Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Há reportagens
tanto no jornal O Globo quanto nas investigações jornalísticas exibidas
no programa Fantástico, da TV Globo, que reacenderam um tema
delicado para o movimento espírita: a proliferação de supostas cartas consoladoras
, acompanhadas de denúncias de fraude, exploração emocional e estelionato
do luto contra pessoas fragilizadas pela dor da perda.
A Rede
Globo demonstra casos em que médiuns utilizavam dados de redes sociais para
construir mensagens aparentemente convincentes, mas sem autenticidade
espiritual.
Diante
desse cenário, torna-se necessário um posicionamento firme, doutrinário e
ético, para que a prática espírita não seja confundida com charlatanismo nem
utilizada como instrumento de exploração do sofrimento humano.
Na
codificação a mediunidade nunca foi apresentada como espetáculo público nem
como atividade “circense”. Ao contrário, a literatura espírita adverte que a
faculdade mediúnica deve ser exercida com humildade, estudo e finalidade moral.
Quando cartas
ditas consoladoras são produzidas após
coleta de dados da Internet, cria-se apenas uma simulação emocional, capaz de
impressionar quem sofre, mas sem qualquer garantia de origem espiritual. Kardec
advertiu que a mediunidade seria frequentemente alvo de mistificações, seja por
engano sincero, seja por presunção, seja por interesse pessoal.
Por isso, o
critério espírita sempre foi claro, pois a mediunidade não é para espetacularização
e a comunicação espiritual não se
encomenda; ademais, o fenômeno legítimo não se submete ao sensacionalismo.
A dor da “perda”
do ente querido torna as pessoas particularmente vulneráveis. Quem promete
comunicação garantida com entes falecidos assume enorme responsabilidade moral,
pois lida com sentimentos profundos, esperança e sofrimento.
No campo
jurídico, a posição brasileira tem sido cautelosa. O Superior Tribunal de
Justiça já manifestou entendimento de que cartas psicografadas não possuem
valor probatório, por não apresentarem confiabilidade verificável.
Essa
postura não julga a fé religiosa, mas preserva a segurança jurídica e evita que
decisões judiciais se baseiem em elementos impossíveis de comprovação.
Casos
amplamente divulgados pela imprensa reforçam a necessidade de prudência. Em
reportagens investigativas, realmente foram identificadas situações em que
supostos médiuns pesquisavam perfis em redes sociais para inserir nomes, datas,
placas de carro, CFPs e fatos nas cartas
mistificadas, criando a impressão de comunicação real.
As
reportagens do Grupo Globo citadas não devem ser vistas como ataque ao Espiritismo,
mas como alerta necessário. Se há fraude, ela deve ser denunciada. Se há
exploração do luto, deve ser combatida. Se há charlatanismo, deve ser
repudiado.
Defender a
doutrina significa impedir que impostores usem o nome da doutrina para
legitimar práticas impiedosas de falsas cartas consoladoras.
O
espiritismo sério não teme investigação, porque se apoia na razão, na moral e
na responsabilidade. A comunicação espiritual, quando ocorre, não se submete ao espetáculo
de circo, não se produz sob encomenda e jamais deve servir para explorar a dor
humana.
