Jorge Hessen
Brasília -DF
Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser conivência. A crescente industrialização dos congressos espíritas é um deles. Não se trata de combater eventos, despesas ou a legítima remuneração de serviços profissionais. O que precisa ser denunciado é a transformação da divulgação espírita em produto comercial, sustentado por marketing, celebridades e ingressos que podem afastar justamente o público que a Doutrina pretende alcançar.
O mecanismo é conhecido: grandes nomes no cartaz, auditórios lotados, inscrições caras e a exploração sistemática da notoriedade de determinados expositores como poderosa ferramenta de atração. O trabalhador pode até não perceber, mas seu nome pode estar funcionando como marca comercial. Quanto maior a celebridade, maior o poder de venda.
É preciso perguntar sem eufemismos: estamos diante de divulgação espírita ou de um mercado de eventos utilizando o Espiritismo como argumento de venda?
Allan Kardec não deixou margem para transformar a Doutrina em negócio. No Livro dos Espíritos, ao definir a caridade, registra: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas” (KARDEC, 2019). Não há nessa concepção espaço para o egoísmo econômico travestido de divulgação espiritual.
Mais explícita é sua advertência no Livro dos Médiuns: “A exploração da mediunidade [leia-se Doutrina Espírita] é um abuso” (KARDEC, 2019). Embora a passagem se refira diretamente à exploração comercial da faculdade mediúnica, o princípio ético é incontornável: o sagrado não pode ser instrumentalizado pela ganância.
O problema contemporâneo é que a mercantilização pode ocorrer sem que se cobre diretamente pela mediunidade. Cobra-se pelo evento, pela estrutura, pela experiência, pela proximidade com a celebridade. E assim, pouco a pouco, a mensagem espiritual passa a ser envolvida numa lógica de mercado.
O expositor famoso precisa refletir. Seu nome está sendo utilizado para servir à Doutrina ou para vender ingressos? Sua imagem está divulgando uma mensagem ou valorizando um empreendimento? Não basta dizer que se está falando de Jesus para tornar evangélica uma operação comercial.
Kardec, em Obras Póstumas, demonstrou preocupação com a organização do movimento e com os perigos das ambições pessoais. Na Revista Espírita, dedicou inúmeras páginas à preservação da seriedade, da independência e da finalidade moral do Espiritismo. A Doutrina não deveria tornar-se instrumento de interesses particulares.
Também não se pode esconder tudo sob o argumento das “despesas”. Naturalmente, congressos custam dinheiro. Mas a transparência é obrigação moral. Quanto foi arrecadado? Quanto custou a estrutura? Quanto receberam os contratados? Houve lucro? Para onde foi destinado? Quem controla as contas?
Se o objetivo é realmente divulgar, por que não oferecer inscrições populares, bolsas para pessoas de baixa renda, transmissão gratuita ou valores diferenciados? Por que a mensagem destinada a todos precisa ser filtrada pelo poder aquisitivo?
Chico Xavier ensinou pela própria vida que o Espiritismo deveria estar junto do povo. Não criou uma indústria em torno de seu nome. Não transformou sua popularidade em passaporte para uma elite espiritual. Sua grandeza estava justamente na simplicidade.
O movimento espírita precisa escolher entre duas lógicas: serviço ou mercado; fraternidade ou exclusividade; divulgação ou exploração comercial.
O congresso pode reunir milhares de pessoas e, ainda assim, estar vazio de espírito espírita.
O verdadeiro critério não é o tamanho do auditório, a fama dos conferencistas ou o faturamento obtido. É a finalidade.
Porque quando a Doutrina deixa de ser instrumento de esclarecimento e passa a ser instrumento de rentabilidade, ocorre uma inversão perversa: o Espiritismo deixa de servir ao povo e o povo passa a servir ao negócio.
E isso é precisamente o contrário do que Kardec desejou.
O Espiritismo não nasceu para ser vendido. Nasceu para libertar consciências.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.
