29 junho 2011

O ESPIRITISMO VEIO PARA DIALOGAR COM O POVO OU NÃO?

Alguns poucos confrades que conhecemos não acham os livros espíritas caros. Dizem que por trás dos livros há um trabalho de elaboração que é feito pela espiritualidade e pelo médium quando da criação da obra, que, em seguida, tem de chegar ao leitor (que pode pagar, obviamente!). Esses partidários dos preços altos para livros espíritas tentam explicar que o livro surge através de gráficas, que têm necessidades urgentes como faturamentos para pagamentos de funcionários, material, manutenção e ampliação do parque gráfico; das livrarias que, como as gráficas, têm as suas necessidades semelhantes; dos centros espíritas que nem sempre se mantêm com as doações de seus associados e outras justificativas (impostas pelo sistema materialista).
 Logicamente, dos arrazoados sobre o lucro não podemos discordar, mas qual lucro se visa atualmente? Há pessoas astutas e oportunistas ganhando muito dinheiro vendendo “espiritismo” de todas as formas possíveis e imagináveis (sobretudo pela internet). Claro, alguns com interesse meramente pessoal.
Vender livros espíritas a preços inacessíveis aos leitores pobres é uma violência moral contra o povo. Em época de Internet, e-book, iPad etc. etc. etc. Todavia, continua-se explorando os espírita s carentes, desempregados e a população pobre. Há aqueles que estão sedentos para PROIBIR a possibilidade de se baixar livros pela Internet. Algumas lideranças só pensam em lucro, em cifrões, em engendrar formas para tirar algum dinheiro dos espíritas. Até quando tais lideranças espíritas não terão a coragem de oferecer, sem maiores entraves materiais e financeiros, as verdades do Cristo aos corações aflitos e sedentos de conhecimento?
Nossa pugna pela Internet propõe possibilitar que as pessoas tenham acesso aos livros espíritas através da intensa divulgação que promovemos atualmente pelas vias virtuais, sem peso na consciência... Divulguemos a ideia da leitura pela rede mundial de computadores. Simples, fácil e custo zero. Basta apenas um computador em casa, uma lan house ou outros locais democratizados onde a mensagem e os livros possam chegar a qualquer pessoa, a qualquer hora. É lamentável que os diretores de algumas instituições "que lideram o movimento espírita" (com raras exceções) queiram tirar os recursos financeiros dos bolsos dos espíritas, esquecendo-se dos mais carentes (se tirassem dinheiro dos que podem pagar seria razoável).
Como se não bastasse, ainda há as promoções de eventos excludentes (seminários, congressos, simpósios, encontros “fraternos”), onerosos, caros, soberbos, luxuosos, destinados, claro! Para a elite aquinhoada. Entronizam-se shows de oratória retumbantes, com palestras repetidas e desnecessárias sob todos os pontos de vista, e ainda assim permanecem sob o guante do “canto de sereia” para arrecadar muito recurso financeiro dos outros como estivessem divulgando Espiritismo. Não estão!...


Ouço insistentemente nos diversos centros que frequento sobre práticas consideradas dispensáveis para a boa difusão do Espiritismo. Visitei várias localidades onde alguns divulgadores famosos são tidos como "mascates ambulantes do Espiritismo", porque agenciam oferta e venda livros, CDs e DVDs após suas “falas espetacularizadas” pelos rincões brasileiros em nome do “assistencialismo”. Essa escola (modelo) que ganhou fôlego após a desencarnação do Chico Xavier é, para mim, a deteriorização da proposta espírita destinada a todos, ao alcance de todos. Já escrevemos (várias vezes) sobre isso.
Prestemos muita atenção na entrevista que o Chico Xavier concedeu ao Dr. Jarbas Leone Varanda e publicada no jornal uberabense O Triângulo Espírita, de 20 de março de 1977, veiculada no Livro “Encontro no Tempo”, organizado por Hércio M.C. Arantes e publicado pela Editora IDE em 1979. O amoroso Chico Xavier advertiu que "é preciso fugir da tendência à ‘elitização’ no seio do movimento espírita (...) o Espiritismo veio para o povo. É indispensável que o estudemos junto com as massas mais humildes, social e intelectualmente falando, e delas nos aproximemos (...). Se não nos precavermos, daqui a pouco estaremos em nossas Casas Espíritas, apenas, falando e explicando o Evangelho de Cristo às pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou intelectuais (...)”. 
 Quando escrevemos o artigo “INDUSTRIALIZAÇÃO DE EVENTOS ESPÍRITAS "GRANDIOSOS"", o ex-reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora, e escritor espírita, José Passini, afirmou: “Seu artigo, Jorge Hessen, deveria ser eternizado em placa de bronze e distribuído às instituições espíritas. Você acertou em cheio no monstro que desgraçadamente cresce em nosso meio.” Talvez a espiritualidade, consciente dos despropósitos sobre a desprezível ELITIZAÇÃO DO ESPIRITISMO esteja de alguma forma nos alertando para um tempo de profundas mudanças. Que e seja assim!
É muito triste testemunhar tudo isso sem utilizar a ferramenta da indignação, no caso a voz (escrita) e recomendar mudanças, nunca em nível pessoal, mas no campo das ideias. Sobre isso, faço a minha parte sem machucar minha consciência, graças a Deus!


Vamos dar um basta ao elitismo doutrinário. Ou o Espiritismo chega à massa dos invisíveis de cá, dos deserdados, ou perderá o foco e não terá mais sentido falar do Evangelho de Jesus através da Doutrina codificada por Allan Kardec.
Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

24 junho 2011

ABSOLVIÇÃO ANULADA (*)

Sem tangermos para a intransigência, discordamos com tranqüila convicção das teses apresentadas pelo assistente de acusação do Tribunal de Justiça do estado de Mato Grosso do Sul, sobre o caso veiculado na revista VISÃO de 25 de dezembro de 1985. Inferimos não ser em defesa da máquina judiciária que se impetrou recurso de anulação quanto à decisão que absolveu o senhor João Francisco Marcondes Fernandes, acatando o Tribunal do Júri, como prova, o depoimento da própria vítima (Gleide Maria Dutra), psicografado pelo médium mineiro Francisco Cândido Xavier, que na oportunidade inocentava o réu; porém, sim, o indireto, portanto, intencional ataque ao Espiritismo.
Quem somos nós, criaturas pretensamente investidas de sabedoria, para invalidarmos uma mensagem provinda do além através da mediunidade ímpar de Chico Xavier?... Óbvio que os juristas não têm a obrigatoriedade de aceitar os princípios kardecianos, contudo, o que não se justifica sob qualquer hipótese é a flagrante tendência de pessoas leigas arremessarem ao Espiritismo condenações “sutis”, visando descaracterizar a força de uma doutrina desenfaixada de sectarismos, ritualismos e abomináveis hierarquias injustificáveis ou quaisquer outros “ismos” da crendice popular.

Pelas nossas informações, o fato acontecido no dia 27 de junho de 1985, no Tribunal do Júri de Campo Grande, com absolvição de João Francisco (aceita unanimente pelo corpo de jurados com o depoimento da vítima), não acontece tão amiudemente. Salvo prováveis equívocos, aquela teria sido a terceira vez que um Tribunal de Júri acolhe e aceita um depoimento de vítimas desencarnadas. Anteriormente a esse fato, temos notícia da carta recebida (ia mediunidade de Chico Xavier) cuja autoria é do jovem Maurício Garcez Henrique (espírito), inocentando o amigo que involuntariamente o baleou mortalmente, na cidade de Goiânia, e também, da carta mediúnica do deputado Heitor Cavalcante de Alencar Furtado, isentando de culpa o policial que o baleou “Branquinho” (Aparecido Andrade Branco).

Não cremos que as psicografias inocentando os réus em questão vieram ao mundo casual e fortuitamente. Temos a certeza de que Chico Xavier não intencionava ser veículo de intercessão medianímica a favor de quem quer que fosse em um processo criminal. Situamo-nos na condição de conceber, nos casos,  a excelsa misericórdia de Deus, doando ao homem a oportunidade de visualizar a vida além dos sentidos físicos ou na imortalidade.
Em perfeito domínio de consciência, como encararmos a questão ora expressa? Deixarmos que passe simplesmente despercebido, ou, contrariamente, tirarmos preciosa ilações para um amadurecido posicionamento?
Consoante as prerrogativas de liberdade de expressão que a todos interessa, cremos ser de uma fantástica dimensão a abordagem do tema  nos veículos de divulgação doutrinária. Não partilhamos de opinião formada no caso comentado, isso por desconhecer maiores detalhamentos do acontecido em 1  de maio de 1980, muito embora acate em sua integralidade a mensagem de Gleide inocentando João Francisco, isso já é o bastante! Por outro lado,  intentamos mostrar aos leitores que o mundo ainda rejeita bastante o Espiritismo. Os inquisidores modernos que se escondem nas roupagens de superfície  da sociedade atual,  procuram detratar e escarnecer aos profitentes espíritas, mas, atentemos a um fator: - ainda que neste episódio a Doutrina Espírita  seja alvo de indébitas acusações e não representar nada para certos juristas, lembremos que Jesus, tanto para os seguidores e perseguidores, na visão imediatista teria sido o grande derrotado no ignominioso madeiro, no Calvário; entretanto, a Verdade que Ele nos legou é eterna, tão eterna quanto os fatos espíritas.
Queiram ou não os homens;  sirva ou não de prova uma mensagem mediúnica para qualquer egrégio tribunal de Justiça, o que efetivamente nos arrebata a Deus serena e convictamente são as comunicações cada vez mais ostensivas dos Espíritos  com os encarnados, para resgatá-los dos cativeiros das concepções dogmáticas das religiões literalistas nesta transformação social dos dias que passam.
Anule-se como prova um depoimento do além-túmulo! Que sejam impetrados milhões de recursos rejeitando uma mensagem mediúnica inocentando um réu; entretanto,  não será lícito esquecermos que na intimidade da consciência de João Francisco paira a serenidade de sua inocência defendida por Gleide (a “vítima”), muito embora não sendo percebida por essa justiça “academicista” demasiadamente míope para as coisas essenciais da vida, que é regida pelas magnânimas leis de Deus.
Jorge Hessen
http://jorgehessen.net


(*) Publicado no livro Luz na Mente de autoria de Jorge Hessen, Distrito Federal: editora Edicel, 2002

18 junho 2011

KARDEC E O RACISMO - PUBLICADO NA REVISTA O CONSOLADOR


Especial Inglês Espanhol    
Ano 5 - N° 214 - 19 de Junho de 2011
JORGE HESSEN
jorgehessen@gmail.com
Brasília, Distrito Federal (Brasil)
 

Kardec, racismo e Espiritismo - uma reflexão
 
Não fales e nem escrevas
Algo que fira ou degrade;
Racismo é uma chaga aberta
No corpo da Humanidade
 
(Cornélio Pires) (1)
O racismo (2) é um tema pouco abordado nas hostes doutrinárias. A bibliografia é escassa. Os escritores e estudiosos espíritas brasileiros ainda não se debruçaram com maior profundidade sobre o assunto. Para alguns, as poucas análises sobre a questão do segregacionismo e da escravidão do negro, no Espiritismo deixam transparecer as influências da teoria arianista (3), da visão positivista e idealista da história, desconsiderando os fatos nos seus relativismos e contradições.
Para a investigação kardequiana, a respeito do negro, torna-se necessário ser considerado o contexto histórico em que foi discutida a temática. Incidiria em erro, sob o ponto de vista histórico, considerar Allan Kardec contaminado de preconceitos ou de índole racista. Essa palavra detém uma carga semântica muito forte, inadequada para definir os ideais do mestre lionês. Não há nenhum indício de que ele tenha discriminado algum indivíduo ou grupo de origem negra ou quaisquer indivíduos, seja no movimento espírita ou fora dele. A jornalista Dora Incontri, com mestrado e doutorado em Educação, pela USP, em seu livro Para entender Kardec nos traz um fato interessante que muito bem nos dará uma ideia de quem era o senhor Rivail. Vejamos: "É bom lembrar que, na Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, havia um Camille Flammarion, astrônomo, e um calceteiro (operário braçal que fazia as calçadas de Paris, de quem Kardec noticia a morte) e ambos eram membros da Sociedade". (4)
Os contraditores de Kardec se valem de textos insertos na Revista Espírita e principalmente em Obras Póstumas, 1ª parte, capítulo IX, referente à "Teoria da Beleza". A rigor não consideramos essa teoria um ponto doutrinário e muito menos consta das Obras Básicas. Trata-se de uma pesquisa de Kardec que não chegou a publicá-la. Veio a público após o seu desencarne, quando algumas anotações deixadas foram reunidas no livro citado, donde se infere que aquele pensamento ainda não estava perfeitamente consolidado.  
A frenologia, por exemplo, advogava uma relação entre a inteligência e a força dos instintos 
Por justeza de razões importa lembrar que Kardec não compilou o Espiritismo em seu próprio nome. Ele apresentou-nos a Doutrina como sendo dos Espíritos. Destarte, urge se faça distinção entre o que revelaram os Benfeitores Espirituais sob o princípio do consenso universal dos Espíritos e o que escreveu e pensava particularmente Kardec, inclusive na Revista Espírita.
No bojo da literatura basilar da Terceira Revelação, o Codificador ressalta que "na reencarnação desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. Se, pois, a reencarnação funda numa lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, também funda na mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade". (5)
Ante os ditames da pluralidade das existências, ainda segundo Kardec "enfraquecem-se os preconceitos de raça, os povos entram a considerar-se membros de uma grande família". (6)
Como se observa, essas ideias descaracterizam radicalmente um Kardec preconceituoso. Entretanto, apesar da atitude (para alguns preconceituosas) atribuída a Kardec em relação ao negro, fruto do contexto em que viveu (repetimos) sobre discriminação e preconceito a determinada etnia, sua obra sai indene de todas as críticas no sentido ético. Até porque para abordagem do tema é imprescindível contextualizá-lo, considerando-se as teorias de superioridade racial muito em voga na época.
A frenologia, por exemplo, advogava uma relação entre a inteligência e a força dos instintos em um indivíduo com suas proporções cranianas, em uma espécie de "desdobramento" pseudocientífico da fisiognomonia.  
Se não é a diferença da evolução espiritual, então, que é que torna os homens desiguais? 
Num artigo na Revista Espírita de abril de 1862, "Frenologia espiritualista e espírita - Perfectibilidade da raça negra", Kardec faz uma espécie de releitura dessa "ciência" com um enfoque espiritualista, demonstrando que o "atraso" dos negros não se deveria a causas biológicas, mas pelo fato de serem seus Espíritos encarnados ainda relativamente jovens. (7)
Indagamos: existem povos mais adiantados que outros? É possível desconhecer a discrepância entre silvícolas e citadinos? Se não é a diferença da evolução espiritual, então, que é que os torna desiguais?
É evidente que podemos adequar as terminologias para culturas "complexas ou simples" no lugar de "avançado ou atrasados", o que na essência não altera a situação de ambos. Sabemos também – e isso é incontestável – que a antropologia e a sociologia surgem eurocêntricas. E a antropologia foi uma espécie de sociologia criada para estudar os povos primitivos. (8) Contudo, a Doutrina Espírita tem mais amplitude do que toda essa questão.
Para nós "não há muitas espécies de homens, há tão-somente indivíduos cujos Espíritos estão mais ou menos atrasados, porém todos suscetíveis de progredir pela reencarnação. Não é este princípio mais conforme à justiça de Deus?" (9)
No livro Renúncia, monumental obra da literatura mediúnica, identificamos um trecho que nos chamou a atenção para reflexão sobre o assunto. Robbie, filho de escravos e irmão adotivo de Alcíone, ao desencarnar disse-lhe "desde que mandei os gendarmes (10) libertar o cocheiro, por entender que me cabia a culpa (...) sinto que não tenho mais a pele negra, que tenho a mão e a perna curadas (...) veja Alcíone (...) e esta lhe explica: São estas as provas redentoras, meu querido Robbie! Deus te restituiu a saúde da alma, por te considerar novamente digno". (11) Dá para imaginar o Espírito Alcíone racista? E por que teriam os negros sofrido tanto com a escravidão?  
Jesus, ante os olhos do homem, é o maior arquétipo da perfeição que um Espírito pode alcançar 
Segundo Humberto de Campos os escravos seriam "os antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, Espíritos rebeldes e revoltados, perdidos nos caminhos cheios da treva das suas consciências polutas". (12)
A concepção de que o homem possa encarnar na condição de branco, negro, mulato ou índio estabelece uma ruptura com o preconceito e a discriminação raciais. Não esqueçamos, porém, que na Grã-Bretanha, ainda hoje, muitos adeptos do Neo-espiritualismo rejeitam a tese da reencarnação, por não admitirem a possibilidade de terem tido encarnações em posições inferiores quanto à raça e à condição social.
Com essa visão, um Espírito, reencarnado num corpo de origem negra, estará sujeito à discriminação e isso lhe será uma condição, uma contingência evolutiva a ser superada. Para uns pode ser uma expiação, para outros uma missão. Com os princípios espíritas se "apaga naturalmente toda a distinção estabelecida entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor". (13)
Como se observa, uma doutrina libertária, como o Espiritismo, não compactua, sob quaisquer pretextos, com nenhuma ideologia que vise à discriminação étnica entre os grupos sociais.
A verdade é que nos grandes debates de cunho sociológico, antropológico, filosófico, psicológico etc., o Espiritismo provocará a maior revolução histórica no pensamento humano, conforme está inscrito nas questões 798 e 799 de O Livro dos Espíritos, sobretudo quando ocupar o lugar que lhe é devido na cultura e conhecimento humanos, pois seus preceitos morais advertirão os homens da urgente solidariedade que os há de unir como irmãos, apontando, por sua vez, que o progresso intelecto-moral na vida de todos os Espíritos é lei universal e tendo por modelo Jesus, que, ante os olhos do homem, é o maior arquétipo da perfeição que um Espírito pode alcançar. (14) 
 
Fontes
1. Xavier, Francisco Cândido. Caminhos da Vida, Ditada pelo Espírito Cornélio Pires, São Paulo: Ed. CEU, 1996.
2. O racismo, segundo a acepção do "Novo Dicionário Aurélio" é "a doutrina que sustenta a superioridade de certas raças". O Conde de Gobineau foi o principal teórico das teorias racistas. Sua obra, "Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas" (1855), lançou as bases da teoria arianista, que considera a raça branca como a única pura e superior às demais, tomada como fundamento filosófico pelos nazistas, adeptos do pangermanismo.
3. Entre os teóricos do racismo alemão, dizia-se dos europeus de raça supostamente pura, descendentes dos árias.
4. Incontri, Dora. Para Entender Kardec, Grandes Questões, São Paulo: Publicações Lachâtre, 2001.
5. Kardec, Allan. A Gênese, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2002, pág. 31.
6. Idem págs. 415-416.
7. Kardec, Allan. Revista Espírita de abril de 1862.
8. Primitivo era todo aquele povo que não havia chegado ao grau de cultura e tecnologia do europeu. Sem dúvida que era uma visão do europeu da época, que considerava os negros e os latinos selvagens.
9. Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, texto escrito por Allan Kardec, e Constitui o Capítulo V, item 6º, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2001.
10. Soldado da força incumbida de velar pela segurança e ordem pública, na França.
11. Xavier, Francisco Cândido. Renúncia, 7ª ed. Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1973, pg. 412.
12. Xavier, Francisco Cândido. Brasil, Coração do Mundo Pátria do Evangelho, Ditado pelo Espírito Humberto de Campos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1980.
13. Kardec, Allan. Revista Espírita de abril de 1861, 297-298.
14. Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2003, parte 3ª, q. 798 e 799, cap. VIII item VI - Influência do Espiritismo no Progresso. 
 
Nota da Redação: 
Sugerimos ao leitor que leia sobre o assunto o editorial da edição 213, disponível em http://www.oconsolador.com.br/ano5/213/editorial.html, bem como o texto contido na seção O Espiritismo Responde publicado na edição 68, de 10/8/2008, disponível em http://www.oconsolador.com.br/ano2/68/oespiritismoresponde.html.

13 junho 2011

SACRIFÍCIOS DE ANIMAIS COMO COBAIAS, NUMA PERSPECTIVA ESPIRITA

Desde a antiguidade, pesquisadores valem-se de animais (cobaias) para obter testes científicos e ensaio das mais diversas espécies. O coelho foi uma das primeiras espécies utilizadas em pesquisas e presentemente camundongos e rãs são espécies de eleição para experiências nos laboratórios. Os bichos têm servido de cobaias para a prova de vacinas, medicamentos, produtos e substâncias, antes de sua liberação para o consumo humano, e também alguns procedimentos cirúrgicos, antes de serem aplicados entre os homens.
 Andrea Vesalius, fundador da anatomia moderna, usava cães e porcos em demonstrações públicas de anatomia. Hoje em dia, ainda os cães têm sido cobaias para estudos dos sistemas cardiovascular, respiratório, gastrintestinal, endócrino e das técnicas de transplante. Contudo, havemos de convir que as pesquisas só publicam descobertas, porém não revelam fracassos. O organismo de um animal não é o mesmo que o nosso. O maior fracasso do século XX foi a Talidomida, que foi testada amplamente em animais e depois colocada no mercado.
O experimento em animais “não representa apenas um método cruel, e por isso mesmo antiético, mas é também destituído de validade científica. No interesse do homem e do animal, precisa ser abolida o mais rápido possível e substituída por métodos racionais.”(1) Aproximadamente um terço dos doentes com problemas renais crônicos destruíram sua função renal tomando analgésicos considerados seguros após aplicados em animais. Todos os medicamentos tóxicos retirados do mercado por exigência dos órgãos de saúde foram testados antes em experiências com animais.
 Nos últimos anos, as muralhas do silêncio vêm sendo progressivamente demolidas pela imprensa, pelo rádio e pela televisão. Existem importantes movimentos de proteção animal que resistem para findar com a vivissecção.(2) Graças a Deus! Na atualidade, tem sido atenuado o uso de animais em ensaios científicos, pois foram desvendadas outras possibilidades eficientes. A exemplo de substâncias eficazes à base vegetal, que foram descobertas sem experiências com animais. Ressalte-se que a maioria das técnicas cirúrgicas frequentes não foram desenvolvidas em cobaias animais.
 Os avanços em biotecnologia já permitiram substituir os bichos por computadores ou tubos de ensaios. Em diversos campos estão sendo utilizados processos alternativos, como in-vitro, com culturas celulares. As células estaminais já são uma alternativa e vão ser decisivas na substituição das cobaias. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um programa de computador que pode substituir o sacrifício de animais durante as aulas de fisiologia. O programa pode substituir o uso de animais nas aulas práticas de Fisiologia e Biofísica, ministradas nos cursos de Medicina, Ciências Biológicas, Enfermagem e Educação Física.
 Apesar de milhões de animais torturados e mortos, a dissecação anatômica não conseguiu obter um resultado frente às epidemias do nosso tempo. Os progressos na pesquisa da AIDS não se fundamentam em experiências com animais, porém na epidemiologia, na observação clínica dos doentes e nos estudos in-vitro com culturas celulares.
 Ante a falácia de que os animais são utilizados em benefício da saúde pública, devemos nos lembrar que eles são seres vivos que sentem dor e que sofrem, por isso somos responsáveis por eles. Como é que experiências toxicológicas – durante as quais os animais são envenenados de forma mais ou menos rápida – podem ocorrer sem tortura e dor, sem sofrimento terrível para o animal atingido? São muitas experiências que representam para o animal um sofrimento atroz, que normalmente só termina com a morte.
O cientista austríaco Friederike Range, da Universidade de Viena, liderou um estudo sobre emoções caninas e atesta que certos animais possuem um sentimento ou emoção mais complexa do que normalmente atribuiríamos a eles. Para além das considerações filosóficas, evidências práticas e científicas sugerem que todos os mamíferos possam sentir algo semelhante à dor e ao prazer humano, embora que qualitativa e quantitativamente diferente. A ética na experimentação com animais é uma preocupação muito antiga, fundamentando-se na necessidade de se ter consciência de que o animal é um ser vivo, que possui hábitos próprios de sua espécie, inclusive o natural instinto de sobrevivência, sendo sensível a dor e a angústia.
 O que o Espiritismo explica sobre os animais? Eles têm alma? Progridem? Ou serão sempre animais? Eles sofrem? Os Benfeitores do Além afirmam que os animais não têm alma como nós humanos, mas têm um princípio espiritual que “sobrevive ao corpo físico após a morte"(3), ou seja, a alma dos animais "conserva, após a desencarnação, sua individualidade; porém, não a consciência de si mesma, apenas a vida inteligente permanece em estado latente."(4)
 Quando estivermos mais espiritualizados, enxergando nos animais os irmãos inferiores de nossa vida, o sacrifício dos animais em laboratório não terá mais razão de ser. “O homem espiritual do futuro, com a luz do Evangelho na inteligência e no coração, terá modificado o seu ambiente de lutas, auxiliando igualmente os esforços evolutivos de seus companheiros do plano inferior, na vida terrestre.”(5)
 É bem verdade que o instinto domina a maioria dos animais; “mas há os que agem por uma vontade determinada, ou seja, percebemos que há uma certa inteligência animal, ainda que limitada."(6) Rememoremos que os bichos “não são simples máquinas, embora sua liberdade de ação seja limitada pelas suas necessidades, e, logicamente, não pode ser comparada ao livre-arbítrio humano. Os animais, sendo inferiores ao homem, não têm os mesmos deveres, mas eles têm liberdade sim, "ainda que restrita aos atos da vida material.”(7)
 Os animais pensam, mas não raciocinam; os animais têm memória, e recorrem a ela; aprendem com o acerto e com o erro, e não com o raciocínio. Evidentemente, não conseguem teorizar, abstrair, prever eventos, solucionar problemas, mas são, de fato, mais inteligentes do que imaginamos. Estão em processo de evolução e, nesse sentido, devemos considerar que possuem, diante do tempo, um porvir de fecundas realizações, e através de numerosas experiências chegarão um dia ao chamado reino hominal, como, por nossa vez, alcançaremos, no escoar dos milênios, a situação de angelitude.

 A escala do progresso é sublime e infinita. Considerando que os animais estão em processo de crescimento espiritual, “busquemos reconhecer a infinidade de laços que nos unem nos valores gradativos da evolução e ergamos, em nosso íntimo, o santuário eterno da fraternidade universal."(8)

Jorge Hessen
 http://jorgehessen.net





Referências bibliográficas:
 
(1)       Tese  apresentada em Simpósio realizado em Genebra pela Liga Internacional de Médicos pela Abolição das Experiências em Animais, por Bernhard Rambeck, diretor do Departamento Bioquímico da Sociedade de pesquisa em Epilepsia, Bielefeld, Alemanha.
 (2)       É o ato de dissecar um animal vivo com o propósito de realizar estudos de natureza anatomo-fisiológica. No seu sentido mais genérico, define-se como uma intervenção invasiva num organismo vivo, com motivações científico-pedagógicas. Na terminologia dos defensores de animais, é generalizada como uso de animais vivos em testes laboratoriais.
 (3)       Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, perg 597-a
(4)       Idem perg. 598
 (5)       Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, Ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001 perg. 62
 (6)       _______, Allan. O Livro dos Espiritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, perg. 592
 (7)       Idem perg. 595.
 (8)       _______, Francisco Cândido. O Consolador, Rio de Janeiro: Ed Feb, 1995, perg.79