Jorge Hessen
Brasília -DF
As recentes preocupações manifestadas pelo Presidente da Federação Espírita do Distrito Federal acerca da proliferação de mensagens mediúnicas de procedência espúria, especialmente as chamadas “cartas consoladoras”, convidam o movimento espírita brasileiro a uma reflexão séria, serena e profundamente doutrinária.
Ora a prática mediúnica, por sua própria natureza, exige vigilância moral, critério racional e fidelidade aos princípios estabelecidos pela Codificação. Até porque o Espiritismo nunca ensinou que toda comunicação espiritual fosse autêntica. Ao contrário, desde o início, Allan Kardec advertiu que a mediunidade está sujeita a imperfeições, interferências , mistificações e charlatanismos.
Em O Livro dos Médiuns, o codificador insiste na necessidade do exame rigoroso das comunicações, recomendando prudência diante de mensagens que apelam excessivamente à emoção ou que se apoiam apenas na autoridade do médium. O método do controle universal do ensino dos espíritos foi proposto exatamente para evitar que a fé se transformasse em credulidade.
As cartas consoladoras que Chico Xavier psicografava ocupavam lugar sensível dentro da vivência espírita, pois se dirigiam a corações feridos pela perda de entes queridos e representavam fonte legítima de conforto e esperança.
Mas atualmente falsos e infelizes médiuns produzem paródia de “cartas consoladoras” sem o devido critério, cercadas de interesses pessoais, institucionais e ou financeiros, e têm causado grave dano moral, tanto às famílias quanto à própria credibilidade da doutrina.
A dor humana não pode ser instrumento de projeção pessoal, nem de afirmação de autoridade espiritual. Até porque em diferentes momentos da história do Espiritismo no Brasil, questionamentos sobre fenômenos mediúnicos deram origem a conflitos internos e até a disputas judiciais.
Nesses episódios, três princípios igualmente legítimos entram em tensão: a liberdade religiosa, o direito de crítica e investigação e a proteção da honra e da imagem de todos os envolvidos. É natural que divergências existam; o que não é aceitável é que a pesquisa dos fenômenos autênticos seja execrada e o pesquisador honesto seja intimidado com os abjetos assédios judiciais.
Os recursos frequentes das ações judiciais em controvérsias dessa natureza merecem reflexões. A defesa da honra é direito inquestionável, mas o Espiritismo sempre se afirmou como doutrina que se sustenta pelo esclarecimento e não pela imposição. Quando o exame crítico (a pesquisa séria) passa a ser interpretado como agressão, perseguição e incitação à violência , corre-se o risco de criar a política da mordaça que favorece a perpetuação do charlatanismo das ignóbeis e falsas “cartas consoladoras”. A lógica sussurra que a honestidade mediúnica , quando acompanhada de boa-fé, não teme investigação.
Este momento deve ser compreendido como oportunidade de amadurecimento coletivo. Preservar a pureza dos princípios espíritas não significa negar fenômenos, mas submetê-los ao critério da razão e da moral.
A confiança do público na mediunidade espírita foi construída ao longo de décadas por meio de trabalho sério, desinteressado e disciplinado. Essa confiança não pode ser arremessada na tubulação do esgoto por práticas que não resistam ao exame honesto.
Que este momento seja, portanto, não motivo de escândalo, mas de vigilância e renovação. Como ensinou Kardec, a solidez da doutrina não está na ausência de críticas, mas na capacidade de enfrentá-las com equilíbrio, honestidade e fidelidade aos seus próprios princípios. Somente assim a mediunidade autêntica continuará sendo instrumento de consolo real, e não de inquietação para as consciências.
