Jorge
Hessen
Brasília
-DF
O Brasil atravessa uma
hora gravíssima. E o pior que poderíamos fazer seria fingir normalidade.
A República está
politicamente fraturada. O Congresso Nacional revela limitações preocupantes
para exercer, com independência e eficácia, suas prerrogativas. Câmara e Senado
frequentemente parecem incapazes de responder à altura da gravidade dos
acontecimentos. E o Supremo Tribunal Federal, “guardião” da Constituição,
enfrenta uma crise interna que já expõe publicamente divergências, acusações e
questionamentos sobre procedimentos e condutas de seus próprios ministros. A
imprensa registra o episódio como uma das mais graves crises da história
recente da Corte.
Não se trata de demonizar
o STF, o Congresso ou qualquer Poder. Trata-se de lembrar uma verdade
elementar: nenhuma instituição da República está acima da Constituição.
A própria Carta Magna
estabelece a independência e a harmonia entre Executivo, Legislativo e
Judiciário. Quando um Poder avança sobre as atribuições de outro, quando
decisões judiciais passam a ser percebidas como substituição da atividade
política do Parlamento, ou quando o Legislativo deixa de exercer adequadamente
suas prerrogativas, a democracia entra em zona de perigo.
E onde está o espírita
diante disso?
Debaixo da cama escondido
atrás de uma falsa neutralidade?
Não deveria!
O espírita não deve ser
cabo eleitoral de partido algum, mas tem o dever moral de ser cidadão atento.
Não pode trocar consciência por ideologia nem fraternidade por submissão
política.
Allan Kardec ensinou que
o progresso exige justiça e que o verdadeiro espírita deve trabalhar pela
transformação moral da sociedade. Em O Livro dos Espíritos, a Lei de Justiça,
Amor e Caridade não é apresentada como simples contemplação religiosa, mas como
fundamento da vida humana (KARDEC, 2019, questões 873-892).
Portanto, não cabe ao
espírita aplaudir abusos porque foram praticados por aqueles de quem gosta, nem
condená-los porque partiram de seus adversários. Abuso não muda de natureza
conforme a ideologia de quem o pratica.
Se há suspeita de
violação constitucional, que seja investigada. Se há abuso
de autoridade, que seja apurado. Se há crime, que haja devido processo legal.
Se há injustiça, que seja corrigida. E se houver acusações falsas, que
também sejam desmentidas pelos instrumentos legítimos da Justiça.
O que não podemos aceitar
é a substituição da verdade pelo fanatismo e da justiça pela vingança. Jesus
ensinou: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32).
O Brasil precisa dessa
verdade. Precisa de instituições fortes, mas também instituições controladas
pela Constituição. Precisa de Legislativo independente, Judiciário responsável,
Executivo submetido à lei e cidadãos capazes de fiscalizar todos os Poderes.
O espírita consciente não
pede ruptura. Pede equilíbrio, justiça, responsabilidade, obediência à Constituição.
E talvez esta seja uma das maiores provas morais do nosso tempo: permanecer
sereno sem ser omisso; fraterno sem ser ingênuo; pacífico sem ser
covarde; e fiel à verdade mesmo quando ela contraria aqueles de quem
gostamos.
Porque quando a
República adoece, a consciência do cidadão honrado não pode entrar em coma.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o
Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.
BRASIL. Constituição da
República Federativa do Brasil de 1988
