Jorge Hesssen
Brasília -DF
O movimento espírita brasileiro, em muitos aspectos, ainda não conseguiu libertar-se completamente das velhas estruturas mentais herdadas da igreja romana. Mudaram-se os nomes, alteraram-se algumas terminologias, mas conservaram-se vícios psicológicos e hábitos religiosos incompatíveis com a proposta libertadora da Doutrina Espírita.
Há confrades e confreiras vivendo uma espécie de “espiritolicismo”, ou seja, frequentam centros espíritas, citam Kardec e Emmanuel, porém mantêm intacta a mentalidade sacristã, clerical e dogmática.
O Espiritismo não nasceu para ser continuação da igreja romana com roupas novas. Allan Kardec estabeleceu uma ruptura metodológica e filosófica profunda com os dogmas religiosos tradicionais. A proposta kardequiana não é sacramental, não é litúrgica, não é sacerdotal. Não existem “ungidos”, “castas espirituais”, “autoridades infalíveis” nem donos da verdade. O Espiritismo não possui clero, altar, ritualismo salvacionista ou hierarquia eclesiástica. (SEJ - Sociedade Espírita Jorge)
Entretanto, observa-se em muitos ambientes espíritas um lamentável retorno ao igrejismo. Criam-se figuras idolatradas, lideranças inquestionáveis, “papas espíritas” regionais e uma cultura de obediência emocional completamente estranha ao pensamento crítico defendido por Kardec. Em vez do estudo sério das obras fundamentais, proliferam palestras motivacionais superficiais, culto à personalidade e misticismo emocionalista.
O problema torna-se ainda mais grave quando práticas tipicamente da igreja romana passam a ser enxertadas no movimento espírita. Alguns transformam tribunas espíritas em púlpitos moralistas; outros reproduzem o mesmo autoritarismo clerical que o Espiritismo deveria superar. Troca-se a batina pela roupa comum, mas preserva-se a velha mentalidade sacerdotal.
A Doutrina Espírita propõe precisamente o contrário: emancipação da consciência, racionalidade e responsabilidade individual perante as leis divinas. A vida futura não depende de absolvições eclesiásticas, indulgências emocionais ou pertencimento institucional. O destino espiritual decorre das próprias ações do Espírito imortal, segundo a lei de causa e efeito. (geedem)
Quando o espírita abandona Kardec para refugiar-se em devoções personalistas, sentimentalismos e estruturas de veneração humana, ele regride conceitualmente ao modelo religioso do qual o Espiritismo procurou afastar-se. O resultado é um movimento doutrinariamente confuso, intelectualmente frágil e vulnerável a toda espécie de fantasia espiritual.
O verdadeiro espírita não é um “servo da sacristia adaptado”. É alguém disposto a pensar, estudar, questionar e reformar-se moralmente sem dependência psicológica de igrejas, sacerdotes ou gurus. Fora disso, teremos apenas a continuação do velho igrejismo emocional sob verniz espírita — um espiritolicismo improdutivo, híbrido e doutrinariamente inconsistente.
Referências Bibliográficas:
Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2019.
Allan Kardec. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2018.
Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2020.
GEEDEM. Obras fundamentais do Espiritismo. Disponível em: geedem.org.br. Acesso em: 27 de maio de 2026.
SEJ – Sociedade Espírita Jorge. Princípios básicos do Espiritismo. Disponível em: sej.org.br. Acesso em: 27 de maio de 2026.

