11 maio 2026

A esmola e o assistencialismo compulsivo numa reflexão espírita


 


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Em tempos de militâncias apaixonadas e ativismos ideológicos avermelhados exacerbados, a caridade vem sendo frequentemente reduzida a mera prática assistencialista, quase sempre utilizada como instrumento de afirmação moral, propaganda psicológica ou compensação da culpa social.

 Multiplicam-se os esmoladores “fazedores de coisas”, os exibicionismos da beneficência, as propagandas inflamadas em favor das “massas”, enquanto se negligencia justamente o núcleo moral da caridade ensinada por Allan Kardec: benevolência, indulgência e perdão das ofensas.

Portanto, a legítima caridade não é plataforma política, tampouco mecanismo de manipulação emocional. Kardec foi taxativo ao perguntar aos Espíritos qual o verdadeiro sentido da caridade. A resposta é clássica e definitiva: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros e perdão das ofensas” (KARDEC, 2005, q. 886). O Codificador não restringiu a caridade à distribuição de bens materiais, nem a converteu em bandeira ideológica de luta social.

O equívoco moderno consiste em substituir a transformação moral pela teatralização do assistencialismo. Há indivíduos que distribuem alimentos, roupas e favores, mas cultivam agressividade, intolerância, ressentimento e ódio contra os que pensam diferente. Outros fazem do assistencialismo um mecanismo narcísico de autopromoção moral. Desejam salvar o mundo, mas não conseguem conviver pacificamente nem dentro do próprio lar.

Emmanuel adverte que “a caridade real nunca será espetaculosa” e que o bem genuíno nasce da humildade e da renúncia do ego (XAVIER, 2003). O benfeitor espiritual esclarece que o cristianismo não se resume à dádiva exterior, mas ao esforço íntimo de renovação da criatura. Sem reforma moral, a esmola pode converter-se em simples transferência de recursos destituída de elevação espiritual.

Muitos ativistas contemporâneos leem Kardec com extremo grau de miopia. Enxergam apenas as análises sociais feitas pelo Espiritismo, ignorando completamente a centralidade da educação moral do Espírito. Criam uma caricatura ideológica da Doutrina Espírita, tentando adaptá-la aos modismos materialistas avermelhados. No entanto, Kardec jamais ensinou luta de classes, ressentimento social ou intolerância política. Ao contrário, enfatizou a fraternidade universal fundada na transformação interior.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec assevera que “o verdadeiro homem de bem” é aquele que vence suas más inclinações, domina o orgulho, combate o egoísmo e pratica a justiça com amor. Não basta socorrer economicamente o necessitado; é indispensável desenvolver paciência, brandura e capacidade de compreensão.

Léon Denis advertia que a caridade exclusivamente material pode humilhar o beneficiado quando desacompanhada do respeito e da fraternidade sincera. Segundo ele, “a verdadeira caridade é a que eleva moralmente” (DENIS, 1987). Há pessoas que oferecem pão ao faminto enquanto lançam veneno moral nas relações humanas, disseminando agressões, polarizações e perseguições emocionais.

Na mesma direção, Joanna de Ângelis analisa que muitos indivíduos desenvolvem uma “culpa neurótica” que tentam aliviar por meio de ativismos assistencialistasAjudam compulsivamente, mas sem autoconhecimento, sem serenidade e sem real amadurecimento espiritual. A ação social sem evangelização íntima frequentemente degenera em vaidade disfarçada de virtude.

intolerância rubra é incompatível com o Espiritismo. Quem odeia adversários políticos, despreza opiniões divergentes e transforma a caridade em instrumento de guerra cultural ainda não compreendeu Jesus. O Cristo não estabeleceu partidos, facções ou militâncias sectárias; ensinou amor, misericórdia e perdão.

A caridade espírita começa no domínio das próprias paixões inferiores. É fácil defender abstratamente os pobres; difícil é suportar com paciência as limitações do próximo.

É simples fazer discursos sobre justiça social; complexo é vencer o orgulho e a agressividade cotidiana.

O verdadeiro espírita não mede sua evolução pela quantidade de cestas básicas distribuídas, mas pela capacidade de amar, compreender e perdoar.

Sem benevolência, indulgência e perdão, o assistencialismo converte-se em máscara psicológica do ego. E toda caridade sem amor não passa de fazeção de coisa  assistencialista ou  exercício estéril de vaidade humana.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2002.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Autodescobrimento: uma busca interior. Salvador: LEAL, 1995.