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  • 21 março 2026

    Perdoar não é esquecer mas -retirar o poder de continuar ferindo o presente

     


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A frase “perdoar, mas ninguém esquece” expressa uma compreensão mais profunda e madura sobre o perdão, distinguindo-o da simples amnésia emocional. Durante muito tempo, difundiu-se a ideia ingênua de que perdoar seria apagar completamente a lembrança da ofensa, como se a mente humana pudesse eliminar voluntariamente registros dolorosos. Entretanto, tanto a psicologia contemporânea quanto a Doutrina Espírita ensinam que o perdão verdadeiro não consiste em esquecer, mas em libertar-se do ressentimento associado ao fato vivido.

    No campo psicológico, o perdão é compreendido como um processo de reorganização emocional. A memória permanece, porque faz parte da estrutura psíquica do indivíduo, mas a carga afetiva negativa pode ser transformada. A lembrança deixa de ser uma ferida aberta e passa a ser apenas uma cicatriz. A cicatriz recorda o ocorrido, porém já não provoca a mesma dor. Assim, perdoar não significa negar o passado, mas retirar dele o poder de continuar ferindo o presente.

    A Doutrina Espírita apresenta entendimento semelhante, porém mais profundo, ao tratar o perdão como conquista moral do Espírito em evolução. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, instrui que o verdadeiro perdão é aquele que não guarda rancor nem desejo de vingança, mas isso não implica esquecer o fato ocorrido. O esquecimento absoluto não depende da vontade, pois a memória é patrimônio da alma imortal. O que se exige do homem é dominar as paixões e substituir o ressentimento pela compreensão. Portanto,  perdoar os inimigos é sinal de superioridade moral, porque demonstra que o Espírito já não se deixa escravizar pelo orgulho e pelo ódio.

    Também Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, explica que o sofrimento moral, quando não superado, prende o indivíduo a vibrações inferiores, retardando seu progresso espiritual. O perdão, nesse contexto, é libertação íntima. Não se trata de absolver o erro alheio, mas de impedir que o mal recebido continue produzindo novos males dentro de nós. Guardar rancor é prolongar indefinidamente a agressão sofrida.

    Nas obras literárias de  Emmanuel, encontra-se a orientação de que o perdão é disciplina da alma. Mas  esquecer completamente as ofensas seria incompatível com a própria experiência evolutiva, pois a memória também serve de aprendizado. O importante é lembrar sem revolta, transformando a recordação em lição, e não em motivo de amargura.

    Sob esse ponto de vista, a frase “perdoar, mas ninguém esquece” não é sinal de fraqueza, mas de maturidade. O esquecimento profundo pode até ocorrer com o tempo, por mecanismos naturais da mente, porém não é condição para o perdão. O que realmente importa é cessar o vínculo emocional negativo que mantém o indivíduo preso ao passado.

    Perdoar não significa negar a injustiça, nem aceitar o erro, nem manter convivência obrigatória com quem feriu. Perdoar é escolher não carregar o peso do ressentimento. É um ato de autocuidado, de equilíbrio psicológico e de elevação espiritual. Quem não perdoa conserva a ferida aberta; quem perdoa permite que ela cicatrize. A cicatriz permanece na memória, mas já não domina o coração.

    Portanto, à luz da psicologia e do Espiritismo, perdoar é lembrar sem dor, é libertar-se sem negar a experiência, é seguir adiante sem carregar correntes invisíveis. O perdão não apaga o passado, mas impede que o passado destrua o futuro.


    Referências Bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

    DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: FEB, 2018.

    XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte viva. Brasília: FEB, 2016.