Jorge Hessen
Brasília -DF
Em tempos de militâncias apaixonadas e ativismos ideológicos avermelhados exacerbados, a caridade vem sendo frequentemente reduzida a mera prática assistencialista, quase sempre utilizada como instrumento de afirmação moral, propaganda psicológica ou compensação da culpa social.
Multiplicam-se os esmoladores “fazedores de coisas”, os exibicionismos da beneficência, as propagandas inflamadas em favor das “massas”, enquanto se negligencia justamente o núcleo moral da caridade ensinada por Allan Kardec: benevolência, indulgência e perdão das ofensas.
Portanto, a legítima caridade não é plataforma política, tampouco mecanismo de manipulação emocional. Kardec foi taxativo ao perguntar aos Espíritos qual o verdadeiro sentido da caridade. A resposta é clássica e definitiva: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros e perdão das ofensas” (KARDEC, 2005, q. 886). O Codificador não restringiu a caridade à distribuição de bens materiais, nem a converteu em bandeira ideológica de luta social.
O equívoco moderno consiste em substituir a transformação moral pela teatralização do assistencialismo. Há indivíduos que distribuem alimentos, roupas e favores, mas cultivam agressividade, intolerância, ressentimento e ódio contra os que pensam diferente. Outros fazem do assistencialismo um mecanismo narcísico de autopromoção moral. Desejam salvar o mundo, mas não conseguem conviver pacificamente nem dentro do próprio lar.
Emmanuel adverte que “a caridade real nunca será espetaculosa” e que o bem genuíno nasce da humildade e da renúncia do ego (XAVIER, 2003). O benfeitor espiritual esclarece que o cristianismo não se resume à dádiva exterior, mas ao esforço íntimo de renovação da criatura. Sem reforma moral, a esmola pode converter-se em simples transferência de recursos destituída de elevação espiritual.
Muitos ativistas contemporâneos leem Kardec com extremo grau de miopia. Enxergam apenas as análises sociais feitas pelo Espiritismo, ignorando completamente a centralidade da educação moral do Espírito. Criam uma caricatura ideológica da Doutrina Espírita, tentando adaptá-la aos modismos materialistas avermelhados. No entanto, Kardec jamais ensinou luta de classes, ressentimento social ou intolerância política. Ao contrário, enfatizou a fraternidade universal fundada na transformação interior.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec assevera que “o verdadeiro homem de bem” é aquele que vence suas más inclinações, domina o orgulho, combate o egoísmo e pratica a justiça com amor. Não basta socorrer economicamente o necessitado; é indispensável desenvolver paciência, brandura e capacidade de compreensão.
Léon Denis advertia que a caridade exclusivamente material pode humilhar o beneficiado quando desacompanhada do respeito e da fraternidade sincera. Segundo ele, “a verdadeira caridade é a que eleva moralmente” (DENIS, 1987). Há pessoas que oferecem pão ao faminto enquanto lançam veneno moral nas relações humanas, disseminando agressões, polarizações e perseguições emocionais.
Na mesma direção, Joanna de Ângelis analisa que muitos indivíduos desenvolvem uma “culpa neurótica” que tentam aliviar por meio de ativismos assistencialistas. Ajudam compulsivamente, mas sem autoconhecimento, sem serenidade e sem real amadurecimento espiritual. A ação social sem evangelização íntima frequentemente degenera em vaidade disfarçada de virtude.
A intolerância rubra é incompatível com o Espiritismo. Quem odeia adversários políticos, despreza opiniões divergentes e transforma a caridade em instrumento de guerra cultural ainda não compreendeu Jesus. O Cristo não estabeleceu partidos, facções ou militâncias sectárias; ensinou amor, misericórdia e perdão.
A caridade espírita começa no domínio das próprias paixões inferiores. É fácil defender abstratamente os pobres; difícil é suportar com paciência as limitações do próximo.
É simples fazer discursos sobre justiça social; complexo é vencer o orgulho e a agressividade cotidiana.
O verdadeiro espírita não mede sua evolução pela quantidade de cestas básicas distribuídas, mas pela capacidade de amar, compreender e perdoar.
Sem benevolência, indulgência e perdão, o assistencialismo converte-se em máscara psicológica do ego. E toda caridade sem amor não passa de fazeção de coisa assistencialista ou exercício estéril de vaidade humana.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2002.
DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 1987.
FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Autodescobrimento: uma busca interior. Salvador: LEAL, 1995.

