Jorge Hessen
Brasília-DF
A relação entre
Espiritismo e questões sociais sempre foi motivo de debates intensos no
movimento espírita. Em meio a desigualdades econômicas, tensões políticas e
disputas ideológicas, surge a pergunta: seria o Espiritismo
compatível com o socialismo?
Para responder a essa
questão de forma equilibrada e fiel à Doutrina Espírita, é forçoso recorrer ao
pensamento de Léon Denis, um de seus mais lúcidos continuadores. Ele não se
afastou da realidade social de seu tempo. Ao contrário, enfrentou com coragem
intelectual os dilemas provocados pelo capitalismo industrial e pelo avanço
do socialismo materialista, oferecendo uma leitura doutrinária profunda da
chamada “questão social”.
Denis reconhece a
injustiça social, a exploração do trabalhador e a concentração abusiva de
riquezas, mas afirma que tais males têm origem mais profunda: o egoísmo
humano. Para ele, nenhuma reforma social será eficaz se ignorar a
transformação moral do indivíduo. Leis, sistemas políticos e modelos econômicos
podem atenuar abusos, mas não regeneram consciências. O Espiritismo ensina
que o progresso verdadeiro começa no íntimo do ser e se projeta naturalmente no
campo social.
Em sua obra Socialismo
e Espiritismo, Léon Denis faz uma distinção clara entre duas concepções de
socialismo.
O socialismo
materialista, predominante em seu tempo e atualmente, nega a existência da
alma, rejeita a reencarnação e fundamenta-se na luta de classes. Para Denis,
essa visão conduz inevitavelmente ao conflito permanente, pois substitui
a fraternidade pelo antagonismo e a responsabilidade moral pela coerção
coletiva.
Já um socialismo de
inspiração espiritual, voltado à solidariedade, à justiça e à cooperação,
poderia ser aceitável desde que não anulasse o livre-arbítrio nem a lei de
causa e efeito. Denis alerta, contudo, que mesmo esse modelo se torna
perigoso quando atribui à coletividade um poder redentor que pertence à
consciência individual.
Léon Denis é categórico
ao afirmar que o Espiritismo não se identifica com partidos ou ideologias.
A Doutrina Espírita não é de direita nem de esquerda, pois sua
referência não está nos sistemas humanos, mas na Lei Divina.
Isso não significa
neutralidade moral diante da injustiça. O Espiritismo condena
privilégios injustos, exploração econômica e indiferença social. Contudo,
também rejeita soluções violentas, autoritárias ou dogmáticas, ainda que
apresentadas sob o discurso da igualdade.
O critério espírita não é
ideológico, mas ético: toda proposta deve ser avaliada à luz da fraternidade,
da responsabilidade individual e do respeito à liberdade espiritual.
Embora Léon Denis não
tenha conhecido o esquerdismo contemporâneo, seus princípios permitem uma
reflexão atual. Grande parte das correntes modernas de esquerda adota um
discurso fortemente materialista, reduzindo o ser humano a fatores econômicos,
sociais ou identitários.
À luz do Espiritismo,
essa visão é inconciliável. O homem não é produto exclusivo do meio; é Espírito
imortal, responsável por suas escolhas ao longo de múltiplas existências. Negar
essa realidade conduz a um determinismo que enfraquece a noção de
responsabilidade moral.
Além disso, o moralismo
ideológico, a intolerância ao pensamento divergente e a crença de que os fins
justificam os meios são duramente criticados por Denis, que sempre combateu
qualquer forma de dogmatismo, seja religioso, seja político.
Para Léon Denis, a
verdadeira revolução é espiritual. A justiça social duradoura não nasce da
imposição externa, mas da transformação íntima dos indivíduos. A caridade, a
fraternidade e a solidariedade são conquistas da consciência, não decretos do
Estado.
Isso não implica
passividade diante do sofrimento alheio. Ao contrário, o Espiritismo conclama à
ação no bem, à assistência aos necessitados e ao combate às injustiças, mas
sempre orientado pelo amor, pela razão e pela elevação moral.
Portanto, o pensamento de
Léon Denis oferece ao movimento espírita um caminho seguro diante das tensões
políticas contemporâneas. Ele reconhece a legitimidade da busca por justiça
social, mas rejeita soluções baseadas no materialismo, no coletivismo absoluto
ou na violência ideológica.
O Espiritismo é
profundamente social, mas sua força transformadora reside na reforma íntima do
ser humano. Sem essa base espiritual, qualquer projeto político corre o risco
de apenas substituir antigas opressões por novas formas de tirania.
Cabe, portanto, ao
espírita consciente atuar no mundo com responsabilidade social, sem submeter a
Doutrina a rótulos ideológicos, lembrando sempre que o progresso da humanidade
começa no progresso moral de cada Espírito.
