Jorge Hessen
Brasília -DF
"Quem caminha sozinho chega mais rápido, mas quem caminha acompanhado vai mais longe." O provérbio encerra uma verdade que o movimento espírita brasileiro ainda não assimilou plenamente. O problema, porém, não é apenas o individualismo. Em muitos casos, trocou-se a cooperação pela tutela, a fraternidade pela hierarquia informal e a construção coletiva pela concentração de poder.
Allan Kardec jamais concebeu um Espiritismo organizado em torno de dirigentes permanentes (nunca largam o cargo), celebridades doutrinárias ou estruturas centralizadoras. A Codificação nasceu do diálogo, da comparação universal dos ensinos dos Espíritos e do permanente exame racional dos fatos (KARDEC, 2019). Não existe, no pensamento kardequiano, espaço para "autoridades doutrinárias" infalíveis nem para organismos que se apresentem como intérpretes oficiais da Verdade.
Entretanto, parcela significativa do movimento espírita brasileiro parece ter seguido caminho diferente. O centralismo federativo, frequentemente apresentado como garantia de unidade, muitas vezes termina produzindo uniformização, dependência intelectual e esvaziamento da autonomia dos centros espíritas. A unidade desejada por Kardec resulta da convergência espontânea dos princípios, nunca da padronização administrativa ou da submissão institucional.
Paralelamente, cresce a burocratização das casas espíritas. Multiplicam-se reuniões administrativas, planejamentos, regulamentos, comissões, protocolos e organogramas. Não há problema na boa organização; ela é necessária. O problema surge quando a máquina administrativa passa a consumir a energia que deveria ser destinada ao estudo, à assistência moral e à transformação íntima. O centro espírita deixa de ser escola do Evangelho para funcionar como repartição religiosa.
Outro fenômeno preocupante é o culto às personalidades. Alguns expositores transformam-se em verdadeiras celebridades (ungidas). Auditórios lotam para ouvi-los; suas frases são repetidas como se possuíssem autoridade doutrinária e suas interpretações passam a substituir o estudo direto das obras de Kardec. O Espiritismo, porém, não possui sacerdotes nem oráculos. A única autoridade permanente da Doutrina encontra-se nas obras fundamentais da Codificação, permanentemente submetidas ao exame da razão e da universalidade dos ensinos (KARDEC, 2023).
Esse personalismo produz um empobrecimento intelectual inevitável. Em vez de formar estudiosos, forma admiradores. Em vez de incentivar o pensamento crítico, estimula a repetição de opiniões. O trabalhador deixa de perguntar: "O que Kardec ensina?" para indagar: "O que determinado expositor pensa?" Essa inversão é profundamente incompatível com o método espírita.
Talvez a consequência mais grave seja a terceirização da vivência do Evangelho. Muitos imaginam que basta frequentar reuniões, ouvir palestras, participar de campanhas assistenciais (fazeção de coisas para os “pobres”) ou admirar bons oradores para cumprir seus deveres espirituais. Esquecem que ninguém evolui por procuração. Ninguém delega a reforma íntima, a caridade, o estudo ou o esforço moral. O Evangelho não admite representantes. O Cristo continua dirigindo a cada consciência o mesmo convite de dois mil anos atrás: "Segue-me."
O verdadeiro trabalho coletivo não consiste em obedecer passivamente a estruturas ou lideranças. Consiste em compartilhar responsabilidades entre pessoas livres, conscientes e comprometidas com a verdade. Caminhar juntos não significa abdicar da consciência crítica, mas colocá-la a serviço da fraternidade.
O movimento espírita necessita menos de estruturas centralizadoras e mais de centros autônomos, doutrinariamente sólidos e intelectualmente livres. Necessita menos de celebridades e mais de estudiosos. Menos burocracia e mais Evangelho. Menos preocupação com a imagem institucional e mais compromisso com a transformação moral.
Quem caminha sozinho pode cair no orgulho. Mas quem caminha apenas seguindo pessoas ou instituições, sem refletir, corre risco ainda maior: abdicar da própria consciência. O Espiritismo não foi revelado para formar seguidores de dirigentes, federações ou expositores. Foi revelado para formar homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de pensar, servir e amar segundo os ensinamentos de Jesus e os princípios da Codificação.
Referências Bibliográficas:
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Nova ed. rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002.
KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: FEB, 2023.
