30 julho 2026

O circo “mediúnico” e a sabotagem moral do silêncio federativo



Jorge Hessen

Brasília -DF


Há algo profundamente perturbador no cenário espírita brasileiro contemporâneo. A mediunidade, que Allan Kardec definiu como instrumento de esclarecimento e aperfeiçoamento moral, vem sendo gradativamente transformada em espetáculo, entretenimento digital e, em muitos casos, em simples mercadoria.

Em nome da audiência, do prestígio pessoal e da monetização das plataformas virtuais, multiplicam-se apresentações grotescas em podcasts e redes sociais, nas quais supostos médiuns afirmam transmitir mensagens de Espíritos veneráveis em performances que oscilam entre o teatro amador e o circo de quinta categoria.

Recentemente, uma dessas encenações alcançou níveis particularmente constrangedores: uma pretensa comunicação psicofônica atribuída a Chico Xavier, apresentada num ambiente mais próximo de um espetáculo de variedades do que de uma reunião mediúnica séria. O que se viu não foi recolhimento, elevação espiritual ou profundidade doutrinária, mas um show de gestos extravagantes e emocionalismo barato, incompatível com a sobriedade que sempre caracterizou a mediunidade responsável.

O problema, entretanto, não se limita ao folclore digital. Espalha-se pelo país uma indústria das falsas cartas consoladoras, alimentada pela facilidade de acesso a informações pessoais disponíveis na internet.

Redes sociais, fotografias, homenagens póstumas e dados familiares transformaram-se em matéria-prima para a fabricação de cartas (“consoladoras”) supostamente mediúnicas, muitas delas dirigidas a pais, mães e parentes devastados pela dor da perda. O luto converteu-se em filão dos charlatães e a saudade em oportunidade comercial, arrastando a fé para o lixo do consumo.

Mais grave ainda é a omissão das instituições federativas que deveriam exercer papel orientador. A ausência de notas doutrinárias contundentes, de campanhas educativas e de esclarecimentos públicos diante da proliferação desses abusos revela um silêncio institucional difícil de justificar. Enquanto a mistificação avança, muitos dirigentes parecem acomodados a uma posição de confortável neutralidade.

Não faltam seminários, feiras, congressos e lançamentos editoriais. Não faltam campanhas de divulgação nem sofisticadas estratégias industrial de marketing. Mas faltam coragem doutrinária e disposição para enfrentar o charlatanismo espiritual que corrói a credibilidade do Espiritismo brasileiro.

A impressão que se fortalece é a de que determinadas instituições abandonaram gradativamente sua missão pedagógica para assumir a lógica do mercado cultural. Transformaram-se em milionárias editoras, gestoras de marcas e promotoras de eventos, preocupadas com números, vendas e arrecadação, enquanto questões fundamentais para a preservação da seriedade doutrinária permanecem relegadas ao quinto plano.

Allan Kardec advertiu, em O Livro dos Médiuns, que a fascinação e a mistificação constituem alguns dos maiores perigos da prática mediúnica. Ensinou que toda manifestação espiritual deve ser submetida ao controle da razão e ao exame rigoroso dos fatos. O Espiritismo nunca autorizou a idolatria de médiuns nem a aceitação passiva de mensagens espetaculosas.

Quando instituições federativas se calam diante do abuso, da fraude e da exploração emocional, deixam de cumprir sua função histórica. A omissão, nesses casos, não é simples neutralidade: é abdicação de responsabilidade, ou seja, crime moral.

O movimento espírita brasileiro encontra-se diante de uma encruzilhada moral. Ou retornará aos fundamentos kardecianos — estudo, discernimento e austeridade — ou continuará assistindo, impotente, à transformação da mediunidade em mercadoria e da doutrina em espetáculo.

O silêncio dos que deveriam orientar talvez seja, hoje, um dos sintomas mais graves da crise espiritual que atravessa o movimento espírita brasileiro às avessas.