23 junho 2026

O "Pai Nosso" segundo Allan Kardec - muito além da repetição vazia



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre todas as preces avalio, nenhuma possui a profundidade espiritual e filosófica do Pai-Nosso. Não se trata apenas de uma oração ensinada por Jesus aos discípulos, mas de uma síntese admirável das leis divinas que regem as relações entre Deus e suas criaturas. Allan Kardec compreendeu essa realidade em toda a sua amplitude, motivo pelo qual dedicou atenção especial à prece dominical nas obras da Codificação Espírita.

Para o Codificador, o Pai-Nosso não é um conjunto de palavras dotadas de poder mágico nem uma fórmula destinada a sensibilizar a Divindade. O Criador não necessita ser convencido pelas palavras humanas. A eficácia da oração reside no pensamento, na sinceridade e na transformação moral daquele que ora. Em "O Evangelho segundo o Espiritismo", Kardec ensina que a prece é um ato de adoração, um meio de comunicação com o mundo espiritual e um poderoso instrumento de fortalecimento íntimo.

Quando Jesus ensina: "Pai nosso que estais nos céus", não apresenta um Deus distante ou inacessível. Sugere, ao contrário, a paternidade universal do Criador e a fraternidade que deve unir todos os homens. Kardec destaca que, ao dizer "nosso", o Cristo elimina qualquer pretensão de exclusivismo religioso, proclamando a igualdade essencial de todos perante Deus.

A expressão "santificado seja o vosso nome" não significa aumentar a santidade divina, que é perfeita e imutável. Significa reconhecer e respeitar as leis de Deus por meio das próprias ações. Santificar o nome divino é viver de acordo com a justiça, a caridade e o amor.

Quando rogamos "venha a nós o vosso reino", não estamos pedindo um acontecimento miraculoso. Sob a ótica espírita, trata-se da construção gradual do Reino de Deus no coração humano. É a vitória do bem sobre o egoísmo, da fraternidade sobre o orgulho e da verdade sobre a ignorância.

A súplica "seja feita a vossa vontade" representa um dos maiores desafios espirituais. Kardec ensina que a verdadeira resignação não é passividade diante das provas, mas compreensão de que a inteligência divina conduz os destinos da criação segundo leis perfeitas de justiça e misericórdia.

O pedido do "pão nosso de cada dia" transcende a necessidade material. Refere-se igualmente ao alimento espiritual indispensável ao progresso da alma: o conhecimento, a fé raciocinada e os recursos morais necessários à evolução.

Por sua vez, a solicitação do perdão está condicionada à capacidade de perdoar. Jesus estabelece uma relação direta entre misericórdia recebida e misericórdia praticada. Kardec demonstra que o ressentimento e o ódio constituem obstáculos ao adiantamento espiritual, enquanto o perdão liberta tanto quem o concede quanto quem dele necessita.

Finalmente, ao pedir proteção contra as tentações e a libertação do mal, o discípulo reconhece suas fragilidades e busca forças para vencer as imperfeições que ainda carrega. Não se trata de fugir das provas, mas de superá-las com dignidade.

Assim, para Allan Kardec, o Pai-Nosso é um verdadeiro programa de educação espiritual. Cada frase encerra uma lição de teologia racional, moral evangélica e transformação interior. Recitá-lo mecanicamente produz efeitos limitados; compreendê-lo e vivê-lo representa uma das mais seguras vias de aproximação com Deus e de realização dos ensinamentos de Jesus

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.