Jorge Hessen
Brasília -DF
Avaliamos aqui a intolerável rigidez das estruturas federativas espíritas e a permanência prolongada de seus dirigentes. Circunstância que evidencia o contraste entre a natureza progressiva da Doutrina Espírita e práticas institucionais que tendem à cristalização. Sugerimos neste artigo uma revisão baseada na transitoriedade dos cargos e na renovação de lideranças.
Isso mesmo!! O movimento espírita deveria refletir, em sua organização, o dinamismo da Doutrina. Contudo, observa-se a consolidação de estruturas burocráticas rígidas, frequentemente associadas à permanência prolongada (eterna) das mesmas lideranças. Surge, então, um paradoxo: uma doutrina evolucionista sustentada por práticas administrativas estagnadas.
Allan Kardec não instituiu hierarquias rígidas nem legitimou a perpetuação de poder. Ao contrário, valorizou a autoridade moral baseada no exemplo e advertiu sobre os perigos da vaidade nas funções.
Léon Denis alertou que o Espiritismo não deveria repetir os vícios das instituições religiosas tradicionais, sobretudo o apego à hierarquia das estruturas cristalizadas. Emmanuel enfatiza que toda função é transitória e que o verdadeiro servidor se define pelo trabalho, não pela posição institucional.
A estrutura federativa espírita possui relativa relevância organizacional, mas torna-se problemática quando a burocracia se sobrepõe à finalidade espiritual. A repetição contínua de dirigentes — ainda que eleitos — pode limitar a diversidade de ideias e dificultar a adaptação às novas realidades.
Não se trata aqui de desqualificar pessoas, mas de reconhecer que a ausência de alternância favorece o engessamento institucional e, por vezes, o apego sutil ou descarado ao poder.
A superação desse quadro exige mudança de cultura: compreensão dos cargos como tarefas transitórias; formação de novas lideranças; redução de formalismos excessivos; abertura ao diálogo intergeracional. Mais do que ajustes administrativos, trata-se de transformação moral.
O Espiritismo é, por essência, progressivo. A permanência prolongada no poder, mesmo legitimada, deve ser confrontada com a finalidade maior da Doutrina. A questão central permanece: estamos servindo à causa espírita ou às estruturas hierárquicas que construímos? Responder com sinceridade a essa indagação é condição para que o movimento espírita recupere sua vitalidade e coerência com os princípios que Allan Kardec nos legou.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2018.
DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2017.
XAVIER, Francisco Cândido (psicografia). EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

