Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Entre todas as preces avalio,
nenhuma possui a profundidade espiritual e filosófica do Pai-Nosso. Não se
trata apenas de uma oração ensinada por Jesus aos discípulos, mas de uma
síntese admirável das leis divinas que regem as relações entre Deus e suas
criaturas. Allan Kardec compreendeu essa realidade em toda a sua amplitude,
motivo pelo qual dedicou atenção especial à prece dominical nas obras da
Codificação Espírita.
Para o Codificador, o
Pai-Nosso não é um conjunto de palavras dotadas de poder mágico nem uma fórmula
destinada a sensibilizar a Divindade. O Criador não necessita ser convencido
pelas palavras humanas. A eficácia da oração reside no pensamento, na
sinceridade e na transformação moral daquele que ora. Em "O Evangelho
segundo o Espiritismo", Kardec ensina que a prece é um ato de adoração,
um meio de comunicação com o mundo espiritual e um poderoso instrumento de
fortalecimento íntimo.
Quando Jesus ensina:
"Pai nosso que estais nos céus", não apresenta um Deus
distante ou inacessível. Sugere, ao contrário, a paternidade universal do
Criador e a fraternidade que deve unir todos os homens. Kardec destaca que, ao
dizer "nosso", o Cristo elimina qualquer pretensão de
exclusivismo religioso, proclamando a igualdade essencial de todos perante
Deus.
A expressão "santificado
seja o vosso nome" não significa aumentar a santidade divina, que é
perfeita e imutável. Significa reconhecer e respeitar as leis de Deus por meio
das próprias ações. Santificar o nome divino é viver de acordo com a justiça, a
caridade e o amor.
Quando rogamos "venha
a nós o vosso reino", não estamos pedindo um acontecimento miraculoso.
Sob a ótica espírita, trata-se da construção gradual do Reino de Deus no
coração humano. É a vitória do bem sobre o egoísmo, da fraternidade sobre o
orgulho e da verdade sobre a ignorância.
A súplica "seja
feita a vossa vontade" representa um dos maiores desafios espirituais.
Kardec ensina que a verdadeira resignação não é passividade diante das provas,
mas compreensão de que a inteligência divina conduz os destinos da criação
segundo leis perfeitas de justiça e misericórdia.
O pedido do "pão
nosso de cada dia" transcende a necessidade material. Refere-se
igualmente ao alimento espiritual indispensável ao progresso da alma: o
conhecimento, a fé raciocinada e os recursos morais necessários à evolução.
Por sua vez, a
solicitação do perdão está condicionada à capacidade de perdoar. Jesus
estabelece uma relação direta entre misericórdia recebida e misericórdia
praticada. Kardec demonstra que o ressentimento e o ódio constituem obstáculos
ao adiantamento espiritual, enquanto o perdão liberta tanto quem o concede
quanto quem dele necessita.
Finalmente, ao pedir
proteção contra as tentações e a libertação do mal, o discípulo reconhece suas
fragilidades e busca forças para vencer as imperfeições que ainda carrega. Não
se trata de fugir das provas, mas de superá-las com dignidade.
Assim, para Allan Kardec,
o Pai-Nosso é um verdadeiro programa de educação espiritual. Cada frase
encerra uma lição de teologia racional, moral evangélica e transformação
interior. Recitá-lo mecanicamente produz efeitos limitados;
compreendê-lo e vivê-lo representa uma das mais seguras vias de aproximação com
Deus e de realização dos ensinamentos de Jesus
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília:
FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Céu e
o Inferno. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.

