Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Há dores que deveriam ser
invioláveis. A morte de um esposo, de um filho ou de um pai não pode
transformar-se em espetáculo, instrumento de sedução ou oportunidade de
exploração. Por isso, são profundamente assombrosos os relatos de
famílias que, em busca desesperada de uma palavra consoladora, acreditaram em
supostas mensagens mediúnicas e, posteriormente, passaram a desconfiar de que
informações íntimas foram obtidas previamente pela internet.
O Programa Fantástico da Rede
Globo de 6 de setembro de 2026 veiculou o testemunho de Marina, mãe de Mateu,
e foi um desses relatos que exigem atenção. Tiago (esposo de Marina) desencarnou
após uma longa luta contra o câncer e complicações decorrentes de um
transplante de medula. Quando faleceu, deixou um filho pequeno. A família,
devastada, procurou consolo naquilo em que acreditava: a continuidade da vida.
Marina, espírita desde a
infância, acreditava sinceramente na possibilidade das comunicações
espirituais. Em sua dor, mobilizou familiares, reuniu recursos e viajou de São
Paulo até a cidade onde vive tal suposto médium em busca de
uma mensagem que lhe dissesse como estava o homem que amava. Como milhares de
enlutados, ela desejava apenas uma notícia do outro lado da vida.
Mas, posteriormente, com
a infida carta consoladora em mãos, afirma ter descoberto que as informações
apresentadas como extraordinárias estavam disponíveis em redes sociais e em
bancos de dados na internet. A confiança converteu-se em angústia. E o impacto
não teria atingido apenas uma adulta fragilizada pelo luto: segundo seu relato,
seu filho (Mateu) — que tinha apenas três anos quando o pai faleceu e hoje
ainda é uma criança — também teria sido profundamente afetado pela situação, necessitando
de acompanhamento e terapias caríssimas.
A denúncia moral aqui é
gravíssima: estamos diante de crime real, pois não se pode “matar”
simbolicamente um pai duas vezes na memória de uma criança. Primeiro, pela
morte física; depois, pela manipulação da esperança, da saudade e das crenças
familiares. Houve crime comprovado; não se trata de simples divergência
religiosa. Trata-se de uma ferida psicológica que pode atravessar anos.
E tal suposto
médium tem ameaçado com processos judiciais contra quem questiona suas
desumanas práticas. Provar que as falsas cartas desse suposto médium são
obtidas através das informações da internet é a coisa mais fácil de se constatar.
Logicamente sabemos que quem faz acusações deve apresentar provas e quem é
acusado tem direito à ampla defesa; mas, existindo indícios objetivos, as
autoridades policiais têm o dever de investigar. Até porque ameaçar
mães, testemunhas e pesquisadores sérios não substitui perícia técnica
, mas afirmo que é extremamente fácil constatar que as mensagens
daquelas cartas consoladoras são cópias da internet.
Em face disso, é
indispensável preservar vídeos, transmissões, mensagens, publicações, registros
financeiros e, sobretudo, comparar as supostas informações “reveladas” com
aquilo que já estava disponível na internet antes das mensagens. Também
é legítimo investigar a circulação de dinheiro em torno de eventos e
atendimentos que envolvam pessoas fragilizadas.
O Espiritismo sério não
precisa de blindagem contra perguntas. Allan Kardec jamais ensinou que a emoção
fosse prova de autenticidade. Lágrimas não autenticam uma
psicografia. Fama não transforma ninguém em médium verdadeiro.
Seguidores não substituem investigação.
Quando alguém explora —
conscientemente ou fraudulentamente — a esperança de quem sofre, a vítima não
perde apenas dinheiro. Pode perder a paz, a confiança e a capacidade de
elaborar saudavelmente o próprio luto.
Por isso, proteger as
famílias não é perseguir médiuns. É defender a fé contra os que, eventualmente,
transformam a credulidade humana em instrumento de poder. A dor não pode ser
mercadoria. A saudade não pode ser explorada. E nenhuma ameaça judicial deve
impedir que fatos sérios sejam apresentados às autoridades competentes.
