Jorge Hessen
Brasília -DF
A crítica ao meu artigo “Quando a revolução ignora o Espírito, a liberdade é sepultada”, feita por Lindemberg Macena , procura apresentar como “conservadorismo”, “alienação” e até “sadismo disfarçado” qualquer tentativa de distinguir o Espiritismo do marxismo. É precisamente aí que o debate perde qualidade, querido Macena. Discordar de uma determinada ideologia não significa defender a miséria, a desigualdade ou a injustiça. E defender a justiça social não concede a ninguém autorização para transformar o Espiritismo em instrumento de militância ideológica.
Meu argumento jamais foi que o espírita deva ignorar a pobreza, a desigualdade ou o sofrimento social. Ao contrário. Kardec é claríssimo: “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome” (KARDEC, 1998, q. 930). O problema está em dar um salto que Kardec não deu: transformar essa afirmação moral em autorização doutrinária para importar ao Espiritismo determinada teoria econômica, política ou revolucionária.
A questão 930, aliás, desmonta parcialmente a própria crítica. Kardec não atribui automaticamente toda desigualdade a uma estrutura econômica externa ao indivíduo. O texto afirma que as próprias faltas humanas podem resultar do meio em que o indivíduo se encontra, mas aponta como solução uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade, acompanhada da melhoria moral do próprio ser humano. Não há ali uma palavra sequer sobre luta de classes, ditadura do proletariado, socialização dos meios de produção ou revolução marxista.
Mais importante: na questão 799, quando Kardec pergunta de que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso, a resposta destaca a destruição do materialismo, a compreensão da vida futura e a solidariedade que deve unir os homens. Portanto, reduzir o pensamento espírita à transformação das estruturas materiais é tão unilateral quanto reduzir o Espiritismo à contemplação individual.
A caridade espírita também não pode ser sequestrada por uma concepção política. Kardec afirma que a caridade não se limita à esmola e abrange todas as relações humanas. Ela é complemento da justiça e exige benevolência, indulgência e respeito à dignidade do próximo. Isso é muito diferente de afirmar que uma determinada ideologia política seja a expressão necessária da caridade.
Há outro problema na crítica: citar Herculano Pires, Léon Denis, Humberto Mariotti, Manuel Porteiro ou outros autores para demonstrar que o Espiritismo pode dialogar com o socialismo não prova que Espiritismo e marxismo sejam doutrinariamente complementares. Prova apenas que espíritas podem estudar, dialogar, concordar parcialmente ou divergir de diferentes correntes filosóficas e políticas.
E aqui está uma distinção elementar: autor espírita não é sinônimo de Codificador.
O Espiritismo não pode ser reconstruído a partir da soma das opiniões políticas de seus intérpretes. Kardec estabeleceu um método de análise e não uma licença para revestir preferências ideológicas com autoridade doutrinária. O fato de um pensador espírita defender determinada concepção política não transforma essa concepção em princípio do Espiritismo.
Da mesma maneira, chamar de “conservador” quem discorda do marxismo não é argumento. É apenas um rótulo. Se alguém deseja demonstrar que meu artigo está doutrinariamente equivocado, precisa apresentar Kardec contra Kardec, não uma sucessão de adjetivos políticos.
Também não aceito a falsa alternativa segundo a qual existiriam apenas duas possibilidades: engajamento político revolucionário ou alienação espiritual. Há uma terceira — e ela é profundamente espírita: transformar o ser humano sem transformar o Evangelho em programa partidário.
O espírita pode combater a fome, defender a dignidade humana, trabalhar pela educação, amparar presidiários, acolher dependentes químicos, proteger crianças, socorrer vítimas de violência e denunciar injustiças. Pode, inclusive, exercer plenamente sua cidadania política. O que não pode é atribuir automaticamente à Doutrina Espírita a sua própria preferência ideológica.
A caridade não precisa de partido. A fraternidade não precisa de comitê político. A dignidade humana não pertence à esquerda nem à direita. E o Evangelho não cabe em manifesto ideológico.
É igualmente perigoso transformar o sofrimento humano em argumento de autoridade para uma corrente política. O necessitado não pode ser convertido em instrumento retórico para legitimar uma ideologia. A pobreza exige socorro, educação, oportunidades, responsabilidade pública e solidariedade privada — mas exige também respeito à liberdade e à consciência individual.
O verdadeiro perigo está justamente em outro lugar: quando uma doutrina espiritual passa a ser julgada pela régua de uma ideologia política, a autonomia do pensamento espírita começa a desaparecer.
A crítica afirma que o Espiritismo deve “encarnar-se” no mundo. Concordo. Mas encarnar-se no mundo não significa submeter-se ao mundo.
Kardec não propôs um partido espírita. Não criou um programa econômico espírita. Não transformou o Espiritismo em braço de qualquer revolução política. Sua contribuição foi muito mais profunda: modificar o homem pela compreensão da imortalidade, da responsabilidade pelos próprios atos, da lei de causa e efeito, da justiça divina e da fraternidade.
É precisamente por isso que meu artigo não precisa pedir desculpas por distinguir Espiritismo de marxismo.
Uma doutrina que pretende libertar o Espírito não pode trocar uma forma de dogmatismo por outra.
Nem dogmatismo religioso, nem dogmatismo político.
O Espiritismo deve dialogar com a filosofia, a sociologia, a psicologia, a pedagogia e as ciências humanas. Deve estudar a sociedade. Deve compreender suas contradições. Deve combater a miséria. Deve defender a dignidade humana. Mas deve fazê-lo preservando aquilo que lhe é próprio.
Porque se toda crítica ao capitalismo for automaticamente espírita, e toda crítica ao marxismo for automaticamente “conservadora”, já não estaremos diante de uma doutrina aberta ao livre exame.
Estaremos diante de uma ideologia procurando ocupar o lugar da Doutrina.
E isso, sim, seria sepultar a liberdade.
A verdadeira revolução espírita começa no Espírito, alcança as relações humanas e produz consequências sociais. Mas ela não precisa de Marx para ser cristã, nem de partido para ser fraterna.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de José Herculano Pires. 59. ed. São Paulo: LAKE, 1998.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, ed. consultada.
DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. Bragança Paulista: Comenius, 2022.
PIRES, José Herculano. O reino. 1946.
MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. São Paulo: EDICEL, 1967.
PORTEIRO, Manuel. Espiritismo dialético. Bragança Paulista: Comenius, 2022.
