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  • 23 de jan. de 2026

    “AUTOGRATIFICAÇÃO SEXUAL”, AUTODOMÍNIO E EQUILÍBRIO ESPIRITUAL NUMA ABORDAGEM CONSCIENTE


     

    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    A sexualidade em si mesma permanece como um dos temas mais sensíveis — e frequentemente mal compreendidos — no movimento espírita. Entre heranças de moral religiosa repressiva e leituras modernas excessivamente permissivas, muitos espíritas sinceros encontram dificuldade em adotar uma postura verdadeiramente coerente com a filosofia moral da Codificação.

    O  tema onanismo, em particular, costuma ser cercado por silêncios constrangedores, culpas injustificadas ou banalizações acríticas. Proponho uma abordagem serena, doutrinariamente fundamentada e espiritualmente responsável, à luz dos ensinamentos de Allan Kardec e dos desdobramentos ético-filosóficos apresentados por alguns Benfeitores.

    Vejamos, a Doutrina Espírita não demoniza o corpo nem sacraliza os instintos, mas os compreende como instrumentos da evolução do Espírito. Kardec jamais classificou práticas sexuais específicas como “impuras” em si mesmas. O critério espírita é claro: “o valor moral dos atos reside na intenção e nas consequências que produzem sobre o próprio Espírito” (1).

    A sexualidade é força natural, poderosa e inevitável. Como toda energia, pode ser educada, orientada e sublimada, ou, quando mal administrada, tornar-se fator de desequilíbrio mento espiritual.

    Nesse contexto, a autogratificação sexual não é tema central da moral espírita, nem define, por si só, o grau evolutivo do indivíduo. Nesse sentido, a contribuição de André Luiz é essencial para compreender o tema sem fantasias punitivas. Em suas obras, o enfoque não é o ato isolado, mas o campo mental que o sustenta.

    Em Nos Domínios da Mediunidade, ele esclarece que “a mente cria formas, hábitos e sintonias, e que a repetição de estímulos sexuais associados a imagens inferiores pode gerar fixações psíquicas e desgaste do campo vital, sobretudo quando há compulsão ou automatismo” (2). Todavia, André Luiz não condena a sexualidade nem cria interditos absolutos. O alerta que faz recai sobre: a viciação mental, a perda do autodomínio, a dependência emocional ou energética.

    Recorrendo ao Espírito Emmanuel, com seu estilo ético e pedagógico, ele nos diz que “a evolução do Espírito não se dá pela negação do desejo, mas pela sua educação” (3). Assim, o problema moral não está na função fisiológica, mas na escravidão psicológica. Quando a prática sexual — solitária ou não — passa a dominar a vontade, substituir afetos, gerar culpa recorrente ou impedir o crescimento espiritual, ela se transforma em obstáculo evolutivo.

    Por outro lado, o Mentor de Chico Xavier critica implicitamente a repressão e os excessos de culpa, lembrando que a repressão neurótica fragiliza o caráter; o moralismo externo não gera virtude, até porque  a transformação moral exige lucidez, não medo, pois a  consciência reta nasce do equilíbrio entre disciplina e compreensão de si mesmo.

    Recorro ao sábio Léon Denis, que oferece a chave filosófica mais profunda para o tema. Em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, ele ensina que “o progresso espiritual ocorre quando o Espírito se torna senhor de si, e não escravo de impulsos ou convenções” (4).

    As paixões para Denis não são más em si, porém , tornam-se nocivas quando governam o indivíduo. Considerando que a virtude nasce do autogoverno consciente e aplicando esse princípio à autogratificação sexual, compreende-se que o ato ocasional não define inferioridade moral, mas o vício indica desequilíbrio interior. Mas ressalta que a liberdade espiritual cresce com o autodomínio, não com proibições artificiais, posto que o Espírito evolui quando tem a liberdade de escolher, não quando apenas obedece temerosamente.

    A rigor, um dos pontos mais negligenciados no tema é que a culpa exagerada costuma gerar mais prejuízos espirituais do que o comportamento em si. O Codificador lembra que  “Deus não julga por códigos externos, mas pelo esforço sincero no bem” (5).  Em verdade, a autocondenação compulsiva perturba o campo mental,  fragiliza o perispírito e obviamente favorece estados de obsessão intensa.

    Em síntese, compreendo que  esse não é tema central da moral espírita, porém quero destacar que o Espiritismo não propõe vigilância neurótica, mas autoconhecimento lúcidoPosso, pois, assegurar com serenidade que o onanismo não é um desvio moral; logo, não define o valor do Espírito. Contudo, também sei que pode tornar-se problemática quando compulsiva, degradante ou alienante, mas o critério será sempre o equilíbrio, a intenção e os efeitos íntimos.

    Do exposto, refletimos que a questão espiritual fundamental não é: “Isso é permitido?”, mas sim: “Isso me fortalece espiritualmente ou me aprisiona?”. Desta forma, essa é a ética da liberdade responsável ensinada pela Doutrina dos Espíritos.

     

    Referências bibliográficas:

    1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013. Questões 629, 711–712.
    2. XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Nos Domínios da Mediunidade. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. cap. XX.
    3. XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Vida e Sexo. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.
    4. DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011. cap. XXIII.
    5. KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 59. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Primeira Parte, cap. III.