05 agosto 2026

A internet desmascara os marionetes mediúnicos das “cartas consoladoras”



 




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Durante mais de sete décadas, Chico Xavier psicografou milhares de cartas consoladoras em reuniões públicas, quase sempre realizadas diante de testemunhas, pesquisadores e familiares. As mensagens surgiam semanalmente, sem agendamento prévio e numa época em que não existiam redes sociais, inteligência artificial, mecanismos de busca ou bancos de dados digitais capazes de revelar, em poucos segundos, a intimidade de uma pessoa falecida.

A realidade contemporânea, contudo, é completamente diferente e sinistra. Atualmente, fotografias, conversas privadas, preferências pessoais, vídeos, registros escolares, homenagens póstumas e inúmeras informações familiares encontram-se disponíveis na internet. Basta um like na página do falsário da mediunidade e tudo sobre você e sua família estará à disposição do pérfido médium. Em consequência, no último lustro multiplicaram-se denúncias envolvendo supostos médiuns que utilizam insolentemente dados públicos para construir falsas “cartas consoladoras” destinadas a pais, mães e parentes devastados pela dor da “perda”.

Não é coincidência que alguns desses personagens, que outrora anunciavam psicografias semanais, tenham reduzido drasticamente a frequência de suas falsas mensagens, limitando-se, atualmente, a meia dúzia de apresentações anuais. Eles têm astúcia e sabem que a insistência na produção dos protótipos de “cartas consoladoras”,  constante, inevitavelmente expõe contradições, repetições, equívocos e indícios de informações obtidas por meios virtuais ordinários. Curiosamente, a tecnologia, paradoxalmente, tornou-se um poderoso instrumento de fiscalização das fraudes mediúnicas.

Allan Kardec advertiu que a credulidade irrefletida constitui grave ameaça ao Espiritismo. No Livro dos Médiuns, o codificador recomenda que toda comunicação espiritual seja submetida ao controle da razão, afirmando que "é preferível repelir dez verdades a admitir uma única falsidade" (KARDEC, 1861). O fenômeno mediúnico autêntico não teme a investigação; ao contrário, fortalece-se diante do exame rigoroso.

Quando indivíduos exploram a fragilidade emocional de famílias enlutadas, utilizando informações extraídas das redes sociais para fabricar mensagens supostamente espirituais, ultrapassam os limites da mistificação religiosa e aproximam-se de uma forma perversa de exploração sentimental: o verdadeiro estelionato do luto. Não se trata apenas de enganar intelectualmente, mas de instrumentalizar a saudade, a esperança e a dor humana.

O consolo genuíno jamais dependerá de espetáculos nem de mensagens fabricadas nas ondas virtuais. A Doutrina Espírita ensina que a fé raciocinada exige prudência, discernimento e responsabilidade moral. O silêncio respeitoso vale infinitamente mais do que palavras falsas construídas sobre pesquisas digitais.

Num mundo em que a internet desvenda quase toda a biografia de uma pessoa, a vigilância crítica tornou-se imperativa e ética. Defender as famílias enlutadas contra a fraude é preservar a dignidade da dor humana e proteger a própria credibilidade da mediunidade séria.

 

Referências Bibliográficas:


KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Paris: Didier, 1861.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Paris: Didier, 1862-1869.

XAVIER, Francisco Cândido. Entrevistas e depoimentos. Diversas edições.