem esforço, nem elevação sem sacrifício consciente” (DENIS, 2009, p. 176).

    O grande desafio está no equilíbrio: nem a exigência neurótica da perfeição imediata, nem a negligência confortável do adiamento eterno. Fora desse eixo, o espírito se enreda em tormentas íntimas; dentro dele, inicia-se a verdadeira harmonia com a própria essência espiritual.

    Errar, aprender, reparar e prosseguir — eis a pedagogia divina da consciência. Nela não há condenados, apenas espíritos em educação, caminhando, gradualmente, rumo à perfeição relativa, quando então refletirão, em grau elevado, o ideal do Cristo, Guia e Modelo da Humanidade.


    Referências Bibliográfica:

    DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 30. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
    DENIS, Léon. Depois da morte. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.
    EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.
    EMMANUEL (Espírito). Caminho, verdade e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012.
    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

     

    30 de jan. de 2026

    A INGÊNUA VAIDADE DOS “PALESTRANTES ESPÍRITAS” QUE HUMILDEMENTE SÃO CHEIOS DE SI


     

    Jorge Hessen

    Brasília – DF

     

    Há algo profundamente equivocado — e espiritualmente perigoso — no comportamento de “palestrantes espíritas” que passaram a confundir tribuna com altar e palestra com culto à própria imagem. Não se trata mais de simples deslize humano: trata-se de um desvio sistemático do espírito da Doutrina, travestido de “divulgação”.

    Esses “palestrantes”, muitas vezes eloquentes e bem articulados, acreditam sinceramente que estão servindo ao Espiritismo, quando, na realidade, servem-se dele. Usam Kardec como verniz intelectual, Emmanuel como selo moral e Léon Denis como ornamento poético — mas o centro gravitacional da fala é sempre o mesmo: o próprio ego. Isso mesmo! Eu sou o tal!

    Allan Kardec foi taxativo ao advertir que a autoridade moral jamais se impõe pela palavra inflamada ou pela admiração pública, mas pela coerência entre discurso e vida. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, é incisivo: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (KARDEC, 2004, cap. XVII, item 4).

    Nada mais distante dessa máxima do que  “palestrantes”que se alimentam de aplausos, contabilizam seguidores e medem sua “missão” pela quantidade de convites recebidos. A tribuna, nesse caso, deixa de ser instrumento educativo e se transforma em espelho narcísico.

    Emmanuel, com a lucidez que lhe é própria, alerta que a vaidade é o teste mais severo do trabalhador espiritual. Não a vaidade grosseira, mas a vaidade bem-educada, que se disfarça de serviço, humildade verbal e falsa abnegação. Vejamos: “A vaidade é um dos últimos véus que o espírito se decide a rasgar, porque sabe ocultar-se sob a aparência do bem” (EMMANUEL, 2010, p. 112).

    É exatamente aí que reside a ingenuidade — ou a presunção — desses “palestrantes”: acreditam que podem falar de humildade enquanto cultivam autoadmiração, pregar desapego enquanto constroem e amontoam muitos bens de luxo, denunciar o orgulho alheio enquanto protegem a própria prepotência  com extremo zelo.

    O resultado é devastador para o movimento espírita. O público passa a confundir retórica com elevação, carisma com autoridade moral. Forma-se um “clero informal”, não oficial, mas socialmente reconhecido — algo que Kardec combateu desde a gênese da Doutrina ao rejeitar qualquer estrutura sacerdotal, hierárquica ou personalista.

    Léon Denis, herdeiro fiel do pensamento kardequiano, foi direto ao ponto ao afirmar que o pretenso “palestrante” deve desaparecer para que a ideia sobreviva. Ele diz: “O obreiro sincero não busca o brilho pessoal; sabe que, quando o homem aparece mais que a verdade, a verdade começa a eclipsar-se” (DENIS, 2001, p. 87).

    No entanto, o que se vê hoje são expositores que se tornam maiores que a mensagem, mais comentados que o conteúdo, mais celebrados que a Doutrina. O Espiritismo, então, deixa de ser escola de consciência para tornar-se palco de personalidades.

    Não se trata de negar o valor da boa oratória, nem de exigir silêncio monástico dos divulgadores. Trata-se de recordar o óbvio que muitos parecem ter esquecido: ninguém é indispensável ao Espiritismo. A Doutrina sobreviveu sem esses “palestrantes” antes deles nascerem — e sobreviverá depois que as suas máscaras caírem no túmulo.

    A tribuna espírita não foi criada para fabricar ídolos, mas para formar e despertar  consciências. Quando alimenta o ego mais do que esclarece o espírito, ele trai sua finalidade, ainda que envolta em ocas e belas palavras e citações corretas.

    Talvez, no fim, a maior ingenuidade desses “palestrantes” seja esta: acreditar que o plano espiritual endossa aquilo que apenas o público aplaude. E como  já dizia Augusto dos Anjos no poema "Versos Íntimos": "A mão que afaga é a mesma que apedreja".

    Pensemos nisso!

     

    Referências Bibliográfica:  

    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 124. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

    DENIS, Léon. O Espiritismo na Arte. 7. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

    EMMANUEL. Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

    29 de jan. de 2026

    PATOLOGIA DO PODER E DEGENERAÇÃO MORAL - UMA REFLEXÃO KARDECIANA





    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    A história humana demonstra que o poder, quando dissociado da consciência moral, converte-se em instrumento de opressão. Regimes autoritários, ideologias totalizantes e estruturas burocráticas desumanizadas não surgem de forma espontânea, mas se desenvolvem a partir de uma inversão profunda dos valores éticos que regem a vida social.

    A Doutrina Espírita adverte que o verdadeiro progresso é simultaneamente intelectual e moral. Quando esse equilíbrio se rompe, a inteligência passa a servir à dominação, e não à justiça.

    Porque a lei moral é anterior a qualquer sistema jurídico humano. Em O Livro dos Espíritos, afirma categoricamente: “A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um” (KARDEC, 2013, q. 875).

    Quando o poder ignora essa lei, ele deixa de ser instrumento de ordem e passa a ser mecanismo de violência legitimada. Não se trata, portanto, apenas de erro administrativo, mas de desvio moral estrutural.

    Essa perspectiva aproxima-se da noção moderna de que certas estruturas de poder são ocupadas por indivíduos incapazes de empatia, convertendo o Estado em aparelho de dominação psicológica e simbólica.

    Emmanuel aprofunda essa análise ao alertar para o perigo da inteligência divorciada do sentimento. Em O Consolador, lemos: “A inteligência sem o sentimento transforma-se em instrumento de destruição” (EMMANUEL, 2013, q. 247).

    Aqui se encontra um dos pontos centrais da patologia do poder: indivíduos altamente racionais, porém moralmente vazios, utilizam o discurso da justiça, da igualdade ou do bem coletivo como retórica de controle. O mal não se apresenta como brutalidade explícita, mas como norma administrativa.

    Nesse cenário, a consciência individual é progressivamente anulada em favor da obediência cega, fenômeno amplamente observado nos dias de hoje por aqui.

    Sabemos que  nenhuma civilização sobrevive sustentada apenas pelo avanço técnico. Leon Denis afirma: “O progresso material pode acelerar a queda de uma sociedade quando não é acompanhado pelo progresso moral” (DENIS, 2005, p. 312).

    Essa afirmação revela que a decadência social não é acidental, mas consequência direta da substituição da ética pela utilidade e da virtude pelo pragmatismo político.

    Quando o poder passa a premiar a astúcia e a punir a retidão, estabelece-se um estado de patologia coletiva e subjugação generalizada, no qual o mal deixa de ser exceção e passa a ser método.

    A Doutrina Espírita não se limita à denúncia. Ela aponta caminhos. Kardec ensina que o aperfeiçoamento das instituições depende da regeneração dos indivíduos. Emmanuel reforça que a transformação social começa na reforma íntima, e Léon Denis insiste que a educação moral é o único antídoto duradouro contra a tirania.

    Assim, combater a patologia do poder não é apenas substituir governantes, mas também restaurar a consciência moral como eixo da vida pública.

    Portanto, a degeneração do poder é, antes de tudo, uma enfermidade moral. Sistemas injustos são reflexo de consciências adoecidas. A Doutrina Espírita oferece uma chave interpretativa profunda ao demonstrar que o verdadeiro critério de legitimidade do poder não é a força, nem a legalidade formal, mas a fidelidade à lei moral.

    Onde a consciência é obstruída , o poder adoece. Onde falta moral, a justiça se corrompe. E       qualquer semelhança com cenário social coevo do Brasil não será mera coincidência.

     

    (*)  Termo criado pelo psiquiatra polonês Andrzej Łobaczewski, define um sistema de governo em que uma minoria psicopata assume o controle, impondo sua patologia à sociedade e gerando profunda injustiça social. É um conceito central da ponerologia, estudo que analisa como indivíduos com transtornos de personalidade influenciam o poder, resultando em regimes autoritários, repressão, propaganda ideológica simplista e violência

     

    Referências bibliográfica:

     

    DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

    EMMANUEL. O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.




    QUANDO O CUME JUDICIAL APODRECE, ADOECE E DESTROI TODA UMA NAÇÃO. "E AGORA, JOSÉ?"



    Jorge Hessen

    Brasília – DF

     

    Há uma claudicação recorrente — e perigosamente jeitosa — em usar a justiça como simples ferramenta de partido político. À luz da Doutrina Espírita, para uma Nação essa situação é assombradora. Até porque a justiça deveria ser uma lei moral, anterior aos códigos, superior aos governos e inseparável da ordem social. Quando ela se apodrece moralmente, não se trata apenas de falência institucional: rompe-se a harmonia social, política, econômica, cultural  e espiritual de uma nação.

    Allan Kardec é categórico ao afirmar que a verdadeira justiça nasce do respeito aos direitos alheios, temperada pela caridade, sem a qual se converte em rigor estéril ou em privilégio disfarçado (KARDEC, 2004). Uma sociedade que manipula a justiça para atender interesses ideológicos, paixões partidárias ou projetos de poder não promove progresso: semeia desordem moral.

    E nenhuma nação sobrevive ilesa quando a lei deixa de ser expressão do bem comum para tornar-se instrumento de dominação.

    A história demonstra que a decadência das civilizações não começa pela pobreza material, mas pela corrupção dos princípios. Léon Denis observa que o colapso social se instala quando a noção de justiça é substituída por uma falsa ideia de igualdade que ignora mérito, esforço e responsabilidade individual (DENIS, 2011). Em nome de um abominável igualitarismo retórico, pune-se o produtivo, relativiza-se o erro e absolve-se o abuso. O resultado é previsível: a justiça perde autoridade moral, e o caos encontra terreno fértil.

    No campo político, esse desvio assume formas ainda mais graves. Quando leis são moldadas para favorecer grupos específicos, quando o crime é romantizado e o dever individual é dissolvido em narrativas coletivistas, a justiça deixa de proteger a sociedade e passa a ameaçá-la. O Espiritismo não endossa revoluções morais feitas por decreto, tampouco acredita que reformas externas possam substituir a transformação individual.

    Sempre citarei Emmanuel que  é incisivo ao lembrar que nenhuma organização social se sustenta sem a renovação moral das consciências, pois sistemas políticos não regeneram almas (EMMANUEL, 2013). Uma justiça desconectada da lei divina converte-se em caricatura: aparenta igualdade, mas opera a injustiça; proclama direitos, mas despreza deveres; promete harmonia, mas produz desordem.

    Assim, a deterioração da justiça não é causa isolada das crises nacionais — é sintoma de uma enfermidade espiritual  (obsessão) coletiva. Onde a justiça falha, a confiança social se dissolve; onde a confiança se perde, a nação fragmenta-se. Não há harmonia social possível sobre alicerces morais corroídos.

    À luz da Doutrina Espírita, o verdadeiro progresso social exige justiça firme, imparcial e moralmente orientada, jamais submissa a imposições ideológicas ou projetos de poder. Quando a justiça se afasta da lei natural, a nação perde o eixo. E nenhuma engenharia política é capaz de compensar a ausência desse fundamento invisível (lei natural), absolutamente essencial.

     

    Referências Bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

    DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.

    EMMANUEL (Espírito). Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 24. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013


     

    28 de jan. de 2026

    A FRAUDE IDEOLÓGICA “VERMELHA” CONTRA KARDEC

     


    Jorge Hessen

    Brasília – DF

     

    A cooptação entre Espiritismo e socialismo (materialista) não é fruto de ingenuidade, mas de abominável manipulação “intelectual”. Para que Allan Kardec caiba no discurso igualitarista contemporâneo, é preciso destroçar sua obra, calar princípios centrais da Doutrina Espírita e substituir a reforma moral pelo ativismo político. Portanto, é claro que não se trata de evolução do pensamento espírita, mas de sequestro ideológico.

    A Doutrina dos Espíritos jamais prometeu justiça social por meio de estruturas estatais. Os Benfeitores do além não conceberam uma doutrina de redenção coletiva fundada na repressão. Ao contrário, estabeleceram como lei fundamental o progresso individual do Espírito, condicionado ao mérito, ao esforço e à responsabilidade pessoal. Por isso, foram taxativos ao afirmarem que a igualdade absoluta não existe na Terra, nem poderia existir.

    Essa afirmação, ignorada pelos espíritas poliqueiros, desmonta a base moral do socialismo (materialista).

    Repetiremos mil vezes se preciso for que a desigualdade social não é uma falha estrutural do sistema econômico, mas consequência pedagógica do adiantamento desigual dos Espíritos. Tentar suprimi-la por decreto não eleva consciências; apenas mascara diferenças morais que só o tempo e a reencarnação corrigem. O igualitarismo forçado não cria justiça: produz ressentimento.

    Outro ponto irreconciliável com o Espiritismo é a propriedade privada. Enquanto o socialismo (materialista) a transforma em iniquidade social, o espirita  reconhece como direito natural sendo tanto natural e tão legítimo quanto o direito de viver

    O Espiritismo não condena quem possui, mas quem abusa; não criminaliza o sucesso, mas adverte sobre o egoísmo. A concentração de recursos, quando fruto do trabalho e da iniciativa, pode cumprir função social legítima.

    Portanto, denunciamos aqui  a ilusão da igualdade material como solução moral, até porque jamais será pelo nivelamento das fortunas que se fará a igualdade humana, mas pela elevação moral dos homens. Destarte, aqui implodimos qualquer tentativa de alinhar Espiritismo e socialismo (materialista).

    A confusão atinge seu ápice quando o serviço social é reduzido a política pública. Devemos distinguir virtude moral de assistência compulsória, posto que a correta caridade é aquela em que se busca o economicamente desprovido, sem humilhá-lo. Assistencialismo piegas imposto não é virtude; é cabresto. Quando o famigerado Estado substitui a consciência, forma dependentes, não Espíritos livres.

    Nenhuma mudança da massa cega isenta a renovação do individual por dentro. Eis o ponto que o socialismo não suporta: sem reforma íntima, toda reforma social é conversa fiada.

    O caolho socialismo materialista tenta resolver no plano econômico o que só se resolve no plano espiritual. O Espiritismo desmonta essa fantasia ao afirmar que fora da vida futura, não há verdadeira sanção moral. Portanto, sem reencarnação, sem responsabilidade além da morte, resta apenas a ilusão de que redistribuir bens regenerará consciências.

    Destaco que o Espiritismo não foi, não é  e jamais será  socialista. Para torná-lo compatível com essa exótica ideologia, é preciso negar o mérito, apagar a reencarnação e substituir a moral pela torpe militância. Os Espíritos propõem a transformação do Espírito, já o socialismo promete a salvação pelo sistema social, portanto, são projetos incombináveis.