Jorge Hessen
Brasília -DF
Nas diversas especialidades médicas, o transplante de órgãos talvez seja uma das práticas que melhor simbolizam a ligação entre morte e renovação da vida, recordando a imagem da fênix (ave mitológica associada ao renascimento). O avanço da ciência, especialmente nas áreas de transplantes, genética e terapias celulares (utiliza células-tronco, fatores de crescimento ou estímulos biológicos para reparar, substituir ou rejuvenescer tecidos danificados), tem ampliado as possibilidades de prolongamento e melhoria da existência física.
No passado, os transplantes eram marcados por elevadas taxas de rejeição e reduzidas perspectivas de sobrevida. Atualmente, graças aos imunossupressores e ao aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas, tornaram-se recursos terapêuticos seguros e eficazes. Ainda assim, muitos espíritas demonstram receios quanto à doação de órgãos, geralmente motivados por interpretações equivocadas de opiniões atribuídas a Chico Xavier.
Em entrevista concedida à TV Tupi, em 1964, Chico Xavier afirmou que os Espíritos consideravam o transplante “um problema da ciência muito legítimo e muito natural”. Explicou ainda ser perfeitamente compreensível a doação de órgãos úteis após a desencarnação, em benefício de pessoas necessitadas. A conhecida declaração do médium sobre não desejarem “mexer em seu corpo” referia-se, especificamente, ao temor de que seu cérebro fosse utilizado em estudos após sua morte, e não a uma condenação dos transplantes.
Na visão espírita, doar órgãos representa gesto elevado de solidariedade. Joanna de Ângelis define o transplante como “verdadeira bênção”, capaz de proporcionar moratória existencial ao Espírito reencarnado, permitindo-lhe prosseguir na experiência terrena.
Alguns questionam se a retirada dos órgãos causaria danos ao perispírito. Contudo, não há fundamento doutrinário para essa preocupação. O doador de córneas, por exemplo, não despertará cego na vida espiritual. Caso contrário, os Espíritos desencarnados em acidentes, incêndios ou explosões permaneceriam eternamente mutilados, hipótese incompatível com a justiça divina.
Outro ponto frequentemente debatido é a morte encefálica. A medicina contemporânea considera morto o indivíduo que apresenta cessação irreversível de todas as funções encefálicas, inclusive do tronco cerebral, ainda que aparelhos mantenham artificialmente a circulação e a respiração. O diagnóstico exige rigorosos protocolos clínicos e exames complementares. Portanto, a retirada de órgãos nessas circunstâncias não configura eutanásia, pois a morte já ocorreu sob critérios científicos universalmente aceitos.
O Espiritismo ensina que o desligamento do Espírito do corpo varia conforme as condições morais e psíquicas de cada indivíduo. Em alguns casos, pode ocorrer de maneira lenta; em outros, quase instantaneamente. Entretanto, seria incoerente admitir que a Justiça Divina ficasse subordinada às circunstâncias materiais do cadáver, seja em transplantes, necrópsias ou cremações.
Allan Kardec esclarece que a alma não permanece presa indefinidamente ao corpo sem vida. André Luiz acrescenta que células transplantadas passam gradualmente a adaptar-se ao comando mental e espiritual do receptor, integrando-se ao novo organismo. Joanna de Ângelis complementa, afirmando que o órgão transplantado sofre naturalmente influência do perispírito do beneficiário.
Assim, à luz da Doutrina Espírita, a doação de órgãos constitui legítima expressão de caridade e fraternidade. Trata-se de valiosa conquista da ciência humana, colocada a serviço do amor, oferecendo a muitos irmãos a oportunidade de continuar a jornada terrena. Negar essa possibilidade por temor infundado seria duvidar da misericórdia e da perfeita justiça das Leis Divinas.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em Dois Mundos. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1972.
FRANCO, Divaldo Pereira. Dias Gloriosos. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1999.
SIMONETTI, Richard. Quem Tem Medo da Morte?. São Paulo: Lumini, 2001.
BEZERRA, Evandro Noleto. “Transplante de Órgãos na Visão Espírita”. Reformador, Rio de Janeiro, out. 1998.
ABBUD FILHO, Mário. Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Estudos sobre transplantes e doação de órgãos.
SANTOS, Rita Maria P. Dos Transplantes de Órgãos à Clonagem. Rio de Janeiro: Forense, 2000.

