14 setembro 2026

Mediunidade não é brinquedo de família


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma inquietante irresponsabilidade quando um protótipo de espírita , querendo ser “autoridade” no movimento espírita, transforma a mediunidade em atividade doméstica banal e, pior ainda, apresenta a evocação de desencarnados como se fosse prática simples, segura e recomendável a qualquer grupo familiar.

Convém separar as coisas. Allan Kardec não condenou pequenas reuniões familiares de estudo espírita. Em 1862, na Revista Espírita, ele chegou a reconhecer vantagens nas reuniões particulares realizadas nos lares, inclusive como espaços de iniciação e estudo.

Outra coisa, muito diferente, é transformar a residência em núcleo improvisado de manifestações mediúnicas, evocações e atendimento a Espíritos sofredores, sobretudo quando conduzido por soberbos e “infalíveis” espíritas sem preparo doutrinário, sem disciplina e sem compreensão dos riscos morais e psíquicos envolvidos.

O próprio Kardec é taxativo quanto à necessidade de ordem, prudência, recolhimento e finalidade séria. No regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, determinou-se que perguntas aos Espíritos poderiam ser recusadas quando fossem fúteis, pessoais, movidas por curiosidade ou desprovidas de finalidade geral.

Isso deveria bastar para desmontar certas aventuras mediúnicas travestidas de Espiritismo.

Evocar mortos por bisbilhotice, saudade, interesse particular ou desejo de obter respostas pessoais não é demonstração de fé; pode ser, precisamente, o contrário da prudência espírita. O capítulo das evocações, em O Livro dos Médiuns, não é um convite à improvisação. É um estudo sério sobre as condições, as consequências, a identidade dos Espíritos e as possibilidades de mistificação.

Também é grave a ideia de que todo pequeno grupo familiar seja, por isso mesmo, espiritualmente seguro. Número reduzido não significa competência; intimidade não produz superioridade espiritual; parentesco não confere autoridade mediúnica.

O Espiritismo não necessita de líderes soezes que fabriquem facilidades onde Kardec recomendou estudo, método, disciplina e discernimento. Tampouco precisa de pretensas autoridades que, pela força da fama, transformem opiniões pessoais em supostas orientações doutrinárias.

O movimento espírita precisa recuperar uma virtude elementar: responsabilidade.

Reunião familiar para estudar o Evangelho, refletir sobre Kardec e cultivar a prece é uma coisa. Outra, inteiramente diversa, é organizar em casa sessões mediúnicas para evocar desencarnados, atender Espíritos sofredores ou experimentar fenômenos como quem manipula um laboratório doméstico.

Não se trata de medo. Trata-se de prudência espírita. O Espiritismo sério não é espetáculo, passatempo nem laboratório de curiosidades sobrenaturais. É conhecimento submetido à razão, à observação e à moral cristã.

Quem pretende falar em nome de Kardec deveria, antes de tudo, lê-lo com honestidade. Porque a maior irresponsabilidade doutrinária não é desconhecer uma página de Kardec. É conhecê-la e, mesmo assim, ensinar de forma enviesada.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: FEB, cap. XXV, XXIX e XXX.

 KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Paris, jul. 1862, “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”.