17 setembro 2026

Lançai a rede à direita , mas não entregueis a consciência à ideologia


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Obviamente Jesus não ensinou a pescar homens para partidos. Ensinou a orientar a consciência pelo caminho da verdade, da justiça e do equilíbrio. Quando qualquer ideologia pretende capturar o pensamento humano pela coerção, a rede já foi lançada para o lado errado.

Lançai a rede para a banda direita do barco e achareis.” (João 21:6). À primeira vista, trata-se apenas de uma orientação dada por Jesus a pescadores. Emmanuel, porém, extrai dessa cena uma lição muito mais profunda: a posição do barco simboliza a condição espiritual de quem age; a rede representa os interesses, pensamentos, desejos e esforços que lançamos diariamente na existência. Pergunta Emmanuel: para que lado estamos lançando nossas redes?

Não se trata de geografia. Muito menos do que uma senha partidária.

Trata-se de orientação moralA “direita” mencionada por Cristo pode ser compreendida como o caminho reto, a direção justa, a escolha equilibrada, a conduta coerente com as leis divinas. Emmanuel pergunta se nossos pensamentos e atos estão fundamentados na verdadeira justiça e recomenda atenção aos “caminhos retos”.

E aqui a metáfora evangélica adquire uma atualidade desconcertante. Vivemos uma época em que determinadas correntes ideológicas passaram a reivindicar para si o direito de estabelecer o que pode ser dito, pensado, publicado ou contestado. Isso não é exclusividade de uma corrente política. A tentação autoritária não possui partido; possui apenas ideologia quando esta deixa de ser instrumento de reflexão e passa a funcionar como mecanismo de dominação.

É justamente aí que precisamos lançar a rede à direita. Não à direita de um partido, mas à direita da consciência. Não podemos aceitar que a liberdade de pensamento seja tolerada apenas quando o pensamento coincide com aquilo que determinado grupo considera aceitável. Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode transformar divergência em delito por mera conveniência ideológica.

A Constituição brasileira estabelece como direitos fundamentais a livre manifestação do pensamento, a liberdade de consciência e a liberdade de expressão intelectual, artística, científica e de comunicação. Ao mesmo tempo, protege honra, imagem e outros direitos fundamentais, estabelecendo que liberdade não significa licença para violar direitos alheios.

Eis o ponto que frequentemente desaparece no debate político: liberdade não é licença para caluniar; mas combate à calúnia também não pode converter-se em instrumento para silenciar a crítica legítima. Uma democracia madura precisa suportar o contraditório, o dissenso, a opinião impopular e até mesmo a opinião que incomoda.

O Supremo Tribunal Federal, em julgamento com repercussão geral concluído em 2026, reafirmou que determinadas campanhas de mobilização social estão protegidas pela liberdade de expressão, estabelecendo também parâmetros para responsabilização quando presentes elementos de má-fé.

Isso demonstra que a questão não pode ser reduzida à caricatura de “liberdade absoluta” contra “censura absoluta”. Existe uma zona constitucionalmente delicada entre liberdade, responsabilidade, honra, segurança, democracia e proteção contra ilícitos.

Mas justamente por ser delicada, essa zona não pode ser tratada com fanatismo. Toda vez que o poder passa a considerar perigoso aquele que discorda, a democracia começa a adoecer. E isso vale para a esquerda, vale para a direita, vale para liberais, conservadores, socialistas, progressistas, religiosos, ateus e para qualquer outro agrupamento humano.

O Espiritismo, aliás, não recomenda submissão intelectual. Kardec estabeleceu como princípio fundamental o livre exame, a razão e a análise dos ensinamentos. A fé espírita não deveria produzir consciências domesticadas, mas homens e mulheres capazes de raciocinar, confrontar informações, reconhecer erros e modificar suas convicções diante de evidências.

Por isso, há algo profundamente incompatível com o espírito do Evangelho quando alguém pretende monopolizar a verdade política. Jesus não pediu discípulos de partido. Pediu discípulos da verdade.

A rede lançada à direita é, portanto, a rede da consciência esclarecida,  da responsabilidade,  do pensamento livre, porém responsável, da crítica sem ódio, da convicção sem fanatismo e da liberdade sem irresponsabilidade.

E talvez esta seja uma das maiores urgências espirituais do nosso tempo: não permitir que ideologias transformem pessoas em peixes capturados por redes de propaganda, medo, ressentimento ou submissão.

Cristo mandou lançar a rede. Mas não mandou entregar a consciência, porque a consciência pertence ao indivíduo diante de Deus.

Por isso, quando a política exigir silêncio onde deveria existir debate, quando a ideologia exigir obediência onde deveria existir reflexão, quando o poder pretender substituir a consciência individual por uma cartilha oficial de pensamento, é preciso recordar a advertência evangélica.

Lançai a rede à direita.

À direita da verdade,  da justiça,  da liberdade responsável,  da dignidade humana. Porque o problema não é simplesmente descobrir se somos “de esquerda” ou “de direita”. O problema muito mais grave é descobrir se estamos lançando nossas redes na direção da verdade ou se já estamos presos dentro das redes que outros lançaram sobre nossa própria consciência (A DITADURA).

 

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. João 21:6. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Caminho, Verdade e Vida. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 21: “Caminhos retos”.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Tema 837: definição dos limites da liberdade de expressão em contraposição a outros direitos de igual hierarquia jurídica. Brasília, DF, 2026