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  • 22 de jan. de 2026

    A VISÃO DO “SOCIALISMO” SEGUNDO LÉON DENIS

     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

    A relação entre Espiritismo e questões sociais sempre foi motivo de debates intensos no movimento espírita. Em meio a desigualdades econômicas, tensões políticas e disputas ideológicas, surge a pergunta: seria o Espiritismo compatível com o socialismo?

    Para responder a essa questão de forma equilibrada e fiel à Doutrina Espírita, é forçoso recorrer ao pensamento de Léon Denis, um de seus mais lúcidos continuadores. Ele não se afastou da realidade social de seu tempo. Ao contrário, enfrentou com coragem intelectual os dilemas provocados pelo capitalismo industrial e pelo avanço do socialismo materialista, oferecendo uma leitura doutrinária profunda da chamada “questão social”.

    Denis reconhece a injustiça social, a exploração do trabalhador e a concentração abusiva de riquezas, mas afirma que tais males têm origem mais profunda: o egoísmo humano. Para ele, nenhuma reforma social será eficaz se ignorar a transformação moral do indivíduo. Leis, sistemas políticos e modelos econômicos podem atenuar abusos, mas não regeneram consciências. O Espiritismo ensina que o progresso verdadeiro começa no íntimo do ser e se projeta naturalmente no campo social.

    Em sua obra Socialismo e Espiritismo, Léon Denis faz uma distinção clara entre duas concepções de socialismo.

    O socialismo materialista, predominante em seu tempo e atualmente, nega a existência da alma, rejeita a reencarnação e fundamenta-se na luta de classes. Para Denis, essa visão conduz inevitavelmente ao conflito permanente, pois substitui a fraternidade pelo antagonismo e a responsabilidade moral pela coerção coletiva.

    Já um socialismo de inspiração espiritual, voltado à solidariedade, à justiça e à cooperação, poderia ser aceitável desde que não anulasse o livre-arbítrio nem a lei de causa e efeito. Denis alerta, contudo, que mesmo esse modelo se torna perigoso quando atribui à coletividade um poder redentor que pertence à consciência individual.

    Léon Denis é categórico ao afirmar que o Espiritismo não se identifica com partidos ou ideologias. A Doutrina Espírita não é de direita nem de esquerda, pois sua referência não está nos sistemas humanos, mas na Lei Divina.

    Isso não significa neutralidade moral diante da injustiça. O Espiritismo condena privilégios injustos, exploração econômica e indiferença social. Contudo, também rejeita soluções violentas, autoritárias ou dogmáticas, ainda que apresentadas sob o discurso da igualdade.

    O critério espírita não é ideológico, mas ético: toda proposta deve ser avaliada à luz da fraternidade, da responsabilidade individual e do respeito à liberdade espiritual.


    Embora Léon Denis não tenha conhecido o esquerdismo contemporâneo, seus princípios permitem uma reflexão atual. Grande parte das correntes modernas de esquerda adota um discurso fortemente materialista, reduzindo o ser humano a fatores econômicos, sociais ou identitários.

    À luz do Espiritismo, essa visão é inconciliável. O homem não é produto exclusivo do meio; é Espírito imortal, responsável por suas escolhas ao longo de múltiplas existências. Negar essa realidade conduz a um determinismo que enfraquece a noção de responsabilidade moral.

    Além disso, o moralismo ideológico, a intolerância ao pensamento divergente e a crença de que os fins justificam os meios são duramente criticados por Denis, que sempre combateu qualquer forma de dogmatismo, seja religioso, seja político.

    Para Léon Denis, a verdadeira revolução é espiritual. A justiça social duradoura não nasce da imposição externa, mas da transformação íntima dos indivíduos. A caridade, a fraternidade e a solidariedade são conquistas da consciência, não decretos do Estado.

    Isso não implica passividade diante do sofrimento alheio. Ao contrário, o Espiritismo conclama à ação no bem, à assistência aos necessitados e ao combate às injustiças, mas sempre orientado pelo amor, pela razão e pela elevação moral.

    Portanto, o pensamento de Léon Denis oferece ao movimento espírita um caminho seguro diante das tensões políticas contemporâneas. Ele reconhece a legitimidade da busca por justiça social, mas rejeita soluções baseadas no materialismo, no coletivismo absoluto ou na violência ideológica.

    O Espiritismo é profundamente social, mas sua força transformadora reside na reforma íntima do ser humano. Sem essa base espiritual, qualquer projeto político corre o risco de apenas substituir antigas opressões por novas formas de tirania.

    Cabe, portanto, ao espírita consciente atuar no mundo com responsabilidade social, sem submeter a Doutrina a rótulos ideológicos, lembrando sempre que o progresso da humanidade começa no progresso moral de cada Espírito.