12 setembro 2026

Espiritismo não é marxismo com verniz espiritual


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 


Justiça social não exige submissão 
da Doutrina Espírita a qualquer ideologia.
 Kardec ensinou transformação moral, 
solidariedade e responsabilidade 
— não revolução política.

                               

A crítica ao meu artigo “Quando a revolução ignora o Espírito, a liberdade é sepultada”, feita por Lindemberg Macena , procura apresentar como “conservadorismo”, “alienação” e até “sadismo disfarçado” qualquer tentativa de distinguir o Espiritismo do marxismo. É precisamente aí que o debate perde qualidade, querido Macena. Discordar de uma determinada ideologia não significa defender a miséria, a desigualdade ou a injustiça. E defender  a justiça social não concede a ninguém autorização para transformar o Espiritismo em instrumento de militância ideológica.

Meu argumento jamais foi que o espírita deva ignorar a pobreza, a desigualdade ou o sofrimento social. Ao contrário. Kardec é claríssimo: “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome” (KARDEC, 1998, q. 930). O problema está em dar um salto que Kardec não deu: transformar essa afirmação moral em autorização doutrinária para importar ao Espiritismo determinada teoria econômica, política ou revolucionária.

A questão 930, aliás, desmonta parcialmente a própria crítica. Kardec não atribui automaticamente toda desigualdade a uma estrutura econômica externa ao indivíduo. O texto afirma que as próprias faltas humanas podem resultar do meio em que o indivíduo se encontra, mas aponta como solução uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade, acompanhada da melhoria moral do próprio ser humano. Não há ali uma palavra sequer sobre luta de classes, ditadura do proletariado, socialização dos meios de produção ou revolução marxista.

Mais importante: na questão 799, quando Kardec pergunta de que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso, a resposta destaca a destruição do materialismo, a compreensão da vida futura e a solidariedade que deve unir os homens. Portanto, reduzir o pensamento espírita à transformação das estruturas materiais é tão unilateral quanto reduzir o Espiritismo à contemplação individual.

A caridade espírita também não pode ser sequestrada por uma concepção política. Kardec afirma que a caridade não se limita à esmola e abrange todas as relações humanas. Ela é complemento da justiça e exige benevolência, indulgência e respeito à dignidade do próximo. Isso é muito diferente de afirmar que uma determinada ideologia política seja a expressão necessária da caridade.

Há outro problema na crítica: citar Herculano Pires, Léon Denis, Humberto Mariotti, Manuel Porteiro ou outros autores para demonstrar que o Espiritismo pode dialogar com o socialismo não prova que Espiritismo e marxismo sejam doutrinariamente complementares. Prova apenas que espíritas podem estudar, dialogar, concordar parcialmente ou divergir de diferentes correntes filosóficas e políticas.

E aqui está uma distinção elementar: autor espírita não é sinônimo de Codificador.

O Espiritismo não pode ser reconstruído a partir da soma das opiniões políticas de seus intérpretes. Kardec estabeleceu um método de análise e não uma licença para revestir preferências ideológicas com autoridade doutrinária. O fato de um pensador espírita defender determinada concepção política não transforma essa concepção em princípio do Espiritismo.

Da mesma maneira, chamar de “conservador” quem discorda do marxismo não é argumentoÉ apenas um rótulo. Se alguém deseja demonstrar que meu artigo está doutrinariamente equivocado, precisa apresentar Kardec contra Kardec, não uma sucessão de adjetivos políticos.

Também não aceito a falsa alternativa segundo a qual existiriam apenas duas possibilidades: engajamento político revolucionário ou alienação espiritual. Há uma terceira — e ela é profundamente espírita: transformar o ser humano sem transformar o Evangelho em programa partidário.

O espírita pode combater a fome, defender a dignidade humana, trabalhar pela educação, amparar presidiários, acolher dependentes químicos, proteger crianças, socorrer vítimas de violência e denunciar injustiças. Pode, inclusive, exercer plenamente sua cidadania política. O que não pode é atribuir automaticamente à Doutrina Espírita a sua própria preferência ideológica.

A caridade não precisa de partido. A fraternidade não precisa de comitê político. A dignidade humana não pertence à esquerda nem à direita. E o Evangelho não cabe em manifesto ideológico.

É igualmente perigoso transformar o sofrimento humano em argumento de autoridade para uma corrente política. O necessitado não pode ser convertido em instrumento retórico para legitimar uma ideologia. A pobreza exige socorro, educação, oportunidades, responsabilidade pública e solidariedade privada — mas exige também respeito à liberdade e à consciência individual.

O verdadeiro perigo está justamente em outro lugar: quando uma doutrina espiritual passa a ser julgada pela régua de uma ideologia política, a autonomia do pensamento espírita começa a desaparecer.

A crítica afirma que o Espiritismo deve “encarnar-se” no mundo. Concordo. Mas encarnar-se no mundo não significa submeter-se ao mundo.

Kardec não propôs um partido espírita. Não criou um programa econômico espírita. Não transformou o Espiritismo em braço de qualquer revolução política. Sua contribuição foi muito mais profunda: modificar o homem pela compreensão da imortalidade, da responsabilidade pelos próprios atos, da lei de causa e efeito, da justiça divina e da fraternidade.

É precisamente por isso que meu artigo não precisa pedir desculpas por distinguir Espiritismo de marxismo.

Uma doutrina que pretende libertar o Espírito não pode trocar uma forma de dogmatismo por outra.

Nem dogmatismo religioso, nem dogmatismo político.

O Espiritismo deve dialogar com a filosofia, a sociologia, a psicologia, a pedagogia e as ciências humanas. Deve estudar a sociedade. Deve compreender suas contradições. Deve combater a miséria. Deve defender a dignidade humana. Mas deve fazê-lo preservando aquilo que lhe é próprio.

Porque se toda crítica ao capitalismo for automaticamente espírita, e toda crítica ao marxismo for automaticamente “conservadora”, já não estaremos diante de uma doutrina aberta ao livre exame.

Estaremos diante de uma ideologia procurando ocupar o lugar da Doutrina.

E isso, sim, seria sepultar a liberdade.

A verdadeira revolução espírita começa no Espírito, alcança as relações humanas e produz consequências sociais. Mas ela não precisa de Marx para ser cristã, nem de partido para ser fraterna.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de José Herculano Pires. 59. ed. São Paulo: LAKE, 1998.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, ed. consultada.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. Bragança Paulista: Comenius, 2022.

PIRES, José Herculano. O reino. 1946.

MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. São Paulo: EDICEL, 1967.

PORTEIRO, Manuel. Espiritismo dialético. Bragança Paulista: Comenius, 2022.

 

11 setembro 2026

Kardec não foi revogado pela internet


Jorge Hessen

Brasília -DF

Na era da inteligência artificial, do algoritmo e da informação instantânea, o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos é mais necessário do que nunca.

Há algo intelectualmente desconcertante em ouvir que o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos teria perdido sua atualidade porque o mundo ingressou na era digital. Como se a internet tivesse revogado Kardec. Não revogou. Se alguma coisa mudou, foi o tamanho do problema: hoje circulam, em velocidade vertiginosa, milhões de mensagens atribuídas a Espíritos, médiuns e supostas autoridades espirituais. Nunca foi tão necessário separar ensino universal de opinião particular.

Kardec não criou o Controle Universal para uma época específica. Criou um método de aferição. Seu propósito era justamente impedir que o Espiritismo ficasse refém da palavra de um médium, de um expositor ou de qualquer liderança humana. Uma revelação isolada pode impressionar; uma opinião célebre pode seduzir; uma mensagem viral pode arrastar multidões. Nada disso, porém, transforma uma ideia em princípio doutrinário.

É exatamente aqui que reside o equívoco daqueles que imaginam que a tecnologia tornou obsoleto o método kardeciano. A internet multiplicou as vozes; não multiplicou automaticamente as verdades.

O Controle Universal não consiste em contar curtidas, visualizações, seguidores ou compartilhamentos. Milhares de pessoas reproduzindo a mesma mensagem não representam milhares de confirmações independentes. Podem representar apenas milhares de cópias da mesma fonte.

O método é outro: comparar comunicações obtidas por diferentes médiuns, em diferentes lugares e circunstâncias; verificar a concordância substancial dos ensinos; confrontá-los com a razão, a lógica e os princípios fundamentais da Doutrina. É a convergência independente que confere peso ao ensino — não a celebridade de quem o transmite.

E, na era da inteligência artificial, isso se tornou ainda mais evidente. Hoje é possível produzir textos, vozes, imagens e vídeos artificialmente convincentes. Informações pessoais podem ser recolhidas nas redes sociais e reapresentadas como se fossem revelações de cartas “consoladoras” . A aparência de autenticidade jamais foi tão fácil de fabricar.

Por isso, justamente agora, Kardec é mais atual do que nunca.

O Espiritismo não pode transformar médium em oráculo, dirigente em autoridade infalível ou experiência pessoal em dogma. Quem afirma algo em nome dos Espíritos deve aceitar o exame. Quem realmente confia na verdade não teme o confronto das ideias.

A Doutrina Espírita nasceu sob o signo da investigação, do livre exame e da razão. Não há lugar, portanto, para uma espécie de monarquia mediúnica, na qual a palavra de uma pessoa se torna suficiente para estabelecer aquilo que os Espíritos ensinam.

O verdadeiro espírita não pergunta apenas: “Quem disse?” Pergunta, sobretudo: “Onde está a confirmação? Qual é a concordância? O ensino é racional? É coerente com os princípios espíritas? Outros médiuns, independentes daquela fonte, receberam orientação semelhante?”

Essa é a vacina contra o personalismo.

Kardec não precisa ser atualizado pela internet. É a internet que precisa ser submetida ao método de Kardec. E quanto maior for o volume de mensagens espirituais despejadas diariamente nas redes, maior deverá ser nossa responsabilidade em submetê-las ao crivo da razão e ao Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos.

Porque uma coisa é divulgar uma opinião. Outra, muito diferente, é pretender transformá-la em ensinamento dos Espíritos.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

10 setembro 2026

Quando a fraternidade vira escudo



Jorge Hessen

Brasília -DF


No movimento espírita, caridade não pode significar silêncio diante do erro, nem misericórdia servir de salvo-conduto para práticas que exigem esclarecimento

Há algo profundamente equivocado quando, em nome da fraternidade, se tenta impedir a crítica; quando, em nome da caridade, se pretende encerrar o debate; quando, em nome do Evangelho, se exige silêncio diante de fatos que deveriam ser examinados. A fraternidade cristã não foi instituída para proteger erros, reputações ou interesses institucionais. Foi instituída para aproximar consciências da verdade.

O alerta de Emmanuel, no capítulo 20 de Caminho, Verdade e Vida, é de uma atualidade desconcertante. Sob o título “O Companheiro”, o autor espiritual recorda que ninguém percorre sozinho a estrada da evolução.

Encontraremos companheiros agradáveis e difíceis, concordantes e discordantes, aqueles que nos estimulam e aqueles que nos incomodam. Todos podem ser instrumentos de aprendizado. O problema começa quando transformamos a fraternidade em uma espécie de salvo-conduto moral para não examinar aquilo que nos convém ignorar.

Uma doutrina que ensina o livre exame não pode cultivar uma cultura de intocáveis. O Espiritismo não exige que seus adeptos concordem com tudo nem que aceitem uma prática simplesmente porque é realizada dentro de uma instituição espírita, por uma liderança admirada ou por alguém cercado de prestígio. Kardec não ensinou submissão intelectual. Ensinou investigação, raciocínio, observação e prudência. A fé espírita não teme a verdade — receia, isto sim, a acomodação que dispensa a verdade.

Emmanuel é ainda mais preciso ao recomendar: “Elevemos os que nos rodeiam.” Elevar não é adular. Não é proteger indefinidamente quem erra. Não é transformar crítica em perseguição e questionamento em ofensa. Muitas vezes, elevar significa ter a coragem de advertir o companheiro, apontar-lhe o equívoco e ajudá-lo a repará-lo.

Essa é uma concepção de fraternidade muito mais exigente do que a mera cordialidade.

O movimento espírita não pode cair na tentação de criar zonas de imunidade moral. Nenhum médium, dirigente, palestrante, trabalhador, instituição ou entidade federativa está acima do exame da consciência e dos princípios doutrinários.

Isso não significa licença para acusações irresponsáveis. Ao contrário. Toda crítica séria deve respeitar os fatos, evitar precipitações e distinguir claramente suspeitas, indícios e acusações comprovadas. Mas exatamente por isso não se pode responder a toda contestação com ataques pessoais, desqualificações ou tentativas de silenciamento.

A pergunta correta diante de uma crítica não deveria ser: “Quem está criticando?”

Deveria ser: “O que está sendo apontado é verdadeiro?”

Se a crítica for injusta, os fatos a desmontarão. Se houver equívoco, o esclarecimento será suficiente. Se existir uma falha, o caminho cristão será reconhecê-la e corrigi-la.

O que não é aceitável é substituir a investigação pela indignação. 

Também não se pode confundir caridade com permissividade. A questão 886 de O Livro dos Espíritos relaciona a caridade à benevolência, à indulgência e ao perdão das imperfeições alheias. Mas indulgência não significa negar a realidade. Podemos ser indulgentes com a pessoa sem sermos complacentes com o erro.

Perdoar não é aprovar. Compreender não é concordar. Amar não é acobertar.

Essa distinção deveria estar no centro de qualquer instituição que se apresente como cristã.

Há, ainda, um fenômeno particularmente preocupante: a transformação de determinadas personalidades em referências quase incontestáveis. Quando a admiração substitui o discernimento, nasce o personalismo. E quando o personalismo se instala, a crítica passa a ser percebida como ameaça.

É justamente nesse momento que o movimento espírita precisa recordar Kardec.

A Doutrina não é propriedade de indivíduos. Não existe “dono” da verdade espírita. O trabalhador é passageiro; a instituição é instrumento; a Doutrina permanece.

Por isso, nenhuma obra assistencial, por mais meritória que seja, pode ser utilizada como argumento para impedir questionamentos. A caridade não confere imunidade moral a ninguém. Fazer o bem não transforma automaticamente todas as práticas daquele que faz o bem em práticas corretas.

Essa é uma verdade incômoda, mas necessária.

Se houver erro, que seja corrigido. 

Se houver dúvida, que seja investigada.

Se houver denúncia, que seja examinada com serenidade.

Se houver injustiça, que seja reparada.

E se não houver fundamento, que os fatos esclareçam.

O que não podemos fazer é transformar o companheiro que questiona em inimigo e o companheiro questionado em vítima automática.

Emmanuel nos convida a enxergar no próximo uma oportunidade de aprendizado. Talvez seja hora de aplicar a mesma lição às nossas próprias instituições.

O crítico também pode ser um companheiro.

Pode incomodar. Pode contrariar. Pode expor aquilo que preferíamos não enxergar. Mas, se sua crítica tiver fundamento, talvez esteja prestando um serviço que muitos aduladores jamais tiveram coragem de prestar.

O verdadeiro espírita não deveria perguntar primeiro como preservar sua reputação.

Deveria perguntar como preservar sua consciência.

Porque, no fim, a maior ameaça à fraternidade não é a crítica honesta. É a mentira protegida pelo silêncio dos que deveriam ter coragem de examiná-la.

Fraternidade não é blindagem.

Fraternidade é verdade com misericórdia.

A fé que não teme a razão



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Andá com fé, eu vou, que a fé não costuma faiá”, canta Gilberto Gil. A imagem popular traduz uma experiência humana profunda: diante das incertezas da existência, precisamos de confiança para prosseguir. A Epístola aos Hebreus define a fé como “o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem” (BÍBLIA, Hebreus, 11:1).

Mas é preciso distinguir a fé da credulidade. Para o Espiritismo, fé verdadeira não significa acreditar cegamente, muito menos aceitar afirmações apenas porque alguém as apresenta como verdades espirituais. Allan Kardec é categórico: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade” (KARDEC, 2008, p. 239).

Essa concepção é particularmente importante nos momentos de crise. Doença, desemprego, dificuldades financeiras, insegurança, envelhecimento, solidão e perdas afetivas podem despertar medo, ansiedade e desalento. A fé racional não elimina automaticamente essas experiências, mas pode oferecer ao indivíduo um eixo interior para enfrentá-las com maior serenidade, responsabilidade e esperança.

No entendimento espírita, essa esperança encontra fundamento na imortalidade da alma e na reencarnação. A morte deixa de ser compreendida como aniquilamento e passa a ser encarada como etapa da existência. Isso não autoriza passividade diante das dificuldades; ao contrário, convoca-nos ao trabalho, à resignação ativa e à transformação moral.

Fé, portanto, não é privilégio concedido a alguns, nem imposição religiosa. É conquista progressiva da consciência. Desenvolve-se pelo estudo, pela experiência, pela reflexão e, sobretudo, pela vivência do bem. A fé que dispensa a razão pode facilmente converter-se em superstição; a razão que despreza toda dimensão espiritual pode reduzir a existência àquilo que os sentidos conseguem perceber.

Jesus ensinou uma fé capaz de “transportar montanhas” (MATEUS, 17:20). As montanhas, porém, também podem representar nossas limitações interiores: medo, egoísmo, pessimismo, orgulho e desesperança.

A verdadeira fé não promete uma vida sem dificuldades. Ela nos ensina a atravessá-las sem perder o sentido da vida. Por isso, mais do que repetir que “a fé não costuma faiá”, precisamos construir uma fé que não tema a razão, não fuja dos fatos e, sobretudo, transforme-se em coragem para viver e amor para servir.

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

GIL, Gilberto. Andar com fé. In: GILBERTO GIL. Um banda um. Rio de Janeiro: Warner Music Brasil, 1982.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 129. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008.

 

07 setembro 2026

A morte não pode ser explorada: o grito de uma mãe contra o estelionato do luto


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há dores que deveriam ser invioláveis. A morte de um esposo, de um filho ou de um pai não pode transformar-se em espetáculo, instrumento de sedução ou oportunidade de exploração. Por isso, são profundamente assombrosos os relatos de famílias que, em busca desesperada de uma palavra consoladora, acreditaram em supostas mensagens mediúnicas e, posteriormente, passaram a desconfiar de que informações íntimas haviam sido obtidas previamente pela internet.

O Programa Fantástico da Rede Globo, de 6 de setembro de 2026, veiculou o testemunho de Marina, mãe de Mateu, e foi um desses relatos que exigem atenção. Tiago (esposo de Marina) desencarnou após uma longa luta contra o câncer e complicações decorrentes de um transplante de medula. Quando faleceu, deixou um filho pequeno. A família, devastada, procurou consolo naquilo em que acreditava: a continuidade da vida.

Marina, espírita desde a infância, acreditava sinceramente na possibilidade das comunicações espirituais. Em sua dor, mobilizou familiares, reuniu recursos e viajou de São Paulo até a cidade onde vive tal suposto médium em busca de uma mensagem que lhe dissesse como estava o homem que amava. Como milhares de enlutados, ela desejava apenas uma notícia do outro lado da vida.

Mas, posteriormente, com a infida carta consoladora em mãos, afirma ter descoberto que as informações apresentadas como extraordinárias estavam disponíveis em redes sociais e em bancos de dados na internet. A confiança converteu-se em angústia. E o impacto não teria atingido apenas uma adulta fragilizada pelo luto: segundo seu relato, seu filho (Mateu) — que tinha apenas três anos quando o pai faleceu e hoje ainda é uma criança — também teria sido profundamente afetado pela situação, necessitando de acompanhamento e terapias caríssimas.

A denúncia moral aqui é gravíssima: estamos diante de crime real, pois não se pode “matar” simbolicamente um pai duas vezes na memória de uma criança. Primeiro, pela morte física; depois, pela manipulação da esperança, da saudade e das crenças familiares. Houve crime comprovado; não se trata de simples divergência religiosa. Trata-se de uma ferida psicológica que pode atravessar anos.

E tal suposto médium tem ameaçado com processos judiciais contra quem questiona suas desumanas práticas. Provar que as falsas cartas desse suposto médium são obtidas através das informações da internet é a coisa mais fácil de se constatar. Logicamente sabemos que quem faz acusações deve apresentar provas e quem é acusado tem direito à ampla defesa; mas, existindo indícios objetivos, as autoridades policiais têm o dever de investigar. Até porque ameaçar mães, testemunhas e pesquisadores sérios não substitui perícia técnica , mas afirmo que é extremamente fácil  constatar que as mensagens daquelas cartas consoladoras são cópias  da internet.

Em face disso, é indispensável preservar vídeos, transmissões, mensagens, publicações, registros financeiros e, sobretudo, comparar as supostas informações “reveladas” com aquilo que já estava disponível na internet antes das mensagens. Também é legítimo investigar a circulação de dinheiro em torno de eventos e atendimentos que envolvam pessoas fragilizadas.

O Espiritismo sério não precisa de blindagem contra perguntas. Allan Kardec jamais ensinou que a emoção fosse prova de autenticidade. Lágrimas não autenticam uma psicografia. Fama não transforma ninguém em médium verdadeiro. Seguidores não substituem investigação.

Quando alguém explora — conscientemente ou fraudulentamente — a esperança de quem sofre, a vítima não perde apenas dinheiro. Pode perder a paz, a confiança e a capacidade de elaborar saudavelmente o próprio luto.

Por isso, proteger as famílias não é perseguir médiuns. É defender a fé contra os que, eventualmente, transformam a credulidade humana em instrumento de poder. A dor não pode ser mercadoria. A saudade não pode ser explorada. E nenhuma ameaça judicial deve impedir que fatos sérios sejam apresentados às autoridades competentes.

05 setembro 2026

Quando a postura kardeciana incomoda, é preciso coragem para não se calar


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

E foi exatamente isso que Paulo Maia, Presidente da Federação Espírita do Distrito Federal,  fez.

Enquanto muitos preferem o silêncio para evitar conflitos, ele escolheu permanecer firme.

Não por vaidade.
Não por conveniência.
Mas por compromisso com Allan Kardec, com o Cristo e com a responsabilidade que a mediunidade séria exige.

Hoje, queremos dizer publicamente:

Paulo Maia, nós reconhecemos a sua coragem.

Mediunidade não é espetáculo.
Não é comércio.
Não é autorização para transformar informações colhidas nas redes sociais em supostas revelações do mundo espiritual.

Kardec ensinou-nos a examinar, questionar e submeter os fatos ao crivo da razão.

Não estamos contra pessoas. Estamos contra a claudicação.
Não estamos promovendo perseguições. Estamos defendendo princípios.

E quem permanece fiel ao Cristo e ao Codificador, mesmo diante das pressões, não pode ser abandonado.

PAULO MAIA, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO.

Eu, as vítimas, estamos com você.
Nós estamos com você.
Todos aqueles que defendem uma doutrina espírita séria, ética e fiel a Kardec estão com você.

Se precisar, conte conosco.

Porque a verdade pode ser pressionada.

Pode ser atacada.

Mas jamais deve ser abandonada.

E a fidelidade a Allan Kardec, essa não se negocia.

 

Não se responde às cartas “consoladoras” com “flores”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Havia, numa pequena cidade, uma casa conhecida pelo belo jardim.

 Semanalmente seus voluntários distribuíam alimentos, roupas e outros recursos aos necessitados. Gioconda trabalhava ali há muitos anos. Sabia quem precisava de uma cesta básica, quem chegava em silêncio e quem voltava apenas para conversar. Para ela, a caridade não era uma ideia: tinha rosto, nome e história.

 Epifânio era diferente. Gostava de documentos, datas e comparações. Quando ouvia uma afirmação extraordinária, sua primeira reação não era acreditar nem desacreditar.

Era perguntar:

— Como podemos saber?

 Ariosto, o velho jardineiro, conhecia os dois.

 Numa manhã, encontrou-os conversando diante de uma mesa onde estavam algumas cartas “consoladoras”.

— Lá estão vocês dois outra vez — disse ele. — Uma querendo respostas e a outra querendo proteger o jardim.

 Gioconda sorriu.

 — Não estou protegendo o jardim, Ariosto. Estou protegendo pessoas. É diferente.

 Epifânio respondeu:

— E eu não estou tentando derrubar o jardim. Estou tentando descobrir de onde vieram essas cartas “consoladoras”.

 Gioconda cruzou os braços.

— Você sabe como essas coisas funcionam. Quando uma história começa a circular, ninguém fica apenas nas cartas “consoladoras”. Daqui a pouco estão falando da casa inteira.

 — E justamente por isso precisamos ser precisos — respondeu Epifânio. — Se eu questiono uma carta “consoladora”, diga que questionei a carta. Não diga que ataquei a caridade.

 Gioconda ficou séria.

 — Mas você também precisa reconhecer que palavras têm consequências. Para quem recebe ajuda aqui, ouvir que a casa está sendo questionada pode causar insegurança.

Epifânio fez uma pausa.

— Reconheço. Mas isso vale para os dois lados. Se uma dúvida sobre as cartas “consoladoras” for apresentada como se fosse uma condenação da caridade, também se cria uma impressão que não corresponde ao que foi perguntado.

 Ariosto, que até então observava em silêncio, puxou uma cadeira.

— Muito bem. Agora estamos chegando ao ponto.

Gioconda olhou para ele.

— Qual ponto?

 — O ponto em que vocês percebem que estão falando de duas preocupações diferentes.

 Epifânio perguntou:

 — Quais?

— Você quer saber se as cartas “consoladoras” resistem ao exame. Gioconda quer ter certeza de que as pessoas que dependem da casa não serão prejudicadas pela discussão.

Gioconda concordou.

 — É exatamente isso.

 — E nenhuma dessas preocupações é absurda — continuou Ariosto. — O problema começa quando uma resposta para uma preocupação é usada para substituir a outra.

 Epifânio pegou uma carta “consoladora”.

— Então vamos ao concreto. Se existem informações aqui que também aparecem em entrevistas, publicações ou redes sociais, eu quero saber como isso é explicado.

 Gioconda respondeu imediatamente:

 — E eu quero saber se você já ouviu a explicação completa.

Epifânio levantou os olhos.

— Ainda não.

 — Então talvez esse seja o primeiro passo — disse ela.

 Epifânio sorriu.

 — Justo.

Ariosto bateu levemente na mesa.

— Vejam só. Uma pergunta e uma resposta. Sem precisar transformar ninguém em vilão.

 Gioconda riu.

 — Você sempre acha tudo mais simples.

— Não. Eu só já vivi o suficiente para saber que uma discussão fica mais difícil quando começamos a adivinhar o que existe na cabeça dos outros.

 Epifânio concordou:

 — Isso é verdade. Eu posso dizer o que observei. Não posso afirmar por que alguém fez alguma coisa sem ter elementos para isso.

 Gioconda olhou novamente para a carta “consoladora”.

 — E eu posso defender o trabalho da casa sem afirmar que qualquer pessoa que faça uma pergunta está atacando a instituição.

 Ariosto levantou-se.

 — Agora vocês estão aprendendo a conversar.

Gioconda provocou:

— E você? De que lado está?

 O velho jardineiro apontou para o jardim.

 — Do lado das perguntas bem feitas, das respostas honestas e das flores bem cuidadas.

 Epifânio riu.

 — Isso não é exatamente um lado.

 — É o melhor que consigo oferecer.

Gioconda pegou a carta “consoladora”e a colocou novamente sobre a mesa.

— Então fica combinado: o trabalho assistencial continua sendo reconhecido pelo que é. E as cartas “consoladoras” são examinadas pelo que apresentam.

 — E sem antecipar a conclusão — acrescentou Epifânio.

 — Sem transformar crítica em acusação — disse Gioconda.

Ariosto completou:

 — E sem transformar caridade em argumento para uma questão que precisa ser respondida por evidências.

 Os três ficaram em silêncio.

 O jardim continuou sendo cuidado.

 As cartas “consoladoras” permaneceram sobre a mesa.

 E a pequena comunidade descobriu que é possível defender uma obra sem defender previamente todas as suas práticas, assim como é possível questionar uma prática sem desmerecer toda a obra.

Moral:

 Quando cada pessoa fala a partir de sua preocupação, a conversa pode parecer uma disputa. Quando cada uma aprende a separar fatos, perguntas e conclusões, a mesma conversa pode se transformar em busca pela verdade.

 

04 setembro 2026

No STF, quem deve ser investigado — aquele que acende a luz ou aquilo que a luz revela?


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Hoje mesmo escrevi que o Brasil atravessa um período de grave tensão institucional. As divergências entre os Poderes, as controvérsias envolvendo autoridades e a crescente desconfiança de parcela da sociedade exigem algo elementar: serenidade, transparência, investigação e respeito absoluto à Constituição. O cidadão não pode ser obrigado a escolher entre a autoridade e a verdade. Autoridade alguma substitui a prova.

O próprio ordenamento constitucional estabelece que ninguém será privado de liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal e assegura aos acusados o contraditório e a ampla defesa. Também determina que a Administração Pública observe, entre outros, os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade.

Para o espírita, entretanto, a questão ultrapassa a esfera jurídica. É também uma questão moral. Allan Kardec jamais ensinou submissão cega a autoridades humanas. Ao contrário, a Doutrina Espírita valoriza o livre exame, a liberdade de consciência e o uso da razão. A fé espírita não teme a investigação porque, sendo racional, não precisa esconder-se atrás de dogmas ou de intimidações. A própria orientação doutrinária destaca que a fé verdadeira deve poder enfrentar a razão em qualquer época.

Por isso, quando surgem denúncias envolvendo pessoas poderosas, o comportamento correto não é transformar automaticamente o denunciante em inimigo. É investigar. Se alguém mente, manipula documentos, calunia ou pratica qualquer abuso, que responda por seus atos. Mas isso precisa ser demonstrado por investigação regular, com provas e devido processo. Não se pode substituir a apuração pela suspeita, a prova pela autoridade ou o argumento pelo silêncio.

Há uma pergunta que deveria ecoar na consciência de todos: quem deve ser investigado — aquele que acende a luz ou aquilo que a luz revela?

A resposta espírita não pode ser outra: os fatos devem falar mais alto que as paixões.  Kardec ensinou que o Espiritismo não impõe a fé cega e que o livre exame é indispensável. Isso significa que o espírita não deve transformar ministro, presidente, parlamentar, partido ou instituição em objeto de veneração política. Respeito à autoridade não significa abdicação da consciência.

A Doutrina Espírita também nos recorda a responsabilidade individual. Cada ser responde moralmente pelos próprios atos. Portanto, quanto maior a posição ocupada por alguém na sociedade, maior deveria ser sua responsabilidade perante a própria consciência e perante a coletividade.

O Brasil não precisa de salvadores institucionais. Precisa de instituições submetidas à lei, homens públicos submetidos à responsabilidade e cidadãos livres para questionar sem medo.

Se há denúncias, investiguem-se. Se são falsas, demonstre-se. Se são verdadeiras, responsabilizem-se os envolvidos. Se nada houver, que a própria investigação produza a absolvição.

É assim que uma República madura funciona. E é assim também que uma sociedade moralmente saudável deve proceder: sem ódio, sem idolatria, sem perseguição e sem medo da verdade.

Porque a verdade não precisa de violência para prevalecer.

Precisa apenas que lhe permitam aparecer.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República

 

Brasil em alerta - quando os poderes perdem o equilíbrio, a democracia perde o rumo



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Brasil atravessa uma hora gravíssima. E o pior que poderíamos fazer seria fingir normalidade.

A República está politicamente fraturada. O Congresso Nacional revela limitações preocupantes para exercer, com independência e eficácia, suas prerrogativas. Câmara e Senado frequentemente parecem incapazes de responder à altura da gravidade dos acontecimentos. E o Supremo Tribunal Federal, “guardião” da Constituição, enfrenta uma crise interna que já expõe publicamente divergências, acusações e questionamentos sobre procedimentos e condutas de seus próprios ministros. A imprensa registra o episódio como uma das mais graves crises da história recente da Corte.

Não se trata de demonizar o STF, o Congresso ou qualquer Poder. Trata-se de lembrar uma verdade elementar: nenhuma instituição da República está acima da Constituição.

A própria Carta Magna estabelece a independência e a harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Quando um Poder avança sobre as atribuições de outro, quando decisões judiciais passam a ser percebidas como substituição da atividade política do Parlamento, ou quando o Legislativo deixa de exercer adequadamente suas prerrogativas, a democracia entra em zona de perigo.

E onde está o espírita diante disso?

Debaixo da cama escondido atrás de uma falsa neutralidade?

Não deveria!

O espírita não deve ser cabo eleitoral de partido algum, mas tem o dever moral de ser cidadão atento. Não pode trocar consciência por ideologia nem fraternidade por submissão política.

Allan Kardec ensinou que o progresso exige justiça e que o verdadeiro espírita deve trabalhar pela transformação moral da sociedade. Em O Livro dos Espíritos, a Lei de Justiça, Amor e Caridade não é apresentada como simples contemplação religiosa, mas como fundamento da vida humana (KARDEC, 2019, questões 873-892).

Portanto, não cabe ao espírita aplaudir abusos porque foram praticados por aqueles de quem gosta, nem condená-los porque partiram de seus adversários. Abuso não muda de natureza conforme a ideologia de quem o pratica.

Se há suspeita de violação constitucional, que seja investigada. Se há abuso de autoridade, que seja apurado. Se há crime, que haja devido processo legal. Se há injustiça, que seja corrigida. E se houver acusações falsas, que também sejam desmentidas pelos instrumentos legítimos da Justiça.

O que não podemos aceitar é a substituição da verdade pelo fanatismo e da justiça pela vingança. Jesus ensinou: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32).

O Brasil precisa dessa verdade. Precisa de instituições fortes, mas também instituições controladas pela Constituição. Precisa de Legislativo independente, Judiciário responsável, Executivo submetido à lei e cidadãos capazes de fiscalizar todos os Poderes.

O espírita consciente não pede ruptura. Pede equilíbrio, justiça, responsabilidade, obediência à Constituição. E talvez esta seja uma das maiores provas morais do nosso tempo: permanecer sereno sem ser omisso; fraterno sem ser ingênuo; pacífico sem ser covarde; e fiel à verdade mesmo quando ela contraria aqueles de quem gostamos.

Porque quando a República adoece, a consciência do cidadão honrado não pode entrar em coma.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.

 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988