Jorge Hessen
Brasília – DF
Há algo profundamente equivocado — e espiritualmente perigoso — no comportamento de “palestrantes espíritas” que passaram a confundir tribuna com altar e palestra com culto à própria imagem. Não se trata mais de simples deslize humano: trata-se de um desvio sistemático do espírito da Doutrina, travestido de “divulgação”.
Esses “palestrantes”, muitas vezes eloquentes e bem articulados, acreditam sinceramente que estão servindo ao Espiritismo, quando, na realidade, servem-se dele. Usam Kardec como verniz intelectual, Emmanuel como selo moral e Léon Denis como ornamento poético — mas o centro gravitacional da fala é sempre o mesmo: o próprio ego. Isso mesmo! Eu sou o tal!
Allan Kardec foi taxativo ao advertir que a autoridade moral jamais se impõe pela palavra inflamada ou pela admiração pública, mas pela coerência entre discurso e vida. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, é incisivo: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (KARDEC, 2004, cap. XVII, item 4).
Nada mais distante dessa máxima do que “palestrantes”que se alimentam de aplausos, contabilizam seguidores e medem sua “missão” pela quantidade de convites recebidos. A tribuna, nesse caso, deixa de ser instrumento educativo e se transforma em espelho narcísico.
Emmanuel, com a lucidez que lhe é própria, alerta que a vaidade é o teste mais severo do trabalhador espiritual. Não a vaidade grosseira, mas a vaidade bem-educada, que se disfarça de serviço, humildade verbal e falsa abnegação. Vejamos: “A vaidade é um dos últimos véus que o espírito se decide a rasgar, porque sabe ocultar-se sob a aparência do bem” (EMMANUEL, 2010, p. 112).
É exatamente aí que reside a ingenuidade — ou a presunção — desses “palestrantes”: acreditam que podem falar de humildade enquanto cultivam autoadmiração, pregar desapego enquanto constroem e amontoam muitos bens de luxo, denunciar o orgulho alheio enquanto protegem a própria prepotência com extremo zelo.
O resultado é devastador para o movimento espírita. O público passa a confundir retórica com elevação, carisma com autoridade moral. Forma-se um “clero informal”, não oficial, mas socialmente reconhecido — algo que Kardec combateu desde a gênese da Doutrina ao rejeitar qualquer estrutura sacerdotal, hierárquica ou personalista.
Léon Denis, herdeiro fiel do pensamento kardequiano, foi direto ao ponto ao afirmar que o pretenso “palestrante” deve desaparecer para que a ideia sobreviva. Ele diz: “O obreiro sincero não busca o brilho pessoal; sabe que, quando o homem aparece mais que a verdade, a verdade começa a eclipsar-se” (DENIS, 2001, p. 87).
No entanto, o que se vê hoje são expositores que se tornam maiores que a mensagem, mais comentados que o conteúdo, mais celebrados que a Doutrina. O Espiritismo, então, deixa de ser escola de consciência para tornar-se palco de personalidades.
Não se trata de negar o valor da boa oratória, nem de exigir silêncio monástico dos divulgadores. Trata-se de recordar o óbvio que muitos parecem ter esquecido: ninguém é indispensável ao Espiritismo. A Doutrina sobreviveu sem esses “palestrantes” antes deles nascerem — e sobreviverá depois que as suas máscaras caírem no túmulo.
A tribuna espírita não foi criada para fabricar ídolos, mas para formar e despertar consciências. Quando alimenta o ego mais do que esclarece o espírito, ele trai sua finalidade, ainda que envolta em ocas e belas palavras e citações corretas.
Talvez, no fim, a maior ingenuidade desses “palestrantes” seja esta: acreditar que o plano espiritual endossa aquilo que apenas o público aplaude. E como já dizia Augusto dos Anjos no poema "Versos Íntimos": "A mão que afaga é a mesma que apedreja".
Pensemos nisso!
Referências Bibliográfica:
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 124. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
DENIS, Léon. O Espiritismo na Arte. 7. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001.
EMMANUEL. Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.
