18 outubro 2026

Entre a sátira e a semeadura: A visão espírita sobre o riso e as dores alheias

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

Há uma diferença abissal entre fazer humor e transformar a vulnerabilidade alheia em espetáculo. Paulo de Tarso advertiu: “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gálatas 6:7). A advertência permanece atual diante de humoristas que exploram deficiências, doenças, idade, orientação sexual, origem social ou características físicas para arrancar gargalhadas à custa da dignidade humana.

O riso não é, por si, sinal de crueldade. O problema começa quando a diversão depende da humilhação de alguém. O chamado schadenfreude, termo alemão que designa o prazer diante do infortúnio alheio, é objeto de pesquisas em psicologia social. Estudos relacionam esse sentimento a fatores como inveja, comparação social e percepção de merecimento, sem permitir, contudo, concluir que toda zombaria decorra de baixa autoestima (VAN DIJK et al., 2006).

Jesus também foi alvo de escárnio. Antes da crucificação, soldados o vestiram com um manto, colocaram-lhe uma coroa de espinhos e fingiram reverenciá-lo, enquanto o insultavam e agrediam (MATEUS, 27:27-31). A cena expõe a brutalidade daqueles que, investidos de poder, convertem a dor do semelhante em entretenimento.

A história do Espiritismo oferece um episódio expressivo. Em 1944, o médium Francisco Cândido Xavier foi objeto de uma reportagem da revista O Cruzeiro, intitulada “Chico Xavier, detetive do além”, que explorou aspectos de sua vida pessoal e questionou suas faculdades mediúnicas. Segundo relato biográfico amplamente reproduzido, Chico, profundamente abalado, recebeu de Emmanuel uma resposta espirituosa: Jesus fora levado à cruz; ele, Chico, apenas à revista O Cruzeiro.

Independentemente dos detalhes transmitidos pelas narrativas biográficas, a lição é significativa: a exposição pública e o ridículo podem ferir profundamente, sobretudo quando atingem alguém em momento de fragilidade. A resposta atribuída a Emmanuel não legitima a humilhação; ensina a não permitir que ela destrua nossa serenidade.

Sob a perspectiva espírita, a palavra também constitui instrumento de responsabilidade moral. Em Pensamento e Vida, Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, aborda a força do pensamento e sua influência sobre nossas atitudes. Não basta, portanto, alegar liberdade de expressão para justificar a crueldade. Liberdade não elimina responsabilidade, e humor não concede imunidade ética.

A chacota reiterada pode alimentar ambientes de intimidação, discriminação e sofrimento psicológico. O riso coletivo tampouco absolve quem agride: muitas vezes, apenas multiplica a violência e silencia a vítima.

O Espiritismo nos convida à indulgência, ao respeito e à reforma íntima. Isso não significa proibir a sátira, impedir críticas ou exigir que todos pensem da mesma maneira. Significa reconhecer que a inteligência pode divertir sem degradar e que a crítica pode ser contundente sem converter pessoas vulneráveis em alvos.

Se formos ridicularizados, não precisamos devolver a ofensa na mesma moeda. Podemos preservar a dignidade, estabelecer limites e prosseguir sem alimentar o ressentimento. Como ensinamento final, fica a advertência evangélica: colhemos, moralmente, consequências das sementes que lançamos.

O humor revela sua qualidade não apenas pelo riso que provoca, mas também pela dignidade que preserva.

 

Referências bibliográficas

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Gálatas 6:7; Mateus 27:27-31.

VAN DIJK, Wilco W. et al. When people fall from grace: reconsidering the role of envy in schadenfreude. Emotion, v. 6, n. 1, p. 156-160, 2006. DOI: https://doi.org/10.1037/1528-3542.6.1.156.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1977