23 maio 2026

O culto à personalidade e a vã procura de Emmanuel “reencarnado”, até quando, Senhor?



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É com certa perplexidade que observamos certos segmentos do movimento espírita “tupiniquim” do Brasil envolvidos numa espécie de “caça mística” para descobrir onde estaria reencarnado o Espírito Emmanuel. Daí, surgem especulações pueris, suposições fantasiosas e verdadeiras campanhas de exaltação em torno de “ungidos” e/ou confrades apontados e, sem qualquer critério sério, como sendo o antigo mentor espiritual de Francisco Cândido Xavier.

É um fenômeno lamentável. Em vez de estudo sério, vemos adivinhação. Em vez de reflexão doutrinária constatamos  idolatria e o pior, em vez de Evangelho, percebemos o abominável personalismo.

O mais grave é perceber que, tão logo alguém é cogitado como “suposta reencarnação de Emmanuel”, inicia-se um processo de “endeusamento”. Muitos passam a tratar tal pessoa como missionária excepcional, portadora de autoridade espiritual automática, quase um “oráculo vivo”. Esquecem-se de que o Espiritismo jamais autorizou culto a médiuns, líderes religiosos ou Espíritos comunicantes.

Allan Kardec advertiu inúmeras vezes contra os perigos da fascinação e do misticismo. Em O Livro dos Médiuns, mostrou que o verdadeiro espírita deve submeter tudo ao crivo da razão e do bom senso. O Espiritismo nasceu para libertar consciências, não para fabricar ídolos religiosos ou de qualquer espécie.

A Doutrina Espírita não foi edificada sobre nomes, celebridades espirituais ou mitologias personalistas. Seu fundamento repousa nas leis morais universais, na transformação moral e no aperfeiçoamento do ser. Quando o movimento espírita troca o estudo sério pela veneração de indivíduos, aproxima-se perigosamente das práticas sectárias que o próprio Espiritismo combateu desde o século XIX.

É impressionante como muitos ignoram a própria lógica reencarnatória. Se Emmanuel tivesse retornado à Terra — hipótese sobre a qual não há confirmação confiável —, seria razoável imaginar que desejasse anonimato, trabalho humilde e discrição. Espíritos verdadeiramente superiores fogem da glorificação humana. Jamais estimulam fanatismos em torno de si.

Essa obsessão em descobrir “quem foi quem” revela imaturidade espiritual. Há pessoas mais preocupadas em rastrear antigas identidades espirituais do que em corrigir as próprias imperfeições morais. Querem saber onde está Emmanuel, mas não sabem onde está o Evangelho dentro de si mesmos.

O movimento espírita brasileiro, infelizmente, ainda carrega fortes traços messiânicos e emocionalistas. Muitos preferem a fantasia consoladora ao estudo metódico da Codificação. Criam “mitologias espíritas”, alimentam rumores e transformam conjecturas em dogmas emocionais. Isso enfraquece a credibilidade doutrinária e produz um ambiente propício ao misticismo leviano.

O Espiritismo sério não necessita dessas novelas espirituais. A Doutrina já possui um patrimônio filosófico e moral imenso, construído sobre racionalidade, universalidade e responsabilidade ética. Léon Denis ensinava que o Espiritismo deve iluminar consciências e não estimular superstições emocionais.

É preciso dizer claramente: ninguém se torna autoridade moral porque supostamente teria sido Emmanuel, André Luiz ou qualquer outro Espírito conhecido. O valor espiritual de alguém se mede pelas virtudes demonstradas, não pelas narrativas fantasiosas construídas em torno de seu passado espiritual.

Enquanto parte do movimento espírita continuar vivendo de celebridades mediúnicas, disputas de vaidade e culto à personalidade, permanecerá distante do espírito crítico e libertador da Codificação.

Até quando?

Até quando o Espiritismo brasileiro trocará o estudo pela idolatria?

Até quando alguns transformarão médiuns e Espíritos em figuras de veneração quase religiosa?

Até quando a emoção desgovernada sufocará a razão kardeciana?

O verdadeiro espírita não procura “reencarnações de ídolos dos além”. Procura transformar a si mesmo.

 

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2023.

O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2022.

Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2019.