04 setembro 2026

Brasil em alerta - quando os poderes perdem o equilíbrio, a democracia perde o rumo



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O Brasil atravessa uma hora gravíssima. E o pior que poderíamos fazer seria fingir normalidade.

A República está politicamente fraturada. O Congresso Nacional revela limitações preocupantes para exercer, com independência e eficácia, suas prerrogativas. Câmara e Senado frequentemente parecem incapazes de responder à altura da gravidade dos acontecimentos. E o Supremo Tribunal Federal, “guardião” da Constituição, enfrenta uma crise interna que já expõe publicamente divergências, acusações e questionamentos sobre procedimentos e condutas de seus próprios ministros. A imprensa registra o episódio como uma das mais graves crises da história recente da Corte.

Não se trata de demonizar o STF, o Congresso ou qualquer Poder. Trata-se de lembrar uma verdade elementar: nenhuma instituição da República está acima da Constituição.

A própria Carta Magna estabelece a independência e a harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Quando um Poder avança sobre as atribuições de outro, quando decisões judiciais passam a ser percebidas como substituição da atividade política do Parlamento, ou quando o Legislativo deixa de exercer adequadamente suas prerrogativas, a democracia entra em zona de perigo.

E onde está o espírita diante disso?

Debaixo da cama escondido atrás de uma falsa neutralidade?

Não deveria!

O espírita não deve ser cabo eleitoral de partido algum, mas tem o dever moral de ser cidadão atento. Não pode trocar consciência por ideologia nem fraternidade por submissão política.

Allan Kardec ensinou que o progresso exige justiça e que o verdadeiro espírita deve trabalhar pela transformação moral da sociedade. Em O Livro dos Espíritos, a Lei de Justiça, Amor e Caridade não é apresentada como simples contemplação religiosa, mas como fundamento da vida humana (KARDEC, 2019, questões 873-892).

Portanto, não cabe ao espírita aplaudir abusos porque foram praticados por aqueles de quem gosta, nem condená-los porque partiram de seus adversários. Abuso não muda de natureza conforme a ideologia de quem o pratica.

Se há suspeita de violação constitucional, que seja investigada. Se há abuso de autoridade, que seja apurado. Se há crime, que haja devido processo legal. Se há injustiça, que seja corrigida. E se houver acusações falsas, que também sejam desmentidas pelos instrumentos legítimos da Justiça.

O que não podemos aceitar é a substituição da verdade pelo fanatismo e da justiça pela vingança. Jesus ensinou: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32).

O Brasil precisa dessa verdade. Precisa de instituições fortes, mas também instituições controladas pela Constituição. Precisa de Legislativo independente, Judiciário responsável, Executivo submetido à lei e cidadãos capazes de fiscalizar todos os Poderes.

O espírita consciente não pede ruptura. Pede equilíbrio, justiça, responsabilidade, obediência à Constituição. E talvez esta seja uma das maiores provas morais do nosso tempo: permanecer sereno sem ser omisso; fraterno sem ser ingênuo; pacífico sem ser covarde; e fiel à verdade mesmo quando ela contraria aqueles de quem gostamos.

Porque quando a República adoece, a consciência do cidadão honrado não pode entrar em coma.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.

 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988