Jorge Hessen
Brasília -DF
Dizem que os “centros espíritas” estão esvaziados porque faltam “calor humano”, “música”, “alegria”, “empatia”. Outros dizem que o problema é “conservadorismo” e que a solução seria importar pautas político-ideológicas progressistas (à esquerda) pasmem!!!!Para dentro das instituições.
Ambas as propostas são, no fundo, sintomas do mesmo desvio: a tentativa de adaptar o Espiritismo ao gosto do aventureiro, em vez de formar consciências capazes de compreendê-lo.
Será que o Espiritismo é um produto cultural em disputa por audiência? Qualquer reunião espírita, quando séria, não é um palco para multidões frenéticas , é um laboratório moral e espiritual sem objetivo de entretenimento, mas de transformação moral.
Aliás, a autotransformação moral dá trabalho. E trabalho não enche “auditório”. O Espiritismo é uma escola da alma, não um clube social. Quando se tenta convertê-lo em ambiente de recreação emocional, o que se perde não é apenas a profundidade , perde-se a própria finalidade.
Mas há quem insista: “Precisamos atrair as pessoas”. Mas atrair para quê? Se for para oferecer estímulos efêmeros, qualquer clube faz melhor. Se for para acolher sem convidar para o crescimento moral, cria-se dependência emocional, não consciência.
O problema não é a ausência de público. É a ausência de propósito claro. No centro espirita bem orientado não há espaço para ilusões, mas trabalho espiritual sério e disciplinado, silencioso, metódico e frequentemente invisível. Não há preocupação com multidão, mas com responsabilidade sem aplausos viscosos.
E talvez seja exatamente isso que esteja afastando pessoas moralmente preguiçosas, porque o Espiritismo coerente determina mais esforço de mudança moral do que oferece afago meloso para a tirania do ego.
Muitos desviam-se do silêncio interior e caçam estímulos inúteis para não se confrontarem consigo mesmos. Quando a casa espírita séria propõe reflexão, disciplina e reforma moral, ela não está competindo com o mundo , ela está contrariando o “mundaréu”.
Outro aspecto importante é que o centro espírita não foi criado para disseminar ideologias , sejam elas quais forem (conservadoras ou progressistas). Ao assumir bandeiras políticas, a instituição espírita deixa de ser espaço de universalidade para se tornar território de disputa doentia. Transformar o centro espírita em extensão de agendas ideológicas , ainda que “bem-intencionadas” , é reduzir o alcance espiritual a um recorte circunstancial medíocre e transitório.
E então por que os centros espíritas estão esvaziados? Talvez porque, em muitos casos, já não oferecem nem profundidade suficiente para sustentar os que buscam sentido, nem atividade suficiente para competir com o “mundaréu”. Ficam no meio-termo , frágeis, diluídas, irrelevantes.
A solução não está em “modernizar” pela superficialidade, nem em “engajar” pelas ideologias. Está em algo muito menos sedutor e muito mais eficaz. Urge retomar a essência, o estudo sério, a vivência moral autêntica.
Isso não enche auditórios rapidamente. Mas forma consciências , e consciências transformadas sustentam qualquer obra no tempo. Por essa razão é preciso dizer, categoricamente , se o objetivo do centro espírita for atrair multidões a qualquer custo, o Espiritismo terá que deixar de ser o que é. E talvez seja exatamente isso que alguns incautos, consciente ou subconscientemente, estejam propondo.
Mas quem compreende a responsabilidade da Doutrina sabe que é preferível um centro espírita com reduzido número de frequentadores comprometidos com a verdade do que abarrotada de candidatos ao menor esforço rumo aos galardões da preguiça moral.
Que fique bem explícito que o centro espírita não existe para ser núcleo de “oba oba da fé” . Existe para convidar para a autotransformação moral. E isso, inevitavelmente, tem um preço (talvez o seu próprio esvaziamento).

