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  • 25 de jan. de 2026

    CENTRO ESPÍRITA NÃO É CLÍNICA MÉDICA PARA ESPETÁCULOS DE CURA FÍSICA

     


    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    Com certeza absoluta um Centro Espírita não se estabelece para curar corpos físicos, embora possa eventualmente auxiliar indiretamente na saúde orgânica. Mas a sua finalidade essencial é a cura da alma, isto é, o esclarecimento da consciência; a educação do sentimento; a transformação e reorganização moral do Espírito imortal.

    Quando a Casa Espírita é reduzida a um “pronto-socorro de curas físicas”, perde sua função libertadora da consciência humana e se converte em clínica de espetacularização de cirurgia de emergência (sempre inócua para a alma) e buscada apenas quando a doença física incomoda o enfermo da alma. No Brasil existe até uma estranhíssima e pretensa “cidade espírita”  que oferece essas práticas “milagrosas”  de “cura física” (ou cura tudo?).

    A busca pelo alívio do sofrimento físico sempre acompanhou a história religiosa da humanidade. No movimento espírita, entretanto, tal busca frequentemente assume contornos  místicos equivocados, quando o Centro Espírita é confundido com clínica de cura orgânica, espaço de promessas terapêuticas ou solução imediata para dores do corpo.

    Allan Kardec jamais apresentou o Espiritismo como sistema místico de curas físicas. Ao contrário, definiu-o como doutrina filosófica de consequências morais, destinada ao progresso do Espírito imortal. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, é categórico: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.” A cura do corpo, portanto, não constitui critério de saúde espiritual. Para Kardec, sem reforma íntima não há libertação, apenas alívio transitório (1).

    O centro espírita, nessa perspectiva, é escola para despertamento da consciência lúcida, e não dispensário de milagrosas cirurgias do além. A propósito, veio-nos à mente o depoimento de Inácio Bittencourt que admite: “Em minha última romagem no campo físico, mobilizando os poucos préstimos de minha boa-vontade, devotei-me ao serviço da cura mediúnica; no entanto, desencarnado agora, observo que a turba de doentes, que na Terra me feria a visão, aqui continua da mesma sorte, desarvorada e sofredora.” (2)

    Essa constatação aponta uma realidade dramática no além-túmulo: “curaram-se” corpos, mas não consciências. A dor que não educa o Espírito apenas muda de plano, prosseguindo no mundo espiritual sob outras formas. O texto de Inácio denuncia, com sobriedade, a ineficácia de práticas de curas físicas desvinculadas da responsabilidade moral.

    André Luiz, amplia essa reflexão ao descrever, em Nosso Lar, vastas regiões espirituais habitadas por Espíritos profundamente enfermos, muitos deles frequentadores assíduos de templos religiosos na Terra (3).

    A doença no além  não é do corpo, mas do remorso não dissolvido; da culpa não reparada; do apego aos vícios morais e da ignorância espiritual e doutrinária persistente.

    Em Missionários da Luz, ainda André Luiz  reforça que a assistência espiritual verdadeira exige educação da alma e que o passe, isolado de esforço íntimo, tem efeito limitado (4). grifei

    Emmanuel aprofunda o tema ao reinterpretar a dor não como punição, mas como instrumento pedagógico da Lei Divina. Em O Consolador, responde de forma direta: “A dor é uma bênção que esclarece.” (5)

    Quando a dor física é suprimida sem que o Espírito compreenda suas causas morais, perde-se uma oportunidade valiosa de crescimento. Não estamos aqui desaprovando o eventual socorro físico, mas alertando que socorrer não é isentar  o doente da responsabilidade espiritual.

    Percebemos  o risco da distorção assistencialista, pois quando o centro espírita se converte exclusivamente em espaço de filas por passes, promessas implícitas de “cura”, dependência emocional do atendimento espiritual, ele corre o risco de alimentar um misticismo milagreiro infantilizado, onde o doente espera ser curado, mas não se dispõe a se transformar moralmentePor essas e outras,  o Codificador já advertia contra esse desvio ao afirmar que o Espiritismo não veio suprimir o esforço pessoal, mas sim esclarecer o dever moral (6).

    Do exposto reafirmamos que o Centro Espírita não existe para curar corpos físicos, embora possa contribuir para o equilíbrio orgânico. Sua missão essencial é curar a alma, educar o Espírito e promover a libertação interior.

    Toda cura que não alcance o despertamento da consciência lúcida é provisória,  e toda dor que educa o Espírito é libertadora.

    Nosso artigo é uma reflexão sobre a maturidade doutrinária, a fim de evitarmos os espetáculos da cura e investirmos mais nos instrumentos pedagógicos para a necessária transformação moral.

     

    Referências bibliográficas:

    1.    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVII, item 4.

    2.    XAVIER, Francisco Cândido; Espíritos diversos. Vozes do Grande Além. Rio de Janeiro: FEB

    3.    XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, cap. 1–3.

    4.    XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, cap. 4.

    5.    XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, questão 100.

    6.    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, leis morais.