Jorge Hessen
Brasília -DF
Há no movimento espírita tupiniquim uma afirmação enganadora: a de que Allan Kardec jamais teria afirmado a existência de cidades, habitações ou estruturas organizadas no plano espiritual.
Essa ideia, repetida muitas vezes (por “sabichões” da “lógica”) sem maior critério na análise das fontes, não resiste (e não resiste mesmo!!!) a uma simples leitura das obras do próprio codificador.
O fato histórico demonstra que Kardec registrou diversas descrições de sociedades espirituais organizadas, incluindo habitações, centros de reunião e até verdadeiras cidades.
Vejamos na edição de agosto de 1858 da Revista Espírita: Kardec publica o estudo intitulado “Habitações em Júpiter”, baseado em comunicações mediúnicas analisadas por ele. Nesse texto aparece a descrição da cidade espiritual chamada Julnius.
O relato não deixa margem para interpretações minimalistas e pueris dos soberbos da “lógica acadêmica”. O texto descreve literalmente ruas e caminhos organizados, praças públicas, pórticos e pontes, canais, edificações coletivas.
Há um trecho claríssimo (no superlativo mesmo!), vejamos:“Tem suas ruas, seus caminhos traçados para o serviço interno; tem suas praças públicas, seus pórticos e suas pontes lançadas sobre os canais.”
E a descrição prossegue com um detalhe ainda mais intensíssimo: “A cidade inteligente, a verdadeira Julnius, não deve ser procurada no solo. Ela está no ar” (no ar????....). E completa: “Veríeis os céus escurecidos por nuvens de casas que chegam de todos os pontos do horizonte.”
Não se trata de metáfora vaga. O texto fala explicitamente de uma cidade espiritual organizada, com moradias e estruturas coletivas.
No mesmo estudo, Kardec registra que há habitações e vida social entre os Espíritos, portanto, vivem em grupos sociais estruturados. E também afirma: “Possuem habitações comuns e famílias, grupos harmoniosos de Espíritos simpáticos.” E vai mais além, (muito “além”) “existem edifícios destinados a reuniões públicas, festas e cerimônias.”
Destarte, como vimos o texto consigna elementos característicos de qualquer sociedade organizada tais como habitações, vida familiar, espaços coletivos, locais de reunião e celebração
Portanto, mais de um ano após a Codificação , a literatura espírita registrava formas de organização social no mundo espiritual.
Como atualmente a reação cética também existia. Curiosamente, Kardec expõe que algumas pessoas ridicularizaram essas descrições e traz à baila comentários irônicos como:
“Casas de Espíritos em Júpiter!... Que gozação!”
O ceticismo já existia no século XIX. A diferença é que Kardec não reagiu com dogmatismo nem com negação. Como pesquisador, ele fez o que sempre fez: publicou, analisou e deixou a questão aberta ao exame crítico.
A confusão atual nasce principalmente de reducionismos como confundir prudência metodológica de Kardec com negação e imaginar que tudo o que não está detalhado no Livro dos Espíritos teria sido rejeitado pelo codificador.
Porém, a vasta literatura kardeciana é mais abrangente do que os 5 livros da codificação, pois há todo o material de pesquisa publicado mensalmente por quase 12 anos perfazendo 135 edições da Revista Espírita (que raros espíritas leem), onde o Codificador registrou inúmeros estudos sobre a organização da vida espiritual. Nos 12 anos da R.E. aparecem referências a sociedades espirituais, agrupamentos de Espíritos por afinidade, habitações espirituais, centros de reunião, comunidades organizadas. Como se deduz nada disso, indica um “vácuo espiritual” onde os Espíritos vagariam sem estrutura social.
A grande questão talvez seja terminológica. É verdade que a expressão “colônia espiritual” não aparece na obra de Kardec. Essa terminologia se popularizou no século XX, especialmente após a publicação de Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier e atribuído ao espírito André Luiz.
Contudo, a ausência da expressão não significa ausência do conceito. O que Kardec descreve são sociedades espirituais organizadas com habitações e espaços coletivos — exatamente os elementos que mais tarde seriam chamados de “colônias espirituais”.
Do ponto de vista histórico e documental, a conclusão é clara: Kardec nunca negou a existência de estruturas organizadas no plano espiritual, muitíssimo pelo contrário. .
