11 setembro 2026

Kardec não foi revogado pela internet


Jorge Hessen

Brasília -DF

Na era da inteligência artificial, do algoritmo e da informação instantânea, o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos é mais necessário do que nunca.

Há algo intelectualmente desconcertante em ouvir que o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos teria perdido sua atualidade porque o mundo ingressou na era digital. Como se a internet tivesse revogado Kardec. Não revogou. Se alguma coisa mudou, foi o tamanho do problema: hoje circulam, em velocidade vertiginosa, milhões de mensagens atribuídas a Espíritos, médiuns e supostas autoridades espirituais. Nunca foi tão necessário separar ensino universal de opinião particular.

Kardec não criou o Controle Universal para uma época específica. Criou um método de aferição. Seu propósito era justamente impedir que o Espiritismo ficasse refém da palavra de um médium, de um expositor ou de qualquer liderança humana. Uma revelação isolada pode impressionar; uma opinião célebre pode seduzir; uma mensagem viral pode arrastar multidões. Nada disso, porém, transforma uma ideia em princípio doutrinário.

É exatamente aqui que reside o equívoco daqueles que imaginam que a tecnologia tornou obsoleto o método kardeciano. A internet multiplicou as vozes; não multiplicou automaticamente as verdades.

O Controle Universal não consiste em contar curtidas, visualizações, seguidores ou compartilhamentos. Milhares de pessoas reproduzindo a mesma mensagem não representam milhares de confirmações independentes. Podem representar apenas milhares de cópias da mesma fonte.

O método é outro: comparar comunicações obtidas por diferentes médiuns, em diferentes lugares e circunstâncias; verificar a concordância substancial dos ensinos; confrontá-los com a razão, a lógica e os princípios fundamentais da Doutrina. É a convergência independente que confere peso ao ensino — não a celebridade de quem o transmite.

E, na era da inteligência artificial, isso se tornou ainda mais evidente. Hoje é possível produzir textos, vozes, imagens e vídeos artificialmente convincentes. Informações pessoais podem ser recolhidas nas redes sociais e reapresentadas como se fossem revelações de cartas “consoladoras” . A aparência de autenticidade jamais foi tão fácil de fabricar.

Por isso, justamente agora, Kardec é mais atual do que nunca.

O Espiritismo não pode transformar médium em oráculo, dirigente em autoridade infalível ou experiência pessoal em dogma. Quem afirma algo em nome dos Espíritos deve aceitar o exame. Quem realmente confia na verdade não teme o confronto das ideias.

A Doutrina Espírita nasceu sob o signo da investigação, do livre exame e da razão. Não há lugar, portanto, para uma espécie de monarquia mediúnica, na qual a palavra de uma pessoa se torna suficiente para estabelecer aquilo que os Espíritos ensinam.

O verdadeiro espírita não pergunta apenas: “Quem disse?” Pergunta, sobretudo: “Onde está a confirmação? Qual é a concordância? O ensino é racional? É coerente com os princípios espíritas? Outros médiuns, independentes daquela fonte, receberam orientação semelhante?”

Essa é a vacina contra o personalismo.

Kardec não precisa ser atualizado pela internet. É a internet que precisa ser submetida ao método de Kardec. E quanto maior for o volume de mensagens espirituais despejadas diariamente nas redes, maior deverá ser nossa responsabilidade em submetê-las ao crivo da razão e ao Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos.

Porque uma coisa é divulgar uma opinião. Outra, muito diferente, é pretender transformá-la em ensinamento dos Espíritos.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.