Jorge Hessen
Brasília-DF
Exercício mediúnico no ambiente doméstico é um dos sinais mais inquietantes da perda de rigor doutrinário no movimento espírita contemporâneo. Sob o pretexto de “prática espiritual” ou “desenvolvimento mediúnico”, alguns têm transformado o lar — espaço sagrado de harmonização moral — em densos subterrâneos de experiências mediúnicas desconexas. Tal postura não apenas contraria o bom senso, como fere frontalmente os princípios estabelecidos pelo Espiritismo.
É preciso afirmar com contundência : a mediunidade não é instrumento de improviso, nem campo de curiosidade, nem prática doméstica de distração metafísica.
Allan Kardec foi categórico ao estabelecer que a prática mediúnica exige condições específicas de seriedade, estudo e direção segura. Em O Livro dos Médiuns, ele adverte: “Nunca será demais repetir que a mediunidade é coisa séria, que deve ser praticada santamente, religiosamente e com recolhimento.” (KARDEC, 2013, p. 228). E “toda reunião espírita deve tender para a maior homogeneidade possível; qualquer divergência de sentimentos, de ideias, de opiniões, é uma causa de perturbação.” (KARDEC, 2013, p. 306).
O que se observa em muitos lares é exatamente o oposto: ausência de preparo, diversidade emocional descontrolada, falta de direção e, frequentemente, completa ignorância dos fundamentos doutrinários. Nesse contexto, abrir espaço para manifestações espirituais é, no mínimo, alienação da razão.
A função espiritual do lar é inequívoca dentro da proposta espírita: trata-se de um núcleo de reequilíbrio moral, e não de experimentação mediúnica. Por isso Emmanuel orienta com clareza: “O lar não é apenas a residência dos corpos, mas o refúgio das almas.” (XAVIER, 2010, p. 52).
Transformar o refúgio doméstico em ambiente de intercâmbio mediúnico sistemático, sem preparo e sem assistência doutrinária, equivale a expor emocional e espiritualmente todos os seus membros , sobretudo os mais vulneráveis.
Portanto, o que deveria ser espaço de oração e vigilância converte-se, assim, em campo aberto para influências espirituais inferiores.
Léon Denis, um dos mais lúcidos continuadores da obra kardequiana, reforça o caráter grave da mediunidade dizendo que “a mediunidade é uma faculdade delicada, que exige cultura, direção e moralidade.” (DENIS, 2005, p. 189). E adverte ainda:
“Sem controle sério, ela se torna fonte de ilusões e perigos.” (DENIS, 2005, p. 191).
Ao se permitir que lares se convertam em “núcleos mediúnicos improvisados”, o que se observa não é espiritualidade elevada, mas um terreno fértil para animismo descontrolado, mistificações, obsessões de vários níveis e consequentemente desequilíbrios psíquicos. Trata-se, portanto, não de avanço espiritual, mas de regressão.
É preciso arguir, com firmeza, a noção equivocada de que a mediunidade deva ser “exercitada em casa” como forma de crescimento espiritual. Isso não encontra respaldo na Codificação.
O que a Doutrina Espírita recomenda para o lar é o Evangelho no Lar, prática que visa: elevação do padrão vibratório, fortalecimento moral, proteção espiritual, educação dos sentimentos. Confundir essa prática do estudo familiar do Evangelho no Lar com reunião mediúnica é irresponsabilidade de consequência imprevisível.
É verdade que a história dos primórdios do Espiritismo registra reuniões ocorridas em ambientes domésticos. Contudo, essas experiências se deram sob condições muito específicas com orientação superior, presença de médiuns disciplinados, direção segura e no contexto da indiscutível finalidade especialíssima.
Generalizar essas exceções para justificar práticas atuais desordenadas é desvirtuar completamente o espírito da Doutrina. Posto que a mediunidade é instrumento de serviço, não de experimentação doméstica. Abrir o lar para práticas mediúnicas sem critério não é apenas irreflexão, é inaceitável anomalia doutrinária.
A Terceira Revelação não se sustenta sobre improviso, emoção ou misticismo descontrolado. Ela exige: estudo, disciplina, responsabilidade e, obviamente, elevação moral. Fora disso, o que se tem não é Espiritismo, é sua caricatura.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Brasília: FEB, 2013.
DENIS, Léon. No Invisível. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
XAVIER, Francisco Cândido. Luz no Lar. Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. Brasília: FEB, 2010.

