26 agosto 2026

Nepal em lágrimas - a dor humana sob a luz da imortalidade


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A tragédia que acaba de atingir o Nepal — uma avalanche de gelo e rochas, seguida por violentas enxurradas de água, lama e detritos, devastando comunidades e deixando mortos, feridos e centenas de desaparecidos — impõe, antes de qualquer interpretação filosófica, uma atitude profundamente humana: respeito diante da dor. Os números ainda estão sendo atualizados, enquanto famílias procuram seus entes queridos e equipes de socorro enfrentam uma destruição de enormes proporções.

Nenhuma explicação espiritual pode servir para minimizar lágrimas ou transformar o sofrimento alheio em mera abstração doutrinária. O Espiritismo não autoriza a frieza diante da tragédia. Ao contrário: a primeira resposta deve ser a solidariedade.

Entretanto, sem pretender devassar os mecanismos particulares do destino de cada vítima, a Doutrina Espírita oferece elementos para uma reflexão mais ampla. Allan Kardec ensina que a existência corporal não constitui a totalidade da vida e que a morte não representa a destruição do Espírito, mas a passagem para outra modalidade de existência.

Sob essa perspectiva, as chamadas mortes coletivas não podem ser compreendidas como simples produto de um acaso cego governando o Universo. Num mundo submetido às leis divinas, podemos confiar que não existe injustiça. Contudo, reconhecer a justiça de Deus é muito diferente de imaginar que possuímos autorização para explicar o passado espiritual de cada desencarnado.

Seria, portanto, imprudente e doutrinariamente leviano afirmar que determinada vítima morreu para expiar esta ou aquela falta. A lei de causa e efeito não pode ser transformada numa máquina de acusações contra os sofredores. Não conhecemos as existências pretéritas dos outros, nem nos compete julgar seus processos espirituais.

No Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo V, Kardec convida-nos a considerar as aflições e calamidades à luz da continuidade da existência e da soberana justiça divina. Uma existência corporal, por mais longa ou breve que seja, constitui apenas um capítulo da trajetória do Espírito imortal.

As tragédias coletivas revelam ainda outra dimensão: a da solidariedade humana. Enquanto alguns são chamados a atravessar abruptamente a fronteira da morte, outros permanecem para socorrer, reconstruir, consolar e servir. Surgem gestos de coragem, fraternidade e renúncia. A dor transforma-se, assim, também em campo de aprendizado moral para os que ficaram.

Para o espírita, portanto, o Nepal não é uma estatística. São irmãos que partiram de maneira dolorosa; são famílias enfrentando a ausência; são sobreviventes necessitando de auxílio material e espiritual.

Podemos confiar que Deus é soberanamente justo e bom, sem que essa confiança nos torne indiferentes às lágrimas. Se nos estatutos divinos não há espaço para a injustiça, também não há espaço para a presunção humana de decifrar todos os desígnios do Alto.

Diante da tragédia, a atitude espírita mais autêntica talvez seja unir a razão que confia na imortalidade à compaixão que se curva diante da dor: orar pelos que partiram, amparar os que ficaram e servir aos sobreviventes. A morte não tem a última palavra — mas, diante das lágrimas, o amor deve ter sempre a primeira.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. V — Bem-aventurados os aflitos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.

KARDEC, Allan. O céu e o inferno. Primeira Parte — Doutrina. Brasília: Federação Espírita Brasileira, em várias edições.