Jorge Hessen
Brasília - DF
A história humana
demonstra que o poder, quando dissociado da consciência moral, converte-se em
instrumento de opressão. Regimes autoritários, ideologias totalizantes e
estruturas burocráticas desumanizadas não surgem de forma espontânea, mas se
desenvolvem a partir de uma inversão profunda dos valores éticos que regem a
vida social.
A Doutrina Espírita adverte
que o verdadeiro progresso é simultaneamente intelectual e moral. Quando esse
equilíbrio se rompe, a inteligência passa a servir à dominação, e não à
justiça.
Porque a lei moral é
anterior a qualquer sistema jurídico humano. Em O Livro dos Espíritos, afirma
categoricamente: “A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um”
(KARDEC, 2013, q. 875).
Quando o poder ignora
essa lei, ele deixa de ser instrumento de ordem e passa a ser mecanismo de
violência legitimada. Não se trata, portanto, apenas de erro administrativo,
mas de desvio moral estrutural.
Essa perspectiva
aproxima-se da noção moderna de que certas estruturas de poder são ocupadas por
indivíduos incapazes de empatia, convertendo o Estado em aparelho de
dominação psicológica e simbólica.
Emmanuel aprofunda essa
análise ao alertar para o perigo da inteligência divorciada do sentimento. Em O
Consolador, lemos: “A inteligência sem o sentimento transforma-se em
instrumento de destruição” (EMMANUEL, 2013, q. 247).
Aqui se encontra um dos
pontos centrais da patologia do poder: indivíduos altamente racionais, porém moralmente
vazios, utilizam o discurso da justiça, da igualdade ou do bem coletivo como
retórica de controle. O mal não se apresenta como brutalidade explícita,
mas como norma administrativa.
Nesse cenário, a consciência
individual é progressivamente anulada em favor da obediência cega, fenômeno
amplamente observado nos dias de hoje por aqui.
Sabemos que nenhuma civilização sobrevive sustentada
apenas pelo avanço técnico. Leon Denis afirma: “O progresso material pode
acelerar a queda de uma sociedade quando não é acompanhado pelo progresso moral”
(DENIS, 2005, p. 312).
Essa afirmação revela que
a decadência social não é acidental, mas consequência direta da substituição da
ética pela utilidade e da virtude pelo pragmatismo político.
Quando o poder passa a
premiar a astúcia e a punir a retidão, estabelece-se um estado de patologia
coletiva e subjugação generalizada, no qual o mal deixa de ser exceção e
passa a ser método.
A Doutrina Espírita não
se limita à denúncia. Ela aponta caminhos. Kardec ensina que o
aperfeiçoamento das instituições depende da regeneração dos indivíduos.
Emmanuel reforça que a transformação social começa na reforma íntima, e
Léon Denis insiste que a educação moral é o único antídoto duradouro contra
a tirania.
Assim, combater a
patologia do poder não é apenas substituir governantes, mas também restaurar a
consciência moral como eixo da vida pública.
Portanto, a degeneração
do poder é, antes de tudo, uma enfermidade moral. Sistemas injustos são reflexo
de consciências adoecidas. A Doutrina Espírita oferece uma chave interpretativa
profunda ao demonstrar que o verdadeiro critério de legitimidade do poder não é
a força, nem a legalidade formal, mas a fidelidade à lei moral.
Onde a consciência é obstruída
, o poder adoece. Onde falta moral, a justiça se corrompe. E qualquer semelhança com cenário social coevo
do Brasil não será mera coincidência.
(*) Termo criado pelo psiquiatra polonês Andrzej Łobaczewski, define um sistema de governo em que uma minoria psicopata assume o controle, impondo sua patologia à sociedade e gerando profunda injustiça social. É um conceito central da ponerologia,
estudo que analisa como indivíduos com transtornos de personalidade influenciam
o poder, resultando em regimes autoritários, repressão, propaganda ideológica
simplista e violência
Referências bibliográfica:
DENIS, Léon. O problema
do ser, do destino e da dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
EMMANUEL. O Consolador.
Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
