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  • 2/14/2026

    Um adultério não transforma automaticamente o infiel em autor “indireto” de duplo infanticídio



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    A tragédia recente ocorrida em Itumbiara expõe não apenas a violência de um pai que assassinou os próprios filhos e, em seguida, suicidou-se, mas também uma segunda violência, igualmente cruel: o tribunal implacável das redes sociais. A esposa, flagrada em adultério, foi imediatamente convertida em ré moral coletiva. Contudo, à luz da razão espírita, é preciso separar emoção de justiça, indignação de responsabilidade.

    Não se trata aqui de romantizar o fato, porém, o adultério não é crime no Brasil desde 2005. Embora não seja crime, temos ciência de que a traição quebra deveres de respeito e fidelidade previstos no Código Civil, permitindo ao cônjuge traído buscar reparação por danos morais na justiça, especialmente quando envolve exposição pública ou sofrimento psicológico intenso. 

     A infidelidade é grave falha moral que fere compromissos assumidos e produz dores reais. No Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec recorda que a Lei de Amor e Fidelidade integra o progresso moral da humanidade. Toda quebra de dever gera consequências espirituais (1). Entretanto, consequência não é sinônimo de culpa por crimes alheios.

    O Espiritismo é categórico quanto à responsabilidade individual. No Livro dos Espíritos (questões 843-845), aprendemos que o homem é livre para agir e responsável pelo que faz (2). O homicídio jamais pode ser transferido a terceiros como se fosse resultado mecânico de uma provocação. O assassinato foi decisão do pai. A escolha extrema partiu de sua consciência, ainda que sob violento desequilíbrio emocional. Nenhuma traição conjugal transforma automaticamente alguém em autor indireto de duplo infanticídio.

    A paixão desgovernada é tema recorrente na literatura espírita. Léon Denis ensina que as paixões são forças neutras que, mal dirigidas, convertem-se em abismos. Ciúme, orgulho ferido, sentimento de posse — quando não educados — degeneram em violência (3). O crime, portanto, revela um Espírito incapaz de dominar seus impulsos naquele instante. Isso não elimina sua responsabilidade consciencial, apenas explica o mecanismo íntimo da queda.

    Enquanto isso, a sociedade digital (rede social) aponta o dedo. A mãe, que também perdeu dois filhos, sofre o luto dilacerante acrescido do opróbrio público. Emmanuel adverte que a caridade começa na indulgência para com as imperfeições alheias (4). Julgar com severidade pode satisfazer o instinto de condenação, mas não edifica ninguém. E André Luiz alerta que pensamentos de ódio e revolta criam campos mentais perturbadores, ampliando a dor coletiva (5).

    Há, ainda, uma distorção perigosa: equiparar iniquidades morais a crimes hediondos. A Lei Divina é justa e proporcional. O adultério terá suas consequências na consciência de quem o praticou. O homicídio responderá diante das Leis eternas com gravidade infinitamente maior. Confundir essas esferas é inverter a balança da justiça.

    Podemos refletir aqui três conjunturas, primeiro reconhecer a falta sem negar a responsabilidade individual, segundo amparar as vítimas sem criar bodes expiatórios e terceiro compreender que tragédias humanas são sempre resultado de múltiplos fatores espirituais, jamais de uma única causa simplista.

    Não sabemos quais débitos reencarnatórios estavam em curso naquela família. O Espiritismo nos ensina que os laços familiares são, muitas vezes, reencontros de Espíritos com histórias pretéritas complexas. Contudo, o desconhecimento desses vínculos não autoriza a sociedade a produzir sentenças morais definitivas.

    O Espiritismo não absolve erros, mas também não legitima linchamentos. Ele nos convida à responsabilidade pessoal e à compaixão coletiva. Diante da dor, o espírita cristão verdadeiro não grita condenações — ora, silencia e ampara.

    Talvez o maior aprendizado dessa inominável tragédia não esteja em descobrir culpados secundários, mas em perceber o quanto ainda precisamos educar nossas próprias paixões e nossa própria ira vingativa como se fosse justiça. Porque se o crime foi consumado por uma mão, a crueldade pode ser multiplicada por milhares de vozes iradas.

     

    Referências Bibliográficas:

    1          KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013.

    2          KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

    3          DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

    4          XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB, 2010.

    5          XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nos Domínios da Mediunidade. Brasília: FEB, 2013.