03 abril 2026

O surto do ajuizamento moral nos “feudos espíritas”

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma distorção grave em curso no movimento espírita brasileiro e o mais inquietante é que muitos não a percebem. Grupos espíritas (feudos) que deveriam funcionar como escolas de consciência têm, gradativamente, assumido a postura de tribunais morais. Aí, não se acolhe para educar; julga-se para desqualificar. Não se orienta com empatia, mas corrige-se com aspereza. Não se constrói consciência, mas impõe-se conduta padronizada.

E tudo isso em nome de uma suposta “fidelidade” doutrinária. Obviamente é preciso dizer com clareza que  isso não é Espiritismo. É certo que a Doutrina jamais propôs a eliminação do julgamento. Julgar faz parte da estrutura racional do ser, pois nos permite discernir, escolher e evoluir. Sem julgamento, não há ética. Sem ética, não há progresso. Porém, o que se observa hoje não é o uso saudável dessa faculdade, mas sua perversão.

O julgamento, em muitos ambientes “espíritas”, deixou de ser instrumento de lucidez para se tornar mecanismo de poder. Pois julga-se para constranger,  para controlar e, sobretudo, para sentir-se acima. E aqui está o ponto central que muitos evitam encarar. O que se apresenta como “rigor moral” é, frequentemente, apenas orgulho bem articulado. Portanto, não se trata de defesa da doutrina, mas de vaidade espiritual.

Cria-se, então, um ambiente tóxico. As pessoas passam a medir cada palavra, cada atitude, não por consciência, mas por receio do olhar alheio, da crítica velada e da exclusão silenciosa. O resultado é previsível: consciências reprimidas, culpas infladas, relações superficiais e uma crescente necessidade de parecer aquilo que ainda não se é.

Isso tem nome: hipocrisia moral. E isso não é exagero. É consequência direta de um modelo onde a aparência de virtude vale mais do que o esforço sincero de transformação.

Enquanto isso, a base moral do Espiritismo vai sendo esvaziada na prática. A advertência do Cristo, relembrada em O Evangelho segundo o Espiritismo  “Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado” — tornou-se, para muitos, apenas uma citação decorativa (KARDEC, 2018).

Porque, na vivência real, as pedras continuam sendo lançadas com impressionante facilidade. O mais preocupante é que essa cultura se perpetua sob o silêncio de lideranças “oficiais” que, por responsabilidade doutrinária, deveriam se posicionar. A omissão, nesse caso, não é neutra ,  ela legitima o desvio. E assim, o movimento segue, pouco a pouco, se afastando de sua essência.

É preciso interromper esse processo. O Espiritismo não forma juízes, mas  Espíritos em aprendizado e não exige perfeição imediata, mas esforço contínuo. Porque Kardec não legitima a dureza, mas ensina a caridade. Que não é condescendência com o erro, mas compreensão de quem erra. Sem isso, tudo o que resta é uma caricatura da doutrina: rígida, fria e incapaz de transformar realmente o ser humano.

Fica, portanto, uma pergunta incômoda , mas necessária: estamos formando consciências livres ou apenas reproduzindo tribunais disfarçados de grupos espíritas? Ora, se a resposta não vier acompanhada de autocrítica sincera, o risco é evidente: continuaremos chamando de Espiritismo aquilo que, na prática, já se afastou da Terceira Revelação.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131. ed. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2016.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2017.

Como atuaria uma FBISCC - Federação Brasileira de Intermediários Simulados de Cartas “Consoladoras”?


 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Quando o consolo vira espetáculo, a mediunidade se desfigura e a doutrina é traída em seus fundamentos mais abençoados. Há provocações que não nascem do desejo de ferir, mas da urgência de despertar. Indagar se um dia surgirá uma FBISCC - Federação Brasileira de Intermediários Simulados  de Cartas “Consoladoras”   pode soar burlesco — mas, em essência, denuncia um problema gravíssimo, real e crescente: a institucionalização informal da fraude mediúnica sob o disfarce da consolação dos enlutados.

O que se observa, com inquietante frequência, é a transformação da mediunidade — faculdade sublime— em instrumento de espetacularização circense, comércio emocional e manipulação da dor alheia (estelionato do luto). As chamadas “cartas de parentes desencarnados”, que deveriam representar, quando autênticas, um fenômeno raro, espontâneo e profundamente moral, têm sido convertidas em produto previsível, condicionado a informações prévias, coleta de dados virtuais e, não raramente, verdadeiros roteiros emocionais extraídos de redes sociais.

Tal prática não apenas fere a ética — ela afronta diretamente os princípios codificados por Allan Kardec. Em O Livro dos Médiuns, Kardec é categórico ao advertir que a mediunidade séria não se presta a espetáculos nem se submete à curiosidade ou ao interesse material. Afirma ele:

“Toda faculdade mediúnica que se afasta de seu fim providencial, que é o aperfeiçoamento moral da humanidade, degenera e se torna instrumento de mistificação.”(KARDEC, 1861)

Mais grave ainda é o abuso da dor dos enlutados como matéria-prima para encenações emocionais (deboche). O consolo verdadeiro não se constrói com frases genéricas bem elaboradas, mas com a autenticidade espiritual que escapa a qualquer método humano de fabricação. Quando há pré-inscrição, coleta de informações e previsibilidade, há, no mínimo, indício de teatro do mediunismo — e, no máximo, exploração consciente do doloroso luto.

A Doutrina Espírita não legitima atalhos emocionais. O consolo que ela oferece está fundamentado na compreensão da imortalidade da alma, na lei de causa e efeito e na certeza do reencontro e jamais em supostas mensagens produzidas sob encomenda.

Além disso, há um silêncio da “liderança” institucional que agrava o cenário. A ausência de posicionamentos firmes por parte de entidades representativas contribui para a proliferação dessas práticas. O silêncio, nesse contexto, deixa de ser neutralidade e passa a ser conivência indireta.

A questão, portanto, não é apenas denunciar tais fatos, mas preservar a integridade da Doutrina. O Espiritismo não necessita de espetáculos para se sustentar; sua força reside na coerência entre razão, moral e espiritualidade. Quando essa tríade é rompida, o que resta é apenas virtude afetada e tal aparência não consola, somente ilude.

É preciso restabelecer critérios. A mediunidade legítima é discreta, gratuita, desinteressada e, sobretudo, subordinada à moral evangélica. Fora disso, há risco evidente de ser falseada.

Se um dia vier a existir, ainda que jocosamente, uma “associação” dos que aleijam a mediunidade, ela não precisará de estatuto formal, bastará a continuidade do silêncio, da omissão e da falta de discernimento coletivo.

Mas ainda há tempo de agir. O compromisso do espírita consciente não é com fenômenos, mas com a verdade. E a verdade, embora por vezes desconfortável, é o único caminho seguro para o consolo real , portanto, aquele que não engana, que  não é estelionatário do luto , não precisa de encenação para atingir a consciência profunda da imortalidade.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

 


01 abril 2026

Um Olhar Espírita sobre a Simplicidade do Bem



Jorge Hessen

Brasília-DF

A vivência do bem, muitas vezes, é percebida sob a ótica da obrigação, como um dever moral rígido que impõe ao indivíduo uma postura artificial diante da vida. No entanto, a Doutrina Espírita convida à reflexão sobre uma moral mais profunda, fundamentada na transformação íntima e na naturalidade das ações. Nesse contexto, simplificar a conduta e agir com base na reciprocidade espontânea revela-se caminho mais autêntico para o progresso espiritual.

Segundo os ensinamentos codificados por Allan Kardec, a verdadeira moral não reside apenas na prática exterior das boas ações (fazeção de coisas para os outros), mas na intenção que as origina. O bem praticado por imposição perde parte de seu valor espiritual, enquanto aquele que nasce da consciência desperta reflete o avanço do Espírito em sua jornada evolutiva.

A ideia de “ser bom” como um peso revela ainda um estágio de transição moral, no qual o indivíduo reconhece o valor do bem, mas ainda não o incorpora plenamente ao seu modo de ser. À medida que ocorre o amadurecimento espiritual, o bem deixa de ser obrigação e passa a ser expressão natural da alma.

A Doutrina Espírita apresenta a lei de causa e efeito como um dos pilares da justiça divina. Tal lei não deve ser interpretada como mecanismo punitivo, mas como instrumento educativo que promove o equilíbrio das ações humanas.

Nesse sentido, a reciprocidade natural pode ser compreendida como manifestação dessa lei: aquilo que o indivíduo emite — pensamentos, sentimentos e atitudes — retorna a ele de forma correspondente. Quando o bem é realizado com leveza e sinceridade, cria-se ao redor um campo vibratório harmônico, favorecendo experiências igualmente equilibradas.

Essa dinâmica pode ser comparada a um “efeito bumerangue”, em que as energias lançadas ao mundo retornam ao emissor, não como castigo ou recompensa arbitrária, mas como consequência natural da sintonia estabelecida.

Simplificar a conduta significa libertar-se das expectativas externas e das imposições sociais que, muitas vezes, distorcem o sentido do bem. A prática da caridade, nesse contexto, deixa de ser uma performance de fazeção de coisas  e passa a ser uma vivência genuína.

A leveza nas ações está diretamente relacionada ao desapego do reconhecimento e à ausência de interesse pessoal. Conforme ensina o Espiritismo, a verdadeira caridade é aquela praticada sem ostentação, com humildade e discrição, refletindo o amor ao próximo em sua forma mais pura.

Ao agir com simplicidade, o Espírito encontra maior sintonia com sua própria consciência, estabelecendo uma conexão íntima com as leis divinas que regem a vida. E a consciência, no entendimento espírita, é o reflexo da lei divina inscrita no íntimo de cada ser. Quando o indivíduo age em harmonia com essa lei, experimenta paz interior e equilíbrio emocional.

A substituição do peso da obrigação pela leveza da compreensão moral representa um avanço significativo na evolução espiritual. Nesse estágio, o bem não é mais uma meta externa, mas uma realidade interior consolidada.

Assim, a reciprocidade deixa de ser apenas um mecanismo de retorno e passa a ser expressão da unidade entre o indivíduo e o universo moral em que está inserido.

À luz da Doutrina Espírita, compreende-se que o verdadeiro progresso não está na rigidez moral, mas na transformação moral que conduz o indivíduo a agir espontaneamente em conformidade com as leis divinas. Nesse sentido, viver o bem com leveza é, antes de tudo, viver em sintonia com a própria consciência.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2016.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2017.


 

31 março 2026

Necessária restrição de acesso de menores às redes sociais

 

Jorge Hessen
Brasília -DF

A crescente proposta mundial de restringir o acesso de menores às redes sociais revela uma preocupação legítima com o desenvolvimento integral da criança e do jovem. À luz da Doutrina Espírita, essa discussão ultrapassa o campo social e alcança dimensões morais e espirituais profundas.

A infância é fase decisiva, na qual o Espírito reencarnado se mostra mais receptivo às influências educativas. É nesse período que se consolidam hábitos, valores e tendências. A exposição precoce a conteúdos superficiais, violentos ou sensualizados pode comprometer esse processo, gerando marcas e traumas  duradouras no psiquismo.

As redes sociais, orientadas por estímulos de vaidade, comparação e busca de aprovação, tendem a reforçar imperfeições morais ainda presentes no Espírito. Como advertem os Benfeitores espirituais, educar é direcionar o ser imortal para o bem, disciplinando inclinações e fortalecendo virtudes.

Sob a ótica espírita, ambientes moralmente desequilibrados favorecem a sintonia com entidades igualmente perturbadas. Sabemos que  as ligações espirituais se estabelecem pela afinidade vibratória. Assim, a imersão precoce em conteúdos negativos pode intensificar desequilíbrios emocionais e espirituais.

Nesse contexto, a restrição do acesso de menores às redes sociais não configura cerceamento, mas medida coerente de proteção. A família, conforme possui missão essencial na educação moral dos filhos, cabe-lhe orientar com firmeza e responsabilidade.

A sociedade igualmente deve proteger a infância e a juventude, inclusive por meio de normas que limitem a exposição a ambientes nocivos. Não se trata de negar a tecnologia, mas de subordiná-la aos valores que promovem o progresso moral.

Proteger a criança é garantir ao Espírito reencarnado condições adequadas de crescimento. Em tempos digitais, isso exige vigilância, discernimento e compromisso ético, para que a infância não seja abreviada por influências que não lhe pertencem.

Conclui-se que, apesar da responsabilidade pela proteção de crianças e adolescentes ser compartilhada entre família, sociedade e Estado, o papel dos pais é fundamental, uma vez que estes são os principais responsáveis legais pela orientação, educação e vigilância dos filhos.

A atuação dos pais vai além da simples imposição de regras: eles desempenham um papel ativo na construção de um ambiente digital seguro, sendo o principal instrumento para

evitar que as crianças e os adolescentes sejam expostos a riscos como cyberbullying, grooming, sexting, abuso sexual e outros crimes cibernéticos. O poder familiar lhes atribui a responsabilidade de educar e orientar os filhos sobre o uso adequado da internet, mostrando os perigos que estes podem enfrentar e como se comportar de maneira segura nas redes.

É necessário que os pais, conscientes dos perigos do mundo virtual, assumam uma postura de constante supervisão e de diálogo com os filhos. Ao estabelecer limites claros, como o tempo de uso das mídias digitais e o tipo de conteúdo permitido, os pais não apenas protegem seus filhos, mas também promovem uma relação de confiança, essencial para o desenvolvimento saudável da autonomia. O diálogo deve ser contínuo e aberto, permitindo que as crianças se sintam confortáveis em compartilhar suas experiências e dificuldades online.

As “Fake News” do além através das “coqueluches do momento” - as “cartas consoladoras ”

 


Jorge Hessen

Brasilia-DF

 

Entre a cruz e a espada ou entre a fé racional e a exploração da dor é o desafio para que o movimento espírita brasileiro aja com firmeza contra o charlatanismo mediúnico.

O fenômeno das chamadas “cartas consoladoras” quando autêntico, espontâneo e moralmente elevado  encontra respaldo doutrinário. Contudo, o que se observa em diversos contextos contemporâneos do movimento espírita brasileiro é a banalização desse recurso mediúnico, transformado em excrescente espetáculo emocional, marcado por promessas antecipadas, obrigatoriedade de inscrições prévias e forte apelo sensacionalista.

Essa prática, além de ferir os princípios doutrinários, pode configurar grave violação ética e até ilegalidade, sobretudo quando há indícios de obtenção prévia de informações por meio de redes sociais, cadastros ou investigações superficiais da vida alheia , prática conhecida como cold reading ou fraude mediúnica.

A Doutrina Espírita é clara ao afirmar que a mediunidade séria não se submete à vontade humana, tampouco pode ser marcada com hora, data e destinatário previamente definido. Até porque os Espíritos não estão às ordens de ninguém.
Quando médiuns passam a anunciar previamente a entrega de cartas consoladoras  a pessoas inscritas, há uma inversão completa do princípio básico da espontaneidade mediúnica. Tal prática não apenas compromete a credibilidade do fenômeno, como sacramenta manipulações e fraudes.

Escrevi recentemente que a exploração da dor alheia mediante promessas de comunicação com entes desencarnados pode configurar crime, à luz da legislação brasileira como o Art. 171 do Código Penal (Estelionato) Art. 283 do Código Penal (Charlatanismo). Art. 284 quando há promessa de intervenção espiritual com fins “materiais”.

Se houver algum tipo de cobrança direta ou indireta, ou mesmo captação de público visando “grana”, a situação se agrava ainda mais. O Projeto de Lei 1341/23, em tramitação na Câmara dos Deputados, busca também ampliar o combate a essas práticas.

Tenho insistido em que a ausência deliberada de posicionamento firme de entidades representativas como a Federação Espírita Brasileira contribui para a proliferação dessas práticas. O silêncio institucional, longe de ser neutro, atua como permissivo tácito.

O movimento espírita, que deveria ser guardião da seriedade doutrinária, acaba permitindo que a mediunidade seja transformada em palco de exibição egoica  onde o médium se promove, o público se emociona, e a verdade doutrinária é arremessada no lixão da imoralidade.

É imperioso que se estabeleçam medidas concretas do tipo proibição de práticas espetacularizadas
Através de eventos públicos com promessa de cartas consoladoras.

Os órgãos federativos estaduais  poderiam instituir conselhos para avaliar denúncias e orientar os centros através da criação de comissões de ética mediúnica.

E todos os casos suspeitos devem ser levados ao conhecimento público e, se necessário, às autoridades competentes.

Devemos valorizar a mediunidade discreta e moralizada como exemplificado por Chico Xavier, cuja postura era de humildade, espontaneidade e ausência de autopromoção.

Permitir que práticas fraudulentas prosperem é comprometer a própria missão do Espiritismo, que é esclarecer, consolar e elevar — jamais iludir. Até mesmo porque se o Espiritismo deseja manter sua credibilidade como doutrina séria, científica e moral, precisa urgentemente enfrentar, com coragem e lucidez, os desvios que o ameaçam por dentro. Não se trata de perseguir pessoas, mas de proteger princípios. Onde há espetáculo, não há elevação. Onde há fraude, não há Espiritismo.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2013.

BRASIL. Código Penal Brasileiro. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Diretrizes doutrinárias e orientações institucionais. Brasília: FEB, diversas edições.


30 março 2026

​O “esvaziamento” do movimento espírita brasileiro reproduz a preguiça moral dos seus “líderes”

 


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Refletiremos aqui um ponto sensível e recorrente dentro do próprio movimento espírita: a distância entre a grandeza dos princípios da Doutrina e a sua limitada difusão mundial após mais de um século e meio.

Antes de qualquer diagnóstico mais apressado, convém lembrar que o Espiritismo nunca se propôs a uma expansão baseada em proselitismo ou imposição cultural. Ao contrário, sua proposta sempre foi de crescimento orgânico, pela adesão consciente, racional e moral. Isso, por si só, já explica em parte sua menor visibilidade global quando comparada a religiões historicamente institucionalizadas.

Óbvio que isso não encerra a questão. O Espiritismo não oferece concessões fáceis. Ele exige transformação moral, estudo contínuo, disciplina moral e senso crítico. Diferente de sistemas religiosos que prometem salvação imediata ou recompensas externas (prosperidade), ele responsabiliza o indivíduo por sua própria evolução. Isso naturalmente amortiza sua popularização em massa, sobretudo em culturas marcadas pelo utilitarismo religioso.

O Brasil tornou-se o principal polo espírita do mundo por uma conjunção histórica, cultural e mediúnica ,com figuras como Bezerra de Menezes, Chico Xavier , Ivone Pereira e Divaldo Franco. No entanto, em muitos países, especialmente de tradição anglo-saxônica, o Espiritismo foi diluído no espiritualismo genérico ou rejeitado por barreiras culturais, linguísticas e religiosas.

No Brasil há evidentes fragilidades internas do movimento espírita. Há gravíssimos problemas reais, mormente com a falsa mediunidade. O Livro dos Médiuns já alertava com rigor contra mistificações, fascinação e fraudes. Quando esses critérios são ignorados, abre-se espaço para práticas duvidosas (as famigeradíssimas cartas consoladoras).

Isso sem nos referirmos aos exacerbados personalismos e à vaidade em que  “lideranças” se colocam acima da Doutrina, criando verdadeiros “feudos espirituais”.  Tudo isso por falta de estudo criterioso de Kardec onde muitos centros  e grupos espiritas abandonam o caráter filosófico e científico, reduzindo o Espiritismo a práticas assistencialistas ou místicas.

Já escrevi sobre a afonia ou “mutismo engessado” da FEB que  frequentemente adota posturas de neutralidade diante de desvios graves, o que apostilo como lesiva omissão.

Tal omissão febiana diante das chamadas “falsas mediunidades” e, em especial, as “cartas consoladoras” fajutas causa danos profundos. Não apenas ferem a ética, mas também desacreditam a Doutrina perante a opinião pública.

Sei que  fraudes existem em qualquer campo humano, seja religioso, científico ou político, e não invalidam o princípio, mas revelam a imperfeição ou má-fé dos seus intérpretes.

Não subestimo que  160 anos, do ponto de vista histórico e espiritual, é muito pouco tempo para consagração global do Espiritismo. O cristianismo primitivo, por exemplo, levou séculos para se estruturar e ainda assim sofreu (e sofre) profundas distorções.

O Espiritismo está ainda em sua fase inicial de assimilação, enfrentando resistências naturais de uma humanidade ainda fortemente materialista. Nesse sentido a “fragilidade” é do Espiritismo ou dos homens? Essa é a questão central.

A Doutrina, em si, apresenta uma estrutura lógica, ética e filosófica robusta. A fragilidade reside menos nela e mais na incapacidade humana de vivê-la plenamente, na tendência à deturpação, na dificuldade de alinhar prática e teoria.

Em outras palavras: não é a luz da Terceira Revelação que é fraca, mas os olhos humanos  que ainda não se habituaram a ela.

Óbvio que o Espiritismo não fracassou, embora  ainda não tenha sido plenamente realizado. Sua expansão não depende apenas de “divulgação”, mas de coerência moral, seriedade doutrinária e fidelidade aos princípios da Codificação.

Se há fraudes (falsas cartas consoladoras), lideranças medrosas e levianas e desvios, isso não denuncia a falência da Doutrina, mas evidencia a urgência de revisão das  suas bases , especialmente ao rigor metodológico do Livro dos Espíritos e ao equilíbrio do Evangelho segundo o Espiritismo.

Creio que  o verdadeiro crescimento do Espiritismo não se mede em números ou popularidade, mas na profundidade com que desperta e transforma consciências. E isso, por natureza, é  um projeto mais lento, silencioso e muito mais exigente.


29 março 2026

Silêncio febiano e as cartas “mediúnicas da carochinha": um alerta ao movimento espírita brasileiro

 


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando a omissão fala mais alto que a “orientação”, abre-se espaço para a fraude, a exploração das cartas “consoladoras”  e o descrédito do próprio Espiritismo.

O crescimento alarmante das chamadas “cartas consoladoras” de origem duvidosa no movimento espírita brasileiro não é um fenômeno isolado nem ingênuo. Trata-se de um processo contínuo de usurpação da mediunidade, que encontra terreno fértil justamente onde deveria haver vigilância, orientação e firmeza doutrinária.

A despeito de órgãos da grande imprensa terem denunciado o fato, é impossível ignorar um fator insultuoso: o silêncio "ensurdecedor" da FEB, que é a instituição de maior representatividade nacional. Sua ausência de posicionamento claro, público e pedagógico diante dessas práticas tem produzido um efeito colateral gravíssimo — a legitimação indireta do estelionato do luto.

A mediunidade é faculdade séria, que exige estudo, disciplina moral e, sobretudo, compromisso com a verdade. Não se trata de espetáculo, tampouco de comércio emocional. Quando supostas comunicações espirituais passam a depender de inscrições prévias, coleta de dados pessoais ou exposição em ambientes previamente organizados, estamos diante de um indício evidente de fraude “mediúnica”.

A omissão institucional, nesse contexto, não é neutra. Ela se torna funcional ao erro. Ao não esclarecer, não advertir e não educar, permite que o público menos esclarecido (leigo mesmo!) — muitas vezes fragilizado pelo luto — seja conduzido à ilusão. E pior: estimula, ainda que indiretamente, a proliferação de falsos médiuns que se aproveitam desumanamente da dor alheia.

O dano não se restringe às vítimas diretas. A médio e longo prazo, compromete-se a credibilidade do próprio movimento espírita brasileiro. A Doutrina, que se fundamenta na razão, na ética e no controle universal dos ensinos dos Espíritos, passa a ser confundida com práticas sensacionalistas e emocionalmente manipuladoras.

É preciso dizer com todas as letras: consolar não é enganar. A verdadeira consolação espírita nasce do esclarecimento, da compreensão das leis divinas e da certeza da imortalidade da alma — jamais de mensagens fabricadas através de informações das redes sociais e bancos de dados virtuais.

Diante disso, espera-se mais do que silêncio. Espera-se responsabilidade doutrinária. Espera-se que a FEB assuma seu papel “educativo”, orientando com clareza, denunciando desvios e promovendo o estudo sério da mediunidade, conforme os parâmetros da Codificação.

Sem isso, com o “lavar as mãos" da FEB eximindo-se de responsabilidade, culpas ou consequências sobre tal situação, fingindo não ter envolvimento e desinteressando-se do resultado, continuará a vigorar essa perigosa inversão: enquanto os fraudadores agem com ousadia, os responsáveis pelo “esclarecimento” permanecem pusilanimemente em silêncio.

E, no Espiritismo, omitir-se diante das atuais fraudes de “cartas consoladoras da carochinha” não é apenas um crime lesa-Deus— é, em certa medida, colaborar com o recrudescimento e ampliação delas.

28 março 2026

Eutanásia na Espanha uma alternativa irrefletida perante a agonia da dor


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz da Doutrina Espírita, a  dor — mesmo a mais profunda — não autoriza a interrupção voluntária da vida, que é patrimônio sagrado da alma imortal.

A atual notícia envolvendo uma jovem na Espanha, que decidiu pela eutanásia após vivenciar graves agressões no campo da sexualidade, reacende um debate doloroso e necessário: até que ponto a dor humana pode justificar a antecipação deliberada da morte?

A comoção é compreensível. A violência, sobretudo a de natureza íntima e psicológica, fere a alma em profundidade. Contudo, à luz da Doutrina Espírita não podemos confundir compaixão com anuência a práticas que ferem as leis divinas.

Para o Espiritismo, a vida não pertence ao indivíduo em caráter absoluto. Trata-se de uma concessão de Deus, instrumento de aprendizado e redenção. No Livro dos Espíritos, aprendemos que o homem não tem o direito de dispor da própria vida, pois apenas o Criador conhece o momento adequado do retorno ao plano espiritual.

A eutanásia, ainda que motivada por dor extrema, configura uma forma de abreviar uma prova ou expiação. E toda prova interrompida retorna, inevitavelmente, em momento futuro, muitas vezes em condições ainda mais desafiadoras.

Não enxergamos o sofrimento como castigo arbitrário, mas como mecanismo educativo da alma. As dores morais — como as decorrentes de abusos e violências — são, sem dúvida, das mais dilacerantes. Porém, longe de justificar o abandono da existência, elas clamam por acolhimento, amparo e reconstrução interior.

Emmanuel ensina que “a dor é o buril que aperfeiçoa a alma”. Isso não significa aceitar passivamente o sofrimento, mas enfrentá-lo com coragem, buscando auxílio espiritual, psicológico e fraterno.

A eutanásia apresenta-se, muitas vezes, como um gesto de “misericórdia”. No entanto, do ponto de vista espírita, trata-se de uma ilusão perigosa. A morte do corpo não extingue a dor da alma. Pelo contrário: o Espírito, ao despertar na vida além túmulo, leva consigo as mesmas angústias, agravadas pela consciência de ter interrompido a própria jornada.

Casos de suicídio e a eutanásia  são amplamente estudados na literatura espírita, como nas obras de André Luiz, que descrevem estados de sofrimento intenso no plano espiritual decorrentes da fuga das provas terrenas.

Se há algo que precisa ser denunciado com veemência, não é apenas a eutanásia em si, mas as circunstâncias que levaram a jovem espanhola a ato tão extremo. A violência sexual, a omissão social, o abandono emocional,  esses sim são os verdadeiros crimes que exigem combate firme.

A resposta espírita não é o julgamento da vítima, mas a defesa intransigente da vida e o incentivo à reconstrução. É dever da sociedade oferecer suporte, justiça e acolhimento, para que nenhuma alma se sinta empurrada ao desespero.

Diante de tragédias humanas como essa na Espanha, o Espiritismo nos convida à reflexão profunda, sem perder a ternura. A dor merece respeito, mas a vida exige defesa. Até porque a eutanásia não é libertação, é adiamento. Não é solução, é interrupção indevida de um processo sagrado.

Que possamos, seja como sociedade e como espíritas, reafirmar os valores da vida, da esperança e da justiça, lembrando sempre que nenhuma noite é eterna para aquele que confia nas leis sábias e misericordiosas de Deus.

Num mundo ferido pela violência e pela desesperança, cabe ao pensamento espírita erguer a bandeira da vida com lucidez e compaixão, jamais cedendo à tentação de soluções fáceis para dores complexas. A verdadeira caridade começa por preservar a existência e amparar o Espírito em sua jornada de redenção.

Nosso erro não é derrota mas conquista para o aprendizado

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz da Doutrina Espírita, os nossos reveses não configuram fracasso, mas oportunidades providenciais de aperfeiçoamento moral. Nossa existência observada apenas pelos critérios imediatistas do mundo costuma ser dividida entre vitórias e derrotas. A lógica terrestre, quase sempre subordinada aos interesses materiais, considera êxito aquilo que satisfaz as ambições pessoais e denomina fracasso tudo o que contraria desejos, expectativas ou projetos do ego.

Entretanto, a análise espírita, fundada na imortalidade da alma e na pluralidade das existências, oferece interpretação substancialmente diversa. Não há derrota em sentido absoluto em nossa vida. O que se convencionou chamar de fracasso nada mais representa que experiência de aprendizado, muitas vezes necessária ao reajuste dos nossos valores íntimos e ao desenvolvimento das virtudes ainda incipientes.

Allan Kardec demonstra, ao examinar as vicissitudes da vida, que as provas e expiações se inserem em contexto de justiça e misericórdia, no qual cada acontecimento possui função pedagógica. Sob essa perspectiva, os embaraços da jornada não se destinam a humilhar o ser, mas a despertá-lo para a realidade espiritual.

Vejamos que quando uma porta se fecha para nós, pode evitar comprometimento mais grave e ao experimentarmos uma “perda” afetiva, somos convidados ao desapego. São diversas situações desafiadoras tais como um insucesso profissional que nos convida a humildar o orgulho, seja uma enfermidade moral ou física que nos impulsiona à  restauração da disciplina interior. Em todos esses casos, podemos superficialmente identificar derrota, porém a razão kardeciana reconhece conquista, aprendizado e ensejo de progresso.

O erro mais grave não está no revés experimentado, mas na recusa em extrair dele a lição correspondente. A verdadeira derrota seria a cristalização do orgulho, da revolta ou da rebeldia diante das advertências da vida.

À medida que compreendemos nossa condição de Espíritos imortais, passamos a perceber que os acontecimentos dolorosos não representam interrupção do destino, mas recursos de aprimoramento sabiamente administrados pela Providência Divina.

Nenhum sofrimento é estéril quando acolhido com discernimento, fé raciocinada e disposição sincera de renovação. Em face disso, importa reafirmar que os nossos aparentes fracassos não constituem mapas de derrota, mas roteiros de aprendizado.

A vida, sob a regência das leis divinas, não nos impõe quedas inúteis; oferece-nos, antes, lições necessárias para que nos elevemos, nos corrijamos e prossigamos em direção à plenitude.

Em tempos de ansiedade, imediatismo e culto ao sucesso exterior, a mensagem espírita permanece atual: onde o mundo vê derrota, a consciência esclarecida identifica oportunidade de crescimento sempre.

Falsas cartas consoladoras e o Projeto de Lei 1341/23


A proposta em tramitação na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 1341/23, reacende um debate necessário, urgente e, para o movimento espírita sério, inadiável: o combate ao charlatanismo travestido de religiosidade.

Sob a justificativa apresentada pelo deputado Capitão Augusto, o projeto busca tipificar penalmente práticas que exploram a fé alheia por meio de falsas manifestações espirituais , curas inexistentes e supostos dons mediúnicos utilizados como instrumento de ganho financeiro (direta ou indiretamente). Trata-se de uma iniciativa que, à luz da ética espírita, encontra respaldo não apenas jurídico, mas sobretudo moral.

O Espiritismo sempre foi categórico ao afirmar que a mediunidade é uma faculdade natural e que seu exercício deve ser honrado. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec é incisivo ao condenar qualquer forma de exploração emocional e  financeira (direta ou indiretamente) das faculdades mediúnicas. A mediunidade, quando autêntica, é serviço, é caridade, é renúncia — jamais de falsidade.

Dessa forma, práticas como ofertas de “cartas consoladoras” formatadas através de informações contidas nas redes sociais, supostamente psicografadas por entes desencarnados, representam um desprezível  crime lesa-Deus e grave deturpação doutrinária quando associadas a interesses pessoais (egocentrismo) e materiais. Mais do que um desvio ético, trata-se de uma agressão à dor humana. Explorando o luto, tais práticas ferem profundamente aqueles que buscam consolo legítimo para suas perdas.

As cartas “consoladoras” fajutas são fétidas chagas morais. A tradição espírita sempre tratou a comunicação com os Espíritos com respeito, critério e responsabilidade. Médiuns como Chico Xavier sempre submeteram suas produções das cartas consoladoras autênticas  ao crivo da razão, da moral evangélica e do controle universal dos ensinos dos Espíritos.

Por outro lado, a proliferação de falsos médiuns, que produzem cartas consoladoras de mentirinha com  mensagens genéricas, emocionalmente manipuladoras e, muitas vezes, claramente fraudulentas, configura não apenas um problema religioso, mas um potencial crime — sobretudo quando há vantagem egocêntrica e financeira envolvida.

Obras de pensadores como Léon Denis e Emmanuel já alertavam para os perigos dos falsos profetas e da mediunidade desvirtuada. A mistificação é um dos maiores inimigos da doutrina, pois mina sua base moral e compromete sua finalidade educativa.

As penas previstas são reclusão, multa e agravantes em casos de vulnerabilidade compatíveis com a gravidade dos danos causados. Não se trata apenas de prejuízo financeiro, mas de sofrimento moral, perda de confiança e, em muitos casos, agravamento de quadros emocionais delicados.

Do ponto de vista espírita, a responsabilidade é ainda maior: aquele que engana em nome da falsíssima mediunidade compromete-se não apenas perante a justiça dos homens, mas diante das leis divinas.

O momento exige coragem moral. O Espiritismo não pode se omitir diante da banalização de suas práticas. A mediunidade séria não se confunde com espetáculo, nem com comércio, nem com exploração da dor pelo estelionato do luto.

Se o Projeto de Lei 1341/23 for adiante, irá contribuir para separar o joio do trigo e terá prestado relevante serviço à sociedade e também ao próprio movimento espírita, que precisa, mais do que nunca, reafirmar seus compromissos com a verdade, a ética e a caridade desinteressada.

Porquanto a fé espírita consola, porém, o charlatanismo das falsas cartas consoladoras  assassina esperanças e onde há ferida moral, a justiça  humana precisa atuar até porque a justiça divina atuará inevitavelmente.

 

27 março 2026

Espiritismo e tatuagens – urge coerência , sobriedade e o respeito pelo corpo

 


Jorge Hessen

Brasília-DF

 

A discussão sobre tatuagens , piercings e similares  à luz do Espiritismo e do Cristianismo exige reflexão séria, sem concessões à superficialidade cultural contemporânea. O corpo físico não é mero objeto de uso arbitrário, mas instrumento sagrado confiado ao Espírito para sua evolução moral.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ensina que o corpo é um empréstimo divino, devendo ser preservado com responsabilidade. Ao tratar da lei de conservação, Kardec adverte que abusos contra o corpo configuram infrações à lei natural (KARDEC, 2004).

Nesse sentido, a prática de tatuagens , que implica dor voluntária, agressão cutânea e marcação permanente , levanta questionamentos quanto à real necessidade e finalidade moral desse ato.

Sob a ótica espírita-cristã, o corpo é “templo do Espírito”. A banalização de intervenções corporais meramente estéticas ou identitárias pode refletir excessivo apego à matéria, em detrimento dos valores espirituais. Léon Denis adverte que o Espírito deve libertar-se das ilusões materiais, elevando-se pelo aperfeiçoamento íntimo, e não pela exterioridade (DENIS, 1987).

Benfeitores espirituais amplamente respeitados no movimento espírita reforçam essa compreensão. Emmanuel ensina que o corpo físico é oficina de redenção, não devendo ser submetido a práticas que expressem vaidade ou desrespeito (XAVIER, 2003). Na mesma linha, o Espírito “André Luiz” descreve o corpo como organização sutil e complexa, cuja harmonia pode ser afetada por agressões deliberadas (LUIZ, 2010).

A tradição espírita brasileira, representada por figuras como Bezerra de Menezes, Ivone Pereira, Eurípedes Barsanulfo, Cairbar Schutel, Batuira, Jésus Gonçalves,  sempre enfatizou o respeito ao corpo como dever moral. Embora não haja proibição formal e explícita nas obras básicas, o princípio da prudência recomenda evitar práticas desnecessárias que possam comprometer o equilíbrio físico e espiritual.

No cenário contemporâneo, Divaldo Franco diversas vezes se manifestou de forma crítica quanto à banalização do corpo, alertando que excessos nesse campo podem refletir conflitos íntimos e desconexão com valores espirituais mais elevados (FRANCO, 2015).

É importante destacar que o Espiritismo não estabelece dogmas exteriores, mas orientações baseadas na razão e na responsabilidade moral. Ainda assim, à luz dos ensinamentos mencionados, tatuagens e piercings podem ser compreendidos como práticas inadequadas quando motivadas por vaidade, modismo ou impulsividade — fatores que não contribuem para o progresso espiritual.

Além disso, sob o prisma perispiritual, a literatura espírita sugere que marcas profundas no corpo físico podem repercutir no perispírito, especialmente quando associadas a intenções negativas ou desequilíbrios emocionais. Tal perspectiva reforça a necessidade de cautela.

Portanto, embora a decisão final pertença ao livre-arbítrio individual, a coerência com os princípios cristãos e espíritas convida à sobriedade, ao respeito pelo corpo e à valorização do que é essencial: o aprimoramento moral do Espírito. Em um mundo marcado pelo culto à aparência, a verdadeira evolução exige disciplina, consciência e fidelidade aos valores essenciais.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2004.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

LUIZ, André (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de Saúde e Consciência. Salvador: LEAL, 2015.