Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Entre a codificação e a
fantasia mediúnica, alguns parecem ter escolhido a segunda
Há algo profundamente
preocupante no movimento espírita brasileiro: a crescente transformação da
mediunidade em laboratório de novidades. Cada grupo inventa sua fórmula, cada
dirigente anuncia seu método, cada médium apresenta uma experiência particular, como
se representasse a evolução da Doutrina. E, quando alguém pergunta onde está
Kardec, responde-se com a palavra mágica: “caridade”.
Não. Caridade não é
salvo-conduto para a improvisação “diferentona”.
Há no interior paulista o
anúncio de um “centro espírita diferentão”, estruturado como espécie de “pronto-socorro”
espiritual, com três atividades principais: desobsessão, evocações
particulares e “cirurgias espirituais”. O interessado seria atendido
individualmente, inclusive para tentar estabelecer contato com determinado
desencarnado. O projeto ainda convoca médiuns de outros centros para integrar o
empreendimento.
Convém perguntar, sem
rodeios: isso é Espiritismo , circo ou uma nova modalidade de fantasia
mediúnica? A resposta não pode ser dada pelo entusiasmo dos seus
promotores. Deve ser procurada na Codificação.
É verdade que Allan
Kardec estudou as evocações que eram importantes na época da codificação. No Livro dos Médiuns, capítulo XXV,
explica que os Espíritos podem atender ao chamado e dedica diversas páginas ao
assunto. Mas justamente aí está o problema: Kardec não transformou a evocação
em balcão de atendimento espiritual. Ao contrário, advertiu que as evocações
pormenorizadas exigem médiuns especiais, “flexíveis e positivos”, e que não
devem ser realizadas sem conhecimento do desenvolvimento da faculdade e da
natureza dos Espíritos que assistem o médium.
Mais ainda: nas evocações
particulares, Kardec recomenda extrema reserva e rejeita perguntas motivadas
por simples curiosidade ou interesse. É justamente essa prudência que
desaparece quando a mediunidade passa a ser anunciada como serviço
especializado.
O Espiritismo não é um
pronto-socorro sobrenatural nem o médium é atendente de plantão. O
desencarnado não é funcionário de uma central espiritual. E o sofrimento humano
não pode ser convertido em campo de experimentação “diferentona”.
Quanto às chamadas
“cirurgias espirituais”, a questão é ainda mais delicada. Uma coisa é estudar
os fenômenos de ação fluídica; outra, muito diferente, é apresentar
intervenções espirituais como procedimento terapêutico organizado,
especialmente quando isso pode induzir pessoas enfermas a expectativas que não
possuem comprovação médica.
O movimento espírita
precisa recuperar uma palavra que parece ter entrado em desuso: critério.
Kardec não fundou uma religião da novidade. Fundou um método de investigação.
Não ensinou a aceitar tudo o que venha do mundo espiritual; ensinou a examinar,
comparar, confrontar e submeter as comunicações ao crivo da razão.
Por isso, o verdadeiro
perigo não está em alguém querer fazer “diferente”. O perigo está em qualquer
experiência particular ser promovida como Espiritismo sem demonstrar sua
compatibilidade com os princípios espíritas.
Se cada grupo puder
acrescentar procedimentos, terapias, técnicas e experiências pessoais à
Doutrina e simplesmente chamá-los de “novos caminhos diferentões”, em pouco
tempo ninguém saberá mais o que é Espiritismo e o que é apenas circo ou
fantasia mediúnica.
O Brasil não precisa de
mais novidades espíritas. Precisa de mais Kardec. Porque quando a
novidade passa a valer mais que a Codificação, a mediunidade deixa de ser
instrumento de estudo e pode transformar-se em espetáculo circense.
É um movimento que
abandona o critério para venerar a novidade; já não está avançando. Está
apenas se afastando de sua própria identidade.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro
dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação
Espírita Brasileira, 2005. Cap. XXV — Das evocações.
KARDEC, Allan. O livro
dos espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013
