Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Há um equívoco perigoso no
movimento espírita: imaginar que uma pessoa se torna acima de qualquer suspeita
porque pratica assistência social “caridade”. Não. A caridade é moral e não fazeção
de coisas materiais para os pobres , muito menos certificado de mediunidade.
Uma pessoa pode alimentar
centenas , milhares de necessitados e, simultaneamente, equivocar-se sobre
determinado fenômeno espiritual. Pode ser generosa, bem-intencionada (aliás, de boa
intenção umbral está lotado) e até admirada em sua pseudodedicação ao
próximo, sem que isso transforme automaticamente suas alegações mediúnicas em
verdades.
É preciso separar o que
alguns por má-fé e conveniência ardilosa misturam. A cesta básica deve ser
reconhecida como cesta básica. A mensagem mediúnica deve ser examinada como
mensagem mediúnica.
Se alguém afirma receber
cartas de Espíritos contendo nomes, datas, apelidos, acontecimentos familiares
e informações íntimas, a pergunta responsável não é simplesmente: “Como poderia
saber disso?”. A pergunta correta é: “De que maneira essas informações poderiam
ter sido obtidas?”
Na era digital,
fotografias, obituários, redes sociais, homenagens, vídeos, entrevistas,
comentários e registros públicos formam um gigantesco arquivo sobre a vida das
pessoas. Informações que pareciam inacessíveis podem estar disponíveis a quem
saiba procurá-las e cruzá-las.
Por isso, emoção não é
prova.
Uma mãe chorando não é
prova de psicografia autêntica. Uma frase aparentemente familiar não é prova de
identidade espiritual. Milhares de seguidores fanáticos não constituem
evidência de mediunidade. Popularidade não transforma alegação fenomênica em fato.
Allan Kardec jamais
recomendou semelhante credulidade. Ao tratar do charlatanismo e do embuste,
advertiu contra a exploração da mediunidade e destacou o desinteresse como
importante garantia contra abusos.
Mais ainda: Kardec
demonstrou que o fenômeno espírita não deveria ser aceito simplesmente porque
alguém se apresentasse como médium. O exame das circunstâncias, a observação e
o discernimento são indispensáveis.
Portanto, quando
jornalistas, pesquisadores ou estudiosos solicitam esclarecimentos e propõem
procedimentos independentes, a reação não deveria ser histeria, perseguição ou
demonização do questionador.
Se o fenômeno é
verdadeiro, por que temer a investigação?
A verdade não fica menor
quando examinada.
Se uma comunicação é
autêntica, o exame sério poderá contribuir para demonstrá-la. Se é falsa, o
exame poderá impedir que pessoas enlutadas sejam criminosamente enganadas
(crime lesa-Deus).
O problema surge quando a
investigação é substituída pela idolatria. Então aparecem os argumentos
emocionais: “Mas ela “ajuda” os pobres!”, “Mas é uma pessoa ‘maravilhosa’!”! “Mas possui milhares de seguidores!”.
Tudo isso pode ser
verdadeiro e, ainda assim, não responder à questão essencial: As mensagens são
realmente psicográficas? Essa pergunta permanece. E nenhuma obra assistencial
pode funcionar como salvo-conduto contra ela.
Kardec foi ainda mais
incisivo ao observar que o interesse do médium não se restringe ao dinheiro: pode
envolver ambição, prestígio e outras vantagens pessoais.
Eis a advertência que o
movimento espírita precisa ouvir sem melindres: não transformemos
benfeitores em infalíveis, médiuns em santos, seguidores em torcida organizada
e críticos em inimigos.
A caridade deve
continuar. A investigação também.
Uma não pode servir de cortina
escura para impedir a outra.
No Espiritismo, fé não
significa abdicação da razão. Significa confiança acompanhada de discernimento.
Não confundamos lágrimas
com provas, fama com mediunidade, popularidade com verdade ou assistência
social com autenticidade espiritual.
Porque fazer o bem é
dever. Mas fazer o bem não concede licença para enganar.
E, quando alguém exige
que acreditemos sem permitir que investiguemos, talvez a pergunta mais
importante já não seja sobre o fenômeno.
Talvez seja sobre o medo
da verdade.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro
dos médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília, DF: Federação
Espírita Brasileira, 2000
KARDEC, Allan. O
evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000
KARDEC, Allan. O que é o
espiritismo? Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000
