Numa curiosa pesquisa da Universidade de Michigan, foi criado um ambiente virtual em que participantes decidiam o destino de pessoas diante de um trem desgovernado. O veículo seguia em direção a cinco pessoas impossibilitadas de escapar. Aos voluntários cabia acionar ou não uma alavanca que desviaria o trem para outro trilho, onde apenas uma pessoa morreria. O estudo revelou uma inquietante questão moral: sacrificaríamos uma vida para salvar cinco?
Transportemos esse dilema para uma situação concreta: dirigimos um automóvel e, subitamente, nos deparamos com um grupo de crianças atravessando a pista. Em frações de segundo, só haveria duas alternativas: atropelar o grupo ou desviar o carro, atingindo apenas uma criança. Que decisão tomaríamos? E se essa única criança fosse nosso filho?
O impasse nos conduz ao mandamento divino “não matarás”. Estaríamos autorizados moralmente a escolher entre um “mal maior” e um “mal menor”? Segundo Allan Kardec, podemos, por nossa vontade e por nossos atos, impedir acontecimentos nocivos, sobretudo “aquele que possa concorrer para a produção de um mal maior” (KARDEC, 2001).
O coordenador da pesquisa, Carlos David Navarrete, observou que cerca de 90% dos participantes acionaram a alavanca, justificando a escolha pelo argumento do “mal menor”. A experiência evidenciou como o pragmatismo moral frequentemente se sobrepõe aos princípios éticos absolutos.
Todavia, à luz da Doutrina Espírita, a questão exige reflexão mais profunda. Francisco Cândido Xavier ensinava que “o bem sanará o mal, porque este não existe: é o bem mal interpretado”. Muitas vezes, aquilo que reputamos desgraça converte-se, mais tarde, em bênção educativa. O mal seria, portanto, ausência transitória do bem, assim como a treva é ausência de luz.
Diante disso, surge outra indagação: existiria fatalidade nos acontecimentos humanos? Estariam todos os fatos da vida previamente determinados? Kardec esclarece que a fatalidade absoluta destruiria o livre-arbítrio e, consequentemente, toda responsabilidade moral. Se tudo estivesse irrevogavelmente traçado, não haveria mérito nas virtudes nem culpa nos crimes.
A Doutrina Espírita ensina que a fatalidade existe apenas quanto às provas escolhidas pelo Espírito antes da reencarnação. Entretanto, o modo de enfrentá-las depende inteiramente das decisões humanas. Podemos ceder ou resistir às tendências inferiores, modificar circunstâncias pela prudência e alterar consequências mediante escolhas conscientes.
Assim, nos atos da vida moral nunca há fatalidade. O homem permanece livre para decidir e responsável pelos próprios atos. Eis por que, mesmo diante de dilemas extremos, a consciência continua sendo o grande tribunal da alma.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2001. Questões 851, 860, 861, 866 e 872.
XAVIER, Francisco Cândido Xavier. Mandato de Amor. Organização de Geraldo Lemos Neto. São Paulo: Ideal, 1993.

