25 outubro 2026

Espiritismo e política: quando a coerência doutrinária confronta a conveniência ideológica




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A defesa da vida, fundamentada na compreensão espírita da reencarnação, não deve ser confundida com a obrigação de adesão a determinado partido ou corrente ideológica. A Doutrina Espírita oferece princípios para o exame da consciência, mas não constitui programa partidário nem autoriza a sacralização de governos, candidatos ou projetos de poder.

É necessário distinguir três dimensões: a convicção moral contrária ao aborto, a avaliação jurídica das circunstâncias em que a legislação admite sua prática e o julgamento político das medidas mais “diligentes” para proteger a vida e amparar as mulheres. Embora relacionadas, essas dimensões não são idênticas.

Assim, um espírita pode questionar a ampliação legal do aborto e, simultaneamente, reconhecer a necessidade de debater políticas públicas, situações de violência sexual, riscos à saúde materna, assistência social e prevenção da gravidez não planejada. A defesa da vida não se esgota na proibição: exige também acolhimento, proteção e responsabilidade social.

Do mesmo modo, sei que o apoio eleitoral a um candidato não permite, isoladamente, concluir que seu eleitor aprove todas as propostas desse candidato. A coerência deve ser examinada à luz das posições efetivamente defendidas, das prioridades assumidas e das consequências previsíveis das políticas apoiadas.

O limite da tese aqui apresentada é, portanto, claro: pode-se sustentar que a defesa deliberada do aborto entra em tensão com a interpretação espírita tradicional da questão 358 de O Livro dos Espíritos, sem transformar essa conclusão em instrumento de perseguição política ou de condenação moral indiscriminada.

A democracia pressupõe a convivência entre divergências, mas não absolve ninguém da responsabilidade ética por suas escolhas. O espírita é livre para escolher seus representantes; essa liberdade, porém, não o dispensa de submeter suas opções políticas ao crivo dos princípios morais que afirma professar.

A coerência doutrinária não se comprova pelo discurso, mas pela compatibilidade entre aquilo em que se acredita e aquilo em que se apoia. Afinal, ou se assume o Espiritismo com consciência, compromisso e coerência, ou se transforma a identidade espírita em mera máscara retórica para justificar conveniências ideológicas.

Ademais, a pergunta decisiva não é a qual partido pertence o espírita, mas se ele examina racionalmente e honestamente as contradições entre sua consciência religiosa e as propostas que apoia. O Brasil não exige uniformidade partidária: exige que a fraternidade, a dignidade humana e a responsabilidade moral não sejam subordinadas à conveniência política.