Jorge Hessen
Brasília - DF
Com certeza absoluta um
Centro Espírita não se estabelece para curar corpos físicos, embora
possa eventualmente auxiliar indiretamente na saúde orgânica. Mas a sua
finalidade essencial é a cura da alma, isto é, o esclarecimento da
consciência; a educação do sentimento; a transformação e reorganização moral do
Espírito imortal.
Quando a Casa Espírita é
reduzida a um “pronto-socorro de curas físicas”, perde sua função
libertadora da consciência humana e se converte em clínica de
espetacularização de cirurgia de emergência (sempre inócua para a alma) e
buscada apenas quando a doença física incomoda o enfermo da alma. No Brasil existe
até uma estranhíssima e pretensa “cidade espírita” que oferece
essas práticas “milagrosas” de “cura física” (ou cura tudo?).
A busca pelo alívio do
sofrimento físico sempre acompanhou a história religiosa da humanidade. No
movimento espírita, entretanto, tal busca frequentemente assume contornos
místicos equivocados, quando o Centro Espírita é confundido com
clínica de cura orgânica, espaço de promessas terapêuticas ou solução
imediata para dores do corpo.
Allan Kardec jamais
apresentou o Espiritismo como sistema místico de curas físicas. Ao
contrário, definiu-o como doutrina filosófica de consequências morais,
destinada ao progresso do Espírito imortal. Em O Evangelho segundo o
Espiritismo, é categórico: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua
transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.”
A cura do corpo, portanto, não constitui critério de saúde espiritual. Para
Kardec, sem reforma íntima não há libertação, apenas alívio transitório
(1).
O centro espírita, nessa
perspectiva, é escola para despertamento da consciência lúcida, e não
dispensário de milagrosas cirurgias do além. A propósito, veio-nos à
mente o depoimento de Inácio Bittencourt que admite: “Em minha última
romagem no campo físico, mobilizando os poucos préstimos de minha boa-vontade,
devotei-me ao serviço da cura mediúnica; no entanto, desencarnado agora,
observo que a turba de doentes, que na Terra me feria a visão, aqui continua da
mesma sorte, desarvorada e sofredora.” (2)
Essa constatação aponta
uma realidade dramática no além-túmulo: “curaram-se” corpos, mas não
consciências. A dor que não educa o Espírito apenas muda de plano,
prosseguindo no mundo espiritual sob outras formas. O texto de Inácio denuncia,
com sobriedade, a ineficácia de práticas de curas físicas desvinculadas da
responsabilidade moral.
André Luiz, amplia essa
reflexão ao descrever, em Nosso Lar, vastas regiões espirituais habitadas
por Espíritos profundamente enfermos, muitos deles frequentadores assíduos de
templos religiosos na Terra (3).
A doença no além
não é do corpo, mas do remorso não dissolvido; da culpa não reparada; do
apego aos vícios morais e da ignorância espiritual e doutrinária persistente.
Em Missionários da Luz,
ainda André Luiz reforça que a assistência espiritual verdadeira
exige educação da alma e que o passe, isolado de esforço
íntimo, tem efeito limitado (4). grifei
Emmanuel aprofunda o tema
ao reinterpretar a dor não como punição, mas como instrumento pedagógico da
Lei Divina. Em O Consolador, responde de forma direta: “A dor é
uma bênção que esclarece.” (5)
Quando a dor física é
suprimida sem que o Espírito compreenda suas causas morais, perde-se uma
oportunidade valiosa de crescimento. Não estamos aqui desaprovando o eventual
socorro físico, mas alertando que socorrer não é isentar o doente da
responsabilidade espiritual.
Percebemos o risco da distorção assistencialista, pois quando o centro espírita se converte exclusivamente em espaço de filas por passes, promessas implícitas de “cura”, dependência emocional do atendimento espiritual, ele corre o risco de alimentar um misticismo milagreiro infantilizado, onde o doente espera ser curado, mas não se dispõe a se transformar moralmente. Por essas e outras, o Codificador já advertia contra esse desvio ao afirmar que o Espiritismo não veio suprimir o esforço pessoal, mas sim esclarecer o dever moral (6).
Do exposto reafirmamos
que o Centro Espírita não existe para curar corpos físicos, embora possa
contribuir para o equilíbrio orgânico. Sua missão essencial é curar a alma,
educar o Espírito e promover a libertação interior.
Toda cura que não alcance
o despertamento da consciência lúcida é provisória, e toda dor que educa
o Espírito é libertadora.
Nosso artigo é uma reflexão sobre a maturidade doutrinária, a fim de evitarmos os espetáculos da cura e investirmos mais nos instrumentos pedagógicos para a necessária transformação moral.
Referências
bibliográficas:
1. KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVII, item 4.
2. XAVIER,
Francisco Cândido; Espíritos diversos. Vozes do Grande Além. Rio de
Janeiro: FEB
3. XAVIER,
Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, cap. 1–3.
4. XAVIER,
Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB,
cap. 4.
5. XAVIER,
Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, questão
100.
6. KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, leis morais.
