Jorge Hessen
Brasília -DF
Quando o consolo vira espetáculo, a mediunidade se desfigura e a doutrina é traída em seus fundamentos mais abençoados. Há provocações que não nascem do desejo de ferir, mas da urgência de despertar. Indagar se um dia surgirá uma FBISCC - Federação Brasileira de Intermediários Simulados de Cartas “Consoladoras” pode soar burlesco — mas, em essência, denuncia um problema gravíssimo, real e crescente: a institucionalização informal da fraude mediúnica sob o disfarce da consolação dos enlutados.
O que se observa, com inquietante frequência, é a transformação da mediunidade — faculdade sublime— em instrumento de espetacularização circense, comércio emocional e manipulação da dor alheia (estelionato do luto). As chamadas “cartas de parentes desencarnados”, que deveriam representar, quando autênticas, um fenômeno raro, espontâneo e profundamente moral, têm sido convertidas em produto previsível, condicionado a informações prévias, coleta de dados virtuais e, não raramente, verdadeiros roteiros emocionais extraídos de redes sociais.
Tal prática não apenas fere a ética — ela afronta diretamente os princípios codificados por Allan Kardec. Em O Livro dos Médiuns, Kardec é categórico ao advertir que a mediunidade séria não se presta a espetáculos nem se submete à curiosidade ou ao interesse material. Afirma ele:
“Toda faculdade mediúnica que se afasta de seu fim providencial, que é o aperfeiçoamento moral da humanidade, degenera e se torna instrumento de mistificação.”(KARDEC, 1861)
Mais grave ainda é o abuso da dor dos enlutados como matéria-prima para encenações emocionais (deboche). O consolo verdadeiro não se constrói com frases genéricas bem elaboradas, mas com a autenticidade espiritual que escapa a qualquer método humano de fabricação. Quando há pré-inscrição, coleta de informações e previsibilidade, há, no mínimo, indício de teatro do mediunismo — e, no máximo, exploração consciente do doloroso luto.
A Doutrina Espírita não legitima atalhos emocionais. O consolo que ela oferece está fundamentado na compreensão da imortalidade da alma, na lei de causa e efeito e na certeza do reencontro e jamais em supostas mensagens produzidas sob encomenda.
Além disso, há um silêncio da “liderança” institucional que agrava o cenário. A ausência de posicionamentos firmes por parte de entidades representativas contribui para a proliferação dessas práticas. O silêncio, nesse contexto, deixa de ser neutralidade e passa a ser conivência indireta.
A questão, portanto, não é apenas denunciar tais fatos, mas preservar a integridade da Doutrina. O Espiritismo não necessita de espetáculos para se sustentar; sua força reside na coerência entre razão, moral e espiritualidade. Quando essa tríade é rompida, o que resta é apenas virtude afetada e tal aparência não consola, somente ilude.
É preciso restabelecer critérios. A mediunidade legítima é discreta, gratuita, desinteressada e, sobretudo, subordinada à moral evangélica. Fora disso, há risco evidente de ser falseada.
Se um dia vier a existir, ainda que jocosamente, uma “associação” dos que aleijam a mediunidade, ela não precisará de estatuto formal, bastará a continuidade do silêncio, da omissão e da falta de discernimento coletivo.
Mas ainda há tempo de agir. O compromisso do espírita consciente não é com fenômenos, mas com a verdade. E a verdade, embora por vezes desconfortável, é o único caminho seguro para o consolo real , portanto, aquele que não engana, que não é estelionatário do luto , não precisa de encenação para atingir a consciência profunda da imortalidade.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2012.
