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  • domingo, 4 de julho de 2010

    CERTAME DA IRREFLEXÃO ESPÍRITA



    Lemos reportagem da Revista Veja que nos deixou apreensivos.  Informa a revista que “Uberaba é referência para aqueles que buscam estabelecer uma ponte com a vida após a morte. Nos fins de semana, ônibus de visitantes circulam pela cidade à procura das sessões públicas de psicografia. Quem vai aos centros espíritas da cidade quase sempre passou por grande trauma envolvendo a morte. Perdeu de forma trágica ou inesperada um filho, os pais ou um irmão. No ritual, o médium se comunica com esses parentes falecidos, recebe deles uma mensagem e a transcreve no papel.”(1) (!!!)
    O jornalista diz que os procedimentos são bem parecidos em todos os centros. “Os interessados em receber mensagens do plano espiritual devem preencher uma ficha com dados básicos (nome, parentesco, data de nascimento e de morte) da pessoa com quem deseja se comunicar. Em seguida, o médium se fecha numa sala, onde analisa as fichas e tenta estabelecer contato com os espíritos dos mortos. Depois dessa seleção, senta-se em frente à mesa, concentra-se e começa a psicografar. Em média, de cinco a seis cartas são escritas por sessão. Enquanto ele preenche as páginas em branco – trabalho que demora uma hora e meia, para todas as mensagens –, outros membros do centro discursam aos presentes sobre assuntos da fé e da espiritualidade, com base em passagens dos livros kardecistas. Ao final da psicografia, o médium faz a leitura pública das mensagens. Como os garranchos são incompreensíveis, a leitura é gravada.”(2)
    A matéria jornalística cita os familiares de desencarnados que esperam alguma “notícia”  do além preferentemente do próprio parente falecido. Estão tentando plagiar os trabalhos que Chico realizava com seriedade. Substituem a simplicidade e a espontaneidade dos fenômenos mediúnicos por promessas de supostas consolações advindas do “além”.
    Sabemos que o intercâmbio  com o além-tumba assemelha-se a ligação telefônica (como dizia Chico Xavier), em que na Terra somos apenas o receptor; o “além” decide as circunstâncias , local, horário, duração e o tema. Diante disso,  é bastante inoportuna e reprovável “prestação de serviços sob encomenda” que alguns centros espíritas mal orientados promovem, obtendo “comunicações” mediante o pleito da família do “morto”.  Nem precisaria perder muito tempo para afirmar que existem riscos de vários matizes nesses comportamentos malsãos e de intolerável imprudência.
    Os gênios das trevas estão sempre prontos para a aproveitar da nossa menor fragilidade moral para nos induzir ao erro, ao ridículo, ao risível, equívocos que esmagam qualquer boa intenção.
    Há poucos meses a contestadíssima reportagem da revista Superinteressante sobre Chico Xavier foi criticada oportunamente por seus erros, omissões e parcialidade, mas teve inegáveis méritos; uma leitora informou ter pedido, em uma casa espírita, a comunicação de um avô inventado, e “conseguiu”.  Foi o bastante para a desditosa irmã lançar o anátema sobre toda a Doutrina qualificando-a de charlatanice, para mergulhar voluntariamente na ignorância trevosa, certamente deletéria a si mesma. Obviamente, para o espírita honrado, é uma advertência valiosa: a zombaria dos irmãos encarnados e desencarnados não respeita limites.  
    Uberaba reflete muito do que ocorre nos muitos centros espíritas do País. Os atavismos herdados das existências passadas, em muitos confrades, que se elegeram ou foram eleitos líderes por si mesmos, atualmente, não têm aguentado o peso da responsabilidade pelo exercício da tarefa doutrinária que lhes dizem respeito, e, obsedados com o afã organizacional, se afastam dos conteúdos kardecianos. “Às preocupações em torno da caridade fraternal em referência aos infelizes de todo porte, entregam-se à conquista de patrimônio material e de projeção social, vinculando-se aos políticos de realce, nem sempre portadores de conduta louvável, para partilharem das migalhas do mundo em detrimento das alegrias do reino dos céus.” (3)
    Ao estudo sério das obras básicas, sucede-se a fanfarra e o divertimento em relação ao público que busca as reuniões, “em atitudes mais compatíveis com os espetáculos burlescos do que com a gravidade de que o Espiritismo se reveste. Ouvem-se as mensagens dos Benfeitores espirituais, comovendo-se com as suas dissertações, e logo abandonando-as dominados pela alucinação da frivolidade.” (4) Observamos confrades que escravizam-se ao poder, como se fossem insubstituíveis, iludidos de que as enfermidades e a desencarnação os desalojam das funções que pretendem preservar a qualquer preço. 
    O tecnicismo complicado vem transformando os centros espíritas e órgãos federativos em Empresas dirigidas por executivos “brilhantes”, mas sem qualquer vínculo moral com os postulados doutrinários. Divisões que se vão multiplicando por setores, por especializações dos  profissionais ["associações espíritas"  de magistrados, médicos, jornalistas, pedagogos, psicólogos etc] "ameaçam , em elitismo injustificável, a unidade do corpo doutrinário, olvidando-se daqueles que não possuem títulos terrestres, mas que são pobres de espírito, simples e puros de coração.” (5) 
    O leitor amigo conhece "associações espíritas" de lavadeiras, garis, empregadas domésticas, faxineiras, babás, ambulantes, ascensoristas  ? por que , não?!...
    Muitas instituições kardecianas não disponibilizam tempo (consumido pelo vazio exterior), para a assistência aos sofredores e necessitados que aportam às suas portas, “relegados a segundo plano, nem para a convivência com os pobres e desconhecedores da Doutrina, que são encaminhados a cursos, quando necessitam de uma palavra de conforto moral urgente....Os corações enregelam-se e a fraternidade desaparece." (6)
    Não podemos esquecer que estamos comprometidos, desde antes da reencarnação, com o Espiritismo que agora conhecemos. Tenhamos cuidado! Evitemos conspurcá-lo com atitudes antagônicas aos seus ensinamentos e imposições não compatíveis com o seu corpo doutrinário. “Retornar às bases e vivê-las, qual o fizeram Allan Kardec e todos aqueles que o seguiram desde o primeiro momento, é dever de todo espírita que travou contato com a Terceira Revelação judaico-cristã, porque o tempo urge e a hora é esta, sem lugar para o campeonato da insensatez." (7)(grifei)
    Jorge Hessen
    http://jorgehessen.net



    Referências:

    (1)    Revista Veja. Edição 2170- 13 de junho de 2010
    (2)    idem
    (3)    Trecho de mensagem psicografada por  Divaldo Pereira Franco, na reunião mediúnica da noite de 17 de julho de 2006, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.
    (4)    idem
    (5)    idem
    (6)    idem
    (7)    idem

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