20 setembro 2026

Quando o Espiritismo vira picadeiro de práticas “diferentonas”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre a codificação e a fantasia mediúnica, alguns parecem ter escolhido a segunda

Há algo profundamente preocupante no movimento espírita brasileiro: a crescente transformação da mediunidade em laboratório de novidades. Cada grupo inventa sua fórmula, cada dirigente anuncia seu método, cada médium apresenta uma experiência particular, como se representasse a evolução da Doutrina. E, quando alguém pergunta onde está Kardec, responde-se com a palavra mágica: “caridade”.

Não. Caridade não é salvo-conduto para a improvisação “diferentona”.

Há no interior paulista o anúncio de um “centro espírita diferentão”, estruturado como espécie de “pronto-socorro” espiritual, com três atividades principais: desobsessão, evocações particulares e “cirurgias espirituais”. O interessado seria atendido individualmente, inclusive para tentar estabelecer contato com determinado desencarnado. O projeto ainda convoca médiuns de outros centros para integrar o empreendimento.

Convém perguntar, sem rodeios: isso é Espiritismo , circo ou uma nova modalidade de fantasia mediúnica? A resposta não pode ser dada pelo entusiasmo dos seus promotores. Deve ser procurada na Codificação.

É verdade que Allan Kardec estudou as evocações que eram importantes na época da codificação.  No Livro dos Médiuns, capítulo XXV, explica que os Espíritos podem atender ao chamado e dedica diversas páginas ao assunto. Mas justamente aí está o problema: Kardec não transformou a evocação em balcão de atendimento espiritual. Ao contrário, advertiu que as evocações pormenorizadas exigem médiuns especiais, “flexíveis e positivos”, e que não devem ser realizadas sem conhecimento do desenvolvimento da faculdade e da natureza dos Espíritos que assistem o médium.

Mais ainda: nas evocações particulares, Kardec recomenda extrema reserva e rejeita perguntas motivadas por simples curiosidade ou interesse. É justamente essa prudência que desaparece quando a mediunidade passa a ser anunciada como serviço especializado.

O Espiritismo não é um pronto-socorro sobrenatural nem o médium é atendente de plantão. O desencarnado não é funcionário de uma central espiritual. E o sofrimento humano não pode ser convertido em campo de experimentação “diferentona”.

Quanto às chamadas “cirurgias espirituais”, a questão é ainda mais delicada. Uma coisa é estudar os fenômenos de ação fluídica; outra, muito diferente, é apresentar intervenções espirituais como procedimento terapêutico organizado, especialmente quando isso pode induzir pessoas enfermas a expectativas que não possuem comprovação médica.

O movimento espírita precisa recuperar uma palavra que parece ter entrado em desuso: critério. Kardec não fundou uma religião da novidade. Fundou um método de investigação. Não ensinou a aceitar tudo o que venha do mundo espiritual; ensinou a examinar, comparar, confrontar e submeter as comunicações ao crivo da razão.

Por isso, o verdadeiro perigo não está em alguém querer fazer “diferente”. O perigo está em qualquer experiência particular ser promovida como Espiritismo sem demonstrar sua compatibilidade com os princípios espíritas.

Se cada grupo puder acrescentar procedimentos, terapias, técnicas e experiências pessoais à Doutrina e simplesmente chamá-los de “novos caminhos diferentões”, em pouco tempo ninguém saberá mais o que é Espiritismo e o que é apenas circo ou fantasia mediúnica.

O Brasil não precisa de mais novidades espíritas. Precisa de mais Kardec. Porque quando a novidade passa a valer mais que a Codificação, a mediunidade deixa de ser instrumento de estudo e pode transformar-se em espetáculo circense.

É um movimento que abandona o critério para venerar a novidade; já não está avançando. Está apenas se afastando de sua própria identidade.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005. Cap. XXV — Das evocações.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013