30 janeiro 2012

FATALIDADE COMO CONSEQUÊNCIA DA ESCOLHA QUE FAZEMOS

Numa curiosa pesquisa realizada pela Universidade de Michigan (EUA), foi empregado um ambiente virtual com todas as imagens, sons e consequências das ações dos voluntários, incluindo os gritos de desespero daqueles seres virtuais cujos destinos (mortes) seriam traçados pelos voluntários. O ambiente cibernético apresenta-se com um trem se dirigindo para uma passagem estreita onde estão cinco pessoas que não têm como sair do seu caminho. Só os participantes têm a possibilidade de redirecionar o trem para outra passagem, onde só há uma pessoa que não conseguirá escapar. Acionaríamos ou não a alavanca para mudar o trem de rota?
Considerando essa experiência fatalística, construamos o seguinte cenário: estamos conduzindo um automóvel e nos defrontamos com situação bem real de atropelarmos um grupo de crianças, entretanto em frações de segundos podemos desviar o trajeto do veículo e entrechocar-nos com apenas uma criança. Será que optaríamos por desviar o veículo rumo a única criança para preservar a vida do grupo? Sabemos ser uma situação embaraçosa, porquanto estamos diante de duas soluções extremas, ambas trágicas, o que redundará terrível perplexidade para uma opção. Eis aí um dilema penoso perante o mandamento “não matarás”. Sabemos que é muito delicado e improvável tal episódio, mas se verdadeiro, como resolver? Não desviar do grupo de crianças para preservar apenas uma vida? Será que violaríamos uma regra moral considerando a escolha entre “um mal maior e um mal menor?” E se a única criança fosse nosso filho?
Podemos por nossa vontade, intenções e por nossos atos, fazer que não ocorram eventos que deveriam verificar-se, se essa aparente mudança tiver cabimento na sequência da vida que escolhemos. “Para fazer o bem, como nos cumpre – pois que isso constitui o objetivo único da vida – é-nos facultado impedir o mal, sobretudo aquele que possa concorrer para a produção de um mal maior.” (1)
Carlos David Navarrete, coordenador do experimento de Michigan, descobriu que o mandamento divino “não matarás” foi esmagado literalmente, pelos participantes, pois 90% dos voluntários acionaram várias vezes a chave para mudar o trem de rota, decidindo quem deveria morrer, tendo como justificativas o jargão: “um mal menor” é “melhor” do que “um mal maior”(!...)(2)
Segundo Chico Xavier “o bem sanará o mal, porque este não existe: é o bem, mal interpretado. Muitas vezes aquilo que julgamos como mal, daqui a dois, quatro, seis anos, é um bem. Um bem cuja extensão não conseguimos avaliar. Portanto, o mal está muito mais na nossa impaciência, no nosso desequilíbrio quando exigimos determinadas concessões, sem condições de obtê-las. De modo que o mal é como se fosse o frio. Este existe porque o calor ainda não chegou. Mas chegando o aquecimento, o frio deixa de existir. Se a treva aparece é porque a luz está demorando, mas quando acendemos a luz ninguém pensa mais nas trevas. Não creio na existência do mal em substância. Isso é uma ficção.”(3)
Cremos que estamos diante de situação funesta e fatalística, mas, será que existe fatalidade nos acontecimentos da vida? Os fatos de nossa existência estariam, assim, irremediavelmente traçados?
A fatalidade, como comumente é percebida, supõe deliberação precedente e irrevogável de todos os episódios da vida, qualquer que seja a gravidade deles. Mas, se tal fosse a ordem das coisas, seríamos quais fantoches destituídos de anseios. De que nos serviria a inteligência, desde que houvéssemos de estar inexoravelmente dominados, em todos os nossos atos, pela força do destino?
A Doutrina Espírita elucida que “semelhante doutrina, se verdadeira, conteria a destruição de toda liberdade moral, já não haveria para o homem responsabilidade, nem, por conseguinte, bem nem mal, crimes ou virtudes.”(3) No entanto, a fatalidade não é uma palavra sem sentido. Existe na disposição que ocupamos na Terra e nas funções que aqui cumprimos, em decorrência do modo de vida que escolhemos como prova, expiação ou missão.
Padecemos inevitavelmente todas as atribulações dessa existência e todas as tendências boas ou más que nos são intrínsecas. Aí, porém, finaliza a fatalidade, pois da nossa vontade depende ceder ou não a essas tendências. As particularidades dos acontecimentos, essas ficam subordinadas às circunstâncias que criamos pelos nossos atos, sendo que nessas ocorrências podemos ser influenciados pelos pensamentos que os espíritos sugerem. Há fatalidade, por conseguinte, nos episódios que se apresentam, por serem estes consequência da escolha que fazemos. Pode deixar de haver fatalidade no resultado de tais acontecimentos, visto ser-nos possível, pela nossa prudência, modificar-lhes o curso. “Quanto aos atos da vida moral, esses emanam sempre do próprio homem que, por conseguinte, tem sempre a liberdade de escolher. No tocante, pois, a esses atos, nunca há fatalidade.” (4)


Jorge Hessen
http://jorgehessen

Referência bibliográfica:

(1)    Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB 2001, síntese das questões. 851, 860, 861 e 866 e 872
(2)    Disponível em acessado em 15 de janeiro de 2012
(3)    Xavier, Francisco Cândido. Mandato de Amor, org. Geraldo L. Neto  Espíritos Diversos, São Paulo: Ideal, 1993
(4)    Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB 2001, síntese das questões. 851, 860, 861 e 866 e 872
(5)    idem síntese das questões. 851, 860, 861 e 866 e 872

24 janeiro 2012

TATUAGENS, PIERCINGS E OUTROS ADEREÇOS SOB O PONTO DE VISTA ESPÍRITA

Alguém nos questionou se se usar uma tatuagem na pele teria influência sobre o perispírito. Há dirigentes de casas espíritas advertindo que todas as pessoas que fizeram ou pensam em gravar tatuagens ou usar piercings, automaticamente estarão em processo de obsessão. Alguns cristãos baseiam-se nas Antigas Escrituras, onde encontramos advertência aos israelitas de “que não deveriam marcar o corpo, fazer cicatrizes com açoites como autoflagelo, por nenhum motivo.”.(1)
Conhecemos líderes espíritas convictos de que pessoas que tatuam o corpo inteiro ou o enchem de piercings são espíritos primários que ainda carregam lembranças intensas de experiências pretéritas, sobretudo dos tempos dos bárbaros, quando belicosos e cruéis serviam-se dessas marcas na pele para se impor ante os adversários.
Positivamente não identificamos pontos de caráter prático no uso de tatuagens, especialmente se a lesão imposta ao próprio corpo for por mero capricho. Isso sim, refletirá invariavelmente no perispírito, já que, sendo o corpo físico (templo da alma) um consentimento divino para nossas provas e expiações, devemos mantê-lo dignamente protegido e saudável. Entretanto, será que o uso de piercings e tatuagens sobrepujam qualidades morais? Quem pode penetrar na intimidade do semelhante e saber o que aí ocorre?
Sob a percepção histórica, a tatuagem é uma técnica ancestral que se esvai na memória cultural das civilizações. Antigamente eram aplicadas para marcar o corpo de um escravo com o símbolo do proprietário. Gravavam-se os corpos das prostitutas com o emblema de um reino, governo ou estado. Servia também para estigmatizar o corpo da mulher adúltera. Ainda hoje é tradição o seu uso no corpo de príncipes de tribos beduínas, africanas e das ilhas do pacífico.
Presentemente, servem para marcar o corpo de membros de gangues, grupos de atletas esportistas (surfe, motociclismo), "beatniks" (movimento sociocultural nos anos 50 e princípios dos anos 60 que subscreveram um estilo de vida antimaterialista, na sequência da 2.ª Guerra Mundial.), hippies, roqueiros e alastrados principalmente entre jovens comuns dos dias de hoje.
Os que se tatuam devem procurar identificar seus motivos íntimos. Recordemos que o corpo é o templo do Espírito e não nos pertence, portanto, é importante preservá-lo contra agressões que possam mutilar a sua composição natural. Há os que usam vários brincos, piercings e outros adereços. Haveria a mutilação espiritual por causa desses apetrechos? Talvez sim, provavelmente não! O certo é que o perispírito é efetivamente lesado pela defecção moral, desequilíbrio emocional que leva a suicídios diretos e indiretos; vícios físicos e mentais, rancores, pessimismos, ambição, vaidade desmesurada, luxúria.
Esfola-se o corpo espiritual todas as vezes que se prejudica o semelhante através da maledicência, da agressividade, da violência de todos os níveis, da perfídia. Destarte, analisado por esse prisma, os adereços afetam menos o corpo perispirítico. Principalmente porque na atualidade muitos desses adornos que ferem o corpo físico podem ser revertidos, já na atual encanação, e naturalmente não repercutirá no tecido perispiritual.
André Luiz elucida que o perispírito não é reflexo do corpo físico; este é que reflete a alma. “As lesões do corpo físico só terão, pois, repercussão no corpo espiritual se houver fixação mental do indivíduo diante do acontecido ou se o ato praticado estiver em desacordo com as leis que regem a vida.”.(2) As tatuagens e as pequenas mutilações que alguns indivíduos elaboram como forma de demonstrar amor a exemplo de alguém que grava o nome do pai ou da mãe no corpo de modo discreto não trariam, logicamente, os mesmos efeitos que ocorreriam com aqueles que se tatuam de modo resoluto, movimentados por anseios mais grosseiros.
Curiosamente, muitas pessoas, retornando ao plano espiritual, podem optar pelo uso dos adornos aqui discutidos. Segundo o autor do livro Nosso Lar, “os desencarnados podem, sob o ponto de vista fluídico, moldar mentalmente e de maneira automática, no mundo dos Espíritos, roupas e objetos de uso e gosto pessoal. Destarte, é perfeitamente possível, embora lamentemos, que um ser no além-túmulo permaneça condicionado aos vícios, modismos e tantas outras coisas frívolas da sociedade terrena.”.(3)
No que concerne às tatuagens especificamente, por ser um tipo de insígnia permanente, pode, sem dúvida, ocasionar conflitos mentais. A começar na atual encarnação, quando chega a ocasião em que o tatuado se arrepende, após ter mudado de idéia, em relação à finalidade da tatuagem. Concebamos que seja o apelido, sobrenome, o desenho ou algum emblema de alguma pessoa que já não estima, não ama ou qualquer outra silueta que já não aceita em seu corpo. Então, o que era um mero enfeite, culmina cansando a estética e torna-se um problema particular de complexa solução.
Então, por que a pessoa se permite tatuar? Nas culturas primitivas se usavam tatuagens com finalidades mágicas, para evocar a interferência de divindades, para o bem ou o mal. Hoje é, para muitos indivíduos, uma espécie de ritual de passagem, envolvendo a integração num grupo. Pode ser também de identificação. Pela tatuagem a pessoa está dizendo algo de si mesma.
Nas estruturas dos códigos espíritas não há espaços para proibições. Não obstante, a Doutrina dos Espíritos oferece-nos subsídios para ponderação a fim de que decidamos racionalmente sobre o que, como, quando, onde fazer ou deixar de fazer (livre-arbítrio). Evidentemente que não é o uso de tatuagens que retratará a índole e o caráter de alguém. Todavia, não podemos perder de vista que alguns modelos de tatuagens, com pretextos sinistros, podem ser classificados (sem anátemas) como censuráveis e inadequados para um cristão de qualquer linhagem.
Nesse contexto, é importante compreender a pessoa de forma integral. As características anunciadas no corpo são resultados de seus estados mentais, reflexos das experiências culturais, aprendizados e interpretação de mundo. Como dissemos, o Espiritismo não proíbe nada e fornece-nos as explicações para os fenômenos psíquicos. Assim sendo, as recomendações doutrinárias não combatem, porém conscientizam! Não são indiferentes aos dramas existenciais e demonstram como edificar e marchar no mais acautelado caminho.
Dissemos que o uso piercings e outros adereços e da própria tatuagem por si só não caracteriza alguém com ou sem moralidade. Investiguemos porém as causas dessas atitudes. Quais sãos os anseios, os sonhos, as crenças dos que cobrem seus corpos com tais marcas? Tatuagens, piercings, são estágios transitórios. Importa alcançar, porém, se tais indivíduos estão mutilados psíquica, emocional e espiritualmente. O que os conduz muitas vezes a despedaçar a barreira da ponderação e do juízo? Por que atentam contra si submetendo-se a dores e sofrimentos incompreensíveis? Para uns o motivo é o modismo. Outros, todavia, ainda se acham atrelados a costumes de outras existências físicas e trafegam do mundo inconsciente para o consciente, derivando na transfiguração do corpo biológico.
Perante questões controversas, as mensagens kardecianas buscam na intimidade do ser o seu real problema. Convidam-nos ao autoconhecimento e ao estágio do autoaprimoramento. Sugere-nos sensatez, autoestima, altivez, comedimento e a busca incessante de Deus, o Exclusivo Ente, que facultara-nos completar de contentamento e paz de consciência.


 Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

Referência bibliográfica:

(1)    Levítico 19.28; Deuteronômio 14.1-2.
(2)    Xavier, Francisco Cândido e Vieira , Waldo. Evolução em dois mundos, ditado pelo Espírito André Luiz, Rio de Janeiro, Ed. FEB, 1959
(3)    Xavier, Francisco Cândido. Nosso Lar, ditado pelo Espírito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1955

23 janeiro 2012

REFLEXÕES HISTÓRICAS E AS DEFECÇÕES DO CRISTIANISMO SEM JESUS


Com base nas declarações do Espírito Emmanuel, decidimos formatar e publicar em nossas páginas as ajuizadas reflexões históricas sobre o Cristianismo sem Jesus, conforme foram publicadas no livro A Caminho da Luz. Fazendo isso, estamos oportunizando aos leitores conhecer um pouco melhor Emmanuel e a famosa Carta do Bispo Strossmayer, lida no Vaticano em 1870, quando da decretação da Infalibilidade papal.
Segundo escreve o mentor de Chico Xavier, no capítulo intitulado IDENTIFICAÇÃO DA BESTA APOCALÍPTICA, sobre as narrativas do Apocalipse, lemos que “a besta poderia dizer grandezas e blasfêmias por 42 meses, acrescentando que o seu número era o 666 (Apoc. XIII, 5 e 18). Examinando-se a importância dos símbolos naquela época e seguindo o rumo certo das interpretações, podemos tomar cada mês como sendo de 30 anos, em vez de 30 dias, obtendo, desse modo, um período de 1260 anos comuns, justamente o período compreendido entre 610 e 1870, da nossa era, quando o Papado se consolidava, após o seu surgimento, com o imperador Focas, em 607, e o decreto da infalibilidade papal com Pio IX, em 1870, que assinalou a decadência e a ausência de autoridade do Vaticano em face da evolução científica, filosófica e religiosa da Humanidade.”(1) Com referência ao fantasmagórico número 666, Emmanuel pronuncia: “sem nos referirmos às interpretações com os números gregos, em seus valores, devemos recorrer aos algarismos romanos, em sua significação, por serem mais divulgados e conhecidos, explicando que é o Sumo-Pontífice da igreja romana quem usa os títulos de "VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS", "VICARIVS FILII DEI" e "DVX CLERI", que significam "Vigário-Geral de Deus na Terra", "Vigário do Filho de Deus" e "Príncipe do Clero". Bastará ao estudioso um pequeno jogo de paciência, somando os algarismos romanos encontrados em cada titulo papal a fim de encontrar a mesma equação de 666, em cada um deles. Vê-se pois, que o Apocalipse de João tem singular importância para os destinos da Humanidade terrestre.”(2)

Emmanuel ainda tece comentários sobre as PROVAÇÕES DA IGREJA, lembrando que “aproximando-se o ano de 1870, que assinalaria a falência da Igreja com a declaração da infalibilidade papal, o Catolicismo experimenta provações amargas e dolorosas. Exaustos de suas imposições, todos os povos cultos da Europa não enxergaram nas suas instituições senão escolas religiosas, limitando-se-lhes as finalidades educativas e controlando-se-lhes o mecanismo de atividades.” (3)
Recorda o autos espiritual de “Há dois mil anos” que “compreendendo que o Cristo não tratara de açambarcar nenhum território do Globo, os italianos, naturalmente, reclamaram os seus direitos no capítulo das reivindicações, procurando organizar a unidade da Itália sem a tutela do Vaticano. Desde 1859 estabelecera-se a luta, que foi por muito tempo prolongada em vista da decisão da França, que manteve todo um exército em Roma para garantia do pontífice da Igreja. Mas a situação de 1870 obrigara o povo francês a reclamar a presença dos guardas do Vaticano, triunfando as idéias de Cavour e privando-se o papa de todos os poderes temporais, restringindo-se a sua posse material. Começa, com Pio IX, a grande lição da Igreja. O período das grandes transformações estava iniciado, e ela, que sempre ditara ordens aos príncipes do mundo, na sua sede de domínio, iria tornar-se instrumento de opressão nas mãos dos poderosos. Observava-se um fenômeno interessante: a Igreja, que nunca se lembrara de dar um título real à figura do Cristo, assim que viu desmoronarem os tronos do absolutismo com as vitórias da República e do Direito, construiu a imagem do Cristo-Rei para o cume dos seus altares.”.(4) Emmanuel cita ainda que após as “afirmativas do Sílabo e depois do famoso discurso do bispo Strossmayer (*) (vide discurso abaixo),  em 1870, no Vaticano, quando Pio IX decretava a infalibilidade pontifícia”(5), o Clero tenta reabilitar-se através de encíclicas de cunho social.

Jorge Hessen
http://jorgehessen.net


(*)(Discurso pronunciado no célebre Concílio de 1870 , pelo Bispo Strossmayer) (6)

“Veneráveis padres e irmãos:
Não sem temor, porém com uma consciência livre e tranqüila, ante Deus que nos julga, tomo a palavra nesta augusta assembléia.
Prestei toda a minha atenção aos discursos que se pronunciaram nesta sala, e anseio por um raio de luz que, descendo de cima, ilumine a minha inteligência e me permita votar os cânones deste Concílio Ecumênico com perfeito conhecimento de causa.
Compenetrado da minha responsabilidade, pela qual Deus me pedirá contas, estudei com a mais escrupulosa atenção os escritos do Antigo e Novo Testamento, e interroguei esses veneráveis monumentos da Verdade: se o pontífice que preside aqui é verdadeiramente o sucessor de São Pedro, Vigário do Cristo e Infalível Doutor da Igreja.
Transporei-me aos tempos em que ainda não existiam o Ultramontanismo e o Galicanismo, em que a Igreja tinha por doutores: Paulo, Pedro, Tiago e João, aos quais não se pode negar a autoridade divina, sem pôr em dúvida o que a santa Bíblia nos ensina, santa Bíblia que o Concílio de Trento proclamou como a Regra da Fé e da Moral. Abri essas sagradas páginas e sou obrigado a dizer-vos: nada encontrei que sancione, próxima ou remotamente, a opinião dos ultramontanos? E maior é a minha surpresa quando, naqueles tempos apostólicos, nada há que fale de papa sucessor de São Pedro e Vigário de Jesus Cristo!
Vós, Monsenhor Manning, direis que blasfemo; vós, Monsenhor Pio, direis que estou demente! Não, monsenhores; não blasfemo, nem perdi o juízo! Tendo lido todo o Novo Testamento, declaro, ante Deus e com a mão sobre o crucifixo, que nenhum vestígio encontrei do papado.
Não me recuseis a vossa atenção, meus veneráveis irmãos! Com os vossos  murmúrios e interrupções, justificais os que dizem, como o Padre Jacinto, que este concílio não é livre se assim for, tende em vista que esta augusta assembléia, que prende a atenção de todo o mundo, cairá no mais terrível descrédito.
Agradeço a S. Excia. o Monsenhor Dupanloup, o sinal de aprovação que me faz com a cabeça; isso me alenta e me faz prosseguir.
Lendo, pois, os santos livros, não encontrei neles um só capítulo, um só versículo que dê a Pedro a chefia sobre os apóstolos.
Não só o Cristo nada disse sobre esse ponto, mas, ao contrário, prometeu tronos a todos os apóstolos (Mateus, XIX, 28), sem dizer que o de Pedro seria mais elevado que os dos outros!
Que diremos do seu silêncio?
A lógica nos ensina a concluir que o Cristo nunca pensou, em elevar Pedro à chefia do Colégio Apostólico.
Quando o Cristo enviou os seus discípulos a conquistar o mundo, a todos - igualmente - deu o poder de ligar e desligar, a todos - igualmente - fez a promessa do Espírito Santo.
Dizem as Santas Escrituras que até proibiu a Pedro e a seus colegas de reinarem ou exercerem senhoria (Lucas, XXII, 25 e 26).
Se Pedro fosse eleito Papa Jesus - não diria isso, porque, segundo a nossa tradição, o papado tem uma espada em cada mão, simbolizando os poderes espiritual e temporal.
Ainda mais: se Pedro fosse papa ou chefe dos apóstolos, permitiria que esses seus subordinados o enviassem, com João, a Samaria, para anunciar o Evangelho do Filho de Deus? (Atos, VIII, 14).
Que direis vós, veneráveis irmãos, se nos permitíssemos, agora mesmo, mandar Sua Santidade Pio IX, que aqui preside, e Sua Eminência, Monsenhor Plantier, ao Patriarca de Constantinopla, para convencê-lo de que deve acabar com o Cisma do Oriente?
O símile é perfeito, haveis de concordar!
Mas temos coisa ainda melhor:
Reuniu-se em Jerusalém um concílio ecumênico para recindir questões que dividiam os fiéis.
Quem devia convocá-lo? Sem dúvida Pedro, se fosse papa. Quem devia presidi-lo? Por certo que Pedro. Quem devia formular e promulgar os cânones? Ainda Pedro, não é verdade? Pois bem: nada disso sucedeu! Pedro assistiu ao concílio com os demais Apóstolos, sob a direção de Tiago! (Atos, XV).
Assim, parece-me que o filho de Jonas não era o primeiro, como sustentais.
Encarando agora por outro lado, temos: enquanto ensinamos que a Igreja está edificada sobre Pedro, Paulo (cuja autoridade devemos todos acatar) diz-nos que ela está edificada - sobre o fundamento da fé dos apóstolos e profetas, sendo a principal pedra do ângulo, Jesus Cristo (Efésios, II, 20).
Esse mesmo Paulo, ao enumerar os ofícios da Igreja, menciona apóstolos, profetas, evangelistas e pastores; e será crível que o grande Apóstolo dos Gentios se esquecesse do papado, se o papado existisse? Esse olvido me parece tão impossível como o de um historiador deste concílio que não fizesse menção de Sua Santidade Pio IX.
(Apartes: Silêncio, herege! Silêncio!)
Calmai-vos, veneráveis irmãos, porque ainda não concluí. Impedindo-me de prosseguir, provareis ao mundo que sabeis ser injustos, tapando a boca do mais pequeno membro desta assembléia. Continuarei:
O Apóstolo Paulo não faz menção, em nenhuma das suas Epístolas, às diferentes Igrejas, da primazia de Pedro; se essa existisse e se ele fosse infalível como quereis, poderia Paulo deixar de mencioná-la, em longa Epístola sobre tão importante ponto?
Concordai comigo: A Igreja nunca foi mais bela, mais pura e mais santa que naqueles tempos em que não tinha papa.
(Apartes: não é exato! não é exato!)
Por que negais, Monsenhor de Laval? Se algum de vós outros, meus veneráveis irmãos, se atreve a pensar que a Igreja, que hoje tem um papa (que vai ficar infalível), é mais firme na fé e mais pura na moralidade que a Igreja Apostólica, diga-o abertamente ante o Universo, visto como este recinto é um centro do qual as nossas palavras voam de pólo a pólo!
Calai-vos? Então continuarei:
Também nos escritos de Paulo, de João, ou de Tiago, não descubro traço algum do poder papal! Lucas, o historiador dos trabalhos missionários dos apóstolos guarda silêncio sobre tal assunto!
Isso vos deus preocupar muito.
Não me julgueis um cismático!
Entrei pela mesma porta que vós outros; o meu titulo de bispo deu-me direito a comparecer aqui, e a minha consciência, inspirada no verdadeiro Cristianismo, me obriga a dizer-vos o que julga ser verdade.
Penso que, se Pedro fosse vigário de Jesus Cristo, ele não o sabia, pois que nunca procedeu como papa: nem no dia de Pentecostes, quando pregou o seu primeiro sermão, nem no Concílio de Jerusalém, presidido por Tiago, nem em Antioquia, nem nas Epístolas que dirigiu às Igrejas. Será possível que ele fosse papa sem o saber?
Parece-me escutar de todos os lados: Pois Pedro não esteve em Roma? Não foi crucificado de cabeça para baixo? Não existem os lugares onde ensinou e os altares onde disse missa nessa cidade?
E eu responderei: Só a tradição, veneráveis irmãos, é que nos diz ter Pedro estado em Roma; e como a tradição é tão somente a tradição da sua estada em Roma, é com ele que me provareis o seu episcopado e a sua supremacia?
Scalígero, um dos mais eruditos historiadores, não vacila em dizer que o episcopado de Pedro e a sua residência em Roma devem-se classificar no número das lendas mais ridículas! (Repetidos gritos e apartes: tape-lhe a boca, fazei-o descer dessa cadeira!)
Meus veneráveis irmãos, não faço questão de calar-me, como quereis, mas não será melhor provar todas as coisas como manda o apóstolo e crer só no que for bom? Lembrai-vos de que temos um ditador ante o qual todos nós, mesmo Sua Santidade Pio IX, devemos curvar a cabeça: Esse ditador, vós bem o sabeis, é a História!
Permiti que repita: folheando os sagrados escritos, não encontrei ó mais leve vestígio do papado nos tempos apostólicos.
E, percorrendo os Anais da Igreja, nos quatro primeiros séculos, o mesmo sucedeu!
Confessar-vos-ei que encontrei o seguinte:
Que o grande Santo Agostinho, Bispo de Hipona, honra e glória do Cristianismo e secretário no Concílio de Melive, nega a supremacia ao bispo de Roma!
Que os bispos da África,  no Sexto Concílio de Cartago, sobe presidência de Aurélio, bispo dessa cidade, admoestavam a Celestino, Bispo de Roma, por supor-se superior aos demais bispos, enviando-lhes comissionados e introduzindo o orgulho na Igreja.
Que portanto, o papado não é instituição divina.
Deveis saber, meus veneráveis irmãos, que os padres do Concílio de Calcedônia colocaram os bispos da antiga e da nova Roma na mesma categoria dos demais bispos.
Que aquele Sexto Concílio de Cartago proibiu o título de Príncipe dos Bispos, por não haver soberania entre eles.
E que São Gregório I escreveu estas palavras, que muito aproveitam à tese: "Quando um patriarca se intitula Bispo Universal, o título de patriarca sofre incontestavelmente descrédito. Quantas desgraças não devemos nós esperar, se entre os sacerdotes se suscitarem tais ambições?
Esse bispo será o rei dos orgulhosos! (Pelágio II, Cett. 15).
Com tais autoridades e muitas outras que poderia citar-vos, julgo ter provado que os primeiros bispos de Roma não foram reconhecidos como bispos universais ou papas, nos primeiros séculos do Cristianismo.
E para mais reforçar os meus argumentos, lembrarei aos meus veneráveis irmãos que foi Osio, bispo de Córdova, quem presidiu o Primeiro Concílio de Nicéia, redigindo os seus cânones; e que foi ainda esse bispo que, presidindo o Concílio de Sardica, excluiu o enviado de Júlio, Bispo de Roma!
Mas da direita me citaram estas palavras do Cristo “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.
Sois, portanto, chamados para este terreno.
Julgais, veneráveis irmãos, que a rocha ou pedra sobre que a Santa Igreja está edificada é Pedro; mas permiti que eu discorde desse vosso modo de pensar.
Diz Cirilo, no seu quarto livro sobre a Trindade: “A rocha ou pedra de que nos fala Mateus é a fé imutável dos Apóstolos”.
Olegário, Bispo de Poitiers, em seu segundo livro sobre a Trindade, repete: “aquela pedra é a rocha da fé confessada pela boca de Pedro. É no seu sexto livro mais luz nos fornece dizendo: “e sobre esta rocha da confissão da fé que a Igreja está edificada”.
 Jerônimo no sexto livro sobre Mateus é de opinião de que Deus fundou a sua Igreja, sobre a rocha, ou pedra, que deu nome a Pedro.
Nas mesmas águas navega Crisóstomo, quando, em sua homilia 56 a respeito de Mateus, escreve: "Sobre esta rocha edificarei a minha Igreja: e esta rocha é a confissão de Pedro."
E eu vos perguntarei, veneráveis irmãos, qual foi à confissão de Pedro?
Já que não me respondeis, eu vô-la darei: "Tu és o Cristo, o filho de Deus.''
Ambrósio, Arcebispo de Milão; Basílio de Salência e os padres do Concílio de Calcedônia, ensinam precisamente a mesma coisa.
Entre os doutores da Antiguidade Cristã, Agostinho ocupa um dos primeiros lugares, pela sua sabedoria, e pela sua santidade. Escutai como ele se expressa sobre a Primeira Epístola de João: "Edificarei a minha Igreja sobre esta rocha, significa claramente que é sobre a fé de Pedro."
No seu tratado 124, sobre o mesmo João, encontra-se esta frase significativa: "Sobre esta rocha, que acabais de confessar, edificarei a minha Igreja; e a rocha era o próprio Cristo, filho de Deus."
Tanto esse grande e santo bispo não acreditava que a Igreja fosse edificada sobre Pedro, que disse em seu sermão n. 13: "Tu és Pedro, e sobre esta rocha ou pedra, que me confessaste, que reconheceste, dizendo: Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo, edificarei a minha Igreja; sobre mim mesmo: pois sou o Filho de Deus vivo, edificarei sobre mim mesmo, e não sobre ti."
Haverá coisa mais clara e positiva?
Deveis saber que essa compreensão de Agostinho; sobre tão importante ponto do Evangelho, era a opinião corrente do mundo cristão naqueles tempos. Estou certo de que não me contestareis.
Assim é que, resumindo, vos direi:
1.ª Que Jesus deu aos outros apóstolos o mesmo poder que deu a Pedro.
2.ª Que os apóstolos nunca reconheceram em Pedro a qualidade de vigário do Cristo e infalível Doutor da Igreja.
3.ª Que o mesmo Pedro nunca pensou ser papa, nem fez coisa alguma como papa.
4.ª Que os concílios dos quatro primeiros séculos nunca deram, nem reconheceram o poder e a jurisdição que os bispos de Roma queriam ter.
5.ª Que os Padres da Igreja, na famosa passagem: “Tu és Pedro e sobre essa pedra (a confissão de Pedro) edificarei a minha Igreja” nunca entenderam que a Igreja estava edificada sobre Pedro (super petrum), isto é: sobre a confissão da fé do Apóstolo.
Concluo, pois, como a História, a razão, a lógica, o bom senso e a consciência do verdadeiro cristão, que Jesus não deu supremacia alguma a Pedro, e que os Bispos de Roma só se constituíram soberanos da Igreja confiscando um por um, todos os direitos do episcopado! (Vozes de todos os direitos do episcopado! vozes de todos os lados: Silêncio, Insolente! Silêncio! Silêncio!)
Não sou insolente! Não, mil vezes não!
Contestai a História, se ousais fazê-lo; mas ficai certos de que não a destruireis!
Se eu alguma inverdade, ensinai-me isso com a História, da qual vos prometo fazer a mais honrosa apologia! Mas, compreendei que não disse ainda tudo quanto quero e posso dizer! Ainda que a fogueira me aguardasse lá fora, eu não me calaria!
Sedes pacientes como manda Jesus. Não juntei a cólera ao orgulho que vos domina!
Disse Monsenhor Dupanloup, nas suas célebres Observações sobre este Concílio do Vaticano, e com razão, que se declararmos infalível a Pio IX, necessariamente precisamos sustentar que infalíveis também eram todos os seus antecessores. Porem, veneráveis irmãos, com a História  na mão, vos provareis que alguns papas faliram.
Passo a provar-vos, meus veneráveis irmãos, com os próprios livros existentes na Biblioteca deste Vaticano, como é que faliram alguns dos papas que nos têm governado:
O papa Marcelino entrou no Templo de Vesta e ofereceu incenso à deusa do Paganismo.
Foi, portanto, idolatra; ou pior ainda foi apóstata.
Libório consentiu na condenação de Atanásio; depois passou-se para o Arianismo.
Honório aderiu ao monoteísmo.
Gregório I chamava Anticristo ao que se impunha como Bispo Universal; entretanto, Bonifácio III conseguiu obter do parricida Imperador Focas este título em 607.
Pascoal II e Eugênio III autorizavam os duelos, condenados pelo Cristo: enquanto que Julio II e Pio IV os proibiram. Adriano II, em 872, declarou válido o casamento civil; entretanto, Pio VII, em 1823, condenou-o!
Xisto V publicou uma edição da Bíblia, e com uma bula recomendou a sua leitura; e aquele Pio VII excomungou a edição!   
Clemente XIV aboliu a Companhia de Jesus, permitida por Paulo III; e Pio VII restabeleceu-a!
Porém, para que mais provas? Pois o nosso Santo Padre Pio IX não acaba de fazer a mesma coisa quando, na sua bula para os trabalhos deste Concílio, dá como revogado tudo quanto se tenha feito em contrário ao que aqui for determinado, ainda mesmo tratando-se de decisões dos seus antecessores?
Até isso negareis?
Nunca eu acabaria, meus veneráveis irmãos, se me propusesse a apresentar-vos todas as contradições dos papas, em seus ensinamentos!
Como então se poderá dar-lhes a infalibilidade? Não sabeis que, fazendo infalível Sua Santidade, que presente se acha e me ouve, tereis de negar a sua falibilidade e a dos seus antecessores
E atrevereis a sustentar que o Espírito Santo vos revelou que a infalibilidade dos papas data apenas deste ano de 1870?
Não vos enganeis a vós mesmos: Se decretais o dogma da infalibilidade papal, vereis os protestantes, nossos rancorosos adversários, penetrarem por larga brecha com a bravura que lhes dá a História.
E que tereis vós a opor-lhes? O silêncio, se não quiserdes desmoralizar-vos. (Gritos: É demais; basta! basta!)
Não griteis, monsenhores! Temer a História, é confessar-vos derrotados! Ainda que pudésseis fazer correr toda a água do Tibre sobre ela, não borraríeis nem uma só de suas páginas! Deixai-me falar e serei breve.
Virgílio comprou o papado de Belizário, tenente do Imperador Justiniano. Por isso foi condenado no Segundo Concílio da Calcedônia, que estabeleceu este cânone: "O bispo que se eleve por dinheiro será degradado".
Sem respeito àquele cânone, Eugênio III, seis séculos depois, fez o mesmo que Virgílio, e foi repreendido por Bernardo, que era a estrela brilhante do seu tempo.
Deveis conhecer a história do Papa formoso: Estevão XI fez exumar o seu corpo, com as vestes pontificais: mandou cortar-lhe os dedos e o arrojou no Tibre. Estevão foi envenenado; e tanto Romano como João, seus sucessores, reabilitaram a memória de Formoso.
Lede Plotino, lede Barônio, Barônio, o Cardeal! É dele que me sirvo!
 Barônio chega a dizer que as poderosas cortesãs vendiam, trocavam e até se apoderavam dos bispados; e, horrível é dizê-lo, faziam seus amantes serem papas!
Genebrado sustenta que, durante 150 anos, os papas, em vez de apóstolos, foram apóstatas!
Deveis saber que o Papa João XII foi eleito com a idade de apenas dezoito anos; e que seu antecessor era filho do Papa Sérgio com Marozzia!
Que Alexandre XI era... nem me atrevo a dizer o que ele era de Lucrecia! e que João XXII negou a imortalidade da alma, sendo deposto pelo Concílio de Constança.
Já nem falo dos cismas que tanto têm desonrado a Igreja. Volto, porém, a dizer-vos que se decretais a infalibilidade do atual Bispo de Roma, devereis decretar também a da todos os seus antecessores: mas, vós atrevereis a tanto? Sereis capazes de igualar, a Deus todos os incestuosos, avaros, homicidas e simoníacos Bispos de Roma? (Gritos: Descei da cadeira, descei já! Tapemos a boca desse herege).
Não griteis, meus veneráveis irmãos. Com gritos nunca me convencereis! História protestará eternamente sobre o monstruoso dogma da infalibilidade papal; e, quando mesmo todos vós aproveis, faltará um voto, e esse voto é o meu!
Mas, voltemos à doutrina dos Apóstolos:
Fora dela só há erros, trevas e falsas tradições. Tomemos a eles e aos profetas nossos únicos mestres, sob a chefia da Jesus.
Firmes e imóveis como a rocha, constantes e incorruptíveis nas inspiradas Escrituras digamos ao mundo: Assim como os sábios da Grécia foram vencidas Paulo, assim a Igreja Romana será vencida pelo seu 98 (Gritos clamorosos: Abaixo o protestante! Abaixo o calvinista! Abaixo o traidor da Igreja!)
Os vossos gritos, monsenhores, não me atemorizam, e só vos comprometem. As minhas palavras têm calor,  mais minha cabeça está perene. Não sou de Lutero, nem de Calvino, nem de Paulo, e, sim, e tão somente, do Cristo! (Novos gritos: Anátema! Anátema vos lançamos!)
Anátema! Anátema! para os que contrariam a Doutrina de Jesus! Ficai certos de que os apóstolos, se aqui comparecessem, vos diriam a mesma coisa que vos acabo de declarar.
Que lhes direis vós, se eles, que predicaram e confirmaram com o seu sangue, lembrando-os o que escreveram, vos mostrassem o quanto tendes deturpado o Evangelho do Amado Filho de Deus? Acaso lhes diríeis: Preferimos a doutrina dos Loiolas à do Divino Mestre?
Não! mil vezes não! A não ser que tenhais tapado os ouvidos, fechado os olhos e embotado a vossa inteligência, o que não creio.
Oh! se Deus nos quer castigar fazendo cair pesadamente a sua mão sobre nós, como fez ao faraó, não precisa permitir que os soldados de Garibaldi nos expulsem daqui; basta deixar que façais de Pio IX um Deus, como já fizeste uma deusa de Maria!
Evitai, sim, evitai, meus veneráveis irmãos, o terrível precipício a cuja borda estais colocados! Salvai a Igreja do naufrágio, que a ameaça, e busquemos todos, nas sagradas Escrituras, a regra da Fé que devemos ter e professar! Digne-se de assistir-me! Tenho concluído!
(Todos os padres se levantaram, muitos sairão da sala; porém, alguns prelados Italianos, americanos, franceses e Ingleses rodearam o inspirado orador e, com fraternais apertos de mão, demonstraram concordar com o seu modo de pensar.)”
Coisa singular: desde a tal infalibilidade dos papas, vem a Igreja como se atirando num despenhadeiro, de cabeça para baixo!”
Quão inspirado estava o Bispo Strossmayer!


Referência bibliográfica:

(1)    Xavier, Francisco Cândido. A Caminho  da Luz, ditado pelo espírito Emmanuel, 22 a. edição, pag. 123 Rio de Janeiro, Ed FEB, 1996
(2)    idem
(3)    Xavier, Francisco Cândido. A Caminho  da Luz, ditado pelo espírito Emmanuel, 22 a. edição, pag. 193 Rio de Janeiro, Ed FEB, 1996
(4)    idem
(5)    Xavier, Francisco Cândido. A Caminho  da Luz, ditado pelo espírito Emmanuel, 22 a. edição, pag. 197 Rio de Janeiro, Ed FEB, 1996
(6)    Fonte http://www.autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/Cairbar%20Schutel/10/Cairbar%20Schutel%20-%20Cartas%20a%20Esmo.htm