25 junho 2026

Pode um pastor que nega a reencarnação palestrar numa Casa Espírita?


 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Convidar um líder religioso (pastor) que nega a reencarnação e a mediunidade para palestrar  numa casa espírita é, no mínimo, uma alucinação.  O problema começa quando se perde a clareza dos objetivos doutrinários.

O Espiritismo ensina o respeito irrestrito à liberdade de consciência. Allan Kardec jamais defendeu o sectarismo. Aliás, dialogou com cientistas, materialistas, religiosos e céticos. O diálogo é saudável e necessário. Todavia, existe uma diferença fundamental entre dialogar com quem pensa diferente e conceder tribuna doutrinária a quem combate os princípios fundamentais da Doutrina Espírita.

Se um palestrante evangélico afirma categoricamente que a comunicação entre encarnados e desencarnados é impossível; que a mediunidade é fraude ou ação demoníaca; que a reencarnação não existe, então estamos diante de alguém que rejeita os pilares básicos do Espiritismo.

Qual seria, então, a finalidade de convidá-lo?

Se o objetivo for um debate acadêmico ou inter-religioso longe da casa espírita , explicitamente apresentado como tal, não há incoerência. O público sabe que ouvirá uma visão divergente.

Mas se o convite ocorre em ambiente espírita, como atividade de concepção doutrinária, a situação se torna, no mínimo, insustentável.

Kardec adverte em diversas passagens sobre a necessidade de preservar a identidade doutrinária. Em O Livro dos Médiuns, ao tratar das infiltrações ideológicas e dos desvios de finalidade, enfatiza que a fidelidade aos princípios é indispensável para a unidade do movimento.

Imagine um congresso de matemática convidando alguém para ensinar que dois mais dois são cinco. O expositor tem o direito de pensar assim. O congresso, porém, teria o dever de explicar por que está oferecendo sua tribuna para negar os fundamentos da própria disciplina.

Muitas vezes, o fenômeno decorre de uma mentalidade contemporânea segundo a qual toda divergência deve ser diluída em nome de uma suposta inclusão. Entretanto, tolerância não significa relativização dos princípios.

Pode-se respeitar profundamente um pastor evangélico sem concordar com sua teologia. Pode-se admirar suas qualidades morais e até aprender com sua experiência humana. Mas isso não transforma suas convicções em passaporte para palestrar com suas ideias e convicções no espaço espírita.

O próprio Kardec ensinava que a fraternidade não exige uniformidade de opiniões, porém exige honestidade intelectual. Quando uma instituição espírita promove alguém que combate os fundamentos da Codificação, ainda que esclarecendo  os propósitos do convite, irá  gerar confusão doutrinária.

A pergunta central não é: "O pastor pode falar?"
A pergunta é: "Para quê foi convidado?"
Se for para apresentar uma visão externa, identificada como tal, o diálogo é suportável. Mas, se for para representar ou ensinar espiritismo, apesar de negar a mediunidade e a reencarnação, a lógica doutrinária realmente se torna difícil de compreender, tipo roda quadrada.
Como ensinava Allan Kardec, a tolerância deve caminhar ao lado da lógica. Sem coerência, o diálogo deixa de ser um intercâmbio de ideias e passa a ser uma fonte de desorientação para aqueles que buscam conhecer a Doutrina Espírita em sua legítima estrutura conceitual.

É isso!!