Jorge
Hessen
Brasília
-DF
A defesa da vida,
fundamentada na compreensão espírita da reencarnação, não deve ser confundida
com a obrigação de adesão a determinado partido ou corrente ideológica. A
Doutrina Espírita oferece princípios para o exame da consciência, mas não
constitui programa partidário nem autoriza a sacralização de governos,
candidatos ou projetos de poder.
É necessário distinguir
três dimensões: a convicção moral contrária ao aborto, a avaliação jurídica das
circunstâncias em que a legislação admite sua prática e o julgamento político
das medidas mais “diligentes” para proteger a vida e amparar as mulheres.
Embora relacionadas, essas dimensões não são idênticas.
Assim, um espírita pode
questionar a ampliação legal do aborto e, simultaneamente, reconhecer a
necessidade de debater políticas públicas, situações de violência sexual,
riscos à saúde materna, assistência social e prevenção da gravidez não
planejada. A defesa da vida não se esgota na proibição: exige também
acolhimento, proteção e responsabilidade social.
Do mesmo modo, sei que o
apoio eleitoral a um candidato não permite, isoladamente, concluir que seu
eleitor aprove todas as propostas desse candidato. A coerência deve ser
examinada à luz das posições efetivamente defendidas, das prioridades assumidas
e das consequências previsíveis das políticas apoiadas.
O limite da tese aqui
apresentada é, portanto, claro: pode-se sustentar que a defesa deliberada do
aborto entra em tensão com a interpretação espírita tradicional da questão 358
de O Livro dos Espíritos, sem transformar essa conclusão em instrumento de perseguição
política ou de condenação moral indiscriminada.
A democracia pressupõe a
convivência entre divergências, mas não absolve ninguém da responsabilidade
ética por suas escolhas. O espírita é livre para escolher seus representantes;
essa liberdade, porém, não o dispensa de submeter suas opções políticas ao
crivo dos princípios morais que afirma professar.
A coerência doutrinária
não se comprova pelo discurso, mas pela compatibilidade entre aquilo em que
se acredita e aquilo em que se apoia. Afinal, ou se assume o Espiritismo com
consciência, compromisso e coerência, ou se transforma a identidade espírita em
mera máscara retórica para justificar conveniências ideológicas.
Ademais, a pergunta
decisiva não é a qual partido pertence o espírita, mas se ele examina
racionalmente e honestamente as contradições entre sua consciência religiosa e as
propostas que apoia. O Brasil não exige uniformidade partidária: exige que
a fraternidade, a dignidade humana e a responsabilidade moral não sejam
subordinadas à conveniência política.
