01 junho 2012

SUICÍDIO - UMA FUGA SEM NORTE, SEM SENTIDO, SEM RAZÃO


 Em julho de 1862, Kardec analisa uma estatística estarrecedora e publica na Revista Espírita que “desde o começo do século XIX, o número dos suicídios na França, de 1836 a 1852, era de 52.126 suicídios, ou seja em média 3.066 por ano. Em 1858, contaram-se 3.903 suicídios, dos quais 853 mulheres e 3.050 homens. Enfim, segundo a última estatística no curso do ano de 1859, 3.899 pessoas se mataram, a saber, 3.057 homens e 842 mulheres."(1)
Atualmente, como se não bastasse o inquietante “Dia Nacional de Prevenção ao Suicídio”, a Justiça francesa está investigando a onda de suicídios na operadora de telefonia France Telecom. Nos últimos anos, 46 funcionários da companhia se mataram – 11 deles apenas em 2010, segundo dados da direção da empresa e dos sindicatos. Infelizmente, é exatamente nos países ricos, em que a ambição e o materialismo se acentuam, onde sobressaem os preconceitos, que o número de óbitos por suicídio é mais aterrorizante. Segundo estimativa dos estudiosos, alguns países do Velho Continente carecem de um “plano nacional para a prevenção de suicídios”, pois é ameaçador o número de mortes auto-infligidas.
Kardec escreveu que o suicídio é contagioso – “o contágio não está nem nos fluidos nem nas atrações; ele está no exemplo que familiariza com a ideia da morte e com o emprego dos meios para que ela se dê; isto é tão verdadeiro que quando um suicídio ocorre de uma certa maneira, não é raro ver vários deles do mesmo gênero se sucederem.”(2) Quinze anos antes da Revolução Francesa, o lançamento do livro “Werther”, do poeta alemão Goethe, provocou uma onda de suicídio na Europa. “Romeu e Julieta, criação de Shakekspeare, assim como tantos Romeus e Julietas da vida real, se matam para vingar-se de seu ambiente e das pessoas que estão ao seu redor”(3)
Albert Camus, em “O Mito de Sísifo”, defende a tese de que só existe um problema filosófico realmente grave: o suicídio - Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder a questão de filosofia.(!?) Que o abonem os escritores Artur Shopenhauer em “As Dores do Mundo”, que induz seu leitor invigilante ao suicídio, e Friedrich Wilhelm Nietzsche, que escreveu em “Assim Falava Zaratustra”, que orar é vergonhoso, afirmando que “a ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.”(!?)
O suicídio é uma ação unicamente humana, e está presente em todas as civilizações. Suas matrizes originais são abundantes e intricadas. Algumas pessoas (re)nascem com certas desordens psiquiátricas, tal como a esquizofrenia e o alcoolismo, o que obviamente acresce o risco de suicídio. Os determinantes do autocídio patológico estão nas ansiedades mentais, desesperanças, desgostos, intranquilidades emocionais, alucinações recorrentes. Podem estar vinculados a falência financeira, vergonha e mácula moral, decepções amorosas, depressão, solidão, medo do futuro, soberba pessoal (recusa a admitir o fracasso) ou exacerbado amor próprio (acreditar que sua imagem não possa sofrer nenhum arranhão ou ferimento). Mas cremos que a exata causa do suicídio não está nas ocorrências infelizes em si, todavia na atitude como a pessoa cede diante do desgost o.
Há autoextermínios por ideias fixas, realizados fora do império da razão, como aqueles, por exemplo, que ocorreram na psicose, na embriaguez; aqui a causa é meramente fisiológica; mas paralelamente “se encontra a categoria, muito mais numerosa, dos suicídios voluntários, realizados com premeditação e com pleno conhecimento de causa.”(4) O Codificador indagou aos espíritos – “que pensar do suicídio que tem por causa o desgosto da vida?”. Os Benfeitores responderam: "Insensatos! Por que não trabalhavam? A existência não lhes seria uma carga!"(5)
Há dois milênios Jesus disse: “Bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados”.(.6) Mas como compreender a conveniência de sofrer para ser feliz? Por que uns já (re)nascem abastados e outros na miséria, sem nada haverem feito (na atual existência) que justifique essas posições? “A certeza da imortalidade pode confortar e gerar resignação, contudo não elucida essas aberrações, que parecem contradizer a justiça Divina. Se Deus é soberanamente bom e justo, não pode agir caprichosamente, nem com parcialidade. Logo, as vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa.”(7)
Na Terra, é preciso ter tranquilidade para viver e conviver, até porque não há tormentos e problemas que perdurem uma eternidade. Lembremos que a vida não assenta em nossos ombros fardos mais pesados que nossos limites de carregá-los. A calma e a resignação hauridas da maneira de avaliar a vida terrestre e da certeza no futuro “dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio.”(8) Porém, a incredulidade, a simples suspeição sobre o futuro espiritual, as opiniões materialistas por fim, são os grandes incitantes ao suicídio e ocasionam o acovardamento moral.
Os Benfeitores Espirituais advertem que o suicídio é comparável a alguém que pula no escuro sobre um despenhadeiro de brasas. Após a morte, descrevem os espíritos , advém ao suicida a sede, a fome, a friagem ou o calor insuportável, o cansaço, a insônia, os irresistíveis desejos impudicos, a promiscuidade e as tempestades com constantes inundações de lamas fétidas. E pior, aos que fogem da luta, lembramos que adiar dívida moral significa reencontrá-la mais tarde (pela reencarnação) com juros somados com cobrança sem moratória.
A Terceira Revelação comprova através das comunicações mediúnicas a posição desventurada com que deparam os suicidas e comprova que nenhuma pessoa infringe impunemente a lei de Deus. O espírita tem, assim, vários motivos a contrapor à ideia do suicídio: a confiança de uma vida futura, em que, sabe-o ele, será de tal maneira mais venturosa quão mais infeliz e abdicada tenha sido na Terra.
É vero! O suicídio é uma porta falsa em que o indivíduo, avaliando alforriar-se de seus incômodos, desmorona em circunstância extremamente mais arruinada. Precipitado violentamente para o Além-túmulo, repleto de fluido vital no corpo aniquilado, revive, continuamente, por longo tempo, os espicaces de consciência e sensações dos últimos momentos, além de permanecer debaixo de penosa tortura, aprisionado aos despojos carnais sob a própria tumba. Como se ainda não bastasse, permanecerá na dimensão espiritual submerso em regiões de penumbras, onde seus martírios serão tenazes, a fim de aprender na dor pungente a respeitar a vida com mais empenho noutras oportunidades reencarnatórias.
Portanto, “a certeza de que, abreviando a vida, chega justamente a um resultado diferente daquele que espera alcançar; que se livra de um mal para ter um pior, mais longo e mais terrível, que não reverá, no outro mundo, os objetos de sua afeição, que queria ir reencontrar; de onde a consequência de que o suicídio está contra os seus próprios interesses. Também o número de suicídios impedidos pelo Espiritismo é considerável, e se pode disso concluir que quando todo o mundo for espírita, não haverá mais suicídios voluntários, e isso chegará mais cedo do que se crê.”(9)
Sabemos que a prece é um apoio para a alma; contudo, não basta: é preciso tenha por base uma fé viva na bondade do Criador. Destarte, quando nos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, urge sobrepor-se a ela, e, quando houvermos conseguido dominar os ímpetos da impaciência, da cólera ou do desespero, devemos dizer, cheios de justa satisfação: "Fui o mais forte."(11)
Ante o impositivo da Lei da fraternidade, precisamos orar pelos nossos irmãos que deram fim às suas vidas, apiedando-nos de suas dores, sem condená-los.

Jorge Hessen
http//jorgehessen.net

Referências bibliográficas:

(1)Análise sobre Estatística dos suicídios que  Kardec fez  do livro “Comédie sociale au dix-neuvième siècle” , autoria de B. Gastineau, publicado na Revista Espírita, julho de 1862
(2)Idem
(3)Disponível em http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geae/argumentos-suicidio-...
(4)Análise sobre Estatística dos suicídios que  Kardec fez  do livro “Comédie sociale au dix-neuvième siècle” , autoria de B. Gastineau, publicado na Revista Espírita, julho de 1862
(5)Kardec , Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed FEB, 2001, perg. 945
(6)Lc. VI, vv. 20 e 21
(7) Kardec , Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, RJ: Ed FEB, 2006, cap V
(8)Idem
(9)Análise sobre Estatística dos suicídios que  Kardec fez  do livro “Comédie sociale au dix-neuvième siècle” , autoria de B. Gastineau, publicado na Revista Espírita, julho de 1862
 (10) Kardec , Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, RJ: Ed FEB, 2006, cap V


28 maio 2012

PENSAR



O dicionarista define o termo “pensamento” como o ato de refletir o processo mental que se concentra em ideias, formulações de conceitos e de juízos. O mecanismo pelo qual se opera o fenômeno do pensamento é enigma que os ilustres acadêmicos não conseguiram, ainda, desvendar.
Diz-se que o Universo é a projeção da Mente Divina e a Terra, qual a arquitetamos em seu aspecto político, econômico e social, é reflexo da Mente Humana ainda delirante sob o tacão do egoísmo e da ambição. A mente, em que pese a indefinição do limitado ajuizamento científico, é locus de toda manifestação vital no planeta. Qual um espelho de luz, segundo os Benfeitores espirituais, emitindo raios e assimilando-os, a mente é a matriz de treva ou de luz, alegria ou infelicidade, paz ou guerra, onde quer que se manifeste.
Para fins elucidativos, assinalemos a estrutura mental estratificada em três níveis, a saber: “consciente” (personalidade) como um sistema de acesso, gravação e reprodução; “subconsciente”, material adquirido na atual experiência física arquivado temporariamente nos arcanos do ser; e, finalmente, o “inconsciente” (individualidade), conteúdo imêmore, de vidas transatas e que pode ser reconstruído por determinados artifícios psicológicos, a exemplo do sonho e da “regressão” hipnótica.
Categoricamente, muito de nossos atos só advém porque pensamos alguma coisa, cobiçamos algo, cremos ou descremos em algo, receamos algo, ou seja, há uma condição individual que gera um tipo de circulação no mundo palpável. Deste modo, é difícil, na prática, vacilar sobre esse fato, logo, a influência do que pensamos sobre o que vivemos é bem maior do que comumente concebemos.
"O pensamento é o gerador dos infracorpúsculos ou das linhas de força do mundo subatômico, criador de: correntes de bem ou de mal, grandeza ou decadência, vida ou morte, segundo a vontade que o exterioriza e dirige."(1) Energia viva, o pensamento desloca, em torno de nós, forças sutis, construindo paisagens ou formas e criando centros magnéticos ou ondas, com os quais emitimos a nossa atuação ou recebemos a atuação dos outros.
A gravidade no campo mental é tão contundente quanto no domínio da experiência física. Estaremos sempre sob o influxo de nossas próprias criações, seja onde for. Pensamos, e produzimos vida ao componente imaginado. Temos, então, pensamentos que geram ações, que geram pensamentos, que geram ações. Ações que geram o mundo, que gera ações. O pensamento do outro que constitui o meu pensamento, que constitui o pensamento do outro.
Nessa dinâmica aprendemos que existem pessoas desregradas infestando todos os pontos da Terra, em vista do caráter evolutivo inferior que ainda ostentam os agrupamentos humanos e, muitas vezes, multidões de espíritos devassos exercitam vampirismo junto dos encarnados incautos, puramente no intento de continuar fixados às sensações do campo físico das quais não se desvencilharam (subjugação). Quem mentalize tramoias com o cofre público, violências de toda ordem, erotismos, infidelidade conjugal, crimes, desventura e excitação, só poderá agir e reagir sob o impacto da desarmonia e do desgosto pessoal.
Cada mente é um verdadeiro mundo de emissão e recepção de ondas magnéticas, e cada qual atrai os seres que se lhe assemelham. Os adúlteros se procuram, os tristes agradam aos tristes, os violentos se reúnem, os bons estabelecem laços recíprocos de trabalho e realização. Sob o ponto de vista espírita, "nosso espírito residirá onde projetarmos nossos pensamentos, alicerces vivos do bem e do mal".(2)
Atraímos pessoas e recursos de conformidade com a natureza de nossas ideias, aspirações, invocações e apelos. Quem se atira ao subterrâneo da desonra, da improbidade, do adultério, será influenciado por espíritos perversos e depravados que os buscarão, seduzidos pelo tipo de suas tendências recrimináveis e absorverão os conteúdos mentais lançados, arremessando sobre os desonestos e infiéis as exalações deteriorantes.
É do alicerce palpável da ideia que despontam as asas dos anjos e as grilhetas dos condenados. Vigiemos os pensamentos, depurando-os no trabalho incessante do bem, a fim de arremetermos de nós a algema capaz de agrilhoar-nos a indigestos artifícios de vida promíscua. Pelo pensamento malsão, escravizamo-nos a genealogias de agonia cruel, sentenciando-nos, muitas vezes, a séculos de perambulação nos carreiros da dor e do autoextermínio. Nossos pensamentos compõem, no fundo, cargas de força eletromagnética, com as quais golpeamos ou acalentamos, protegemos ou danificamos, vitalizamos ou aniquilamos, e que regressam firmemente a nós mesmos, saturadas dos recursos ditosos ou deprimentes com que lhe assinalamos a rota.
É absolutamente inútil proclamarmos o título de “cristãos” sem nenhum empenho de sublimação do pensamento; aliás, é tão arriscado para alguém quanto deter uma qualificação honorífica entre os homens com menosprezo pela responsabilidade que ela inflige. Segundo os Benévolos seres do além, os títulos de fé não se fundam em meras palavras, acobertando-nos deficiências e desvios morais. Anunciam obrigações de melhoria a que não nos será lícito esquivar, sem agravo de constrangimentos.
O pensamento é um núcleo de forças inteligentes, produzindo plasma sutil que, a exteriorizar-se ininterruptamente de nós, harmoniza recursos de concretude às figuras de nossa imaginação, sob o governo de nossos próprios desígnios. Escalemos o plano superior, instilando pensamento de sublimação naqueles que nos cercam. Procuremos a consciência de Jesus para que a nossa consciência lhe retrate a perfeição e a beleza!...
Para Emmanuel, “a mente é o espelho da vida em toda parte. Ergue-se na Terra para Deus, sob a égide do Cristo, à feição do diamante bruto, que, arrancado ao ventre obscuro do solo, avança, com a orientação do lapidário, para a magnificência da luz. Nos seres primitivos, aparece sob a ganga do instinto, nas almas humanas surge entre as ilusões que salteiam a inteligência, e revela-se nos Espíritos Aperfeiçoados por brilhante precioso a retratar a Glória Divina.”(3)

Jorge Hessen

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Referência bibliográfica:

(1)          Xavier, Francisco Cândido. Roteiro, Ditado pelo Espirito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB 1972

(2)          Xavier, Francisco Cândido. Pão Nosso, Ditado pelo Espirito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB 2000,

(3)          Xavier, Francisco Cândido. Pensamento e Vida, Ditado pelo Espirito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB 1990,

21 maio 2012

PERDOAR É TER DOMÍNIO SOBRE A FELICIDADE PARA CONQUISTAR A PAZ.


Todos ansiamos a conquista da paz e procuramos a alegria de viver na Terra. Porém, que tipo de felicidade é essa que quanto mais se caça mais afastada permanece? Para que verdadeiramente conquistemos a paz e a felicidade, é urgente reconhecermos nossas fraquezas morais e colocarmos em prática a melhoria pessoal. Das diferentes angústias que nos afastam da paz e da felicidade, a mágoa tem lugar de relevo. Pensando nisso, deliberamos escrever a respeito do perdão, por considerar ser uma das grandes virtudes, por via das quais conseguiremos a paz e a felicidade cobiçadas.
A ordem “perdoar setenta vezes sete vezes” proferida por Jesus precisa ser aplicada ao limite máximo das nossas experiências cotidianas. Não obstante, excepcionalmente conseguimos perdoar pessoas que nos causaram algum agravo, lesão, perda ou ofensa, pois quase sempre elegemos permanecer zangados, desgostosos, melindrados ou magoados (às vezes por uma vida inteira ou várias encarnações). Há casos em que alguns instantes após a ocorrência da ofensa, quiçá, o agressor que nos danificou já tenha esquecido a expressão infeliz ou o insulto a nós dirigido. No que tange ao nosso sentimento de justiça, experimentamos em cada afronta sofrida  a cólera ou a aversão e diversas ocasiões podemos escolher espaçar no tempo esses sentimentos destrutivos, na forma de rancor, preservando no recesso de nossa mente a aflição, a agonia, a ansiedade por alongados anos.
Jesus ensinou: "Se perdoardes aos homens as ofensas que vos fazem, também vosso Pai celestial vos perdoará os vossos pecados. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará os vossos pecados".(1) Perdoar é atitude sublime, além de imperativo, já que para que sejamos perdoados é mister que absolvamos o ofensor. O Criador tem nos indultado desde sempre. Tomando-se por base o convite ao perdão, ensinado e exemplificado pelo Cristo, aprendamos a não permitir que consternações, injúrias, danos morais de qualquer espécie nos causem repugnâncias, desapontamentos e agressividades delituosas. Temos na figura incomparável do Crucificado o exemplo culminante de clemência.
Infelizmente, quase sempre optamos por não perdoar no sentido mais exato do termo perdão. Criamos imagens sobre a ofensa sofrida e permanecemos reproduzindo a mágoa a todos que atravessam o nosso caminho, e muitas vezes chegamos às lágrimas, nos fazendo de vítimas quase sempre diante de tudo e de todos. Quando não topamos com alguma pessoa disposta a escutar a nossa lamúria, continuamos reprisando de contínuo a história do insulto em nosso coração. Essa sensação nos deteriora as ideias e ocupa um imenso espaço em nossa mente. É uma categoria de auto-obsessão. Com a mente embebida de pensamentos de “vingança e justiça com as próprias mãos”, não alcançamos raciocínios lógicos; não localizamos expedientes criativos para as dificuldades mais simples, arruinamos a aptidão de concentração, nos tornamos irrequietos e enfadados com pequeninas coisas.
“O perdão do Senhor é sempre transformação do mal no bem, com renovação de nossas oportunidades de luta e resgate, no grande caminho da vida. O perdão é em qualquer tempo, sempre um traço de luz conduzindo a nossa vida à comunhão com Jesus.”(2) Mas quando optamos por não perdoar (ou tão somente perdoar da “boca para fora”), denunciamos o outro pela nossa desdita, o que equivale a responsabilizar o próximo pela nossa condição de vítima em infindável amargura. Agindo assim, estamos oferecendo autoridade ao ofensor sobre nós, ou seja, a faculdade de despedaçar a nossa paz, a nossa calma, o nosso prazer de viver (felicidade) e sobretudo a nossa preciosa saúde.
Não desconhecemos que nosso estado emocional conduz a saúde de todos os complexos fisiológicos. Quando sustentamos bons pensamentos e emoções serenas, geramos frequências magnéticas que alcançam todas as estruturas celulares, conduzindo as reações eletrobioquímicas, a seiva imunológica, a divisão das células, a simbiose entre os tecidos, a alimentação, as funções neuropsíquicas, a pujança de ânimo, enfim, o vigor e a harmonia do arcabouço orgânico.
Sem sombra de dúvida, o máximo de benefício do perdão é para quem perdoa incondicionalmente. O infrator que nos ocasionou determinado agravo não está torturado com a nossa situação emocional. “Quem bate esquece” - diz o jargão popular – é verdade! O ofensor, via de regra, esquece a injúria que suscitou o nosso ajuizamento com a consequente condenação. Em boa medida, perdoar constitui desanuviar o coração; arrancar um espinho encravado n’alma, ter domínio sobre  a tão procurada felicidade e conquistar a paz.
Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

Referência bibliográfica:
(1)Mateus, VI: 14-15
(2)Xavier, Francisco Cândido. Pai Nosso, ditado pelo Espírito Meimei, Rio de Janeiro: Ed. FEB,

02 maio 2012

ESTÊVÃO - UM FADÁRIO DE AGONIA E SUBLIME AMOR



 No capítulo I do monumental livro “Paulo e Estevão” há uma descrição da cidade de Corinto, reedificada por Júlio César, localizada ao sul da Grécia entre os mares Jônio e Egeu, no Mediterrâneo. Destruída pelo cônsul romano Múmio em 146 a.C., Corinto era um importante centro produtor de uvas e passas. Homero (autor de Ilíades e de Odisséia) chamou-lhe “Riquíssima Corinto”, pela excelência de suas terras. Também era famosa pelas libertinagens e os romanos aí encontravam campo vasto para suas devassidões.
No ano 34 a.D., Corinto em peso foi atormentada por violenta revolta dos escravos oprimidos. Controlando a situação os romanos elegeram as numerosas famílias judaicas para suas extorsões. Uma delas foi o clã de Jochedeb ben Jared, pai de Abigail (18 anos) e Jeziel (25 anos de idade).
Licínio Minúcio, questor do Império, confiscou a propriedade de Jochedeb e dilacerou-lhe a família. Ben Jared, considerado violador da lei romana, foi condenado e morto sob a violência da chibata em presença dos dois filhos.
Abigail foi amparada por Zacarias ben Anan e sua esposa, e passou a residir em uma granja, na estrada de Jope. Todavia, o jovem Jeziel, após sofrer bárbaro martírio por espancamento, foi recolhido à prisão e depois de 30 dias foi conduzido para o serviço das galeras romanas.
Em Cefalônia, a embarcação recebeu Sérgio Paulo, patrício romano, que se dirigia para a cidade de Citium em missão de natureza política. Durante a viagem, o aristocrático romano adoeceu gravemente. Abriu-se seu corpo em ulcerações, de tal modo que o seus conterrâneos não se arriscaram a tratá-lo. O constrangimento foi imposto ao jovem Jeziel, que valendo-se das orações curou o eminente romano, enquanto ele próprio, Jeziel, contraia a mesma moléstia.
Penhorado em face do cuidado do irmão de Abigail, Sérgio Paulo conseguiu persuadir o comandante da galera, que almejava arremessar Jeziel ao mar no pressuposto de impedir o contágio na embarcação, para deixá-lo em terra, na costa da Palestina. Em terra firme, foi conduzido à Casa do Caminho, em Jerusalém.
Na instituição, recebido por Pedro e Tiago menor, Jeziel foi tratado, e após duas semanas ficou curado e depressa afeiçoara-se ao Pescador como um verdadeiro filho. Por sugestão do velho apóstolo, Jeziel passou a adotar o nome Estevão, em homenagem à velha Acaia, na Grécia.
O filho de Jochedeb era dos arredores de Sebastes e descendia da tribo de Issacar. Analisava as profecias, sobretudo de Isaias, pelas belezas das promessas divinas de que foi portador, anunciando o Messias. Ali, na Casa do Caminho, ficou sabendo que Jesus havia sido crucificado há mais de um ano e, em lágrimas, recordou o profeta: “Levantar-se-á como um arbusto verde, vivendo na ingratidão de um solo árido, onde não haverá graça nem beleza. Carregado de opróbrios e desprezado dos homens, todos lhe voltarão o rosto. Coberto de ignomínias, não merecerá consideração. É que Ele carregará o fardo pesado de nossas culpas e de nossos sofrimentos, tomando sobre si todas as nossas dores.”(1)
Estevão instruiu-se nas anotações de Mateus sobre o Divino Mestre e prontamente se integrou na vida da comunidade cristã. Em pouco tempo tornou-se célebre em Jerusalém. Lembre Emmanuel: “Quando muitos discípulos de Jesus deixavam de ampliar os comentários públicos para além das considerações agradáveis ao judaísmo dominante, ele apresentava à multidão, o Salvador do Mundo, indiferente às lutas que iria provocar, comentando sobre a vida do Crucificado com o seu verbo inflamado de luz.”(2)
O seu primeiro encontro com o futuro “Apóstolo dos Gentios” ocorreu no ano 35, no cenáculo da Casa do Caminho, quando Saulo ali esteve, levado por Sadoc, que o incitava a perseguir "os homens do caminho", cujo prestígio ascendia em Jerusalém. Durante a palestra, o irmão de Abigail leu um trecho das anotações de Mateus, capítulo 10 versículo 6 e 7: “Mas ides antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai dizendo: É chegado o Reino dos Céus.”(3) Explicou que a Boa Nova era a resposta de Deus aos apelos humanos. Moisés foi o condutor, mas, Jesus é o Salvador. Com a Lei éramos servos, com o Evangelho somos filhos livres de um Pai amoroso justo e bom, pregava Estevão.
Saulo o ameaçou com a autoridade do Sinédrio, contudo o palestrante não se atemorizou e redarguiu ao rabino se tivesse alguma acusação legal contra ele, que expusesse e seria obedecido; mas, naquilo que diz respeito a Deus, só ao Criador competia arguir-lhe. Estevão tinha consciência de que o Sinédrio detinha muitas maneiras de fazer-lhe chorar, mas não reconhecia poderes para obrigar-lhe a renunciar ao amor de Jesus Cristo.
Anunciou ao filho de Tarso que aquele templo humilde era construção de fé e não de justas casuísticas. Agastado, Saulo providenciou para que o orador fosse conduzido ao Sinédrio a fim de ser interrogado. Sob o falso testemunho de Neemias, o jovem Estevão foi acusado de blasfemo, caluniador e feiticeiro, porém explicou a todos que não desrespeitava Moisés, mas não havia como deixar de reconhecer a superioridade de Jesus-Cristo, por isso, saberia pagar, pelo Mestre, o preço da mais pura fidelidade.
Saulo, por vingança, na condição de juiz, deliberou a pena de lapidação contra o irmão de sua noiva (Abigail, irmã do réu) encarcerado por dois longos meses. Após a leitura das denúncias, antes de proferir a sentença, Saulo perguntou-lhe se estaria disposto a renegar o Carpinteiro, com o que seria poupada sua vida. A resposta desassombrada do filho de Corinto foi de que nada no mundo o faria renunciar à tutela de Jesus. Morrer por Ele significava uma glória.
No dia assinalado para o apedrejamento, Estevão apresentava barba crescida e maltratada, trazia equimoses (sangue pisado) nas mãos e nos pés. Caminhando vagarosamente, fadigado, foi conduzido às proximidades do altar dos sacrifícios no Templo. Algemado no tronco do suplício, com os pulsos sangrando, pela brutalidade dos soldados, sob o sol abrasador das primeiras horas da tarde, foi cruelmente apedrejado.
Os verdugos eram os emissários das sinagogas das cidades que convergiam ao Templo. Tais carrascos se esmeraram para “resguardar” a cabeça do condenado, a fim de que o abominável espetáculo perdurasse mais tempo. Nesse momento, Estevão pensa em Jesus e ora. O peito se cobre de ferimentos e o sangue flui abundante. Recita o Salmo XXIII: “O Senhor é o meu Pastor, Nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, Guia-me mansamente A águas mui tranquilas, Refrigera minh’alma, Guia-me nas veredas da justiça Por amor do seu nome. Ainda que eu andasse Pelo vale das sombras da morte, Não temeria mal algum, Porque Tu estás comigo... A Tua vara e o Teu cajado me consolam.”...(4). Sentindo a presença de seus amigos espirituais, exclama: "Eis que vejo os céus abertos e o Cristo ressuscitado na grandeza de Deus!".(5)
Recorda a irmã Abigail. Por onde andaria? Que teria sido feito dela? Nunca mais a encontrara. Abigail, noiva de Saulo, e por ele convidada para assistir a execução chegava naquele instante. Ela que não desejava presenciar o espetáculo vil. Tentara mesmo junto a Saulo se não poderia ser outra a sentença ao jovem pregador, a respeito do qual o noivo lhe falara.
Surpresa, reconhece o irmão e ele, ante a visão do Cristo que olhava melancolicamente para Saulo, a reconhece igualmente. Já não tem certeza se ela em espírito ali se apresenta ou se é produto de alguma alucinação, pelas dores que o acometem.
A pedido de Saulo, que não entende como se tornara o verdugo do irmão de sua noiva, Estevão é retirado do poste e conduzido ao gabinete dos sacerdotes. Tanto quanto teve forças, o primeiro mátir do Cristianismo resumiu para Abigail sua história e lançou em sua alma as primeiras sementes da Boa Nova. A irmã lhe apresenta o noivo, Saulo, a quem o moribundo contempla sem ódio e acentua: "Cristo os abençoe... Não tenho no teu noivo um inimigo, tenho um irmão... Saulo deve ser bom e generoso, defendeu Moisés até ao fim..." (6)
A cena é comovedora. Abigail deixara o irmão preso ao poste de martírio em Corinto uma vez e torna a encontrá-lo, em idêntica condição, em Jerusalém. Ora, a pedido dele, conforme o fizera um dia, na sala de torturas. Ele desencarna, em seu regaço.
Estêvão ficaria agora mais junto do cunhado, transmitindo os pensamentos de Jesus. Seria o intermediário entre o Cristo e o Apóstolo dos gentios. Seria ainda o filho de Corinto que, ao lado de Jesus e de Abigail (desencarnada pouco depois do irmão, acometida de febre) viria receber o apóstolo Paulo, liberto dos laços da carne, conduzido por Ananias para a região do Calvário, logo após a sua decapitação ocorrida em Roma.

Jorge Hessen

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Referência bibliográficas:
(1)           Xavier, Francisco Cândido. A Caminho a Luz, ditado pelo espírito Emmanuel, 22ª edição, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1992
(2)           Xavier, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1982
(3)           Mt.10: 6-7
(4)           Salmo cap. XXIII
(5)           Atos 7: 56
(6)           Xavier, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1982