11 junho 2026

Os limites entre o Espiritismo e as ideologias partidárias



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Causa perplexidade o surgimento de discursos que procuram associar o Espiritismo a correntes ideológicas de natureza político-partidária, como se a Doutrina Espírita pudesse servir de instrumento para a legitimação de projetos sociais ou econômicos transitórios. Tal interpretação não decorre da Codificação Kardeciana, mas de uma leitura que desloca o Espiritismo de sua finalidade essencial, que é a transformação moral do ser humano.

A primeira confusão consiste em equiparar “caridade” (assistencialismo material) à engenharia politiqueira social. Allan Kardec ensina que a desigualdade das condições sociais integra a própria ordem natural e possui finalidade educativa para o progresso dos Espíritos. Afirma ainda que “a desigualdade das condições sociais é uma das leis da Natureza” (KARDEC, 2013, q. 806).

O problema moral não reside na diversidade das situações humanas, mas nos abusos produzidos pelo egoísmo, pelo orgulho e pela exploração (não só econômica, mas ideológica também). O Espiritismo combate os excessos e as injustiças, mas não propõe a uniformização compulsória (comunista) das condições de vida.

Outra distorção ocorre quando se tenta interpretar o homem exclusivamente a partir de fatores econômicos, sociais ou estruturais. Enquanto determinadas correntes materialistas explicam a existência humana pelas circunstâncias externas, o Espiritismo ensina que o Espírito preexiste ao corpo, sobrevive à morte e é responsável por suas próprias escolhas.

 Kardec esclarece que a encarnação tem por objetivo o aperfeiçoamento do Espírito (KARDEC, 2013, q. 132). Desconsiderar a responsabilidade individual e a Lei de Causa e Efeito significa despedaçar um dos fundamentos da Doutrina Espírita.

Nessa perspectiva, Léon Denis adverte que nenhuma reforma social será duradoura sem a renovação íntima dos indivíduos. O aperfeiçoamento das instituições depende, antes de tudo, do aperfeiçoamento moral daqueles que as compõem. A transformação coletiva não pode prescindir da transformação individual, sob pena de apenas substituir problemas antigos por novas e perversas formas de desequilíbrio.

Emmanuel reforça essa compreensão ao afirmar que nenhuma modificação exterior é capaz de dispensar o homem do esforço de sua própria renovação espiritual. A verdadeira libertação não nasce de decretos, sistemas ou ideologias, mas da conquista de valores morais que elevem a consciência humana.

Por isso, a Casa Espírita não deve nem  pode converter-se em espaço de militância política. Sua missão é estudar, esclarecer, consolar e promover o crescimento espiritual das criaturas. Quando o espaço ou a tribuna espírita são utilizados para difundir bandeiras ideológicas, substitui-se o Evangelho pela retórica partidária e a educação moral pela disputa de narrativas.

Não existe espiritismo de qualquer viés ideológico partidário. Existe espiritismo fiel ou infiel aos princípios codificados por Allan Kardec. A Doutrina Espírita transcende os sistemas políticos porque se dirige ao Espírito imortal e não às circunstâncias transitórias da vida material. Sua proposta não é a conquista do poder terreno, mas a conquista de si mesmo.

Como sintetiza Léon Denis, o progresso social constitui consequência natural do progresso moral. Inverter essa ordem significa atribuir às estruturas externas uma capacidade de regeneração que pertence, em essência, à consciência humana. Para o Espiritismo, a verdadeira revolução é sempre a revolução interior.

E tenho dito!

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

Francisco Cândido Xavier; EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.