Jorge Hessen
Brasília -DF
Obviamente Jesus não
ensinou a pescar homens para partidos. Ensinou a orientar a consciência pelo
caminho da verdade, da justiça e do equilíbrio. Quando qualquer ideologia
pretende capturar o pensamento humano pela coerção, a rede já foi lançada para
o lado errado.
“Lançai a rede para a
banda direita do barco e achareis.” (João 21:6). À primeira vista, trata-se
apenas de uma orientação dada por Jesus a pescadores. Emmanuel, porém,
extrai dessa cena uma lição muito mais profunda: a posição do barco simboliza a
condição espiritual de quem age; a rede representa os interesses, pensamentos,
desejos e esforços que lançamos diariamente na existência. Pergunta Emmanuel: para
que lado estamos lançando nossas redes?
Não se trata de
geografia. Muito menos do que uma senha partidária.
Trata-se de orientação
moral. A “direita” mencionada por Cristo pode ser compreendida
como o caminho reto, a direção justa, a escolha equilibrada, a conduta coerente
com as leis divinas. Emmanuel pergunta se nossos pensamentos e atos estão
fundamentados na verdadeira justiça e recomenda atenção aos “caminhos retos”.
E aqui a metáfora
evangélica adquire uma atualidade desconcertante. Vivemos uma época em que
determinadas correntes ideológicas passaram a reivindicar para si o direito de
estabelecer o que pode ser dito, pensado, publicado ou contestado. Isso não é
exclusividade de uma corrente política. A tentação autoritária não
possui partido; possui apenas ideologia quando esta deixa de ser instrumento de
reflexão e passa a funcionar como mecanismo de dominação.
É justamente aí que
precisamos lançar a rede à direita. Não à direita de um partido, mas à direita
da consciência. Não podemos aceitar que a liberdade de pensamento seja
tolerada apenas quando o pensamento coincide com aquilo que determinado grupo
considera aceitável. Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode
transformar divergência em delito por mera conveniência ideológica.
A Constituição brasileira
estabelece como direitos fundamentais a livre manifestação do pensamento, a
liberdade de consciência e a liberdade de expressão intelectual, artística,
científica e de comunicação. Ao mesmo tempo, protege honra, imagem e outros direitos
fundamentais, estabelecendo que liberdade não significa licença para violar
direitos alheios.
Eis o ponto que
frequentemente desaparece no debate político: liberdade não é licença
para caluniar; mas combate à calúnia também não pode converter-se em
instrumento para silenciar a crítica legítima. Uma democracia madura
precisa suportar o contraditório, o dissenso, a opinião impopular e até mesmo a
opinião que incomoda.
O Supremo Tribunal
Federal, em julgamento com repercussão geral concluído em 2026, reafirmou que
determinadas campanhas de mobilização social estão protegidas pela liberdade de
expressão, estabelecendo também parâmetros para responsabilização quando presentes
elementos de má-fé.
Isso demonstra que a
questão não pode ser reduzida à caricatura de “liberdade absoluta” contra
“censura absoluta”. Existe uma zona constitucionalmente delicada entre
liberdade, responsabilidade, honra, segurança, democracia e proteção contra
ilícitos.
Mas justamente por ser
delicada, essa zona não pode ser tratada com fanatismo. Toda vez que o
poder passa a considerar perigoso aquele que discorda, a democracia começa a
adoecer. E isso vale para a esquerda, vale para a direita, vale para
liberais, conservadores, socialistas, progressistas, religiosos, ateus e para
qualquer outro agrupamento humano.
O Espiritismo, aliás, não
recomenda submissão intelectual. Kardec estabeleceu como princípio fundamental
o livre exame, a razão e a análise dos ensinamentos. A fé espírita não deveria
produzir consciências domesticadas, mas homens e mulheres capazes de raciocinar,
confrontar informações, reconhecer erros e modificar suas convicções diante de
evidências.
Por isso, há algo
profundamente incompatível com o espírito do Evangelho quando alguém pretende
monopolizar a verdade política. Jesus não pediu discípulos de partido.
Pediu discípulos da verdade.
A rede lançada à direita
é, portanto, a rede da consciência esclarecida, da responsabilidade,
do pensamento livre, porém responsável, da crítica sem ódio, da convicção
sem fanatismo e da liberdade sem irresponsabilidade.
E talvez esta seja uma
das maiores urgências espirituais do nosso tempo: não permitir que
ideologias transformem pessoas em peixes capturados por redes de propaganda,
medo, ressentimento ou submissão.
Cristo mandou lançar a
rede. Mas não mandou entregar a consciência, porque a consciência pertence ao
indivíduo diante de Deus.
Por isso, quando a
política exigir silêncio onde deveria existir debate, quando a ideologia exigir
obediência onde deveria existir reflexão, quando o poder pretender substituir
a consciência individual por uma cartilha oficial de pensamento, é preciso
recordar a advertência evangélica.
Lançai a rede à direita.
À direita da verdade,
da justiça, da liberdade responsável, da dignidade humana.
Porque o problema não é simplesmente descobrir se somos “de esquerda” ou “de
direita”. O problema muito mais grave é descobrir se estamos lançando
nossas redes na direção da verdade ou se já estamos presos dentro das redes que
outros lançaram sobre nossa própria consciência (A DITADURA).
Referências
Bibliográficas:
BÍBLIA. João 21:6. São
Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.
BRASIL. Constituição
da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da
República, 1988.
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita
Brasileira.
XAVIER, Francisco
Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Caminho, Verdade e Vida. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap. 21: “Caminhos retos”.
SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL. Tema 837: definição dos limites da liberdade de expressão em
contraposição a outros direitos de igual hierarquia jurídica. Brasília, DF,
2026
