Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Há algo profundamente perturbador no cenário espírita brasileiro
contemporâneo. A mediunidade, que Allan Kardec definiu como instrumento de
esclarecimento e aperfeiçoamento moral, vem sendo gradativamente transformada
em espetáculo, entretenimento digital e, em muitos casos, em simples
mercadoria.
Em nome da audiência, do prestígio pessoal e da monetização das
plataformas virtuais, multiplicam-se apresentações grotescas em podcasts e
redes sociais, nas quais supostos médiuns afirmam transmitir mensagens de
Espíritos veneráveis em performances que oscilam entre o teatro amador e o
circo de quinta categoria.
Recentemente, uma
dessas encenações alcançou níveis particularmente constrangedores: uma pretensa
comunicação psicofônica atribuída a Chico Xavier, apresentada num ambiente mais
próximo de um espetáculo de variedades do que de uma reunião mediúnica séria. O
que se viu não foi recolhimento, elevação espiritual ou profundidade
doutrinária, mas um show de gestos extravagantes e emocionalismo barato,
incompatível com a sobriedade que sempre caracterizou a mediunidade
responsável.
O problema,
entretanto, não se limita ao folclore digital. Espalha-se pelo país uma
indústria das falsas cartas consoladoras, alimentada pela facilidade de acesso
a informações pessoais disponíveis na internet.
Redes sociais, fotografias, homenagens póstumas e dados familiares transformaram-se em matéria-prima para a fabricação de cartas (“consoladoras”) supostamente mediúnicas, muitas delas dirigidas a pais, mães e parentes devastados pela dor da perda. O luto converteu-se em filão dos charlatães e a saudade em oportunidade comercial, arrastando a fé para o lixo do consumo.
Mais grave ainda é
a omissão das instituições federativas que deveriam exercer papel orientador. A
ausência de notas doutrinárias contundentes, de campanhas educativas e de
esclarecimentos públicos diante da proliferação desses abusos revela um
silêncio institucional difícil de justificar. Enquanto a mistificação
avança, muitos dirigentes parecem acomodados a uma posição de confortável
neutralidade.
Não faltam
seminários, feiras, congressos e lançamentos editoriais. Não faltam campanhas
de divulgação nem sofisticadas estratégias industrial de marketing. Mas
faltam coragem doutrinária e disposição para enfrentar o charlatanismo
espiritual que corrói a credibilidade do Espiritismo brasileiro.
A impressão que se
fortalece é a de que determinadas instituições abandonaram gradativamente sua
missão pedagógica para assumir a lógica do mercado cultural. Transformaram-se
em milionárias editoras, gestoras de marcas e promotoras de eventos,
preocupadas com números, vendas e arrecadação, enquanto questões fundamentais
para a preservação da seriedade doutrinária permanecem relegadas ao quinto
plano.
Allan Kardec
advertiu, em O Livro dos Médiuns, que a fascinação e a
mistificação constituem alguns dos maiores perigos da prática mediúnica.
Ensinou que toda manifestação espiritual deve ser submetida ao controle da
razão e ao exame rigoroso dos fatos. O Espiritismo nunca autorizou a idolatria
de médiuns nem a aceitação passiva de mensagens espetaculosas.
Quando
instituições federativas se calam diante do abuso, da fraude e da exploração
emocional, deixam de cumprir sua função histórica. A omissão, nesses casos, não é simples
neutralidade: é abdicação de responsabilidade, ou seja, crime moral.
O movimento espírita brasileiro
encontra-se diante de uma encruzilhada moral. Ou retornará aos fundamentos
kardecianos — estudo, discernimento e austeridade — ou continuará assistindo,
impotente, à transformação da mediunidade em mercadoria e da doutrina em
espetáculo.
O
silêncio dos que deveriam orientar talvez seja, hoje, um dos sintomas mais
graves da crise espiritual que atravessa o movimento espírita brasileiro às
avessas.
