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  • 29 de jan. de 2026

    PATOLOGIA DO PODER E DEGENERAÇÃO MORAL - UMA REFLEXÃO KARDECIANA





    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    A história humana demonstra que o poder, quando dissociado da consciência moral, converte-se em instrumento de opressão. Regimes autoritários, ideologias totalizantes e estruturas burocráticas desumanizadas não surgem de forma espontânea, mas se desenvolvem a partir de uma inversão profunda dos valores éticos que regem a vida social.

    A Doutrina Espírita adverte que o verdadeiro progresso é simultaneamente intelectual e moral. Quando esse equilíbrio se rompe, a inteligência passa a servir à dominação, e não à justiça.

    Porque a lei moral é anterior a qualquer sistema jurídico humano. Em O Livro dos Espíritos, afirma categoricamente: “A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um” (KARDEC, 2013, q. 875).

    Quando o poder ignora essa lei, ele deixa de ser instrumento de ordem e passa a ser mecanismo de violência legitimada. Não se trata, portanto, apenas de erro administrativo, mas de desvio moral estrutural.

    Essa perspectiva aproxima-se da noção moderna de que certas estruturas de poder são ocupadas por indivíduos incapazes de empatia, convertendo o Estado em aparelho de dominação psicológica e simbólica.

    Emmanuel aprofunda essa análise ao alertar para o perigo da inteligência divorciada do sentimento. Em O Consolador, lemos: “A inteligência sem o sentimento transforma-se em instrumento de destruição” (EMMANUEL, 2013, q. 247).

    Aqui se encontra um dos pontos centrais da patologia do poder: indivíduos altamente racionais, porém moralmente vazios, utilizam o discurso da justiça, da igualdade ou do bem coletivo como retórica de controle. O mal não se apresenta como brutalidade explícita, mas como norma administrativa.

    Nesse cenário, a consciência individual é progressivamente anulada em favor da obediência cega, fenômeno amplamente observado nos dias de hoje por aqui.

    Sabemos que  nenhuma civilização sobrevive sustentada apenas pelo avanço técnico. Leon Denis afirma: “O progresso material pode acelerar a queda de uma sociedade quando não é acompanhado pelo progresso moral” (DENIS, 2005, p. 312).

    Essa afirmação revela que a decadência social não é acidental, mas consequência direta da substituição da ética pela utilidade e da virtude pelo pragmatismo político.

    Quando o poder passa a premiar a astúcia e a punir a retidão, estabelece-se um estado de patologia coletiva e subjugação generalizada, no qual o mal deixa de ser exceção e passa a ser método.

    A Doutrina Espírita não se limita à denúncia. Ela aponta caminhos. Kardec ensina que o aperfeiçoamento das instituições depende da regeneração dos indivíduos. Emmanuel reforça que a transformação social começa na reforma íntima, e Léon Denis insiste que a educação moral é o único antídoto duradouro contra a tirania.

    Assim, combater a patologia do poder não é apenas substituir governantes, mas também restaurar a consciência moral como eixo da vida pública.

    Portanto, a degeneração do poder é, antes de tudo, uma enfermidade moral. Sistemas injustos são reflexo de consciências adoecidas. A Doutrina Espírita oferece uma chave interpretativa profunda ao demonstrar que o verdadeiro critério de legitimidade do poder não é a força, nem a legalidade formal, mas a fidelidade à lei moral.

    Onde a consciência é obstruída , o poder adoece. Onde falta moral, a justiça se corrompe. E       qualquer semelhança com cenário social coevo do Brasil não será mera coincidência.

     

    (*)  Termo criado pelo psiquiatra polonês Andrzej Łobaczewski, define um sistema de governo em que uma minoria psicopata assume o controle, impondo sua patologia à sociedade e gerando profunda injustiça social. É um conceito central da ponerologia, estudo que analisa como indivíduos com transtornos de personalidade influenciam o poder, resultando em regimes autoritários, repressão, propaganda ideológica simplista e violência

     

    Referências bibliográfica:

     

    DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

    EMMANUEL. O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.