01 junho 2026

Congressos espíritas e o sepultamento da essência da mensagem espírita




Jorge Hessen

Brasília-DF

Os congressos espíritas tornaram-se, ao longo das três últimas décadas, uma das mais visíveis expressões do movimento espírita brasileiro. Reunindo milhares de participantes, palestrantes renomados e grandes estruturas organizacionais, esses eventos são frequentemente apresentados como instrumentos de divulgação da Doutrina Espírita e de integração entre trabalhadores e instituições.

Entretanto, diversos estudiosos, autores independentes e grupos de orientação kardeciana têm formulado críticas consistentes ao modelo predominante desses encontros.

A primeira e mais contundente objeção refere-se à crescente mercantilização da atividade espírita. Muitos congressos exigem inscrições com valores elevados, além de estimularem intensa comercialização de livros, cursos, produtos e materiais diversos.

 Embora a venda de obras doutrinárias não seja, em si mesma, incompatível com os objetivos de divulgação, a transformação de eventos espíritas em verdadeiros mercados religiosos suscita preocupações legítimas.

Allan Kardec sempre enfatizou o caráter essencialmente moral e educativo do Espiritismo, jamais o concebendo como fonte de lucro ou empreendimento comercial. Quando o aspecto financeiro passa a ocupar posição central, corre-se o risco de obscurecer os princípios de simplicidade e desinteresse material que caracterizam a proposta espírita.

Associada a essa questão surge a crítica da elitização do acesso. Participar de um congresso nacional frequentemente implica custos significativos com inscrição, transporte, alimentação e hospedagem. Tal realidade exclui grande parcela dos espíritas de menor poder aquisitivo, criando uma seleção econômica incompatível com o ideal universalista da doutrina.

Se o Espiritismo se dirige a todas as consciências, independentemente de condição social, é razoável questionar modelos de eventos que, na prática, restringem a participação daqueles que mais poderiam beneficiar-se do intercâmbio fraterno e do estudo doutrinário.

Outro aspecto frequentemente apontado é o fenômeno do personalismo. Em muitos congressos, determinados palestrantes, médiuns ou expositores tornam-se figuras de grande projeção pública, atraindo multidões e despertando admiração que, por vezes, ultrapassa os limites da saudável consideração fraterna.

 Essa dinâmica pode favorecer uma espécie de celebrização incompatível com o princípio espírita de que as ideias devem prevalecer sobre os indivíduos. Kardec sempre submeteu pessoas, médiuns e mensagens ao crivo da razão e da análise crítica. Quando a autoridade moral de uma personalidade passa a substituir o exame racional dos ensinamentos, instala-se uma perigosa inversão de valores.

Há também questionamentos quanto à efetividade prática desses eventos. O entusiasmo gerado por palestras emocionantes e ambientes de confraternização costuma ser intenso, mas frequentemente passageiro. Muitos participantes retornam às suas atividades habituais sem mudanças significativas em suas práticas de estudo, trabalho ou transformação moral. A verdadeira transformação espiritual exige esforço contínuo, disciplina moral e vivência cotidiana dos ensinamentos espíritas, objetivos que dificilmente podem ser alcançados apenas por meio de encontros episódicos.

Talvez a crítica mais profunda seja aquela que aponta um progressivo distanciamento do método kardeciano. Em diversos congressos observa-se predominância de temas motivacionais, relatos emocionais e abordagens espiritualistas genéricas, enquanto questões doutrinárias fundamentais recebem atenção secundária.

O Espiritismo nasceu como uma doutrina de observação, investigação e raciocínio. Sua força reside na conjugação entre fé raciocinada, análise crítica e estudo metódico. Quando tais elementos cedem espaço ao emocionalismo ou ao misticismo, perde-se parte significativa da identidade doutrinária originalmente proposta por Kardec.

Por fim, alguns estudiosos observam que a estrutura dos grandes congressos tende a reforçar processos de centralização institucional. A concentração de decisões em federações e grandes organizações pode favorecer padronizações e hierarquias que não encontram correspondência direta na experiência espírita do século XIX.

Embora a organização seja necessária, ela não deve sufocar a liberdade de pensamento, a diversidade de experiências e o espírito de investigação que sempre caracterizaram o movimento espírita nascente.

 

 

Essas críticas  constituem um convite à reflexão. Eventos dessa natureza podem desempenhar papel relevante na divulgação doutrinária, desde que preservem a simplicidade, ampliem a acessibilidade, valorizem o estudo sério e mantenham fidelidade aos princípios fundamentais codificados por Allan Kardec.

O desafio contemporâneo consiste em assegurar que a forma organizacional não se sobreponha à essência da mensagem espírita, cuja finalidade maior permanece sendo a transformação moral do ser humano e o progresso espiritual da humanidade.