Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Durante décadas,
pesquisas científicas procuraram investigar se a prece poderia produzir efeitos
mensuráveis sobre a saúde. No Brasil, um estudo coordenado pelo professor
Carlos Eduardo Tosta, da Universidade de Brasília, realizado entre 2000 e 2003,
envolveu 52 estudantes de Medicina e examinou possíveis efeitos da oração à
distância sobre parâmetros imunológicos. A divulgação do trabalho despertou
grande interesse, especialmente entre os estudiosos da interface entre
espiritualidade e saúde.
Entretanto, a ciência
avançou — e também impôs cautela. Estudos posteriores apresentaram resultados
diferentes. O ensaio STEP, publicado em 2006 no American Heart Journal,
acompanhou 1.802 pacientes submetidos a cirurgia de revascularização cardíaca e
não encontrou redução das complicações pós-operatórias entre aqueles que
receberam oração intercessória. Portanto, seria precipitado afirmar que a
ciência já comprovou a eficácia terapêutica da prece à distância. A questão
permanece aberta à investigação.
Para o Espiritismo,
porém, a importância da prece não depende exclusivamente de indicadores
laboratoriais. Léon Denis, em Depois da Morte, capítulo 51, define-a
como “expansão íntima da alma para com Deus”, relacionando-a à meditação, ao
consolo e à renovação das forças interiores. Aqui está uma diferença
fundamental: a prece não deve ser reduzida a uma espécie de medicamento
invisível.
Denis amplia ainda mais
essa concepção ao sustentar que o pensamento, impulsionado pela vontade, pode
estabelecer uma corrente espiritual capaz de alcançar outras almas. Para ele, a
oração dirigida aos Espíritos sofredores constitui expressão de caridade e pode
contribuir para sua consolação e despertar. Essa concepção aproxima-se da
questão 662 do Livro dos Espíritos, na qual Allan Kardec considera que
o pensamento e a vontade possuem poder de ação para além dos limites corporais.
A prece, portanto, não é
fórmula mágica, nem mecanismo destinado a revogar as leis da vida. Tampouco
substitui tratamento médico, psicológico ou qualquer recurso científico
necessário. Sua finalidade mais profunda é moral e espiritual: modificar aquele
que ora, fortalecendo a confiança, a resignação, a esperança e a disposição
para enfrentar as provas da existência.
É justamente nesse ponto
que Léon Denis permanece atual. A prece pode não alterar aquilo que
necessariamente precisamos viver, mas pode transformar nossa maneira de
atravessar a experiência. O homem que ora sinceramente não está necessariamente
pedindo que Deus retire sua prova; muitas vezes está pedindo forças para
compreendê-la e vencê-la.
Por isso, a prece
espírita não deveria ser transformada em ritual mecânico nem em promessa de
cura. Ela exige pensamento, sentimento, vontade e sinceridade. Mais do que
movimentar os lábios, significa movimentar a consciência.
A ciência pode investigar
seus possíveis efeitos sobre o organismo e sobre a mente. A Doutrina Espírita,
por sua vez, convida-nos a compreender sua dimensão moral e espiritual. Entre
uma perspectiva e outra, não precisa existir conflito. Há, antes, uma questão
que permanece aberta: até onde alcança o poder do pensamento quando
impulsionado pelo amor e pela vontade sincera de fazer o bem?
Essa pergunta, mais do
que uma resposta precipitada, talvez seja o verdadeiro convite ao estudo.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro dos
espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2000.
KARDEC, Allan. O evangelho
segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
KARDEC, Allan. A gênese.
Rio de Janeiro: FEB, 1999.
DENIS, Léon. Depois da morte.
Cap. 51: A prece.
BENSON, Herbert et al. Study of
the therapeutic effects of intercessory prayer (STEP) in cardiac bypass
patients. American Heart Journal, v. 151, n. 4, p. 934-942, 2006.
LEIBOVICI, Leonard. Effects of
remote, retroactive intercessory prayer on outcomes in patients with
bloodstream infection. BMJ, v. 323, p. 1450-1451, 2001.
