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  • 5.3.26

    O essencial, a consciência e a fé no futuro como bases da felicidade

     


     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    O Livro dos Espíritos  não é um manual de prosperidade material, mas um roteiro de lucidez moral. Na questão 922, refletindo sobre a felicidade na Terra, os Espíritos dizem que ela é relativa à posição de cada um.  Sob o ponto de vista material  consiste na posse do necessário e  moralmente, na consciência tranquila e na fé no futuro.

    Vivemos, porém, como se a felicidade fosse um produto premium — sempre além do essencial, sempre dependente do próximo degrau social.

    O Espiritismo explica que  o necessário basta. O excesso, quando se torna finalidade, escraviza. A Doutrina não canoniza a pobreza, mas denuncia a fascinação do supérfluo. A paz nasce quando o espírito se emancipa da tirania do “mais”.

    A resposta 922 acima é pedagógica: a felicidade material é relativa. Cada qual, conforme suas circunstâncias, pode experimentar contentamento quando dispõe do indispensável à vida digna. O desapego ao que excede o essencial não é ascetismo sombrio, é lucidez moral. Quem reduz necessidades amplia serenidade.

    Se o necessário sustenta o corpo, a consciência desperta sustenta a alma. Não há travesseiro mais macio que a integridade moral. A fé no futuro transcendente confere sentido às lutas presentes. A esperança espírita não é fuga; é plano de imortalidade. Quem compreende a continuidade da vida após a morte física trabalha com maior lucidez hoje.

    A questão 927 da mesma obra  complementa a 922 ao afirmar que a infelicidade real é a falta do necessário à vida e à saúde. O restante são dores comparativas, infladas pelo orgulho e pelos apetites grosseiros. Quando a paixão governa, a frustração vira regra. Quando o espírito governa, a simplicidade vira refúgio.

    Quantas angústias não nascem da comparação social? O orgulho exige aplausos tanto quanto o egoísmo exige privilégios e a vaidade exige vitrine. Tais requisições são fontes de inquietação. O espírito desapegado, ao contrário, descobre que a paz é um estado interior, não uma vitrine exterior.

    Num tempo de consumo identitário e ansiedade de comportamento, a lição espírita é contracultural, pois que felicidade não é ter muito, é precisar de pouco, portanto não é ostentar, mas é estar em paz e  não vencer os outros, mas é vencer a si mesmo. O essencial material garante a dignidade enquanto que o essencial moral garante a alegria.

    Que as casas espíritas e nossas consciências  retomem essa regra. Menos competição e mais cooperação, destarte   menos acúmulo e mais ação. Menos inquietação pelo aplauso e mais lealdade ao dever.

    A felicidade terrestre, afinal, é possível  quando entendemos que ela começa no suficiente e floresce na consciência.