16 agosto 2026

Quando a caridade vira cortina escura para falsa mediunidade

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há um equívoco perigoso no movimento espírita: imaginar que uma pessoa se torna acima de qualquer suspeita porque pratica assistência social “caridade”. Não. A caridade é moral e não fazeção de coisas materiais para os pobres  , muito menos certificado de mediunidade.

Uma pessoa pode alimentar centenas , milhares de necessitados e, simultaneamente, equivocar-se sobre determinado fenômeno espiritual. Pode ser generosa, bem-intencionada (aliás, de boa intenção umbral está lotado) e até admirada em sua pseudodedicação ao próximo, sem que isso transforme automaticamente suas alegações mediúnicas em verdades.

É preciso separar o que alguns por má-fé e conveniência ardilosa misturam. A cesta básica deve ser reconhecida como cesta básica. A mensagem mediúnica deve ser examinada como mensagem mediúnica.

Se alguém afirma receber cartas de Espíritos contendo nomes, datas, apelidos, acontecimentos familiares e informações íntimas, a pergunta responsável não é simplesmente: “Como poderia saber disso?”. A pergunta correta é: “De que maneira essas informações poderiam ter sido obtidas?”

Na era digital, fotografias, obituários, redes sociais, homenagens, vídeos, entrevistas, comentários e registros públicos formam um gigantesco arquivo sobre a vida das pessoas. Informações que pareciam inacessíveis podem estar disponíveis a quem saiba procurá-las e cruzá-las.

Por isso, emoção não é prova.

Uma mãe chorando não é prova de psicografia autêntica. Uma frase aparentemente familiar não é prova de identidade espiritual. Milhares de seguidores fanáticos não constituem evidência de mediunidade. Popularidade não transforma alegação fenomênica  em fato.

Allan Kardec jamais recomendou semelhante credulidade. Ao tratar do charlatanismo e do embuste, advertiu contra a exploração da mediunidade e destacou o desinteresse como importante garantia contra abusos.

Mais ainda: Kardec demonstrou que o fenômeno espírita não deveria ser aceito simplesmente porque alguém se apresentasse como médium. O exame das circunstâncias, a observação e o discernimento são indispensáveis.

Portanto, quando jornalistas, pesquisadores ou estudiosos solicitam esclarecimentos e propõem procedimentos independentes, a reação não deveria ser histeria, perseguição ou demonização do questionador.

Se o fenômeno é verdadeiro, por que temer a investigação?

A verdade não fica menor quando examinada.

Se uma comunicação é autêntica, o exame sério poderá contribuir para demonstrá-la. Se é falsa, o exame poderá impedir que pessoas enlutadas sejam criminosamente enganadas (crime lesa-Deus).

O problema surge quando a investigação é substituída pela idolatria. Então aparecem os argumentos emocionais: “Mas ela “ajuda” os pobres!”, “Mas é uma pessoa ‘maravilhosa’!”! “Mas possui milhares de seguidores!”.

Tudo isso pode ser verdadeiro e, ainda assim, não responder à questão essencial: As mensagens são realmente psicográficas? Essa pergunta permanece. E nenhuma obra assistencial pode funcionar como salvo-conduto contra ela.

Kardec foi ainda mais incisivo ao observar que o interesse do médium não se restringe ao dinheiro: pode envolver ambição, prestígio e outras vantagens pessoais.

Eis a advertência que o movimento espírita precisa ouvir sem melindres: não transformemos benfeitores em infalíveis, médiuns em santos, seguidores em torcida organizada e críticos em inimigos.

A caridade deve continuar. A investigação também.

Uma não pode servir de cortina escura para impedir a outra.

No Espiritismo, fé não significa abdicação da razão. Significa confiança acompanhada de discernimento.

Não confundamos lágrimas com provas, fama com mediunidade, popularidade com verdade ou assistência social com autenticidade espiritual.

Porque fazer o bem é dever. Mas fazer o bem não concede licença para enganar.

E, quando alguém exige que acreditemos sem permitir que investiguemos, talvez a pergunta mais importante já não seja sobre o fenômeno.

Talvez seja sobre o medo da verdade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000

KARDEC, Allan. O que é o espiritismo? Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000