09 julho 2026

Os enciclopédicos fundamentalistas de Kardec

 




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Uma das mais graves distorções que hoje ameaçam o movimento espírita brasileiro é a transformação do método de Allan Kardec em dogma e da Codificação em um sistema fechado. Alguns "enciclopédicos" kardequiólogos, convencidos de deter o monopólio da ortodoxia, decretam que autores como André Luiz estariam fora da Doutrina Espírita. Paradoxalmente, ao pretenderem defender Kardec, renegam o princípio metodológico que ele próprio estabeleceu.

Na Introdução do Livro dos Espíritos, Kardec é categórico: "O Espiritismo marcha com o progresso e jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto." Não existe, portanto, qualquer fundamento para converter a Codificação em um catecismo intocável. Kardec legou um método de investigação, não um sistema imune ao exame racional.

Em A Gênese (cap. I), o Codificador ensina que a garantia da autenticidade das revelações espirituais repousa na concordância universal dos ensinos dos Espíritos. Em nenhum momento proibiu o surgimento de novos esclarecimentos; apenas estabeleceu os critérios para avaliá-los. Rejeitar previamente a produção mediúnica de André Luiz significa substituir o método kardequiano pelo preconceito.

André Luiz jamais pretendeu reformular a Doutrina. Sua obra, psicografada por Chico Xavier, desenvolve aspectos da realidade espiritual compatíveis com os princípios fundamentais codificados por Kardec. Emmanuel, por sua vez, jamais deixou de afirmar que Allan Kardec constitui o fundamento seguro do Espiritismo e que toda comunicação mediúnica deve submeter-se ao crivo da razão e da lógica.

O exame crítico das obras mediúnicas é obrigação de todo espírita. O inadmissível é transformar opiniões pessoais em sentenças definitivas e agir como se existisse um "magistério espírita" investido de infalibilidade. Kardec jamais instituiu sacerdotes da interpretação ou enciclopédicos kardequiólogos . A autoridade doutrinária nasce da fidelidade ao método, da coerência lógica e da humildade intelectual, jamais da arrogância erudita e enciclopédica.

Os verdadeiros discípulos de Kardec não o transformam em ídolo nem em legislador de verdades imutáveis. Seguem-lhe o exemplo de independência intelectual, abertura aos fatos e permanente disposição para revisar conclusões diante de evidências consistentes.

O maior perigo para o Espiritismo talvez não venha de seus adversários externos, mas do dogmatismo interno, que substitui a investigação pela repetição, a razão pela autoridade e a humildade pelo orgulho intelectual. Quando isso acontece, deixa-se de seguir Kardec justamente em nome de Kardec. O Espiritismo permanecerá fiel ao seu Codificador enquanto conservar vivo o princípio que lhe deu origem: nenhuma verdade legítima teme o exame racional.

Seja bem-vindo, André Luiz!


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB.